Cartas da memória das Índias – final

Com o devido pedido de desculpas a quem me lê (imagino que sejam pouquíssimas pessoas…), segue a terceira e última parte do poema de Al Berto. Não à toa, a mais longa e para o meu gosto, a mais instigante e igualmente bonita.


CARTA DA FLOR DO SOL 
(a meu amigo) 

Há ainda outra árvore de natureza mui singular, chamada irudemaus, que em sua língua significa flor do sol, porque as suas flores não abrem nem aparecem nunca senão ao nascer do sol, e caem quando ele se pões; o que é o contrário da árvore triste. É a mais excelente flor, lança melhor cheiro que todas as outras; e da qual fazem ordinariamente uso o rei e as rainhas. 

Viagem de Francisco Pyrard de Laval: TRADUÇÃO E DESCRIÇÃO DOS ANIMAIS, ÁRVORES E FRUTOS DAS ÍNDIAS ORIENTAIS

vou partir 
como se fosses tu que me abandonasses

o último sonho que tive era estranho 
via o fundo límpido de uma rua estreita 
que desembocava num largo iluminado 
havia leões empalhados nos passeios em areia solta 
já não me lembro bem 
parece que uma mulher avançava com um envelope na mão 
estendia mo e gritava
mas eu não conseguia perceber 
insultava me muito provavelmente
tinha a cara escondida por um pano branco bordado 
apenas via a sua enorme boca abrir se
e furiosamente engolir a púrpura do ar 
que envolvia as cabeças reclinadas dos leões 
ouvia o buzinar nervoso dos carros 
exactamente como se ouvem agora 
mas não conseguia vê los
depois 
um rapaz pareceu a uma esquina e reconhecia te
uma voz gravada na memória acompanhava nos
quando nos dirigimos um para o outro 
em câmara lenta 
ouvíamo la sussurrar:
procuro te
no interior das penumbras no esquecido sal 
das casas abandonadas à beira mar
procuro te no perfume excessivo do mel
armazenado pelas abelhas no entardecer das pálpebras 
vem 
mergulha as mãos nos troncos das árvores 
suspende a noite da longa viagem 
estás a naufragar 
o espelho quebrou se e tu já não reconheces as paisagens
o corpo estilhaçou se


tua presença só é visível nas fotografias dos barcos 
as quilhas são a tua memória longínqua das Índias 
vai 
com os pássaros de bicos exuberantes e sonha 
e estende o corpo cansado nos intervalos da erva fresca 
onde alguém costurou pedras brancas na orla das grandes rotas 
a cidade espera te com o cais de madeira
junto ao rio abre as mãos toca nos corpos com os lábios 
agarra os dentro de ti
até que da terra lodosa brotem especiarias 
porque só longe daqui acharás o que falta da tua identidade 
só longe daqui conhecerás o sangue e talvez a felicidade 
inundando um breve instante a noite de nossos desastres 
só longe daqui 
terás a consciência da quotidiana morte de Deus 

repentinamente a voz cessou de se ouvir 
eu tinha na palma da mão uma quantidade de comprimidos mortais 
depois a voz fez se ouvir a espaços irregulares:

pobres unhas 
pelas amarras húmidas dos lençóis rotos 
barcos 
velas sem sol papel pintado deslocando se das paredes
silêncio espesso sarro da noite 
uma viatura boceja no asfalto 
o corpo treme cintila 
resíduos de cidade ruínas da pele buenas noches 
buenas noches mi amor 
lençóis floridos ranho cabeças de cafres 
pingue pingue de torneira avariada esferas de flipper
noches buenas noches 
barcos despedaçados bolor da memória 
da memória da memória da memória 

tinhas a cara mascarada com sangue quando a voz silenciou 
a mulher ria 
eu corria para ti sem conseguir alcançar te
sentei me na cama
veio me do fundo da idade o momento em que nos conhecemos
resolvi levantar me a meio da noite e escrever te esta carta


lembro me que tínhamos fome havia três dias
encostado ao mármore da mesa de cabeceira dormia a fotografia
e o maço de português suave filtro 
a escuridão não era só exterior 
conhecíamo-nos pelo tacto e pelo olfacto
tornámo-nos murmurantes
e tu refulges ainda no escuro dos quartos que conhecemos 
cruzámos olhares cúmplices 
falámos muito não me recordo de quê 
e no calor dos corpos crescia o desejo 
caminhámos pela cidade 
eu metia a mão nas algibeiras 
onde tacteava tudo o que guardara e possuía 
um lenço uma caixa de fósforos um bloco de notas 
sentia me feliz por quase nada possuir
a imagem azulada de tuas mãos flutuava diante de mim 
gesticulavas para me dizer que estávamos vivos 
e apaixonados 

escrevo te
pelo corpo sinto um arrepio uma vertigem 
que me enche o coração de ausência pavor e saudade 
teu rosto é semelhante à noite 
a espantosa noite de teu rosto! 
corri para o telefone mas não me lembrava do teu número 
queria apenas ouvir tua voz 
contar te o sonho que tive ontem e me aterrorizou
queria dizer te porque parto
por que amo 
ouvir te perguntar

quem fala? 


e faltar me a coragem para responder e desligar
depois caminhei como uma fera enfurecida pela casa 
a noite tornou se patética sem ti
não tinha sentido pensar em ti e não sair a correr para a rua 
procurar te imediatamente
correr a cidade duma ponta a outra 
só para te dizer boa noite ou talvez tocar te
e morrer 
como quando me tocaste a testa e eu não pude reconhecer te


apesar de tudo senti a mão sabia que era a tua mão 
mas não podia reconhecer te
sim 
correr a cidade procurar te mesmo que me afastasses
mesmo que nem me olhasses 
mesmo que dissesses coisas que me 
mesmo que 
e ter a certeza de que serias tu depois a procurar me

correr a cidade com o corpo sedento 
noite esgravatando a pele 
bebendo nas veias as poucas forças que me restam 
uma lâmina pelos sonâmbulos asfaltos 
onde morrem ambíguos nomes de corpos sem sexo 
o veneno agindo dos pés à cabeça 
as mãos encharcadas de chuva tacteando um sexo qualquer 
o sangue a chuva a memória desses dias tão difíceis 
a noite a lambuzar com violência os rostos magoados 
visões de sonhos ainda não sonhados 
dilaceradas imagens de bocas coroadas por flores de aço afiado 
ouço outra vez uma voz e agora não estou a sonhar 
mas a escrever te
e ouço a em mim como se estivesse gravada
e a fita do gravador desgasta pelo uso: 

a tua vida 
será feita de embarcações e de solidão 
beberás a secura dos cabos distantes 
conhecerás ilhas de saliva profunda 
olhar te ás nas fotografias
que as unhas aceradas do tempo arranharam 
e para lá dessas imagens envelhecidas tudo sangra e dói 
a tua infância a tua adolescência e o medo 
de não conseguires sobreviver ao estrume deste país 

avançarás pelo mar dentro 
ferido por outros naufrágios imperceptíveis 
descansarás 
nas areias aveludadas da foz dalgum rio sagrado 
e quando o mar se retirar 
o sol a lua virão tatuar sobre o ombro 
a silhueta viva dum bicho estelar 
e a memória 
essa parte calcinada da vida começará a doer e a latejar 

navegarás pela cidade que adere aos dedos 
como sarna mais antiga navegarás 
com o escorbuto no coração transportarás o silêncio 
e a escrita na fragilidade dos pulsos acorda 
onde cintila a faca acorda 
acorda o mar 
está próximo o mar acorda 
o mar acorda o mar acorda o mar 
o mar 

na gaveta onde o bolor cobriu a roupa guardo as fotografias 
reparo como amareleceram suavemente os rostos 
as mãos que seguram ramos de flores os cabelos os olhos 
exala se deles uma leve doçura cor de sépia
foram perdendo a definição esfumaram se os contornos
numa das fotografias tens vestida a camisa de riscas azuis 
noutras sorris olhas me nos olhos
mas aquele sorriso não é o que ainda ontem te vi esboçar 
o sorriso que tens na fotografia morreu 
e no entanto está ali e fico perturbado quando o vejo 
eu sei que nada está vivo na fotografia ou se repetirá 
aqueles sorrisos aqueles instantes para sempre perdidos 
a camisa às riscas votada à degradação lenta do papel 
acabei por destruir as fotografias queimei as
para que ninguém possa supor através delas 
histórias a nosso respeito 
e também para que minha mulher as não encontre 

a única coisa que levo comigo é a cápsula de laranjada 
atada a um cordão em couro deste ma tu um domingo
quando ainda passávamos perto do rio 
íamos ver o sol morrer nas águas 
caminhávamos sem destino pela cidade 
o crepúsculo atingia nos com misteriosos desejos
seria inútil falar das razões da minha viagem 
no fundo nada a justifica 
embora a minha vida ultimamente seja um barco sem rumo 
de vaga em vaga de ressaca em ressaca 
fui arrastando o meu próprio naufrágio 
mas ser me ia difícil falar te destas catástrofes
prefiro calar me para sempre ou enlouquecer
ou avivar a memória de certas visões aciduladas 
enquanto te escrevo esta última carta 
é também a última vez que penso em ti 
sempre habitei este país de água por engano 
estas planícies asfaltadas pelo tédio estes prédios de urina 
estas paredes vomitadas 
onde as diáfanas aves da solidão embatem e definham 
deixam cair dos bicos fios de sangue e de cuspo que te evocam 
vou migrando de corpo para corpo 
sem nunca conseguir definir o voo complexo do meu 
escrevo te ainda lúcido
no entanto ignoro se chegarei vivo ao fim da noite 
quem poderá afirmar que daqui a instantes 
não atravessarei os espelhos impossíveis da noite? 
ferindo o corpo rasgando borboletas de luz 
no écran da cidade amanhecendo em mim 
esqueço como me chamo 
e tenho a certeza de que nunca mais nos veremos 
mesmo no caso de eu permanecer aqui 
neste país de água por engano 
descobri que a morte calça o mesmo número de sapatos que eu 

sabes 
por vezes queria beijar te
sei que consentirias 
mas se nos tivéssemos dado um ao outro ter nos íamos separado
porque os beijos apagam o desejo quando consentidos 
foi melhor sabermos quanto nos queríamos 
sem ousarmos sequer tocar nossos corpos 
hoje tenho pena 
parto com essa ferida 
tenho pena de não ter percorrido teu corpo 
como percorro os mapas com os dedos teria viajado em ti 
do pescoço às mão da boca ao sexo 
tenho pena de nunca ter murmurado teu nome no escuro 
acordado 
perto de ti as noites teriam sido de ouro 
e as mãos teriam guardado o sabor de teu corpo 


ah meu amigo 
estou definitivamente só 


estou preparado para o grande isolamento da noite 
para o eterno anonimato da morte 
mas perdi o medo 
a loucura assola me
preparo a última viagem às Índias imaginadas 
disseram me que só ali se pode descansar da vida
e da morte 
perscruto a razão profunda desta viagem 
ou talvez seja já a torna viagem o que vislumbro
e não valha a pena partir porque já estou de volta 
sem o saber 
hesito em deixar te escrito mais do que um simples adeus
de qualquer maneira por muito longe que me encontre 
se pousares a tua mão sobre a minha testa senti lo ei
esse gesto aliviar me á de todas as dores
a manhã aproxima se cortante
ouço barcos largarem do cais 
preparo a lâmina 
estendo velas em agonia uma lâmina de vidro 
para fender as águas imperturbáveis do dia sem bússola 
destruo cartas papéis manuscritos outros sinais 
destruo imagens que me chamam e me querem reter aqui 
releio estas poucas palavras para ti: 

child of the moon 
debaixo das cerejeiras uma serpente antiga adormeceu 
em tuas mãos de pétalas lunares 
movem se astros em cima da alba da pele
olharemos os insectos perfurarem a treva da noite 
e tecerem claridades 


mas já não tínhamos mais noite a desvendar 
lembro me
a cidade está cada vez mais rente à nossa separação 
caminhamos em direcções opostas 
ou melhor 
eu caminho enquanto tu não existes 
a noite aproxima se com seus territórios de sombra e fábula
areias penumbras oscilantes apagando resíduos de corpos 
teu corpo minúsculo arrefece dentro de mim 
quando as feras despertam nos olhos abandono me
à lama colorida dos terrenos vagos 
dói me a voz ao chegar aos lábios
os dedos penetram o metal cintilam 
conchas abertas ao sonho 
onde terei abandonado a nossa paixão? 

um cristal flutua no enxofre de remotas cidades 
compridos cabelos de jade espalham se sobre o rosto
indecifráveis vegetações 
o sonho torna se exótico quando abres os braços
surgem nas pálpebras caudalosos rios 
neles pouso a cabeça deixo a flutuar
uma mulher anda aos ziguezagues pelos corredores da casa 
vejo peças de vestuário espalhadas pelo chão 
a mulher grita 
corre à roda do quarto insulta os electrodomésticos 
abre o frigorífico 
atira com os legumes congelados ao chão espezinha os
esborracha os contra a parede chora
ri pega numa camisa de riscas e rasga a em mil tiras
recomeça a correr 
entra na casa de banho e abre todas as torneiras 
abre as janelas e ri 
e lambe as vidraças sujas 
derrama açúcar dentro do telefone 
e por cima das petúnias de plástico fluorescente urina 
mas tudo isto se passou há muito tempo noutro lugar 
noutro corpo 

viro me para o sul de nossos corpos e descubro uma ilha
percorro demoradas estradas de tabaco e o ouro envelhecido 
dos caminhos alquímicos desvendo 
os sinuosos mistérios da seda e da pimenta as grandes rotas 
do vento bebo o amargor da vida errante 
onde uma mulher dorme sossegada sobre a cama desfeita 


o telefone toca obsessivamente toca 
um corpo translúcido surge do papel em que te escrevo 
revela se me a água dos gritos repetidos
um foco de luz incide me sobre a boca fechada
procuro me na silenciosa cinza de tua memória
pela casa atravessada de ecos de fogos postos respiro 
dificilmente ouço zumbidos de flipper 
o quarto povoa se de rostos alados mecânicos olhares
pequenas garras de ar 
desfazem se em finos cordéis de terra
a mulher avança sob o peso da tempestade 
aqui esta sempre a chover 
o frasco de barbitúricos conta me o falhado suicídio
a mulher tem o teu rosto ou o meu já não sei 
a luz percorre te o corpo nu
é noite há muito tempo 
fixo um ponto invisível da parede estou sentado na cama 
escrevo te
e tenho a certeza de que ninguém será capaz 
de roubar a minha morte 
porque eu moro neste país líquido por engano 
e tenho dificuldade em imaginar o sono fora de meu corpo 
se quiseres vem dormir perto de mim vem 
sonharemos um país fabuloso junto ao coração das árvores 
vem 
antes que trema o corpo no frio sem deuses e na loucura 

quase amanhece 
lá fora as avenidas mantêm se vazias
subúrbios sonolentos no refrão dum brutal rock’nd roll 
vicious you are so vicious 
baunilha azul nos lábios orgasmo de baunilha 
tarzan de pastelaria um cigarro de chocolate come 
chocolates come sentado no cimo do ice cream toute la nuit 
fuck fuck 
fuck em diferido 
os eléctricos já passaram e as mãos já não são as minhas 
têm sede 
sede de nudez 
mas vou partir deixar te aí
como se fosses tu que me abandonasses 
viajar antes da alba partir 
para longe deste inúteis dias 
eu 
pobre de mim 
navegador da noite próxima da morte 
vou acendendo no sangue os sonhos dum povo que não sonha 
eu 
arquipélago de cinzas oceano do nada 
vou de veias inchadas e penso que talvez não valha a pena 
mas vou 


preciso encontrar o lugar certo para o nosso amor 
queres vir comigo? 
já avisto da gávea inquietantes iluminuras de rostos de afogados 
mãos antigas como rochedos peixes fantásticos 
bocas aflitas e tua boca mordendo 
o cordame avariado pelo sal 
ah meu amigo 
eis o sofrimento de meus lábios gretados pelo sarro oceânico 
eis minhas unhas doentes protegendo o sexo aberto 
às monções aos ventos adversos às vagas rumorosas 

vou abandonar te no lado claro da noite
onde o tempo é um fio de luz rasgando a espessura do corpo 
vou partir 
com estas manchas de frutos sorvados no coração 
para sempre vagamundo 
no corredor de espelhos sem tempo deixo te o sonho
onde já não arde nenhum rosto nenhum nome 
nenhuma voz de silente treva 
nenhum paixão 

abandono te para além da linha nítida da manhã
onde dizem que tudo existe se transforma e continua vivo 
longe 
muito longe desta inocente memória das Índias

Anúncios

Do possível desejo de entender…

O texto de hoje é parte da conferência que fiz no lugar em que trabalho. Faz parte do livro que vai ser lançado em breve – ele está pronto, em Coimbra, aguardando a conclusão de pequenas tramitações burocrático-jurídicas. Ao fim da leitura, de intervenções minhas à leitura e de outros comentários, alguém levanta o braço e pergunta que contribuição eu suponho ser possível com a investigação a que procedi e que resultou no livro de onde tiro o trecho aqui apresentado. Eu respondi, à altura do “tom” – um tanto “peculiar”, para ser educado – da pergunta. Reservo-me o direito de não repetir aqui a resposta. Quem chegar ao fim deste texto poderá fazê-lo a seu bel prazer…

download (1)

Para a proposta de leitura que aqui apresento, não transcrevo a carta que me interessa na íntegra, porque longa. No entanto, para que a análise não fique desarticulada e pareça solta ou, mesmo, sem sentido, transcrevo a passagem em que se encontram os elementos suficientes para sustentação de minha leitura, apesar de também não ser assim tão curta:

“Uma nota curiosa desta manhã: um casal de passarinhos do tamanho de cotovias tem vindo a acompanhar o vapor, em pleno alto-mar, tão longe de terra; a esta hora não sei o que será deles, ou vão pisados no paquete, ou tombaram esfalfados sobre a água. Pobres Almas de Alice e Alberto! Sabes o que esta manhã vi, também, curiosíssimo? Uma baleia, mas distante infelizmente, notando-se apenas a água que o monstro espirrava para o Ar. Não me borrifou, entretanto. Também te quero dizer que o Britannia nasceu em 1873, tendo pois a tua idade: sois, talvez, gêmeos, mas não sois com certeza patrícios, por que o teu corpo de Purinho, desengonçado e cor de leite, foi batizado na concha de pedra da Igreja de Santo Ildefonso, o desse monstro do Britannia, sólido e negro, tem o seu nascimento arquivado, nalguma babilónica oficina de Liverpool. Contudo, há esta coincidência mas eu não consinto que a tua pilinha- morango, toque nem de leve o vergalho deste paquete. Alberto, são 2 1/2 da tarde: vou à tolda saber notícias da nossa marcha e, pela noite, depois do jantar, virei concluir esta folha. Até logo. (CASTILHO, 1982, p. 116)”

Uma pena não ter sido encontrada a carta que possivelmente Alberto de Oliveira teria escrito a António Nobre depois desta, ou mesmo, antes. Caso assim o fosse, poder-se-ia averiguar até que ponto a correspondência entre os afetos que enlaçavam os dois poetas verifica­-se na “correspondência” que mantiveram durante tanto tempo. Sobretudo no que diz respeito às comparações que Nobre faz. A reação de Alberto seria por demais esclarecedora, mas vai ficar sepultada na campa das inferências.

De qualquer maneira, vale a sua abordagem, nos termos em que aqui se coloca. A carta em que se encontra este trecho foi escrita em 24 de outubro de 1890, e foi enviada por António Nobre do navio Britannia, quando a caminho de Paris. Vale lembrar que o estado de espírito do poeta não era dos melhores. Por um lado, havia sido reprovado por duas vezes seguidas nos exames em Coimbra, não podendo conseguir aí o diploma de Bacharel em leis. Por outro, a separação do “amigo mais querido” que ficou em terras portuguesas, o que criou o horizonte de expectativas das cartas que trocaram. O poeta faz, neste passo da carta, uma comparação entre o navio em que viaja e o corpo de Alberto de Oliveira. Uma comparação não apenas “saborosa”, mas reveladora.

O adjetivo destacado, remete-me a Barthes em seu livro O prazer do texto. Como espaço de exposição da intimidade – ainda que este não seja, conscientemente, o objetivo de quem escreve – uma carta é sempre circunscrição de um perímetro desenhado pelo desejo, seja ele de que natureza for. De um modo ou de outro, a carta enseja uma experiência que tem “sabor”, porque revela/constrói um “saber”, simultaneamente, sobre quem escreve e sobre quem lê. Ambos degustam este processo e seu resultado, seus efeitos. Neste jogo de sedução mútua, via de mão dupla sustentada pelo texto, há o que Barthes chama de jouissance. Cito abaixo o trecho dele que interessa:

(Prazer/Fruição: terminologicamente isto ainda vacila, tropeço, confundo-me. De toda maneira, haverá sempre uma margem de indecisão; a distinção não será origem de classificações seguras, o paradigma rangerá, o sentido será precário, revogável, reversível, o discurso será incompleto.)

“Se leio com prazer esta frase, esta história ou esta palavra, é porque foram escritas no prazer (este prazer não está em contradição com as queixas do escritor). Mas e o contrário? Escrever no prazer me assegura a mim, escritor o prazer de meu leitor? De modo algum. Esse leitor, é mister que eu o procure (que eu o drague), sem saber onde ele está. Um espaço de fruição fica então criado. Não é a pessoa do outro que me é necessária, é o espaço: a possibilidade de uma dialética do desejo, de uma imprevisão do desfrute: que os dados não estejam lançados, que haja um jogo. (BARTHES, 1973, p. 7-8)”

A passagem de O prazer do texto encerra o sentido que pretendo perceber e sustentar, na leitura da passagem da carta de António Nobre, referida acima. Nela, a decisão do tradutor de usar “fruição” no lugar de “gozo” faz com que eu, de certa forma, pense na experiência pela qual passou António Nobre enquanto escrevia esta carta. Percebe-se, claramente, a meu ver, o seu “prazer” ao falar do “amigo mais querido”. Por outro lado, fica estabelecido um elo de significação entre os elementos utilizados pelo poeta na construção de sua comparação, sobretudo o morango, como há de se ver mais abaixo. De qualquer modo, as ideias de Barthes neste trecho sustentam a minha ideia de que a leitura das cartas a posteriori cria o espaço a que o autor francês se refere. O espaço da fruição/gozo que a leitura proporciona e que pode ser intensificado pelas associações livres que a partir do texto se constroem. Estas influenciam diretamente na mesma experiência de fruição/gozo da leitura, em continuum.

A passagem da carta aqui considerada está, de fato, diretamente ligada aos indícios da existência das cartas de Alberto de Oliveira, em resposta às que recebeu de António Nobre. Mais um deles… Para além disso, muito além aliás, está uma série de três pares comparativos feitas pelo poeta “da torre”, envolvendo seu amigo e o navio em que viajava. Deste trecho, já destaco a seguinte passagem:

“… sois, talvez, gêmeos, mas não sois com certeza patrícios, por que o teu corpo de Purinho, desengonçado e cor de leite, foi batizado na concha de pedra da Igreja de Santo Ildefonso, o desse monstro do Britannia, sólido e negro, tem o seu nascimento arquivado, nalguma babilónica oficina de Liverpool. Contudo, há esta coincidência mas eu não consinto que a tua pilinha- morango, toque nem de leve o vergalho deste paquete. ”(NOBRE apud CASTILHO, 1982, p. 116)”

O primeiro par, menos “saboroso”, aponta para a coincidência entre o ano de nascimento de Alberto de Oliveira e o de inauguração do Britannia, 1873. São “gêmeos”, como diz Nobre, apesar de nacionalidades diferentes. Dada a particular oscilação de António Nobre em relação a seus sentimentos quando se trata dos ingleses, de cara, evidencia-se a preferência pela própria identidade cultural, o que vai ficar cada vez mais evidente nos pares comparativos seguintes.

De mais a mais, considere-se o que Guilherme de Castilho diz na “Introdução” ao volume que encerra a correspondência do poeta. Este “detalhe” aprofunda a hipótese defendida pelo editor da correspondência quando afirma que a leitura das cartas não prescinde da leitura do Só, e vice-versa. Isto posto, a abordagem dos pares comparativos, como é feita aqui, segue o rastro do que propõe o editor das cartas. Por tabela, a fortuna crítica do poeta se enriquece e a contextualização, simultânea, de sua vida e de sua obra recebem o mesmo influxo de compreensão e alargamento crítico. Ao fim e ao cabo, o caráter homoafetivo da relação entre os dois poetas fica, ainda uma vez, confirmado e um tanto mais explícito.

Na primeira assertiva do segundo par comparativo, António Nobre opõe “o corpo de Purinho, desengonçado e cor de leite” a “monstro do Britannia, sólido e negro”. Os adjetivos em contraposição explícita revelam dobras semânticas insuspeitadas, quando observados/lidos sob o enfoque da lente do homoerotismo: “desengonçado” opõe-se a “sólido”, deixando entrever a delicadeza do afeto que aproxima e une os dois poetas, não sem confirmar a intimidade física entre eles. O sentido dicionarizado de “desengonçado”, aqui, é abandonado para ceder espaço a uma acepção envolvida por afeto, carinho, que ressalta, ainda uma vez, a delicadeza da relação entre os dois poetas.

Na sequência, “cor de leite” opõe-se a “negro”. O cromatismo, em primeira instância apela para a dicotomia totalidade/nulidade se se considerar o pressuposto da Física, que apresenta o branco como a presença de todas as cores e o negro como a sua ausência. Daí para o simbolismo de dicotomias que as duas cores ensejam e sustentam é um pulo: a pureza e a sujidade, a inocência e o vício, o dia e a noite, o permitido e o condenado.

Num breve excurso a esta argumentação, cabe destacar a brancura referida pelo poeta sem sua comparação. Isto porque, em outras alturas da correspondência, há referência ao leite como líquido de celebração da amizade afetuosa partilhada por António Nobre e Alberto de Oliveira: torna-se quase um ícone. Ora, se o caráter simbólico for aqui (também) viável, seria aceitável associar a substância do leite como elo que traz à tona o sêmen, muitas vezes identificado terminologicamente à mesma substância. Esta inferência coloca-se a anos luz de distância de qualquer insinuação de sodomia/pederastia, como variante (ainda que possível) do pacto homossocial estabelecido, mesmo que inconscientemente. No diapasão desta nota, a Psicanálise dá o tom, fazendo com que a plausibilidade da associação seja respaldada pelo axioma lacaniano que toma a linguagem como modo de operação do inconsciente.

A “insinuação” a que me refiro acima não tem aqui o papel de determinar o direcionamento dos sentidos que circunscrevo aos pares opositivos que examino. Estou longe, muito longe, de querer afirmar que as práticas de sodomia e/ou pederastia foram um dos aspectos da relação entre António Nobre e Alberto de Oliveira – que seria passível de punição, como bem lembra Ana Paula Arnaut num seu artigo. Na verdade, a sustentar a hipótese que venho desenvolvendo, cabe muito mais argumentar a favor da supremacia do desejo. Assim, os pares comparativos funcionariam como uma espécie de jogo. Este, por sua vez, teria alguma semelhança ao que é pensado por Freud a este respeito.

Seguindo em frente, a segunda assertiva da mesma comparação aponta para outra dicotomia: sagrado/profano. A “concha de pedra de Santo Ildefonso” é o par opositivo de “nalguma babilónica oficina de Liverpool”. Ressalte-se que a referência utilizada por Nobre – Alberto/Igreja de Santo Ildefonso e Britannia/Liverpool – também pode levar a outro nível de comparação, que é o das circunstâncias e da conjuntura da Europa à época. Por metonímia, é plausível pensar na comparação entre o desenvolvimento da Inglaterra e certo atraso industrial português.

Ora, a “concha de pedra” opõe-se à “babilónica oficina”. A primeira recebe, aconchega, acolhe; a segunda produz, apresenta, lança. O adjetivo “babilónica” é o significante que dispara o discurso comparativo de oposição entre o sagrado e o profano. De mais a mais, a mesma oposição serve para reforçar o caráter afirmativo da valorização do relacionamento entre os dois poetas, conforme atestado nesta correspondência. Uma vez mais, por vias transversas, o pacto homossocial é celebrado.

Ao final, o terceiro par comparativo, o mais “saboroso”, eu diria. Admitindo, uma vez mais, a coincidência, António Nobre nega consentimento à identificação completa entre o navio e o seu amigo: a “pilinha-morango” é oposta ao “vergalho”. Pila, em Portugal, é usado para identificar o pênis, sobretudo coloquialmente. No Brasil, mais especificamente no Rio Grande do sul, significa, também, dinheiro. O primeiro significado coloquial se aplica a “vergalho”. O diminutivo do primeiro, que pode ser referência à dimensão do órgão masculino, aprofunda o sentimento carinhoso e delicado devotado pelo autor da carta a seu amigo.

A força fonética do segundo termo confirma a ideia representada pelo navio, nas comparações feitas por António Nobre. O “sabor” da comparação – e aqui o sentido do substantivo se sustenta no pensamento barthesiano – não deixa de ser sugestivo, no uso de “morango”, funcionando como índice identificador, uma espécie de predicativo do sujeito. Por um lado, a delicadeza da fruta que se revela no adocicado e no líquido associados ao paladar e, por outro, a cor que identifica, indiretamente, a “adolescência” de Alberto de Oliveira. Estes detalhes ratificam, uma vez mais e definitivamente, a delicadeza percebida, devotada e celebrada na/pela relação entre os dois poetas.

Na sequência de comparações feitas por António Nobre, se Freud não estava errado, percebem-se indícios do que este chama de compulsão à repetição. O poeta sempre volta ao navio como elemento comparativo em relação ao corpo de Alberto de Oliveira. Este aparece, na repetição, como elemento de desejo do sujeito nostálgico que é António Nobre a bordo do navio, a caminho de Paris, sozinho. Ao mesmo tempo em que constrói as comparações, forçosamente, Nobre recorda a sua experiência afetiva com Alberto. Isso funciona como combustível para o processo desenvolvido ao longo da carta.

images

Cravos

amigos

Ana Cristina e Vítor. Ana Paula e Francisquinho. Dr. Arnaut e Dona Ermelinda. Tonecas e Çãozinha e Manoelito. Paulita e Manuel. Natália, seu marido (que ainda não conheço pessoalmente) e Ricardo. António Lara e Segismundo Pinto. Ana Aurora e José Colaço. Dom Miguel. Graça e Armando. Ana Paula. José Filipe.  Dona Laurinda, da FLUC. Davi e Maria José. Seu Aristides (barbeiro). Celeste e Tó.  Fernando Arede. Dra. Susete. Albano e Paulo e Cristina Melo. Faxineira da FLUC. O pessoal da biblioteca da FLUC. Guilherme Bilbao. O Vasco do Hotel Embaixador.  Senhor Cardoso (taxista). Mário Cláudio.

cravos

Portugueses com quem tive o prazer de conviver, ainda que por pouco tempo. Portugueses com quem o orgulho e a gratidão de manter laços de frateria e carinho. Portugueses que fazem patê de uma comunidade que admiro e prezo. Portugueses.!

portugal

Esta, a minha homenagem, simples e humilde, por mais uma comemoração do 25 de Abril!

cravos2

Gêmeos

images

Terminou ontem a série “Dois irmãos”, construída “a partir” de obra homônima de Milton Hatoum. Faz um tempo que li o livro, mas ficou na memória que eu tendia a acreditar que o pai de Nael, o principal narrador do romance, é Yakub. Na televisão, o diretor resolveu deixar no ar a possibilidade – aparentemente mais concreta, por força das imagens televisivas – que o pai seria Omar. Nada de maniqueísmos. Apesar do contraste abissal e da impossibilidade de identificar qualquer similaridade plausível enre os dois irmãos – personagens-chave do romance – não há a menor possibilidade de aproximar o drama romanesco ao episódio bíblico de Caim e Abel, ainda que, ao final, os gêmeos façam referência explícita a uma possível “cena bíblica”. Bem… esta é a minha opinião, outro(s) leitor(es) pode(m) dizer exatamente o oposto. Adiante. A produção foi requintada, ainda que a minha chatice não se convença a abandonar a ideia de que houve certos exageros decorativos e comportamentais. Isso não tira o mérito e a impecabilidade de certas atuações: Eliane Giardini, na cena da morte de Halim, por exemplo… Já o exagerado conjunto de esgares e a babação de Cauã Reymond, pra mim que sou um chato, foi um tanto over. O ator que fez Nael adulto e, mesmo, o menino que fez a mesma personagem quando criança, merecem mais que os parabéns. Antônio Fagundes, bem, este é hors concour. O rapaz que faz os gêmeos quando adolescentes, em alguns momentos, não conseguiu diferenciar Yakub de Omar. No entanto, como “revelação”, merece cumprimentos protocolares. Ai como eu sou chato… Ao fim e ao cabo, fica a impressão de que a série não alcançou o nível de tensão narrativa que o romance alcança. Claro, como se trata de ficção “a partir de”, a circunscrição da série à trama romanesca fica fora de questão. Para não fugir do lugar comum, o livro, pra mim, em termos de narrativa, é infinitamente superior. Tal axioma não é regra irrecorrível… O romance conta a história de uma família de imigrantes libaneses na Amazônia, na primeira metade do século XX. A trama gira em torno das “memórias” de Nael, filho de Domingas a empregada da casa. Nada se diz sobre o pai desta criança. Talvez seja possível especular sobre traços autobiográficos a compor o narrador, dado que faz reiteradas afirmações sobre o ato de escrever, como algo que constrói a memória que o tempo destrói por influências diversas, enclisive de pecados “a cometer”. Halim, o pai dos gêmeos funciona, em certas passagens como segundo narrador, a trazer para Nael suas recordações de quando da chegada a Manaus e de seu estabelecimehto como comerciante. A perspectiva é sempre de Nael e o drama dos gêmeso transcorre sem que o narrador tome partido o que faz da narrativa um sucessão de sutilezas que só a Literatura consegie consolidar. Não há tecnologia televisiva igual ou suficientemente competente para isso. É “natural” na/da Literatura. Numa leitra subliminar, cdesenvolve-se exteso discurso acerca da amizade que une Nael e Halim. Talvez seja o motivo inconsciente para eu escrever hoje, aqui. Tenho pensado nos meus amigos. Naqueles que já se foram. Naqueles que eu não procuro. Naqueles que sentem falta de mim. Para todos eles, o meu afeto sempre, sincero e constante. Não digo eterno, porque eu não sou eterno. Os meus amigos me conhecem e sabem que, por vezes, fico alheio a quase tudo, menos a eles. Fica sempre o silêncio eloquente do afeto…

images-2

Outra carta

Agora, a carta resposta de Aberto de Oliveira. Sem a leitura da totalidade das cartas de António Nobre, fica um tanto difícil perceber, de fato, a diferença de tom a que me referi ontem. Mas vale a intenção…

alberto-de-oliveira-portugal

António Nobre

                                                                                              Matosinhos

                                                                                              [?] Julho 1893

 À sua carta devo responder que a correspondência uma vez expedida pertence ao seu destinatário e não a quem a escreveu.

A sua amizade morreu, é certo; mas eu desejo trata-la como os grandes cadáveres e conservar dela todas as relíquias e lembranças que me foram caras. Quero dizer com isto que me julgo com direito a ser seu amigo até quando eu quiser, embora haja resolvido nunca mais na minha vida atas as minhas relações consigo (e como bem sabe, as minhas resoluções neste assunto nunca seguiram pelas suas).

Guardo o seu diário pelo mesmo motivo por que conservo o seu retrato nas minhas paredes, e conservarei sempre certa dedicatória no meu livro. Se tem empenho em suicidar-se na parte de sua vida em que me conheceu, eu por mim tenho o empenho contrário. Não é que tencione tão cedo ler as suas cartas antigas; mas a vida tem fases muito diversas e pode vir ainda a trazer-me doces impressões uma leitura que hoje só me entristeceria.

Do meu Diário faça o que o seu sentimento lhe mandar. Não posso, pelas razões que acabo de expor, aceder ao seu pedido. Acerca dos restantes pontos da sua carta, pode estar certo de que não serão esquecidas as suas recomendações. Aproveito a ocasião para lhe fazer chegar às mãos um livro que o Manuel Gaio lhe envia por meu intermédio.

                                                                                                                       Alberto

download

Cartas

António e Alberto se conheceram em Coimbra, no finalzinho do século 19. Eram ambos nascidos no Porto, mas foram se conhecer na cidade sede da universidade mais antiga de Portugal. Mero acaso (?). Estudaram Direito. Alberto acabou por se formar em Coimbra António, foi duas vezes reprovado e, desgostoso, mudou-se para Paris onde veio a concluir seu curso. Neste período de separação, com direito a um encontro ou dois na cidade luz, António e Alberto trocaram cartas e bilhetes postais. Estes últimos constituíram o que chamaram de “Diário”. Para além de impressões e poemas e notícias, partilharam afetos postais com intensidade O mesmo se pode dizer das cartas que escreveram um o outro. Bem… Cabe uma explicação. Alberto escreveu, sim, para António. No entanto de suas cartas, restam quatro. Três que tratam de assuntos diversos e não foram endereçadas exatamente a António. E uma, a “joia do Nilo” – no contexto da correspondência, bem entendido – que faz par a outra, escrita por António e a que chamei de as cartas do rompimento. Não fui original, tenho certeza, já não alimento esse tipo de vaidade… Voltando à vaca fria…  A carta que António escreve a Alberto cobrando deste a devolução de seus papeis tem tom radicalmente oposto às demais endereçadas a seu “amigo mais querido”, o “Betinho”. Já a de Alberto para António, parece manter o senso de afeto e amizade profunda que uniu esses dois homens numa relação que até hoje causa estranheza… inexplicavelmente. Alberto, antes e morrer, pediu que seus papeis fossem queimados. Até prova em contrário – passei seis meses tentando encontrar uma pista que fosse para satisfação de minha ilusão de encontrar algumas dessas cartas perdidas num recanto qualquer da península – foram mesmo queimadas, mas restou a “do rompimento”. Um único cartão postal também escapou do “incêndio” e foi analisado por Mário Cláudio num ensaio publicado pela Revista Colóquio Letras, da Fundação Calouste Gulbenkian. Uma joia rara! Pois bem. Hoje trago aqui a carta de António. Amanhã, se minha preguiça deixar, trago a de Alberto. Depois de amanhã, seguindo a mesma toada, talvez teça mais alguns comentários.

autorid21205

Terça-feira                                                                 26— Rua de Carreiros

25-8-1893                                                                   S. João da Foz

Meu caro Sr. Alberto de Oliveira:

Quando eu, há dias, lhe enviei polidamente uma se­rena carta, convidando-o a restituir-me o meu «Diário», cri fazê-lo ao grande amigo do meu passado, não ao delegado da 2.a vara. Este senhor, porém, foi quem me respondeu e de código na mão: «a correspondência, uma vez expedida, pertence ao destinatário.» Ora eu já sabia deste pormenor legislativo. Há, contudo, nos usos sociais certas fórmulas de cortesia que em algumas circuns­tâncias se aplicam, tal a correspondência que se troca entre homem e menina. Ora o Sr. Alberto de Oliveira foi a menina de nossa correspondência. Confiado na dignidade de cada qual, enceta-se uma palestra postal que, às vezes, pelos mais inexplicados [?] da sorte acaba, um dia, e, nesse dia, se troca. Que seria ao con­trário da reputação dos amorosos correspondentes? O nosso «Diário» está nesses casos. Seria a minha morte moral o seu conhecimento, na publicidade: posso eu ir-me breve, podemos ambos irmo-nos, moços, e assim ficaria nossa intimidade à mercê do primeiro curioso que, ao ver essa diária correspondência europeia dum homem conhecido, a tornaria pública, a princípio no círculo das suas relações e, mais tarde, ele ou outro, iria dá-la a Guttenberg. Não quero tal. Quero antes a incineração. Quando, há alguns meses, em Lisboa, moti­vos seus me levaram a cortar com o senhor as minhas melhores relações, não eram aqueles os meus desígnios: era ainda muito seu amigo e sabia-o meu a valer, para lhe dar um golpe desses que a mim próprio me feriria. Pensava que havia morte e temia os seus remorsos. — «Não era urgente pedi-lo, um dia será.» Quando se extinguem minhas relações com amigos queridos, respeito-os como aos mortos. Nem uma palavra de ultraje, quanto mais uma acção! Vi, porém, que da sua parte, contra todas as suas tradicionais regras de fidelidade e leal­dade e bondade, se portou para comigo de maneira tal, por palavras que surpreendi e factos que vi com estes olhos tristes (que ainda o ficaram mais) que para a qualificar teria de quebrar a linha perdendo a minha serenidade. Começou naturalmente a extinguir-se a mi­nha estima pelo senhor e a amarelecer essa flor «Não sei quê» que em si brotara e me dominava — a nobreza da sua alma: aí tem a acusação que eu lhe faço, dele­gado de outra vara, — e diga-me agora: não é humano, justo (justo delegado) que eu reclame um objecto que é uma honra possuir, não pelo espírito que o ditou, mas pela alma rude de carpinteiro (mas amiga) por essas três mil páginas esborrachadas a tinta? Os grandes cadáveres pertencem ao Pantheon, não às gavetas da sua secretária. Há dias enviei a sua casa a minha «bonne» para receber o meu «Diário» e entregar-lhe um pacote das suas cartas que tenho em Portugal. Esse pacote foi-me devolvido e esse ultraje fez-mo o senhor a mim, fazendo-se representar pela sua criada de meio. Assim fez a [?], Ontem procurava encontrá-lo no Porto para lhe pedir uma explicação deste facto. Não o encon­trei. Devolvo-lhe, pois, dentro desta a eloquente carta que me escreveu, como um desforço à sua afronta. Quanto ao cumprimento da minha vontade, adio este incidente até ao meu regresso de Paris: no campo em que me coloco, necessito já agora da sua correspon­dência. Eu, abaixo assinado, quero o meu «Diário». E isto basta.

Antônio Nobre

images

Nobre

António Pereira Nobre (Porto16 de agosto de 1867 — Foz do Douro18 de março de 1900), mais conhecido como António Nobre, foi um poeta português cuja obra se insere nas correntes ultrarromântica, simbolista, decadentista e saudosista (interessada na ressurgência dos valores pátrios) da geração finissecular do século XIX português. A sua principal obra,  (Paris,1892), é marcada pela lamentação e nostalgia, imbuída de subjectivismo, mas simultaneamente suavizada pela presença de um fio de auto-ironia e com a rotura com a estrutura formal do género poético em que se insere, traduzida na utilização do discurso coloquial e na diversificação estrófica e rítmica dos poemas. Apesar da sua produção poética mostrar uma clara influência de Almeida Garrett e de Júlio Dinis, ela insere-se decididamente nos cânones do simbolismo francês. A sua principal contribuição para o simbolismo lusófono foi a introdução da alternância entre o vocabulário refinado dos simbolistas e um outro mais coloquial, reflexo da sua infância junto do povo nortenho. Faleceu com apenas 32 anos de idade, após uma prolongada luta contra a tuberculose pulmonar. (https://pt.wikipedia.org/wiki/Ant%C3%B3nio_Pereira_Nobre)

autorid21205

Consta, à boca pequena, que António Nobre teria escrito este poema, pensando em seu amigo “mais querido”, Alberto de Oliveira. Maledicências à parte, não vejo porque não levar esta hipótese em consideração. Negar ou afirmar qualquer coisa que seja arespeito de alguém – sobretudo se esse alguém já não está na face do planeta para se manifestar – é mera especulação. Digo isso sem medo de afrontar os narizes torcidos que acreditam que a “crítica universitária” é senhora magna de qualquer verdade. Não acredito nisso. Pelo sim, pelo não, sempre considero todas as alternativas possíveis na abordagem de qualquer texto literário. Claro está que faço aqui o papel de “advogado do diabo” e lanço a cizânia… se ela brotar… Segue o poema (confesso que não é dos meus prediletos)

images

Purinha

António Nobre, in

O Espirito, a Nuvem, a Sombra, a Chymera,
Que (aonde ainda não sei) neste mundo me espera
Aquella que, um dia, mais leve que a bruma,
Toda cheia de véus, como uma Espuma,
O Sr. Padre me dará p’ra mim
E a seus pés me dirá, toda corada: Sim!
Ha-de ser alta como a Torre de David,
Magrinha como um choupo onde se enlaça a vide
E seu cabello em cachos, cachos d’uvas,
E negro como a capa das viuvas…
(Á maneira o trará das virgens de Belem
Que a Nossa Senhora ficava tão bem!)
E será uma espada a sua mão,
E branca como a neve do Marão,
E seus dedos serão como punhaes,
Fuzos de prata onde fiarei meus ais!
E os seus seios serão como dois ninhos,
E seus sonhos serão os passarinhos,
E será sua bocca uma romã,
Seus olhos duas Estrellinhas da Manhã!
Seu corpo ligeiro, tão leve, tão leve,
Como um sonho, como a neve,
Que hei-de suppor estar a ver, ao vel-a,
Cabrinhas montezas da Serra da Estrella…
E ha-de ser natural como as hervas dos montes
E as rolas das serras e as agoas das fontes…
E ha-de ser boa, excepcional, quazi divina.
Mais pura, mais simples, que moça e menina.
Deus, pela voz dos rouxinoes ha-de gabal-a
E os rios ao passar hão-de cantal-a.
Seu virgem coração ha-de ser tão branquinho,
Que não ha neste, mundo a que egualal-o: o linho
Que, em roca de crystal, fiava a minha Avó
Parecerá de crepe, e a neve… far-me-á dó,
Mais a farinha do moleiro e a violeta,
E a lua para mim será como uma preta!

Mas em que sitio, aonde? aonde? é que me espera
Esta Torre, esta Lua, esta Chymera?
Fui ter com minha fada e disse-lhe: «Madrinha!
Onde haverá na Terra assim uma Rainha?»
E a minha fada, com sua vara de encantar,
Um reino me apontou, lá baixo, ao pé do mar…

Meninas, lindas meninas!
Qual de vós é o meu ideal?
Meninas, lindas meninas
Do Reino de Portugal!

E no dia do meu recebimento!
Manhã cedo, com luar ainda no firmamento,
Quando ainda no céu não bole uma aza,
A minha Noiva sairá de caza
Mail-a sua mãe, mail-os seus irmãos.
E ha-de sorrir, e hão-de tremer-lhe as mãos…
E a sua ama ha-de seguil-a até á porta,
E ficará, coitada! como morta!
E ha-de ser triste vel-a, ao longe, ainda… olhando,
Com o avental seus olhos enxugando…
E hão-de cercal-a sete madrinhas,
Que hão-de ser sete virgens pobrezinhas,
Todas contentes por estreiar vestido novo!
E, ao vel-as, suas mães sorrirão d’entre o povo…
E o povo da freguezia
Esperará mais eu, no adro de Santa Iria.
E hão-de mirar-me com seu ar curiozo,
E hão-de cercar-me, n’um silencio respeitozo.
E eu hei-de lhes fallar das colheitas, da chuva,
E dir-me-ão que «já vae pintando a uva…»
E animados então (o povo é uma criança!)
Porque o Sr. Morgado deu-lhes confiança,
«Que Deus o ajude» dirá um, e o regedor:
«Que seja mui feliz, Sr. Doutor…»
E eu hei-de agradecer, sorrir, gostar.
Mas o Anjo, no entanto, não deve tardar…
E d’entre o grupo exclamará um velho, então:
«Já nasce o dia!» eu olharei… mas não:
É a minha Noiva que parece dia,
Branquinha como a cal de Santa Iria!
E ao vel-a tão branca, de branco vestida,
Ao longe, ao longe, hei-de cuidar ver uma Ermida!
E dirá o pastor, com espanto tamanho,
Que é uma Ovelha que fugiu do seu rebanho!
E o João Maluco dirá que é o Luar de Janeiro!
E o pescador explicará ao bom moleiro
Que é tal qualzinha a sua Lancha pelo mar!
E o moleiro dirá que é o seu Moinho a andar!
Que assim já foram as velhinhas scismarão,
E as netas, coitadas! que, um dia, o serão…
Mas o Anjo assomará, á porta da capella,
E eu branco e tremulo hei-de ir ter com ella.
E a estrella deitar-me-á a benção dos seus olhos
E uma aldeã deitar-lhe-á violetas, aos molhos!
E a Bem-Amada entrar na igreja ha-de…
E ha-de cazar-nos o Sr. Abbade.
E, em seguida, será a nossa boda,
E festas haverá, na aldeia toda.
E as mais raparigas do sitio, solteiras,
Hao-de bailar bailados sobre as eiras,
Com trinta moedas de oiro sobre o peito!
E cantigas dirão a seu respeito.
E a Noiva em gloria, prepassando nas janellas,
Sorrirá com simplicidade para ellas.
E a noite, pouco e pouco, descerá…
E tudo acabará.
E depois e depois, o Anjo ha-de se ir deitar,
E a sua mãe ha-de aabraçar… E hão-de chorar!
E a sua alcova deitará sobre o quintal,
Onde uma fonte correrá, entre o ervilhal:
E, ao ouvil-a cantar, deitadinha na cama,
O Anjo adormecerá, cuidando que é a sua ama…

Mas qual a villa, qual a aldeia, qual a serra
Que este Palacio de Ventura encerra?
Fui ter com minha fada e disse-lhe: «Madrinha!
Accaso nunca te mentiu tua varinha?»
E a minha fada com sua vara de condão
Nos ares escreveu com tres estrellas: «Não!»

Meninas, lindas meninas!
Qual de vós é o meu ideal?
Meninas! lindas meninas
Do Reino de Portugal!

O nosso lar!
Minha Madrinha! ajuda-me a sonhar!
Que a nossa caza se erga d’entre uma eminencia,
Que seja tal qual uma rezidencia,
Alegre, branca, rustica, por fóra.
Que digam: «É o Sr. Abbade que alli mora…»
Mas no interior ella ha-de ser sombria,
Como eu com esta melancholia…
E salas escuras, chorando saudades…
E velhos os moveis, de antigas idades…
(E, assim, me illuda e, assim, cuide viver
N’outro seculo em que eu deveria nascer.)
E nas paredes telas de parentes…
E janellas abertas sobre os poentes…
(E a Chymera lerá o seu livro de rezas…)
E cravos vermelhos por cima das mezas…
E o relogio dará as horas devagar,
Como as palpitações de quem se vae finar…
E, dia inteiro, n’esta solidão,
Deixar-me-ei esquecer, ao canto do fogão.
E a scismar e a scismar em que? em quem?
Na Dor, na Vida, em Deus, no Infinito, no Além?
E eu o Luziada sombrio, o Afflicto, o Médio,
Rogarei aos Espiritos remedio
E um bom Espirito virá tratar do doente
E ha-de tremer de susto a outra gente.
E a noite descerá, pouco e pouco, no entanto,
E a noite embrulhará o Afflicto no seu manto!
Mas a Purinha, então, vindo da rua,
Toda de branco surgirá, como uma Lua!
E, então, acordarei d’essa desesperança
E pela mão me levará, como uma criança.
E eu pallido! e eu tremendo! e o Anjo pelo caminho,
«Não te afflijas…» dirá, baixinho…
E, assim, será piedoza para os mais:
E ha-de entrar na mizeria dos cazaes,
Nos montes mais altos, nos sitios mais ermos,
E será a Saude dos Enfermos!
E quando pela estrada encontrar um velhinho
Todo suado, carregadinho,
(Louvado seja Nosso Senhor!)
Ha-de tirar seu lenço e ir enxugar-lhe o suor!
E ás aves, em prisão, abrirá as gaiolas.
E, aos sabbados, o dia das esmolas,
A Santa descerá ao patamar da escada,
Envolta, sem saber, n’uma capa estrellada,
Esmolas, distribuindo a este e áquelle: e aos ceguinhos
E mais aos alleijadinhos,
Mais aos que botam sangue pela bocca,
Mais aos que vêm cantar, numa rabeca rouca,
Amores, naufragios e A Nau Cathrineta,
Mais aos Afflictos deste vil Planeta,
Mais ás viuvas dos degredados…
E tudo seja pelos meus peccados!
E ha-de cozer (serão os remendos de flores)
As velas rôtas dos pescadores
E a luz do seu olhar benzerá essas velas
E nunca mais hão-de rasgar-lh’as as procellas!
E accenderá os cyrios ao Senhor,
(Que sejam como ella no talhe e na cor!)
Quando houver temporal… e eu virei p’ra saccada
Ver os relampagos, ouvir a trovoada!…
E n’isto só rezumir-se-á a sua vida:
Vestir os nus, aos pobres dar guarida,
Fallar á alma que na angustia se consome,
Dar de comer a quem tem fome,
Dar de beber a quem tem sede…
E, lá, do céu, Jezus dirá aos homens: «Vede…»
E eu hei-de em minhas obras imital-a
E amal-a como á Virgem e adoral-a.
E a Virgem ha-de encher com a mesma paixão
As marés-vazas d’este doido coração
E as suas ondas ha-de, olympica, aplacar,
Que para mim, linda Joanninha d’Arc,
Que para mim será a lua-nova!
E ha-de ir commigo para a mesma cova,
Pois que no dia em que eu morrer
Veneno tomará, n’uma colher…

Mas em que patria, em que nação é que se esconde
Esta Bandeira, esta India, este Castello, aonde? aonde?
Fui ter com minha fada, e disse-lhe: «Madrinha!
Mas pode haver, assim, na Terra uma Purinha?»
E a minha fada com sua vara de marfim
Tocou meu peito… e alguem sorriu lá dentro: Sim

Meninas, lindas meninas!
Qual de vós é o meu ideal?
Meninas, lindas meninas
Do Reino de Portugal!

download