Do possível desejo de entender…

O texto de hoje é parte da conferência que fiz no lugar em que trabalho. Faz parte do livro que vai ser lançado em breve – ele está pronto, em Coimbra, aguardando a conclusão de pequenas tramitações burocrático-jurídicas. Ao fim da leitura, de intervenções minhas à leitura e de outros comentários, alguém levanta o braço e pergunta que contribuição eu suponho ser possível com a investigação a que procedi e que resultou no livro de onde tiro o trecho aqui apresentado. Eu respondi, à altura do “tom” – um tanto “peculiar”, para ser educado – da pergunta. Reservo-me o direito de não repetir aqui a resposta. Quem chegar ao fim deste texto poderá fazê-lo a seu bel prazer…

download (1)

Para a proposta de leitura que aqui apresento, não transcrevo a carta que me interessa na íntegra, porque longa. No entanto, para que a análise não fique desarticulada e pareça solta ou, mesmo, sem sentido, transcrevo a passagem em que se encontram os elementos suficientes para sustentação de minha leitura, apesar de também não ser assim tão curta:

“Uma nota curiosa desta manhã: um casal de passarinhos do tamanho de cotovias tem vindo a acompanhar o vapor, em pleno alto-mar, tão longe de terra; a esta hora não sei o que será deles, ou vão pisados no paquete, ou tombaram esfalfados sobre a água. Pobres Almas de Alice e Alberto! Sabes o que esta manhã vi, também, curiosíssimo? Uma baleia, mas distante infelizmente, notando-se apenas a água que o monstro espirrava para o Ar. Não me borrifou, entretanto. Também te quero dizer que o Britannia nasceu em 1873, tendo pois a tua idade: sois, talvez, gêmeos, mas não sois com certeza patrícios, por que o teu corpo de Purinho, desengonçado e cor de leite, foi batizado na concha de pedra da Igreja de Santo Ildefonso, o desse monstro do Britannia, sólido e negro, tem o seu nascimento arquivado, nalguma babilónica oficina de Liverpool. Contudo, há esta coincidência mas eu não consinto que a tua pilinha- morango, toque nem de leve o vergalho deste paquete. Alberto, são 2 1/2 da tarde: vou à tolda saber notícias da nossa marcha e, pela noite, depois do jantar, virei concluir esta folha. Até logo. (CASTILHO, 1982, p. 116)”

Uma pena não ter sido encontrada a carta que possivelmente Alberto de Oliveira teria escrito a António Nobre depois desta, ou mesmo, antes. Caso assim o fosse, poder-se-ia averiguar até que ponto a correspondência entre os afetos que enlaçavam os dois poetas verifica­-se na “correspondência” que mantiveram durante tanto tempo. Sobretudo no que diz respeito às comparações que Nobre faz. A reação de Alberto seria por demais esclarecedora, mas vai ficar sepultada na campa das inferências.

De qualquer maneira, vale a sua abordagem, nos termos em que aqui se coloca. A carta em que se encontra este trecho foi escrita em 24 de outubro de 1890, e foi enviada por António Nobre do navio Britannia, quando a caminho de Paris. Vale lembrar que o estado de espírito do poeta não era dos melhores. Por um lado, havia sido reprovado por duas vezes seguidas nos exames em Coimbra, não podendo conseguir aí o diploma de Bacharel em leis. Por outro, a separação do “amigo mais querido” que ficou em terras portuguesas, o que criou o horizonte de expectativas das cartas que trocaram. O poeta faz, neste passo da carta, uma comparação entre o navio em que viaja e o corpo de Alberto de Oliveira. Uma comparação não apenas “saborosa”, mas reveladora.

O adjetivo destacado, remete-me a Barthes em seu livro O prazer do texto. Como espaço de exposição da intimidade – ainda que este não seja, conscientemente, o objetivo de quem escreve – uma carta é sempre circunscrição de um perímetro desenhado pelo desejo, seja ele de que natureza for. De um modo ou de outro, a carta enseja uma experiência que tem “sabor”, porque revela/constrói um “saber”, simultaneamente, sobre quem escreve e sobre quem lê. Ambos degustam este processo e seu resultado, seus efeitos. Neste jogo de sedução mútua, via de mão dupla sustentada pelo texto, há o que Barthes chama de jouissance. Cito abaixo o trecho dele que interessa:

(Prazer/Fruição: terminologicamente isto ainda vacila, tropeço, confundo-me. De toda maneira, haverá sempre uma margem de indecisão; a distinção não será origem de classificações seguras, o paradigma rangerá, o sentido será precário, revogável, reversível, o discurso será incompleto.)

“Se leio com prazer esta frase, esta história ou esta palavra, é porque foram escritas no prazer (este prazer não está em contradição com as queixas do escritor). Mas e o contrário? Escrever no prazer me assegura a mim, escritor o prazer de meu leitor? De modo algum. Esse leitor, é mister que eu o procure (que eu o drague), sem saber onde ele está. Um espaço de fruição fica então criado. Não é a pessoa do outro que me é necessária, é o espaço: a possibilidade de uma dialética do desejo, de uma imprevisão do desfrute: que os dados não estejam lançados, que haja um jogo. (BARTHES, 1973, p. 7-8)”

A passagem de O prazer do texto encerra o sentido que pretendo perceber e sustentar, na leitura da passagem da carta de António Nobre, referida acima. Nela, a decisão do tradutor de usar “fruição” no lugar de “gozo” faz com que eu, de certa forma, pense na experiência pela qual passou António Nobre enquanto escrevia esta carta. Percebe-se, claramente, a meu ver, o seu “prazer” ao falar do “amigo mais querido”. Por outro lado, fica estabelecido um elo de significação entre os elementos utilizados pelo poeta na construção de sua comparação, sobretudo o morango, como há de se ver mais abaixo. De qualquer modo, as ideias de Barthes neste trecho sustentam a minha ideia de que a leitura das cartas a posteriori cria o espaço a que o autor francês se refere. O espaço da fruição/gozo que a leitura proporciona e que pode ser intensificado pelas associações livres que a partir do texto se constroem. Estas influenciam diretamente na mesma experiência de fruição/gozo da leitura, em continuum.

A passagem da carta aqui considerada está, de fato, diretamente ligada aos indícios da existência das cartas de Alberto de Oliveira, em resposta às que recebeu de António Nobre. Mais um deles… Para além disso, muito além aliás, está uma série de três pares comparativos feitas pelo poeta “da torre”, envolvendo seu amigo e o navio em que viajava. Deste trecho, já destaco a seguinte passagem:

“… sois, talvez, gêmeos, mas não sois com certeza patrícios, por que o teu corpo de Purinho, desengonçado e cor de leite, foi batizado na concha de pedra da Igreja de Santo Ildefonso, o desse monstro do Britannia, sólido e negro, tem o seu nascimento arquivado, nalguma babilónica oficina de Liverpool. Contudo, há esta coincidência mas eu não consinto que a tua pilinha- morango, toque nem de leve o vergalho deste paquete. ”(NOBRE apud CASTILHO, 1982, p. 116)”

O primeiro par, menos “saboroso”, aponta para a coincidência entre o ano de nascimento de Alberto de Oliveira e o de inauguração do Britannia, 1873. São “gêmeos”, como diz Nobre, apesar de nacionalidades diferentes. Dada a particular oscilação de António Nobre em relação a seus sentimentos quando se trata dos ingleses, de cara, evidencia-se a preferência pela própria identidade cultural, o que vai ficar cada vez mais evidente nos pares comparativos seguintes.

De mais a mais, considere-se o que Guilherme de Castilho diz na “Introdução” ao volume que encerra a correspondência do poeta. Este “detalhe” aprofunda a hipótese defendida pelo editor da correspondência quando afirma que a leitura das cartas não prescinde da leitura do Só, e vice-versa. Isto posto, a abordagem dos pares comparativos, como é feita aqui, segue o rastro do que propõe o editor das cartas. Por tabela, a fortuna crítica do poeta se enriquece e a contextualização, simultânea, de sua vida e de sua obra recebem o mesmo influxo de compreensão e alargamento crítico. Ao fim e ao cabo, o caráter homoafetivo da relação entre os dois poetas fica, ainda uma vez, confirmado e um tanto mais explícito.

Na primeira assertiva do segundo par comparativo, António Nobre opõe “o corpo de Purinho, desengonçado e cor de leite” a “monstro do Britannia, sólido e negro”. Os adjetivos em contraposição explícita revelam dobras semânticas insuspeitadas, quando observados/lidos sob o enfoque da lente do homoerotismo: “desengonçado” opõe-se a “sólido”, deixando entrever a delicadeza do afeto que aproxima e une os dois poetas, não sem confirmar a intimidade física entre eles. O sentido dicionarizado de “desengonçado”, aqui, é abandonado para ceder espaço a uma acepção envolvida por afeto, carinho, que ressalta, ainda uma vez, a delicadeza da relação entre os dois poetas.

Na sequência, “cor de leite” opõe-se a “negro”. O cromatismo, em primeira instância apela para a dicotomia totalidade/nulidade se se considerar o pressuposto da Física, que apresenta o branco como a presença de todas as cores e o negro como a sua ausência. Daí para o simbolismo de dicotomias que as duas cores ensejam e sustentam é um pulo: a pureza e a sujidade, a inocência e o vício, o dia e a noite, o permitido e o condenado.

Num breve excurso a esta argumentação, cabe destacar a brancura referida pelo poeta sem sua comparação. Isto porque, em outras alturas da correspondência, há referência ao leite como líquido de celebração da amizade afetuosa partilhada por António Nobre e Alberto de Oliveira: torna-se quase um ícone. Ora, se o caráter simbólico for aqui (também) viável, seria aceitável associar a substância do leite como elo que traz à tona o sêmen, muitas vezes identificado terminologicamente à mesma substância. Esta inferência coloca-se a anos luz de distância de qualquer insinuação de sodomia/pederastia, como variante (ainda que possível) do pacto homossocial estabelecido, mesmo que inconscientemente. No diapasão desta nota, a Psicanálise dá o tom, fazendo com que a plausibilidade da associação seja respaldada pelo axioma lacaniano que toma a linguagem como modo de operação do inconsciente.

A “insinuação” a que me refiro acima não tem aqui o papel de determinar o direcionamento dos sentidos que circunscrevo aos pares opositivos que examino. Estou longe, muito longe, de querer afirmar que as práticas de sodomia e/ou pederastia foram um dos aspectos da relação entre António Nobre e Alberto de Oliveira – que seria passível de punição, como bem lembra Ana Paula Arnaut num seu artigo. Na verdade, a sustentar a hipótese que venho desenvolvendo, cabe muito mais argumentar a favor da supremacia do desejo. Assim, os pares comparativos funcionariam como uma espécie de jogo. Este, por sua vez, teria alguma semelhança ao que é pensado por Freud a este respeito.

Seguindo em frente, a segunda assertiva da mesma comparação aponta para outra dicotomia: sagrado/profano. A “concha de pedra de Santo Ildefonso” é o par opositivo de “nalguma babilónica oficina de Liverpool”. Ressalte-se que a referência utilizada por Nobre – Alberto/Igreja de Santo Ildefonso e Britannia/Liverpool – também pode levar a outro nível de comparação, que é o das circunstâncias e da conjuntura da Europa à época. Por metonímia, é plausível pensar na comparação entre o desenvolvimento da Inglaterra e certo atraso industrial português.

Ora, a “concha de pedra” opõe-se à “babilónica oficina”. A primeira recebe, aconchega, acolhe; a segunda produz, apresenta, lança. O adjetivo “babilónica” é o significante que dispara o discurso comparativo de oposição entre o sagrado e o profano. De mais a mais, a mesma oposição serve para reforçar o caráter afirmativo da valorização do relacionamento entre os dois poetas, conforme atestado nesta correspondência. Uma vez mais, por vias transversas, o pacto homossocial é celebrado.

Ao final, o terceiro par comparativo, o mais “saboroso”, eu diria. Admitindo, uma vez mais, a coincidência, António Nobre nega consentimento à identificação completa entre o navio e o seu amigo: a “pilinha-morango” é oposta ao “vergalho”. Pila, em Portugal, é usado para identificar o pênis, sobretudo coloquialmente. No Brasil, mais especificamente no Rio Grande do sul, significa, também, dinheiro. O primeiro significado coloquial se aplica a “vergalho”. O diminutivo do primeiro, que pode ser referência à dimensão do órgão masculino, aprofunda o sentimento carinhoso e delicado devotado pelo autor da carta a seu amigo.

A força fonética do segundo termo confirma a ideia representada pelo navio, nas comparações feitas por António Nobre. O “sabor” da comparação – e aqui o sentido do substantivo se sustenta no pensamento barthesiano – não deixa de ser sugestivo, no uso de “morango”, funcionando como índice identificador, uma espécie de predicativo do sujeito. Por um lado, a delicadeza da fruta que se revela no adocicado e no líquido associados ao paladar e, por outro, a cor que identifica, indiretamente, a “adolescência” de Alberto de Oliveira. Estes detalhes ratificam, uma vez mais e definitivamente, a delicadeza percebida, devotada e celebrada na/pela relação entre os dois poetas.

Na sequência de comparações feitas por António Nobre, se Freud não estava errado, percebem-se indícios do que este chama de compulsão à repetição. O poeta sempre volta ao navio como elemento comparativo em relação ao corpo de Alberto de Oliveira. Este aparece, na repetição, como elemento de desejo do sujeito nostálgico que é António Nobre a bordo do navio, a caminho de Paris, sozinho. Ao mesmo tempo em que constrói as comparações, forçosamente, Nobre recorda a sua experiência afetiva com Alberto. Isso funciona como combustível para o processo desenvolvido ao longo da carta.

images

Anúncios

Cartas

António e Alberto se conheceram em Coimbra, no finalzinho do século 19. Eram ambos nascidos no Porto, mas foram se conhecer na cidade sede da universidade mais antiga de Portugal. Mero acaso (?). Estudaram Direito. Alberto acabou por se formar em Coimbra António, foi duas vezes reprovado e, desgostoso, mudou-se para Paris onde veio a concluir seu curso. Neste período de separação, com direito a um encontro ou dois na cidade luz, António e Alberto trocaram cartas e bilhetes postais. Estes últimos constituíram o que chamaram de “Diário”. Para além de impressões e poemas e notícias, partilharam afetos postais com intensidade O mesmo se pode dizer das cartas que escreveram um o outro. Bem… Cabe uma explicação. Alberto escreveu, sim, para António. No entanto de suas cartas, restam quatro. Três que tratam de assuntos diversos e não foram endereçadas exatamente a António. E uma, a “joia do Nilo” – no contexto da correspondência, bem entendido – que faz par a outra, escrita por António e a que chamei de as cartas do rompimento. Não fui original, tenho certeza, já não alimento esse tipo de vaidade… Voltando à vaca fria…  A carta que António escreve a Alberto cobrando deste a devolução de seus papeis tem tom radicalmente oposto às demais endereçadas a seu “amigo mais querido”, o “Betinho”. Já a de Alberto para António, parece manter o senso de afeto e amizade profunda que uniu esses dois homens numa relação que até hoje causa estranheza… inexplicavelmente. Alberto, antes e morrer, pediu que seus papeis fossem queimados. Até prova em contrário – passei seis meses tentando encontrar uma pista que fosse para satisfação de minha ilusão de encontrar algumas dessas cartas perdidas num recanto qualquer da península – foram mesmo queimadas, mas restou a “do rompimento”. Um único cartão postal também escapou do “incêndio” e foi analisado por Mário Cláudio num ensaio publicado pela Revista Colóquio Letras, da Fundação Calouste Gulbenkian. Uma joia rara! Pois bem. Hoje trago aqui a carta de António. Amanhã, se minha preguiça deixar, trago a de Alberto. Depois de amanhã, seguindo a mesma toada, talvez teça mais alguns comentários.

autorid21205

Terça-feira                                                                 26— Rua de Carreiros

25-8-1893                                                                   S. João da Foz

Meu caro Sr. Alberto de Oliveira:

Quando eu, há dias, lhe enviei polidamente uma se­rena carta, convidando-o a restituir-me o meu «Diário», cri fazê-lo ao grande amigo do meu passado, não ao delegado da 2.a vara. Este senhor, porém, foi quem me respondeu e de código na mão: «a correspondência, uma vez expedida, pertence ao destinatário.» Ora eu já sabia deste pormenor legislativo. Há, contudo, nos usos sociais certas fórmulas de cortesia que em algumas circuns­tâncias se aplicam, tal a correspondência que se troca entre homem e menina. Ora o Sr. Alberto de Oliveira foi a menina de nossa correspondência. Confiado na dignidade de cada qual, enceta-se uma palestra postal que, às vezes, pelos mais inexplicados [?] da sorte acaba, um dia, e, nesse dia, se troca. Que seria ao con­trário da reputação dos amorosos correspondentes? O nosso «Diário» está nesses casos. Seria a minha morte moral o seu conhecimento, na publicidade: posso eu ir-me breve, podemos ambos irmo-nos, moços, e assim ficaria nossa intimidade à mercê do primeiro curioso que, ao ver essa diária correspondência europeia dum homem conhecido, a tornaria pública, a princípio no círculo das suas relações e, mais tarde, ele ou outro, iria dá-la a Guttenberg. Não quero tal. Quero antes a incineração. Quando, há alguns meses, em Lisboa, moti­vos seus me levaram a cortar com o senhor as minhas melhores relações, não eram aqueles os meus desígnios: era ainda muito seu amigo e sabia-o meu a valer, para lhe dar um golpe desses que a mim próprio me feriria. Pensava que havia morte e temia os seus remorsos. — «Não era urgente pedi-lo, um dia será.» Quando se extinguem minhas relações com amigos queridos, respeito-os como aos mortos. Nem uma palavra de ultraje, quanto mais uma acção! Vi, porém, que da sua parte, contra todas as suas tradicionais regras de fidelidade e leal­dade e bondade, se portou para comigo de maneira tal, por palavras que surpreendi e factos que vi com estes olhos tristes (que ainda o ficaram mais) que para a qualificar teria de quebrar a linha perdendo a minha serenidade. Começou naturalmente a extinguir-se a mi­nha estima pelo senhor e a amarelecer essa flor «Não sei quê» que em si brotara e me dominava — a nobreza da sua alma: aí tem a acusação que eu lhe faço, dele­gado de outra vara, — e diga-me agora: não é humano, justo (justo delegado) que eu reclame um objecto que é uma honra possuir, não pelo espírito que o ditou, mas pela alma rude de carpinteiro (mas amiga) por essas três mil páginas esborrachadas a tinta? Os grandes cadáveres pertencem ao Pantheon, não às gavetas da sua secretária. Há dias enviei a sua casa a minha «bonne» para receber o meu «Diário» e entregar-lhe um pacote das suas cartas que tenho em Portugal. Esse pacote foi-me devolvido e esse ultraje fez-mo o senhor a mim, fazendo-se representar pela sua criada de meio. Assim fez a [?], Ontem procurava encontrá-lo no Porto para lhe pedir uma explicação deste facto. Não o encon­trei. Devolvo-lhe, pois, dentro desta a eloquente carta que me escreveu, como um desforço à sua afronta. Quanto ao cumprimento da minha vontade, adio este incidente até ao meu regresso de Paris: no campo em que me coloco, necessito já agora da sua correspon­dência. Eu, abaixo assinado, quero o meu «Diário». E isto basta.

Antônio Nobre

images

Nobre

António Pereira Nobre (Porto16 de agosto de 1867 — Foz do Douro18 de março de 1900), mais conhecido como António Nobre, foi um poeta português cuja obra se insere nas correntes ultrarromântica, simbolista, decadentista e saudosista (interessada na ressurgência dos valores pátrios) da geração finissecular do século XIX português. A sua principal obra,  (Paris,1892), é marcada pela lamentação e nostalgia, imbuída de subjectivismo, mas simultaneamente suavizada pela presença de um fio de auto-ironia e com a rotura com a estrutura formal do género poético em que se insere, traduzida na utilização do discurso coloquial e na diversificação estrófica e rítmica dos poemas. Apesar da sua produção poética mostrar uma clara influência de Almeida Garrett e de Júlio Dinis, ela insere-se decididamente nos cânones do simbolismo francês. A sua principal contribuição para o simbolismo lusófono foi a introdução da alternância entre o vocabulário refinado dos simbolistas e um outro mais coloquial, reflexo da sua infância junto do povo nortenho. Faleceu com apenas 32 anos de idade, após uma prolongada luta contra a tuberculose pulmonar. (https://pt.wikipedia.org/wiki/Ant%C3%B3nio_Pereira_Nobre)

autorid21205

Consta, à boca pequena, que António Nobre teria escrito este poema, pensando em seu amigo “mais querido”, Alberto de Oliveira. Maledicências à parte, não vejo porque não levar esta hipótese em consideração. Negar ou afirmar qualquer coisa que seja arespeito de alguém – sobretudo se esse alguém já não está na face do planeta para se manifestar – é mera especulação. Digo isso sem medo de afrontar os narizes torcidos que acreditam que a “crítica universitária” é senhora magna de qualquer verdade. Não acredito nisso. Pelo sim, pelo não, sempre considero todas as alternativas possíveis na abordagem de qualquer texto literário. Claro está que faço aqui o papel de “advogado do diabo” e lanço a cizânia… se ela brotar… Segue o poema (confesso que não é dos meus prediletos)

images

Purinha

António Nobre, in

O Espirito, a Nuvem, a Sombra, a Chymera,
Que (aonde ainda não sei) neste mundo me espera
Aquella que, um dia, mais leve que a bruma,
Toda cheia de véus, como uma Espuma,
O Sr. Padre me dará p’ra mim
E a seus pés me dirá, toda corada: Sim!
Ha-de ser alta como a Torre de David,
Magrinha como um choupo onde se enlaça a vide
E seu cabello em cachos, cachos d’uvas,
E negro como a capa das viuvas…
(Á maneira o trará das virgens de Belem
Que a Nossa Senhora ficava tão bem!)
E será uma espada a sua mão,
E branca como a neve do Marão,
E seus dedos serão como punhaes,
Fuzos de prata onde fiarei meus ais!
E os seus seios serão como dois ninhos,
E seus sonhos serão os passarinhos,
E será sua bocca uma romã,
Seus olhos duas Estrellinhas da Manhã!
Seu corpo ligeiro, tão leve, tão leve,
Como um sonho, como a neve,
Que hei-de suppor estar a ver, ao vel-a,
Cabrinhas montezas da Serra da Estrella…
E ha-de ser natural como as hervas dos montes
E as rolas das serras e as agoas das fontes…
E ha-de ser boa, excepcional, quazi divina.
Mais pura, mais simples, que moça e menina.
Deus, pela voz dos rouxinoes ha-de gabal-a
E os rios ao passar hão-de cantal-a.
Seu virgem coração ha-de ser tão branquinho,
Que não ha neste, mundo a que egualal-o: o linho
Que, em roca de crystal, fiava a minha Avó
Parecerá de crepe, e a neve… far-me-á dó,
Mais a farinha do moleiro e a violeta,
E a lua para mim será como uma preta!

Mas em que sitio, aonde? aonde? é que me espera
Esta Torre, esta Lua, esta Chymera?
Fui ter com minha fada e disse-lhe: «Madrinha!
Onde haverá na Terra assim uma Rainha?»
E a minha fada, com sua vara de encantar,
Um reino me apontou, lá baixo, ao pé do mar…

Meninas, lindas meninas!
Qual de vós é o meu ideal?
Meninas, lindas meninas
Do Reino de Portugal!

E no dia do meu recebimento!
Manhã cedo, com luar ainda no firmamento,
Quando ainda no céu não bole uma aza,
A minha Noiva sairá de caza
Mail-a sua mãe, mail-os seus irmãos.
E ha-de sorrir, e hão-de tremer-lhe as mãos…
E a sua ama ha-de seguil-a até á porta,
E ficará, coitada! como morta!
E ha-de ser triste vel-a, ao longe, ainda… olhando,
Com o avental seus olhos enxugando…
E hão-de cercal-a sete madrinhas,
Que hão-de ser sete virgens pobrezinhas,
Todas contentes por estreiar vestido novo!
E, ao vel-as, suas mães sorrirão d’entre o povo…
E o povo da freguezia
Esperará mais eu, no adro de Santa Iria.
E hão-de mirar-me com seu ar curiozo,
E hão-de cercar-me, n’um silencio respeitozo.
E eu hei-de lhes fallar das colheitas, da chuva,
E dir-me-ão que «já vae pintando a uva…»
E animados então (o povo é uma criança!)
Porque o Sr. Morgado deu-lhes confiança,
«Que Deus o ajude» dirá um, e o regedor:
«Que seja mui feliz, Sr. Doutor…»
E eu hei-de agradecer, sorrir, gostar.
Mas o Anjo, no entanto, não deve tardar…
E d’entre o grupo exclamará um velho, então:
«Já nasce o dia!» eu olharei… mas não:
É a minha Noiva que parece dia,
Branquinha como a cal de Santa Iria!
E ao vel-a tão branca, de branco vestida,
Ao longe, ao longe, hei-de cuidar ver uma Ermida!
E dirá o pastor, com espanto tamanho,
Que é uma Ovelha que fugiu do seu rebanho!
E o João Maluco dirá que é o Luar de Janeiro!
E o pescador explicará ao bom moleiro
Que é tal qualzinha a sua Lancha pelo mar!
E o moleiro dirá que é o seu Moinho a andar!
Que assim já foram as velhinhas scismarão,
E as netas, coitadas! que, um dia, o serão…
Mas o Anjo assomará, á porta da capella,
E eu branco e tremulo hei-de ir ter com ella.
E a estrella deitar-me-á a benção dos seus olhos
E uma aldeã deitar-lhe-á violetas, aos molhos!
E a Bem-Amada entrar na igreja ha-de…
E ha-de cazar-nos o Sr. Abbade.
E, em seguida, será a nossa boda,
E festas haverá, na aldeia toda.
E as mais raparigas do sitio, solteiras,
Hao-de bailar bailados sobre as eiras,
Com trinta moedas de oiro sobre o peito!
E cantigas dirão a seu respeito.
E a Noiva em gloria, prepassando nas janellas,
Sorrirá com simplicidade para ellas.
E a noite, pouco e pouco, descerá…
E tudo acabará.
E depois e depois, o Anjo ha-de se ir deitar,
E a sua mãe ha-de aabraçar… E hão-de chorar!
E a sua alcova deitará sobre o quintal,
Onde uma fonte correrá, entre o ervilhal:
E, ao ouvil-a cantar, deitadinha na cama,
O Anjo adormecerá, cuidando que é a sua ama…

Mas qual a villa, qual a aldeia, qual a serra
Que este Palacio de Ventura encerra?
Fui ter com minha fada e disse-lhe: «Madrinha!
Accaso nunca te mentiu tua varinha?»
E a minha fada com sua vara de condão
Nos ares escreveu com tres estrellas: «Não!»

Meninas, lindas meninas!
Qual de vós é o meu ideal?
Meninas! lindas meninas
Do Reino de Portugal!

O nosso lar!
Minha Madrinha! ajuda-me a sonhar!
Que a nossa caza se erga d’entre uma eminencia,
Que seja tal qual uma rezidencia,
Alegre, branca, rustica, por fóra.
Que digam: «É o Sr. Abbade que alli mora…»
Mas no interior ella ha-de ser sombria,
Como eu com esta melancholia…
E salas escuras, chorando saudades…
E velhos os moveis, de antigas idades…
(E, assim, me illuda e, assim, cuide viver
N’outro seculo em que eu deveria nascer.)
E nas paredes telas de parentes…
E janellas abertas sobre os poentes…
(E a Chymera lerá o seu livro de rezas…)
E cravos vermelhos por cima das mezas…
E o relogio dará as horas devagar,
Como as palpitações de quem se vae finar…
E, dia inteiro, n’esta solidão,
Deixar-me-ei esquecer, ao canto do fogão.
E a scismar e a scismar em que? em quem?
Na Dor, na Vida, em Deus, no Infinito, no Além?
E eu o Luziada sombrio, o Afflicto, o Médio,
Rogarei aos Espiritos remedio
E um bom Espirito virá tratar do doente
E ha-de tremer de susto a outra gente.
E a noite descerá, pouco e pouco, no entanto,
E a noite embrulhará o Afflicto no seu manto!
Mas a Purinha, então, vindo da rua,
Toda de branco surgirá, como uma Lua!
E, então, acordarei d’essa desesperança
E pela mão me levará, como uma criança.
E eu pallido! e eu tremendo! e o Anjo pelo caminho,
«Não te afflijas…» dirá, baixinho…
E, assim, será piedoza para os mais:
E ha-de entrar na mizeria dos cazaes,
Nos montes mais altos, nos sitios mais ermos,
E será a Saude dos Enfermos!
E quando pela estrada encontrar um velhinho
Todo suado, carregadinho,
(Louvado seja Nosso Senhor!)
Ha-de tirar seu lenço e ir enxugar-lhe o suor!
E ás aves, em prisão, abrirá as gaiolas.
E, aos sabbados, o dia das esmolas,
A Santa descerá ao patamar da escada,
Envolta, sem saber, n’uma capa estrellada,
Esmolas, distribuindo a este e áquelle: e aos ceguinhos
E mais aos alleijadinhos,
Mais aos que botam sangue pela bocca,
Mais aos que vêm cantar, numa rabeca rouca,
Amores, naufragios e A Nau Cathrineta,
Mais aos Afflictos deste vil Planeta,
Mais ás viuvas dos degredados…
E tudo seja pelos meus peccados!
E ha-de cozer (serão os remendos de flores)
As velas rôtas dos pescadores
E a luz do seu olhar benzerá essas velas
E nunca mais hão-de rasgar-lh’as as procellas!
E accenderá os cyrios ao Senhor,
(Que sejam como ella no talhe e na cor!)
Quando houver temporal… e eu virei p’ra saccada
Ver os relampagos, ouvir a trovoada!…
E n’isto só rezumir-se-á a sua vida:
Vestir os nus, aos pobres dar guarida,
Fallar á alma que na angustia se consome,
Dar de comer a quem tem fome,
Dar de beber a quem tem sede…
E, lá, do céu, Jezus dirá aos homens: «Vede…»
E eu hei-de em minhas obras imital-a
E amal-a como á Virgem e adoral-a.
E a Virgem ha-de encher com a mesma paixão
As marés-vazas d’este doido coração
E as suas ondas ha-de, olympica, aplacar,
Que para mim, linda Joanninha d’Arc,
Que para mim será a lua-nova!
E ha-de ir commigo para a mesma cova,
Pois que no dia em que eu morrer
Veneno tomará, n’uma colher…

Mas em que patria, em que nação é que se esconde
Esta Bandeira, esta India, este Castello, aonde? aonde?
Fui ter com minha fada, e disse-lhe: «Madrinha!
Mas pode haver, assim, na Terra uma Purinha?»
E a minha fada com sua vara de marfim
Tocou meu peito… e alguem sorriu lá dentro: Sim

Meninas, lindas meninas!
Qual de vós é o meu ideal?
Meninas, lindas meninas
Do Reino de Portugal!

download

Memórias e desencontros

A bem da verdade, devo dizer que essa história começou bem antes de sua materialização. Já tinha ouvido falar de António Nobre. Foi em 1996, quando me inscrevi para o concurso de provas e títulos para o provimento de uma vaga de professor (então) adjunto da universidade federal de outro planeta, popularmente conhecida como UFOP. Para a prova didática, caiu-me um ponto (um dos híbridos que compunham o programa) sobre ele: Dois aspectos da poética da dor: Alphonsus de Guimarães e António Nobre. Do primeiro, sabia que era simbolista, que havia vivido em Mariana e que era autor de um soneto muito lido no primeiro e segundo graus: “A catedral”. Do segundo, sabia que era poeta português, e mais nada! Foi um parto. Mas a presidente da banca confidenciou-me que me deu dez na prova didática – junto com os outros quatro membros – porque, disse-me ela, que eu dei provas de que sabia me sair muito bem de situações difíceis. Tomei isso como elogio. Depois veio o período de aulas de Literatura Portuguesa até que me encafifei com um artigo publicado lá longe, nos rincões peninsulares que falava da amizade de António Nobre e Alberto de Oliveira. Atenção, este último não é o mesmo de Saquarema, contemporâneo de Olavo Bilac e Raimundo Correia. É outro, bem outro… Mesmo tendo lido que suas cartas tinham sido queimadas – as de Alberto para António – encasquetei e me mandei para Coimbra onde fiquei seis meses. Lá chegando constatei que havia me equivocado na leitura do livro em que se publicaram todas as cartas de António Nobre. Mas a gente sabe que tudo que se afirma sobre qualquer coisa é absolutamente relativo… Contradição em termos?

download (1)

Isso é coisa bem parecida com a minha escolha para Leitor de Português na Universidade de Zagreb, na Croácia. Já havia estado naquele país em 2004, perto do final de um périplo marítimo de 12 dias, feito com um casal de amigos. O penúltimo porto, Dubrovnik, deslumbrante cidade, ficou indelevelmente marcado em minha memória afetiva. Antes disso, em 1998, quando estive em Portugal pela primeira vez, especificamente em Lisboa – quando aproveitei as delícias de passear pelas ruas e avenidas da “cidade da EXPO” que lá se construiu – ao visitar o pavilhão da Croácia, chorei como criança, chamando a atenção de duas freiras que, muito comovidas, me acompanhavam nas lágrimas. Estar no meio da sala de projeção instalada no pavilhão, vendo um filme em tela de 260 graus na qual se exibiam em sequência as imagens dos pescadores croatas no meio de um rio, cantando à capela – naquela língua incompreensível – as melancolias dos homens de pescaria… foi demais. Tenho quase a certeza absoluta que foi por conta disso que fui parar em Zagreb, lá ficando por dois anos e meio a praticar a Língua Portuguesa falada no Brasil, com aqueles estudantes divertidos e ávidos de informação e divertimento.

alberto-de-oliveira-portugal

Voltando à vaca fria, Alberto e António se escreveram durante um período de mais ou menos três anos. As cartas de António já estão publicadas, até prova em contrário, como já disse. Das de Alberto, encontrei mais três, para além daquelas mencionadas no livro de Guilherme de Castilho, editor responsável pela publicação em volume das cartas de António Nobre (este volume é considerado o mais completo, mas há três cartas analisadas por Vera Vouga, em artigo publicado na Revista Colóquio Letras, que não constam da edição de Guilherme de Castilho). Estas três cartas estão no acervo da Biblioteca Municipal Florbela espanca, em Matosinhos, cidade agradabilíssima, bem vizinha ao Porto. Mais uma vez, até prova em contrário, as cartas de Alberto de Oliveira foram queimadas. Sei não…

download

Decepção–segunda parte

Segue a segunda parte do texto que comecei a publicar ontem…

Bom final de semana para quem ler!

download

Momento 2

António Nobre escreve a Alberto d’Oliveira, em 24 de Outubro de 1890. Ele está a caminho de Paris a bordo do navio Britannia. Vale lembrar que o estado de espírito de Nobre não era dos melhores. Por um lado, havia sido reprovado por duas vezes seguidas nos exames em Coimbra, não podendo conseguir aí o diploma de Bacharel em leis. Por outro, a separação do “amigo mais querido”[1], que ficou em terras portuguesas, o que criou o horizonte de expectativas das cartas que trocaram. Desta carta, destaco a seguinte passagem:

(…) sois, talvez, gêmeos, mas não sois com certeza patrícios, por que o teu corpo de Purinho, desengonçado e cor de leite, foi batizado na concha de pedra da Igreja de Santo Ildefonso, o desse monstro do Britannia, sólido e negro, tem o seu nascimento arquivado, nalguma babilónica oficina de Liverpool. Contudo, há esta coincidência mas eu não consinto que a tua pilinha-morango, toque nem de leve o vergalho deste paquete. (CASTILHO, G., 1982: 116)

O poeta faz, neste passo da carta, uma comparação entre o navio em que viaja e o corpo de Alberto de Oliveira. Uma comparação reveladora. Para além disso, muito além aliás, a carta apresenta uma série de três pares comparativos constituídos pelo poeta “da torre”, envolvendo seu amigo e o navio em que viajava. O primeiro par aponta para a coincidência entre o ano de nascimento de Alberto de Oliveira e o de inauguração do Britannia, 1873[2]. São “gêmeos”, como diz Nobre, apesar de nacionalidades diferentes. Dada a particular oscilação de António Nobre em relação a seus sentimentos quando se trata dos ingleses, de cara, evidencia-se a preferência pela própria identidade cultural, o que vai ficar cada vez mais evidente nos pares comparativos seguintes.

Na primeira assertiva do segundo par comparativo, António Nobre opõe “o corpo de Purinho, desengonçado e cor de leite” a “monstro do Britannia, sólido e negro”. Os adjetivos em contraposição explícita revelam dobras semânticas insuspeitadas, quando observados/lidos sob a o enfoque da lente do homoerotismo: “desengonçado” opõe-se a “sólido”, deixando entrever a delicadeza do afeto que aproxima e une os dois poetas, não sem deixar entrever a intimidade física entre eles. O sentido dicionarizado de “desengonçado”, aqui, é abandonado para ceder espaço a uma acepção envolvida por afeto, carinho, que ressalta, ainda uma vez, a delicadeza da relação já referida. Na sequência, “cor de leite” opõe-se a “negro”. O cromatismo, em primeira instância, apela para a dicotomia totalidade/nulidade se se considerar o pressuposto da Física, que apresenta o branco como a presença de todas as cores e o negro como a sua ausência. Daí para a simbologia que as duas cores ensejam e sustentam é um passo: a pureza e a sujidade, a inocência e o vício, o dia e a noite, o permitido e o condenado.

Num breve excurso a esta argumentação, cabe destacar a brancura referida pelo poeta sem sua comparação. Isto porque, em outras alturas da correspondência, há referência ao leite como líquido de celebração da amizade afetuosa partilhada por António Nobre e Alberto de Oliveira: torna-se quase um ícone. Ora, se o caráter simbólico for aqui (também) viável, seria aceitável associar a substância do leite como elo que traz à tona o sêmen, muitas vezes identificado terminologicamente à mesma substância. Esta inferência coloca-se a anos luz de distância de qualquer insinuação de sodomia/pederastia, como variante (ainda que possível) do pacto homossocial estabelecido, mesmo que inconscientemente. No diapasão desta nota, a Psicanálise dá o tom, fazendo com que a plausibilidade da associação seja respaldada pelo axioma lacaniano que toma a linguagem como modus operandi do inconsciente.

A segunda assertiva da mesma comparação aponta para outra dicotomia: sagrado/profano. A “concha de pedra de Santo Ildefonso” é o par opositivo de “nalguma babilónica oficina de Liverpool”. Ora, a “concha de pedra” opõe-se à “babilónica oficina”. A primeira recebe, aconchega, acolhe; a segunda produz, apresenta, lança. O adjetivo “babilónica” é o significante que dispara o discurso comparativo de oposição entre o sagrado e o profano. De mais a mais, a mesma oposição serve para reforçar o caráter afirmativo da valorização do relacionamento entre os dois poetas, conforme atestado nesta correspondência. Uma vez mais, por vias transversas, o pacto homossocial é celebrado.

Por fim, o terceiro par comparativo. António Nobre renega a identificação completa entre o navio e seu amigo: a “pilinha-morango” é oposta ao “vergalho”. Pila é substantivo comum que pode ser sinônimo de pênis, sobretudo coloquialmente. Este significado coloquial se aplica também a “vergalho”. O diminutivo do primeiro aprofunda o sentimento carinhoso e delicado devotado pelo autor da carta a seu amigo. A força fonética do segundo termo confirma a ideia representada pelo navio nas comparações feitas por António Nobre.

O “sabor” da comparação – no sentido barthesiano deste substantivo – não deixa de ser sugestivo: assim, “morango” funciona como índice identificador, uma espécie de predicativo do sujeito. Por um lado, a delicadeza da fruta que se revela no adocicado e no líquido associados ao paladar e, por outro, a cor que identifica, indiretamente, a “adolescência” de Alberto de Oliveira; ratificando, uma vez mais e definitivamente, a delicadeza percebida, devotada e celebrada na/pela relação entre os dois poetas.

Ponto quase final

Uma pergunta caberia aqui: como associar estas linhas ao que representou a revista Orpheu em seu tempo de aparecimento e seu legado? Acredito que a resposta pode ser simples. O primeiro número da revista traz uma “introdução”, de autoria de Luis de Montalvor que pode servir de ponte para a(s) outra(s) possível(is) resposta(s) à questão final que coloco. No sentido de ser veículo de mudança, diz o autor do texto da “Introdução” que a revista “propondo-se, vincula o direito de em primeiro lugar se desassemelhar de outros meios, maneiras e formas de realisar arte, tendo por notavel nosso volume de Beleza não ser incaracteristico ou fragmentado, como literarias que são essas duas formas de fazer revista ou jornal.” Já aqui a nota da diferença na manifestação de certo espírito iconoclasta é perceptível.

Mais adiante, diz Montalvôr que “Puras e raras suas intenções como seu destino de Beleza é o do:—Exilio! Bem propriamente, ORPHEU, é um exilio de temperamentos de arte que a querem como a um segrêdo ou tormento…”. Nas reticências que fecham este período e em seu conteúdo, percebe-se uma das notas que marcam os comentários acerca dos trechos de carta aqui feitos – sobretudo ligadas aos termos “segredo” e “tormento”. “Isto explica nossa ansiedade e nossa essencia!”, continua Montalvôr, reafirmando o que eu já afirmei aqui.

De mais a mais, a julgar pelo que Fernando Pessoa diz acerca dos poemas que desejou publicar no número 3 da revista e o que António Nobre exara nas linhas de uma carta, já saudosa ainda que em princípio de viagem, o espírito de Orpheu, a revista, remete ao incurável sofrimento de Orfeu, o mito, deixando os sujeitos alienados de seu desejo, mas ansiosos por sua satisfação. A expressão artística pode ser considerada um dos instrumentos de concretização desta mesma satisfação.

De uma forma ou de outra, o que resulta como elemento estrutural para a resposta à pergunta acima mencionada é o fato de que o caráter homoerótico que atormenta, tanto a voz heterônima de Fernando Pessoa, quanto a agonia em êxtase da saudade de António Nobre, no contexto da virada de século em Portugal, só se faz possível, acredito eu, com o auxílio mais que luxuoso da publicação de Orpheu. As cartas, ao fim e ao cabo, funcionam como uma das “pontes”, como prenunciado no título desta comunicação.

Sintomaticamente, a revista não enseja realizar todos os seus desejos, enquanto expressão da busca de solução para impasses e dificuldades no âmbito da produção artístico-cultural lusitana. O mito, de certa forma, sobrepõe-se à publicação. Esta falece… números depois de publicada por primeira vez. O encontro de Orfeu e Eurídice deu-se, segundo um dos relatos do mito, após a morte do poeta. Em certa medida, a liberdade e a efetividade da discussão dos temas aqui expostos são o sinal do falecimento da publicação em sua materialidade, mas da permanência em seu ideário e na herança cultural – no sentido mais amplo deste termo – de suas proposições eternizadas, por exemplo, nos trechos aqui apresentados, ainda que de maneira sumária.


[1] Coloco a expressão entre aspas, não porque alguém a tenha citado – e creio que tenha sido – mas porque é usada aqui e ali, e por mim mesmo, para identificar Alberto de Oliveira.

[2] Na verdade, trata-se do ano de naufrágio do navio que foi inaugurado dez anos antes. Pode ter sido uma gralha na edição das cartas. Como não tive acesso ao original – dado que não constitui objeto primordial de minha investigação – levo a cabo a informação obtida na internete: http://en.wikipedia.org/wiki/SS_Britannia, acesso em 10/02/2015.

images

Decepção

Era 25 de Março. Não a famigerada rua da cidade de São Paulo. A equivalente da “Saara” carioca… Não. Era a data mesmo um mês antes do dia de comemoração da Revolução dos cravos. Era 25 de Março, em Lisboa, nas instalações da Fundação Calouste Gulbenkian (lindas!). Tudo parecia correr bem. Eu tinha escrito o texto com prazer, Escrevi de forma a criar situações de ambiguidade, como a querer provocar a audiência. Eu ainda acreditava que haveria uma… O garoto que coordenava a mesa atrasou seu início. A desculpa foi a espera de um “figurão”. Não veio o dito cujo. Ao invés e começar e dar mais tempos para nós dois, os outros componentes da mesa… Não… O “garoto” resolveu restringir-se aos protocolares vinte minutos de apresentação como se a distinta “plateia” fosse se animar a perguntar alguma coisa. Ó decepção. Ninguém perguntou nada e ficou tudo por isso mesmo. Mas não me dou por vencido e vou publicar o texto. Não sei quando, mas vou. Enquanto isso, deixo aqui a primeira parte. A segunda vem amanhã…

download

Alberto, Orpheu, Álvaro: pontes

José Luiz Foureaux de Souza Júnior

(Universidade Federal de Ouro Preto / Universidade de Coimbra / Capes)

Este trabalho tem como objetivo construir pontes para ligar as relações de amizade de dois poetas portugueses do final do século XIX: António Nobre e Alberto de Oliveira. O ponto de partida é a leitura da correspondência de António Nobre (totalmente publicada). Nessa correspondência, aparecem indícios de que em cartas escritas por seu amigo, Alberto de Oliveira, laços estreitos até de amizade íntima que vai além do intercâmbio intelectual e literária entre ambos. A leitura é amparada pela perspectiva de “pacto homossocial”, como apresentado por Eve Sedgwick Kosofski em seu livro Between men. O trabalho se encaixa no âmbito alargado dos estudos de Literatura Comparada, sobretudo os circunscritos à Estética da Recepção, o que corresponde a análise e renovação de exercício crítico de releitura a partir de gêneros literários diversos como a epistolografia de escritores representativos.

Palavras-chave: Recepção; Leitura; Poesia; Homoerotismo; Literatura Portuguesa

A grandeza do homem consiste em que ele é uma ponte e não um fim; o que nos pode agradar no homem é ele ser transição e queda.

Friedrich Nietzsche, Assim falava Zaratustra

Considerei subscrever esta comunicação ao tema “O legado de Orpheu” por acreditar que, de fato, a epistolografia exigiria um recorte muito estreito para as possibilidades que vislumbro a partir do processo de investigação que venho desenvolvendo e que envolve a correspondência de António Nobre e Alberto de Oliveira. Na visada retrospectiva que proponho aqui, esta correspondência é o ponto de chegada de minhas elucubrações. O ponto de partida é o conjunto de considerações que faço a partir de um trecho de carta escrita por Fernando Pessoa, passando por considerações acerca de abordagem panorâmica do conjunto de propostas da Revista Orpheu, em seu primeiro número.

Orfeu, filho da musa Calíope e Apolo ou Eagro, rei da Trácia, poeta talentoso. Quando tocava sua lira, os pássaros paravam de voar para escutar e os animais selvagens perdiam o medo, as árvores se curvavam para pegar os sons no vento. Um dos argonautas, salvou os demais tripulantes quando seu canto silenciou as sereias. Apaixonou-se por Eurídice. Casou-se com ela. Mas Eurídice era tão bonita que, pouco tempo depois do casamento, atraiu um apicultor chamado Aristeu. Quando ela recusou suas atenções, ele a perseguiu. Tentando escapar, ela caiu, pisou numa serpente que a mordeu e morreu. Orfeu ficou transtornado de tristeza. Levando sua lira, foi até o mundo inferior, para tentar trazê-la de volta. A canção pungente e emocionada de sua lira convenceu o barqueiro Caronte a leva-lo vivo pelo rio Estige. A canção da lira adormeceu Cérbero, o cão de três cabeças que vigiava os portões. Seu tom carinhoso aliviou os tormentos dos condenados. Encontrou muitos monstros durante sua jornada e os encantou com seu canto. Finalmente, Orfeu chegou ao trono de Hades. O rei dos mortos ficou irritado ao ver que um ser vivo tinha entrado em seu domínio, mas a agonia na música de Orfeu o comoveu, e ele chorou lágrimas de ferro. Sua esposa, a deusa Perséfone, implorou-lhe que atendesse o pedido de Orfeu. Assim, Hades atendeu seu desejo. Eurídice poderia voltar com Orfeu ao mundo dos vivos, sob uma única condição: que ele não olhasse para ela até que estivessem sob a luz do sol. Orfeu partiu pela trilha íngreme que levava para fora do escuro reino da morte, tocando músicas de alegria e celebração enquanto caminhava, para guiar a sombra de Eurídice de volta à vida. Ele então quase no final do tenebroso túnel olhou para se certificar de que Eurídice o acompanhava e não a viu. Hades e Perséfone os seguiam e, como ficou estabelecido que ele não poderia olhar para Eurídice até chegar ao fim do túnel, Hades a tomou novamente. Em desespero, Orfeu se tornou amargo. Recusava-se a olhar para qualquer outra mulher, não querendo lembrar-se da perda de sua amada. O Orfismo, comportamento ambíguo de aconselhar sem poder usufruir do próprio conselho, vem daí, ao que parece. Orfeu morre sob a fúria das Mênades que o mataram a golpes de dardo, jogando seu corpo no Hebro, aos pedaços e, ainda assim, cantando. As nove musas reuniram os pedaços de Orfeu e o enterraram no monte Olimpo. Na morte, Orfeu se uniu a Eurídice.

Uma lição, dentre outras, que fica do enredo do mito pode ser a da ideia de desejo que persiste, mesmo em condições nada viáveis, o que reforça sua própria natureza. De índole instintual, o desejo não escolhe data e local, cor ou textura, preferência ou circunstância. Ele está ali e, se a mão de Lacan não conduz a erro, é pela linguagem que ele se manifesta de maneira mais contundente. Para além disso, é talvez na e pela linguagem poética que essa contundência atinge foro de intransponibilidade. Há que ressaltar que, de maneira genérica, estou considerando a carta como texto poético, em seu sentido mais largo – o que é discutido por Sophia Angelides e Marie-Claire Grassi, por exemplo. Tópico este que vou tomar como pressuposto, por questão de tempo.

Outra lição é a da sedução. Fenômeno ou processo – dependendo do direcionamento que a utilização desse conceito segue – fica claro que o canto de Eurídice seduz pela beleza, quebrando todas as resistências. Esta sedução, acaba por fazer com que o poeta, por ansioso que estava, deixe de cumprir o que mandou a divindade e se vire para, ele também seduzido pelo desejo, tentar ver sua amada. O vaticínio se cumpre. Ele perde de vez a chance de voltar a viver com Eurídice. O encontro só acontece na morte, o que pode causar certas diferenças interpretativas muito instigantes que também serei obrigado a deixar de lado aqui.

Num e noutro caso, o relato do mito me leva a pensar no destino da revista Orpheu como proposta estética de revolução, mudança, renovação. Para tanto, farei uma pequena digressão sobre dois trechos de cartas que, a meu ver, ilustram o espírito anunciado pela letra de Orpheu, em seu nascedouro. Atente-se para o fato de que se trata aqui de apresentação sumária e introdutória, um projeto, que vem sendo desenvolvido e que deseja encontrar satisfação em sua demanda.

Merecem ainda destaque duas expressões presentes no relato do mito. A primeira, “trilha íngreme que levava para fora do escuro”, é expressão que pode remeter a uma leitura do perímetro afetivo que circunda a correspondência entre António Nobre e Alberto d’Oliveira – uma das consequências da abordagem aqui apresentada. Esse perímetro só pode ser desenhado por conta da “abertura” que a revista propunha ensejar no cenário cultural português, quando de seu aparecimento. A segunda expressão, “comportamento ambíguo de aconselhar sem poder usufruir do próprio conselho” pode remeter a uma análise do fim da revista, por todos os motivos que se lhe possam atribuir, sem destaque para nenhum. O caráter “ambíguo” marca de novo o direcionamento do olhar homoerótico que é utilizado para ler os trechos de cartas aqui arrolados.

Momento 1

Mário de Sá-Carneiro se mata, em Paris, no dia 26 de Abril de 1916. Fernando Pessoa, apesar disso, não desistiu do terceiro número de Orpheu. Em 4 de Setembro desse ano, escreveu a Côrtes-Rodrigues que a revista deveria sair ainda nesse mês:

Vai sair Orpheu 3. É aí que, no fim do número, publico dois poemas ingleses meus, muito indecentes, e, portanto, impublicáveis em Inglaterra. Outra colaboração do número: Versos do Camilo Pessanha (a propósito não cite isto a ninguém), versos inéditos do Sá-Carneiro, A Cena do Ódio do Almada-Negreiros (que está actualmente homem de génio em absoluto, uma das grandes sensibilidades da literatura moderna), prosa do Albino de Meneses (não sei se v. conhece) e, talvez, do Carlos Parreira, e uma colaboração variada do meu velho e infeliz amigo Álvaro de Campos.

Orpheu 3 trará, também quatro hors-texte do mais célebre pintor avançado português – Amadeu de Sousa Cardoso.

A revista deve sair por fins do mês presente. Para a mala que vem já lhe poderei dar notícias mais detalhadas. (PESSOA, F., 1999: 220-221)

Neste trecho, desejo destacar a informação de que Fernando Pessoa tenciona publicar o que ele chama de “dois poemas ingleses meus, muito indecentes”. Sabe-se que acabaram por aparecer publicados alhures. Mas Álvaro de Campos, um de seus heterônimos, afirma ser, ele mesmo um caso de “temperamento feminino” que conta “com uma inteligência masculina”, em uma de suas páginas íntimas. Isto quer dizer alguma coisa. A frase implícita, de sabor poético, não pode ser lida como simples retórica. Já em algumas Odes, o engenheiro naval se considera “uma inversão sexual frustre”.

Interessante a afirmação de Pessoa. Por que os poemas são impublicáveis em Inglaterra mas o podem ser em Portugal? Guardadas as devidas proporções, pensar o contrário pareceria muito mais plausível. Pareceria, não fosse a afirmativa feita sob a égide da revista Orpheu que, entre outras coisas, a seu modo, propunha a quebra de grilhões estéticos, sociais e (até) morais, vindo a ensejar novos horizontes de expectativa para a Literatura Portuguesa no início do século 20. A referência a Almada Negreiros aqui é, a meu ver, mais uma confirmação inconteste do espírito que animou a publicação. De qualquer maneira, salta aos olhos a referência ao heterônimo: “meu velho e infeliz amigo”!

Álvaro de Campos revela certa avidez recalcada por evadir-se em seu desejo não satisfeito como nos versos “Eu podia morrer triturado por um motor / Com o sentimento de deliciosa entrega duma mulher possuída”. Na “Saudação a Walt Whitman”, em lugar do acento social que Garcia Lorca teria empregado, o heterônimo atesta uma semelhança entre seu desejo ainda indizível e o do “grande pederasta” saudado, revelando uma “vontade (…) / De ser a cadela de todos os cães e eles não me bastam”. O requinte de Campos é mais uma vez a chancela do recalcamento que o sufoca, e a outros sujeitos de então.

Na voz poética de Álvaro de Campos, particularmente na “Ode Triunfal” e na “Ode Marítima”, vemos encenada a emergência desse novo modelo de masculinidade, estabelecida sobre a crise dos valores sociais e estéticos portugueses e europeus – haveria melhor argumento para a “realização” do projeto órfico (em dois dos sentidos do termo) que a revista protagoniza e leva à concretização nos números publicados? Nesses poemas, se concentra um novo sujeito homoeroticamente manifesto: ele não quer ser mulher, como em “Manicure”, de Sá-Carneiro, mas quer ver-se tomado, possuído pela força da masculinidade, não representada por si mesmo, mas pelo mundo moderno. Mais uma vez, o espírito vanguardista e revolucionário, para não dizer transgressivo da revista, se explicita.

Capa da revista orpheu n. 2

Diário coimbrão 34

O périplo pelas “origens” está chegando à sua conclusão. As origens não são minhas, mas da história de amor entre António Nobre e Alberto de Oliveira. Por que é tão difícil a aceitação desse fato: os dois viveram uma história de amor? A cidade de Leça da Palmeira, onde eu estive hoje pela manhã, é testemunha disso. Não apenas testemunha, mas cúmplice, deu aos dois o nome de uma de suas ruas: Rua dos dois amigos. Em todas as placas, abaixo do nome da rua, segue o nome dos dois: António Nobre e Alberto de Oliveira. Nesta ordem. O mais velho e o mais novo. O sedutor e o seduzido. O mestre/exemplo, o discípulo/seguidor. O espevitado e o tímido. O que morreu cedo e o que morreu mais velho… Os dois… Têm uma rua. Amaram-se, com um afeto de amizade ao qual não se ousava dar nome, mas a cidade reconheceu. E ainda há quem torça o nariz…

Rua dos dois amigos de frenteRua dos dois amigos direitaRua dos dois amigos esquerdaRua dos dois amigos

A matriz da cidade lembra a de Matosinhos. Não tem as capelas com as cenas da Via Crucis por fora, mas está no meio de uma bela esplanada, arborizada e fresca, como o nome de outra ruazinha perdida no centro da cidade mítica… pra mim! Não a fotografei por dentro por puro constrangimento: celebrava-se missa de corpo presente. Muito ouro aqui também, mas só no altar mor…

Rua fresca     Igreja de Leça, antiga Igreja de S. Miguel de Moroça

A antiga casa de veraneio dos dois poetas não existe mais. Segundo informações, hoje está edificada em seu lugar a sede do “Clube Stella Maris” que foi inaugurado a 25 de Novembro de 1961 e  é uma criação do “APOSTOLADO DO MAR” – Obra Internacional Pontifícia da Igreja Católica, com o objetivo de dar assistência social, moral e espiritual aos tripulantes e suas famílias pertencentes às marinhas de comércio e de guerra que demandam o porto de Leixões. Depende hierarquicamente do Bispo da Diocese do Porto e da “Comissão Pontifícia para a Pastoral das Migrações e Turismo” da Santa Sé. Pelas indicações que segui a pé, metro por metro, toda aquela área foi aterrada para a expansão da cidade, plana, aberta, arborizada, e à beira mar. Um convite a todo sonho de fantasia, sonho e paixão…

Busto de Augusto NobreCasarão antigoTravessa dos dois amigosUma casinha antiga

A cidade tem como Corpo Santo, o nome de seu cemitério. É bem próxima de porto de Leixões, um dos mais movimentados em carga da Europa. O maior da “terrinha”. Uma gente simples e, pra variar, majoritariamente mais velha… Há uma travessa com o mesmo nome da rua mítica. Possivelmente, o caminho que levava os dois amigos aos “banhos” e aos passeios de barco, no verão. Casarões antigos e casinhas perdidas no tempo. E, claro, um busto de António Nobre!