Diário coimbrão 41

Tenho a impressão de que, pela primeira vez na vida, cheguei perto de experimentar o que é a agorafobia. Sabe-se lá o que é se sentir absolutamente preso no meio de gente absolutamente desconhecida, falando uma língua conhecida, mas com um sotaque muito particular que faz com que as vezes mais pareçam estalidos estranhos. O pior: estar o meio disso sem a menor chance de se movimentar, de se sentar ou de qualquer outra coisa… Foi isso o que se passou comigo na noite de ontem (quinta) para hoje (sexta – já no fim aqui em Sevilha), durante a “Madrugá”. É assim que os “andaluces” chamam a noite de quinta para sexta da semana santa. El jueves santos! À parte isso, o espetáculo foi de encher os olhos, o coração, o espírito e os ouvidos. Houve até início de tumulto, bem `europeia, em tempos de globalização em que um grito e algumas pessoas correndo provocam imediata reação na multidão (rima pobre…!). Não passou de uma brincadeira de mau gosto. As marchas, variando entre as brilhantes e luminosas e as fúnebres e mais pesadas. Dependendo da confraria e do “quadro” que ela apresenta. Parece até escola de samba: tem enredo: a representação de mistérios da paixão de Cristo e as imagens das denominações de Nossa Senhora; tem samba-enredo, que na verdade, são as marchas – com exceção de duas (do grupo que vi) “Silencio” e “El gran poder“. Os passistas formam dois grupos: nazarenos (com chapéus pontudos) e os penitentes (com chapéus sem ponta), a bateria é a banda e os carros alegórico são dois: os “passos”: “Cristo”, com uma cena bíblica ligada à paixão de Cristo e “Pálio”, em que vem a virgem. As alegorias são as bandeiras, os galhardetes, as velas, as cruzes e as placas de cada agremiação dentro da confraria. O carro abre alas é chamado “Cruz de guia“, em bom sotaque andaluz! Na verdade, sem os “costaleros” não havia o espetáculo. Eles são aqueles  (o número varia entre 40 a 80) homens que não aparecem e que sustentam, nas costas – na verdade é mais na cabeça – as pesadas alegorias armadas em plataformas de madeira e muito, mas muito enfeitadas. Quem tiver curiosidade, consulte o Dr. Google e use a expressão “semana santa+sevilla”. Pronto, Miríades de videoclipes vão ser listados. Coloco aqui algumas fotos que fiz. Nelas aparecem mulheres de preto vestidas como sevillanas en la pasión. O traje típico da quinta-feira santa, é variação de uma roupa mais elegante e social que os locais usam na tarde/noite de quinta-feira e, muitas vezes, durante a madrugá. É tradição, é cultura, é educação. Tirei uma foto com três delas: lindas mulheres sevilhanas! Coloco também alguns instantâneos da cidade na tarde do jueves santo!

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Marcante e, por isso mesmo, mais que interessante notar que, durante a passagem de algumas agremiações – notadamente Silencio e El gran poder – o silêncio da plateia é praticamente absoluto. Uma coisa impressionante. Dizem que, não faz muito tempo, as luzes da cidade eram apagadas durante a passagem destas agremiações. Em Salamanca, na sexta-feira da paixão ainda se conserva esta tradução. Aqui em Sevilha, cidade mais festiva, porque larga, iluminada, larga e aberta, as luzes predominam.

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De todas as confrarias La Macarena é a mais popular, a mais querida, a mais esfuziante, a mais arrebatadora. Parece com Nossa Senhora Aparecida no Brasil.

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Diário coimbrão 40

Pois é… Éramos poucos naquela tarde e domingo, esperando a composição do metrô passar. Cada vez mais turistas usam os transportes públicos. Cada vez mais gente, cada vez mais confusão, cada vez mais… Cada vez mais feliz fiquei eu em Lisboa, cidade que me encanta. desta feita, breve retorno a Cascais. Conhecer Alcochete e Montijo, atravessando o Tejo. Descobrir detalhes interessantes em Caldas da Rainha e em Óbidos.

O congresso foi o que eu esperava que fosse. Não bastasse o conferencista da abertura “reetir” que a repetição é o que te tirado o interesse dos estudos de Literatura Portuguesa e, naquela ocasião, da Revista Orpheu… a gelada recepção da plateia na sessão de que participei e a falta de tato do coordenador da mesa foram determinantes para uma constatação (ainda que já conhecida): não dá mais. Estavam lá as figurinhas carimbadas, lá estavam também os “papagaios de pirata”. E havia novidade: queles que “performatizam” a leitura de trechos de poemas, como se isso fosse aumentar a dose de seriedade de sua “investigação”. Patético. Enquanto isso, a cidade continuava colorindo-se com o azul e o verde e o arco-íris vegetal que a Primavera começou a trazer uma vez mais ao solo do planeta… tão desolado, tão desrespeitado, tão negligenciado…

Houve surpresas, é claro: o reencontro com Eunice. Ser reconhecido por antigo membro de banca de concurso e não ser aborddo em Inglês ou Alemão pelo comércio do Freeort, um conuunto de lojas “pontas de estoque” que, de ontas, não tinha nada. Os preços nas alturas. deve ser efeito da crise que assola o país e parte da Europa, pra não dizer do mundo. Surpresa financeira também: um restaurante que reputava como bom e barato, simplesmente dobrou seus preços, assim… Até parece o Brasil que se mede o “valor” e a “qualidade” de qualquer coisa pelo preço. “Se é caro, é bom”. Santa ignorância…

O pelicano e o camaroeiro (espécie de rede para pegar camarão) são os símbolos da rainha Dona Leonor (ou Lianor, como no Trovadorismo e sua época). Rainha caridosa, intelectualizada e ativa. Foi na capela de um hospital por ela mandado construir (se não me engano) que foi representada pela primeira vez o Auto de São Martinho de Gil Vicente. Pisei no mesmo piso em que isto aconteceu. Isn’t it something? No piso da rua de pedestres, em Caldas da Rainha, os símbolos da rainha. estilizados, mas lá, presentes. No mesmo espaço em que se podem ver esculturas em cerâmica e em chocolate ou massa comestível (pastelaria) com símbolos fálicos. Uma delícia. Em Óbidos, a exposição sobre a Semana Santa, espetáculo que deve encher os olhos e o coração quando vivenciado de corpo presente. E, acima de tudo, a grande revelação lisboeta da temporada (só pra mim, claro…): o museu do azulejo. Uma COISA! Depois de circular por uma Lisboa absolutamente desconhecida para os “turistas” de plantão (aqueles que saem do navio e vão direto para o El corte inglés. Como se isso fosse sinal de status.

Dessa vez, a correria (chegada de Lisboa e partida para Sevilha) associou-se à minha proverbial preguiça. As fotos estão aí À disposição de quem quiser gastar empo vendo-as. A imaginação de cada um vai ser o guia!

A cúpula Admirando azulejos Altar lateral 1 Altar lateral 2 Altar Mor Altar visto do coro Detalhe escultura 1 Detalhe escultura 2 Entre azulejos Escultura 1 Escultura 2 Imaculada Inscrição Jardim interno do museu Lisboa panorâmica 1 Lisboa panorâmica 2 Lisboa panorâmica 3 Madre de Deus Materiais e técnicas 1 Materiais e técnicas 2 O claustro O fundo da capel O teto Presépio Retábulo 1 Retábulo 2 Retábulo... de ouro! Sala do capítulo Santo António

Doces 1 Nome de rua O início de tudo N.Sra do Carmo N.Sra do Carmo 1 Doces 2 Cmões no Gordão Cerâmica erótica A primeira casa

Proibir?

Eles são três. Se você está esperando por uma história que defenda uma ideia e consiga demonstrar a sua exequibilidade, desista! Eles são três pessoas normais, quase anormais, de tão corriqueiras. O que eles falam soa, às vezes, falso, mas convence. A beleza da fotografia é permeada de sequências que são “achados”, como a parada no belvedere na saída do Rio de Janeiro. A “cidade maravilhosa” é vista por seus ângulos menos pontuados pelo glamour que certa industria turística, que insiste em vender como certa realidade como “imagem”. Realista, contundente, às vezes margeando o lírico. Mesmo as preocupações “sociais” que poderiam ser apostas ao olhar do espectador, pelas brechas criadas pela narrativa, é uma sequência de imagens que faz pensar e não deixa de ser um trabalho interessante.

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Estou falando de Proibido proibir. Filme dirigido por um chileno, rodado no Brasil, com elenco comportado, competente e que não ronda as instalações do projac à busca de celebridade. Por esse e por outros motivos vale a pena ver o filme. Nele, um estudante de Medicina, faz sua residência no Hospital Universitário, no Fundão. Divide moradia com um estudante de Sociologia que namora uma estudante de Arquitetura. Tudo coerente e convincente. O futuro médico se apaixona e o futuro sociólogo “dança”, mas isso não é o mais importante. O núcleo “social” da película envolve uma família de “sobreviventes”. E é aí que mora o busílis. A violência, a truculência (com o pesar da rima) e a indecorosa impunidade é que “fazem a festa”. Vale apena. Um filme contundente, sem ser apelativo! Quem leu o conto “Dois irmãos”, de Jorge Luis Borges, pode fazer suas comparações e constatar o que o desejo de leitor mandar…

PS: faltou dizer que o filme foi exibido hoje, aui em Zagreb, na abertura de uma mostra de cinema brasileiro, parte das promoções que culminam com o “Dia da Cultura Brasileira”, em 18 de maio. Data aleatória da promoção do International Cooperation Offiice da FFZG.

Ficha técnica

Proibido Proibir, Brasil/Chile, 2006

Gênero: Drama

Tempo: 100 min.

Classificação: 16 anos

Distribuidora: Mais Filmes

Estrelando: Caio Blat, Maria Flor, Alexandre Rodrigues, Edyr Duqui, Adriano de Jesus, Luciano Vidigal, Raquel Pedras

Dirigido por: Jorge Durán

Produzido por: Suzana Amado

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Mais uma surpresa boa

Cal, de acordo com o Dicionário Houaiss, é um substantivo feminino: pó branco constituído principalmente de óxido ou hidróxido de cálcio, usado na construção civil, em fluidos de perfuração, em cerâmicas, na clarificação de óleos, em tintas, revestimento contra fogo, tratamento de água, na manufatura de papel, como adstringente, etc. Qualquer produto (pulverulento, pastoso etc.) resultante da hidratação da cal virgem. Etimologicamente, a palavra vem do latim vulgar – cals (derivado do acusativo) que, por sua vez, vem do latim calx, calcis – cal, pedra de cal, com origem no grego kháliks; provindo pelo espanhol cal. A viagem é longa. De tudo fica um pouco: logo, pode-se acreditar quando dizem que “cal queima”!

A ideia de fim, de morte, de consumição, não passa ao largo quando se pensa nessa palavra. Pensar na palavra, pensar com a palavra. Isso é poesia! É isso o que faz José Luis Peixoto em seu livro Cal. Título sugestivo, sui generis, instigante e inesperado, dado que trata, em sua maior parte, da velhice, aquele período em que tudo parece se acabar, queimar no próprio calor da vida que vai se extinguindo lentamente. Inexorável destino da humanidade! São 17 contos, três poemas e uma peça teatral sobre a velhice. Velhice. Alguma coisa que assusta e instiga, alguma coisa que faz com que muita gente sinta medo; alguma coisa que não agrada a muita gente. Alguma coisa de inevitável!

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A imagem da capa, na edição que li, funde duas fotografias: a mão engelhada de uma pessoa velha e uma parede caiada. Como se a pele daquela mão tivesse a mesma natureza da superfície rugosa daquela parede. Corpo e casa à mercê do tempo, como sinais de uma memória que é sempre o ponto de partida para os textos de José Luís Peixoto. Sejam eles contos, poemas, crônicas ficcionalizadas ou peças de teatro. Cal, editado pela Bertrand é o sexto livro de prosa de Peixoto e reúne 17 contos publicados em jornais e revistas, uma peça teatral. Todos com um tema comum: a velhice; naquilo que tem de belo, de melancólico, de exaltante ou de trágico. No fundo, o autor juntou textos dispersos que só fazia sentido recuperar pelo fato de serem atravessados por unidade temática forte, determinante. O autor sempre escreveu bastante sobre a velhice (há velhos em todos os seus textos), porque é “uma idade muito importante e muito subvalorizada”. O seu interesse literário não se centra na velhice em si mesma, com a sua sabedoria, os seus sobressaltos e rituais, “mas mais na passagem entre as várias idades e a forma como se lida com isso.” Em Cal, à semelhança dos outros livros, os velhos vivem quase sempre num meio rural que José Luís conhece bem, porque viveu até ao fim da adolescência na aldeia de Galveias (concelho de Ponte de Sor). As figuras curvadas que trabalham no campo, fenecem ao desalento da escuridão das casas, vendem uma burra aos ciganos como quem vai para o cadafalso, ou acreditam que a sua horta de sempre cresce no espaço limpo e puro de uma enfermaria hospitalar (ainda que nem sempre, infelizmente, seja assim!). Tudo é, muitas vezes colagem exata de pessoas que o autor conheceu, ou de quem ouviu falar. Há mesmo nomes reais que assomam às páginas, dando uma dimensão humana fortíssima às histórias, várias delas com um assumido cunho autobiográfico: “De certo modo, quis preservar, através da escrita ficcional, a dignidade das pessoas que me fizeram ter consciência de que a velhice não é só uma questão de decadência física. Às vezes é também o exacto contrário disso.”, diz o autor! Há razões mais subterrâneas que levaram Peixoto a escolher o título: Cal. “Não foi só a identificação com o Alentejo, não foi só a brancura, não foi só a ideia de uma espécie de cristalização das casas, que as conserva e as paralisa no tempo. Foi também a noção de que a cal é uma matéria perigosa, uma pedra que ao colocar-se dentro de água ferve, queima e se cai nos olhos cega.” Metáfora perfeita, também, do que é a escrita. Eduardo Prado Coelho diz que “a grande força de José Luís Peixoto está no modo como narra histórias que se dobram para dentro da sua própria loucura e no fio puríssimo de luz com que as vai reunindo e salvando do esquecimento”. Palavras de sabedoria. O texto de José Luis não desmente a acuidade do olhar do crítico. Como fio puríssimo de luz, uma ausência presente atravessa os gestos e as emoções destas figuras. Em cumplicidade com a morte, a vida torna-se mais límpida, talvez mais pura. A luz – força redentora de suas personagens –, é certamente um dos fios condutores do texto. Quem gosta da escrita deste autor português, irá certamente reencontrar palavras e frases ao estilo daquelas que podem ser a razão de se gostar do estilo de escrita de José Luís Peixoto, um estilo bastante característico e que desperta no leitor determinados sentimentos que fazem pensar e reviver memórias ou detalhes esquecidos ou que estão adormecidos. Para quem não conhece, fica a recomendação, com a condição de aconselhar apenas às pessoas que queiram ler algo que lhes faça refletir ou que estejam à procura de algo calmo, estejam à procura de encontrar pessoas simples e com elas reviver determinados momentos das suas vidas, momentos distintos, acontecimentos distintos, personagens semelhantes, mas distintas. Poesia, para dizer tudo numa única palavra.

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Planos

Uma das coisas que pretendo fazer quando voltar para “a terrinha” é comprar uma bandeira do Brasil. Nos feriados nacionais e nas datas “históricas”, vou hasteá-la. Quando estive nos, Estados Unidos, pela primeira vez, constatei in loco o que já havia visto nos filmes: o “nacionalismo” ianque que faz com que praticamente a maioria da população norte-americana tenha uma baneira stars and stripes (ou é o contrário?… Bah!) hasteada em lugar visível – principalmente para quem está de fora ver! Aqui, na terra da gravata, é a mesma coisa. Ontem, dia mundial do trabalho, a cidade estava uma calma só: coisa diferente para esses dias de Primavera, que prenunciam dias ensolarados, para a delícia dos locais. Eu sempre ando à procura de sombra…! Em quase todas as janelas da rua em que moro eu via o escudo e os quadradinhos vermelhos espalhados na simetria azul, vermelha e branca da bandeira croata.

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Pois bem… parece até um ataque tradio de nacionalismo. Pode ser… Claro está que ainda não pensei se haveria necessidade de explicação. Deu-me a vontade. se puder satisfaço-a. E pronto!

A lembrança vem a propósito de um papo que tive com uma amiga, irritada com a estreiteza de visão dos croatas. Ela reclamava que, precisando de um pintor para retocar algumas paredes da casa que aluga – dado que vai se mudar para a Alemnha –, teve de ouvir comentários como: “os pintores daqui não gostam de ‘serviços pequenos’”. Ela não entendeu muito bem o porquê de tamanha asneira. Nem eu… Daí dei asas à imaginação – fundada na observação – e soltei o verbo.

Os croatas são um povo sui generis. recentemente alçados à categoria de nação democrática – com presidente e primeiro ministro, uma espécie de república parlamentarista ou parlamentarismo republicano (não consigo perceber os detalhes “teóricos” para a diferença!) –, sentem-se como adolescentes que saem sozinhos pela primeira vez, à noite, com os amigos: não sabem o que fazer, que atitude tomar, onde colocar as mãos, como proceder quando numa paquera i tako dalje (= e daí por diante!) . Eles não sabem o que fazer com a própria autonomia e não conhecem a espessura semântico-comportamental da palavra “liberdade”.  Absolutamente isolados do “mundo moderno”, durante décadas, graças à famigerada “cortina de ferro” (como outros rincões vizinhos d’aquém e d’além Balcãs), a Croácia começou, desde os anos 90 – década da conclusão de uma guerra étnico-religiosa que dividiu a Antiga Iugoslávia, já órfã de seu “grande pai”, o ditador Tito – a “modernizar-se democraticamente. De tradição agrícola e pastoril, com hábitos recatados, recobertos de uma ingenuidade quase religiosa e de índole absolutamente passiva, esse mesmo povo viu-se cercado por avenidas asfaltadas, prédios altos, música eletrônica, apresentação de shows de “divas” (ainda vou falar sobre a birra que tenho dessa palavra, em certos casos!), campeonatos mundiais de handebol, eleições livres e, at last but at least (de novo: será mesmo nessa ordem?), o projeto de entrada na União Europeia – a “zona euro”, jargão do economês desse lado do mundo. Também tenho dúvidas sobre a eficácia de tal “união” (mas sou quase absolutamente analfabeto em matéria de economês!). De um modo ou de outro, “de repente, não mais que de repente” (Evoé, Vinícius!), essa gente começou a viver em “cidades”, começou a adquirir hábitos “urbanos” e “modernos”… Em uma só palavra: ocidentais. Parece nada para quem ainda não saiu da própria toca, mas… a diferença é imensa.

imageAndam de cabeça baixa, enchem as mesas dos cafés para resolver tudo, misturam cores e padronagens nunca imaginadas antes, não penteiam os cabelos, não conseguem caminhar sem ter um celular na mão, morrem de medo de contato físico, sempre fazem cara de “meu Deus que isso?” quando a gente pergunta alguma coisa, por mais banal que seja. Estranham o fato de eu, um homem, parar na rua para observar uma vitrine com roupas feminias, acreditam que a Croácia é o melhor país do mundo e, nele, Zagreb, um paraíso de bem viver. O homem enytra primeiro deixa que a mulher se vire atrás, sempre atrás. As bolsas das moças são enormes. Os sapatos e tênis dos homens são SEMPRE três ou quatro números maiores (por que será?). A simplicidade e possível charme, que advém da ingenuidade de berço, acabam por serem recobertas por um falso verniz que se percebe no acabamento, nos detalhes, na voracidade do consumo de tudo o que significa moderno, fashion, in, chic e, mais uma vez, tako dalje! Não sei dar a necessária e completa versão verbal para o que percebo, mas tento. O resumo da ópera: um povo calorosamente sui generis! Tenho que assinalar que minhas modestas (e quase inúteis opiniões!) são baseadas pela experiência dde viver na capital e pouquíssimo contato com duas cidades vizinhas: Varazdin e Samobor. Não posso estender isso a todo o país, dourada e encantadoramente banhado pelo Adriático: o mar azul, mais azul que minhas retinas já um tanto cansadas viram e pelo qual o coração bateu um pouco mais acelerado. Nesta semana, faz dois anos que cheguei aqui: um lugar absolutamente desconhecido para mim. Fica aqui, ainda que por linhas tortas, a minha homenagem a esta cidade, por esta data, para mim, tão importante!

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O tempo passa!

O tempo passa… Cronos não dorme no ponto. Sempre foi uma divindade atenta implacável, em muitos sentidos… No entanto, num aspecto ele não consegue interferir: a sabedoria que se acumula com a passagem do tempo, é intocável por ele. Talvez seja de propósito, para que a própria divindade de Cronoa se submeta a alguma coisa bem superior. De um jeito ou de outro, a sabedoria popular, o bom humor e a ironia jamais fizeram, não fazem e jamais farão mal a alguém. Sendo assim, com algumas adptações, aproprio-me de reflexões soltas dela, a sabedoria popular, a que sempre vence Cronos, e subscrevo-me muitos de seus ensinamentos. Pode até servir de consolo para quem anda se sentindo “velho”… Sempre algumas vantagens a se considerar, em qualquer altura da vida.

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Quando se atinge uma certa idade:                                                        – os sequestradores não se interessam mais;                                       – de um grupo de reféns, provavelmente será um dos primeiros a ser libertado;                                                                                             – as pessoas telefonam às nove da manhã e perguntam: “te acordei?”;                                                                                                      – ninguém mais o considera hipocondríaco;
– as coisas compradas não chegarão a ficar velhas;
– é possível viver sem sexo, mas não sem os óculos;
– histórias das cirurgias alheias são interessantes;
– planos de aposentadoria começam a ser matéria de discussão acalorada;
– limites de velocidade não são mais um desafio;
– não importa quem entre na sala, a barriga não precisa mais ficar encolhida;
– a visão não vai piorar muito mais;
– o investimento em planos de saúde finalmente começa a valer a pena;
– cotovelos, joelhos e ombros e dedos passam a ser mais confiáveis do que serviço de meteorologia;
– os segredos passam a estar bem guardados com os amigos: eles sempre esquecem;
– “Uma noite e tanto”, significa não ter sido necessário se levantar para fazer xixi;
– o aviso para ir devagar vem do médico e não do policial;
– “Funcionou” significa que não é preciso ingerir fibras;
– “Que sorte!” significa encontrar o carro no estacionamento do shopping.

Como dizem por aqui: i tako dalje (= e assim por diante…)!

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Pílulas

Há momentos na vida em que a gente perde muito por não ficar calado. Ou, dizendo de outra forma: o peixe morre pela boca.Literalmente! Não fosse a sedução da isca… Pois é… Nesse mundinho que a cada dia fica mais estranho e um tanto inesperado (apesar de eu ser fiel ao princípio de que “a cada ação corresponde uma reação igual e contrária”), pode acontecer de tudo. Uma amiga me disse, certa feita, que ao morrer, queria que seus olhos fossem doados, pois ela ainda não tinha visto tudo… Imagina… Hoje recebi o texto que segue e me fez pensar. Nada como a gente saber o próprio lugar e perceber quando é que está falando demais…

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Uma moça escreveu um email para uma revista financeira pedindo dicas sobre “como arrumar um marido rico”. Contudo, o mais inacreditável é que o “pedido” da moça, foi a disposição de um rapaz que, muito inspirado, respondeu à mensagem, de forma muito bem fundamentada! Sensacional!

Mensagem/email da MOÇA:
Sou uma garota linda (maravilhosamente linda) de 25 anos. Sou bem articulada e tenho classe. Estou querendo me casar com alguém que ganhe no mínimo meio milhão de
dólares por ano. Tem algum homem que ganhe 500 mil ou mais neste site? Ou alguma mulher casada com alguém que ganhe isso e que possa me dar algumas dicas? Já namorei homens que ganham por volta de 200 a 250 mil, mas não consigo passar disso. E 250 mil por ano não vão me fazer morar em Central Park West. Conheço uma mulher (da minha aula de ioga) que casou com um banqueiro e vive em Tribeca! E ela não é tão bonita quanto eu, nem é inteligente. Então, o que ela fez que eu não fiz? Qual a estratégia correta? Como eu chego ao nível dela? (Rafaela S.)

Mensagem/resposta do RAPAZ:
Li sua consulta com grande interesse, pensei cuidadosamente no seu caso e fiz uma análise da situação. Primeiramente, eu ganho mais de 500 mil por ano. Portanto, não estou tomando o seu tempo a toa… Isto posto, considero os fatos da seguinte forma: Visto da perspectiva de um homem como eu (que tenho os requisitos que você procura), o que você oferece é simplesmente um péssimo negócio. Eis o porquê: deixando as firulas de lado, o que você sugere é uma negociação simples, proposta clara, sem entrelinhas : Você entra com sua beleza física e eu entro com o dinheiro. Mas tem um problema. Com toda certeza, com o tempo a sua beleza vai diminuir e um dia acabar, ao contrário do meu dinheiro que, com o tempo, continuará aumentando. Assim, em termos econômicos, você é um ativo sofrendo depreciação e eu sou um ativo rendendo dividendos. E você não somente sofre depreciação, mas sofre uma depreciação progressiva, ou seja, sempre aumenta! Explicando, você tem 25 anos hoje e deve continuar linda pelos próximos 5 ou 10 anos, mas sempre um pouco menos a cada ano. E no futuro, quando você se comparar com uma foto de hoje, verá que virou um caco. Isto é, hoje você está em “alta”, na época ideal de ser vendida, mas não de ser comprada. Usando o linguajar de Wall Street , quem a tiver hoje deve mantê-la como trading position (posição para comercializar) e não como buy and hold (compre e retenha), que é para o quê você se oferece… Portanto, ainda em termos comerciais, casar (que é um buy and ho ld) com você não é um bom negócio a médio/longo prazo! Mas alugá-la, sim! Assim, em termos sociais, um negócio razoável a se cogitar é namorar. Cogitar…Mas, já cogitando, e para certificar-me do quão “articulada, com classe e maravilhosamente linda seja você, eu, na condição de provável futuro locatário dessa “máquina”, quero tão somente o que é de praxe: fazer um test drive antes de fechar o negócio… podemos marcar?

Quem enviou esta mensagem foi um amigo, que ainda não conheço pessoalmente. Ele recebeu do “degas” cujo nome aparece aqui: JOÃO PEREIRA GOMES NETTO // Pretti & Altoé Advogados Associados. Pronto! Coloquei os créditos!