Três vezes Camões

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Mário Cláudio é um escritor interessante. Dele já li alguns livros, um dos quais, soberbo: Retrato de rapaz e o não menos soberbo, As batalhas do Caia. Em ambos, a marca da escrita romanesca deste português bem humorado, de um humor fino e sofisticado, simples no falar e no tratar com o outro. O primeiro trata de história que envolve Leonardo da Vinci e um de seus modelos que, neste caso, enreda-se junto à personagem histórica num labirinto sócio afetivo de refinado cariz. Um exercício de releitura que se repete no outro livro. Neste, a personagem chave é Eça de Queiroz, ou Queirós, ou Queiros, ou ainda Queiróz. Sempre fico na dúvida, dado que já vi as quatro grafias. Confesso: estou com preguiça de ir à estante e buscar a biografia do gajo para ver se lá a explicação se encontra para definir a grafia “correta”. Deixa estar… Desses dois romances pode-se inferir um dos traços característicos da escrita de Mário Cláudio: a tentativa de preenchimento de lacunas que se insinuam nas brechas entre fato biográfico e firulas exegéticas. Neste intervalo, nasce a ficção de Mário Cláudio. No caso de Os naufrágios de Camões (Lisboa, Dom Quixote, 2016, 187) não há chance de decepção. Volume sóbrio, de dimensões que me agradam mais que o comum dos mortais, ilustrado de maneira igualmente sóbria e instigante, o título aparece bem no meio da capa que envolve as páginas de mais uma história fascinante. Pra começo de conversa, aproprio-me do pequeno parágrafo que o portal Leya online disponibiliza:

“Timothy Rassmunsen enceta uma correspondência com Mário Cláudio, na qual defende que o autor d’Os Lusíadas não teria sobrevivido ao naufrágio no delta do Mekong, e o capitão da nau onde viajavam, Bartolomeu de Castro, se teria feito passar por ele, dando continuidade à epopeia. Tão insólito arrazoado, mesmo que alegadamente apoiado nos escritos do explorador britânico Richard Burton, enche Mário Cláudio de desconfiança, mas dá-lhe a ideia de elevar o transtornado Timothy a figura de romance. Uma tragédia impede-o, porém, de perseguir o objectivo. Falho de personagem, vira-se o escritor para Burton, o descobridor das Nascentes do Nilo e tradutor d’Os Lusíadas, narrando-lhe as peripécias na busca de uma das musas do poeta português, e da localização da Ilha dos Amores, ou em delírios mediúnicos nos quais Burton encarna Camões, e conversa com o fantasma de Bartolomeu de Castro. É então altura de dar voz a Ruy, o escrivão de bordo da nau anual da China – aquela que viria a naufragar –, o único que poderá afinal esclarecer-nos sobre o que realmente aconteceu. Poderosamente imaginativo, polémico e inteligente, com um trio de personagens irresistíveis, o romance Os Naufrágios de Camões constitui uma peça literária fascinante.”

Parece que o parágrafo, que bem pode responder pelo epíteto de sinopse, consegue apontar para traços interessantes do romance. É fato. O que este parágrafo não consegue é delinear certas idiossincrasias da narrativa construída por Mário Cláudio, no escopo das páginas que comportam o enredo inesperado. Este último epíteto está aqui por minha conta. Penso que, como eu, muitos dos leitores deste romance jamais supuseram a oportunidade de articular os elementos que Mário Cláudio oferece em seu texto. Timothy Rassmunsen, Richard Burton, Bartolomeu de Castro e Ruy, o escrivão. São quatro, os cavaleiros deste apocalipse ficcional que envolve a figura mater da Literatura Portuguesa, Luis Vaz de Camões. O primeiro é parente de Tiago Veiga que, por sua vez, faz-se personagem de outro romance de Mário Cláudio. Burton, não o ator, mas o viajante, faz-lhe companhia na saga igualmente inusitada que serve de perímetro para a hipótese que sustenta a narrativa: a suposição de que Camões não sobrevive ao naufrágio e que, relacionadamente com isso, faz-se duvidosa a integral autoria da epopeia. Já o escrivão, ainda que amarrado por liames historiográficos, de alguma forma, consolidados e documentalmente comprováveis, ajuda a ecoar a tal hipótese que o fantasma de Bartolomeu de Castro compartilha com o narrador. Neste romance, como em outro do mesmo autor, pode-se encontrar mais que farto material para a discussão acerca desta figura impoluta e nada unânime: o narrador. Cabe a pergunta – mesmo correndo o risco de parecer ingênuo, ainda que sabendo não o ser: será o próprio Mário Cláudio o narrador de seu romance. Aqui, como alhures, a pergunta vai ficar sem resposta. Enquanto isso, mantém-se a oportunidade de ler mais estas páginas fascinantes de um escritor que a cada dia conquista mais respeito e admiração, de minha parte, pelo menos: ainda que isso não chegue a significar alguma coisa…

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31 dias

mês

Um mês. Um mês pode ter 31 dias. Um mês pode ter 29 ou 28 dias, dependendo do fato de o ano ser bissexto ou não. Um mês pode ter 30 dias. Depende… Um mês. Trinta e um dias. Faz um mês (e um dia!) que escrevi por última vez aqui. Preguiça? Claro! Grande novidade… Como diz o adagiário: Tanto faz como tanto fez…

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Sinais de pobreza: levar vizinha, sogra, bebê de colo, cachorro, para fazer compras no supermercado; entrar na fila de 15 itens com dois carrinhos abarrotados; deixar o carrinho entre os automóveis estacionados. Ficar, durante todo este tempo, falando ao celular, usando havaianas (brancas de preferência) com os calcanhares pra fora, bermuda no meio das coxas, as banhas aparecendo nas “cadeiras”, boné com aba virada para trás e falando alto, muito alto…

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Faz assim: não frequente regularmente as aulas da disciplina obrigatória para sua habilitação. Quando estiver “presente”, sente-se com os braços cruzados sobre amochila fechada, olhando histericamente para o professor. Não tome nota de nada. De dez em dez minutos, olhe para o relógio pra ver se o tempo da aulas passou. Terminado o semestre, escreva um texto, sem se preocupar com sintaxe, normas de redação e normas de educação e respeito. Liste os defeitos do professor e as coisas que ele fez que, na sua “opinião”, são faltas graves que prejudicam sua formação. Entregue o papel, sem assinatura, para a coordenação do curso. Esqueça que existem muito mais coisas certas entre o céu e a terra do que sonha sua vã arrogância…

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“- Ó glória de mandar, ó vã cobiça / Desta vaidade a quem chamamos Fama! / Ó fraudulento gosto, que se atiça / Cüa aura popular, que honra se chama! / Que castigo tamanho e que justiça / Fazes no peito vão que muito te ama! / Que mortes, que perigos, que tormentas, / Que crueldades neles experimentas.” (Camões, Os lusíadas, canto IV)

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É isso. Quem sabe amanhã ou depois eu continue. Nada está garantido: como no caso da reforma previdenciária e da trabalhista… Quem viver verá!

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Para LET874

Abaixo, leem-se dois poemas que compõem o livro Mensagem, de Fernando Pessoa (ortônimo). São o primeiro e o último, respectivamente. Leia-os com atenção!!

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BRASÃO

  1. Os campos

O dos castelos

A Europa jaz, posta nos cotovelos:
De Oriente a Ocidente jaz, fitando,
E toldam-lhe românticos cabelos
Olhos gregos, lembrando.

O cotovelo esquerdo é recuado;
O direito é em ângulo disposto.
Aquele diz Itália onde é pousado;
Este diz Inglaterra onde, afastado,
A mão sustenta, em que se apoia o rosto.

Fita, com olhar ’sfíngico e fatal,
O Ocidente, futuro do passado.

O rosto com que fita é Portugal

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NEVOEIRO

Nem rei nem lei, nem paz nem guerra,
Define com perfil e ser
Este fulgor baço da terra
Que é Portugal a entristecer —
Brilho sem luz e sem arder,
Como o que o fogo-fátuo encerra.

Ninguém sabe que coisa quer.
Ninguém conhece que alma tem,
Nem o que é mal nem o que é bem.
(Que ânsia distante perto chora?)
Tudo é incerto e derradeiro.
Tudo é disperso, nada é inteiro.
Ó Portugal, hoje és nevoeiro…

É a Hora!

Valete, Fratres.

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Costumo dizer que este livro de Fernando Pessoa pode ser abordado como uma leitura de Os lusíadas, na perspectiva do Modernismo português, levando-se em consideração o “clima” que se instaura em Portugal (porque deu-se o mesmo na Europa) no período da História geralmente reconhecido como “entre guerras”. Tendo este pressuposto como ponto de partida, deixando de lado – por enquanto! – tudo o que você já leu e ouviu sobre a heteronímia, pense no significado de Os lusíadas para a História e a Literatura de Portugal. A partir destes dois elementos destaque alguns versos dos poemas acima e comente-os, ressaltando o “tom” melancólico que se pode depreender da leitura, Não se esqueça de que a mim importa a SUA opinião, o resultado de SEU raciocínio. Seja franco e sincero e objetivo e escreva como se estivesse dando uma explicação a qualquer outra pessoa, que não a mim! Bom proveito!

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Imagem

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De noite (ou no escuro!), todos os gatos são pardos…

De perto ninguém é igual…

Quem vê cara não vê coração…

As aparências enganam…

Por fora bela viola, por dentro pão bolorento…

O adagiário popular está repleto de expressões similares. Todas elas falam de aparência, de imagem. O verbete no dicionário, não deixa dúvidas, quanto a tratar-se de substantivo feminino, mas…:

– representação, reprodução ou imitação da forma de uma pessoa ou de um objeto; representação de seres que são objeto de culto, de veneração;

estampa, sem caráter de obra original ou rara, que reproduz temas diversos ou, mais esp., motivos religiosos;

– aspecto particular pelo qual um ser ou um objeto é percebido; cena, quadro;

 – reprodução invertida de um ser ou de um objeto, transmitida por uma superfície refletora;

 – reprodução estática ou dinâmica de seres, objetos, cenas etc. obtida por meios técnicos;

 – derivação: sentido figurado: pessoa muito bonita; cromo; aquilo que apresenta uma relação de analogia, de semelhança (simbólica ou real); réplica, retrato, reflexo; pessoa que representa, simboliza ou faz lembrar alguma coisa abstrata; personificação; opinião (contra ou a favor) que o público pode ter de uma instituição ou personalidade;

 – na rubrica: literatura: qualquer maneira particular de expressão literária que tem por efeito substituir a representação precisa de um fato, situação etc. por uma alegoria, visão, evocação etc.;

 – na rubrica: matemática: elemento determinado pela aplicação de uma função em um determinado ponto;

 – na rubrica: óptica: representação de um objeto que emite ou recebe luz e que é formada por raios luminosos que passam por uma lente, espelho ou qualquer outro sistema óptico;

 – na rubrica: psicologia: representação ou reprodução mental de uma percepção ou sensação anteriormente experimentada;

 – na rubrica: psicologia: representação mental de um ser imaginário, um princípio ou uma abstração.

autor

Não é bolinho! No fundo (ou, como dizem os portugueses, “ao fim e ao cabo”) o ponto de fuga é a ideia de imagem. Pela multifacetada gama de nuances semânticas do termo, imagine-se (ops!) a igualmente multifacetada e inumerável gama de variações de sentido que se pode atribuir a seres, acontecimentos, fatos, ideias, etc., em associação com tal substantivo. Para além disso, note-se que se trata de substantivo de gênero feminino, o que levaria a pensar numa outra plausível gama de mais complexa e intrincada composição semântica: a ideia de sedução. Deixo de lado, por ora, tal variação. Parto da ideia de imagem para comentar, ainda que brevemente, um livro que estou terminar de ler. Academicamente falando, deveria terminar a leitura antes de ousar dizer alguma coisa sobre ele, o livro. Não estou na “academia” aqui… O livro se chama “Conquistadores: como Portugal criou o primeiro império global”. Seu ator, Roger Crowley – autor e pesquisador de origem maltesa, estudou Literatura Inglesa em Cambridge e viveu por algum tempo na Grécia e em Istambul, escreveu vários livros populares sobre guerra naval e conquistas de potências europeias nos tempos modernos. Desde 2005, vive em Gloucestershire -, faz uma leitura inesperada, instigante, detalhada e criativa da História das conquistas Portuguesas, sobretudo a já cantada em versos camonianos. O estabelecimento do caminho marítimo para as Índias, feito fenomenal dos lusitanos, é também objeto do escrutínio do autor que, na contramão da História oficial – consideradas aqui as versões documental e literária -, relê uma sequência de episódios, enfatizando a crueldade e a sanha conquistadora dos portugueses neste périplo que definiu os rumos de uma Europa em franco caminho para a Modernidade. Lê-se o livro como se lê um romance bem escrito, muito bem escrito. A intimidade com que trata as personagens – aqui, em seu duplo sentido – é de uma delícia anos-luz distante de qualquer palavra que se possa desejar usar. Não há como descrever. A facilidade com que conduz o leitor pelos meandros do poder naval em pleno séculos XV, XVI e XVII – como eu disse, o rigor acadêmico em sua ausência, aqui, me dá asas… e a imaginação pode voar livre e desimpedida! – faz com que certas “verdades” sejam definitivamente alocadas na categoria de imponderavelmente relativas e discutíveis. Aliás, o propósito do livro pode ser também compreendido como um exercício de afirmação deste axioma. De um jeito ou de outro, para o bem e para o mal, a “IMAGEM” dos portugueses não permanece inalterada depois da leitura do livro. Não ouso afirmar que ela fica manchada. Também não aposto na solene grandiloquência da possibilidade de cristalização de outra imagem: a de heróis. Tudo é absolutamente relativo, como bem demonstra o texto de Crowley. Cada passo, da História, aparece acompanhado, na história, por fatos que podem ou não ser ficcionais – ou inventados se assim o quiser o leitor -, inesperados e reveladores de maldade, da crueldade, do sadismo: tais peculiaridades não são assim tão correntes nas infinitas leituras que até hoje se produziram sobre este passo da História mundial. Unindo o termo “conquistadores” e a expressão “império global”, o intencional sarcasmo hermenêutico a que se entrega o pesquisador de língua inglesa não deixa dúvida sobre o seu ímpeto: contar “outra” história. E nisto não vai nenhuma intenção de desmerecer a História. Longe disso, muito longe. É preciso ter inteligência muito rasa para tomar literalmente as palavras do autor, como bastião de uma derrubada do caráter oficial que nos foi legado, depois de cantado em verso pelo poeta português. O fato permanece: na memória, nos documentos, nos textos que sobre eles se debruçam e a partir dele se escrevem e se escreveram. Eles permanecem como a camada de cera no “bloco mágico”, para lembrar Freud. O livro é extraordinariamente bem escrito, bem fundamentado e delicioso aos olhos de quem sobre ele desliza a atenção das retinas, mesmo que cansadas. Vale a pena!

livro

Sombras

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Estavas, linda Inês, posta em sossego
De teus anos colhendo doce fruito,
Naquele engano da alma ledo e cego,
Que a fortuna não deixa durar muito,
Nos saudosos campos do Mondego,
De teus fermosos olhos nunca enxuito,
Aos montes ensinando e às ervinhas,
O nome que no peito escrito tinhas.
(Camões, III, 120)

Não. Não serve. Com o eco dos passos sobre as placas frias de pedra barroca no assoalho – que em nada e por nada lembram o frio das paredes de pedra dos porões do museu Machado de Castro – minhas memórias de quase vinte anos esboroam-se e não podem ser associadas a versos tão liricamente dramáticos, no caminho da tragédia anunciada. Não. Não hei de manchar o nome da mítica Inês e a mão que a escreve com associações tão mesquinhas. Sobretudo porque, aqui onde estou, hoje, o que me faz ressentir é a decepção e a preguiça de perceber que as cabeças de burro enterradas sob este lugar ainda emanan miasmas invisíveis de retrocesso, inércia, beirando a estupidez que mesquinhamente pauta atitudes e “certezas”… paradoxalmente… incertas… Não. Penso em algo mais trágico e igualmente paradoxal como os versos de Augusto dos Anjos:

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Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão – esta pantera –
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija! (Versos íntimos)

O vai-e-vem de sensações confunde, espanta, encanta – com a devida vênia pela rima paupérrima! A antítese que marca a experiência existencial, em suas nuances mais inusitadas, porque inumeráveis, salta aos olhos do poeta que se desfaz em palavras, em nada e por nada lamentosas, porque conscientes. A sisudez dos sentimentos, porventura ensaiadas em uma leitura plausível, só fazem destacar a beleza de versos explícitos em certeza do que se vive, se sente, se pensa, se constata. Em poucos momentos, as linhas de um poema tocam o olhos do furacão, o coração das trevas do sentimento humano: sua desrazão. Amargura? Não diria. Razão seria mais acertado: a irrecorrível certeza da vida como ela é – muito longe do senso de Nelson Rodrigues. Muito longe mesmo.

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Ainda assim, numa sobreonda descomunal, o reverso da moeda me mostra outros versos, desta vez, de Jorge Luiz Borges:

Tras los fuertes barrotes la pantera
Repetirá el monótono camino
Que es (pero no lo sabe) su destino
De negra joya, aciaga y prisionera.
Son miles las que pasan y son miles
Las que vuelven, pero es una y eterna
La pantera fatal que en su caverna
Traza la recta que un eterno Aquiles
Traza en el sueño que ha soñado el griego.
No sabe que hay praderas y montañas
De ciervos cuyas trémulas entrañas
Deleitarían su apetito ciego.
En vano es vario el orbe. La jornada
Que cumple cada cual ya fue fijada. (La pantera)

Destino e repetição. Ilusão e possibilidade. Caminhos bifurcados que no mundo animal – sem a inútil divisão (aqui) imposta pela diferença impressa por um o prefixo (racional/irracional) marcam o deslindar da percepção de que a vida não se reduz ao que dela ideia se forma. Difícil? Quase impossível: a certeza de que existe a mínima chance de compreensão. Os desvãos da história de cada um acabam por revelar um certo “calcanhar” que, oriundo da mitologia, acaba por enfraquecer a base, o chão, a segurança. O olhar determina a extensão da possibilidade, por isso, a ideia de limite se impõe.

Tudo isso passaria despercebido de qualquer um. Ao contrário de quem caminha por esse chão forrado de lages de pedra fria que guarda segredos inefáveis. Um misto de tristeza e saudade (não são primas, estas sensações?). A certeza de que o tempo esvaído deixa marcas que, por força dele mesmo, vão se desfazendo no olvido de quem anda sem prestar atenção aos passos que dá…

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Leonor

“No 1.º de Fevereiro de 1780 cheguei a Salvaterra, e conheci logo pelo modo com que me recebeu a princesa do Brasil, dona Maria, que a Família Real, não obstante as cartas fulminantes do General de Província e de Aires de Sá, estava muito a meu favor. As Princesas mesmas me facilitaram uma ocasião de poder encontrar a Rainha só. Aproveitei logo dela e disse a sua Majestade, que, vistos os dissabores que o Conde de Oeynhausen tinha. experimentado na província, eu não podia deixar de lembrar-lhe que era debaixo da sua proteção que se tinha feito o meu Casamento e que mais que nunca, precisava que sua Majestade verificasse as esperanças que tão justamente tínhamos concebido e as suas promessas augustas tinham autorizado. Longe de parecer que este meu discurso (a que juntei algumas frases ternas, conformes ao meu estado) tinha produzido um bom efeito sobre a Rainha, achei um modo muito seco e mesmo me pareceu severo, respondeu simplesmente:

– Veremos, e foi andando para diante.”

Seu nome, Leonor de Almeida Lorena e Lencastre, mais conhecida como Marquesa de Alorna. O trecho acima é um pequenino excerto de suas memórias. Em seu tempo, nos círculos literários de então foi conhecida como Alcipe – na mitologia grega, foi uma filha de Ares. Ela sofreu uma tentativa de violação (ou foi seduzida), e Ares se vingou. O julgamento de Ares foi feito no local chamado de Areópago. Logo se vê que não “é pouca porcaria”. Salve o adagiário popular. Para além de biografia conturbada, sofrida e edificantes – ainda que caibam discussões a respeito, como sempre! – a marquesa escreveu poemas. Sonetos. Muitos sonetos. Um deles me chama a atenção:

Eu cantarei um dia da tristeza

por uns termos tão ternos e saudosos,

que deixem aos alegres invejosos

de chorarem o mal que lhes não pesa.

 

Abrandarei das penhas a dureza,

exalando suspiros tão queixosos,

que jamais os rochedos cavernosos

os repitam da mesma natureza.

 

Serras, penhascos, troncos, arvoredos,

ave, ponte, montanha, flor, corrente,

comigo hão-de chorar de amor enredos.

 

Mas ah! que adoro uma alma que não sente!

Guarda, Amor, os teus pérfidos segredos,

que eu derramo os meus ais inutilmente.

 

De cara nos dois primeiros versos do soneto dela, a sombra de Camões: “Eu cantarei de amor tão docemente, // por uns termos em si tão concertados (…)”. Inesperada coincidência? Não creio. Há que se levar em conta que ela escreve dois séculos depois de Camões. Seria exagerado dizer que ela o teria lido? Também não creio. Fato é que alguns preceitos árcades ressumam ao Humanismo que sobeja no poeta de Os lusíadas. A estrutura do soneto da marquesa seria um exemplo a mais de certa proximidade que, aqui e acolá, ainda sustentam hipóteses de que exista a possibilidade de originalidade absoluta. Também não creio nisso. Pelo sim, pelo não, fica a nota. No pensamento árcade – que de certa forma reage de forma, eu diria, virulenta aos males que certo despotismo causaram ao horizonte de expectativas do ambiente cultural lusitano então contemporâneo – a lição humanista parece permanecer como marca de pensamento. Ou mesmo, marca inconsciente – a levar em conta, e a sério, a lição freudiana ilustrada pelo “bloco mágico.

Outro aspecto a chamar minha atenção encontra-se no primeiro terceto do soneto da marquesa: “Serras, penhascos, troncos, arvoredos, // ave, ponte, montanha, flor, corrente, // comigo hão-de chorar de amor enredos.” Começando pelo fim, o “enredo”, de que trata a voz poética do soneto aqui considerado, pode muito bem ser aproximado – pela lente da leitura – aos desencantos melancólicos que a “amiga” escutava da voz queixosa feminina nas cantigas de amigo. “Enredos” por desencontros e acidentes, obstáculos  dificuldades, abandonos e esquecimentos… Em tudo e por tudo, a “coita” da amor se faz ecoar, no que as lágrimas da voz poética no/do soneto lamentam no convite implícito à partilha desse mesmo lamento. Por outro lado, a sequência nominal que remete a elementos da natureza, traz de volta, uma vez mais, a ambiência trovadoresca de certo fazer poético que associava a esses elementos a figura ausente do ser amado, do elemento masculino, a falta que completa o diálogo “feminil” no travestismo poético de que valem os autores das já citadas cantigas de amigo. Explico-me. Lá (Trovadorismo), os elementos da natureza se referem à “ausência presente” do amado: motivo do lamento da voz poética que se faz ouvir em seu preito melancólico e sofrido. Aqui (Arcadismo), os mesmos elementos podem apontar para um dos traços peculiares a esta estética: o ideal de convivência pacífica do homem com a natureza. É pouco? Não creio.

Por essas e por outras é que (ainda) acredito que vale e pena LER!!!

Poemas

Hoje estou com preguiça de escrever. Dizem que a preguiça é o menos grave dos pecados… Por que ela não deixa que você cometa os outros… Pelo sim, pelo não, só não para não ficar sem escrever nada, reproduzo alguns poemas de que gosto…

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Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança:
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança:
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem (se algum houve) as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.

E afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto,
Que não se muda já como soía.

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Soneto da separação

Vinícius de Moraes

De repente do riso fez-se o pranto

Silencioso e branco como a bruma

E das bocas unidas fez-se a espuma

E das mãos espalmadas fez-se o espanto

De repente da calma fez-se o vento

Que dos olhos desfez a última chama

E da paixão fez-se o pressentimento

E do momento imóvel fez-se o drama

De repente não mais que de repente

Fez-se de triste o que se fez amante

E de sozinho o que se fez contente

Fez-se do amigo próximo, distante

Fez-se da vida uma aventura errante

De repente, não mais que de repente

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Longe

Kavafis

Quisera referir essa lembrança…

Mas já se apagou tanto… visto que nada se mantém –

pois longe, nos primeiros anos de minha adolescência, ela jaz.

Uma pele como feita de jasmim…

Aquela noite de agosto – era agosto? – aquela noite…

Mal me lembro agora dos olhos – eram, creio, azuis…

Ah! sim, azuis: um azul de safira.

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O Último Poema

Manoel Bandeira

Assim eu quereria o meu último poema.
Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos
A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.

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Brejo da cruz

Chico Buarque

A novidade

Que tem no Brejo da Cruz

É a criançada

Se alimentar de luz

Alucinados

Meninos ficando azuis

E desencarnando

Lá no Brejo da Cruz

Eletrizados

Cruzam os céus do Brasil

Na rodoviária

Assumem formas mil

Uns vendem fumo

Tem uns que viram Jesus

Muito sanfoneiro

Cego tocando blues

Uns têm saudade

E dançam maracatus

Uns atiram pedra

Outros passeiam nus

Mas há milhões desses seres

Que se disfarçam tão bem

Que ninguém pergunta

De onde essa gente vem

São jardineiros

Guardas-noturnos, casais

São passageiros

Bombeiros e babás

Já nem se lembram

Que existe um Brejo da Cruz

Que eram crianças

E que comiam luz

São faxineiros

Balançam nas construções

São bilheteiras

Baleiros e garçons

Já nem se lembram

Que existe um Brejo da Cruz

Que eram crianças

E que comiam luz