Três leituras II

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O segundo livro da série é de um escritor gaúcho. Creio que já escrevi sobre ele no meu blogue por duas vezes. Já não me lembro. O que me lembro bem é de um imbroglio que envolveu a ele, a mim e a uma senhora portuguesa da Fundação Calouste Gulbenkian. Incidente um tanto desagradável. Lembro-me dele, mas declino da possibilidade de a ele voltar. Muito incômodo. No entanto, este mesmo incômodo fez ficar mais apertado o laço de respeito e admiração que já nutria pelo autor do livro a ser comentado hoje. Gosto dele desde que descobri que é de sua autoria um cartapácio, de deliciosa leitura, intitulado História da Literatura Brasileira. O livro se desenvolve a partir das leituras das obras que o autor fez e que, a partir dela, constrói o fio historiográfico que desenvolve em ais de 600 páginas.  A linguagem fluida e poética do autor fazem da leitura uma delícia. Estou a falar do poeta Carlos Nejar. O imbroglio que me referi acima refere-se a um livro de poesias intitulado Odysseus, o velho. Belíssimo projeto estético sofisticado e luminoso que retoma o mito e faz dele uma leitura mais que sui generis, amalgamada na verve poética do autor gaúcho. O que me traz aqui hoje é, entretanto, um outro livro: carta aos loucos. Difícil dizer do que se trata – no que concerne à famigerada mania de encontrar rótulos e generalizações taxonômicas que facilitam as estatísticas, mas em quase nada contribuem para a LEITURA dos livros. A ficha catalográfica da obra diz que se trata de um romance. Há controvérsias, para dizer o mínimo. A linguagem, marca identitária da obra de Carlos Nejar, revela-se plena e soberba neste livro. O título induz o leitor a uma espécie de experiência cuja frustração em nada é pejorativa ou condenatória. Os parágrafos, muitas vezes constituídos de mais espessa e profunda poesia, acabam por chamar a atenção de quem lê para as nuances, as inter-relações implícitas e explícitas, as referências, as citações, a ironia. Assombro é, às vezes mulher, amante da voz da narrativa que assina Israel Rolando. Por outras vezes é nome da cidade em que se passa o relato. O texto faz lembrar as gestas medievais, pelo uso da didascália e pela erudição nas referências e citações. O cariz poético da frase sobressai, fazendo com que o relato mais se parece (com leveza) aos relatos historiográficos dos cronicões. O Trovadorismo, o romanceiro cavalheiresco, as narrativas medievais fazem par a sofísticos diálogos intertextuais como que há de melhor na poesia clássica, para não falar antiga, o que poderia induzir algum leitor meu a erro de interpretação. Nada há de antigo nesta carta. Da galeria de escritores canônicos, filósofos de matriz, personagens de outras gestas e demais “personagens” que perambulam pela crônica de Israel Rolando cria-se o dramatis personae de que se serve Carlos Nejar para escrever aos loucos. Estes destinatários de uma carta poeticamente inesperada e instigante somos nós e não há necessidade de nos prenderem amarrados a camisas de força em instituições mais que preparadas para evitar fugas indesejadas. O movimento poético do texto é que liberta a loucura que há em cada sintagma, em cada parágrafo, em cada nova reviravolta do relato de Israel Rolando, o que mantém o foco da narrativa com sua voz. Carta aos loucos (2008) é mais velho que Odysseus, o velho (2010). Ainda assim a soberba carpintaria poética de ambos é inigualável. O primeiro pela surpresa e pelo inusitado do exercício narrativo; o segundo, pela beleza da revisitação oferecida em versos. Acrescento para finaliza que a leitura deste livro é mais que prazerosa. Muito, mas muito mesmo!

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Do capítulo das resenhas – final

Resolvi reduzir para duas as etapas de publicação da resenha sobre o livro do Carlos Nejar. Aí vai a segunda (e última!)

Em Odysseus, o velho, a escrita de Carlos Nejar, própria dos poetas que são também videntes, é um tecido denso de imagens e ritmos com efeito dinamizante. Poeta da poesia, mais que do verso – dado que o verso costuma ser perecível – usa e abusa da palavra que fala, ou se cala, para além dos limites do verso: compósito de camadas diversas, que se entrecruzam, se dispersam, retornando sempre ao mesmo estuário, ao mesmo núcleo energético, de onde irrompem, em sequência solidária. A voz poética, no conjunto dos poemas, jamais se deixa enredar nas malhas de um texto enigmático, porque explicitamente referencial. Seu enredo poético alarga o princípio da realidade, alcançando os limites da transparência do mistério cosmogônico, telúrico mesmo. Concentrado e lúcido, o poeta encontra fórmulas exatas, em que irrompem perturbantes visões e vivências, tecendo o texto feito de palavra e sombra: poço das origens, etapa de um Gênesis particular.

Poeta do tempo, do amor, da esperança, da morte e de Deus, Nejar entretece fios de uma mesma urdidura cujo paralelo pode ser encontrado, no exercício pictórico de Bosch, dado que pinta, com palavras, a criação de um mundo arquetípico, rasurado pelo caminhar da cultura no/do Ocidente. Nesta pintura, o poeta gaúcho não denega suas origens: preocupa-se com “a poesia do homem pelo homem”, o que sobressai de seu texto firme, viril, delicado e aberto, como o pampa. A variedade dos temas – amor, elegia, meditação, mística, épica – não significa dispersão, mas o domínio de um sopro poético que se adensa e refina. Não faltam idéias à poética muito particular de Carlos Nejar. O que o destaca é sua capacidade de verbalização geométrica. São as palavras, em sua bem cuidada arquitetura, que revelam a prosa poética, recortada pelo cume da construção dos poemas. Na verdade, o ritmo da frase se parece com a prosa, lírica e visual, que dá consistência a sentimentos e ideias, num ritmo inesperado. Tem-se a impressão de que o texto é a narrativa de um retorno. Este não se deixa recalcar pelas regras de uma poética “clássica”, mas renova-se na sintaxe do verso livre, com ritmo em nada acelerado:

 

Sou teu pai. E dura tão pouco

a vida do homem.

para que não

me reconheças.

 

Ulisses sou

e outro não virá. (p. 63)

 

A pontuação, escassa, é instrumento de organização visual da frase. Sua musicalidade vem da ideia que flui das palavras, criando a sensação de que o caráter prosaico das situações poeticamente desenhadas desmancha a dureza da realidade, tingindo liricamente a intenção da voz poética. Os diálogos, como no trecho acima, ainda que hermeticamente implícitos, revelam o caráter discursivo da épica, sem a subserviência à métrica e à rima. Arrisco afirmar que o sucesso de Camões, com seu trabalho de ourivessaria poética em Os lusíadas, é igualmente alcançado pela aventura textual de Carlos Nejar. Em Língua Portuguesa, ambos atingem o sucesso que só se consolida com o tempo: espécie de desejada eternidade da palavra, quando orquestrada pela mão firme sonhadora do poeta. Poeta completo. A lírica e a épica coexistem na lavra poética do autor gaúcho: regional e universal, lírico e épico, simples e complexo, telúrico e oceânico, sintético e úmido. A linguagem de Nejar tem qualquer coisa de ígneo: consome, ao mesmo tempo que ilumina, a experiência humana do mito fixada no seu verso. Sua arte, reafirmo, é própria dos poetas que são também videntes: um tecido denso de imagens e ritmos. A fusão do épico com o lírico pode explicar o gosto pelo sensível que marca a dicção da voz poética. O tom subjetivo de uma possível épica, que narraria o demiúrgico, “sopra” a forma expressiva da frase.

A confecção de versos adaptáveis à situação e musicais, são propriedades da poesia de Carlos Nejar. Ele sabe dar às vozes que aparecem nos quatro “livros” o barroquismo de sua linguagem poética que hiperboliza, repete cristalizadas antíteses e dá o tom de choque de repulsão para expressar a fugacidade do tempo. Se de outras coisas não falasse, seria o amor uma das linhas mestras da força tanto épica, quanto lírica deste seu livro. Penélope também comparece como “personagem” no contexto da saga lírica enfrentada pelo velho herói em seu retorno, não tanto físico, material, épico, mas, como quer a poesia, um retorno lírico de memória e consumação:

 

Envelheceste

Quando o abraço de Odysseus

Te desabotoou.

O abraço não te poupou.

Envelheceste quando os vinte anos

De peixe de fisgaram pelo meio.

Ou quando vinte faróis

Girassolaram seu casco

De pensamento veleiro.

Sem demorar o acaso

Nas rodas de nau e roca,

Foste rejuvenescendo

Ao findar o abraço, a onda.

E mesmo no arder do gozo,

Alvos azuis sobrevoam

Os corpos. Também o espírito

Plana, jovem. Romã

No galho de onde saltas.

Com amor cerzindo

As abas da manhã. (p. 92)

 

Fica claro nesses versos a alusão fatídica ao amor desesperado do herói por sua escolhida. O mito gera a situação narrativa que os versos do poeta recortam em sintaxe particular. As alusões metonímicas ao mar – “peixe”, “veleiro”, “nau”, “onda”, para ficar com apenas algumas ilações – conotam a viagem do retorno à ilha desejada, assim como, por tabela, a memória das vicissitudes da busca desesperada na viagem de ida. O tecer de Penélope – metonimizado no substantivo “roca” e no gerúndio “cerzindo”, para além de referenciar a mulher, remetem à ideia de tempo, de fluxo contínuo de acontecimentos e situações que demarcam o território da própria existência. A plasticidade da frase, quebrada em versos que podem ser considerados “irregulares”, não prescinde do ritmo que vem, antes, do movimento das ideias por eles veiculadas. A substituição da tradição rimático-métrica não se faz sentir, dado que o fluxo lírico do discurso se consolida na referência sempre segura ao mito, em todas as suas variações. Os versos destacados são apenas pequena amostra do universo de fantasias e experiências sensoriais que a leitura do livro de Nejar oferece ao leitor. Fica o convite para esta aventura repleta de prazer e sedução.

 

[Recebido em novembro de 2011 e aceito para publicação em junho de 2012]

NEJAR, Carlos. Odysseus, o velho: poemas. Porto Alegre: CiaE, 2010.

Do capítulo das resenhas

Já faz uns dias, eu escrevi sobre um livro de poesia de Carlos Nejar, sobre o qual escrevi uma recensão – para ficar com o termo usado pela revista onde o texto seria publicado, a Colóquio Letras. Pois bem. Resolvi publicar, uma vez mais, aqui – agora sem a preocupação de normas de ABNT, citações e referência e submissão a revistas indexadas pelo Qualis, dada minha aposentadoria. Como são cinco páginas, penso que é melhor publicar em três etapas. Aí vai a primeira:

 

FANTASMAS, INFLUÊNCIAS, INSPIRAÇÕES:
ODYSSEUS, O VELHO, DE CARLOS NEJAR

 

… E o auxílio luxuoso de um pandeiro… (Luiz Melodia, Juventude transviada)

O adjetivo sofisticado é comumente utilizado em muitas situações. Eu diria que, sobretudo, naquelas em que a visualidade é o sentido mais instigado a agir. Um restaurante sofisticado – pela comida e pelo ambiente, com tudo o mais que o circunda: uma roupa sofisticada, modos sofisticados, festa sofisticada. Um adjetivo “comum” que se relaciona sempre a situações, pessoas e/ou ideias sempre tidas como “mais elabor adas”, diferentes, nada comuns. O estranho é que – na espessura semântica que o discurso de Freud imprimiu ao vocábulo -, no dicionário, o verbete apresenta cinco acepções inesperadas para a palavra. O adjetivo, formado pelo particípio de um verbo transitivo direto remete à ideia de falsificação, burla, afetação, engano, adulteração, rebuscamento – no sentido pejorativo. Nada mais estranho quando se pensa nas situações corriqueiras em que este vocábulo é utilizado. Prova de que a linguagem é manhosa e não se deixa “dominar”, de maneira alguma!

Entretanto, quando se pensa exatamente nela, a linguagem, o equívoco se desfaz, uma vez que as acepções apontam para ideias de requinte, originalidade, bom gosto, conhecimento profundo sobre a matéria de que se trata, avanço, eficiência e aprimoramento. É este o diapasão que me dá o tom do presente texto de recensão: exercício de exame crítico da obra em epígrafe. Aliás, esta aponta para uma aparente contradição de sabor bakhtiniano: “o auxílio luxuoso de um pandeiro”. Os grifos, meus, ressaltam a aparente falta de sintonia entre os dois termos. O luxo de um pandeiro está associado à ideia de carnaval que, como festa popular, aposta na aparência desse mesmo luxo: uma fantasia para a comemoração do tríduo momesco, principalmente no Brasil. O pandeiro, instrumento popular, marca o ponto de fuga do luxo que, na letra da música de Luiz Melodia, compõe a harmonia de uma vida simples, típica da favela carioca, cenário exuberante da criação do samba, herança cultural de priscas eras. É sob esta perspectiva que venho apresentar a obra de Carlos Nejar.

A primeira impressão que tenho é a de que Camões, Dante, Homero e, em certa medida, Cervantes, passeiam pelo texto do poeta gaúcho de maneira sutil, elaborada e eficiente. Portanto, eu poderia dizer que se trata de um texto sofisticado. Odysseus, o velho é um emaranhado de referências míticas, históricas, literárias que enredam um discurso elaborado. Sua construção tange a beleza plástica da palavra. Trata-se da elaboração poética de uma epopeia, sem, necessariamente, seguir os passos clássicos do gênero. No entanto, a “essência” deste transparece clara e lucidamente em cada linha do longo poema. Estruturado em quatro conjuntos de poemas – em números variados -, remodelam a saga de um herói legendário em suas reflexões sobre a vida, suas relações, seus feitos, a mulher, o amor e a família. Cronos é a divindade que conduz o texto nas entrelinhas, tornando possível ler todo o volume “sofisticado” e primorosamente encadernado. O leitor saberá em que sentido utilizo, aqui, o adjetivo.

Carlos Nejar, membro da Academia Brasileira de Letras, é considerado um dos 37 escritores epigonais do período compreendido entre 1890-1990. Ele constrói uma voz poética emblemática e universal, de original e abundante produção lírica. O poeta encarna, de maneira muito convincente, ainda que modesta e discretamente, a síntese, sobejamente desejada e raramente alcançada, entre inovação e tradição, entre a crítica do mal-estar e a esperança. A figura do mito e da personagem que o encarna, na epopeia clássica revisitada, é uma espécie de porta-voz da simplicidade da dicção poética do autor – exata, mas sugestiva, crítica e esperançada. A criação poética do texto, intensa e passional, atinge o ápice da solidariedade humana. A figura esboçada pelas linhas dos poemas oscila entre a loucura e a santidade: espécie de túnel visualmente delirante e, simultaneamente, terrível, que leva o leitor a repensar a experiência subjetiva de um desesperado amor.

Nejar usa o discurso alegórico, gerando outra realidade paralela que redimensiona e refaz a argamassa verbal da realidade real, ora para criticá-la, ora para satirizá-la, mas sempre de forma a celebrar a experiência da existência humana, nas ondas da poesia. O poeta redimensiona os modelos e paradigmas da crítica literária, talvez com a intenção secretamente irônica de dissolvê-los todos, instaurando potente anarquia nos movimentos poéticos que orquestra. Sua poesia irriga o território tão reflorestado da linguagem, provocando certo translado semântico: tráfego e trânsito de símbolos, transferência de sentidos outros, sempre procurados pelo fazer poético.

(… continua)

Aves, insetos e letras

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Já faz um tempo, recebi uma mensagem de correio eletrônico de uma amiga de Niterói. Ela perguntava se podia eu substituir um outro colega na redação de uma recensão de um livro de poesia recentemente lançado no Brasil. A recensão seria publicada na prestigiada revista Colóquio Letras, de Lisboa, sob a tutela da não menos prestigiosa Fundação Calouste Gulbenkian. Aceitei. Mais alguns dias e recebi outra mensagem, desta feita do autor do livro, Carlos Nejar, para pedir meu endereço postal para o envio do livro que recebi autografado: uma honra. O terceiro contato foi da responsável pela edição, uma senhora, a princípio, muito educada. O bom senso me leva a não citar seu nome, por decoro. Fiz a recensão e enviei ao autor que se sentiu honrado. O livro, Odysseus, o velho (2010). Uma leitura delicada e instigante do retorno do herói, na perspectiva da epopeia clássica. Aí começou o inferno ou, antes, uma das manifestações do que quer que seja o inferno. O texto foi e voltou três vezes. A editora chefe devolveu, por primeiro, afirmando que o texto estava muito opinativo, muito pessoal. Da segunda vez, depois que submeti o texto a um tratamento mais “objetivo” – alguém na face da terra é capaz de definir o que é isso… eu sou incapaz… – foi devolvido, dizendo que não alcançava o seu objetivo. Uma terceira vez ele foi reenviado e igualmente devolvido, desta feita, sob a chancela de impróprio para a publicação por não e tratar de uma recensão. Enviei todas as mensagens ao autor que, enraivecido, escreveu dizendo da impropriedade – tento, aqui e assim, sintetizar a caudalosa sequência de críticas feitas pelos poetas – dos “pareceres” de tão prestimosa revista. Não contente, o poeta escreveu para Portugal, desancando a revista em função de sua resistência à minha recensão, e proibindo a publicação de qualquer outra sobre este seu livro. Ouvi, da amiga que por primeiro me convidou a observação me criticando por ter provocado esta situação. Por ironia do destino, quase cruzei com a dita editora portuguesa, em Lisboa, na sede da Fundação, por conta de um congresso do qual ambos participávamos. Cheguei ao balcão de vendas de livros, segundos depois que ela de lá saíra. Creio que cheguei a cruzar com ela sem saber que dela se tratava… Ainda bem!

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Pois muito bem. Esta história vem a lume por conta do imenso prazer que me causou a leitura de um livro para mim enviado por seu autor, o Dirceu Magri. O livro se intitula De borboletas e colibris em sobrevoo: presença francesa nas crônicas machadianas. Livro corajoso, sobretudo, pela escolha de seu corpus: o volátil texto da crônica. O adjetivo aqui não é pejorativo. Antes, aponta para a natureza do gênero que ainda carece de certa “definição”, ainda que eu continue questionando a necessidade disso. A crônica é gênero sagaz por natureza. Como a água, não se deixa conter facilmente. O fascínio que causa em seu leitor particular o autor do livro que li, faz com que o seu próprio texto também acompanhe essa peculiaridade. Uma escrita leve, fácil, escorreita, cristalina que passeia com altivez e prazer entre o texto das crônicas de Machado de Assis e o pensamento dos autores franceses pelo autor considerados. Uma delícia a análise que faz da crônica publicada em A Semana, a 5 de agosto de 1894. Esta análise, na leitura que fiz do livro, serve de trampolim bem balanceado para o passeio que Dirceu empreende, pelas veredas da estética da recepção – mesmo que consideravelmente implícita –, no intuito de mapear as fontes e as influências que podem ser percebidas quando da abordagem comparativa dos textos de Machado de Assis e o que dizem os autores franceses em seu pensamento. A estrutura dos livros se faz a partir do nome dos pensadores escolhidos: Voltaire, Rousseau e Diderot. Os três primeiros capítulos ensejam uma abordagem teórico-crítica do gênero, fazendo o desenho contextual do conceito, algo próximo do exercício filosófico de Foucault, sobretudo em As palavras e as coisas. Segue um capítulo sobre o século XVIII, apresentado como seara onde vicejaram as ideias que, inúmeras vezes influenciaram o escritor brasileiro. A “ata finda” do livro retoma a visada do século XVIII ponto de fuga da argumentação sagaz, divertida e sofisticada de Dirceu Magri. Manda o protocolo que se aponte defeitos. Isso é muito chato. Mais chato ainda quando tais defeitos não se apresentam. Antes de mais nada, é imprescindível definir “defeito” para só depois utilizar o conceito, o tópico, a variável, na análise do corpus que se apresenta. Claro está que o livro de Dirceu Magri não é perfeito, pelo simples fato de que perfeição não existe. Assim sendo, cumpre-me dizer que não encontre qualquer resquício de defeito ou problema. Talvez um incômodo aqui e ali, do tipo que se faz perceber, mas não interfere, não compromete. O livro de Dirceu Magri cumpre o que promete. E o faz com graça e elegância, o que se pode perceber já no título da obra, tópico retomado na parte final do livro. As borboletas – que não denegam sua origem de pulpa – e os colibris que se sustentam no ar como por mágica ilustram de maneira leve e graciosa – bem ao gosto do século XVIII – o pensamento arguto, sagaz e divertido de Dirceu Magri. Uma leitura inolvidável!

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Releitura

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Já fiz algumas resenhas de livros que li. Umas a pedido, outras a convite, muitas sob submissão (ih… uma cacofonia? Deixa pra lá…) Há vários tipos, para vários gostos, sobre as mais diversas espécies de textos. Uma das que mais gostei foi feita a convite da Revista Colóquio Letras, de Portugal. Foi um trabalhão. Recebi o livro (autografado do poeta). Li. Reli. Li de novo,. Fiz a resenha. Mandei para a editora da revista que devolveu dizendo que o texto estava opinativo demais. Reescrevi. Mandei de novo. Voltou, desta feita, com a reprimenda de que faltou caráter “científico”. Reescrevi uma terceira vez e voltou uma vez mais. Agora a desculpa era de que o texto estava subjetivo. Daí enfezei. Mandei para uma amiga, para ler e cortar tudo que apontasse para caráter “subjetivo” na porcaria do texto. A mulher disse que não poderia publicar porque não atendia aos reqisitos da revista. Mas o convite veio de lá, por indicação… Mandei mensagem para o poeta, com quem me relaciono virtualmente. Ele ficou uma fúria. escreveu carta de desagravo, a meu favor, e proibiu a revista a publicar o que quer que fosse sobre sua obra. Tomou as minhas dores. Fiquei envaidecido e assustado. Consegui publicar alhures, para gratificação minha e do poeta. Este texto é o que segue. O poeta é o Carlos Nejar, gaúcho que, até prova em contrário, vive em Vitória-ES. Ele é pai de outro poeta: Carpinejar. Tomara que seja de agrado…

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Fantasmas, influências, inspirações: Odysseus, o velho, de Carlos Nejar

Resumo

Apresentação de livro de poesia do escritor Carlos Nejar. O texto apresenta a obra poética que revisita o mito de Odisseu, no contexto da cultura greco-latina. Visão lírico-épica do mito, revisitada pelo poeta que descreve pensamentos, conversas, considerações da personagem clássica, no percurso de seu retorno épico. Texto de plasticidade inquestionável, constituído de linguagem poética marcada por experimentação estética personalíssima, escapando de classificações convencionais, em linguagem musical eloquente e imagerie fascinante. O autor debruça-se sobre tema já revisitado de maneira única, desenvolvendo discurso poético de ritmo singular. A obra de Carlos Nejar enseja viagem poética sobre incursões intimistas da personagem épica, deixando entrever sugestões e constatações subjetivas que revisitam o mito recobrindo-o de imagens que desvelam visão contemporânea sobre a experiência existencial. Os poemas constituem exercício poético que “narra” a trajetória de Ulisses como sujeito que se debruça sobre seu próprio destino, na aventura de descobrir-lhe sentido, sem avaliações e/ou julgamentos.

Palavras-chave: Odisseu, epopeia, poesia, Carlos Nejar, experiência

O adjetivo sofisticado é comumente utilizado em muitas situações. Eu diria que, sobretudo, naquelas em que a visualidade é o sentido mais instigado a agir. Um restaurante sofisticado – pela comida e pelo ambiente, com tudo o mais que o circunda: uma roupa sofisticada, modos sofisticados, festa sofisticada. Um adjetivo “comum” que se relaciona sempre a situações, pessoas e/ou ideias sempre tidas como “mais elaboradas”, diferentes, nada comuns. O estranho é que – na espessura semântica que o discurso de Freud imprimiu ao vocábulo –, no dicionário, o verbete apresenta cinco acepções inesperadas para a palavra. O adjetivo, formado pelo particípio de um verbo transitivo direto remete à ideia de falsificação, burla, afetação, engano, adulteração, rebuscamento – no sentido pejorativo. Nada mais estranho quando se pensa nas situações corriqueiras em que este vocábulo é utilizado. Prova de que a linguagem é manhosa e não se deixa “dominar”, de maneira alguma!

Entretanto, quando se pensa exatamente nela, a linguagem, o equívoco se desfaz, uma vez que as acepções apontam para ideias de requinte, originalidade, bom gosto, conhecimento profundo sobre a matéria de que se trata, avanço, eficiência e aprimoramento. É este o diapasão que me dá o tom do presente texto de recensão: exercício de exame crítico da obra em epígrafe. Aliás, esta aponta para uma aparente contradição de sabor bakhtiniano: “o auxílio luxuoso de um pandeiro”. Os grifos, meus, ressaltam a aparente falta de sintonia entre os dois termos. O luxo de um pandeiro está associado à ideia de carnaval que, como festa popular, aposta na aparência desse mesmo luxo: uma fantasia para a comemoração do tríduo momesco, principalmente no Brasil. O pandeiro, instrumento popular, marca o ponto de fuga do luxo que, na letra da música de Luiz Melodia, compõe a harmonia de uma vida simples, típica da favela carioca, cenário exuberante da criação do samba, herança cultural de priscas eras. É sob esta perspectiva que venho apresentar a obra de Carlos Nejar.

A primeira impressão que tenho é a de que Camões, Dante, Homero e, em certa medida, Cervantes, passeiam pelo texto do poeta gaúcho de maneira sutil, elaborada e eficiente. Portanto, eu poderia dizer que se trata de um texto sofisticado. Odysseus, o velho é um emaranhado de referências míticas, históricas, literárias que enredam um discurso elaborado. Sua construção tange a beleza plástica da palavra. Trata-se da elaboração poética de uma epopeia, sem, necessariamente, seguir os passos clássicos do gênero. No entanto, a “essência” deste transparece clara e lucidamente em cada linha do longo poema. Estruturado em quatro conjuntos de poemas – em números variados –, remodelam a saga de um herói legendário em suas reflexões sobre a vida, suas relações, seus feitos, a mulher, o amor e a família. Cronos é a divindade que conduz o texto nas entrelinhas, tornando possível ler todo o volume “sofisticado” e primorosamente encadernado. O leitor saberá em que sentido utilizo, aqui, o adjetivo.

Carlos Nejar, membro da Academia Brasileira de Letras, é considerado um dos 37 escritores epigonais do período compreendido entre 1890-1990. Ele constrói uma voz poética emblemática e universal, de original e abundante produção lírica. O poeta encarna, de maneira muito convincente, ainda que modesta e discretamente, a síntese, sobejamente desejada e raramente alcançada, entre inovação e tradição, entre a crítica do mal-estar e a esperança. A figura do mito e da personagem que o encarna, na epopeia clássica revisitada, é uma espécie de porta-voz da simplicidade da dicção poética do autor – exata, mas sugestiva, crítica e esperançada. A criação poética do texto, intensa e passional, atinge o ápice da solidariedade humana. A figura esboçada pelas linhas dos poemas oscila entre a loucura e a santidade: espécie de túnel visualmente delirante e, simultaneamente, terrível, que leva o leitor a repensar a experiência subjetiva de um desesperado amor.

Nejar usa o discurso alegórico, gerando outra realidade paralela que redimensiona e refaz a argamassa verbal da realidade real, ora para criticá-la, ora para satirizá-la, mas sempre de forma a celebrar a experiência da existência humana, nas ondas da poesia. O poeta redimensiona os modelos e paradigmas da crítica literária, talvez com a intenção secretamente irônica de dissolvê-los todos, instaurando potente anarquia nos movimentos poéticos que orquestra. Sua poesia irriga o território tão reflorestado da linguagem, provocando certo translado semântico: tráfego e trânsito de símbolos, transferência de sentidos outros, sempre procurados pelo fazer poético.

Em Odysseus, o velho, a escrita de Carlos Nejar, própria dos poetas que são também videntes, é um tecido denso de imagens e ritmos com efeito dinamizante. Poeta da poesia, mais que do verso – dado que o verso costuma ser perecível – usa e abusa da palavra que fala, ou se cala, para além dos limites do verso: compósito de camadas diversas, que se entrecruzam, se dispersam, retornando sempre ao mesmo estuário, ao mesmo núcleo energético, de onde irrompem, em sequência solidária. A voz poética, no conjunto dos poemas, jamais se deixa enredar nas malhas de um texto enigmático, porque explicitamente referencial. Seu enredo poético alarga o princípio da realidade, alcançando os limites da transparência do mistério cosmogônico, telúrico mesmo. Concentrado e lúcido, o poeta encontra fórmulas exatas, em que irrompem perturbantes visões e vivências, tecendo o texto feito de palavra e sombra: poço das origens, etapa de um Gênesis particular.

Poeta do tempo, do amor, da esperança, da morte e de Deus, Nejar entretece fios de uma mesma urdidura cujo paralelo pode ser encontrado, no exercício pictórico de Bosch, dado que pinta, com palavras, a criação de um mundo arquetípico, rasurado pelo caminhar da cultura no/do Ocidente. Nesta pintura, o poeta gaúcho não denega suas origens: preocupa-se com “a poesia do homem pelo homem”, o que sobressai de seu texto firme, viril, delicado e aberto, como o pampa. A variedade dos temas – amor, elegia, meditação, mística, épica – não significa dispersão, mas o domínio de um sopro poético que se adensa e refina. Não faltam idéias à poética muito particular de Carlos Nejar. O que o destaca é sua capacidade de verbalização geométrica. São as palavras, em sua bem cuidada arquitetura, que revelam a prosa poética, recortada pelo cume da construção dos poemas. Na verdade, o ritmo da frase se parece com a prosa, lírica e visual, que dá consistência a sentimentos e ideias, num ritmo inesperado. Tem-se a impressão de que o texto é a narrativa de um retorno. Este não se deixa recalcar pelas regras de uma poética “clássica”, mas renova-se na sintaxe do verso livre, com ritmo em nada acelerado:

 

Sou teu pai. E dura tão pouco

a vida do homem.

para que não

me reconheças.

Ulisses sou

e outro não virá. (p.63)

 

A pontuação, escassa, é instrumento de organização visual da frase. Sua musicalidade vem da ideia que flui das palavras, criando a sensação de que o caráter prosaico das situações poeticamente desenhadas desmancha a dureza da realidade, tingindo liricamente a intenção da voz poética. Os diálogos, como no trecho acima, ainda que hermeticamente implícitos, revelam o caráter discursivo da épica, sem a subserviência à métrica e à rima. Arrisco afirmar que o sucesso de Camões, com seu trabalho de ourivesaria poética em Os lusíadas, é igualmente alcançado pela aventura textual de Carlos Nejar. Em Língua Portuguesa, ambos atingem o sucesso que só se consolida com o tempo: espécie de desejada eternidade da palavra, quando orquestrada pela mão firme sonhadora do poeta. Poeta completo. A lírica e a épica coexistem na lavra poética do autor gaúcho: regional e universal, lírico e épico, simples e complexo, telúrico e oceânico, sintético e úmido. A linguagem de Nejar tem qualquer coisa de ígneo: consome, ao mesmo tempo que ilumina, a experiência humana do mito fixada no seu verso. Sua arte, reafirmo, é própria dos poetas que são também videntes: um tecido denso de imagens e ritmos. A fusão do épico com o lírico pode explicar o gosto pelo sensível que marca a dicção da voz poética. O tom subjetivo de uma possível épica, que narraria o demiúrgico, “sopra” a forma expressiva da frase.

A confecção de versos adaptáveis à situação e musicais, são propriedades da poesia de Carlos Nejar. Ele sabe dar às vozes que aparecem nos quatro “livros” o barroquismo de sua linguagem poética que hiperboliza, repete cristalizadas antíteses e dá o tom de choque de repulsão para expressar a fugacidade do tempo. Se de outras coisas não falasse, seria o amor uma das linhas mestras da força tanto épica, quanto lírica deste seu livro. Penélope também comparece como “personagem” no contexto da saga lírica enfrentada pelo velho herói em seu retorno, não tanto físico, material, épico, mas, como quer a poesia, um retorno lírico de memória e consumação:

 

Envelheceste

Quando o abraço de Odysseus

Te desabotoou.

O abraço não te poupou.

Envelheceste quando os vinte anos

De peixe de fisgaram pelo meio.

Ou quando vinte faróis

Girassolaram seu casco

De pensamento veleiro.

Sem demorar o acaso

Nas rodas de nau e roca,

Foste rejuvenescendo

Ao findar o abraço, a onda.

E mesmo no arder do gozo,

Alvos azuis sobrevoam

Os corpos. Também o espírito

Plana, jovem. Romã

No galho de onde saltas.

Com amor cerzindo

As abas da manhã. (p. 92)

 

Fica claro nesses versos a alusão fatídica ao amor desesperado do herói por sua escolhida. O mito gera a situação narrativa que os versos do poeta recortam em sintaxe particular. As alusões metonímicas ao mar – “peixe”, “veleiro”, “nau”, “onda”, para ficar com apenas algumas ilações – conotam a viagem do retorno à ilha desejada, assim como, por tabela, a memória das vicissitudes da busca desesperada na viagem de ida. O tecer de Penélope – metonimizado no substantivo “roca” e no gerúndio “cerzindo”, para além de referenciar a mulher, remetem à ideia de tempo, de fluxo contínuo de acontecimentos e situações que demarcam o território da própria existência. A plasticidade da frase, quebrada em versos que podem ser considerados “irregulares”, não prescinde do ritmo que vem, antes, do movimento das ideias por eles veiculadas. A substituição da tradição rimático-métrica não se faz sentir, dado que o fluxo lírico do discurso se consolida na referência sempre segura ao mito, em todas as suas variações. Os versos destacados são apenas pequena amostra do universo de fantasias e experiências sensoriais que a leitura do livro de Nejar oferece ao leitor. Fica o convite para esta aventura repleta de prazer e sedução.

Referência: NEJAR, Carlos. Odysseus, o velho: poemas. Porto Alegre: CiaE, 2010. 140 p.

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Complemento

Ontem, afoito por dizer o que me vinha aos borbotões à memória, acabei por esquecer de colocar o texto da resenha a que me referi. Já tive hoje o prazer de receber comentários, o que me deixa mais animado a continuar. Confesso que é um tanto extensa (5 páginas). Talvez demais para os parâmetros de uma postagem…Sem mais delongas, segue a resenha:

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Fantasmas, influências, inspirações: Odysseus, o velho, de Carlos Nejar (NEJAR, Carlos. Odysseus, o velho: poemas. Porto Alegre: CiaE, 2010. 140 p.)

… E o auxílio luxuoso de um pandeiro… (Luiz Melodia, Juventude transviada)

O adjetivo sofisticado é comumente utilizado em muitas situações. Eu diria que, sobretudo, naquelas em que a visualidade é o sentido mais instigado a agir. Um restaurante sofisticado – pela comida e pelo ambiente, com tudo o mais que o circunda: uma roupa sofisticada, modos sofisticados, festa sofisticada. Um adjetivo “comum” que se relaciona sempre a situações, pessoas e/ou ideias sempre tidas como “mais elaboradas”, diferentes, nada comuns. O estranho é que – na espessura semântica que o discurso de Freud imprimiu ao vocábulo –, no dicionário, o verbete apresenta cinco acepções inesperadas para a palavra. O adjetivo, formado pelo particípio de um verbo transitivo direto remete à ideia de falsificação, burla, afetação, engano, adulteração, rebuscamento – no sentido pejorativo. Nada mais estranho quando se pensa nas situações corriqueiras em que este vocábulo é utilizado. Prova de que a linguagem é manhosa e não se deixa “dominar”, de maneira alguma!

Entretanto, quando se pensa exatamente nela, a linguagem, o equívoco se desfaz, uma vez que as acepções apontam para ideias de requinte, originalidade, bom gosto, conhecimento profundo sobre a matéria de que se trata, avanço, eficiência e aprimoramento. É este o diapasão que me dá o tom do presente texto de recensão: exercício de exame crítico da obra em epígrafe. Aliás, esta aponta para uma aparente contradição de sabor bakhtiniano: “o auxílio luxuoso de um pandeiro”. Os grifos, meus, ressaltam a aparente falta de sintonia entre os dois termos. O luxo de um pandeiro está associado à ideia de carnaval que, como festa popular, aposta na aparência desse mesmo luxo: uma fantasia para a comemoração do tríduo momesco, principalmente no Brasil. O pandeiro, instrumento popular, marca o ponto de fuga do luxo que, na letra da música de Luiz Melodia, compõe a harmonia de uma vida simples, típica da favela carioca, cenário exuberante da criação do samba, herança cultural de priscas eras. É sob esta perspectiva que venho apresentar a obra de Carlos Nejar.

A primeira impressão que tenho é a de que Camões, Dante, Homero e, em certa medida, Cervantes, passeiam pelo texto do poeta gaúcho de maneira sutil, elaborada e eficiente. Portanto, eu poderia dizer que se trata de um texto sofisticado. Odysseus, o velho é um emaranhado de referências míticas, históricas, literárias que enredam um discurso elaborado. Sua construção tange a beleza plástica da palavra. Trata-se da elaboração poética de uma epopeia, sem, necessariamente, seguir os passos clássicos do gênero. No entanto, a “essência” deste transparece clara e lucidamente em cada linha do longo poema. Estruturado em quatro conjuntos de poemas – em números variados –, remodelam a saga de um herói legendário em suas reflexões sobre a vida, suas relações, seus feitos, a mulher, o amor e a família. Cronos é a divindade que conduz o texto nas entrelinhas, tornando possível ler todo o volume “sofisticado” e primorosamente encadernado. O leitor saberá em que sentido utilizo, aqui, o adjetivo.

Carlos Nejar, membro da Academia Brasileira de Letras, é considerado um dos 37 escritores epigonais do período compreendido entre 1890-1990. Ele constrói uma voz poética emblemática e universal, de original e abundante produção lírica. O poeta encarna, de maneira muito convincente, ainda que modesta e discretamente, a síntese, sobejamente desejada e raramente alcançada, entre inovação e tradição, entre a crítica do mal-estar e a esperança. A figura do mito e da personagem que o encarna, na epopeia clássica revisitada, é uma espécie de porta-voz da simplicidade da dicção poética do autor – exata, mas sugestiva, crítica e esperançada. A criação poética do texto, intensa e passional, atinge o ápice da solidariedade humana. A figura esboçada pelas linhas dos poemas oscila entre a loucura e a santidade: espécie de túnel visualmente delirante e, simultaneamente, terrível, que leva o leitor a repensar a experiência subjetiva de um desesperado amor.

Nejar usa o discurso alegórico, gerando outra realidade paralela que redimensiona e refaz a argamassa verbal da realidade real, ora para criticá-la, ora para satirizá-la, mas sempre de forma a celebrar a experiência da existência humana, nas ondas da poesia. O poeta redimensiona os modelos e paradigmas da crítica literária, talvez com a intenção secretamente irônica de dissolvê-los todos, instaurando potente anarquia nos movimentos poéticos que orquestra. Sua poesia irriga o território tão reflorestado da linguagem, provocando certo translado semântico: tráfego e trânsito de símbolos, transferência de sentidos outros, sempre procurados pelo fazer poético.

Em Odysseus, o velho, a escrita de Carlos Nejar, própria dos poetas que são também videntes, é um tecido denso de imagens e ritmos com efeito dinamizante. Poeta da poesia, mais que do verso – dado que o verso costuma ser perecível – usa e abusa da palavra que fala, ou se cala, para além dos limites do verso: compósito de camadas diversas, que se entrecruzam, se dispersam, retornando sempre ao mesmo estuário, ao mesmo núcleo energético, de onde irrompem, em sequência solidária. A voz poética, no conjunto dos poemas, jamais se deixa enredar nas malhas de um texto enigmático, porque explicitamente referencial. Seu enredo poético alarga o princípio da realidade, alcançando os limites da transparência do mistério cosmogônico, telúrico mesmo. Concentrado e lúcido, o poeta encontra fórmulas exatas, em que irrompem perturbantes visões e vivências, tecendo o texto feito de palavra e sombra: poço das origens, etapa de um Gênesis particular.

Poeta do tempo, do amor, da esperança, da morte e de Deus, Nejar entretece fios de uma mesma urdidura cujo paralelo pode ser encontrado, no exercício pictórico de Bosch, dado que pinta, com palavras, a criação de um mundo arquetípico, rasurado pelo caminhar da cultura no/do Ocidente. Nesta pintura, o poeta gaúcho não denega suas origens: preocupa-se com “a poesia do homem pelo homem”, o que sobressai de seu texto firme, viril, delicado e aberto, como o pampa. A variedade dos temas – amor, elegia, meditação, mística, épica – não significa dispersão, mas o domínio de um sopro poético que se adensa e refina. Não faltam idéias à poética muito particular de Carlos Nejar. O que o destaca é sua capacidade de verbalização geométrica. São as palavras, em sua bem cuidada arquitetura, que revelam a prosa poética, recortada pelo cume da construção dos poemas. Na verdade, o ritmo da frase se parece com a prosa, lírica e visual, que dá consistência a sentimentos e ideias, num ritmo inesperado. Tem-se a impressão de que o texto é a narrativa de um retorno. Este não se deixa recalcar pelas regras de uma poética “clássica”, mas renova-se na sintaxe do verso livre, com ritmo em nada acelerado:

Sou teu pai. E dura tão pouco

a vida do homem.

para que não

me reconheças.

Ulisses sou

e outro não virá. (p.63)

A pontuação, escassa, é instrumento de organização visual da frase. Sua musicalidade vem da ideia que flui das palavras, criando a sensação de que o caráter prosaico das situações poeticamente desenhadas desmancha a dureza da realidade, tingindo liricamente a intenção da voz poética. Os diálogos, como no trecho acima, ainda que hermeticamente implícitos, revelam o caráter discursivo da épica, sem a subserviência à métrica e à rima. Arrisco afirmar que o sucesso de Camões, com seu trabalho de ourivessaria poética em Os lusíadas, é igualmente alcançado pela aventura textual de Carlos Nejar. Em Língua Portuguesa, ambos atingem o sucesso que só se consolida com o tempo: espécie de desejada eternidade da palavra, quando orquestrada pela mão firme sonhadora do poeta. Poeta completo. A lírica e a épica coexistem na lavra poética do autor gaúcho: regional e universal, lírico e épico, simples e complexo, telúrico e oceânico, sintético e úmido. A linguagem de Nejar tem qualquer coisa de ígneo: consome, ao mesmo tempo que ilumina, a experiência humana do mito fixada no seu verso. Sua arte, reafirmo, é própria dos poetas que são também videntes: um tecido denso de imagens e ritmos. A fusão do épico com o lírico pode explicar o gosto pelo sensível que marca a dicção da voz poética. O tom subjetivo de uma possível épica, que narraria o demiúrgico, “sopra” a forma expressiva da frase.

A confecção de versos adaptáveis à situação e musicais, são propriedades da poesia de Carlos Nejar. Ele sabe dar às vozes que aparecem nos quatro “livros” o barroquismo de sua linguagem poética que hiperboliza, repete cristalizadas antíteses e dá o tom de choque de repulsão para expressar a fugacidade do tempo. Se de outras coisas não falasse, seria o amor uma das linhas mestras da força tanto épica, quanto lírica deste seu livro. Penélope também comparece como “personagem” no contexto da saga lírica enfrentada pelo velho herói em seu retorno, não tanto físico, material, épico, mas, como quer a poesia, um retorno lírico de memória e consumação:

Envelheceste

Quando o abraço de Odysseus

Te desabotoou.

O abraço não te poupou.

Envelheceste quando os vinte anos

De peixe de fisgaram pelo meio.

Ou quando vinte faróis

Girassolaram seu casco

De pensamento veleiro.

Sem demorar o acaso

Nas rodas de nau e roca,

Foste rejuvenescendo

Ao findar o abraço, a onda.

E mesmo no arder do gozo,

Alvos azuis sobrevoam

Os corpos. Também o espírito

Plana, jovem. Romã

No galho de onde saltas.

Com amor cerzindo

As abas da manhã. (p. 92)

Fica claro nesses versos a alusão fatídica ao amor desesperado do herói por sua escolhida. O mito gera a situação narrativa que os versos do poeta recortam em sintaxe particular. As alusões metonímicas ao mar – “peixe”, “veleiro”, “nau”, “onda”, para ficar com apenas algumas ilações – conotam a viagem do retorno à ilha desejada, assim como, por tabela, a memória das vicissitudes da busca desesperada na viagem de ida. O tecer de Penélope – metonimizado no substantivo “roca” e no gerúndio “cerzindo”, para além de referenciar a mulher, remetem à ideia de tempo, de fluxo contínuo de acontecimentos e situações que demarcam o território da própria existência. A plasticidade da frase, quebrada em versos que podem ser considerados “irregulares”, não prescinde do ritmo que vem, antes, do movimento das ideias por eles veiculadas. A substituição da tradição rimático-métrica não se faz sentir, dado que o fluxo lírico do discurso se consolida na referência sempre segura ao mito, em todas as suas variações. Os versos destacados são apenas pequena amostra do universo de fantasias e experiências sensoriais que a leitura do livro de Nejar oferece ao leitor. Fica o convite para esta aventura repleta de prazer e sedução.

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Instantes

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Eu ainda não tinha ouvido falar dele, ainda que seu nome não fosse totalmente desconhecido. Pelos inúmeros passeios entre as veredas da Literatura Brasileira, palmilhadas nas páginas de muitas de suas “Histórias”, seu nome ocorreu aqui e ali, na minha desatenta aventura de leitor. Um dia, assim, do nada, veio um convite de uma amiga de Niterói, a oferecer a oportunidade de participar de uma seleção para escrever uma recensão sobre um livro de poesia recentemente publicado no Brasil, a sair numa revista “de peso” da terra da António Nobre e Alberto de Oliveira, a Revistas Colóquio Letras – prestigiada publicação a cargo da Fundação Calouste Gulbenkian, cuja sede majestosa, em Lisboa, já tive o prazer de conhecer. Pois bem… Passados alguns dias, a mesma amiga de Niterói me informa que eu tinha sido O escolhido, dado que, no prazo estipulado, ninguém mais havia apresentado candidatura para o desempenho da tarefa. Segui as instruções: esperei o envio do volume de poemas, que seria feito pela prestigiada Fundação. Nada… mais alguns dias e o próprio poeta enviou-me o exemplar. Carlos Nejar é seu nome. O livro leva por título Odysseus, o velho. Foi uma surpresa mais que agradável. Um passeio delicioso pelos versos deste escritor gaúcho que até então não conhecia. O poema, longo e intrincado, vai “narrando” o retorno de Ulisses. Na maturidade, o herói revê suas posições e experiências, destila certa amargura, mas aconselha na mesma medida. Um texto rico, austero, soberbo. Fui “trocando figurinha” com ele, enquanto escrevia. Julguei terminado o trabalho e enviei para a pessoa indicada em Portugal. Mais alguns dias e ela devolveu-me o texto dizendo que eu deveria fazer uma “profunda e séria” revisão, dado que meu “estilo” era por demais “pessoal” e que as ideias circulavam o mesmo eixo de elogio e expressão opinativa de cunho subjetivo, o que deixava muito longe o horizonte de expectativas de uma “recensão”. Reescrevi, com preguiça, devo dizer. Submeti o texto a uma amiga para tornar o dito cujo mais o objetivo possível. Reenviei. Mais algum tempo e me veio uma carta dizendo que o texto não iria ser publicado porque não atendia ao que a revista esperava de um texto de tal natureza. Em outras palavras: não queriam o meu texto. Em mais outras palavras: diziam que meu texto não era acadêmico o suficiente… Já ouvi isso alhures…

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Foi assim que conheci Carlos Nejar. Mantenho, ainda que de maneira intermitente, certo contato com ele. Li dele um livro de ficção Carta aos loucos, que me deixou extasiado. No entanto, ainda não consegui vencer a preguiça e escrever a resenha desta narrativa deslumbrante, para além de poética, marca de todos os escritos do amigo gaúcho. Sim, ele é gaúcho. É pai de outro poeta muito conhecido nos dias que correm, Fabrício Carpinejar. Descobri que o pai, Carlos, escreveu um volume alentado História da Literatura Brasileira. Outra descoberta extasiante. Nejar escreve a “sua” História da Literatura Brasileira. Prosa leve, deliciosa, poética, delicada e incisiva. Nada parecida com o tom enfadonho que a tradição desse tipo de “História” costuma apresentar. Ele escreve a partir da própria experiência com e a partir da Literatura Brasileira. Ele leu os autores que comenta, por isso mesmo, sua opinião é tão incisiva, sem o ranço das “verdades secretas” que os outros livros de igual natureza costumam apresentar. Vai ver é por isso mesmo que sempre que cito o livro, sinto resistência, percebo narizes torcidos e esgares de desaprovação. Eu gosto do livro. É o que basta… pelo menos, para mim.

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