Revisitações circunstanciais

O momento anda, assim, um tanto complicado. Resolvi botar em curso o processo de acompanhamento da saúde. Coisa mais que necessária, depois de mais de meio século. Bem. Custei, mas encontrei um texto que escrevi para ser apresentado (como o foi) num congresso em Lisboa, no mais que elegante prédio da Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa. Pena que tive que lê-lo às pressas, por conta da pressão da bichinha invocada que “coordenava” a mesa e não deixou que a gente aproveitasse a ausência de um dos membros para estender a discussão… Bem, segue o texto (penso que ainda não o publiquei aqui. Se o fiz, não perco nada em repetir a ação). Boa leitura!

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Alberto, Orpheu, Álvaro: pontes

José Luiz Foureaux de Souza Júnior (Universidade Federal de Ouro Preto / Universidade de Coimbra / Capes)

A grandeza do homem consiste em que ele é uma ponte e não um fim; o que nos pode agradar no homem é ele ser transição e queda. (Friedrich Nietzsche, Assim falava Zaratustra)

Considerei subscrever esta comunicação ao tema “O legado de Orpheu” por acreditar que, de fato, a epistolografia exigiria um recorte muito estreito para as possibilidades que vislumbro a partir do processo de investigação que venho desenvolvendo e que envolve a correspondência de António Nobre e Alberto de Oliveira. Na visada retrospectiva que proponho aqui, esta correspondência é o ponto de chegada de minhas elucubrações. O ponto de partida é o conjunto de considerações que faço a partir de um trecho de carta escrita por Fernando Pessoa, passando por considerações acerca de abordagem panorâmica do conjunto de propostas da Revista Orpheu, em seu primeiro número.

Orfeu, filho da musa Calíope e Apolo ou Eagro, rei da Trácia, poeta talentoso. Quando tocava sua lira, os pássaros paravam de voar para escutar e os animais selvagens perdiam o medo, as árvores se curvavam para pegar os sons no vento. Um dos argonautas, salvou os demais tripulantes quando seu canto silenciou as sereias. Apaixonou-se por Eurídice. Casou-se com ela. Mas Eurídice era tão bonita que, pouco tempo depois do casamento, atraiu um apicultor chamado Aristeu. Quando ela recusou suas atenções, ele a perseguiu. Tentando escapar, ela caiu, pisou numa serpente que a mordeu e morreu. Orfeu ficou transtornado de tristeza. Levando sua lira, foi até o mundo inferior, para tentar trazê-la de volta. A canção pungente e emocionada de sua lira convenceu o barqueiro Caronte a levá-lo vivo pelo rio Estige. A canção da lira adormeceu Cérbero, o cão de três cabeças que vigiava os portões. Seu tom carinhoso aliviou os tormentos dos condenados. Encontrou muitos monstros durante sua jornada e os encantou com seu canto. Finalmente, Orfeu chegou ao trono de Hades. O rei dos mortos ficou irritado ao ver que um ser vivo tinha entrado em seu domínio, mas a agonia na música de Orfeu o comoveu, e ele chorou lágrimas de ferro. Sua esposa, a deusa Perséfone, implorou-lhe que atendesse o pedido de Orfeu. Assim, Hades atendeu seu desejo. Eurídice poderia voltar com Orfeu ao mundo dos vivos, sob uma única condição: que ele não olhasse para ela até que estivessem sob a luz do sol. Orfeu partiu pela trilha íngreme que levava para fora do escuro reino da morte, tocando músicas de alegria e celebração enquanto caminhava, para guiar a sombra de Eurídice de volta à vida. Ele então quase no final do tenebroso túnel olhou para se certificar de que Eurídice o acompanhava e não a viu. Hades e Perséfone os seguiam e, como ficou estabelecido que ele não poderia olhar para Eurídice até chegar ao fim do túnel, Hades a tomou novamente. Em desespero, Orfeu se tornou amargo. Recusava-se a olhar para qualquer outra mulher, não querendo lembrar-se da perda de sua amada. O Orfismo, comportamento ambíguo de aconselhar sem poder usufruir do próprio conselho, vem daí, ao que parece. Orfeu morre sob a fúria das Mênades que o mataram a golpes de dardo, jogando seu corpo no Hebro, aos pedaços e, ainda assim, cantando. As nove musas reuniram os pedaços de Orfeu e o enterraram no monte Olimpo. Na morte, Orfeu se uniu a Eurídice.

Uma lição, dentre outras, que fica do enredo do mito pode ser a da ideia de desejo que persiste, mesmo em condições nada viáveis, o que reforça sua própria natureza. De índole instintual, o desejo não escolhe data e local, cor ou textura, preferência ou circunstância. Ele está ali e, se a mão de Lacan não conduz a erro, é pela linguagem que ele se manifesta de maneira mais contundente. Para além disso, é talvez na e pela linguagem poética que essa contundência atinge foro de intransponibilidade. Há que ressaltar que, de maneira genérica, estou considerando a carta como texto poético, em seu sentido mais largo – o que é discutido por Sophia Angelides e Marie-Claire Grassi, por exemplo. Tópico este que vou tomar como pressuposto, por questão de tempo.

Outra lição é a da sedução. Fenômeno ou processo – dependendo do direcionamento que a utilização desse conceito segue – fica claro que o canto de Eurídice seduz pela beleza, quebrando todas as resistências. Esta sedução, acaba por fazer com que o poeta, por ansioso que estava, deixe de cumprir o que mandou a divindade e se vire para, ele também seduzido pelo desejo, tentar ver sua amada. O vaticínio se cumpre. Ele perde de vez a chance de voltar a viver com Eurídice. O encontro só acontece na morte, o que pode causar certas diferenças interpretativas muito instigantes que também serei obrigado a deixar de lado aqui.

Num e noutro caso, o relato do mito me leva a pensar no destino da revista Orpheu como proposta estética de revolução, mudança, renovação. Para tanto, farei uma pequena digressão sobre dois trechos de cartas que, a meu ver, ilustram o espírito anunciado pela letra de Orpheu, em seu nascedouro. Atente-se para o fato de que se trata aqui de apresentação sumária e introdutória, um projeto, que vem sendo desenvolvido e que deseja encontrar satisfação em sua demanda.

Merecem ainda destaque duas expressões presentes no relato do mito. A primeira, “trilha íngreme que levava para fora do escuro”, é expressão que pode remeter a uma leitura do perímetro afetivo que circunda a correspondência entre António Nobre e Alberto d’Oliveira – uma das consequências da abordagem aqui apresentada. Esse perímetro só pode ser desenhado por conta da “abertura” que a revista propunha ensejar no cenário cultural português, quando de seu aparecimento. A segunda expressão, “comportamento ambíguo de aconselhar sem poder usufruir do próprio conselho” pode remeter a uma análise do fim da revista, por todos os motivos que se lhe possam atribuir, sem destaque para nenhum. O caráter “ambíguo” marca de novo o direcionamento do olhar homoerótico que é utilizado para ler os trechos de cartas aqui arrolados.

Momento 1

Mário de Sá-Carneiro se mata, em Paris, no dia 26 de Abril de 1916. Fernando Pessoa, apesar disso, não desistiu do terceiro número de Orpheu. Em 4 de Setembro desse ano, escreveu a Côrtes-Rodrigues que a revista deveria sair ainda nesse mês:

Vai sair Orpheu 3. É aí que, no fim do número, publico dois poemas ingleses meus, muito indecentes, e, portanto, impublicáveis em Inglaterra. Outra colaboração do número: Versos do Camilo Pessanha (a propósito não cite isto a ninguém), versos inéditos do Sá-Carneiro, A Cena do Ódio do Almada-Negreiros (que está actualmente homem de génio em absoluto, uma das grandes sensibilidades da literatura moderna), prosa do Albino de Meneses (não sei se v. conhece) e, talvez, do Carlos Parreira, e uma colaboração variada do meu velho e infeliz amigo Álvaro de Campos.

Orpheu 3 trará, também quatro hors-texte do mais célebre pintor avançado português – Amadeu de Sousa Cardoso.

A revista deve sair por fins do mês presente. Para a mala que vem já lhe poderei dar notícias mais detalhadas. (PESSOA, F., 1999: 220-221)

Neste trecho, desejo destacar a informação de que Fernando Pessoa tenciona publicar o que ele chama de “dois poemas ingleses meus, muito indecentes”. Sabe-se que acabaram por aparecer publicados alhures. Mas Álvaro de Campos, um de seus heterônimos, afirma ser, ele mesmo um caso de “temperamento feminino” que conta “com uma inteligência masculina”, em uma de suas páginas íntimas. Isto quer dizer alguma coisa. A frase implícita, de sabor poético, não pode ser lida como simples retórica. Já em algumas Odes, o engenheiro naval se considera “uma inversão sexual frustre”.

Interessante a afirmação de Pessoa. Por que os poemas são impublicáveis em Inglaterra mas o podem ser em Portugal? Guardadas as devidas proporções, pensar o contrário pareceria muito mais plausível. Pareceria, não fosse a afirmativa feita sob a égide da revista Orpheu que, entre outras coisas, a seu modo, propunha a quebra de grilhões estéticos, sociais e (até) morais, vindo a ensejar novos horizontes de expectativa para a Literatura Portuguesa no início do século 20. A referência a Almada Negreiros aqui é, a meu ver, mais uma confirmação inconteste do espírito que animou a publicação. De qualquer maneira, salta aos olhos a referência ao heterônimo: “meu velho e infeliz amigo”!

Álvaro de Campos revela certa avidez recalcada por evadir-se em seu desejo não satisfeito como nos versos “Eu podia morrer triturado por um motor / Com o sentimento de deliciosa entrega duma mulher possuída”. Na “Saudação a Walt Whitman”, em lugar do acento social que Garcia Lorca teria empregado, o heterônimo atesta uma semelhança entre seu desejo ainda indizível e o do “grande pederasta” saudado, revelando uma “vontade (…) / De ser a cadela de todos os cães e eles não me bastam”. O requinte de Campos é mais uma vez a chancela do recalcamento que o sufoca, e a outros sujeitos de então.

Na voz poética de Álvaro de Campos, particularmente na “Ode Triunfal” e na “Ode Marítima”, vemos encenada a emergência desse novo modelo de masculinidade, estabelecida sobre a crise dos valores sociais e estéticos portugueses e europeus – haveria melhor argumento para a “realização” do projeto órfico (em dois dos sentidos do termo) que a revista protagoniza e leva à concretização nos números publicados? Nesses poemas, se concentra um novo sujeito homoeroticamente manifesto: ele não quer ser mulher, como em “Manicure”, de Sá-Carneiro, mas quer ver-se tomado, possuído pela força da masculinidade, não representada por si mesmo, mas pelo mundo moderno. Mais uma vez, o espírito vanguardista e revolucionário, para não dizer transgressivo da revista, se explicita.

Momento 2

António Nobre escreve a Alberto d’Oliveira, em 24 de Outubro de 1890. Ele está a caminho de Paris a bordo do navio Britannia. Vale lembrar que o estado de espírito de Nobre não era dos melhores. Por um lado, havia sido reprovado por duas vezes seguidas nos exames em Coimbra, não podendo conseguir aí o diploma de Bacharel em leis. Por outro, a separação do “amigo mais querido”[1], que ficou em terras portuguesas, o que criou o horizonte de expectativas das cartas que trocaram. Desta carta, destaco a seguinte passagem:

(…) sois, talvez, gêmeos, mas não sois com certeza patrícios, por que o teu corpo de Purinho, desengonçado e cor de leite, foi batizado na concha de pedra da Igreja de Santo Ildefonso, o desse monstro do Britannia, sólido e negro, tem o seu nascimento arquivado, nalguma babilónica oficina de Liverpool. Contudo, há esta coincidência mas eu não consinto que a tua pilinha-morango, toque nem de leve o vergalho deste paquete. (CASTILHO, G., 1982: 116)

O poeta faz, neste passo da carta, uma comparação entre o navio em que viaja e o corpo de Alberto de Oliveira. Uma comparação reveladora. Para além disso, muito além aliás, a carta apresenta uma série de três pares comparativos constituídos pelo poeta “da torre”, envolvendo seu amigo e o navio em que viajava. O primeiro par aponta para a coincidência entre o ano de nascimento de Alberto de Oliveira e o de inauguração do Britannia, 1873[2]. São “gêmeos”, como diz Nobre, apesar de nacionalidades diferentes. Dada a particular oscilação de António Nobre em relação a seus sentimentos quando se trata dos ingleses, de cara, evidencia-se a preferência pela própria identidade cultural, o que vai ficar cada vez mais evidente nos pares comparativos seguintes.

Na primeira assertiva do segundo par comparativo, António Nobre opõe “o corpo de Purinho, desengonçado e cor de leite” a “monstro do Britannia, sólido e negro”. Os adjetivos em contraposição explícita revelam dobras semânticas insuspeitadas, quando observados/lidos sob a o enfoque da lente do homoerotismo: “desengonçado” opõe-se a “sólido”, deixando entrever a delicadeza do afeto que aproxima e une os dois poetas, não sem deixar entrever a intimidade física entre eles. O sentido dicionarizado de “desengonçado”, aqui, é abandonado para ceder espaço a uma acepção envolvida por afeto, carinho, que ressalta, ainda uma vez, a delicadeza da relação já referida. Na sequência, “cor de leite” opõe-se a “negro”. O cromatismo, em primeira instância, apela para a dicotomia totalidade/nulidade se se considerar o pressuposto da Física, que apresenta o branco como a presença de todas as cores e o negro como a sua ausência. Daí para a simbologia que as duas cores ensejam e sustentam é um passo: a pureza e a sujidade, a inocência e o vício, o dia e a noite, o permitido e o condenado.

Num breve excurso a esta argumentação, cabe destacar a brancura referida pelo poeta sem sua comparação. Isto porque, em outras alturas da correspondência, há referência ao leite como líquido de celebração da amizade afetuosa partilhada por António Nobre e Alberto de Oliveira: torna-se quase um ícone. Ora, se o caráter simbólico for aqui (também) viável, seria aceitável associar a substância do leite como elo que traz à tona o sêmen, muitas vezes identificado terminologicamente à mesma substância. Esta inferência coloca-se a anos luz de distância de qualquer insinuação de sodomia/pederastia, como variante (ainda que possível) do pacto homossocial estabelecido, mesmo que inconscientemente. No diapasão desta nota, a Psicanálise dá o tom, fazendo com que a plausibilidade da associação seja respaldada pelo axioma lacaniano que toma a linguagem como modus operandi do inconsciente.

A segunda assertiva da mesma comparação aponta para outra dicotomia: sagrado/profano. A “concha de pedra de Santo Ildefonso” é o par opositivo de “nalguma babilónica oficina de Liverpool”. Ora, a “concha de pedra” opõe-se à “babilónica oficina”. A primeira recebe, aconchega, acolhe; a segunda produz, apresenta, lança. O adjetivo “babilónica” é o significante que dispara o discurso comparativo de oposição entre o sagrado e o profano. De mais a mais, a mesma oposição serve para reforçar o caráter afirmativo da valorização do relacionamento entre os dois poetas, conforme atestado nesta correspondência. Uma vez mais, por vias transversas, o pacto homossocial é celebrado.

Por fim, o terceiro par comparativo. António Nobre renega a identificação completa entre o navio e seu amigo: a “pilinha-morango” é oposta ao “vergalho”. Pila é substantivo comum que pode ser sinônimo de pênis, sobretudo coloquialmente. Este significado coloquial se aplica também a “vergalho”. O diminutivo do primeiro aprofunda o sentimento carinhoso e delicado devotado pelo autor da carta a seu amigo. A força fonética do segundo termo confirma a ideia representada pelo navio nas comparações feitas por António Nobre.

O “sabor” da comparação – no sentido barthesiano deste substantivo – não deixa de ser sugestivo: assim, “morango” funciona como índice identificador, uma espécie de predicativo do sujeito. Por um lado, a delicadeza da fruta que se revela no adocicado e no líquido associados ao paladar e, por outro, a cor que identifica, indiretamente, a “adolescência” de Alberto de Oliveira; ratificando, uma vez mais e definitivamente, a delicadeza percebida, devotada e celebrada na/pela relação entre os dois poetas.

Ponto quase final

Uma pergunta caberia aqui: como associar estas linhas ao que representou a revista Orpheu em seu tempo de aparecimento e seu legado? Acredito que a resposta pode ser simples. O primeiro número da revista traz uma “introdução”, de autoria de Luis de Montalvor que pode servir de ponte para a(s) outra(s) possível(is) resposta(s) à questão final que coloco. No sentido de ser veículo de mudança, diz o autor do texto da “Introdução” que a revista “propondo-se, vincula o direito de em primeiro lugar se desassemelhar de outros meios, maneiras e formas de realisar arte, tendo por notavel nosso volume de Beleza não ser incaracteristico ou fragmentado, como literarias que são essas duas formas de fazer revista ou jornal.” Já aqui a nota da diferença na manifestação de certo espírito iconoclasta é perceptíel.

Mais adiante, diz Montalvôr que “Puras e raras suas intenções como seu destino de Beleza é o do:—Exilio! Bem propriamente, ORPHEU, é um exilio de temperamentos de arte que a querem como a um segrêdo ou tormento…”. Nas reticências que fecham este período e em seu conteúdo, percebe-se uma das notas que marcam os comentários acerca dos trechos de carta aqui feitos – sobretudo ligadas aos termos “segredo” e “tormento”.  “Isto explica nossa ansiedade e nossa essencia!”, continua Montalvôr, reafirmando o que eu já afirmei aqui.

De mais a mais, a julgar pelo que Fernando Pessoa diz acerca dos poemas que desejou publicar no número 3 da revista e o que António Nobre exara nas linhas de uma carta, já saudosa ainda que em princípio de viagem, o espírito de Orpheu, a revista, remete ao incurável sofrimento de Orfeu, o mito, deixando os sujeitos alienados de seu desejo, mas ansiosos por sua satisfação. A expressão artística pode ser considerada um dos instrumentos de concretização desta mesma satisfação.

De uma forma ou de outra, o que resulta como elemento estrutural para a resposta à pergunta acima mencionada é o fato de que o caráter homoerótico que atormenta, tanto a voz heterônima de Fernando Pessoa, quanto a agonia em êxtase da saudade de António Nobre, no contexto da virada de século em Portugal, só se faz possível, acredito eu, com o auxílio mais que luxuoso da publicação de Orpheu. As cartas, ao fim e ao cabo, funcionam como uma das “pontes”, como prenunciado no título desta comunicação.

Sintomaticamente, a revista não enseja realizar todos os seus desejos, enquanto expressão da busca de solução para impasses e dificuldades no âmbito da produção artístico-cultural lusitana. O mito, de certa forma, sobrepõe-se à publicação. Esta falece… números depois de publicada por primeira vez. O encontro de Orfeu e Eurídice deu-se, segundo um dos relatos do mito, após a morte do poeta. Em certa medida, a liberdade e a efetividade da discussão dos temas aqui expostos são o sinal do falecimento da publicação em sua materialidade, mas da permanência em seu ideário e na herança cultural – no sentido mais amplo deste termo – de suas proposições eternizadas, por exemplo, nos trechos aqui apresentados, ainda que de maneira sumária.

Bibliografia final

ANGELIDES, Sophia (2001). Carta e Literatura: correspondência entre Tchekhov e Gorki. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo.

CASTILHO, Guilherme de (1982). António Nobre: correspondência. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da moeda.

GRASSI, Marie-Claire (1982). Lire l’épistolaire. Paris: Dunod.

INÁCIO, Emerson da Cruz Inácio (2004). «Outros Barões assinalados: a emergência do discurso gay na produção literária portuguesa contemporânea». In: VIII Congresso Luso-Afro-Brasileiro de Ciências Sociais. Coimbra: Centro de Estudos Sociais: Faculdade de Economia: Universidade de Coimbra.

MONTALVÔR, Luis de (1915). «Introducção». In: Orpheu. Lisboa: Typographia do commercio, v. 1.

QUADROS, António (1984). Fernando Pessoa – vida, personalidade e génio. Lisboa, Publicações Dom Quixote.

SILVA, Manuela Parreira da (ed.) (1999). Correspondência 1905-1922. Lisboa: Assírio & Alvim, p. 220-221. A Armando Côrtes-Rodrigues.

TIN, Emerson (org.) (2005). A arte de escrever cartas: Anônimo de Bolonha, Erasmo de Rotterdam, Justo Lípsio. Campinas: Editora da UNICAMP.

[1] Coloco a expressão entre aspas, não porque alguém a tenha citado – e creio que tenha sido – mas porque é usada aqui e ali, e por mim mesmo, para identificar Alberto de Oliveira.

[2] Na verdade, trata-se do ano de naufrágio do navio que foi inaugurado dez anos antes. Pode ter sido uma gralha na edição das cartas. Como não tive acesso ao original – dado que não constitui objeto primordial de minha investigação – levo a cabo a informação obtida na internete: http://en.wikipedia.org/wiki/SS_Britannia, acesso em 10/02/2015.

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Do possível desejo de entender…

O texto de hoje é parte da conferência que fiz no lugar em que trabalho. Faz parte do livro que vai ser lançado em breve – ele está pronto, em Coimbra, aguardando a conclusão de pequenas tramitações burocrático-jurídicas. Ao fim da leitura, de intervenções minhas à leitura e de outros comentários, alguém levanta o braço e pergunta que contribuição eu suponho ser possível com a investigação a que procedi e que resultou no livro de onde tiro o trecho aqui apresentado. Eu respondi, à altura do “tom” – um tanto “peculiar”, para ser educado – da pergunta. Reservo-me o direito de não repetir aqui a resposta. Quem chegar ao fim deste texto poderá fazê-lo a seu bel prazer…

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Para a proposta de leitura que aqui apresento, não transcrevo a carta que me interessa na íntegra, porque longa. No entanto, para que a análise não fique desarticulada e pareça solta ou, mesmo, sem sentido, transcrevo a passagem em que se encontram os elementos suficientes para sustentação de minha leitura, apesar de também não ser assim tão curta:

“Uma nota curiosa desta manhã: um casal de passarinhos do tamanho de cotovias tem vindo a acompanhar o vapor, em pleno alto-mar, tão longe de terra; a esta hora não sei o que será deles, ou vão pisados no paquete, ou tombaram esfalfados sobre a água. Pobres Almas de Alice e Alberto! Sabes o que esta manhã vi, também, curiosíssimo? Uma baleia, mas distante infelizmente, notando-se apenas a água que o monstro espirrava para o Ar. Não me borrifou, entretanto. Também te quero dizer que o Britannia nasceu em 1873, tendo pois a tua idade: sois, talvez, gêmeos, mas não sois com certeza patrícios, por que o teu corpo de Purinho, desengonçado e cor de leite, foi batizado na concha de pedra da Igreja de Santo Ildefonso, o desse monstro do Britannia, sólido e negro, tem o seu nascimento arquivado, nalguma babilónica oficina de Liverpool. Contudo, há esta coincidência mas eu não consinto que a tua pilinha- morango, toque nem de leve o vergalho deste paquete. Alberto, são 2 1/2 da tarde: vou à tolda saber notícias da nossa marcha e, pela noite, depois do jantar, virei concluir esta folha. Até logo. (CASTILHO, 1982, p. 116)”

Uma pena não ter sido encontrada a carta que possivelmente Alberto de Oliveira teria escrito a António Nobre depois desta, ou mesmo, antes. Caso assim o fosse, poder-se-ia averiguar até que ponto a correspondência entre os afetos que enlaçavam os dois poetas verifica­-se na “correspondência” que mantiveram durante tanto tempo. Sobretudo no que diz respeito às comparações que Nobre faz. A reação de Alberto seria por demais esclarecedora, mas vai ficar sepultada na campa das inferências.

De qualquer maneira, vale a sua abordagem, nos termos em que aqui se coloca. A carta em que se encontra este trecho foi escrita em 24 de outubro de 1890, e foi enviada por António Nobre do navio Britannia, quando a caminho de Paris. Vale lembrar que o estado de espírito do poeta não era dos melhores. Por um lado, havia sido reprovado por duas vezes seguidas nos exames em Coimbra, não podendo conseguir aí o diploma de Bacharel em leis. Por outro, a separação do “amigo mais querido” que ficou em terras portuguesas, o que criou o horizonte de expectativas das cartas que trocaram. O poeta faz, neste passo da carta, uma comparação entre o navio em que viaja e o corpo de Alberto de Oliveira. Uma comparação não apenas “saborosa”, mas reveladora.

O adjetivo destacado, remete-me a Barthes em seu livro O prazer do texto. Como espaço de exposição da intimidade – ainda que este não seja, conscientemente, o objetivo de quem escreve – uma carta é sempre circunscrição de um perímetro desenhado pelo desejo, seja ele de que natureza for. De um modo ou de outro, a carta enseja uma experiência que tem “sabor”, porque revela/constrói um “saber”, simultaneamente, sobre quem escreve e sobre quem lê. Ambos degustam este processo e seu resultado, seus efeitos. Neste jogo de sedução mútua, via de mão dupla sustentada pelo texto, há o que Barthes chama de jouissance. Cito abaixo o trecho dele que interessa:

(Prazer/Fruição: terminologicamente isto ainda vacila, tropeço, confundo-me. De toda maneira, haverá sempre uma margem de indecisão; a distinção não será origem de classificações seguras, o paradigma rangerá, o sentido será precário, revogável, reversível, o discurso será incompleto.)

“Se leio com prazer esta frase, esta história ou esta palavra, é porque foram escritas no prazer (este prazer não está em contradição com as queixas do escritor). Mas e o contrário? Escrever no prazer me assegura a mim, escritor o prazer de meu leitor? De modo algum. Esse leitor, é mister que eu o procure (que eu o drague), sem saber onde ele está. Um espaço de fruição fica então criado. Não é a pessoa do outro que me é necessária, é o espaço: a possibilidade de uma dialética do desejo, de uma imprevisão do desfrute: que os dados não estejam lançados, que haja um jogo. (BARTHES, 1973, p. 7-8)”

A passagem de O prazer do texto encerra o sentido que pretendo perceber e sustentar, na leitura da passagem da carta de António Nobre, referida acima. Nela, a decisão do tradutor de usar “fruição” no lugar de “gozo” faz com que eu, de certa forma, pense na experiência pela qual passou António Nobre enquanto escrevia esta carta. Percebe-se, claramente, a meu ver, o seu “prazer” ao falar do “amigo mais querido”. Por outro lado, fica estabelecido um elo de significação entre os elementos utilizados pelo poeta na construção de sua comparação, sobretudo o morango, como há de se ver mais abaixo. De qualquer modo, as ideias de Barthes neste trecho sustentam a minha ideia de que a leitura das cartas a posteriori cria o espaço a que o autor francês se refere. O espaço da fruição/gozo que a leitura proporciona e que pode ser intensificado pelas associações livres que a partir do texto se constroem. Estas influenciam diretamente na mesma experiência de fruição/gozo da leitura, em continuum.

A passagem da carta aqui considerada está, de fato, diretamente ligada aos indícios da existência das cartas de Alberto de Oliveira, em resposta às que recebeu de António Nobre. Mais um deles… Para além disso, muito além aliás, está uma série de três pares comparativos feitas pelo poeta “da torre”, envolvendo seu amigo e o navio em que viajava. Deste trecho, já destaco a seguinte passagem:

“… sois, talvez, gêmeos, mas não sois com certeza patrícios, por que o teu corpo de Purinho, desengonçado e cor de leite, foi batizado na concha de pedra da Igreja de Santo Ildefonso, o desse monstro do Britannia, sólido e negro, tem o seu nascimento arquivado, nalguma babilónica oficina de Liverpool. Contudo, há esta coincidência mas eu não consinto que a tua pilinha- morango, toque nem de leve o vergalho deste paquete. ”(NOBRE apud CASTILHO, 1982, p. 116)”

O primeiro par, menos “saboroso”, aponta para a coincidência entre o ano de nascimento de Alberto de Oliveira e o de inauguração do Britannia, 1873. São “gêmeos”, como diz Nobre, apesar de nacionalidades diferentes. Dada a particular oscilação de António Nobre em relação a seus sentimentos quando se trata dos ingleses, de cara, evidencia-se a preferência pela própria identidade cultural, o que vai ficar cada vez mais evidente nos pares comparativos seguintes.

De mais a mais, considere-se o que Guilherme de Castilho diz na “Introdução” ao volume que encerra a correspondência do poeta. Este “detalhe” aprofunda a hipótese defendida pelo editor da correspondência quando afirma que a leitura das cartas não prescinde da leitura do Só, e vice-versa. Isto posto, a abordagem dos pares comparativos, como é feita aqui, segue o rastro do que propõe o editor das cartas. Por tabela, a fortuna crítica do poeta se enriquece e a contextualização, simultânea, de sua vida e de sua obra recebem o mesmo influxo de compreensão e alargamento crítico. Ao fim e ao cabo, o caráter homoafetivo da relação entre os dois poetas fica, ainda uma vez, confirmado e um tanto mais explícito.

Na primeira assertiva do segundo par comparativo, António Nobre opõe “o corpo de Purinho, desengonçado e cor de leite” a “monstro do Britannia, sólido e negro”. Os adjetivos em contraposição explícita revelam dobras semânticas insuspeitadas, quando observados/lidos sob o enfoque da lente do homoerotismo: “desengonçado” opõe-se a “sólido”, deixando entrever a delicadeza do afeto que aproxima e une os dois poetas, não sem confirmar a intimidade física entre eles. O sentido dicionarizado de “desengonçado”, aqui, é abandonado para ceder espaço a uma acepção envolvida por afeto, carinho, que ressalta, ainda uma vez, a delicadeza da relação entre os dois poetas.

Na sequência, “cor de leite” opõe-se a “negro”. O cromatismo, em primeira instância apela para a dicotomia totalidade/nulidade se se considerar o pressuposto da Física, que apresenta o branco como a presença de todas as cores e o negro como a sua ausência. Daí para o simbolismo de dicotomias que as duas cores ensejam e sustentam é um pulo: a pureza e a sujidade, a inocência e o vício, o dia e a noite, o permitido e o condenado.

Num breve excurso a esta argumentação, cabe destacar a brancura referida pelo poeta sem sua comparação. Isto porque, em outras alturas da correspondência, há referência ao leite como líquido de celebração da amizade afetuosa partilhada por António Nobre e Alberto de Oliveira: torna-se quase um ícone. Ora, se o caráter simbólico for aqui (também) viável, seria aceitável associar a substância do leite como elo que traz à tona o sêmen, muitas vezes identificado terminologicamente à mesma substância. Esta inferência coloca-se a anos luz de distância de qualquer insinuação de sodomia/pederastia, como variante (ainda que possível) do pacto homossocial estabelecido, mesmo que inconscientemente. No diapasão desta nota, a Psicanálise dá o tom, fazendo com que a plausibilidade da associação seja respaldada pelo axioma lacaniano que toma a linguagem como modo de operação do inconsciente.

A “insinuação” a que me refiro acima não tem aqui o papel de determinar o direcionamento dos sentidos que circunscrevo aos pares opositivos que examino. Estou longe, muito longe, de querer afirmar que as práticas de sodomia e/ou pederastia foram um dos aspectos da relação entre António Nobre e Alberto de Oliveira – que seria passível de punição, como bem lembra Ana Paula Arnaut num seu artigo. Na verdade, a sustentar a hipótese que venho desenvolvendo, cabe muito mais argumentar a favor da supremacia do desejo. Assim, os pares comparativos funcionariam como uma espécie de jogo. Este, por sua vez, teria alguma semelhança ao que é pensado por Freud a este respeito.

Seguindo em frente, a segunda assertiva da mesma comparação aponta para outra dicotomia: sagrado/profano. A “concha de pedra de Santo Ildefonso” é o par opositivo de “nalguma babilónica oficina de Liverpool”. Ressalte-se que a referência utilizada por Nobre – Alberto/Igreja de Santo Ildefonso e Britannia/Liverpool – também pode levar a outro nível de comparação, que é o das circunstâncias e da conjuntura da Europa à época. Por metonímia, é plausível pensar na comparação entre o desenvolvimento da Inglaterra e certo atraso industrial português.

Ora, a “concha de pedra” opõe-se à “babilónica oficina”. A primeira recebe, aconchega, acolhe; a segunda produz, apresenta, lança. O adjetivo “babilónica” é o significante que dispara o discurso comparativo de oposição entre o sagrado e o profano. De mais a mais, a mesma oposição serve para reforçar o caráter afirmativo da valorização do relacionamento entre os dois poetas, conforme atestado nesta correspondência. Uma vez mais, por vias transversas, o pacto homossocial é celebrado.

Ao final, o terceiro par comparativo, o mais “saboroso”, eu diria. Admitindo, uma vez mais, a coincidência, António Nobre nega consentimento à identificação completa entre o navio e o seu amigo: a “pilinha-morango” é oposta ao “vergalho”. Pila, em Portugal, é usado para identificar o pênis, sobretudo coloquialmente. No Brasil, mais especificamente no Rio Grande do sul, significa, também, dinheiro. O primeiro significado coloquial se aplica a “vergalho”. O diminutivo do primeiro, que pode ser referência à dimensão do órgão masculino, aprofunda o sentimento carinhoso e delicado devotado pelo autor da carta a seu amigo.

A força fonética do segundo termo confirma a ideia representada pelo navio, nas comparações feitas por António Nobre. O “sabor” da comparação – e aqui o sentido do substantivo se sustenta no pensamento barthesiano – não deixa de ser sugestivo, no uso de “morango”, funcionando como índice identificador, uma espécie de predicativo do sujeito. Por um lado, a delicadeza da fruta que se revela no adocicado e no líquido associados ao paladar e, por outro, a cor que identifica, indiretamente, a “adolescência” de Alberto de Oliveira. Estes detalhes ratificam, uma vez mais e definitivamente, a delicadeza percebida, devotada e celebrada na/pela relação entre os dois poetas.

Na sequência de comparações feitas por António Nobre, se Freud não estava errado, percebem-se indícios do que este chama de compulsão à repetição. O poeta sempre volta ao navio como elemento comparativo em relação ao corpo de Alberto de Oliveira. Este aparece, na repetição, como elemento de desejo do sujeito nostálgico que é António Nobre a bordo do navio, a caminho de Paris, sozinho. Ao mesmo tempo em que constrói as comparações, forçosamente, Nobre recorda a sua experiência afetiva com Alberto. Isso funciona como combustível para o processo desenvolvido ao longo da carta.

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Revisitações

Tomado que estou da mais absoluta ausência de ânimo para o que quer que seja, resolvi postar algumas linhas escritas numa primeira tentativa de escrever um artigo sobre um poeta português de quem gosto imenso: Al Berto, pseudônimo de Alberto Raposo Pidwell Tavares, nascido em Coimbra a 11/1/48 e falecido em Lisboa a 13/6/97, do século passado. Espero que gostem. Tenho a impressão de que já coloquei este texto aqui…. Se repito fica assim mesmo!

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Escrever cartas. Uma prática que pode beirar o inusitado para algumas gerações. Escrever cartas é prática que não encontra mais espaço no horizonte de expectativas de muita gente, sobretudo se se considerar as quatro últimas décadas – isso para ser bastante generoso. Certa feita, em casa de uma amiga, pedi papel de carta e envelope para enviar a alguém a quem estava a dever uma resposta. Meu espanto: não havia, nem papel de carta, nem envelope. Em minha casa, há uma quantidade enorme de envelopes – daqueles emoldurados por uma tarja verde e amarela… coisa de museu quase… ainda que eu insista em manter correspondência postal com a Elaine. Vamos ver quanto tempo ela ainda vai durar…

Por falar em carta, lembro-me de Camões e as suas, as “ridículas”, do Pessoa; as incineradas do Alberto e as três que Al Berto escreveu: uma para a mulher, outra para o pai e a terceira para o amigo. Se mulher, pai e amigo os são do sujeito cartorial que responde por Alberto Raposo Pidwell Tavares, ou Al Berto, já não sei. Há controvérsias. Costumo dizer que a biografia de um sujeito, desde que pistas sejam encontradas em seu texto (de gênero imponderável, por princípio), pode ser um instrumento, no mínimo, instigante para abordagem hermenêutica, de qualquer cariz, deste mesmo texto. Assim o faço com as Três cartas da memória das Índias. São três que, por intertextualidade, remetem A Camões e Pessoa, dialogando com Al Berto. Memória remete a tempo passado e articulada a “Índias”, faz logo pensar em Camões e sua homenagem épica às navegações portuguesas que para tão longínqua terra os levou. Também faz pensar em algo que não aconteceu e sua falta instiga a rememoração; da mesma forma que remete a um sonho abortado. Tudo isso, num clima de despedida, portanto, melancólico, o que faz olhar para Pessoa.

À primeira delas, deu o poeta o nome de “Carta da árvore triste (à minha mulher)”. O possessivo põe lenha na fogueira das possibilidades de leituras a que acima me referi. “Árvore” é substantivo comum que circunscreve campo semântico que aglutina ideia de mulher, de fertilidade; ao mesmo tempo que, por metonímia, leva à associação com madeira, caravela, viagem. Bem vindos de volta, Pessoa e Camões!

“o telefone parou de tocar
atiras o jornal para o caixote do lixo
reparas então que tudo o que permanecera na penumbra do sono
surge subitamente nítido e coberto de luz
como se tivesses encontrado uma fotografia esquecida
no fundo dalguma gaveta forrada a papel manteiga
o dia instalar se á igual aos outros milhares de dias
com a banal crueldade dos acontecimentos
ouves rádio enquanto o café aquece
deixas queimar um pouco as torradas
passas os dedos pelos cabelos atados numa fitinha de chita
ajeitas o roupão para cobrires o peito desarrumado

depois
com a chávena de café na mão mexendo o açúcar
arrastando os chinelos de borracha virás até aqui
onde encontrarás esta carta”

*************************************************************************************

“é me desconhecida a vida fora dos sonhos e dos espelhos
tu brincavas com o sangue
a noite cola se me aos gestos
enquanto balbucio com dificuldade esta carta
onde gostaria de deixar explicadas tantas coisas
não consigo
o silêncio é o único cúmplice das palavras que mentem
eu sei
comemos a lucidez do asfalto
mudámos de morada sempre que foi preciso recomeçar
vivíamos como nómadas sem nunca nos habituarmos à cidade
mas nada disto chegou para nos entendermos
o tempo transformou se num relógio de argila
tudo esqueci dessas derivas
e pelo corpo de nossos desencontros diluíram se os sonhos
a verdade é que nunca teria conseguido escrever te
sob o peso da luz do dia
a excessiva claridade amputar me ia todo o desejo
cegar me ia
tentaria cicatrizar as feridas reabertas pela noite
sou frágil planta nocturna e triste
o sol ter me ia sido fatal
conduzir me ia ao entorpecimento da memória”

A segunda carta recebe o título de “Carta da região mais fértil (a meu pai)”. A fertilidade, triste na primeira carta, associa-se à virilidade, infusa no substantivo “pai”, do gênero masculino, construindo clara antítese com a tristeza que particulariza a pedra de toque da primeira carta: o abandono da mulher. Aqui, a identificação da/com a masculinidade é cristalina e, por oposição à primeira carta, remete à ideia de fertilidade, subtítulo do poema. A mudança, o anonimato dos afetos e desejos partilhados contrapõem-se ao marasmo da vida confortável com a mulher e à memória afetiva da educação recebida do pai.

vai certamente estranhar esta quase interminável carta
pai
há muito que o silêncio se fez entre nós
o pai com os seus trabalhos por aí onde o tempo custa a passar
e eu pobre de mim
tão aflito me sinto com a velocidade desse mesmo tempo
a cidade é veloz”

*************************************************************************************

“(…) é certo que arranjei outras compensações
a amizade segura de um amigo
talvez seja melhor não revelar grande coisa sobre este assunto
poderia chocar o pai por demasiado íntimo e delicado
duvido mesmo que conseguisse entender a amizade como eu a entendo
que quer
sempre gostei da travessia das noites e das pessoas
e de beber
muitas vezes nem sei quem são as pessoas com quem falo
o pai dir-me-á que tudo isto são simples fugas
é possível
desde que me conheço que me fujo
amo essas fugas esses pedaços doutras vidas cruzando se
com pedaços sombrios da minha
não leve a mal estes desvarios”

Por fim, a terceira carta que se intitula “Carta da flor do sol (a um amigo)”. Na indefinição pronominal proposta no título, a definição do direcionamento de minha leitura: o real motivo da partida, do abandono, inclusive, do “melhor amigo”. Implicitamente, o homoerotismo que marca as palavras do poeta se faz explícito na aproximação de sentidos que “flor” e “sol” imprimem sobre a expressão de desejo tão peculiar. A beleza, o hedonismo, o desabrochar e a luminosa energia que, entre sol e flor, viceja, faz vislumbrar o definido desejo que indefine outras relações na busca insaciável de satisfação.

“vou partir
como se fosses tu que me abandonasses”

*************************************************************************************

“conhecíamo-nos pelo tacto e pelo olfacto
tornámo-nos murmurantes
e tu refulges ainda no escuro dos quartos que conhecemos
cruzámos olhares cúmplices
falámos muito não me recordo de quê
e no calor dos corpos crescia o desejo”

O poema mistura experiências e constatações. Pulveriza ideias e protótipos – para não dizer estereótipos. Aponta diversas possibilidades de leitura. Aqui esboçada, está apenas mais uma, umazinha, simples e humilde, mas feita de coração, com a mente aberta às outras possibilidades, reconhecendo sua pequenez e limitação. Assim não fosse, não existiria a tal de crítica literária. A cada dia que passa, e muito mais agora, quando começo a descer a ladeira, confirmo a constatação de que o soco no estômago que a poema (no caso) e qualquer outro texto literário (no geral) dão no leitor é primordial, essencial, irrecorrível, inescapável, para fazer  a análise interpretativa a que se arvora certa crítica que se quer como imposição de parâmetros teóricos como conditio sine qua non desta mesma leitura. Teoria vem depois, é consequência que não pode prescindir da leitura mesma do texto. Entenda quem tiver olhos de ver e ouvidos de ouvir. Alea jacta est. E mais não digo: punto i basta!

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Das cartas

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Escrever cartas. Uma prática que pode beirar o inusitado para algumas gerações. Escrever cartas é prática que não encontra mais espaço no horizonte de expectativas de muita gente, sobretudo se se considerar as quatro últimas décadas – isso para ser bastante generoso. Certa feita, em casa de uma amiga, pedi papel de carta e envelope para enviar a alguém a quem estava a dever uma resposta. Meu espanto: não havia, nem papel de carta, nem envelope. Em minha casa, há uma quantidade enorme de envelopes – daqueles emoldurados por uma tarja verde e amarela… coisa de museu quase… ainda que eu insista em manter correspondência postal com a Elaine. Vamos ver quanto tempo ela ainda vai durar…

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Por falar em carta, lembro-me de Camões e as suas, as “ridículas”, do Pessoa; as incineradas do Alberto e as três que Al Berto escreveu: uma para a mulher, outra para o pai e a terceira para o amigo. Se mulher, pai e amigo os são do sujeito cartorial que responde por Alberto Raposo Pidwell Tavares, ou Al Berto, já não sei. Há controvérsias. Costumo dizer que a biografia de um sujeito, desde que pistas sejam encontradas em seu texto (de gênero imponderável, por princípio), pode ser um instrumento, no mínimo, instigante para abordagem hermenêutica, de qualquer cariz, deste mesmo texto. Assim o faço com as Três cartas da memória das Índias. São três que, por intertextualidade, remetem A Camões e Pessoa, dialogando com Al Berto. Memória remete a tempo passado e articulada a “Índias”, faz logo pensar em Camões e sua homenagem épica às navegações portuguesas que para tão longínqua terra os levou. Também faz pensar em algo que não aconteceu e sua falta instiga a rememoração; da mesma forma que remete a um sonho abortado. Tudo isso, num clima de despedida, portanto, melancólico, o que faz olhar para Pessoa.

À primeira delas, deu o poeta o nome de “Carta da árvore triste (à minha mulher)”. O possessivo põe lenha na fogueira das possibilidades de leituras a que acima me referi. “Árvore” é substantivo comum que circunscreve campo semântico que aglutina ideia de mulher, de fertilidade; ao mesmo tempo que, por metonímia, leva à associação com madeira, caravela, viagem. Bem vindos de volta, Pessoa e Camões!

o telefone parou de tocar 
atiras o jornal para o caixote do lixo 
reparas então que tudo o que permanecera na penumbra do sono 
surge subitamente nítido e coberto de luz 
como se tivesses encontrado uma fotografia esquecida 
no fundo dalguma gaveta forrada a papel manteiga
o dia instalar se á igual aos outros milhares de dias
com a banal crueldade dos acontecimentos 
ouves rádio enquanto o café aquece 
deixas queimar um pouco as torradas 
passas os dedos pelos cabelos atados numa fitinha de chita 
ajeitas o roupão para cobrires o peito desarrumado

depois
com a chávena de café na mão mexendo o açúcar 
arrastando os chinelos de borracha virás até aqui 
onde encontrarás esta carta 

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é me desconhecida a vida fora dos sonhos e dos espelhos
tu brincavas com o sangue 
a noite cola se me aos gestos
enquanto balbucio com dificuldade esta carta 
onde gostaria de deixar explicadas tantas coisas 
não consigo 
o silêncio é o único cúmplice das palavras que mentem 
eu sei 
comemos a lucidez do asfalto 
mudámos de morada sempre que foi preciso recomeçar 
vivíamos como nómadas sem nunca nos habituarmos à cidade 
mas nada disto chegou para nos entendermos 
o tempo transformou se num relógio de argila
tudo esqueci dessas derivas 
e pelo corpo de nossos desencontros diluíram se os sonhos
a verdade é que nunca teria conseguido escrever te
sob o peso da luz do dia 
a excessiva claridade amputar me ia todo o desejo
cegar me ia
tentaria cicatrizar as feridas reabertas pela noite 
sou frágil planta nocturna e triste 
o sol ter me ia sido fatal
conduzir me ia ao entorpecimento da memória

A segunda carta recebe o título de “Carta da região mais fértil (a meu pai)”. A fertilidade, triste na primeira carta, associa-se à virilidade, infusa no substantivo “pai”, do gênero masculino, construindo clara antítese com a tristeza que particulariza a pedra de toque da primeira carta: o abandono da mulher. Aqui, a identificação da/com a masculinidade é cristalina e, por oposição à primeira carta, remete à ideia de fertilidade, subtítulo do poema. A mudança, o anonimato dos afetos e desejos partilhados contrapõem-se ao marasmo da vida confortável com a mulher e à memória afetiva da educação recebida do pai.

vai certamente estranhar esta quase interminável carta 
pai 
há muito que o silêncio se fez entre nós 
o pai com os seus trabalhos por aí onde o tempo custa a passar 
e eu pobre de mim 
tão aflito me sinto com a velocidade desse mesmo tempo 
a cidade é veloz 

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(…) é certo que arranjei outras compensações 
a amizade segura de um amigo 
talvez seja melhor não revelar grande coisa sobre este assunto 
poderia chocar o pai por demasiado íntimo e delicado 
duvido mesmo que conseguisse entender a amizade como eu a entendo 
que quer 
sempre gostei da travessia das noites e das pessoas 
e de beber 
muitas vezes nem sei quem são as pessoas com quem falo 
o pai dir-me-á que tudo isto são simples fugas
é possível 
desde que me conheço que me fujo 
amo essas fugas esses pedaços doutras vidas cruzando se
com pedaços sombrios da minha 
não leve a mal estes desvarios

Por fim, a terceira carta que se intitula “Carta da flor do sol (a um amigo)”. Na indefinição pronominal proposta no título, a definição do direcionamento de minha leitura: o real motivo da partida, do abandono, inclusive, do “melhor amigo”. Implicitamente, o homoerotismo que marca as palavras do poeta se faz explícito na aproximação de sentidos que “flor” e “sol” imprimem sobre a expressão de desejo tão peculiar. A beleza, o hedonismo, o desabrochar e a luminosa energia que, entre sol e flor, viceja, faz vislumbrar o definido desejo que indefine outras relações na busca insaciável de satisfação.

vou partir 
como se fosses tu que me abandonasses

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conhecíamo-nos pelo tacto e pelo olfacto
tornámo-nos murmurantes
e tu refulges ainda no escuro dos quartos que conhecemos 
cruzámos olhares cúmplices 
falámos muito não me recordo de quê 
e no calor dos corpos crescia o desejo 

O poema mistura experiências e constatações. Pulveriza ideias e protótipos – para não dizer estereótipos. Aponta diversas possibilidades de leitura. Aqui esboçada, está apenas mais uma, umazinha, simples e humilde, sincera, mas feita de coração, com a mente aberta às outras possibilidades, reconhecendo sua pequenez e limitação, afirmativa de minha autonomia. Assim não fosse, não existiria a tal de crítica literária. A cada dia que passa, e muito mais agora, quando começo a descer a ladeira, confirmo a constatação de que o soco no estômago que a poema (no caso) e qualquer outro texto literário (no geral) dão no leitor é primordial, essencial, irrecorrível, inescapável, para fazer  a análise interpretativa a que se arvora certa crítica que se quer como imposição de parâmetros teóricos como conditio sine qua non desta mesma leitura. Teoria vem depois, é consequência que não pode prescindir da leitura mesma do texto. Entenda quem tiver olhos de ver e ouvidos de ouvir. Alea jacta est. E mais não digo: punto i basta!

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Cartas

Faz (já!) mais de um ano, conclui um segundo estágio de pós-doutoramento em Coimbra. Foram seis meses recheados de coisas/momentos inesperadas, revisitações, lembranças e experiências. Tudo muito instigante e absolutamente gratificante, com o devido pedido de perdão pela involuntária rima pobre… Seis meses inesquecíveis. Já de volta aos trópicos, fiquei sabendo do lançamento de mais um livro do Pedro Eiras, jovem professor do Porto, também poeta e ensaísta. Dele já tinha lido A cura e Bach. Estes dois são impecáveis, como linguagem narrativa, como concepção de gênero, como exercício estético oriundo de uma cabeça pensante, brilhantemente pensante (De novo, com os devidos pedidos de perdão pela involuntária rima…). No primeiro, a figura do Papa se encontra com sombras de Freud, numa trama alimentada pelo drama de um psicanalista que vivencia crise de relação afetiva e certa descrença em seu métier… Quase um thriller, pois não acontece assassinato ou roubo que valesse a pena alimentar o suspense deste gênero. No entanto, o enredo, envolve e cativa, encanta e seduz, e o final, surpreendente, não deixa nada a desejar. No segundo, Bach, o músico, alinha as histórias que se escrevem e contam por meio de textos do mais diverso cariz. Numa espécie de homenagem velada, os dramas narrados se embalam ao som de cantatas anunciadas a cada capítulo. A curiosidade me fez ler este livro. Quem mo indicou enfatizou que ouvir as cantatas, quando da leitura de cada capítulo, além de elevar o espírito, empresta elegância e sofisticação a esta narrativa de difícil “classificação” – para quem não é capaz de viver sem uma…

Bem. Isso não é tudo! O livro de que vou falar dá coceira no cérebro, como eu gosto de dizer. Já na capa, dois elementos ilustrativos instigam a curiosidade (na edição portuguesa que adquiri): a figura de Fernando Pessoa e uma imagem – à maneira de marca d’água – que mostra um maço de papeis rabiscados e manchados, como que velhos. Mesmo sem saber, o inconsciente já solta as enzimas do prazer do suspense, da curiosidade. E abre-se a primeira página: primeira surpresa, o título do capítulo: “Breve explicação”. Num romance? Vá lá. Não é tão inusitado assim. Pode até ser “pós-muderno”… há quem queira assim… Mas a nota explica sobre a procedência a matéria que vai constituir a narrativa a ser lida: “Em 1995, numa ida a Paris, decidi procurar o antigo Hôtel de Nice, onde Mário de Sá-Carneiro viveu os últimos meses e se suicidou. O hotel figa em Pigalle, bairro vermelho da cidade…” (p. 7). Mário de Sá-Carneiro se matou. Eu sempre disse que foi com um tiro. O autor informa, mais adiante, que foi envenemanto. Isso é caso para pensar. Em se tratando de ficção, praticamente tudo se constitui mistério e se faz objeto de dúvida e especulação. Adiante… Ainda no âmbito da “explicação”, o autor informa que trabalhou com transcrições de cartas que Fernando Pessoa teria escrito para Mário de Sá-Carneiro, especificamente no período compreendido entre 1915 e 1916: “Durante as longas sessões de transcrição, num mometo em que Monsieur Lange se afastou, arrisquei fotografar uma carta com o telemóvel. (…). Apesar da evidente falta de qualidade, publico também neste livro essa única fotografia.” (p. 13). Desse pequeno trecho, deduz-se: há uma “personagem” chamada “Monsieur Lange; o autor transcreveu cartas e uma fotografia aparece no texto do romance (?). Interessante: isso prepara o leitor para o que vai ler.

Menor não é a surpresa ao ver, logo em seguida, depois da página com a foto, o início do segundo capítulo do livro que leva o nome de “Critérios editoriais”. Faz sentido: se houve uma transcrição, critérios para estabelecimento de texto se faz indispensável. Mas… num romance? Duplica-se a dúvida. Dobra-se a rasura do texto num subtexto que não emerge e faz-se pergunta: as cartas “transcritas” existem mesmo? De acordo com o capítulo anterior, sim. Mas… E pra completar, ao final do segundo capítulo, uma lista com quatro referências bibliográficas. Uma vez mais, a mesma pergunta: num romance? A repetição da pergunta se faz pertinente porque acredito que disto se trata: de um romance. Um romance que se conta, de fato, nos dois primeiros capítulos. A sequência das cartas, apresentada ao longo de 159 páginas, conforma outra história. Então são duas, as histórias contadas neste “romance”. A decisão de confirmar ou não esta hipótese fica a critério de seus leitores. Não me dei por vencido e fui procurar um dos volumes anunciados nas referências bibliográficas, de onde, diz o autor do livro, algumas cartas foram tiradas. Na verdade, duas delas são do punho de Fernando Pessoa endereçadas a Mário de Sá-Carneiro. Então…

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O título do livro pode ser tomado como uma provocação: Cartas reencontradas de Fernando Pessoa a  Mário de Sá-Carneiro. As duas cartas que, de fato, são do poeta ortônimo, têm sua correspondência documental registrada num outro volume, o que reúne as cartas de Mário de Sá-Carneiro para Fernando Pessoa.

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Se a leitura do livro de Pedro Eiras não chama a atenção de críticos mais sisudos, não será por falta de provocação. De outro lado, esta mesma leitura desconcerta as retinas – umas fatigadas, outras nem tanto, e ainda outras absolutamente virgens – que sobre as páginas do volume passeiam atentas, deslumbradas, estupefatas mesmo! Ave, leitura! E sendo, uma vez mais, repetitivo: fica o convite!

Outra carta

Agora, a carta resposta de Aberto de Oliveira. Sem a leitura da totalidade das cartas de António Nobre, fica um tanto difícil perceber, de fato, a diferença de tom a que me referi ontem. Mas vale a intenção…

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António Nobre

                                                                                              Matosinhos

                                                                                              [?] Julho 1893

 À sua carta devo responder que a correspondência uma vez expedida pertence ao seu destinatário e não a quem a escreveu.

A sua amizade morreu, é certo; mas eu desejo trata-la como os grandes cadáveres e conservar dela todas as relíquias e lembranças que me foram caras. Quero dizer com isto que me julgo com direito a ser seu amigo até quando eu quiser, embora haja resolvido nunca mais na minha vida atas as minhas relações consigo (e como bem sabe, as minhas resoluções neste assunto nunca seguiram pelas suas).

Guardo o seu diário pelo mesmo motivo por que conservo o seu retrato nas minhas paredes, e conservarei sempre certa dedicatória no meu livro. Se tem empenho em suicidar-se na parte de sua vida em que me conheceu, eu por mim tenho o empenho contrário. Não é que tencione tão cedo ler as suas cartas antigas; mas a vida tem fases muito diversas e pode vir ainda a trazer-me doces impressões uma leitura que hoje só me entristeceria.

Do meu Diário faça o que o seu sentimento lhe mandar. Não posso, pelas razões que acabo de expor, aceder ao seu pedido. Acerca dos restantes pontos da sua carta, pode estar certo de que não serão esquecidas as suas recomendações. Aproveito a ocasião para lhe fazer chegar às mãos um livro que o Manuel Gaio lhe envia por meu intermédio.

                                                                                                                       Alberto

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Cartas

António e Alberto se conheceram em Coimbra, no finalzinho do século 19. Eram ambos nascidos no Porto, mas foram se conhecer na cidade sede da universidade mais antiga de Portugal. Mero acaso (?). Estudaram Direito. Alberto acabou por se formar em Coimbra António, foi duas vezes reprovado e, desgostoso, mudou-se para Paris onde veio a concluir seu curso. Neste período de separação, com direito a um encontro ou dois na cidade luz, António e Alberto trocaram cartas e bilhetes postais. Estes últimos constituíram o que chamaram de “Diário”. Para além de impressões e poemas e notícias, partilharam afetos postais com intensidade O mesmo se pode dizer das cartas que escreveram um o outro. Bem… Cabe uma explicação. Alberto escreveu, sim, para António. No entanto de suas cartas, restam quatro. Três que tratam de assuntos diversos e não foram endereçadas exatamente a António. E uma, a “joia do Nilo” – no contexto da correspondência, bem entendido – que faz par a outra, escrita por António e a que chamei de as cartas do rompimento. Não fui original, tenho certeza, já não alimento esse tipo de vaidade… Voltando à vaca fria…  A carta que António escreve a Alberto cobrando deste a devolução de seus papeis tem tom radicalmente oposto às demais endereçadas a seu “amigo mais querido”, o “Betinho”. Já a de Alberto para António, parece manter o senso de afeto e amizade profunda que uniu esses dois homens numa relação que até hoje causa estranheza… inexplicavelmente. Alberto, antes e morrer, pediu que seus papeis fossem queimados. Até prova em contrário – passei seis meses tentando encontrar uma pista que fosse para satisfação de minha ilusão de encontrar algumas dessas cartas perdidas num recanto qualquer da península – foram mesmo queimadas, mas restou a “do rompimento”. Um único cartão postal também escapou do “incêndio” e foi analisado por Mário Cláudio num ensaio publicado pela Revista Colóquio Letras, da Fundação Calouste Gulbenkian. Uma joia rara! Pois bem. Hoje trago aqui a carta de António. Amanhã, se minha preguiça deixar, trago a de Alberto. Depois de amanhã, seguindo a mesma toada, talvez teça mais alguns comentários.

autorid21205

Terça-feira                                                                 26— Rua de Carreiros

25-8-1893                                                                   S. João da Foz

Meu caro Sr. Alberto de Oliveira:

Quando eu, há dias, lhe enviei polidamente uma se­rena carta, convidando-o a restituir-me o meu «Diário», cri fazê-lo ao grande amigo do meu passado, não ao delegado da 2.a vara. Este senhor, porém, foi quem me respondeu e de código na mão: «a correspondência, uma vez expedida, pertence ao destinatário.» Ora eu já sabia deste pormenor legislativo. Há, contudo, nos usos sociais certas fórmulas de cortesia que em algumas circuns­tâncias se aplicam, tal a correspondência que se troca entre homem e menina. Ora o Sr. Alberto de Oliveira foi a menina de nossa correspondência. Confiado na dignidade de cada qual, enceta-se uma palestra postal que, às vezes, pelos mais inexplicados [?] da sorte acaba, um dia, e, nesse dia, se troca. Que seria ao con­trário da reputação dos amorosos correspondentes? O nosso «Diário» está nesses casos. Seria a minha morte moral o seu conhecimento, na publicidade: posso eu ir-me breve, podemos ambos irmo-nos, moços, e assim ficaria nossa intimidade à mercê do primeiro curioso que, ao ver essa diária correspondência europeia dum homem conhecido, a tornaria pública, a princípio no círculo das suas relações e, mais tarde, ele ou outro, iria dá-la a Guttenberg. Não quero tal. Quero antes a incineração. Quando, há alguns meses, em Lisboa, moti­vos seus me levaram a cortar com o senhor as minhas melhores relações, não eram aqueles os meus desígnios: era ainda muito seu amigo e sabia-o meu a valer, para lhe dar um golpe desses que a mim próprio me feriria. Pensava que havia morte e temia os seus remorsos. — «Não era urgente pedi-lo, um dia será.» Quando se extinguem minhas relações com amigos queridos, respeito-os como aos mortos. Nem uma palavra de ultraje, quanto mais uma acção! Vi, porém, que da sua parte, contra todas as suas tradicionais regras de fidelidade e leal­dade e bondade, se portou para comigo de maneira tal, por palavras que surpreendi e factos que vi com estes olhos tristes (que ainda o ficaram mais) que para a qualificar teria de quebrar a linha perdendo a minha serenidade. Começou naturalmente a extinguir-se a mi­nha estima pelo senhor e a amarelecer essa flor «Não sei quê» que em si brotara e me dominava — a nobreza da sua alma: aí tem a acusação que eu lhe faço, dele­gado de outra vara, — e diga-me agora: não é humano, justo (justo delegado) que eu reclame um objecto que é uma honra possuir, não pelo espírito que o ditou, mas pela alma rude de carpinteiro (mas amiga) por essas três mil páginas esborrachadas a tinta? Os grandes cadáveres pertencem ao Pantheon, não às gavetas da sua secretária. Há dias enviei a sua casa a minha «bonne» para receber o meu «Diário» e entregar-lhe um pacote das suas cartas que tenho em Portugal. Esse pacote foi-me devolvido e esse ultraje fez-mo o senhor a mim, fazendo-se representar pela sua criada de meio. Assim fez a [?], Ontem procurava encontrá-lo no Porto para lhe pedir uma explicação deste facto. Não o encon­trei. Devolvo-lhe, pois, dentro desta a eloquente carta que me escreveu, como um desforço à sua afronta. Quanto ao cumprimento da minha vontade, adio este incidente até ao meu regresso de Paris: no campo em que me coloco, necessito já agora da sua correspon­dência. Eu, abaixo assinado, quero o meu «Diário». E isto basta.

Antônio Nobre

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