Primórdios III

Depois de uma semana de suspensão, devido a uma viagem de que gostei imenso, continuo a publicação, em série, de minhas primeiras monografias:

A hora da estrela: análise de estrutura

Escrever sobre a realização literária de alguém é, aparentemente, mais fácil que tomar a realizara obra. São procedimentos complexos e incomparáveis e que caminham na mesma direção, em sentidos opostos. Vetores de uma mesma necessidade.

Assim, a procura de elucidação de elementos “estruturais” de um “suposto” romance intimista é o ponto central dos objetivos deste trabalho. As palavras destacadas procuram revelar a relatividade dos conceitos quando se trata de considerar esta categoria ainda pouco elucidada e devidamente conceituada.

Acreditamos que o romance intimista não se reduz ao grupo de obras que sempre se preocupam – e se preocupam, sempre – com a problemática de um indivíduo na intimidade de seu próprio existir. Este “tom” narrativo tem sido tomado por grande parte da crítica, como ponto de apoio para a análise e a consideração do intimismo de determinada obra.

A categoria intimista, que exige procedimentos narrativos próprios, não deixa de estar preocupada com a intimidade dos humanos a própria etimologia da palavra é suficientemente óbvia nesta ligação essencial. Transcende, porém, o individual,buscando o desvelamento de uma realidade essencial para o ser humano, em sua dimensão mais universal. O confessional ou o subjetivo é, se assim podemos dizer, um dos primeiros passos para a “epifania” do intimismo enquanto expressão estética.

Com relação ao delineamento de uma estrutura romanesca pa­ra esta categoria, nos deparamos com um pequeno problema.No caso particular de Clarice Lispector, fica difícil determinar o nome “romance” como gênero, para a maioria de seus textos. Na verdade, muitos dos traços particularmente característicos a ele, estio bastante diluídos na obra clariceana e perdem-se, confundem-se com outros, instaurando enfim, urna nova modalidade que passa a não poder ser enformada no gênero“romance”, tradicionalmente conceituado.

Partiremos, neste caso, da obra publicada postumamente, A hora da estrela, que, para aproveitar a ocasião, mereceu já uma adaptação bastante feliz para o cinema. Guardadas as devidas pro­porções e as tradicionais dificuldades de transposição – acentua­das no caso de Clarice Lispector –, o resultado final agrada sem desmistificar o valor da obra literária, mantem-se fiel.

Como primeiro passo, para a organização deste trabalho, resolvemos privilegiar dois extratos narrativos: personagem e foco narrativo.Para as pretensões apresentadas, julgamos suficientes estes extratos, uma vez que a abordagem dos demais faz parte de um trabalho maior, já em andamento.

Começando pela consideração do extrato-personagem, podemos fazer uma observação interessante sobre seus nomes. Obviamente, todas as colocações estão relacionadas com o universo da própria obra, não tendo valor de comprovação de tese alguma. Não obedeceremos a sua ordem de entrada.

Macabéa é a estrela maior deste romance.Seu nome tem ligação morfológica com os “macabeus”, da Bíblia. Povo sofrido,que passa a vida em constante conflito com a realidade na qual estão imersos,no seu tempo. Ao mesmo tempo, funciona quase como um anagrama de “manca”, principalmente quando e tratada por “Maca”, pe­lo “narrador”. Alertamos para o fato de insistir em certos pontos óbvios para não perder de vista determinados detalhes. Nordestina e pobre, feia e subnutrida, ela é protagonista de uma história comum, sem a menor beleza, em que se perdem miríades de outras nordestinas, aspirantes ao sucesso existencial. A escolha desse nome não nos parece casual. O contraponto realizado em relação aos ou­tros dois personagens destacados, Olímpico e Gloria, é comprovação disso.

O namorado carrega o peso mitológico da aparente irrealidade das coisas. Com a cabeça povoada de ilusões, erros e preconceitos estereotipados, ele representa o mundo ideal de Macabéa. Algo que ela sonha alcançar,mas que não consegue sequer entender:

– Eu não entendo o seu nome – disse ela.

– Olímpico? (p. 53)

Com ele, Macabéa descobre o desejo,consegue perceber os movimentos internos da paixão, sem, contudo, conseguir verbalizar isso:

Ela sabia o que era o desejo –embora não sou­besse que sabia. Era assim, ficava faminta mas não de comida,era um gosto meio doloroso que subia do baixo-ventre e arrepiava o bico dos seios e os braços vazios sem abraços. (p. 53)

Um ponto a notar é a dificuldade de verbalização vivida por Macabéa. Ela dificilmente fala. Quando o faz é por meio de frases certas que pouco esclarecem sobre seu próprio raciocínio, suas ideias. Neste ponto podemos basear algumas considerações psicanalíticas possíveis, que fatalmente aparecerão nas entrelinhas do próprio texto.

Continuando, temos Glória, a imagem desejada por Macabéa. Ela e o seu oposto. Em tudo e melhor, boa de carnes, loura (apesar de oxigenada), inteligente, bonita e recebe telefonemas…A importância que reveste esta mulher é tamanha para Macabéa que, mesmo tendo seu namorado porela, não consegue desvencilhar-se de sua querida companhia. Glória é o “outro”no espelho imaginário em que Macabéa se mira.

A capa da edição utilizada neste trabalho é bastante elucidativa desta consideração. Nela vemos uma mulher com características de Macabéa, dominada por uma imagem de Marylin Monroe. O retrato da obsessão. Alguns defendem a tese de que haja neste movimen­to um índice do caráter ideológico do romance.Acreditamos que sim, mas observando que este traço não reina absoluto no cerne da narrativa.

As “marias”, companheiras de pensão de Macabéa são quase desdobramentos de Glória, em escala menor. Sua inexpressividade, no corpo da narrativa, se compara com outras citações feitas no transcorrer do romance; assim como acontece com o chefe do escri­tório onde Macabéa trabalha. Apesar de que, nesse particular, po­demos localizar beste último a imagem do pai que não foi conhecido por Macabéa. Assim, estaria mais esclarecida sua dificuldade em falar.

A cartomante, cujo nome faz associação com o charlatanismo que pontua seu discurso: Carlota – Charlotte,charlatã – fun­ciona como o arauto que vem anunciar achegada da hora e da vez de Macabéa. É sua consciência messiânica. Prenunciando um futuro imediato de sucesso, felicidade, prazer, amor e riqueza, ela enco­bre a verdadeira destinação da protagonista:

(…) Faz tempo que não boto cartas tão boas. E sou sempre sincera: por exemplo,acabei de ter a franqueza de dizer para aquela moça que saiu daqui que ela ia ser atropelada, ela até chorou muito, viu os olhos avermelhados dela? (…) (p.88)

A nível da história, os personagens quase não têm ação. Sua apresentação, apesar de contar com elementos descritivos, que funcionando como carteira de identidade, são apresentados, claramente, muito mais por suas percepções, pelas reações ao que os rodeia do que por atitudes, caráter, convicções expressas em discursos verbalizados.

Esta característica do romance intimista,no entanto, não pode escapar da necessidade de descrição. Sem ela, haveria um desequilíbrio muito forte na diegese do próprio personagem. Sua concretude ficaria comprometida.

No caso do romance em questão, os personagens aparecem co­mo clara expansão da personalidade do “narrador”. Esta afirmativa abre espaço para o problema do foco narrativo que será tratado a seguir.

Há uma preocupação constante com detalhes que pouco ou na­da acrescentam à construção da imagem real dos personagens, mas possuem uma força reveladora de força inquestionável. Este apego necessário ao que e pequeno, quase insignificante e o consequente mergulho em seu interior, na busca de esclarecimento de um sentido mais profundo, é característica do escritor intimista. Há uma declaração franca sobre este ponto na seguinte passagem:

(…) Esta, que, como eu disse, tinha tendência a notar coisas pequenas, percebeu que dentro de cada bombom mordido havia um líquido grosso. Não cobiçou o bombom pois aprendera que as coisas são dos outros. (p. 84)

Esta atitude, cara ao escritor intimista,faz demonstrar o caráter operacional dos personagens. Estes são instrumentos de veiculação de uma comunicação quase impossível em primeira pessoa. Esta impossibilidade caracteriza a arriscada tarefa de falar do indizível. A penetração na interioridade pode transformar-se num discurso carregado,denso, opaco demais para que seja deglutido com a necessária facilidade – e proporcional também! Utilizando-se de“personagens”, o autor intimista escapa do risco de escrever um diário pretensioso, onde anotações íntimas dariam vazão à sede de descobertas do interior do indivíduo que opera a própria realização estética. O personagem intimista, como o de outro tipo de narrativa, outro gênero de romance, funciona como mero instrumen­to de verbalização deslocada do próprio autor.

Uma diferença característica que se pode apontar é que o personagem intimista nunca é apresentado em meio a grande atividade.Sua presença é marcada pelo pensamento que o orienta a cada passo.Eles não carecem de ação expressa ou dinâmica para concre­tizarem sua existência. Sua materialidade confina-se ao nível da linguagem utilizada pelo narrador.

Como é que sei tudo o que vai se seguir e que ainda o desconheço, já que nunca o vivi? É que nu­ma rua do Rio de Janeiro peguei no ar de relance o sentimento de perdição no rosto de uma moça nordestina (…). A história – determino com falso livre arbítrio – vai ter uns sete personagens e eu sou um dos mais importantes deles, é claro. Eu, Rodri­go S.M. (p. 18-19)

Neste trecho, o narrador se identifica e explica a necessidade dos personagens. Ele persegue uma intuição, vivida num momento completamente inesperado,que deve ser relatada sem demora.

Abusca da criação de personagens, suas falas, a apresentação de suas características e a funcionalidade deles no contexto da narrativa ensejam a força propulsora do foco narrativo. Carac­terística muito mais elucidativa do romance intimista. Quem fala? Quem conta a história?

Dissemos que, no romance intimista,podemos considerar os personagens como projeções do próprio narrador. Isso não é tão simples quanto parece. A situação se complica mais, quando chega­mos a afirmar que, neste caso,inclusive este é a projeção da própria Clarice Lispector.

Neste momento, tocamos num ponto nevrálgico de uma polêmi­ca que se manifesta em várias direções. Normalmente, qualquer obra literária – tomando-se como base um enfoque psicanalítico pa­ra a sua leitura – pode ser encarada como possuidora de traços autobiográficos de seu autor; uma vez que o inconsciente do mesmo não deixa de se manifestar em cada frase, cada colocação veicula­da por um personagem do romance. Desta forma, o romance intimista perderia seu status de gênero narrativo específico. A situação se transforma quando prestamos atenção no fato de que, nestes ro­mances, o autor querer se manifestar conscientemente. Sua narrativa se faz a partir de uma compulsão incontrolável de verbalização de sua interioridade, sempre conturbada. Esta individualização do discurso não perde seu valor, não cai no lugar comum – e um exem­plo disso seria o romance confessional, o romance de primeira pessoa –, por causa do trabalho narrativo, apoiado em outros extratos que confere, na medida proporcional,qualidade estética ao resultado final.

Leiamos A hora da estrela em três níveis, para tentar compreender as afirmações precedentes.

Rodrigo S.M. declara-se o narrador de uma história aconte­cida com Macabéa, sua criação. Esta afirmativa pode ser evidenciada, entre outras, por esta passagem do romance:

(…) O que escrevo e mais do que invenção. É minha obrigação contar sobre essa moça entre milhares de­las. E dever meu, nem que seja de pouca arte, o de revelar-lhe a vida. (p. 19)

Ao mesmo tempo que não podemos deixar dedar credito a ve­racidade desta afirmação, não podemos deixar de dizer da nossa certeza da presença do discurso da autora como nível superior da estrutura discursiva do livro. Clarice se mascara no Rodrigo S.M. para falar de Macabéa que, por sua vez, carrega em si mesma muitos traços particulares da autora.Rodrigo S.M. seria, então, o “narrador implícito”. Isto porque ele não consegue se impor à narrativa enquanto autoridade. O próprio texto nos diz isso:

(…) Aliás – descubro eu agora– também eu não faço a menor falta, e até o que escrevo um outro escreveria. Um outro escritor, sim, mas teria que ser homem porque escritora mulher pode lacrimejar piegas. (p. 20)

Sem deixar de considerar o caráter ideológico que pode ser aferido nas entrelinhas, não podemos deixar de considerar que o trecho citado faz nascer e morrer a identidade do narrador.Neste romance, ele e apenas fruto de linguagem. Como os personagens, não passa de um veículo narrativo necessário para o trabalho estético com a linguagem,que é a mesma em qualquer outro tipo de romance. Como dissemos, a intuição da necessidade de se fazer uma narrativa consciente de sua própria realização eque faz com que possamos caracterizá-la como intimista. Esta situação nos parece condição sine qua non. Pra sua operacionalização, o foco narrativo colabora com seus posicionamentos discursivos no texto.

Em A hora da estrela, este “narrador”, de onde parte a própria narrativa, pode ser chamado de “onisciente”. Para utilizar uma terminologia mais comum, e um tanto desgastada. De acordo com outras classificações, ficamos em dúvida se ele estaria “com” Macabéa ou acompanharia simplesmente seus passos. Na verdade, ele sabe tudo o que está se passando, no momento mesmo dos fatos, assim como antese depois. Em última instância, a orientação tradi­cional de um foco narrativo não determina o caráter intimista da obra. Ele provoca mm rendimento técnico para o exercício compulsivo de escrever do autor intimista.

Quanto à identificação da autora com Macabéa,várias são as passagens em que esta realidade é verbalizada. Escolhemos um trecho da página 181:

(…) Sem falar que eu em menino me criei no Nordeste. Também sei das coisas por estar vivendo.

Neste mesmo trecho, um pouco mais adiante há a citação da cidade do Rio de Janeiro, local onde a intuição de criar Macabéa ocorreu, cidade em que fixou-se, viveu e morreu a autora.

Um outro aspecto interessante sobre o foco narrativo, diz respeito aos tempos verbais utilizados. Percebemos que, quando fala o narrador, há uma insistência muito forte privilegiando o passado. A história se deu num momento qualquer, a partir da percep­ção de um sentimento particular. Não há referência ao tempo da diegese. À página 50, há a referência ao mês de maio. Na história “contada” por Rodrigo S.M., foi neste mês que Macabéa conheceu Olímpico.

Não nos esquecemos, em nenhum instante, de que a análise dos extratos não pode ser feita isoladamente. Não há condições de se pensar a narrativa constantemente deslocada de um ponto a outro. Como a consideração de um detalhe exige a referência imediata a outro, citamos abaixo um trecho em que, juntamente com a referência ao tempo diegético, o narrador deixa cair a máscara fazendo ver a verdadeira face de quem está escrevendo:

O que se segue é apenas uma tentativa de reproduzir três páginas que escrevi e que a minha cozinheira, vendo-as soltas, jogou no lixo para meu de­sespero – que, os mortos me ajudem a suportar o quase insuportável, já que de nada me valem os vivos. Nem de longe consegui igualar a tentativa de repetição artificial do que originalmente eu escrevi sobre o encontro com o seu futuro namorado. É com humildade que contarei agora a história da história.Portanto, se me perguntarem como foi direi: não sei, perdi o encontro. (p. 50-51)

Nesta passagem, fica também evidente o jogo direcional que a autora implanta a sua narrativa. Ao mesmo tempo que, está se desnudando,ela se coloca atrás da máscara e mistura as instâncias, confundindo um pouco a direção do foco.

Há a criação de um quase-corte narrativo.Em cada intromissão,podemos identificar um tropeço da narrativa na realidade existencial de seu verdadeiro narrador.

Ainda em relação ao tempo verbal, é importante notar que o presente do indicativo e outros tempos são utilizados nos diálogos. Tal variação pode significar duas coisas: a presentificação, na narrativa, de um diálogo realmente acon­tecido, presenciado e anotado; ou a criação de um presente imaginário feito para contemplar os personagens com certa dose de materialidade existencial.

Tomamos a repetir que a insistência no pretérito verbal faz com que o discurso do narrador se concentre na possibilidade plausível de realização dos fatos apresentados, mesmo que com me­ros fantoches na representação da realidade interior do autor, mola mestra de propulsão e desenvolvimento da narrativa.

Uma curiosidade é que são pouquíssimos os traços descritivos de espaços específicos onde podem estar se realizando os fatos narrados. Mesmo não fazendo parte do grupo de extratos escolhidos, podemos dizer que o espaço é um dos elementos fundamentais e característicos do romance intimista, quanto ao tratamento recebido.

O escritório, um quarto de pensão, o jardim zoológico, um bar, a casa de Glória, a rua, um terreno baldio, o Jardim Botâni­co podem ser apontados como os referentes espaciais da narrativa. Na verdade, detalhes são deixados de lado. A aventura intimista proposta para a narrativa não requer localização determinada. Pa­ra não deixar o discurso solto, localiza-se sua emissão em perso­nagens ou no narrador (mesmo que implícito); da mesma forma para que esses “instrumentos” não fiquem flutuando, arranja-se um “cantinho” concreto onde possam estabelecer sua aparente materialidade.

Se assim podemos dizer, a narrativa intimista parte de um “narrador” que “descreve” a realidade intuída e volta para si mesmo: essa é uma opção para o foco narrativo. A outra seria privilegiar um personagem, ou antes, criar um personagem para ser agente ou paciente do mesmo processo. O que dizer então, quando os dois procedimentos podem ser encontrados na mesma narrativa? Pensamos que esta é a situação de A hora da estrela.

Podemos localizar um jogo, quase duelo entre os dois discursos, o do narrador e o de Macabéa (por via indireta). Este jogo poderia ser um traço característico peculiar ao romance intimista? Cremos que sim. Em outra situação, recairíamos em condições narrativas genéricas, que podem caracterizar variados tipos de romance, com a mesma propriedade.

Falar de extratos narrativos, em consideração a qualquer obra literária é tarefa que exige uma visão de conjunto.Um pressupõe a dinamização de outro(s). Assim, a estrutura do romance se assemelha a uma parede de alvenaria:os tijolos, a massa e o reboco são elementos essenciais, que não podem, em hipótese alguma, faltar sob pena de não constituírem uma parede. É o óbvio. No entanto resolvemos privilegiar dois deles para elaborar esta tentativa de caracterizar um modelo intimista do romance. A nosso ver optamos por dois extratos, os mais fundamentais.

O estatuto do personagem fundamenta-se na ideia de que a narrativa se faz a partir do homem e serve a ele. Aqui poderíamos abrir um parêntese para a discussão da veracidade ou não de uma obrigatoriedade de apoio no modelo antropomórfico para a constru­ção de um personagem. Este e importante, muito importante mesmo,mas não fundamental. Dizemos isso, pois a consideração do intimismo nos leva a pensar que este extrato não conta com privilégios, ou seja, o trabalho composicional da narrativa não objetiva a formação de um retrato memorável de uma personalidade humana,mas, sim, a reflexão dos “posicionamentos” da personalidade humana ge­nérica diante de situações concretas, reveladoras do indizível de um enigma mais que genérico, inerente à própria natureza humana.Projeto ura tanto utópico pois este tipo de visão implica natural­mente a filtragem de um ponto de vista individual. Podemos, então, concluir que personagem e foco narrativo são os dois extratos fundamentais na consumação de um romance intimista.

Não deveríamos fazer menção a muitos outros exemplos, mas não podemos deixar de dizer que os romances de Clarice Lispector primam pela utilização dessa instância. Em praticamente todos os seus textos – excetuando-se os contos – podemos encontrar uma estrutura narrativa baseada, fundamentalmente no jogo estrutural elaborado a partir do personagem e do foco narrativo.

É claro para nós o fato de ser a questão do foco narrativo, muito mais complexa do ponto de vista do trabalho linguístico, especificamente.Entretanto, numa perspectiva de estrutura narrati­va, ela se elucida com um pouco mais de clareza e facilidade pois se toma matéria de direcionamento do discurso.

Não estamos nos esquecendo de que, em meio a toda esta discussão, é possível colocar observações paralelas, a nível temáti­co. Algumas delas foram mencionadas aqui o tratamento mitológico da matéria ficcional, a organização de um discurso psicanalítico subjacente e, também, certos enfoques ideológicos (social, político, cultural e econômico, por exemplo) passíveis de veiculação do discurso da narrativa. Tais assertivas são pertinentes ao tex­to clariceano analisado, mas fogem um pouco à linha de abrangência do presente trabalho.

Em suma, temos a ousadia de afirmar que a “estrutura”do romance intimista é simplificada do ponto de vista dos elementos utilizados para veiculá-la. Por outro lado, caracteriza-se pelo aprofundamento filosófico de um discurso estruturado em personagens-guia que seguem uma trilha especulativa na busca de compreensão de sua própria essencialidade enquanto seres humanos. O discurso desenvolvido é que vai sendo orientado por focos aparentemente diversificados. Sua unicidade se faz através da linguagem que funciona como índice da revelação do indizível da interioridade. Um romance voltado para dentro de seu próprio conteúdo. Por isso, não corre o risco de ser tratado como metalinguístico.

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Bibliografia

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CANDIDO, Antonio. A personagem de ficção. São Paulo, Perspectiva, 1987. Coleção Debates, n. 1

CARVALHO, Alfredo Leme. Coelho de. Foco narrativo e fluxo de consciência. São Paulo, Pioneira, 1981.

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ZÉRAFFA, Michel. Personne et personage. Paris, Éditions Klincksieck, 1971.

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Da beleza em Clarice (também!)

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“Depois, quando todos foram embora e as crianças já estavam deitadas, ela era uma mulher bruta que olhava pela janela. A cidade estava adormecida e quente. O que o cego desencadeara caberia nos seus dias? Quantos anos levaria até envelhecer de novo? Qualquer movimento seu e pisaria numa das crianças. Mas com uma maldade de amante, parecia aceitar que da flor saísse o mosquito, que as vitórias-régias boiassem no escuro do lago. O cego pendia entre os frutos do Jardim Botânico. Se fora um estouro do fogão, o fogo já teria pegado em toda a casa! pensou correndo para a cozinha e deparando com seu marido diante do café derramado. – O que foi?! gritou vibrando toda. Ele se assustou com o medo da mulher. E de repente riu entendendo: – Não foi nada, disse, sou um desajeitado. – Ele parecia cansado, com olheiras. Mas diante do estranho rosto de Ana, espiou-a com maior atenção. Depois atraiu-a a si, em rápido afago. – Não quero que lhe aconteça nada, nunca! disse ela. – Deixe que pelo menos me aconteça o fogão dar um estouro, respondeu ele sorrindo. Ela continuou sem força nos seus braços. Hoje de tarde alguma coisa tranquila se rebentara, e na casa toda havia um tom humorístico, triste. É hora de dormir, disse ele, é tarde. Num gesto que não era seu, mas que pareceu natural, segurou a mão da mulher, levando-a consigo sem olhar para trás, afastando-a do perigo de viver. Acabara-se a vertigem de bondade. E, se atravessara o amor e o seu inferno, penteava-se agora diante do espelho, por um instante sem nenhum mundo no coração. Antes de se deitar, como se apagasse uma vela, soprou a pequena flama do dia.”

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Os parágrafos acima constituem a sequência final do conto intitulado “Amor”, parte da coletânea de autoria de Clarice Lispector, e leva o nome de Laços de família. É bom lembrar que as coletâneas de conto publicadas pela autora – inferindo-se então que a organização dos textos se deu sob sua tutela, em vida, na maior parte dos casos – levam chancela comum, associada a temas específicos. Os contos, então, podem ser lidos como variações de um leitmotiv, como na música. A harmonia da orquestra ficcional de Clarice é orquestrada em tons e semitons e sobretons que os textos dos contos vão materializando, pela via da narrativa que se espraia, as histórias que os textos contam e suas personagens e situações, por vezes, inusitadas, por foça de sua contundente banalidade.

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Pode ser que não faça sentido, o que aqui vai dito, para quem não conhece o conto na íntegra. Não vou me preocupar com isso. Escrevo por estímulo de uma aula bem dada, por mim p deixando toda a falsa modéstia de lado, por princípio – sobre o trovadorismo português, hoje pela manhã. Gostei tanto de algumas coisas que disse que resolvi escrever, usando como exemplo o trecho final do conto de Clarice Lispector. Uma mulher, no fim doa, vai dormir, não sem antes se pentear, pensando em tudo o que lhe aconteceu, de surpreendente, sobretudo, em mais uma tarde comum, banal. Aquela tarde foi uma espécie de turning point para a personagem Somente ela se deu conta disso, ninguém mais. O marido não alcança o caráter abissal da constatação vivenciada pela personagem. Nada de novo, até aqui. O que me levou a escolher esse conto é sua profunda beleza, uma delicada beleza que se explicita no trecho que aqui trouxe. Será que qualquer leitor se dá conta desta beleza? Em caso positivo, como é que se explica esta experiência? Caso contrário, seria possível fazê-lo se dar conta da tal beleza. Numa ou noutra circunstância, o fato que resta é que este final é tão tocante, tão delicado e, simultaneamente, tão contunde, perturbador e profundo, que as palavras empobrecem um pouco mais no intuito de dar expressão vivaz a estas ilações. O final é bonito, para ficar com um apalavra.

O que é que isto tem a ver com a minha aula? Talvez meus leitores entendam menos ainda. Gostei do que disse aos meus alunos pela manhã. Não reproduzo tudo, porque, de um lado, já não me lembro dos detalhes; por outro, quero evitar que meus leitores me deixem só neste ponto! Na aula, satisfez-me com uma explicação sobre o papel do trovador na poesia provençal da península e de como sua preocupação com a melodia, o ritmo e a sonoridade eram imprescindíveis para usas composições. Neste sentido, a beleza da poesia trovadoresca pode ser usada como ilustração de um dos objetivos da poesia: a expressão da beleza. Muitos “pares” podem até espernear, muitos narizes podem se torcer, muitas carantonhas podem se mostrar. Não mudo uma vírgula do que acabei de dizer. Com isso, ratifico a intuição que me leva a associar a minha aula e o final do conto de Clarice Lispector: a beleza de/em um texto literário – poesia ou prosa ou drama ou o que quer que seja – está, antes de mais nada, na sua índole expressiva. Por via de consequência, ao leitor resta o trabalho (e a delícia) de experimentar a beleza, tentando explica-la ou, esta é outra consequência, mais pragmática, menos fundamental. A beleza… ah, a beleza. Obrigado Clarice!

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Agora, a última parte:

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O inusitado, o inesperado, o revelador. É assim, não necessariamente nessa ordem, que as coisas acontecem nos textos de Clarice. Esta cena no trem aparece na versão cinematográfica de A hora da estrela, em adaptação mais que impecável dirigida por Susana Amaral. Macabéa toma café e observa, ingênua e timidamente, envergonhada, o homem do outro lado do balcão que sorri para ela. Quando ele sai andando ela vê a bengala branca… É como se certo encanto se quebrasse, assim, do nada, de repente, inexplicavelmente. No conto que citei, Ana, no fim do dia, “se atravessara o amor e o seu inferno, penteava-se agora diante do espelho, por um instante sem nenhum mundo no coração. Antes de se deitar, como se apagasse uma vela, soprou a pequena flama do dia.” Assim, uma mulher comum. Tão comum que assusta, espanta, encanta, subverte… É essa mulher que vendo constante repetidamente homenageada, revisitada em sua obra, através de suas projeções líricas em textos que sempre instigam. Mais uma homenagem é o poema a ela dedicado, da lavra de Carlos Drummond de Andrade, Visão de Clarice Lispector:

 

Clarice,
veio de um mistério, partiu para outro.

Ficamos sem saber a essência do mistério.

Ou o mistério não era essencial,

era Clarice viajando nele.

Era Clarice bulindo no fundo mais fundo,

onde a palavra parece encontrar

sua razão de ser, e retratar o homem.
O que Clarice disse, o que Clarice

viveu por nós em forma de história

em forma de sonho de história

em forma de sonho de sonho de história

(no meio havia uma barata

ou um anjo?)

não sabemos repetir nem inventar.

São coisas, são jóias particulares de Clarice

que usamos de empréstimo, ela dona de tudo.

 

Clarice não foi um lugar-comum,

carteira de identidade, retrato.

De Chirico a pintou? Pois sim.
O mais puro retrato de Clarice

só se pode encontrá-lo atrás da nuvem

que o avião cortou, não se percebe mais.
De Clarice guardamos gestos.

Gestos, tentativas de Clarice sair de Clarice

para ser igual a nós todos

em cortesia, cuidados, providências.

Clarice não saiu, mesmo sorrindo.

Dentro dela

o que havia de salões, escadarias,

tetos fosforescentes, longas estepes,

zimbórios, pontes do Recife em bruma envoltas,

formava um país, o país onde Clarice

vivia, só e ardente, construindo fábulas.

 

Não podíamos reter Clarice em nosso chão

salpicado de compromissos. Os papéis,

os cumprimentos falavam em agora,

edições, possíveis coquetéis

à beira do abismo.

Levitando acima do abismo Clarice riscava

um sulco rubro e cinza no ar e fascinava.
Fascinava-nos, apenas.

Deixamos para compreendê-la mais tarde.

Mais tarde, um dia… saberemos amar Clarice.

 

O poema de Drummond faz um retrato mais que emocionado de Clarice. Retrato difícil, no entanto. Não o que o poeta tenta no desenho de seus versos, mas o da retratada. De uma beleza selvagem e quase agressiva, Clarice, em seu raiar, plagiando o título de um artigo seminal sobre sua obra, de autoria do recentemente falecido Antonio Candido – No raiar de Clarice – cegou os olhos da Literatura Brasileira com a intensidade de seu brilho. Tanto é assim que, a meu ver, está nesta cegueira a fonte do equívoco que é a consideração da obra da escritora como hermética. A gente não consegue olhar para o sol, as ele está. Se a gente olhar para ele passa a não ver mais nada. Este é o paradoxo. Isto está por detrás, embaixo, do retrato drummondiano. A ele se apõe o que diz Lúcio Cardoso, com quem, dizem, Clarice Lispector alimentou a fantasia de uma paixão amorosa. Tudo por conta da intensa correspondência mantida com ele. Diz o escritor mineiro: “A finalidade de um retrato não deve ser a de esclarecer, mas de contornar, sugerindo o enigma. De esforço em esforço, atingir a fisionomia plena, mas com o seu segredo, que é o que importa”. É isso!

Aqui seria o ponto de passar o vídeo com parte da entrevista a Affonso Romano de Sant’Anna – https://www.youtube.com/watch?v=hWYS-m-Pcd4)

Clarice Lispector, essa mulher, nasceu, provavelmente, no dia 10 de Dezembro de 1920. Sim provavelmente. Até nisso ela é especial. Nádia Battella Gotlib e Benjamin Moses, seus dois biógrafos mais celebrados, são unânimes em afirmar que há mais de um registro cronológico de nascimento para a escritora da língua presa. Isso passaria desapercebido, não fosse a quase perfeita coincidência na cronologia desse ser humano mais que especial: o mês de nascimento e morte é o mesmo. Por conta de um dia, a perfeição não se fez. Puf! Explosão, como diz o narrador de A hora da estrela. Mais uma epifania – para acompanhar o pensamento de Olga de Sá sobre Clarice Lispector. Uma revelação. Do jeito que apareceu no mundo, se foi! Muito obrigado.

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Clarice 2

Segue a segunda parte:

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No universo quase mágico da escrita de Clarice, a criança tem lugar. Joana, de Perto do coração selvagem é uma delas. Personagem que guia um leitor pelos desvãos da descoberta da feminilidade numa relação com o pai que beira o insólito, muito canhestramente gravada na descrição de um banho, cena reveladora. Outra, talvez mais intrigante, é a coadjuvante de “Felicidade clandestina”, conto que completa a seleção de volume homônimo. Diz a voz narrativa sobre a coadjuvante: “Ela era gorda, baixa, sardenta e de cabelos excessivamente crespos, meio arruivados. Tinha um busto enorme, enquanto nós todas ainda éramos achatadas. Como se não bastasse, enchia os dois bolsos da blusa, por cima do busto, com balas. Mas possuía o que qualquer criança devoradora de histórias gostaria de ter: um pai dono de livraria.” Essa menina é má, perversa, sádica. Tem um livro que é desejado pela narradora que de um tudo faz para poder pegá-lo emprestado, em vão… O requinte de maldade da coadjuvante é expresso nas repetidas e descosidas desculpas que inventa para não emprestar o livro: não acabei ainda, não pude ler ontem, esqueci de ler tal página. Os dias correm, a angústia da narradora aumenta até que a maldade tem fim. Diz a narradora: “Até que um dia, quando eu estava à porta de sua casa, ouvindo humilde e silenciosa a sua recusa, apareceu sua mãe. Ela devia estar estranhando a aparição muda e diária daquela menina à porta de sua casa. Pediu explicações a nós duas. Houve uma confusão silenciosa, entrecortada de palavras pouco elucidativas. A senhora achava cada vez mais estranho o fato de não estar entendendo. Até que essa mãe boa entendeu. Voltou-se para a filha e com enorme surpresa exclamou: mas este livro nunca saiu daqui de casa e você nem quis ler!

E o pior para essa mulher não era a descoberta do que acontecia. Devia ser a descoberta horrorizada da filha que tinha. Ela nos espiava em silêncio: a potência de perversidade de sua filha desconhecida e a menina loura em pé à porta, exausta, ao vento das ruas de Recife. Foi então que, finalmente se refazendo, disse firme e calma para a filha: você vai emprestar o livro agora mesmo. E para mim: “E você fica com o livro por quanto tempo quiser.” Entendem? Valia mais do que me dar o livro: “pelo tempo que eu quisesse” é tudo o que uma pessoa, grande ou pequena, pode ter a ousadia de querer. Como contar o que se seguiu? Eu estava estonteada, e assim recebi o livro na mão. Acho que eu não disse nada. Peguei o livro. Não, não saí pulando como sempre. Saí andando bem devagar. Sei que segurava o livro grosso com as duas mãos, comprimindo-o contra o peito. Quanto tempo levei até chegar em casa, também pouco importa. Meu peito estava quente, meu coração pensativo. Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de o ter. Horas depois abri-o, li algumas linhas maravilhosas, fechei-o de novo, fui passear pela casa, adiei ainda mais indo comer pão com manteiga, fingi que não sabia onde guardara o livro, achava-o, abria-o por alguns instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. A felicidade sempre ia ser clandestina para mim. Parece que eu já pressentia. Como demorei! Eu vivia no ar… Havia orgulho e pudor em mim. Eu era uma rainha delicada. Às vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo. Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante.”

Pois é assim. Clarice, como eu disse, não hesita em apresentar animais quase como personagens de seus escritos. Nesse universo muito particular, a popular associação de animais com infância não perde seu lugar. Mas a particularidade supera em muito a universalidade. A prova disso pode aferida em duas outras obras: A mulher que matou os peixes e O mistério do coelho pensante. Este, traz um coelho filósofo e foi resultado do insistente pedido de um de seus filhos para escrever um livro para ele. O outro, traz no texto um tema que não está, em princípio, associado à infância: a morte. Isso não é tudo. Este nicho na bibliografia dessa mulher, a infância e os animais, brinda seus leitores com uma pérola: A vida íntima de Laura. E pasmem. Laura é uma galinha. Sim, uma galinha. O mesmo bicho que aparece num de seus contos, apavorada com a possibilidade de se ver para um almoço em família, motivo pelo qual tem uma crise existencialista e fica tergiversando sobre isso. Parece muito para reduzir a criação de Clarice ao perímetro de certa “normalidade”. Os livros infantis, pelo que se sabe, foram escritos numa máquina de escrever portátil, que Clarice carregava de um lado para outro e sua casa e pousava nos joelhos, enquanto, ninava, alimentava, cuidado de seu filho mais novo. Sim, escrevia com a máquina sobre as pernas, sentada, cuidado do filho. Prática inesperada, para dizer o mínimo. Não tão inesperada como fumar, o que ela fazia com frequência. Esta era tanta que certa feita causou um pequeno incêndio em seu apartamento. Cochilou, deixou o cigarro cair no carpete e pronto. Resultado: uma deformação séria na mão direita. Mais um detalhe que se juntou à língua presa que tantos equívocos provocava.

No turbilhão da leitura de sua obra, dois ouros contos me chamam a atenção por encantamento e inquietação. Respectivamente: “A menor mulher do mundo” e “O corpo”, respectivamente. No primeiro, a história de um antropólogo que descobre uma pigmeia que media 45 cm. Nas palavras do narrador: “ Entre mosquitos e árvores mornas de umidade, entre as folhas ricas do verde mais preguiçoso, Marcel Pretre defrontou-se cm uma mulher de quarenta e cinco centímetros, madura, negra, calada. “Escura como um macaco”, informaria ele à imprensa, e que vivia no topo de uma árvore com seu pequeno concubino. Nos tépidos humores silvestres, que arredondam cedo as frutas e lhes dão uma quase intolerável doçura ao paladar, ela estava grávida.” De um lado o maravilhamento do descobridor, de outro, as diversas reações mais inusitadas de uma sociedade que vivia apenas de seus padrões e crenças e não enxergava o mistério da menor mulher do mundo “escura como um macaco”. O inusitado da descoberta não consegue vencer a mesmice da reação da sociedade que recebe a micro mulher de maneira diametralmente oposta ao que poder-se-ia supor. Afinal, o desconcerto do mundo, tão caro a Camões, aparece transfigurado nesse espécimen esquisito do feminino. Esta é outra marca da escrita de Clarice. Do outro lado, o duplo feminino se revela no conto que narra a história de um triângulo amoroso, o tipo de triângulo que leva a um desfecho que, em nada e por nada, mais que surpreende: leva o leitor a um estado de quase catatonia por conta do espanto. Num trecho mais adiantado da história lê-se o seguinte:

Então foram à cozinha. Os dois facões eram amolados, de fino aço polido. Teriam força?

Teriam, sim.

Foram armadas. O quarto estava escuro. Elas fraquejaram erradamente, apunhalando o cobertor. Era noite fria. Então conseguiram distinguir o corpo adormecido de Xavier.

O rico sangue de Xavier escorria pela cama, pelo chão, um desperdício.

Carmem e Beatriz sentaram-se junto à mesa da sala de jantar, sob a luz amarela da lâmpada nua, estavam exaustas. Matar requer força. Força humana. Força divina. As duas estavam suadas, mudas, abatidas. Se tivessem podido, não teriam matado o seu grande amor.

E agora? Agora tinham que se desfazer do corpo. O corpo era grande. O corpo

pesava.

Então as duas foram ao jardim e com auxílio de duas pás abriram no chão uma cova.

E, no escuro da noite – carregaram o corpo pelo jardim afora. Era difícil porque Xavier morto parecia pesar mais do que quando vivo, pois escapara-lhe o espírito.

Enquanto o carregavam, gemiam de cansaço e de dor. Beatriz chorava.

Puseram o grande corpo dentro da cova, cobriram-na com a terra úmida e cheirosa do jardim, terra de bom plantio. Depois entraram em casa, fizeram de novo café, e revigoraram-se um pouco.

Beatriz, muito romântica que era – vivia lendo fotonovelas onde acontecia amor contrariado ou perdido – Beatriz teve a ideia de plantarem rosas naquela terra fértil.

Então foram de novo ao jardim, pegaram uma muda de rosas vermelhas e plantaram-na na sepultura do pranteado Xavier. Amanhecia. O jardim orvalhado. O orvalho era uma bênção ao assassinato. Assim elas pensaram, sentadas no banco branco que lá havia.

Xavier era, como se diz, o pivô crime. Amante de Carmen e Beatriz. Se não me falha a memória, eram professoras, assim como a protagonista de A maçã no escuro, outro livro fascinante de Clarice. No conto em questão, a banalizada violência do assassinato é suplantada pela indiferente constatação de vazio que acomete as duas amantes do açougueiro. Enterram o corpo do amante no jardim, plantam rosas em cima e vão tomar café. Mas a indiferença, aqui, não se reduz à frieza e/ou à maldade gratuita. Esta é, de fato, sublimada e transmutada, pela ficção de Clarice, na constatação da impotência absoluta, algo que pode beirar uma contraposição ao pensamento de Schopenhauer. Isso mesmo. Tudo em Clarice é assim. Aparentemente banal e assustadoramente revelador. No caso deste conto, em particular, há um paralelo, por antítese, a um conto de Rubem Fonseca. Mas isso é assunto para outra conversa.

Clarice, essa mulher, é assim… Assim mesmo, como Ana, a mulher que, no bonde, carrega uma sacola com compras e entre elas ovos. A personagem pressente mais uma epifania: a certeza de que sua vida não é ada do que ela sempre soube que fosse e sempre esteve vivendo. Este é o plot do conto “Amor”, constante da seleção de Laços de família:

Um pouco cansada, com as compras deformando o novo saco de tricô. (…) seu corpo engrossara um pouco e era de se ver o modo como cortava blusas para os meninos, a grande tesoura dando estalidos na fazenda. (…) Sua juventude anterior parecia-lhe estranha como uma doença de vida. Dela havia aos poucos emergido para descobrir que também sem a felicidade se vivia (…). Sua precaução reduzia-se a tomar cuidado na hora perigosa da tarde, quando a casa estava vazia sem precisar mais dela, o sol alto, cada membro da família distribuído nas suas funções. (…) O bonde se arrastava, em seguida estacava (…). Foi então que olhou para o homem parado no ponto. A diferença entre ele e os outros é que ele estava realmente parado. (…) Era um cego. (…) O que mais havia que fizesse Ana se aprumar em desconfiança? Alguma coisa intranquila estava sucedendo. Então ela viu: o cego mascava chicles… Um homem cego mascava chicles. (…) olhava o cego profundamente, como se olha o que não nos vê. Ele mastigava goma na escuridão. Sem sofrimento, com os olhos abertos. O movimento da mastigação fazia-o parecer sorrir e de repente parar de sorrir, sorrir e deixar de sorrir (…). Ana olhava-o. (…) o bonde deu uma arrancada súbita jogando-a desprevenida para trás, o pesado saco de tricô despencou-se do colo, ruiu no chão (…) Ana deu um grito, o condutor deu ordem de parada. (…) Ana se aprumava pálida (…) os ovos se haviam quebrado (…). Gemas amarelas e viscosas pingavam entre os fios da rede.

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Era pra ser uma performance… em nada transgressora, mas pretensiosamente impactante. Uma vez mais, as condições ínfimas e quase inexistentes da egrégia instituição cujas instalações são usadas, em Mariana, para o evento, não permitiram… Era para começar com um pequeno vídeo ao som de Edith Piaf. Depois de certo tempo de leitura, mais um pequeno vídeo com um trecho de entrevista, celebérrima e cheia de revelações… Ficou só na leitura, ao som de Eric Satie e com repetição incessante de 92 fotos, tiradas das páginas de um livro e da “rede”. Foi bom, de qualquer maneira. Falo da conferência (não gosto da palavra “palestra”) que ontem fiz durante a segunda sessão ordinária do ano de 2017 da/na Alacib. Foi bom. Hoje vai um trecho. Os outros seguem nos dias que virão…

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Clarice, essa mulher

Era sexta-feira. Depois do café da manhã, passei pela sala de leitura, bem à frente da porta de entrada da casa situada na Rua Ricardo Tim, no Bairro Ponte Preta, em Campinas. Rogério lia os jornais do dia, coisa habitual. Entrei, bati um papo e peguei um dos jornais, a Folha de São Paulo. Na primeira página, bem abaixo, ao lado de uma foto muito granulada, vinha a manchete “C. Lispector morre no Rio aos cinqüenta anos”. Assim mesmo, com C maiúsculo e ponto! A foto granulada. No fim a chamada “FOLHA ILUSTRADA”, em caixa alta. Foi assim que tive contato, pela primeira vez com essa mulher, Clarice Lispector. Era mais um dia comum na vida de um noviço jesuíta. Depois de ler o jornal, ainda bati um papo com Rogério trocando impressões com Rogério. Ele foi o primeiro a me guiar nas sendas da Literatura Brasileira. O primeiro livro que dela li foi A paixão segundo GH, livro estranho forte, considerado hermético que continha a famigerada cena da personagem que esmaga uma barata na parede e a come. Na economia semântico-discursiva da obra desta judia/nordestina a cena funciona como um dos momentos de epifania – para ficar com termo cunhado por Olga de Sá, freira de Lorena, uma das primeiras brasileiras a publicar um livro sobre Clarice Lispector e sua obra: A escritura de Clarice Lispector, de 1979.

Clarice Lispector, essa mulher. Inicio fazendo uma blague: “Eu sou mansa, mas minha função de viver é feroz”, dizia você que, pouco tempo depois de nascer, Perto do coração selvagem, já se mostrava iluminada, clara, no centro dos salões parecida com O lustre. Um fenômeno inesperado, uma epifania, a revelação momentânea e fugaz, etérea, tudo envolvendo em miasmas A cidade sitiada pelo espírito inquieto, de uma mulher que veio de longe e arrebatou a todos, sem exceção, com o corte ferino de sua linguagem incomum, equivocadamente tida como hermética, por absolutamente óbvia que é. “Só uma coisa a favor de mim eu posso dizer: nunca feri de propósito. E também me dói quando percebo que feri. Mas tantos defeitos tenho. Sou inquieta, ciumenta, áspera, desesperançosa. Embora amor dentro de mim não falte”, repete você, em sua voz marcada por um defeito físico que muita gente confundia com sotaque da terra distante de onde veio, de onde trouxe já apertados – na multiplicidade semântica do particípio – os Laços de família que a fizeram resistir e ousar. É assim, na sua particularidade de mulher, de mulher estrangeira que opta pela solidão, que você se apresenta, como A maçã no escuro, no escuro da alma humana que, abissal, você vasculhou e revelou, sem meias palavras, dura, liricamente dura, melancolicamente épica, desbravadamente dramática. Mulher, você jamais abandonou a menina, aquela que descobre o prazer, seja num banho demorado, seja no desvendar mágico da leitura. Menina e mulher, simultaneamente duplicada na unidade existencial que faz a descoberta: Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com seu amante. Assim você dilacera o espírito feminino na aventura de amar, A paixão segundo G. H. que, filosoficamente, é vislumbrada por uma mulher sem nome, que se faz conhecer e se dá a conhecer por duas letras e que, na parede do quarto, no traço incerto do desenho e no caminhar da barata revela a inquestionável e absoluta verdade do existir: desconhecimento e, depois, espanto platônico – Platão estava certo!

Clarice, essa mulher, é autora de vários livros dos quais cito alguns na blague, a saber: A legião estrangeira (1964), O mistério do coelho pensante (1967), A mulher que matou os peixes (1968), Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres (1969), Felicidade clandestina (1971), Água viva (1973), Onde estivestes de noite? (1974), A via crucis do corpo (1974), A vida íntima de Laura (1974), A hora da estrela (1977), O ovo e a galinha (1977), Um sopro de vida (1978), Quase de verdade (1978), Quase de verdade (1978), A bela e a fera (1979), A descoberta do mundo (1984), Como nasceram as estrelas (1987).

Clarice, essa mulher, foi um indivíduo esquisito. Conta a lenda que certa feita, depois de voltar da Colômbia, para onde tinha ido convidada a participar de um congresso de bruxaria, Clarice foi convidada para uma conferência na PUC-RJ, convite feito pelo então coordenador da pós-graduação naquela instituição, Affonso Romano de Sant’Anna. Alvoroço, expectativa, frisson geral. Arredia, que sempre fora, avessa a aparições públicas de pompa e circunstância, o convite aceito causo alarde. Há que se destacar uma exceção: a participação de Clarice numa passeata contra a ditadura, rodeada de outros escritores, atores e atrizes, intelectuais, estudantes, juventude. A foto correu mundo e continua hoje circulando na rede. Voltando ao convite… auditório cheio, balbúrdia. Compõe-se a mesa e, como soe acontecer na universidade, pompa e circunstância na apresentação da conferencista. Affonso Romano quase babava. Terminada a apresentação, ele passa a palavra a ela. Silêncio sepulcral. Absoluto. O ambiente energizado de angustiante espera, quase vibra de tanta expectativa. Clarice acende um cigarro, fuma tranquilamente. Apaga o cigarro no cinzeiro, com gestos calmos, aparentemente alheia ao que acontece à sua volta. Quando termina o gesto, levanta-se e sai tranquilamente do auditório. Perguntada se não iria fazer a conferência, responde tranquilamente e misteriosamente: acabei de fazer…

Clarice Lispector, essa mulher. Numa célebre entrevista dada ao mesmo Affonso, a escritora afirma não saber a origem de seu nome. Argumenta que pode ser forma corrompida de palavra oriunda do vocabulário da língua fala na Ucrânia, de onde veio sua família. Comenta ainda que Lispector tem, aparentemente duas partes: “lis”, de flor de lis, símbolo de nobreza, pureza, virgindade e “pector”, talvez originalmente termo latino, significando “peito”. Então… flor no peito… peito de lis… Vai saber. Ela não sabia.

A primeira biografia de Clarice da lavra de Nádia Battella Gotlib, professora da USP, intitulada Uma vida que se conta, traz observações luminosas sobre a vida dessa mulher. A mais recente, da lavra de Bejamin Moser, enfant gaité do tout petit monde universitário norte-americano é bem mais recente e um tanto mais conspícua, quase sisuda, ainda que seu texto seja apaixonado. Lá pelas tantas, na biografia escrita pela professora brasileira, há outra passagem instigante da vida dessa mulher, Clarice. Diz  biógrafa que, durante certo tempo, Clarice assinou coluna feminina num diário carioca. Na página sob sua responsabilidade, a escritora escrevia sobre os mais diversos assuntos. Publicou ali também algumas de suas celebérrimas crônicas. No entanto, chamou-me a atenção a referência que Nádia faz a esta página que, em certa edição do jornal, estampava em seu canto superior esquerdo, um “tijolo” – nome que em jornalismo é usual para identificar uma secção pequena numa página de jornal – com uma receita de bolinhas de queijo para coquetel. Lista os ingredientes, orienta o modo de fazer e pronto. Na mesma página, no cato inferior direito, outro “tijolo”. Desta feita, a receita ensinava a fazer bolinhas de veneno para matar baratas. O curioso é que ingredientes e modos de fazer eram, quase na íntegra, os mesmos. Em se tratando dessa mulher, não há espanto que chegue.

Depois que li, abismado, A paixão segundo GH, resolvi pegar emprestado de uma tia outro livro de Clarice: Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres. A história de Lori, professora primária que se envolve com seu professor de Filosofia e tem um cachorro chamado Ulisses é fascinante. Há que ressaltar que os animais – peixe, cachorro, coelho, galinha, cavalo, gato, entre outros – são presença constante nos textos dessa mulher. Deixam mito longe o estreito perímetro de figuras decorativas para ocupar um bestiário simbólico, de um lado, bem ao gosto da cultura judaica; de outro, eco de manifestações de um inconsciente insondável. Fazendo jus à minha fama de estraga prazeres, Lori não fica com o professor, nem se casa com ele, nem feliz para sempre com ele. Quem quiser saber o que acontece, vai ter que ler o livro. Voltando ao livro, já na universidade, fui informado, nos corredores desta egrégia instituição, que este livro teria sido fruto da experiência vivida por Clarice Lispector, numa relação afetiva com cronista famoso, Paulo Mendes Campos. Pai de duas filhas adoradas, quase endeusadas pelo cronista, a esposa deste, ao saber do affaire, ameaça desaparecer da face do planeta com as filhas. O caso amoroso acaba. Coincidentemente, pouco tempo aparece nas livrarias Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres. Vocês não fazem ideia das coisas que podem ser ouvidas nos bastidores de colóquios e congressos, nas antessalas de entrevistas, nos corredores de universidade, nos bares, cafés, motéis, etc…

Nesta mesma linha, há quem diga que A hora da estrela é livro autobiográfico. Tudo por conta da coincidência de “origem” de Macabéa e da própria Clarice. Como veio muito novinha para o Brasil, a escritora, até prova em contrário, se considerava brasileira, nordestina, como Macabéa. Daí à coincidência, é um passo. Não sei se esta hipótese se sustenta. O que sei é que a leitura desse livro me virou do avesso pela extrema e refinada melancolia que dele brota e pela contundente, nua e crua realidade que explicita. A cena de Macabéa chorando ao ouvir a ária “Una furtiva lacrima”, ária do último ato da ópera L’elisir d’amore, de Gaetano Donizetti é de uma beleza que não encontra palavras suficientemente capazes de ser expressa. Da mesma forma, quando Macabéa pede a Glória, sua colega de trabalho, uma aspirina e a mastiga e, Glória pergunta porque, a nordestina responde que é porque dói. O que dói, pergunta Glória. Dói, diz Macabéa. E mais não digo. Se Clarice é capaz de criar tais situações, não fica difícil entender, aceitar e gostar de afirmações como: “Entender é sempre limitado. Mas não entender pode não ter fronteiras. Sinto que sou muito mais completa quando não entendo.”; ou então, “Eu mesma vivo me levantando e caindo de novo e me levantando. Não sei qual é o bem disso, sei que é essa forma confusa de vida que vivo.” Também nessa outra, a mesma sensação: “Uma pessoa que quisesse tomar minha direção seria bem vinda…Eu nunca sei se quero descansar porque estou realmente cansada, ou se quero descansar para desistir.” Para completar, uma frase que poderia bem ser vir de epitáfio: “Não é que vivo em eterna mutação, com novas adaptações a meu renovado viver e nunca chego ao fim de cada um dos modos de existir. Vivo de esboços não acabados e vacilantes.”

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LET 973 – 8

Leia atenta mente o parágrafo abaixo:

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Lucien Goldmann afirma que a visão de mundo do autor sempre será expressa, voluntariamente ou não. A literatura é fortemente influenciada pela sociedade, sendo muito importante entendermos os fatores econômicos e as relações entre as classes sociais para que entendamos, também, a obra literária. Alguns pensadores dizem que essa forma de conceber o literário rebaixa os valores espirituais ao colocá-los no mesmo patamar das contingências sociais e econômicas. Goldmann contesta essa visão de mundo afirmando que os verdadeiros valores espirituais não se destacam da realidade econômica e social, mas se dirigem precisamente para esta realidade tentando introduzir nela o máximo de solidariedade e de comunidade humanas. Convém salientar que o autor deixa claro a condição hipotética dessa influência do social sobre o literário, já que se trata de uma teoria. Tal hipótese poderá ou não ser comprovada. De acordo com o materialismo histórico, tanto a literatura, quanto a filosofia são ?expressões de uma visão de mundo? e, portanto, são fatos sociais. Nisso reside a essência dos estudos literários. O escritor pode sofrer influências do meio em que vive através da recusa ou da assimilação das ideias vigentes ou, ainda, associando-as a outras de lugares ou tempos distantes. Associando o método estruturalista genético aos estudos de literatura, Goldmann diz que tentamos responder a todas as questões da vida, dando sentido a elas através de nossas ações. Desse modo, criamos um equilíbrio entre nós mesmos e o mundo, ou seja, entre o sujeito que age e entre o objeto que sofre a ação. Para que estudemos os acontecimentos humanos, seja em que campo for (econômico, político, social, cultural, etc.), faz-se necessário que tenhamos conhecimento de como esses equilíbrios se desfazem e refazem. Em primeiro lugar é preciso que determinemos o que é esse sujeito que age sobre o mundo. Segundo Goldmann, ele pode ser visto de três formas: como ?indivíduo? (empirismo, racionalismo e fenomenologia); como coletividade; ou como coletivo composto por uma rede de indivíduos, como acontece com as teorias hegeliana e marxista. A obra deve ser analisada a partir do grupo social em que foi criada e não do indivíduo que a criou. Sob esse ponto de vista, pode-se afirmar que a explicação para o fato de determinado autor escrever certa obra, e não outra, não pode ser dada pela psicologia do autor, mas sim pela influência social que sofre. Esse fator social está refletido na estrutura da obra, não sendo possível separar-se um da outra. Alguns teóricos anteriores a Goldmann, que centravam seus estudos literários na sociologia, defendiam a ideia de uma influência da consciência coletiva sobre o escritor e sua obra. As pesquisas de Goldmann demonstram que a vida social é um processo coletivo que estrutura de forma equilibrada os fatores psíquicos e de ação. Outro conceito importante na teoria de Goldmann é o de consciência possível, que faz o contraponto com a consciência real. Segundo essa teoria, a maioria de nós estrutura seus pensamentos a partir das percepções que tem. Entretanto, muitas informações escapam de nossa percepção ou chegam a ela deformadas, determinando, assim, a forma de pensar característica de uma sociedade. Quando o indivíduo consegue alcançar um grau de percepção maior do que o da maioria das pessoas de sua sociedade, vai além da consciência real, alcançando essa consciência possível.

Índice

Há, neste trecho, várias perguntas. Considerando as personagens “pequena flor”, do conto de Clarice Lispector e “Negrinha”, de Monteiro Lobato, tente respondê-las, sempre justificando com a importância da categoria “personagem” para o melhor desempenho da estrutura narrativa do conto em que cada uma delas aparece.

LET 877 – 6

Pra começar, vamos retomar dois trechos, um de cada conto, a saber:

1. “O corpo”, Clarice Lispector

“Xavier chegou com uma fome que não acabava mais. E abriu uma garrafa de champanha. Estava em pleno vigor. Conversou animadamente com as duas, contou-lhes que a indústria farmacêutica que lhe pertencia ia bem de finanças. E propôs às duas irem os três a Montevidéu, para um hotel de luxo. Foi uma tal azáfama a preparação das três malas. Carmem levou toda a sua complicada maquilagem.
Beatriz saiu e comprou uma minissaia. Foram de avião. Sentaram-se em banco de três lugares: ele no meio das duas. Em Montevidéu compraram tudo o que quiseram. Inclusive uma máquina de costura para Beatriz e uma máquina de escrever que Carmem quis para aprender a manipula-la. Na verdade não precisava de nada, era uma pobre desgraçada. Mantinha um diário: anotava nas páginas do grosso caderno encadernado de vermelho as datas em que Xavier a procurava. Dava o diário a Beatriz para ler.
Em Montevidéu compraram um livro de receitas culinárias. Só que era em francês e elas nada entendiam. As palavras mais pareciam palavrões. Então compraram um receituário em castelhano. E se esmeraram nos molhos e nas sopas. Aprenderam a fazer rosbife. Xavier engordou três quilos e sua força de touro acresceu-se.
Às vezes as duas se deitavam na cama. Longo era o dia. E, apesar de não serem homossexuais, se excitavam uma à outra e faziam amor. Amor triste. Um dia contaram esse fato a Xavier. Xavier vibrou. E quis que nessa noite as duas se amassem na frente dele. Mas, assim encomendado, terminou tudo em nada. As duas choraram e Xavier encolerizou-se danadamente.”

2. “Aqueles dois”, Caio Fernando Abreu

“Os fins de semana tornaram-se tão longos que um dia, no meio de um papo qualquer, Raul deu a Saul o número de seu telefone, alguma coisa que você precisar, se ficar doente, a gente nunca sabe. Domingo depois do almoço, Saul telefonou só para saber o que o outro estava fazendo, e visitou-o, e jantaram juntos a comidinha mineira que a empregada deixara pronta sábado. Foi dessa vez que, ácidos e unidos, falaram no tal deserto, nas tais almas. Há quase seis meses se conheciam. Saul deu-se bem com Carlos Gardel, que ensaiou um canto tímido ao cair da noite. Mas quem cantou foi Raul: Perfídia, La Barca e, a pedido de Saul, outra vez, duas vezes, Tú Me Acostumbraste. Saul gostava principalmente daquele pedacinho assim sutil llegaste a mí como una tentación llenando de inquietud mi corazón. Jogaram algumas partidas de buraco e, por volta das nove, Saul se foi.
Na segunda, não trocaram uma palavra sobre o dia anterior. Mas falaram mais que nunca, e muitas vezes foram ao café. As moças em volta espiavam, às vezes cochichando sem que eles percebessem. Nessa semana, pela primeira vez almoçaram juntos na pensão de Saul, que quis subir ao quarto para mostrar os desenhos, visitas proibidas à noite, mas faltavam cinco para as duas e o relógio de ponto era implacável. Saíam e voltavam juntos, desde então, geralmente muito alegres. Pouco tempo depois, com pretexto de assistir a Vagas Estrelas da Ursa na televisão de Saul, Raul entrou escondido na pensão, uma garrafa de conhaque no bolso interno do paletó. Sentados no chão, costas apoiadas na cama estreita, quase não prestaram atenção no filme. Não paravam de falar. Cantarolando Io Che Non Vivo, Raul viu os desenhos, olhando longamente a reprodução de Van Gogh, depois perguntou como Saul conseguia viver naquele quartinho tão pequeno. Parecia sinceramente preocupado. Não é triste? perguntou. Saul sorriu forte: a gente acostuma.”

Creio não ser surpresa dizer que o “desejo” é o conceito-chave na/da leitura de ambas as narrativas curtas. mesmo que você não tenha lido todos os textos de apoio, vou propor o seguinte: veja no dicionário o verbete “desejo” e tente comentar alguma coisa que seja possível articular entre a leitura dos dois contos e as acepções do verbete.

Uma segunda provocação, pra tentar fazer você comentar é a seguinte:

no conto de Clarice, duas mulheres

no conto de Caio, dois homens

no conto de Clarice, a comida

no conto de Caio, a música

Isso faz algum sentido? Se faz, como você veria uma abordagem comparatista entre os dois textos. Apenas indique a(s) possibilidade(s), não é necessário desenvolver a abordagem aqui, agora… Boa leitura!