Como “se dar bem” com uma tese de doutoramento.

Leia toda a obra de Walter Scott e tudo o que encontrar sobre ela. Leia os três romances indianistas – O guarani, Ubirajara e Iracema – do José de Alencar, e um que outro comentário, resenha ou artigo sobre eles. Afinal você vai escrever uma tese de Literatura Comparada. A sua proposta – você vai dizer isso na “Introdução” da tese e, depois, na hora de fazer a sua defesa – é comparar o trabalho ficcional dos dois, cada um utilizando sua língua, como instrumento de consolidação da identidade cultural à qual pertencem, utilizando, para tanto, o desenvolvimento de um uso nacionalizado” da própria língua: o scottish, no caso do Scott e o “brasileiro”, no caso de Alencar. Só esta proposta já vai angariar muitos “ah” e “oh”, tanto da banca de qualificação, quanto de alguns colegas – não todos porque, afinal, todo mundo é humano e “a inveja mata”. Escreva umas 450 páginas, espaço 1,5, margens de dois centímetros em papel A4; pode usar Times New Roman ou Arial. Tudo isso vai depender dos preceitos normativos exarados no regulamento do curso de pós-graduação ao qual você está vinculado(a). Dessas 450 páginas, 50 serão reservadas para Introdução, Conclusão e Bibliografia. As outras 400 podem ser divididas em dois momentos: uma montagem do “arcabouço teórico” de que você vai se servir para desenvolver sua tese e a “análise” propriamente dita – não se esqueça: comparativa. Veja que você já tem aí quatro capítulos que podem ser divididos em subcapítulos e este, por sua vez, em secções que podem, a seu critério, se espraiarem por tópicos e subtópicos. O negócio é seduzir o leitor – a banca, sobretudo, dado que depois de defendida e aprovada (se aprovada!) a tese vai ganhar a sóbria, circunspecta, conspícua, irrecorrível e seráfica pátina do tempo em alguma prateleiras aqui e alhures: suprema glória do academicismo mais erudito das/nas ditas “universidades” tupiniquins (Eu escrevi mesmo universidades?). Em outras palavras, o cartapácio vai comer poeira por todo o sempre. Pois bem. No desenvolvimento escrito de sua… tese, você deve se aprofundar cirurgicamente sobre os detalhes mais ínfimos do processo de constituição e consolidação do scottish, exemplificando com passagens mais que esmiuçadas dos textos do Walter Scott. Pra não dizer que você se esqueceu do “recorte” comparatista de seu trabalho, você solta aqui e ali, exemplos do Alencar, acompanhados, comme il faut, de comentários genéricos, que servirão, é claro, para corroborar tudo o que você disse a respeito do outro autor. Claro está que esse tratamento é mais que admirado pelos doutos arguidores que vão primar nos elogios, destacando sua acuidade, seu cuidado, sua atenção, sua delicadeza, a profunda imersão no “universo scottish” que serve, entre outras coisas, para justificar a aparente falência do escritor tupiniquim. Isso ratifica a importância de língua inglesa e sua coerência em relação ao que você já faz e vai continuar fazendo: enaltecendo a literatura de língua inglesa, salpicando suas apresentações de detalhes curiosos da produção ficcional “da terra”, em sua mesmice, sua futilidade, sua superficial faceta festeira, descompromissada e ingênua. Mais “oh” e “ah”, com sorriso matreiro da banca e da plateia – numerosa, claro, afinal, seu orientador é o coordenador do programa. Pronto. Você conclui sua defesa. Recebe seu diploma de conclusão do doutoramento. Já pode usar o “Dr.” na frente de seu nome e empinar o nariz quando forem apresentar você numa das miríades de mesas de comunicações livres nos inumeráveis congressos mundo afora. Aqueles que te dão 15 minutos pra você falar, enquanto quase ninguém presta atenção e, ao final, todos saem correndo para os fuxicos de bastidores no coffee break. O mais chato que pode acontecer é você se deparar, na banca, com um “ferrinho de dentista” que vai elogiar a manufatura da sua tese mas vai fazer aquela pergunta que você temeu escutar durante as quase quatro horas de defesa e arguição: “cadê a comparação?”. E você não vai responder. É este mesmo “ferrinho de dentista” que, na reunião fechada da banca para as deliberações finais, vai se recusar a assinar a ata de defesa que destaca sua tese com menção de louvor e recomendação para publicação. Ele estraga a sua festa. Põe água na sua fervura. O argumento vai ser a pergunta não respondida, por óbvio! Mas ele é só mais um “ferrinho de dentista”! Boa sorte!

PS: para sua alegria, o tal “ferrinho de dentista” jamais vai voltar a ser convidado para uma banca na universidade em que você se doutorou!

Conselhos para a boa convivência

Se for funcionário da secretaria de obras do governo – federal, estadual ou municipal, não interessa – combine com seus colegas um rodízio. Conforme o número de elementos na turma, dois ficam trabalhando, os demais discutem, cospem no chão, mexem com as mulheres que passam, falam de futebol, recamam do governo e bebem água.

Quando for viajar de avião, não se esqueça de levar o cabo de força do celular para ligar numa das tomadas disponíveis no aeroporto. Quando enxergar uma, corra e faça bastante alarido, para mostrar que o espaço é seu. Sente-se numa cadeira e espalhe as bagagens pelas demais, fazendo cara feia para quem perguntar se o assento está ocupado. Para finalizar com chave de ouro, corra para a fila do embarque, prestando atenção para esta não ser a do grupo marcado em seu bilhete, assim que o funcionário da companhia pegar no microfone para iniciar o embarque.

Ao almoçar num restauram à la carte, lembre-se de chamar o garçom fazendo bastante alarde, para mostrar quem é que dá as ordens.

Numa festa de casamento, não se esqueça de correr para a mesa dos doces, assim que vir alguém pegar um. Corra, pegue um prato ou uma sacola plástica e encha-os. Se não se preveniu, encha as duas mãos e corra de volta para a mesa, fazendo de conta que ninguém percebeu o que você acabou de fazer. Fingir faz parte do protocolo.

Numa corrida do Uber, peça, assim que entrar no carro, para ligar o ar condicionado e peça água. Pegue umas balinhas e jogue o invólucro no chão. Não sabe o que é invólucro. Tem nada não. Chupe a bala e jogue o resto no soalho do carro. Daí a pouquinho, reclame do ar condicionado e da estação da rádio. Chegado a seu destino, reclame da água que estava morna. E não deixe fazer avaliação negativa do atendimento.

Numa loja de roupas, convença o/a balconista a pegar todas as peças que você indicar. Obviamente, você vai fazer isso aos berros, para mostrar que tem dinheiro e comprar o que quer. Olhe tudo o que puder/quiser. No fim, não compre nada e destrate o/a balconista. Ele/ela está ali pra isso mesmo.

Quando for usar banheiro público, não se esqueça de entrar no reservado falando ao celular. Fale alto, afinal quem conversa com você tem que entender o que está falando. Use vocabulário chulo, gíria e lugares comuns, muitos lugares. Descreva o ugar em que você está e diga que está gostando muito. Ao sair, não dê descarga. Não lave as mãos e não se esqueça: continue falando (bem alto) ao celular.

Quando for ao cinema – bem, hoje já não existe “cinema”, mas apenas salas de projeção em centros de compra, mas vale a metonímia. Se não sabe o que é isso consulte um dicionário, ou, antes, pergunte ao google –,  depois de comprar os bilhetes no totem – fazê-lo no balcão vai exigir de você uma educação que você não tem, afinal, você é moderno/a –, reclame da ausência de um carrinho de mão e de um balde pra você carregar a pipoca e a coca-cola (respectivamente!) que você quer comprar. Afinal você está ali pra comer. Não utilize o assento que você mesmo escolheu ao comprar o bilhete. Fale alto, use o celular e coloque as patas inferiores sobre o encosto da poltrona à frente. Depois deixe tudo esparramado por lá. Você não quer tirar o emprego das faxineiras…

Há muitos outros, mas você deve estar cansado demais para aprender o básico. Viva bem!

Impacto

O que dizer de Joker? A atuação de Joaquin Phoenix é inquestionavelmente impecável. Tenho de reconhecê-lo, apesar de dele não gostar. Impecável. O phisique du role é impressionante. Seus movimentos corporais, numa verossimilhança incontestável – no que diz respeito à personagem, seu modus operandi, a trilha sonora e ao roteiro da história – tudo faz jus ao elogio deste, aqui, pobre ignorante em cinefilia… Gostei do filme. Só não vejo muito sentido no alarido que se formou aqui e ali depois de seu lançamento. Dizem que comparações são inevitáveis. Porém, tudo o que li sobre este tópico não me agradou. Isso porque penso que Joker, por si mesmo, é incomparável com outras versões da mesma história. In-com-pa-rá-vel. Vejamos se sou capaz de explicar isso, ainda que indiretamente. Repito gostei do filme, mas não me agradei do que li sobre ele. Isso porque não vejo pontos em comum com as demais apropriações desse arcano cultural do ocidente capitalista envolvendo uma sociedade “líquida”. O significado do termo que á título ao filme, em jogos de cartas desaparece na narrativa desta versão cinematográfica dirigida por Todd Phillips. O imaginário por ele criado, em nada e por nada, é similar ao que se percebe nas demais versões. Já, já digo o porquê. O Coringa, neste filme, não e debochado, amoral, cínico ou venal. Sua “personalidade” desviante – esta é uma palavra-chave para “entender” o filme na perspectiva em que o entendo depois de vê-lo – não se assenta em marginalidade histriônica, canhestra, moralista, criminosa, como nas demais versões do ícone. De fato, penso que esta versão é “definitiva”, para dar sentido igualmente definitivo a outro ícone, o Batman. O Coringa de Joaquin Phoenix e Todd Philips é uma criatura anterior ao Batman. Portanto, não é seu antagonista. Não é apresentado em narrativas – como a similar das demais versões de si mesmo – como inimigo da sociedade, por extensão de sentido de seu “defensor”, o homem-morcego. Não. A cena matrix do ícone Batman – até prova em contrário, a célula mater do drama vivido pelo menino que se transforma no homem morcego, num movimento de retaliação, recuperação, retorno do recalcado e, porque não, messianismo –, o assassinato dos pais de Bruce Wayne, acontece em decorrência do efeito causado pelo ato do Coringa num programa de televisão. Previsível? Sim, claro, por que não? No entanto, nem por isso desprezível. Ao contrário. O absurdo e inesperado ato é o estopim da reação popular que, aparentemente, não é compreendida pelo próprio olho do furacão, o Coringa. Ele quase não se dá conta de que o que está acontecendo à sua volta, quando acorda do desmaio causado pelo abalroamento do carro em que se encontrava. De fato, penso que esta versão é definitiva, baseado nesta observação.  Depois deste filme, qualquer versão de origem como personagem, ícone, lenda urbana e quejandos, cai por terra. A inversão cronológica dos fatos corrobora a outra faceta igualmente definitiva desta versão. O psicótico Coringa, de Fênix não é simples reação. É criação. Há uma inversão aqui. E isso é tudo. O drama psiquiátrico vivido pelo Coringa não pode ser reduzido ao acúmulo de reações contrárias ao bom funcionamento comportamental da sociedade. Neste sentido, ele não é um opositor de Batman, não representa o mal, não é um criminoso contumaz, é um psicótico, acredito, com alguma distância da chancela de psicopata. Mas não sou médico, sou apenas um sujeito que viu um filme e dele gostou. O “romance”, por detrás do filme, é de “formação”. Nada mais contundente que a cena em que ele mata sua mãe.  Édipo invertido. Ali, numa clivagem incontornável, o Coringa nasce para si mesmo. A sequência seguinte à janela da enfermaria isso. A personagem de Robert de Niro convence como estereótipo do indiferente sarcasmo ou da sarcástica indiferença que marca boa parte das subjetividades pós-modernas que se jugam superiores e, por que não, politicamente corretas. Como tinha lido alguma coisa sobre o filme, não me surpreenderam as cenas da morte do colega de trabalho, brutal, e do apresentador do talk show, assustadora. O discurso do Coringa durante o programa de TV beira a pieguice e o moralismo típico da cultura ianque. É desnecessário alongar comentários. Por fim, a sequência inicial do filme causou em mim o mesmo impacto e a mesma reação de quando vi O resgate do soldado Ryan, de Steven Spielberg. Ainda não consigo verbalizá-los, mas são os mesmos, têm a mesma intensidade, concretos, densos, irrecorríveis. Joker, um filme muito bom!

Devaneio

Uma insinuação não é nada. Nada. Não se sustenta e pode incorrer em erro. Quem disse isso? Não faço a mínima ideia. Alguém já disse isso? Também não tenho ideia. O fato é que isso me veio assim, de repente, um corisco verbal. à minha mente chegou como quem não quer nada e se instalou. De tal maneira que não resisti e coloquei pra fora, em palavras. Assim, do jeito que está escrito acima. Sem mais. Uma ideia repentina e livre de qualquer volição. Talvez tenha sido a manifestação de algum resíduo recalcado dos dias letivos do passado. São trinta e dois anos. Haja resíduo. Haja recalcamento. Mas fazer o quê. A vida que segue – ai que expressão mais chinfrim – e continua a comemorar o dia do professor. Comemorar? O quê, de fato? Há mesmo motivo de comemoração? A sério? A dúvida é maior, nem maior que o conjunto de frases feitos e ditos coloridos e altruístas que circulam anualmente em data análoga. De fato, no frigir dos ovos é mais uma data, apenas uma data, um dia como qualquer outro. Não fosse pelo fato de se comemorar também o dia de uma das mulheres mais importantes que o planeta já conheceu: Teresa de Ávila. A Teresona, como costumo tratá-la, crente de que sou íntimo dela. Assim como do Joãozinho, seu conterrâneo, outro portento a habitar os rincões do seráfico planeta dos santos. Seráfico é uma palavra tão elegante, sonora, conspícua, chique, bonita. Ai, ai… Pois é, mais um dia do professor. Mas não vou ficar lamentando as vicissitudes de profissão tão vilipendiada em pindorama. E basta! Parece até que falta assunto, mas não falta. Terminada a leitura da trilogia que apresentou António Lobo Antunes ao mundo da Literatura escrita em Língua Portuguesa, localizadamente em Portugal – pois a tal Língua Portuguesa é falada e escrita e outras partes do planeta – pensei em escrever aqui algumas linhas. Talvez resenha, talvez crítica. Não sei dizer. Seria, isso sim, um texto nascido de leitura que refis dos três títulos. Mais não digo pois ainda não descartei esta ideia. No entanto, a dona preguiça tem vencido a luta até agora. Vamos ver o que vem por aí. Outra possibilidade seria falar de algum assunto, assim, mais comezinho, mais rasteiro, para fazer eco ao que se “lê” por aí, neste universo que preza pela pressa, pela superficialidade e pela falta de “cuidado”. Desisto, não vou fomentar mais uma paranoia social. Há que anotar a ida a uma sala de projeção de centro de compras – o edifício chamado honrosamente de “cinema” já quase não existe mais – para ver a cinebiografia da Hebe Camargo. Tenho a impressão, neste exato momento, de que já comentei aqui sobre isso. Pelo sim, pelo não, repito: gostei. Dois livros de prosas continuam empacados. Um de poesia, cozinhando em banho maria – com água bem fria – no prelo da Patuá, em São Paulo. Outro, em germe, ainda nos rascunhos de um arquivo perdido no One drive. O livro das cartas de Alberto, ainda na minha cabeça, e mais nada. E o tempo passou. E uma página se encheu. E eu fico por aqui.

Opiniões

Faz um tempo, uma conhecida estava em casa, em férias, como Inês, posta em seu sossego, quando recebe um telefonema. Era a secretária do diretor de um colégio tradicionalíssimo da capital das alterosas. Confesso: por vezes, penso eu o epíteto funciona mais como condenação que elogio. Mas enfim… Recebeu o telefonema, tentou argumentar que estava em férias. Não teve jeito, a secretária contra argumentou com a ordem do diretor: “É de seu interesse”. A minha conhecida foi ao colégio na data e hora marcadas. Em lá chegando, deparou-se com um comitê de recepção formado por vários pares de pais de alunos, praticamente todos já dela conhecidos. O diretor encaminhou o grupo para sua sala e começou a oração. Isso e aquilo, pediu ao presidente do “conselho de pais” que lesse, ele mesmo, a carta que enviara para a direção da escola. Carta longa, com alguns senões sintáticos e terminológicos – segundo o relato, àquela altura, de minha conhecida. Carta acusatória em que ela, a minha conhecida era admoestada a dar explicações sobre a acusação de que era vítima, exarada por um dos filhos de um dos casais que compunham o tal “conselho”. Triste coincidência: o tal estudante era filho do presidente do “conselho”, que lia a carta. Faço uma ideia do tom de arrogância, prepotência e desdém com que foi lido. Só faço uma ideia. Pois bem, terminada a leitura, a professora, atônita, argumentou não alcançar o sentido da acusação pois não se lembrava de ter incitado seus alunos à prática de beijo entre dois homens, conforme a “peça acusatória”. A indignação do gruo aumentou. O semblante do diretor ficou ainda mais escuro. Ela continuou sua defesa tendo que interromper a própria locução por conta dos vitupérios e muxoxos dos “conselheiros”. Ao fim da balbúrdia, o diretor vociferou que o estudante o havia procurado dizendo que professora tinha dito na sala de aula: “minha língua roça a língua de Luis de Camões”. Como era estudante “aplicado”, o dito cujo, o dito cujo perguntou ao diretor se isso não era uma forma de a professora dizer que um homem beijar outro homem era uma coisa bonita, boa, gostosa. Afinal ela disse “minha língua roça”. Acreditem! Foi isso E o direto convocou o dito “conselho” e convocou a professora. Ela, diante de tal “argumento”, explicou o óbvio – para ela. Tratava-se de uma aula em que utilizou o verso da música do Caetano Veloso, um elogio à Língua Portuguesa. Era uma espécie de mote para a aula. Só isso. A vociferação aumentou. O clima ficou pesado. O diretor, então, calando a patuleia disse que a professora deveria se retratar diante do egrégio “conselho”, por escrito, para que a carta ficasse devidamente arquivada como documento comprobatório de sua obediência. Ela se negou a fazê-lo. O diretor insistiu, sob a nuvem negra de resmungos e mais muxoxos, desta feita, agressivos e condenatórios. Ela insistiu em negar, O diretor, então, para “evitar o pior” (sic!) disse que ela seria sumariamente demitida. Minha conhecida não se deu por vencida. Levantou-se e, antes que as medidas da demissão fossem tomadas, vaticinou sua própria auto demissão e saiu da sala. Saiu do colégio. Jamais voltou a por os pés lá. Não matriculou os filhos nessa “escola”. Faz tempo que não a veja, mas imagino que os filhos devem estar muito bem, assim ela própria, é o meu desejo. Este pequeno relato é fruto do resultado da cutucada em minha memória dada pela notícias que anda fazendo a felicidade de muita gente. No Colégio Loyola, outra escola tão tradicional como aquela em que minha conhecida trabalhou, anulou um teste de Língua Portuguesa, pelo simples fato de que o texto utilizado na tal prova era de autoria de um tal de Duvivier, tido e havido como comediante, em coautoria com outro indivíduo da mesma espécie. Creio que não preciso insistir na ideia de que não vou com a cara de nenhum dos dois. O argumento da escola, de novo apoiada por uma carta escrita por uma mãe “preocupada com a educação de seus filhos”, é que o tal texto é tendencioso, ideologicamente, e estava a sustentar doutrinação político-partidária por parte do professor – neste caso, não é meu conhecido, mas importa tanto quanto para mim. Confesso, antes de mais, a minha quase total ignorância a respeito acerca do tal projeto “escola sem partido”, por força da miríade multifacetada de opiniões, vaticínios, ameaças, sandices e pensamentos acerca disso. Em relação à minha pessoa, claro. Logo, não posso tirar conclusão alguma. De mais a mais, isso aqui não é um tratado, nem uma tese acadêmica, muito menos um “artigo científico”. Portanto, não sou obrigado a dar satisfações a quem quer que seja, pois não faço outra coisa a não ser abrir a cortina e observar o cenário. As conclusões ficam por conta de quem me ler. Se é que alguém vai me ler. Se é que a leitura vai motivar algum tipo de raciocínio posterior. Fica a dica…

Acredite se quiser

O homem vende suas balas e doces e pipocas na porta da escola três vezes por semana. Entra ano, sai ano, lá está ele. Muitos alunos param e compram diariamente suas guloseimas. Entres eles, um garotinho sapeca que, saltitante que sai do carro do pai, passa pelo carrinho do seu Zé e compra alguma coisa. Com o passar dos anos, o garoto vai crescendo e ao passar pelo seu Zé, o mesmo dos primários anos de infância, faz uma piadinha, uma gozação. O seu Zé não gosta, mas releva: coisa de criança. Mais anos passam, a adolescência e a velhice caminham juntas na porta daquela escola. Muitas das crianças agora são jovens a estudar na mesma escola e seu Zé lá com suas guloseimas. Todos os dias a mesma coisa, anos a fio. E o tal garotinho que cresceu e hoje está no terceiro ano do ensino médio continua lá. Todos os dias na mesma hora ele passa e numa dessas, para além das piadinhas, das gozações, para inovar, juntos aos coleguinhas, num dia como outro qualquer, tá um tapinha (inocente em sua opinião) na cabeça do seu Zé que se enfurece e começa a discutir e acaba por deferir dois tiros no rapaz. Seu Zé é preso. Vai a julgamento. Os pais, ricos, clamam por justiça, vão aos jornais, aparecem na televisão, tornam-se porta vozes do descalabro do crime hediondo cometido pelo vendedor de balas. Seu Zé vai a julgamento. No dia das alegações finais, o promotor conclui sua fala com olhar faiscante de desprezo pelo assassino frio e calculista e pede a condenação. O advogado de defesa se levanta, se dirige ao júri e, antes mesmo de começar sua locução, dirige-se ao juiz e o elogia, destaca suas qualidades morais, sociais, cívicas e jurídicas. Eleva o tom de voz e alteia os dotes do meritíssimo, passando a fazer seus comentários. Lá pelas tantas, argumenta que não poderia continuar sem antes voltar a elogiar a superioridade do meritíssimo, voltando à mesma litania. Faz isso umas tantas, durante o curso de suas alegações. Quando, repetindo a mesma fórmula, retoma os elogios, o juiz, enraivecido, bate na mesa e desanca o advogado numa série de impropérios – todos adequados ao momento e à seriedade do contexto, mas impropérios – e diz ao advogado de defesa para deixar de lado os elogios e terminar logo com o seu trabalho. Faz isso de maneira quase agressiva, alterado mesmo, como se já não mais aguentasse tanta bajulação. O advogado de defesa, com um sorriso matreiro no rosto, volta-se para o júri e dispara: viram só, por cinco ou seis vezes elogiei o juiz repeti suas qualidades, seus méritos e ele se alterou, ficou nervoso e reagiu como visto. Agora imaginem o seu Zé que aguentou as chateações das piadinhas e insultos durante quase 20 anos e o tapinha na última semana… O júri inocentou seu Zé. Tirem suas próprias conclusões.

PS: o relato acima se refere a caso verídico, ocorrido nas alterosas, salvaguardados os exageros já celebrados pelo adagiário: quem conta um conto, aumenta um ponto. Mas o fato foi verídico!

Rever

84 Charing Cross Road (David Hugh Jones, 1987). Este é o título em inglês. Nos cinemas tupiniquins, chamou-se Nunca te vi, sempre te amei. A “tradução”, mais que livre, acaba por não trair o filme, sem sua delicadeza, em sua grandeza. Como é que um filme pode ser delicado e grande ao mesmo tempo, não seu explicar. O que sei é que este filme é simultaneamente grande e delicado. E, por favor, senhores de leitura curta, “grande” aqui, obviamente, não se refere a dimensão, tamanho, mas a outra coisa. A outra absolutamente diferente coisa… Pois é. Anne Bancroft e Anthony Hopkins são os dois estelares protagonistas deste filme montado em narrativa epistolar, com direito a closes perfeitos, desenhados para fazer sobressaltar o talento de ambos os atores. Que desempenho. A judia e o inglês, típicos em sua cartorialidade subjetiva, conseguem dar a suas personagens a mesma marca personalíssima da mulher judia e do homem londrino, no pós-guerra, esticando até os anos 70, se não me engano. A judia que fazia qualquer coisa ara manter viva a chama da Literatura Inglesa, em meios às idas e vindas de uma Nova Iorque que, aparentemente, pouco se importava com os desvãos que a História criava e nos quais colocava Londres, no meio do turbilhão da guerra. Sua delicadeza se expressa nos diversos envios de gêneros alimentícios que rareavam na capital britânica, devastada pela guerra. Do outro lado do grande lago, o típico salesman londrino, um dos gerentes de uma livraria especializada em edições raras e antigas, faz de tudo para satisfazer os desejos e as demandas de sua correspondente Helene Hanff. Frank P. Doel é o nome dele. Sua esposa é vivida por Judi Dench, que aparece aqui e ali, pontuando com mais delicadeza, a história de amor entre seu marido a e norte-americana. Sim, eles vivem uma história de amor. Não há beijos tórridos, não há dramas lacrimosos, não paisagens deslumbrantes, externas, pelo menos. Há as paisagens da alma. A alma de dois seres humanos que sabem conhecer e reconhecer a Literatura como algo que é vivo, que faz viver as pessoas, e que faz sobreviver, entre as pessoas, ainda que à distância, algo que não pode receber ouro nome que não seja amor. A história vai se desdobrando em detalhes, nos diálogos saborosos, na rabugice de Helene e na aparente frieza de Frank. Estas peculiaridades não são defeitos, ao contrário, enaltece o que de mais visceralmente humano existe no ente dessas duas personagens. Sempre sem condições de ir até a Inglaterra, Helene, depois de receber a notícia da morte de Frank, resolve ir até Londres. Lá chegando, observa cada detalhe do imóvel que abrigou a livraria que já não existe mais. Observa detidamente e se dirige a seu amigo Frank. Sua última frase é emblemática e só vai saber qual é, quem tiver a curiosidade de ver a película, disponível na “rede”. Vale a muito a pena.

PS: depois de ver o filme, comprei o livro, li e reli. Revi o filme e repito: vale muito a pena…