Mais dois

Fuga

O leque se abre em aletas simétricas

contra o tortuoso ocaso de Outono.

Os touros,

imagens fugidias acima

e por entre,

contam histórias dissolvidas

em areia e sangue.

O leque não sabe

da mão

que produz o vento de suas aletas.

O leque não sabe

do tecido e das imagens taurinas

ainda dissolvidas

agora,

em imagens voláteis.

O leque não sabe nada

e se abre, pleno

dadivoso e cúmplice

das imagens fugidias que o vento leva.

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Exercício de (in)comunicabilidade

Por que você repete os mesmos chavões?

Por que você defende os mesmos sujeitos?

Por que você acredita nas mesmas ideias?

Por que você assume as mesmas atitudes?

Porque você repete os mesmos chavões.

Porque você defende os mesmos sujeitos.

Porque você acredita nas mesmas ideias.

Porque você assume as mesmas atitudes.

Porque você repete os mesmos chavões!

Porque você defende os mesmos sujeitos!

Porque você acredita nas mesmas ideias!

Porque você assume as mesmas atitudes!

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Dois poemas

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Saudade

Vilegiatura luminatrix suavíssima,

ela ficava sentada

bem encurvada

a fazer palavras cruzadas.

E o tempo passou.

Com sorriso franco, semblante marcado

pela experiência acumulada, ela

vingava todas as predições em contrário e seguia

a fazer bolo, biscoito e carne,

a contar casos,

a chorar de saudade e jamais reclamar,

a não ser

na excruciante hora,

em que as resistências cedem

e as lágrimas escorrem, por si,

em si mesmas.

Vigor é sua marca.

Resistência sua índole.

Mansidão e humildade, juntas, num só corpo

que, desfalecido, sem conseguir vencer o tempo

já não mais existe.

Isso deve ser saudade, e não dói,

não incomoda

mas é sentida,

num átimo epifânicos da descoberta

constante da finitude.

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Nostalgia

Estar numa encruzilhada

que não sabia como abordar…

Como aquele animal selvagem

que de pronto

é prisioneiro…

Quem sabe chegar

como o mar à enseada…

Como a música

que perdeu um sabiá…

Súbito espasmo do zéfiro congelante

que ao soprar por horas se faz eterno

como relógio de areia que

lentamente

agoniza…

E assim empalidece,

enlanguesce,

soa

como um profundo pranto

de lágrimas que não caem,

não se derramam,

como fogo sem chama…

Tal entardecer sem ocaso,

como meus beijos,

minhas palavras,

meu coração tem saudade.

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Dois poemas

A preguiça é muita, a sensaboria, maior. Os dois poemas que seguem foram classificados – ainda que eu não saiba exatamente a extensão semântico-discursiva do termo – no concurso da Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade, de/em Itabira.

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Marí(n)timo

 

Nas estrias que a onda deixa

depois que crispada se enovela

o fluxo do tempo que flui, líquido

abraço espumoso

que a Netuno e Cronos enlaça

marés:

caminho.

 

Na areia ainda úmida

estrias como raízes aquáticas

rastros da míngua lunar

caminho de volta ao oceano:

pedras.

 

O mar recua

vira o vento (o vento vira?)

mudança de lua

retomar o fluxo de tudo, mais uma vez

hora de voltar,

pelo mesmo caminho.

 

Do mar

o cheiro e o barulho

tépido, toque das mãos de Netuno:

pedra de desejo.

 

Antínoo caminha na praia

os feixes de músculos

movimento da engrenagem, carne:

caminho do prazer.

 

Ganimedes, silente, observa

lembranças que voltam, maré

afetos e desejos

se encerram:

a pedra e os caminhos.

 

Pensar que podia ser

desejo que não veio

seio do sono assoma surdo

desejo que não vejo

ah…

pedra do caminho… voltar!

 

images (2)

 

Roteiro

 

Folheio, docemente, as páginas do livro amarrotado pelo passar do tempo.

Ao lado, um sopro vazio de tudo e de nadas: o vento a sentir.

Observo.

O impossível transforma-se no todo: a pedra.

O fruto, banhado pela doce brisa, afasta-se.

E assim, outro dia, outra memória, outro fruto.

Talvez!…

Um dia, disseram que escrever é destino.

Compreender a outra perspectiva, mas manter a posição contrária de então.

O livro da vida de alguns está cheio de momentos de puro vazio, ocasionados por perdas e o tempo que passa.

No meio do caminho repleto de obstáculos.

A fé torna-se pedra.

A covardia impede o ditar o fim

do caminho.

Um dia, não mais os detentores do pouco poder, da vaidade, do egocentrismo.

Dinheiro, beleza, sabedoria, estatuto social não servem mais: pedras.

As linhas do destino já traçadas desde o nascimento.

Então, do rascunho que se possa ler, ninguém está imune à dependência de toda e qualquer caridade.

Graves consequências das catástrofes naturais e das “mutações” da sempre frágil existência: caminho.

Neste mundo, sós e despidos.

As assimetrias são evidentes, nada é eterno…

Qual será a missão se a doença se alastra!

 

Soubesse onde estou, como estou, para onde quero ir, para onde vou…

Ouço os gritos da noite inaudita que, um dia, fortemente me abraçou (há tanto tempo!).

Os dias sempre me decapitaram em pedaços: pedras.

 

A noite rouba-lhes a luz e a sede.

Destino que nunca soube descrever, fruto de erros ou de uma praga.

Já faz tanto tempo.

O hoje e o amanhã não são meus: pedras.

Na natureza existem mecanismos de adaptação que se traduzem por formas de sobrevivência.

Não os tenho.

Perdi-os pelo caminho.

Sou espécie nascida para logo entrar em vias de extinção.

Condição humana,

sina,

pecado,

vidas passadas,

influência demoníaca ou apenas eu.

Sempre eu e mais ninguém

pelo caminho das pedras.

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Poesia

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Poemas relâmpago

I

Silêncio e abandono, precisos.

Momentâneo exílio, audição do abismo, antes da pulverização

da rua, longa.

A travessia do telescópio à cata de estrelas.

A palavra ausente no fio dos dias.

 

II

Nem multidão, nem vazio:

no meio.

A pertinaz constância, presente eterno,

a voracidade absoluta do agora.

 

III

Verso,

Porto seguro da letra perdida.

Trabalho.

O princípio da incerteza até o horizonte.

download

Delírio fílmico

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Há um filme, que já vi algumas tantas vezes, que me impressiona muito: A casa dos espíritos, Bille August, 1993. Jamais li o livro, de autoria de Isabel Allende, que serviu de base para a versão cinematográfica. Pode ser que esteja perdendo muita coisa… O que me interessa é uma cena em particular. Durante um jantar, o patriarca manda embora uma mulher e seu filho que insistem em vê-lo. Sabe-se que a mulher foi jovem e bonita e, então, foi seduzida pelo dono da propriedade, o tal patriarca. O menino é feio e vai continuar assim em suas aparições em outro momento da película. Percebe-se o desespero da mãe e a raiva do filho que vê o conforto da casa da qual está sendo escorraçado e, a gente fica sabendo, vai descobrir que o pai é o mesmo homem que o expulsou. Ocorre que o tal menino se transforma e se torna soldado revolucionário. Invade a propriedade já bastante depauperada. Na sequência da história, vem a ser o torturador da filha do patriarca, seu pai. Chama a minha atenção, aqui e somente aqui, a feiura do rapaz. O desfecho da história vai ser deixado ao léu, na esperança de que os curiosos peguem o dvd para ver o filme ou façam seu download – palavrinha escorregadia esta! – do mesmo. A partir desta observação, imagino uma sequência diferente. Depois que o me nino é escorraçado, não mais se sabe dele. A filha do patriarca torna-se, como na versão original da história, perseguida pelos revolucionários. E numa dessas reviravoltas do destino, vem a conhecer um rapaz, numa de suas fugas para a propriedade rural da família. O encontro fortuito se torna interesse e do interesse dá-se um salto para paixão. Logo, para o casamento é um pulo. O patriarca, ainda vido e turrão e velho e ainda autoritário, cheira algo no ar, mas é convencido de que se trata de rabugice. A boda se realiza. A herança de distribui. O destino segue seu rumo. Passa-se algum tempo e o neto do patriarca nasce e, na medida em que o menino cresce, algo incomoda o velho proprietário. O incômodo aumenta e aumenta. Todos que restaram na família, inclusive a mãe de nossa heroína que, como na versão original, fica sem falar por anos a fio. Num determinado momento, uma situação se cria e há que tomar uma decisão que pode destruir a família. Pânico. Indecisão. As opiniões contrastantes acabam por deixar nas mãos do novo membro da família a decisão. Ah, já ia me esquecendo. O rapaz é simplesmente lindo. Desse tipo de beleza que irradia alegria, felicidade e a certeza da perfeição na terra. Um encanto! Voltando… Com a tal situação criada, uma decisão há que ser tomada. Num momento de suspense eletrizante, durante uma reunião de família – fica claro que a partir desta o desenlace é inevitável – a solução é antecipada por uma revelação. O moço bonito é o tal filho da mulher que foi escorraça durante um jantar décadas antes. Sequência mostrada no início do filme. Isso muda tudo. Dá um nó no enredo. Não vou apresentar uma solução para este enigma, colocado aqui depois da minha intromissão (delirante) no roteiro. Deixo a cargo da imaginação de cada um construir esta conclusão. Carpe diem!

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Delírios

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E P. acorda. Pega o copo e, um tanto lentamente, sorve o copo, enorme, cheio até a tampa. Em golfadas, lentas, fundas, saborosas, esgota o liquido que tenta afugentar a ferrugem da ressaca, os flashes do que veio antes, a amarga memória do desdém da vontade. Assim começaria um poema. Três ou quatro versos de média métrica. O verso livre e branco. Em seguida, um verso enorme, com algumas aliterações para dar uma noção de movimento. E depois os demais versos, soltos, musicais, líquidos, escorrendo pela página a tentar alegorizar o movimento indeciso e irregular de quem acorda depois de uma noite amarga de bebedeira. Seria assim o poema. O “P” seguido de ponto inspira curiosidade. Homem ou mulher. Se fosse Petra, como possivelmente o poeta quis em primeira instância, a ilação com Fassbender poderia ser ativada. Uma por outra. E os versos continuariam em seu ritmo variado, assim como sua métrica, sua melodia, seu desenho.

Plagiando Foucault, descaradamente:

Isto não e um poema!

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Trecho

Resolvi colocar aqui um trecho de um diário escrito por uma personagem de romance. Nada mais digo. Sem referências de título de obra ou de autor. Apenas o trecho do diário, escrito por uma personagem de ficção…

th

“E, de repente, assim como não quer nada, o sujeito se vê diante de um caneco de Budweiser, servido da garrafa de 600 ml, uma das três que ele vai tomar. Diuturnamente, isso acontece. Sempre aos finais de semana. Raramente, no meio da semana: afinal os dias são chamados de úteis… Mas beber, à toa, também suas utilidades. Não cave aqui enumerá-las, como se uma taxonomia fosse… Mas que é útil, ah… isso, de certeza que é… Vai tudo bem até que começam a pipocar as ideias. Aquelas que aparecem sem convite ou convocação. Estas, as duas únicas possibilidades de aparecimento desse ser estranho, intraduzível, às vezes, em palavras, as ideias. Mormente, quando as ideias giram em torno da situação de um idoso. Um idoso muito querido. Um idoso muito querido que até outro dia estava muito bem. Um idoso muito querido, que até outro dia estava muito bem, mas que por força da visita inesperada caiu em desassossego. De um desassossego incurável, incontornável, porque causado por aquela visita anunciada. Anunciadamente nefasta e pouco querida. O oposto do idoso mito querido que até outro dia estava bem. A visita não quis se dar conta do despropósito de seu ato: a visita. Sob o falso pressuposto de que poderia vir a ser apreciada, a visita, quem visitou não se deu conta do contrário. Sim, contrário porque houve ali, para acontecer a visita, uma agregação. Não havia ali, no ambiente que criou a oportunidade da visita, um laço de sangue. E a ausência deste laço é tudo. Foi tudo. Tudo o que transtornou o idoso muito querido. O tempo passa e quem visita não se quer dar conta de sua própria inapropriação da oportunidade. Se, ao menos, quem visita ficasse em silencia, em lugar de deixar escapar pela bocarra uma quantidade inumerável de impropriedades. Impropriedades que abalaram a tranquilidade do idoso muito querido. Uma visita inesperada que se fez, uma vez mais, indesejada, Que não volte mais! Agora, no lugar do silêncio, um burburinho. Um burburinho alto e incômodo. Um burburinho, alto e incômodo, que fala alto da situação insustentável. E, de novo, isso atinge em cheio ao idoso muito querido. Este pode ser homem ou mulher. Não interessa. Não importa. O que importa, o que vale a pena, o que está em conta, é a certeza de que não mais haverá a oportunidade de se ver o idoso muito querido como antes era visto. E não é por falta de vontade. Longe disso. Há algo de natural nisso tudo. Mas essa natureza poderia ser menos cruel, poderia levar quem visita a evitar sua própria visita. Podias levar quem visita a não mais pensar em fazer a visita, para o bem de todos. De todos e, sobremaneira, do idoso muito querido. É isso. Outra garrafa de Budweiser de 600 ml foi aberta. Mais uma…”

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