Aves, insetos e letras

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Já faz um tempo, recebi uma mensagem de correio eletrônico de uma amiga de Niterói. Ela perguntava se podia eu substituir um outro colega na redação de uma recensão de um livro de poesia recentemente lançado no Brasil. A recensão seria publicada na prestigiada revista Colóquio Letras, de Lisboa, sob a tutela da não menos prestigiosa Fundação Calouste Gulbenkian. Aceitei. Mais alguns dias e recebi outra mensagem, desta feita do autor do livro, Carlos Nejar, para pedir meu endereço postal para o envio do livro que recebi autografado: uma honra. O terceiro contato foi da responsável pela edição, uma senhora, a princípio, muito educada. O bom senso me leva a não citar seu nome, por decoro. Fiz a recensão e enviei ao autor que se sentiu honrado. O livro, Odysseus, o velho (2010). Uma leitura delicada e instigante do retorno do herói, na perspectiva da epopeia clássica. Aí começou o inferno ou, antes, uma das manifestações do que quer que seja o inferno. O texto foi e voltou três vezes. A editora chefe devolveu, por primeiro, afirmando que o texto estava muito opinativo, muito pessoal. Da segunda vez, depois que submeti o texto a um tratamento mais “objetivo” – alguém na face da terra é capaz de definir o que é isso… eu sou incapaz… – foi devolvido, dizendo que não alcançava o seu objetivo. Uma terceira vez ele foi reenviado e igualmente devolvido, desta feita, sob a chancela de impróprio para a publicação por não e tratar de uma recensão. Enviei todas as mensagens ao autor que, enraivecido, escreveu dizendo da impropriedade – tento, aqui e assim, sintetizar a caudalosa sequência de críticas feitas pelos poetas – dos “pareceres” de tão prestimosa revista. Não contente, o poeta escreveu para Portugal, desancando a revista em função de sua resistência à minha recensão, e proibindo a publicação de qualquer outra sobre este seu livro. Ouvi, da amiga que por primeiro me convidou a observação me criticando por ter provocado esta situação. Por ironia do destino, quase cruzei com a dita editora portuguesa, em Lisboa, na sede da Fundação, por conta de um congresso do qual ambos participávamos. Cheguei ao balcão de vendas de livros, segundos depois que ela de lá saíra. Creio que cheguei a cruzar com ela sem saber que dela se tratava… Ainda bem!

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Pois muito bem. Esta história vem a lume por conta do imenso prazer que me causou a leitura de um livro para mim enviado por seu autor, o Dirceu Magri. O livro se intitula De borboletas e colibris em sobrevoo: presença francesa nas crônicas machadianas. Livro corajoso, sobretudo, pela escolha de seu corpus: o volátil texto da crônica. O adjetivo aqui não é pejorativo. Antes, aponta para a natureza do gênero que ainda carece de certa “definição”, ainda que eu continue questionando a necessidade disso. A crônica é gênero sagaz por natureza. Como a água, não se deixa conter facilmente. O fascínio que causa em seu leitor particular o autor do livro que li, faz com que o seu próprio texto também acompanhe essa peculiaridade. Uma escrita leve, fácil, escorreita, cristalina que passeia com altivez e prazer entre o texto das crônicas de Machado de Assis e o pensamento dos autores franceses pelo autor considerados. Uma delícia a análise que faz da crônica publicada em A Semana, a 5 de agosto de 1894. Esta análise, na leitura que fiz do livro, serve de trampolim bem balanceado para o passeio que Dirceu empreende, pelas veredas da estética da recepção – mesmo que consideravelmente implícita –, no intuito de mapear as fontes e as influências que podem ser percebidas quando da abordagem comparativa dos textos de Machado de Assis e o que dizem os autores franceses em seu pensamento. A estrutura dos livros se faz a partir do nome dos pensadores escolhidos: Voltaire, Rousseau e Diderot. Os três primeiros capítulos ensejam uma abordagem teórico-crítica do gênero, fazendo o desenho contextual do conceito, algo próximo do exercício filosófico de Foucault, sobretudo em As palavras e as coisas. Segue um capítulo sobre o século XVIII, apresentado como seara onde vicejaram as ideias que, inúmeras vezes influenciaram o escritor brasileiro. A “ata finda” do livro retoma a visada do século XVIII ponto de fuga da argumentação sagaz, divertida e sofisticada de Dirceu Magri. Manda o protocolo que se aponte defeitos. Isso é muito chato. Mais chato ainda quando tais defeitos não se apresentam. Antes de mais nada, é imprescindível definir “defeito” para só depois utilizar o conceito, o tópico, a variável, na análise do corpus que se apresenta. Claro está que o livro de Dirceu Magri não é perfeito, pelo simples fato de que perfeição não existe. Assim sendo, cumpre-me dizer que não encontre qualquer resquício de defeito ou problema. Talvez um incômodo aqui e ali, do tipo que se faz perceber, mas não interfere, não compromete. O livro de Dirceu Magri cumpre o que promete. E o faz com graça e elegância, o que se pode perceber já no título da obra, tópico retomado na parte final do livro. As borboletas – que não denegam sua origem de pulpa – e os colibris que se sustentam no ar como por mágica ilustram de maneira leve e graciosa – bem ao gosto do século XVIII – o pensamento arguto, sagaz e divertido de Dirceu Magri. Uma leitura inolvidável!

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São Tomé

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Ando numa maré de quase absoluta desconfiança. O substantivo – com três acepções, aparecido no século XV, segundo o Houaiss – significa disposição de espírito que leva as pessoas a não fiar nos outros; falta de confiança; característica do que está agastado; agastamento, desagrado, zanga; falta de esperança. Penso que não é preciso acrescentar mais nada. Assim, ando como são Tomé: só acredito vendo. Para completar “o quadro da dor” – para lembrar a querida Cleo, de Santa Maria, que hoje vive em Camboriú -, vou morrer e não vou ver tudo. É isso. Penso que muita coisa há de me surpreender enquanto ainda estiver vivo…

Tais elucubrações, que bem podem parecer inócuas – e não o deixam de ser -, simultaneamente ridículas – como as cartas de amor, segundo Fernando Pessoa – e definitivamente inúteis – porque vão ficar soterradas pela pátina do tempo – são fruto dos descalabros e dos desacertos que tanto alimentam o já agitado desassossego com que a população do planeta se depara dia após dia. Não sou apocalíptico, sem deixar de sê-lo. Ainda não estou a carregar as trombetas do final dos tempos, mas creio que fica a cada dia mais difícil, para não dizer impossível, acreditar no que se lê, no que se ouve, no que se vê.

No meio dessa barulhada toda, leio um texto, por indicação de outra amiga, a Glícia. Em sua página do Facebook, ela comenta do prazer de se ler um texto bem escrito. Fui atrás da indicação dela. Li o texto. De fato, muitíssimo bem escrito. Para além disso, o que está longe de ser pouca coisa, o texto é de um sarcasmo que chega a doer, de tão afiado, sutil, sofisticado, elegante e, em igual medida, demolidor, para ficar numa única palavra. Diz o adagiário popular que há gosto para tudo e, sem dúvida, há gente que não gosta do autor do texto… O que é que posso fazer?

Segue abaixo, a ligação para ler o texto na íntegra. Divirtam-se!

http://veja.abril.com.br/blog/augusto-nunes/?p=874720?utm_source=redesabril_veja&utm_medium=twitter&utm_campaign=redesabril_veja&utm_content=feed&

Não se assustem com a “dona” que aparece no vídeo… ela não morde… rosna, mas não morde…

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Quebra

Não vou seguir o protocolo por mim mesmo determinado. Não vou fazer o comentário das cartas que havia previsto. Não vou dar (hoje) continuidade… Recebi mensagem de uma prima com um texto que responde a suposto comentário feito por Luiz Fernando Verissimo acerca das manifestações do último ia 16. Eu queria ir até Belo Horizonte. Não fui. Depois dos acontecimento da quarta-feira imediatamente anterior fiquei temeroso. Arrependi-me. As manifestações foram tranquilas. Conheci o Verissimo em Santa Maria. Estive com ele por duas vezes. Por duas vezes confirmei a primeira impressão: um sujeito caladão, chato, cheio de manias, para não dizer sem graça e mal humorado. Em nada e por nada parecido om seu alter ego que se vislumbra em seus textos. Guardadas as devidas proporções, assino embaixo do manifesto que a ex-professora das filhas do Verissimo escreveu e, ao que parece, publicou. Um desabafo que eu também faria e, ao final, como ela, diria: au, au au…

Segue o texto.

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Postado por Polibio Braga on 8/24/2015 02:27:00 PM
Uma das ex-professoras das filhas do escritor gaúcho Luiz Fernando Veríssimo não gostou de ser comparada a vira-latas por protestar contra a corrupção do governo Dilma. Ela encaminhou esta carta ao editor, que vai publicada na íntegra:
 
Prezado LF Verissimo:
 
Na crônica com o título ‘O Vácuo’, comparaste os manifestantes contra o governo aos cachorros vira-latas que, no passado, corriam atrás dos carros, latindo indignados. Dizes que nunca ficou claro o que os cães fariam quando alcançassem um carro, por ser uma raiva sem planejamento. E que os cães de hoje se modernizaram, convenceram-se de seu próprio ridículo, renderam-se ao domínio do automóvel.
 
Na tua infeliz e triste comparação, os manifestantes de hoje são vira-latas obsoletos sitiando um governo que mais se parece com um Fusca indefeso, que sabem o que NÃO querem – Dilma, Lula, PT – mas não pensaram bem NO QUE querem no seu lugar. Como um velho e obsoleto cachorro vira-lata, quero te latir (não sei se entendes a linguagem de cachorros) algumas coisas:
 
1. Independentemente das motivações de cada um, tenho certeza de que todos os cachorros na rua correm em busca dos sonhos perdidos, que, em 13 anos, foram sendo atropelados não por um Fusca indefeso, mas por um Land Rover de corrupção, imoralidades, mentiras, alianças políticas espúrias, compras de pessoas, impunidade, incitação à luta de classes, compra de votos com o Bolsa Família , desrespeito e banalização da vida pela falta de segurança e de atendimento digno à saúde, justiça falha, etc, etc.
 
2. Se os cachorros se modernizaram e pararam de correr atrás do carro, não foi por se convencerem do próprio ridículo. Foi porque não conseguiram nunca alcançar os carros e isso os desmotivou. Falta de planejamento, concordo. Mas os cachorros de agora aprenderam que se correrem juntos, unidos, latindo bastante atrás do carro, cada vez mais e mais, de novo e de novo, chegará uma hora em que o motor vai fundir. Eles vão alcançar o carro. O motorista vai ter que descer do carro e outro assumirá. Pior do que está não vai ficar, embora o conserto vá demorar muito. Não vai ser fácil, mas os vira-latas vão conseguir se organizar, pelo voto. Não pela ditadura.
 
3. Não é verdade que o latido mais alto entre os cachorros foi o de um chamado Bolsonaro. Acho que estavas na França gozando das delícias de um croissant na beira do Sena (enquanto os vira-latas daqui corriam atrás do osso perdido) e não viste os vídeos das manifestações. Se bem que a TV Globo e o Datafolha também não enxergaram nada. O que mais cresceu na manifestação foi uma certeza, a certeza que vai fazer esse país mudar: com essa Land Rover desgovernada não dá mais. Os cachorros com seus latidos unidos jamais serão vencidos. E sabem que mais dia, menos dia, esse carro vai parar. É assim que começa, pena que eles não acreditem. Não vai ter mais dinheiro pra comprar brioches para o povo. E o número de vira-latas vai aumentar muito. Quem comandará a corrida? Não sei, só sei que prefiro ser um vira-lata à moda antiga do que um vira-lata moderninho que se rende a uma Land Rover.
 
4. Te enganas quando dizes que os cachorros de antes corriam atrás dos carros porque a luta era outra. Não, a luta é a mesma, o contexto é diferente. Os cachorros não querem um passaporte bolivariano. O vácuo vai ser preenchido, não te preocupes. Por quem for necessário e aceito, desde que não seja pelo exército do Stédile.
 
5. Em tempo: essa vira-lata que te fala foi professora das tuas filhas no antigo e admirável Instituto de Educação. Lá aprendi que é importante latir não por latir, mas para defender os sonhos possíveis. E tuas filhas devem ter aprendido muita coisa com os meus latidos. Continuo latindo, agora na rua, para derrubar o que acredito ser um mal nesta nação arrasada: a corrupção e, mais do que isso, um governo corrupto, que perdeu totalmente a vergonha. Eles criaram um “vácuo” de imoralidade e de incompetência que vai ser difícil de recuperar. Mas, vamos conseguir!
 
Atenciosamente, auauau.
 
ROSÁLIA SARAIVA
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Comportamento

Noivos. Mais de dois anos. Encontros periódicos e apaixonados, sonhos e projetos. Noivos, definitivamente noivos. Enxoval completo comprado com despesas divididas. Assim também o apartamento, o buffet para a festa de casamento. Na Igreja da paróquia do bairro em que ela mora, os proclamas já corriam – ou os “banhos” como já ouvi dizer que se usava falar em priscas eras. Noivos. Data de casamento marcada.

Domingo, depois da visita à casa da sogra. Ela um pouco enfadada. Ele um tanto preguiçoso. Caminho de casa. Noivos. Em lá chegando, ela entra com ele e ficam na sala. Noivos. Ele diz que tem algo importante a dizer. Ela escuta. Ele diz que saiu com outra garota e que ela está grávida. Ela quer saber se foi apenas uma aventura ou se ele está namorando a outra. Ele diz que foi aventura. Ela pergunta se ele tem certeza da paternidade, se já tinha feito exame de DNA. Ele protesta dizendo que a outra ficaria constrangida demais. Ela, indignada, pergunta se o que ele estava falando já não era constragimento bastante. A outra não pode, eu posso… ficar constrangida? Ela diz que acabou. Ele fica calado. Ela pede para ele devolver metade de tudo o que gastaram na compra e nas despesas do casamento até aquele domingo. Ele paga. Noivos. Não mais.

Lá e cá!

Recebi mensagem de um amigo português, reproduzindo crônica de autor conterrâneo… dele. Miguel de Sousa Tavares é o nome do gajo. Já li dele um romance: Equador. O texto que segue, aparentemente, é uma crônica, publicada não sei onde. O amigo que a enviou para mim não citou as fontes. Por isso destaquei logo o nome de seu autor. Li, entre boquiaberto e gargalhante. Seria cômico, de fato, se não fosse trágico. Sem a menor sombra de dúvida, a interlocutora não é brasileira… Não teria nenhuma das dúvidas que teve por saber, já, o caos que se instalou nos trópicos… Parece genética (nas duas direções)! Vejam lá!

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“Segunda-feira passada, a meio da tarde, faço a A-6, em direcção a Espanha e na companhia de uma amiga estrangeira; quarta-feira de manhã, refaço o mesmo percurso, em sentido inverso, rumo a Lisboa. Tanto para lá como para cá, é uma auto-estrada luxuosa e fantasma. Em contrapartida, numa breve incursão pela estrada nacional, entre Arraiolos e Borba, vamos encontrar um trânsito cerrado, composto esmagadoramente por camiões de mercadorias espanhóis. Vinda de um país onde as auto-estradas estão sempre cheias, ela está espantada com o que vê:
– É sempre assim, esta auto-estrada?
– Assim, como?
– Deserta, magnífica, sem trânsito?
– É, é sempre assim.
– Todos os dias?
– Todos, menos ao domingo, que sempre tem mais gente.
– Mas, se não há trânsito, porque a fizeram?
– Porque havia dinheiro para gastar dos Fundos Europeus, e porque diziam que o desenvolvimento era isto.
– E têm mais auto-estradas destas?
– Várias e ainda temos outras em construção: só de Lisboa para o Porto, vamos ficar com três. Entre S. Paulo e o Rio de Janeiro, por exemplo, não há nenhuma: só uns quilómetros à saída de S. Paulo e outros à chegada ao Rio. Nós vamos ter três entre o Porto e Lisboa: é a aposta no automóvel, na poupança de energia, nos acordos de Quioto, etc. – respondi, rindo-me.
– E, já agora, porque é que a auto-estrada está deserta e a estrada nacional está cheia de camiões?
– Porque assim não pagam portagem.
– E porque são quase todos espanhóis?
– Vêm trazer-nos comida.
– Mas vocês não têm agricultura?
– Não: a Europa paga-nos para não ter. E os nossos agricultores dizem que produzir não é rentável.
– Mas para os espanhóis é?
– Pelos vistos…
Ela ficou a pensar um pouco e voltou à carga:
– Mas porque não investem antes no comboio?
– Investimos, mas não resultou.
– Não resultou, como?
– Houve aí uns experts que gastaram uma fortuna a modernizar a linha Lisboa-Porto, com comboios pendulares e tudo, mas não resultou.
– Mas porquê?
– Olha, é assim: a maior parte do tempo, o comboio não ‘pendula’; e, quando ‘pendula’, enjoa de morte. Não há sinal de telemóvel nem Internet, não há restaurante, há apenas um bar infecto e, de facto, o único sinal de ‘modernidade’ foi proibirem de fumar em qualquer espaço do comboio. Por isso, as pessoas preferem ir de carro e a companhia ferroviária do Estado perde centenas de milhões todos os anos.
– E gastaram nisso uma fortuna?
– Gastámos. E a única coisa que se conseguiu foi tirar 25 minutos às três horas e meia que demorava a viagem há cinquenta anos…
– Estás a brincar comigo!
– Não, estou a falar a sério!
– E o que fizeram a esses incompetentes?
– Nada. Ou melhor, agora vão dar-lhes uma nova oportunidade, que é encherem o país de TGV: Porto-Lisboa, Porto-Vigo, Madrid-Lisboa… e ainda há umas ameaças de fazerem outro no Algarve e outro no Centro.
– Mas que tamanho tem Portugal, de cima a baixo?
– Do ponto mais a norte ao ponto mais a sul, 561 km.
Ela ficou a olhar para mim, sem saber se era para acreditar ou não.
– Mas, ao menos, o TGV vai directo de Lisboa ao Porto?
– Não, pára em várias estações: de cima para baixo e se a memória não me falha, pára em Aveiro, para os compensar por não arrancarmos já com o TGV deles para Salamanca; depois, pára em Coimbra para não ofender o prof. Vital Moreira, que é muito importante lá; a seguir, pára numa aldeia chamada Ota, para os compensar por não terem feito lá o novo aeroporto de Lisboa; depois, pára em Alcochete, a sul de Lisboa, onde ficará o futuro aeroporto; e, finalmente, pára em Lisboa, em duas estações.
– Como: então o TGV vem do Norte, ultrapassa Lisboa pelo sul, e depois volta para trás e entra em Lisboa?
– Isso mesmo.
– E como entra em Lisboa?
– Por uma nova ponte que vão fazer.
– Uma ponte ferroviária?
– E rodoviária também: vai trazer mais uns vinte ou trinta mil carros todos os dias para Lisboa.
– Mas isso é o caos, Lisboa já está congestionada de carros!
– Pois é.
– E, então?
– Então, nada. São os especialistas que decidiram assim.
Ela ficou pensativa outra vez. Manifestamente, o assunto estava a fasciná-la.
– E, desculpa lá, esse TGV para Madrid vai ter passageiros? Se a auto-estrada está deserta…
– Não, não vai ter.
– Não vai? Então, vai ser uma ruína!
– Não, é preciso distinguir: para as empresas que o vão construir e para os bancos que o vão capitalizar, vai ser um negócio fantástico! A exploração é que vai ser uma ruína – aliás, já admitida pelo Governo – porque, de facto, nem os especialistas conseguem encontrar passageiros que cheguem para o justificar.
– E quem paga os prejuízos da exploração: as empresas construtoras?
– Naaaão! Quem paga são os contribuintes! Aqui a regra é essa!
– E vocês não despedem o Governo?
– Talvez, mas não serve de muito: quem assinou os acordos para o TGV com Espanha foi a oposição, quando era governo…
– Que país o vosso! Mas qual é o argumento dos governos para fazerem um TGV que já sabem que vai perder dinheiro?
– Dizem que não podemos ficar fora da Rede Europeia de Alta Velocidade.
– O que é isso? Ir em TGV de Lisboa a Helsínquia?
– A Helsínquia, não, porque os países escandinavos não têm TGV.
– Como? Então, os países mais evoluídos da Europa não têm TGV e vocês têm de ter?
– É, dizem que assim entramos mais depressa na modernidade.
Fizemos mais uns quilómetros de deserto rodoviário de luxo, até que ela pareceu lembrar-se de qualquer coisa que tinha ficado para trás:
– E esse novo aeroporto de que falaste, é o quê?
– O novo aeroporto internacional de Lisboa, do lado de lá do rio e a uns 50 quilómetros de Lisboa.
– Mas vocês vão fechar este aeroporto que é um luxo, quase no centro da cidade, e fazer um novo?
– É isso mesmo. Dizem que este está saturado.
– Não me pareceu nada…
– Porque não está: cada vez tem menos voos e só este ano a TAP vai cancelar cerca de 20.000. O que está a crescer são os voos das low-cost, que, aliás, estão a liquidar a TAP.
– Mas, então, porque não fazem como se faz em todo o lado, que é deixar as companhias de linha no aeroporto principal e chutar as low-cost para um pequeno aeroporto de periferia? Não têm nenhum disponível?
– Temos vários. Mas os especialistas dizem que o novo aeroporto vai ser um hub ibérico, fazendo a trasfega de todos os voos da América do Sul para a Europa: um sucesso garantido.
– E tu acreditas nisso?
– Eu acredito em tudo e não acredito em nada. Olha ali ao fundo: sabes o que é aquilo?
– Um lago enorme! Extraordinário!
– Não: é a barragem de Alqueva, a maior da Europa.
– Ena! Deve produzir energia para meio país!
– Praticamente zero.
– A sério? Mas, ao menos, não vos faltará água para beber!
– A água não é potável: já vem contaminada de Espanha.
– Já não sei se estás a gozar comigo ou não, mas, se não serve para beber, serve para regar – ou nem isso?
– Servir, serve, mas vai demorar vinte ou mais anos até instalarem o perímetro de rega, porque, como te disse, aqui acredita-se que a agricultura não tem futuro: antes, porque não havia água; agora, porque há água a mais.
– Estás a dizer-me que fizeram a maior barragem da Europa e não serve para nada?
– Vai servir para regar campos de golfe e urbanizações turísticas, que é o que nós fazemos mais e melhor.
Apesar do sol de frente, impiedoso, ela tirou os óculos escuros e virou-se para me olhar bem de frente:
– Desculpa lá a última pergunta: vocês são doidos ou são ricos?
– Antes, éramos só doidos e fizemos algumas coisas notáveis por esse mundo fora; depois, disseram-nos que afinal éramos ricos e desatámos a fazer todas as asneiras possíveis cá dentro; em breve, voltaremos a ser pobres e enlouqueceremos de vez.
Ela voltou a colocar os óculos de sol e a recostar-se para trás no assento. E suspirou:
– Bem, uma coisa posso dizer: há poucos países tão agradáveis para viajar como Portugal! Olha-me só para esta auto-estrada sem ninguém!”

Proibir?

Eles são três. Se você está esperando por uma história que defenda uma ideia e consiga demonstrar a sua exequibilidade, desista! Eles são três pessoas normais, quase anormais, de tão corriqueiras. O que eles falam soa, às vezes, falso, mas convence. A beleza da fotografia é permeada de sequências que são “achados”, como a parada no belvedere na saída do Rio de Janeiro. A “cidade maravilhosa” é vista por seus ângulos menos pontuados pelo glamour que certa industria turística, que insiste em vender como certa realidade como “imagem”. Realista, contundente, às vezes margeando o lírico. Mesmo as preocupações “sociais” que poderiam ser apostas ao olhar do espectador, pelas brechas criadas pela narrativa, é uma sequência de imagens que faz pensar e não deixa de ser um trabalho interessante.

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Estou falando de Proibido proibir. Filme dirigido por um chileno, rodado no Brasil, com elenco comportado, competente e que não ronda as instalações do projac à busca de celebridade. Por esse e por outros motivos vale a pena ver o filme. Nele, um estudante de Medicina, faz sua residência no Hospital Universitário, no Fundão. Divide moradia com um estudante de Sociologia que namora uma estudante de Arquitetura. Tudo coerente e convincente. O futuro médico se apaixona e o futuro sociólogo “dança”, mas isso não é o mais importante. O núcleo “social” da película envolve uma família de “sobreviventes”. E é aí que mora o busílis. A violência, a truculência (com o pesar da rima) e a indecorosa impunidade é que “fazem a festa”. Vale apena. Um filme contundente, sem ser apelativo! Quem leu o conto “Dois irmãos”, de Jorge Luis Borges, pode fazer suas comparações e constatar o que o desejo de leitor mandar…

PS: faltou dizer que o filme foi exibido hoje, aui em Zagreb, na abertura de uma mostra de cinema brasileiro, parte das promoções que culminam com o “Dia da Cultura Brasileira”, em 18 de maio. Data aleatória da promoção do International Cooperation Offiice da FFZG.

Ficha técnica

Proibido Proibir, Brasil/Chile, 2006

Gênero: Drama

Tempo: 100 min.

Classificação: 16 anos

Distribuidora: Mais Filmes

Estrelando: Caio Blat, Maria Flor, Alexandre Rodrigues, Edyr Duqui, Adriano de Jesus, Luciano Vidigal, Raquel Pedras

Dirigido por: Jorge Durán

Produzido por: Suzana Amado

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Planos

Uma das coisas que pretendo fazer quando voltar para “a terrinha” é comprar uma bandeira do Brasil. Nos feriados nacionais e nas datas “históricas”, vou hasteá-la. Quando estive nos, Estados Unidos, pela primeira vez, constatei in loco o que já havia visto nos filmes: o “nacionalismo” ianque que faz com que praticamente a maioria da população norte-americana tenha uma baneira stars and stripes (ou é o contrário?… Bah!) hasteada em lugar visível – principalmente para quem está de fora ver! Aqui, na terra da gravata, é a mesma coisa. Ontem, dia mundial do trabalho, a cidade estava uma calma só: coisa diferente para esses dias de Primavera, que prenunciam dias ensolarados, para a delícia dos locais. Eu sempre ando à procura de sombra…! Em quase todas as janelas da rua em que moro eu via o escudo e os quadradinhos vermelhos espalhados na simetria azul, vermelha e branca da bandeira croata.

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Pois bem… parece até um ataque tradio de nacionalismo. Pode ser… Claro está que ainda não pensei se haveria necessidade de explicação. Deu-me a vontade. se puder satisfaço-a. E pronto!

A lembrança vem a propósito de um papo que tive com uma amiga, irritada com a estreiteza de visão dos croatas. Ela reclamava que, precisando de um pintor para retocar algumas paredes da casa que aluga – dado que vai se mudar para a Alemnha –, teve de ouvir comentários como: “os pintores daqui não gostam de ‘serviços pequenos’”. Ela não entendeu muito bem o porquê de tamanha asneira. Nem eu… Daí dei asas à imaginação – fundada na observação – e soltei o verbo.

Os croatas são um povo sui generis. recentemente alçados à categoria de nação democrática – com presidente e primeiro ministro, uma espécie de república parlamentarista ou parlamentarismo republicano (não consigo perceber os detalhes “teóricos” para a diferença!) –, sentem-se como adolescentes que saem sozinhos pela primeira vez, à noite, com os amigos: não sabem o que fazer, que atitude tomar, onde colocar as mãos, como proceder quando numa paquera i tako dalje (= e daí por diante!) . Eles não sabem o que fazer com a própria autonomia e não conhecem a espessura semântico-comportamental da palavra “liberdade”.  Absolutamente isolados do “mundo moderno”, durante décadas, graças à famigerada “cortina de ferro” (como outros rincões vizinhos d’aquém e d’além Balcãs), a Croácia começou, desde os anos 90 – década da conclusão de uma guerra étnico-religiosa que dividiu a Antiga Iugoslávia, já órfã de seu “grande pai”, o ditador Tito – a “modernizar-se democraticamente. De tradição agrícola e pastoril, com hábitos recatados, recobertos de uma ingenuidade quase religiosa e de índole absolutamente passiva, esse mesmo povo viu-se cercado por avenidas asfaltadas, prédios altos, música eletrônica, apresentação de shows de “divas” (ainda vou falar sobre a birra que tenho dessa palavra, em certos casos!), campeonatos mundiais de handebol, eleições livres e, at last but at least (de novo: será mesmo nessa ordem?), o projeto de entrada na União Europeia – a “zona euro”, jargão do economês desse lado do mundo. Também tenho dúvidas sobre a eficácia de tal “união” (mas sou quase absolutamente analfabeto em matéria de economês!). De um modo ou de outro, “de repente, não mais que de repente” (Evoé, Vinícius!), essa gente começou a viver em “cidades”, começou a adquirir hábitos “urbanos” e “modernos”… Em uma só palavra: ocidentais. Parece nada para quem ainda não saiu da própria toca, mas… a diferença é imensa.

imageAndam de cabeça baixa, enchem as mesas dos cafés para resolver tudo, misturam cores e padronagens nunca imaginadas antes, não penteiam os cabelos, não conseguem caminhar sem ter um celular na mão, morrem de medo de contato físico, sempre fazem cara de “meu Deus que isso?” quando a gente pergunta alguma coisa, por mais banal que seja. Estranham o fato de eu, um homem, parar na rua para observar uma vitrine com roupas feminias, acreditam que a Croácia é o melhor país do mundo e, nele, Zagreb, um paraíso de bem viver. O homem enytra primeiro deixa que a mulher se vire atrás, sempre atrás. As bolsas das moças são enormes. Os sapatos e tênis dos homens são SEMPRE três ou quatro números maiores (por que será?). A simplicidade e possível charme, que advém da ingenuidade de berço, acabam por serem recobertas por um falso verniz que se percebe no acabamento, nos detalhes, na voracidade do consumo de tudo o que significa moderno, fashion, in, chic e, mais uma vez, tako dalje! Não sei dar a necessária e completa versão verbal para o que percebo, mas tento. O resumo da ópera: um povo calorosamente sui generis! Tenho que assinalar que minhas modestas (e quase inúteis opiniões!) são baseadas pela experiência dde viver na capital e pouquíssimo contato com duas cidades vizinhas: Varazdin e Samobor. Não posso estender isso a todo o país, dourada e encantadoramente banhado pelo Adriático: o mar azul, mais azul que minhas retinas já um tanto cansadas viram e pelo qual o coração bateu um pouco mais acelerado. Nesta semana, faz dois anos que cheguei aqui: um lugar absolutamente desconhecido para mim. Fica aqui, ainda que por linhas tortas, a minha homenagem a esta cidade, por esta data, para mim, tão importante!

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