Três desejos

Três são as partes do dia. Três, as “idades” do homem. Em três dias, o filho de Deus morreu e ressuscitou. Por três vezes, Pedro negou Cristo, como previsto, e o galo cantou outras três vezes para tanto. Três são os períodos do tempo. Três é o número mínimo para formar uma família, por tradição. Três é considerado o número do equilíbrio perfeito. Por fim, três são os pedidos concedidos pelo gênio da lâmpada, conforma a historieta que animou a fantasia de muitos daqueles que já ultrapassaram as quatro décadas de existência. Essa fábula teve versão tele cinematográfica, também na infância do mesmo grupo das quatro décadas. Era engraçado. Uma geniazinha loura, espevitada, de olhos azulíssimos e muito destrambelhada fazia de tudo para o bem-estar de seu “amo”. Ela o amava e só o queria feliz e satisfeito. No entanto, tudo o que ela fazia sempre passava por uma tramoia alheia, um percalço, uma dificuldade, um engano ou uma “armação”. Ao fim e ao cabo, o filme que passava regularmente na televisão cumpria a sua missão de difundir a ideia de um gênio mágico que realizava sonhos de quem encontrasse a “lâmpada” e a esfregasse. Há também muita piada sobre o tema. Minha preguiça me impede de fazer esforço para lembrar de alguma e aqui trazer… No entanto, esse introito serve para começar a falar de um livro que acabei de ler e que me agradou imenso. Mais um de meus comentários que visam tão somente isso: comentar, com acréscimo do convite para, quem quiser, ler. Um livro divertidíssimo e seriíssimo simultaneamente. Seu autor, um jovem professor de Literatura Portuguesa da/na Universidade do Porto, ele mesmo, português é um sujeito erudito, preparado, capaz, inteligente, talentoso e dono de um senso de humor – pelo menos, nas páginas deste livro – que não deixa o leitor abandonar suas páginas enquanto não cega ao final. Sim, já falei dele aqui. Sim, já li dele outros livros. Sim, conheci-o pessoalmente, por um rápido lapso de tempo, em Coimbra, numa tarde chuvosa e gelada da terra de Inês, posta em seu sossego para sempre… É ele, Pedro Eiras. O livro se chama Os três desejos de Octávio C.  Por isso a minha introdução sobre o número três. Calma! Eu não disse que ia ser original… mas enfim…! Uma narrativa entre hilariante e contundente sobre o desejo, não da ordem da sexualidade propriamente dita, mas do desejo, aquilo que não se tem e se quer ter, fazer, ver, pegar, etc., etc., etc. O protagonista, tem nome duplo “Octávio C.”. Sintomaticamente, diria eu, o segundo nome se esconde numa única letra “C”, a terceira do alfabeto. Oh… seria mais uma coincidência? Não se sabe muito bem quem é esse Octávio e isso, de fato, acaba por não ser o mais interessante no livro. Quem quer que seja ele, o fato que persiste é o de que ele tem que fazer três pedidos para realizar três desejos seus, instado que é por um gênio que lhe aparece em sonho – esta é uma maneira de “ler” as coisas ditas no relato narrativo. Obviamente, não vou dizer o que ele pede. Cabe ao leitor, se curioso for, buscar o livro e descobrir quais foram os três desejos do Octávio C. e o que é que acontece em função desses pedidos e da realização dos desejos dele. Posso adiantar que o protagonista aprende – e creio que cada leitor o acompanha nesta caminha pela caverna de um conhecimento inesperado – que o desejo, se expresso e, consequentemente realizado, quais quer que sejam os meios utilizados para tanto – sempre traz em si, não como consequência, mas como matéria constitutiva, as consequências. Estas, por natureza, imponderáveis. Logo, a lição aprendida leva a esta constatação: ao expressar seu desejo e querer vê-lo realizado, o sujeito não se apercebe que as consequências podem levá-lo, e aos demais participantes da raça humana, a vivenciar consequências inimagináveis, do ponto de vista do próprio desejo. Em outras palavras, por exemplo, se desejo que chova muito porque estou com muito calor, o excesso de chuva pode causar acidentes horrorosos em qualquer lugar do planeta. Não se trata de uma história sobre sinergia. O relato ficcional não se presta, neste caso, a exarar teoria de conspiração ou alarmismo apocalíptico de espécie vária. Nada disso. O texto de Pedro Eiras se debruça, com atenção e ironia (e isso é por conta da leitura que fiz do mesmo), sobre este ponto: o quão impossível é prever as consequências do pedido de realização de um desejo pessoal, próprio, íntimo e o quanto ele pode influenciar em situações, lugares, pessoas e circunstâncias absolutamente imponderáveis, imprevisíveis. Tudo isso instrumentalizado pela deliciosa prosa do jovem professor de Literatura Comparada. Tomara que vocês possam ler o livro, porque vale mesmo a pena.

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Desejos “crônicos”

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A última apresentação de Judy Garland, no Carnegie Hall, em 1961, se não estou enganado.

A open night, no Madison Square Garden, do ultimo show de Barbra Streisand.

Um final de semana em Moeda, na casa da Ângela.

As férias no meio do ano de 1988, em Córdoba (Argentina) com o Paulo e toda troupe do Aquarama on Parade.

Observar o cair da tarde no alto de uma das colinas de Lourmarin, no Sul da França.

A antológica performance de Elis Regina no show Falso brilhante, no Canecão, Rio de Janeiro.

Os “cafezões”, na casa da Cleunice, em Santa Maria-RS. Tantas vezes…

O jantar no “Cinco Oceanos”, em Lisboa, em 2013 ou 2014, com Ana Cristina e Vitor.

Um dos shows de Bette Midler, no início de carreira, numa das saunas gays de Nova Iorque, que não existem mais…

O café colonial em Porto Alegre, com o Luiz e seu companheiro, quando de mina primeira visita ao sul do Brasil.

O final de semana na gélida Viena, em Janeiro de 2010.

O arroz do restaurante em frente ao hotel, em Frederico Westfalen, Rio Grande do Sul, em que fiquei hospedado por duas vezes.

“La madrugá”, em Sevilha, 2015.

A Acrópole vista ao longe, alaranjada, sob o luar primaveril de 2004, na saída do navio.

As andanças de dois dias inteiros pelas vielas labirínticas de Veneza, com Tadeu, no verão italiano de 2008.

A visita ao castelo de Buda (ou será de Pest?), no inverno de 2009, com Luiz Fernando.

O jantar na casa de Ana Paula Ferreira, em Orange County, num ano perdido do século XX.

O jantar de despedida, com Ana Paula Arnaut, num restaurante escondido numa das montanhas do entorno florestal de Coimbra, em 2015.

Coisas que fiz, que não pude fazer, que gostaria de ter feito e que podem ser impossíveis de fazer – por conta do tempo: miríades de facetas do desejo de um turista acidental: eu!

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Uma carta

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Ah… o desejo. Sobretudo aquele que não tem nome. Aquele que ataca, se faz presente, obseda, mas não se apresenta, não tem identidade. O desejo, inominável. O desejo enreda, consome, anuvia. O desejo move, se move e remove. O quê? Não há como saber. É assim, o desejo. Em sua multiforme, atira no que vê e acerta no que não vê, ou seria o contrário? Por ali e por aqui, alhures, na terceira margem do rio… Um rio que corre sem margens. Mas corre. Guimarães Rosa diz presente e eu cito alguém que não conheço, por tabela, citando trechos de Guimarães Rosa que são citados por esse alguém que não conheço. “E de repente eu estava gostando dele, num descomum, gostando ainda mais do que antes, com meu coração nos pés, por pisável; e dele o tempo todo eu tinha gostado. Amor que amei – daí então acreditei […] Um Diadorim só para mim. Tudo tem seus mistérios. Eu não sabia. Mas, com minha mente, eu abraçava com meu corpo aquele Diadorim- que não era de verdade. Não era […] Diadorim deixou de ser nome, virou sentimento meu. Aquilo me transformava, me fazia crescer dum modo, que doía e prazia.” Uma carta. Uma carta de amor. Todas cartão de amor são ridículas. É isso mesmo o que diz o poeta, pois não? Como eu disse, não conheço o citador, mas conheço o texto do citado. E penso: fala o desejo. E como reagir. Talvez, como o autor da carta que segue abaixo (omito remetente e destinatário por uma questão de respeito). Não pedi permissão para publicar a carta, por isso o anonimato. Só vai saber quem é, quem for… se chegar a ler o que aqui escrevo, apropriando-me de sua carta. Como vente. Uma palavra que pode identificar esta carta e sua motivação. Contundente, em sua assertiva. Tocante, em sua inspiração. Direta e instigante: o texto se enreda, como música, em versos que são cosidos (sim, assim mesmo, com “s”, basta ir ao dicionário pra saber o porquê) em linha quebrada, na busca de expressão para sentimentos entrecortados por experiência contrária. Uma experiência. Um troca impossibilitada. Um lamento. Uma certeza. Um de cada um… Tudo em letras de música “cosida” e, tateante, constrói uma das facetas do desejo, um de seus filhos ou uma de suas filhas. Vai depender dos envolvidos na teia desse bicho danado, o desejo. Segue a carta. Copiada aqui literalmente, sem tirar nem pôs nada!

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Minha cabeça ficou louca, você me bagunçou, pirei, mas nossa história poderia ter os diálogos do filme “Bonequinha de Luxo”, só que escrita por Almodóvar. Mas, meu caro, meu quarto não é como a Tiffany & Co., onde você finge estar dentro da loja tomando seu café da manhã para confortar seu ego, acreditando ser um lugar mais confortável, talvez você não tenha um gato sem nome e não vamos ter o mesmo final… nessa novela não quero ser só teu amigo, te ganho ou te perco sem engano.

Vamos deixando o futuro, vamos fingindo que não há. Por enquanto, enquanto essa noite mais uma vez se arrasta, Nossa Senhora do Silêncio pinta as águas do mar, não a vemos (mais uma vez), mas ela estava ali, lua cheia dos amantes vazios, até ela, que segredos eu contava já se cansou. O que vejo é somente as paredes brancas do meu quarto, e nessa mesma noite seus olhos veem outra pessoa que adormece, você ao deitar abraça-a. Enquanto beija o seu porto seguro eu adormeço entre os braços do incauto. Você o deseja boa noite; não vá dizer meu nome sem querer à pessoa errada.

Esse jogo perigoso que pratico busca o limite da aceitação – exaure todas as minhas verdades, fazendo a pó todo plano que nunca tive, mas que de maneira infortuna quero ter; sonhos, desejos, vontades… tudo isso são desfigurados pela incerteza da hora que vou te ver novamente. As farpas do incerto me cravam, rasgam e sangram, mas basta ver o desejo do teu olhar assustado e vagueiro, teu sorriso de menino levado, ouvir sua voz me dizendo qualquer besteira para tentar mudar de assunto, que esqueço de mim e acredito mais uma vez neste amor marginal. A linha tênue da aceitação dilacera meu nome; sou o outro, o vulgar, o sem lar, sou aquele. Enquanto você é o trouble, o que me diz You Know I’m No Good, porém é aquele que me bagunçou, sim eu deixei, zerou!

Você que é essa pedra em meu caminho, vivendo a fugir, inventando qualquer desculpa, uma mentira e assim se fazendo minha verdade, numa tarde quente quando sobre as escadas; me beijando quando não somos mais vistos e se deitando em minha cama após um copo de água gelada. E depois esse amor proibido de minutos contados, mais uma vez bato o portão, me deito e me vejo na solidão, dessabor do falso me toma, arranhado por mais mentiras que pronuncia tão mal. Boca que treme por me conter para não te chamar de amor, olhos saltam à paixão, mãos que queimam ao te tocar, eu quero você agora, não dá mais para segurar, é notório. Toda desculpa se torna esfarrapada. E quanto mais eu me entregava, mais nascia o meu desejo, mais sobrava só o desejo, e mais eu te queria sem palavras, sem pensamentos

Minha ingenuidade me cegou, me enganou. Obtuso me tornei por acreditar que lhe oferecer meu pouco seria o suficiente; que lhe importava ter de volta sua liberdade, teu sorriso e tua vida. Mas tudo que puder oferecer foi dado de boa fé e verdade, talvez possa continuar a desfrutar, pelo menos creio que o aprendizado ficou. Pode me dar o meu prazer, mas vi que com amor é mais caro. Ou, talvez, temos relação e perspectiva diferente sobre valores, pois realmente para mim era muito. Ou, talvez, tenha esperado demais, querer receber algo que nunca será foi capaz de dar, afinal damos o que temos e um relacionamento verdadeiro, de entregas e compartilhamentos nunca lhe foi ofertado, até o momento. Deve ser triste viver onde a exploração é a elo, o medo é a sustentação e o falso o sopro vital, mas suas atitudes te direcionam para o acômodo, para o querer pelo corrupto e pelo que não há hombridade, para o repouso maçador, à pratica do sádico. Um espaço ótimo para sua boca de cena, ali o público aplaude sua interpretação torta de Diadorim, que nasceu para muito amar sem gozo de amor, a mim, só me resta o papel de Dorotéia afogada, e no fim minhas lágrimas secam sozinhas

Sempre fui um sujeito forte, autossuficiente e independente. Sabe, nunca dependi de ninguém – filho da rua, meio sem lar, aprendi a me criar sozinho e tudo isso me fez homem que não sabe não ser, um menino encantado com armadura feito do ouro de Oxum, só me dou por paixão, nasci com esse defeito. De alguma forma você tem um poder de kryptonita sobre mim, ao ponto de não conseguir dizer não quero mais olhando nos seus olhos, a carne fraqueja, as palavras não saem. Você é meu harakiri. Amigo, não duvide da capacidade de um filho de Logun Edé, sagitariano, regido pelo Odú 8, guardado por São Miguel Arcanjo e Nossa Senhora Aparecida, quando desejo faço subir marés sortilégios, quando desconfio desconfiguro dunas de desencantos, não zombe da minha inteligência. O coração é doce, mas não idiota!

Não há saudade nem mágoas. Eu só lhe peço que não faça como gente vulgar, e não me volte a cara quando passar por mim. Nem tenha de mim uma recordação que entre o rancor. Fiquemos um perante o outro como conhecidos desde a infância, que se amaram por quando meninos, embora na vida adulta sigam outras afeições. Conservam nos caminhos da alma a memória de seu amor antigo e inútil.

Talvez esteja me achando infantil por não ter conseguido falar tudo que te escrevi, contudo essa foi mais uma forma de cuidado, procurando a sinceridade de veras palavras. Mas nesse momento recolho meus brinquedos e não quero mais brincar, é sério ser o seu brinquedo. Saber a hora de parar é uma das coisas mais adultas que a vida me ensinou.

Se levante e saia, leve contigo suas mentiras, medos e incertezas. Me deixe com nossas lembranças, nossas músicas que futuramente voltarei a escutar, e quando as lagrimas secarem vou cantá-las sejam onde for. Não há mais o que fazer, amor esse que foi devagar e urgente não me alimenta mais.  Não lhe cabe a preocupação, preocupação é dadiva dos que amam e de quem pode cuidar, isso não lhe é permitido, você não se permitiu. Vá, que por aqui, ficarei bem, sempre fico…

Por que no primeiro momento da leitura dessa carta não se levantou? Mesmo que sem pensar, era medo de eu não ir te buscar? E não iria, não posso ir atrás de alguém em um momento de confusão. Você quis ficar; sabendo que tudo que me trouxe de ruim o pior seria ficar sem você. E o que você fez? Ficou, voltou, se foi novamente… Em meios a propostas absurdas e mais mentiras me feriu outra vez, se atente: não estou para seu bel prazer, você me procura para preencher a sua necessidade e no vazio me deixa. Sabendo que podia ter tudo que te falta, preferiu o conforto de relacionamento assolado, mundano e espúrio – este que te desgasta, te limita, humilha e te fere, esse que em meu peito vem afagar. Não consigo compreender, está fora da minha capacidade, não importa o que me diga. No fim, me pergunto, “O que sou para você?”, e não consigo encontrar respostas, há momentos que acredito, há reconhecimento de verdades e afetos, reconheço que de tão verdade acredito, porém tudo vem a desabar, e quando o coração aceita, psicológico pira, não sei mesmo!

Enquanto o medo de voltar ao passado preenche sua cabeça, cegamente fica, não enxerga o que te ofereço. Vem me dê a mão, a gente agora já não tinha medo. [E] se te interessa o inverso do que tem, estou aqui, não faz parte de mim proporcionar vivências de dominação e trevas, só tenho a ofertar sorrisos bobos quando te vejo, brigas idiotas por não ter vindo me ver, pensamentos vagarosos em tardes de domingo, café da manhã com pão de queijo na segunda, a espera na semana para te ver sorrindo, para te ver cantando, abraços apertados em louvação ao sucesso, um afago quando algo não der certo, canções desafinas embalando olhares desconcertados, dancinhas ridículas para abrir seu sorriso, um corpo quente sobre o seu, um chão para amor urgente, mordidas que não precisam ser escondidas, felicidade em horinhas de descuido, um amor que gera um pouquinho de saúde, um descanso na loucura, grandes cartas cheias de bobagens que talvez nunca serão lindas…

Não me diga que eu amo a mim mais do que amo você, meu bem. Mas de fato as paixões são para si mesmo, não são para mais ninguém. O que não quer dizer, porém, que sozinho eu possa ser feliz… Pois então decore esse texto sob o pretexto de não parecer um ator. Na verdade, eu acho que amo você melhor que você mesmo. Eu fumo um cigarro, eu bato um carro, eu espero que você veja que eu não posso viver sob a mira eterna desses dois olhos frios. Olha o tempo passando, e a gente parado fazendo cena para o público rir. As paixões, meu amor, são tontas, são tantas. Chegou a conta, esteja pronto, aquele ponto em que tudo muda, não quero ser o último a chorar.

Eu sei que atrás deste universo de aparências, das diferenças todas, a esperança é preservada. Nas xícaras sujas de ontem o café de cada manhã é servido. Mas existe uma palavra que não suporto ouvir e dela não me conformo, eu acredito em tudo, mas eu quero você agora. Eu te amo pelas tuas faltas, pelo teu corpo marcado, pelas tuas cicatrizes, pelas tuas loucuras todas, minha vida. Eu amo as tuas mãos, mesmo que por causa delas eu não saiba o que fazer das minhas. Amo teu jogo triste, as tuas roupas sujas é aqui em casa que eu lavo. Eu amo a tua alegria, mesmo fora de si, eu te amo pela tua essência, até pelo que você poderia ter sido, se a maré das circunstâncias não tivesse te banhado nas águas do equívoco. Eu te amo nas horas infernais e na vida sem tempo, quando sozinho bordo mais uma toalha de fim de semana. Eu te amo pelas crianças e futuras rugas. Eu te amo pelas tuas ilusões perdidas e pelos teus sonhos. Amo teu sistema de vida e morte. Eu te amo pelo que se repete e que nunca é igual. Eu te amo pelas tuas entradas, saídas e bandeiras. Eu te amo desde os teus pés até o que te escapa. Eu te amo de alma para alma. E mais que as palavras, ainda que seja através delas que eu me defenda, quando digo que te amo mais que o silêncio dos momentos difíceis, quando o próprio amor vacila.

Odeio o modo como fala comigo. Odeio quando finge que está com raiva só para me ouvir a te chamar. Odeio o modo que me olha e odeio mais ainda quando vou dizer algo e o brilho dos teus olhos vem me calar. Odeio quando me deixa sem graça e como consegue ler minha mente, eu odeio tanto isso em você que até me sinto doente. Eu odeio quando diz que meu sorriso é lindo e quando me chama de amigo. Odeio o modo que toca o meu rosto e as suas brincadeiras quando falo sério. Odeio mais ainda quando me pede para não ir embora, eu odeio, pois, você sabe que eu não consigo. Eu te odeio pois você nunca disse te amo, mas nunca disse que não! Odeio o modo que sorri, é fascinante, eu fico sem rumo. Eu odeio quando me faz rir muito, mas mais quando me tira do sério. Eu odeio quando não está por perto e o fato de não me ligar. Eu odeio pensar em você o dia todo e não te encontrar. Eu odeio quando você diz que eu não resisto a você. Odeio quando me dá não razão e mais ainda quando me diz que não. Eu odeio essa sua cara lavada. Odeio quando diz que estava com saudades e odeio quando não vem me abraçar. Eu odeio te dar as mãos e ter que soltar.  Eu odeio não poder te ver todos os dias e te querer cada vez mais perto de mim. Mas eu odeio principalmente, não conseguir te odiar. Talvez, às vezes, só um pouco, por um instante, por um segundo. Te amo e te odeio em uma mesma oração!

Minha casa é onde apontam meus pés, ir e voltar tem a mesma facilidade para mim. Só depende de você, me tenha por completo ou me deixe ir, só não me machuque mais. Veja bem, nosso caso é uma porta entre aperta, e eu busquei a palavra mais certa, vê se entende meu grito de alerta.

E só vai saber para que serve o tempo quem se preocupa quando houver saudade, às vezes dói, como dói querer não sentir vontade. Futuramente a gente vai viver nossa eternidade, Nossa vida vai dizer o que mais importa e aí todo mundo vai saber que o amor convém. Deixa à distância e à saudade te mostrar o que realmente te importa, se reconheça e pare com autodesculpas, enganos e mentiras tão clichês que nem você mesmo acredita nelas, são lamaçais. É o fim daquele medo bobo, e por mais que eu te queira agora, respeito o tempo, sei que não é possível, mas quero tentar, tentar acreditar que futuramente seremos tão completos que seremos um, porquê é no futuro que mora nossos medos mais perfeitos e nossas melhores esperanças, não podemos se prender à toa por causa de uma outra pessoa.

Quem de nós dois vai dizer que é impossível? Por fim; você foi…”

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Desejo

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Pode alguém escrever poesia em prosa? Dizem alguns críticos e outros teóricos e os demais que os seguem, cegamente – perdão, a fonética trai-se às vezes. Dizem que pode. Será que pode mesmo? Em podendo, será que qualquer assunto é passível de ser prosaicamente poetizado? Ou, por outra, poeticamente proseado? Se por prosa se considerar apenas o papo de dois que, em nada mais encontrando o que fazer, olham para o horizonte e começam a falar… Começam a falar por falar, falar pra esvaziar a alma e o coração, para apaziguar o pensamento, para afugentar fantasmas – ou enfrentá-los, de frente (de novo, perdão pelo deslize fonético). Começam a falar. E do nada que falam, dizem tudo. Se não tudo, ao menos, mais do que cotidianamente se fala. Ainda que o cotidiano não escape a nada. Nada escapa do cotidiano. Nem ele mesmo. Ah… as palavras. E será, por fim, que nisso tudo de poder, alguém poderia escrever o desejo? Não escrever sobre o desejo. Não escrever a partir da ideia de desejo. Não representar o desejo em palavras, mas escrevê-lo. ESCREVR o desejo. Fórmula que me parece impossível, por isso mesmo desejada, ponto de fuga de toda poesia. Em qualquer língua, em qualquer circunstância, em qualquer tempo. Assim… simplesmente. Escrever o desejo. Alguém pode? Penso ter encontrado alguém que pode – no pretérito e no presente do indicativo. Alguém que escreveu o desejo. Alguém que escreve o desejo. Há de ter olhos de ver e ouvidos de ouvir. Caso contrário, o desejo escapa e vão ficas apenas as palavras. É ler pra perceber a serpente, o susto do pássaro que pula, o “drede”, o “desmisturado”, o “entreonde-os-campos”. O deslugar do trânsito e do movimento que dizem o desejo, escrito nas linhas de um livro. A expressão d’ “Aquilo me transformava, me fazia crescer dum modo, que doía e prazia”. A mudança, o passar do tempo que não se calcula. Há alguém que escreve e escreveu o desejo. O nome dele é João Guimarães Rosa. Vejam:

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“Os quem-quem, aos casais, corriam, catavam, permeio às reses, no liso do campo claro. Mas, nas árvores, pica-pau bate e grita. E escutei o barulho, vindo do dentro do mato, de um macuco – sempre solerte. Era mês de macuco ainda passear solitário – macho e fêmea desemparelhados, cada um por si. E o macuco vinha andando, sarandando, macucando: aquilo ele ciscava no chão, feito galinha de casa. Eu ri – “Vigia este, Diadorim!” – eu disse; pensei que Diadorim estivesse em voz de alcance. Ele não estava. O macuco me olhou, de cabecinha alta. Ele tinha vindo quase endireito em mim, por pouco entrou no rancho. Me olhou, rolou os olhos. Aquele pássaro procurava o quê? Vinha me pôr quebrantos. Eu podia dar nele um tiro certeiro. Mas retardei. Não dei. Peguei só num pé de espora, joguei no lado donde ele. Ele deu um susto, trazendo as asas para diante, feito quisesse esconder a cabeça, cambalhota fosse virar. Daí, caminhou primeiro até de costas, fugiu-se, entrou outra vez no mato, vero, foi caçar poleiro para o bom adormecer.

O nome de Diadorim, que eu tinha falado, permaneceu em mim. Me abracei com ele. Mel se sente é todo lambente – “Diadorim, meu amor…” Como era que eu podia dizer aquilo?

Explico ao senhor: como se drede fosse para eu não ter vergonha maior, o pensamento dele que em mim escorreu figurava diferente, um Diadorim assim meio singular, por fantasma, apartado completo do viver comum, desmisturado de todos, de todas as outras pessoas – como quando a chuva entreonde-os-campos. Um Diadorim só para mim. Tudo tem seus

mistérios. Eu não sabia. Mas, com minha mente, eu abraçava com meu corpo aquele  Diadorim-que não era de verdade. Não era? A ver que a gente não pode explicar essas coisas. Eu devia de ter principiado a pensar nele do jeito de que decerto cobra pensa: quando mais-olha para um passarinho pegar. Mas – de dentro de mim: uma serpente. Aquilo me transformava, me fazia crescer dum modo, que doía e prazia. Aquela hora, eu

pudesse morrer, não me importava.

O que sei, tinha sido o que foi: no durar daqueles antes meses, de estropelias e guerras, no meio de tantos jagunços, e quase sem espairecimento nenhum, o sentir tinha estado sempre em mim, mas amortecido, rebuçado. Eu tinha gostado em dormência de Diadorim, sem mais perceber, no fofo dum costume. Mas, agora, manava em hora, o claro que  rompia, rebentava.

Era e era. Sobrestive um momento, fechados os olhos, sufruía aquilo, com outras minhas forças. Daí, levantei.”

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Entre os dois, meu coração balança

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Dois verbos que, a princípio parecem antagônicos e excludentes: lembrar e esquecer. Mas só parecem. Na verdade, um não existe sem o outro, quando usados para expressar o que quer que seja, em uma oração, para expressar qualquer coisa. De fato, um não existe sem o outro. É só parar e pensar um pouquinho. O raciocínio pode até se assemelhar ao que se faz quando se tenta responder a uma pergunta, da mesa forma, aparentemente inócua e inútil: quem veio primeiro, ovo ou a galinha? Pois bem Quem ainda não experimentou a sensação de já ter estado em determinado lugar, inesperadamente e ter dito aquelas palavras, naquele horário, para aquela pessoa. Estranho. Estranho mesmo, mais ainda que o sentido desta palavra na lição de Freud. Nesta situação, a gente não sabe muito perceber se é memória ou outra coisa. Como a lembrança não é vívida, a experiência parece um tanto mágica, quase misteriosa. Mas simultaneamente, tem-se a certeza da repetição. Nesta situação, o sujeito pode parar e refletir sobre a experiência que viveu e há duas, no mínimo, possibilidades: ter-se equivocado e reportar a experiência ao acaso, à coincidência; constatar que se recorda de algo parecido, esquecido no tempo e que volta, por um motivo desconhecido, pela menos de sua consciência.

Há muita coisa sendo escrita na face da terra sobre os mais diversos tópicos. A famigerada “literatura de auto ajuda” consegue desfazer, de maneira questionável, alguns enigmas. A horizontalidade desse tipo de abordagem devolve a dúvida. Ao fim e ao cabo, não esclarece, não explica. O fato permanece intocável, creio, por força da superficialidade de argumentos, da generalização exagerada, da despreocupação com o rigor do pensamento. Tudo isso põe por terra qualquer tentativa minimante séria, o que faz com que referida “literatura” caia, cada vez mais aprofundadamente, no esquecimento. Sintomaticamente, isso faz lembrar da lição freudiana do chiste, ou mesmo, de seu voluptuoso conceito de inconsciente. Ambas as noções poderiam funcionar como esteio de um raciocínio que se desejasse um tanto ais espesso, mais complexo, por isso mesmo, mais esclarecedor. Entre estas duas possibilidades, vislumbro um caminho de esclarecimento – aquele que faz “lembrar” da quase “esquecida” mitologia, e duas de suas personagens: Mnemosyne e Léthe – que poderia ser apontado pelo seguinte:

“Entre as duas reinava uma resistência, uma discordância, uma discrepância, uma hiância ou um conflito primordial que, justamente por isso, apontava para um vínculo originário ou para a impossibilidade mesma de se pensar uma sem a outra, ou de se conceber uma sem, simultaneamente, deduzir que ambas se imbricavam, incluíam-se, completavam-se e, mutuamente, evocavam-se.” (p. 9)

 Mnemosyne e Léthe são duas entidades mitológicas. A primeira era uma titânide, filha de Urano e Gaia. É a deusa que personificava a memória. O segundo, um dos rios do Hades. Aqueles que bebessem de sua água ou, até mesmo, tocassem na sua água experimentariam o completo esquecimento. Como a mitologia faz parte dos fundamentos da cultura na qual nascemos e pela qual fomos educados, parece-me mais que pertinente a referência. O trecho citado é retirado de um livro mais que interessante: A memória, o esquecimento e o desejo (São Paulo, Ideias&Letras, 2016). Seu autor, Rogério Miranda de Almeida (dileto amigo a quem devo o início de meu interesse pela Literatura e os primeiros fundamentos daquilo que hoje chamo de sinceridade e de honestidade intelectuais).

Partindo de ideias já muito estudadas, o autor passeia pela cultura ocidental tendo como guia o conceito de “desejo”. Motor do mundo, esse conceito, de feição ambivalente – no sentido positivo do termo – dado que oriundo do pensamento de Freud e Lacan, o desejo é o combustível que queima as arestas que possivelmente poderiam subsistir no embate representado alegoricamente entre as duas entidades mitológicas. A Psicanálise é, em minha opinião, sua primeira ferramenta de trabalho. Ao lado de Freud, Nietzsche e Santo Agostinho são seus outros bastiões. Estas duas forças da natureza humana, o esquecer e o lembrar, são coo cavaleiros medievais em torneios disputando a honra da princesa, sombreada pelas artimanhas do desejo – aproveitando a saga de Artur e os cavaleiros da távola redonda. Minha referência aqui se deve à arguta aproximação que o autor faz dos conceitos com os quais opera. A acuidade na/da escolha do vocabulário, a refinada ironia no desdizer de ideias preconcebidas e conceituações equivocadas, porque superficiais, completam o menu discursivo explicitado ao longo das 243 páginas do livro, que se lê com prazer e deleite.

Partindo da pseudo dicotomia “lembrar/esquecer”, Rogério discorre sobre os mecanismos da memória, evocando a dinâmica dos sonhos e a potencia do recalcamento, ideias psicanalíticas fundamentais para esboçar o perímetro do campo que é abrangido pela aventura mental que se desenrola entre lembrar e esquecer. Estas atividades mentais guardam um ponto comum: a “potência do esquecer”, tópico central a orientar as elucubrações feitas a partir das ideias do pensador alemão, sobretudo quando destaca que “é o próprio esquecimento, e não a recordação de uma promessa, que faz com que se desenvolvam os conceitos básicos da civilização: a justiça, a liberdade e o direito.” Interessante perspectiva de leitura, a proposta de Rogério sai do lugar comum das ideias de Nietzsche as alarga, circunscrevendo-as ao movimento subliminar do desejo. De novo, o adjetivo aqui atribuído a desejo, requer atenção, pois não o dinamiza, mas o “potencializa”.

A articulação entre História e Filosofia se apresenta neste passo do ensaio que o autor apresenta para o prazer de quem à sua leitura se dedica. “Biscoito fino” para apropriar-me da ideia de Oswald de Andrade, o texto demonstra o cuidado com os termos, sua significação e etimologia, os reflexos disso na construção do discurso e o cirúrgico cuidado na leitura deste, para a sustentação dos argumentos que apresenta, em defesa de suas hipóteses. No horizonte de expectativas da articulação do pensamento nietzscheano, vislumbra-se a discussão de situações com a da sociedade e suas ideologias. Num segundo plano, o pensamento de Marx diz presente, sobretudo na constatação de levar em consideração a ideia de que tudo o que o homem “produz” é efeito da “cultura”, mas não aquela que se vende com propósitos alheios à sua genealogia, ou seja,

“… sob a pena do discípulo de Dioniso, as produções culturais – no seu movimento niilista de destruição e reconstrução – apresentam-se como um contínuo desfilar de máscaras, ídolos, ideais, juízos e tábuas de valores. Esta é uma das razões pelas quais muito estudiosos têm relacionado Nietzsche com Marx e Freud quanto a saber até que ponto as produções culturais estariam intrinsecamente ligadas a interesses, seja de indivíduos, grupos ou classes.” (p. 116)

Passando de mera consequência, o dueto lembrar/esquecer demonstra certa autonomia em suas articulações, dada sua natureza dinâmica – porque oriunda do desejo – e a explicitação prática de seus efeitos – por conta de sua potência. Assim, faltaria ainda um aspecto para que o tripé não ficasse manco: o amor. Neste sentido, o recurso ao pensamento de Santo Agostinho se apresenta em toda a sua pujança. Auferindo os resultados das artimanhas desejo, na explicitação de uma potência criativa, os movimentos de lembrar e esquecer demandam também os afetos do espírito. A eles pode-se dar o nome de amor.

Raciocínio refinado, acuidade na escolha das palavras, sofisticada ironia. Três particularidades do texto de Rogério Miranda de Almeida. Sem se furtar ao rigoroso apanhado filosófico dos conceitos, o autor desliza leve e macio pelos meandros discursivos de seu raciocínio claro. Não é leitura para iniciantes. Da mesma forma, não se trata de tratado que esgota o assunto. Na aparente dicotomia que estes dois traços inauguram, ecoa um símile daquela que dá início a esta apresentação. Da mesma forma que nos outros volumes que escreveu e publicou, Rogério Miranda de Almeida seduz e conquista o leitor pela inteligência. Isso tem se tornado raridade. Fica o convite!!!

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Domingo inteligente

Fui pego de surpresa e me agradou muitíssimo ver este vídeo até o fim! Vale a pena! Acresce a admiração e a saudade de Rogério Miranda de Almeida, a pessoa responsável por muito do que aprendi a gostar em literatura, sobretudo Graciliano Ramos. Um homem inteligente, perspicaz, sarcástico e divertido. Dele já li dois livros. Há um outro que está na lista e, pela entrevista, fiquei a saber de um quarto que está para sair. Foi uma delícia ouvi-lo. Bateu uma saudade… fomos colegas no noviciado da Companhia de Jesus entre 1977 e 1978, quando lá estive.  Sinto-me honrado em ser amigo dele.

Aproveite!

LET 877 – 6

Pra começar, vamos retomar dois trechos, um de cada conto, a saber:

1. “O corpo”, Clarice Lispector

“Xavier chegou com uma fome que não acabava mais. E abriu uma garrafa de champanha. Estava em pleno vigor. Conversou animadamente com as duas, contou-lhes que a indústria farmacêutica que lhe pertencia ia bem de finanças. E propôs às duas irem os três a Montevidéu, para um hotel de luxo. Foi uma tal azáfama a preparação das três malas. Carmem levou toda a sua complicada maquilagem.
Beatriz saiu e comprou uma minissaia. Foram de avião. Sentaram-se em banco de três lugares: ele no meio das duas. Em Montevidéu compraram tudo o que quiseram. Inclusive uma máquina de costura para Beatriz e uma máquina de escrever que Carmem quis para aprender a manipula-la. Na verdade não precisava de nada, era uma pobre desgraçada. Mantinha um diário: anotava nas páginas do grosso caderno encadernado de vermelho as datas em que Xavier a procurava. Dava o diário a Beatriz para ler.
Em Montevidéu compraram um livro de receitas culinárias. Só que era em francês e elas nada entendiam. As palavras mais pareciam palavrões. Então compraram um receituário em castelhano. E se esmeraram nos molhos e nas sopas. Aprenderam a fazer rosbife. Xavier engordou três quilos e sua força de touro acresceu-se.
Às vezes as duas se deitavam na cama. Longo era o dia. E, apesar de não serem homossexuais, se excitavam uma à outra e faziam amor. Amor triste. Um dia contaram esse fato a Xavier. Xavier vibrou. E quis que nessa noite as duas se amassem na frente dele. Mas, assim encomendado, terminou tudo em nada. As duas choraram e Xavier encolerizou-se danadamente.”

2. “Aqueles dois”, Caio Fernando Abreu

“Os fins de semana tornaram-se tão longos que um dia, no meio de um papo qualquer, Raul deu a Saul o número de seu telefone, alguma coisa que você precisar, se ficar doente, a gente nunca sabe. Domingo depois do almoço, Saul telefonou só para saber o que o outro estava fazendo, e visitou-o, e jantaram juntos a comidinha mineira que a empregada deixara pronta sábado. Foi dessa vez que, ácidos e unidos, falaram no tal deserto, nas tais almas. Há quase seis meses se conheciam. Saul deu-se bem com Carlos Gardel, que ensaiou um canto tímido ao cair da noite. Mas quem cantou foi Raul: Perfídia, La Barca e, a pedido de Saul, outra vez, duas vezes, Tú Me Acostumbraste. Saul gostava principalmente daquele pedacinho assim sutil llegaste a mí como una tentación llenando de inquietud mi corazón. Jogaram algumas partidas de buraco e, por volta das nove, Saul se foi.
Na segunda, não trocaram uma palavra sobre o dia anterior. Mas falaram mais que nunca, e muitas vezes foram ao café. As moças em volta espiavam, às vezes cochichando sem que eles percebessem. Nessa semana, pela primeira vez almoçaram juntos na pensão de Saul, que quis subir ao quarto para mostrar os desenhos, visitas proibidas à noite, mas faltavam cinco para as duas e o relógio de ponto era implacável. Saíam e voltavam juntos, desde então, geralmente muito alegres. Pouco tempo depois, com pretexto de assistir a Vagas Estrelas da Ursa na televisão de Saul, Raul entrou escondido na pensão, uma garrafa de conhaque no bolso interno do paletó. Sentados no chão, costas apoiadas na cama estreita, quase não prestaram atenção no filme. Não paravam de falar. Cantarolando Io Che Non Vivo, Raul viu os desenhos, olhando longamente a reprodução de Van Gogh, depois perguntou como Saul conseguia viver naquele quartinho tão pequeno. Parecia sinceramente preocupado. Não é triste? perguntou. Saul sorriu forte: a gente acostuma.”

Creio não ser surpresa dizer que o “desejo” é o conceito-chave na/da leitura de ambas as narrativas curtas. mesmo que você não tenha lido todos os textos de apoio, vou propor o seguinte: veja no dicionário o verbete “desejo” e tente comentar alguma coisa que seja possível articular entre a leitura dos dois contos e as acepções do verbete.

Uma segunda provocação, pra tentar fazer você comentar é a seguinte:

no conto de Clarice, duas mulheres

no conto de Caio, dois homens

no conto de Clarice, a comida

no conto de Caio, a música

Isso faz algum sentido? Se faz, como você veria uma abordagem comparatista entre os dois textos. Apenas indique a(s) possibilidade(s), não é necessário desenvolver a abordagem aqui, agora… Boa leitura!