Retomada

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Semana truncada, para não dizer complicada. Feriado atravessado – com perdão da rima paupérrima. Dispepsia intestinal. Mais preguiça, muita preguiça. Notícias não muito alvissareiras de longe, do litoral. Mais uma semana, em nada e por nada, igual às outras, em que pese o fato de ser exatamente igual às outras. Vai entender. Por isso o silêncio, a ausência, as páginas diárias em branco. O ensaio interrompido do diário. Mas muito pouca gente se importa. E isso basta.

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Pois é assim. As meninas se viram pra sobreviver. Do melhor jeito que podem e sabem. E vão vivendo. Mas aí o rapazinho metido e abelhudo, com cara de bom moço, sorriso matreiro e oportunista se mete, se auto convida, se promove. E fala e seduz e adula e faz o jogo que o mainstream elege como o correto, o certo, o legal, o que dá lucro, o que leva ao sucesso, à celebridade. Pobres meninas. São analisadas, julgadas, reviradas, criticadas, “orientadas”. A pseudo “banca” de experts – como se o sucesso de um fosse igual ao acesso do outro, mesmo com a mesma metodologia, são sujeitos diferentes, desiguais individualidades. Não adianta. Os mass media não aceitam exceções, impõem regras e quem quiser que se submeta, mesmo sem ter a mínima ideia do preço a pagar. Depois. E lã vão as meninas, nervosas, angustiadas. E o mocinho, com o mesmo sorrisinho cínico – com a devida vênia aos filósofos – instiga a ansiedade, o medo, o temor e ainda debocha, dizendo que vão aparecer. Populismo em sua mais execrável perversidade. Mas sou um chato.

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Resolvi que, por algum tempo, vou colocar aqui algumas das monografias que escrevei há 32 anos. Trabalhos finais das disciplinas do mestrado na Unb. Tive a ideia de fazer um livro introdutório à Literatura Comparada com o conjunto desses textos. Fui dissuadido pelo tempo, os afazeres e a íntima certeza, quase absoluta de que o volume seria apenas mais uma ganhar poeira em alguma estante perdida pelo planeta. Na época, era essa a imagem. Hoje se fala em ebook, como se fosse um avanço imenso. Bem, por um lado, é mesmo. Mas só por um lado. Desisti. Agora, remexendo papeis velhos para uma faxina, encontro o conjunto e começo a reler. Fico admirado. Algumas intuições já estavam lá. O cuidado com a forma do discurso também. O respeito a certas medidas iniciais do protocolo “acadêmico”, da mesma forma. Fiquei feliz. Resolvi que uma vez por semana vou coloca-los aqui. Pretendo fazê-lo uma vez por semana, pra aliviar a presumida obrigação de escrever todos os dias. Pode ser que acabem por ter o mesmo destino que os idealizados volumes aludidos. Não importa. Foi em quem os escreveu e tenho muito orgulho de tê-lo feito. Ainda que continue sendo um chato. Aguardem…

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Outro trecho

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“De repente, a sensação é, ao mesmo tempo, de déjà vu e de falta de qualquer perspectiva. O jeito se senta para ler. O sujeito se senta para ler para se preparar para um outro momento. O sujeito se senta para ler, para se preparar para um outro momento, que ele sabe não vai acontecer como imaginado. A imaginação é traidora. Mais traidora que a mulher/o homem adúltero/adúltera. Essa traição é fácil de digerir, simples de entender, se comparada com a outra. A do sujeito que se põe a ler para se preparar para um momento que ele sabe, de antemão, que não vai se dar do modo como ele imagina. De novo, o mesmo nó de Moebius. É como quando você se depara com camadas de personalidade ainda não reveladas. De repente, como num susto – o espanto de Platão não pode ser descartado aqui! –, alguma coisa que jamais foi imaginada se manifesta. Alguém, em quem o sujeito confia, a quem o mesmo sujeito admira, de quem o sujeito gosta, fala alguma coisa que não se encaixa. E você fica imaginando – cuidado com a traição! – que aquilo não pode ser. Que toda a gente já sabia, menos você mesmo. O quê? Não vai mais fazer o que vinha fazendo? Retirou-se completamente de qualquer situação de supervisão ou participação em decisões importantes? Nega e aos seus a ação de passar a noite cuidando, vigiando, monitorando como já vinha, há tempos, fazendo? Por quê? Ah… sei! Olha aqui, você tem que se lembrar que em certas circunstâncias, com este conjunto de variáveis, em função do processo de deterioração que é de conhecimento público, o que se disse tem que ser relativizado. Se cada palavra for tomada ao pé da letra… ih… então a coisa pode ficar complicada. Pode não. Fica. Irrevogavelmente. É uma questão de lógica e bom senso. Nem mesmo o cheiro de laranja madura que vem no colo da brisa quente, não amenizando a canícula que oprime nestes meses, pois é, nem mesmo o cheiro refrescante de laranjas maduras. Nem ele…”

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Seguindo a mesma “onda” de ontem, vai aí mais um trecho do tal diário (quem não leu a postagem de ontem não vai saber do que estou falando!). Valeu a intenção. Não sei porque, mas este trecho fez-me pensar num poema do Drummond que segue abaixo:

Procura da PoesiaNão faças versos sobre acontecimentos.
Não há criação nem morte perante a poesia.
Diante dela, a vida é um sol estático,
não aquece nem ilumina.
As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam.
Não faças poesia com o corpo,
esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à efusão lírica.

Tua gota de bile, tua careta de gozo ou dor no escuro
são indiferentes.
Não me reveles teus sentimentos,
que se prevalecem de equívoco e tentam a longa viagem.
O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.

Não cantes tua cidade, deixa-a em paz.
O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo das casas.
Não é música ouvida de passagem, rumor do mar nas ruas junto à linha de espuma.

O canto não é a natureza
nem os homens em sociedade.
Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança nada significam.
A poesia (não tires poesia das coisas)
elide sujeito e objeto.

Não dramatizes, não invoques,
não indagues. Não percas tempo em mentir.
Não te aborreças.
Teu iate de marfim, teu sapato de diamante,
vossas mazurcas e abusões, vossos esqueletos de família
desaparecem na curva do tempo, é algo imprestável.

Não recomponhas
tua sepultada e merencória infância.
Não osciles entre o espelho e a
memória em dissipação.
Que se dissipou, não era poesia.
Que se partiu, cristal não era.

Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.

Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência, se obscuros. Calma, se te provocam.
Espera que cada um se realize e consume
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.
Não forces o poema a desprender-se do limbo.
Não colhas no chão o poema que se perdeu.
Não adules o poema. Aceita-o
como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada
no espaço.

Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível que lhe deres:
Trouxeste a chave?

Repara:
ermas de melodia e conceito
elas se refugiaram na noite, as palavras.
Ainda úmidas e impregnadas de sono,
rolam num rio difícil e se transformam em desprezo.

Trecho

Resolvi colocar aqui um trecho de um diário escrito por uma personagem de romance. Nada mais digo. Sem referências de título de obra ou de autor. Apenas o trecho do diário, escrito por uma personagem de ficção…

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“E, de repente, assim como não quer nada, o sujeito se vê diante de um caneco de Budweiser, servido da garrafa de 600 ml, uma das três que ele vai tomar. Diuturnamente, isso acontece. Sempre aos finais de semana. Raramente, no meio da semana: afinal os dias são chamados de úteis… Mas beber, à toa, também suas utilidades. Não cave aqui enumerá-las, como se uma taxonomia fosse… Mas que é útil, ah… isso, de certeza que é… Vai tudo bem até que começam a pipocar as ideias. Aquelas que aparecem sem convite ou convocação. Estas, as duas únicas possibilidades de aparecimento desse ser estranho, intraduzível, às vezes, em palavras, as ideias. Mormente, quando as ideias giram em torno da situação de um idoso. Um idoso muito querido. Um idoso muito querido que até outro dia estava muito bem. Um idoso muito querido, que até outro dia estava muito bem, mas que por força da visita inesperada caiu em desassossego. De um desassossego incurável, incontornável, porque causado por aquela visita anunciada. Anunciadamente nefasta e pouco querida. O oposto do idoso mito querido que até outro dia estava bem. A visita não quis se dar conta do despropósito de seu ato: a visita. Sob o falso pressuposto de que poderia vir a ser apreciada, a visita, quem visitou não se deu conta do contrário. Sim, contrário porque houve ali, para acontecer a visita, uma agregação. Não havia ali, no ambiente que criou a oportunidade da visita, um laço de sangue. E a ausência deste laço é tudo. Foi tudo. Tudo o que transtornou o idoso muito querido. O tempo passa e quem visita não se quer dar conta de sua própria inapropriação da oportunidade. Se, ao menos, quem visita ficasse em silencia, em lugar de deixar escapar pela bocarra uma quantidade inumerável de impropriedades. Impropriedades que abalaram a tranquilidade do idoso muito querido. Uma visita inesperada que se fez, uma vez mais, indesejada, Que não volte mais! Agora, no lugar do silêncio, um burburinho. Um burburinho alto e incômodo. Um burburinho, alto e incômodo, que fala alto da situação insustentável. E, de novo, isso atinge em cheio ao idoso muito querido. Este pode ser homem ou mulher. Não interessa. Não importa. O que importa, o que vale a pena, o que está em conta, é a certeza de que não mais haverá a oportunidade de se ver o idoso muito querido como antes era visto. E não é por falta de vontade. Longe disso. Há algo de natural nisso tudo. Mas essa natureza poderia ser menos cruel, poderia levar quem visita a evitar sua própria visita. Podias levar quem visita a não mais pensar em fazer a visita, para o bem de todos. De todos e, sobremaneira, do idoso muito querido. É isso. Outra garrafa de Budweiser de 600 ml foi aberta. Mais uma…”

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Diário Coimbrão 2

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E não é que, do nada, eu descubro que, há exatos 14 anos, estive pela primeira vez aqui neste lugar! Sim. Foi em 2000. Eu ainda ficava cismando se o mundo ia mesmo se acabar. O Hotel Meliá é perto de onde estou morando, voltei a alguns lugares que conheci então. Foi para um congresso acerca de Eça de Queiroz. Apresentei um a comunicação. Saí pra tomar vinho do Porto com a Mônica Figueiredo à beira do Mondego. Hoje, o local em que estivemos está mudando. É um parque do tipo desses que andam grassando por aí, estiloso, modernete, mas muito agradável. Da primeira ez, era apenas um conjunto de mesas, ao longo da margem de cá do Mondego. Na margem de lá, o Solar das Lágrimas. Ou a Quinta das Lágrimas. Sempre fico na dúvida. O local é mítico: cenário da execução de Inês de Castro. Sim, ela foi executada pelo então sogro… Coisas de tragédia. Camões eternizou na epopeia, Mário Cláudio reescreveu brilhante, impecável, sublimemente o entrecho. Influência estelar na Literatura Portuguesa. Estava lá, está lá, do outro lado do Mondego. E ainda me emociono.

O Café Briosa, a Livraria Bertrand, o arco de Al Medina (entrada para a “cidade monumental” – tenho que subir aquelas ladeiras a procurar o restaurante em que comi sardinhas com batatas ao murro, mas tenho que me cuidar por conta dos triglicerídeos…). O largo de Santa Cruz, a Câmara Municipal, a igreja e São Tiago de um lado e a de São Bartolomeu do outro. As ruas da “baixa”. Na Rua da Sofia, encontrei o restaurantezinho simpático, de comida deliciosa em que jantei com Ana Paula – não a de agora, a que vai supervisionar meu estágio, mas a outra, a que se foi para a terra de Tio Sam. Quem duvida da cozinha portuguesa não sabe o que é pecar pela gula… e não se sentir culpado, mas feliz, realizado, quase saciado… uma delícia! O restaurante está lá, fechado, por conta das “obras do metro”, diz o cartaz. As vielas medievais da baixa. Ai meu Deus, como não gostar desse lugar de gente simples e acolhedora… e no inverno.

Os dias passam. Já se foram quatro desde que cheguei. A intensidade das recordações vai à enésima potência. A cada curva dos ônibus, a renovação da surpresa de entrever um ângulo conhecido, que ficou na sombra da memória. Mas não é a isto mesmo que se pode chamar e viver?

memórias

Diário Coimbrão 1

 

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A ideia é retomar a escrita de alguma coisa que sempre se faz urgente, mas sempre escapa… Dia sim, dia não, o tempo passa e muitas páginas ficaram em branco. De repente, depois de muito esperar, o avião cruza o Atlântico e aterra na capital portuguesa, numa manhã quente de greve dos funcionários de cabine da TAP. Miríades de aviões estacionados, um engarrafamento alado… Nada atrapalhou a tranquilidade e a delícia de ser bem servido à bordo… Cheguei. De imediato, para a estação rodoviária lisboeta e de lá para A antiga Cunimbriga. Hoje Coimbra. Bela, charmosa, bucólica Coimbra, esparramada nas duas margens do Mondego. Ai que rio mais lindo. Deve ser por conta dele que o episódio de Inês de Castro, na pena de Camões, tornou-se um ícone!

O apErtamento é legal. Limpo e mais ou menos claro. Mais claro que o muquifo que habitei por longos dois anos e meio lá em Marilama, de onde vou ficar afastado até o meio de Setembro de 2015. Com a graça de Deus e o meu esforço! (as fotos mostram o dito cujo).

Na FLUC (sigla de Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra) do alto vetusto da colina em que se posta, quadrada, imensa, sólida e senhoril… fui muito bem recebido. Primeiro pela supervisora, depois pelas secretárias da direção e, por fim, por um dos diretores da pós-graduação de lá. Na verdade, de um dos programas de pós-graduação. São vários, em áreas afins e amplas. Nada parecido com os programinhas tupiniquins. Mas dizem que nós, os brasileiros, em certo sentido, estamos mais adiantados. Bem, a opinião ainda é livre e não se paga imposto para/por tê-la… Até de um gabinete no sótão desse edifício eu sou merecedor… Agora é começar a cata às cartas e tentar manter em dia o diário que, na verdade, não tem a menor necessidade (ou possibilidade – afinal, nem tudo é digno de nota no dia a dia…) de ser mesmo “diário”… Vai vendo…

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