Aves, insetos e letras

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Já faz um tempo, recebi uma mensagem de correio eletrônico de uma amiga de Niterói. Ela perguntava se podia eu substituir um outro colega na redação de uma recensão de um livro de poesia recentemente lançado no Brasil. A recensão seria publicada na prestigiada revista Colóquio Letras, de Lisboa, sob a tutela da não menos prestigiosa Fundação Calouste Gulbenkian. Aceitei. Mais alguns dias e recebi outra mensagem, desta feita do autor do livro, Carlos Nejar, para pedir meu endereço postal para o envio do livro que recebi autografado: uma honra. O terceiro contato foi da responsável pela edição, uma senhora, a princípio, muito educada. O bom senso me leva a não citar seu nome, por decoro. Fiz a recensão e enviei ao autor que se sentiu honrado. O livro, Odysseus, o velho (2010). Uma leitura delicada e instigante do retorno do herói, na perspectiva da epopeia clássica. Aí começou o inferno ou, antes, uma das manifestações do que quer que seja o inferno. O texto foi e voltou três vezes. A editora chefe devolveu, por primeiro, afirmando que o texto estava muito opinativo, muito pessoal. Da segunda vez, depois que submeti o texto a um tratamento mais “objetivo” – alguém na face da terra é capaz de definir o que é isso… eu sou incapaz… – foi devolvido, dizendo que não alcançava o seu objetivo. Uma terceira vez ele foi reenviado e igualmente devolvido, desta feita, sob a chancela de impróprio para a publicação por não e tratar de uma recensão. Enviei todas as mensagens ao autor que, enraivecido, escreveu dizendo da impropriedade – tento, aqui e assim, sintetizar a caudalosa sequência de críticas feitas pelos poetas – dos “pareceres” de tão prestimosa revista. Não contente, o poeta escreveu para Portugal, desancando a revista em função de sua resistência à minha recensão, e proibindo a publicação de qualquer outra sobre este seu livro. Ouvi, da amiga que por primeiro me convidou a observação me criticando por ter provocado esta situação. Por ironia do destino, quase cruzei com a dita editora portuguesa, em Lisboa, na sede da Fundação, por conta de um congresso do qual ambos participávamos. Cheguei ao balcão de vendas de livros, segundos depois que ela de lá saíra. Creio que cheguei a cruzar com ela sem saber que dela se tratava… Ainda bem!

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Pois muito bem. Esta história vem a lume por conta do imenso prazer que me causou a leitura de um livro para mim enviado por seu autor, o Dirceu Magri. O livro se intitula De borboletas e colibris em sobrevoo: presença francesa nas crônicas machadianas. Livro corajoso, sobretudo, pela escolha de seu corpus: o volátil texto da crônica. O adjetivo aqui não é pejorativo. Antes, aponta para a natureza do gênero que ainda carece de certa “definição”, ainda que eu continue questionando a necessidade disso. A crônica é gênero sagaz por natureza. Como a água, não se deixa conter facilmente. O fascínio que causa em seu leitor particular o autor do livro que li, faz com que o seu próprio texto também acompanhe essa peculiaridade. Uma escrita leve, fácil, escorreita, cristalina que passeia com altivez e prazer entre o texto das crônicas de Machado de Assis e o pensamento dos autores franceses pelo autor considerados. Uma delícia a análise que faz da crônica publicada em A Semana, a 5 de agosto de 1894. Esta análise, na leitura que fiz do livro, serve de trampolim bem balanceado para o passeio que Dirceu empreende, pelas veredas da estética da recepção – mesmo que consideravelmente implícita –, no intuito de mapear as fontes e as influências que podem ser percebidas quando da abordagem comparativa dos textos de Machado de Assis e o que dizem os autores franceses em seu pensamento. A estrutura dos livros se faz a partir do nome dos pensadores escolhidos: Voltaire, Rousseau e Diderot. Os três primeiros capítulos ensejam uma abordagem teórico-crítica do gênero, fazendo o desenho contextual do conceito, algo próximo do exercício filosófico de Foucault, sobretudo em As palavras e as coisas. Segue um capítulo sobre o século XVIII, apresentado como seara onde vicejaram as ideias que, inúmeras vezes influenciaram o escritor brasileiro. A “ata finda” do livro retoma a visada do século XVIII ponto de fuga da argumentação sagaz, divertida e sofisticada de Dirceu Magri. Manda o protocolo que se aponte defeitos. Isso é muito chato. Mais chato ainda quando tais defeitos não se apresentam. Antes de mais nada, é imprescindível definir “defeito” para só depois utilizar o conceito, o tópico, a variável, na análise do corpus que se apresenta. Claro está que o livro de Dirceu Magri não é perfeito, pelo simples fato de que perfeição não existe. Assim sendo, cumpre-me dizer que não encontre qualquer resquício de defeito ou problema. Talvez um incômodo aqui e ali, do tipo que se faz perceber, mas não interfere, não compromete. O livro de Dirceu Magri cumpre o que promete. E o faz com graça e elegância, o que se pode perceber já no título da obra, tópico retomado na parte final do livro. As borboletas – que não denegam sua origem de pulpa – e os colibris que se sustentam no ar como por mágica ilustram de maneira leve e graciosa – bem ao gosto do século XVIII – o pensamento arguto, sagaz e divertido de Dirceu Magri. Uma leitura inolvidável!

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