Retorno

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Faz algum tempo, numa aula sobre Eça de Queirós (ou será Queiroz?) comecei a falar sobre uma leitura comparativa que eu tinha feito entre dois textos do autor português – A cidade e as serras e “Civilização” – a partir do fato de que primeiro poderia ser  lido como um desenvolvimento do segundo. Neste sentido, a conclusão do enredo, em ambos poderia apontar para cartas dose de contradição no discurso ficcional de Eça. Foi quando este aluno, Emmanuel Santiago – hoje doutor em Literatura Brasileira – pediu a palavra e começou a falar. Cruzei os braços e escutei. Quase uma hora de observações pertinentes, brilhantes, instigantes e muito vivazes. Fiquei impressionado, tanto que escrevi uma comunicação para apresentar num congresso e depois o publiquei, como artigo. Segue a primeira versão, a do congresso, com, mais, uma vez, meus cumprimentos admirados pelo brilhantismo desse sujeito mais que inteligente, o Emmanuel.

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Entre o campo e a cidade: ou, de uma sabedoria desconhecida

 Será isso a sabedoria? Escrever eruditamente sobre alguns autores bem selecionados, de um passado longínquo ou mais próximo, que chegaram até nós duvidosamente autênticos após séculos de releitura e desgaste, (o que terá sido autêntico?) e sobre os quais já há pouco a dizer de original ou de diferente. Será isso a sabedoria que nos falta, quando nem sequer sabemos por que gostamos do que não gostamos, por que reduzimos a lixo tudo o que tocamos, por que dilapidamos todo o nosso esforço para sobreviver, pagando contas nos supermercados globalizados, de artigos horríveis e utilidade duvidosa… Será isso a sabedoria?

Toda a grande literatura do passado e até do presente será realmente mais valiosa que um detergente para lavar roupa com grânulos azuis, com ante ermes, com aditivos para avivar as cores e amaciantes para agradar à pele e perfumes para o prazer do nariz, que deve ser usado numa máquina com telecomando? Será isso a sabedoria que os gregos  não tiveram nem imaginaram?

Ponho de lado uma elegante caneta branca, de bom design, barata e descartável, mas penso numa barroca pena de pato, bem afiada e preparada para escrever, ou numa cânula em bizel para gravar no barro macio os caracteres cuneiformes. Que ganho eu com isso, além duma lembrança do que não vi? Será isso a sabedoria?

E.M.de Melo e Castro, Politicamente correto, Discutindo literatura, ano 1, n.2, São Paulo, 2005, p.18.

A intenção inicial deste trabalho é proceder a uma leitura comparativa entre dois textos de Eça de Queiroz: “Civilização” e A cidade e as serras. A leitura comparativa teria como ponto de fuga a Adicionar ao dicionário do narrador em ambos os textos. Este aspecto, ainda que porventura muito veiculado por outras leituras igualmente comparativas, constitui, a meu ver, um ponto de articulação interessante para a discussão de um certo contexto cultural da terra lusitana: o que se instaura nas letras portuguesas, a partir dos “efeitos” do pensamento e da ação da geração de 70. Neste sentido, haveria a possibilidade de se reler as duas narrativas, como espaço de articulação de discursos que, por força da atuação do narrador, acabam por se confrontar e estabelecer uma rede de indefinições e, por que não, contradições, nas interpretações mais corriqueiras do texto do conjunto de obra de Eça.

Ainda que partindo de pressupostos já visitados e operacionalizados, a leitura aqui pretendida ousa anunciar um horizonte de expectativas um tanto mais alargado. Este, na economia da narrativa realista do autor português, interfere em sua fortuna crítica de maneira a questionar os pressupostos político-ideológicos por detrás do discurso ficcional. Isto, num sentido muito particular: o de colocar em questão a afirmação de um processo de (re)valorização da terra, como uma saída para os impasses que a Modernidade começava a apresentar para a cultura portuguesa, à altura da publicação dos dois textos aqui epigrafados.

No entanto, problemas que fugiram a meu controle, impediram-me de proceder à comparação como idealizada. De fato, o que vai aqui explicitado é apenas uma primeira parte do trajeto esboçado em projeto, quando da ideia de escrever este texto. De qualquer maneira, este pequeno trecho da comparação já aponta para as principais redes axiomáticas da leitura pretendida. É, ao fim e ao cabo, um exercício de leitura do trecho do celebrado autor português que, sem querer me demorar, causa coceiras no cérebro de quem se põe a deslizar a vista sobre suas linhas. Acrescento, ainda, aqui, que a versão dos textos que aqui compulso fazem parte do primeiro volume das Obras de Eça de Queiroz, coleção editada por Lello & Irmão, editores; na cidade do Porto, sem  a indicação da data.

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Foi numa quinta-feira, durante os dois primeiros horários de aula. Não fazia frio nem calor. Os alunos estavam costumeiramente desinteressados e a conversa girava em torno da obra de Eça de Queirós. O tópico específico tratava da relação da obra deste escritor com a História portuguesa, marcada, naquele século 19, pela Questão Coimbrã. Não havia como despertar mais interesse que o costumeiro. Vá lá. Lembrei-me então de uma observação alheia, que dizia da minha incapacidade de lecionar Literatura Portuguesa, pelo simples fato de que eu gosto de usar vírgulas, em abundância. Dei tratos à bola e comecei a falar de proximidades e distâncias no contexto de um conto de Eça: “Civilização”. O que alimentava a minha falação naquele momento era, exatamente, o fato de que o texto do conto apresenta apenas “parte” de relato que seria desenvolvido num texto mais longo. Este fato, complexo e rico de detalhes, deixava aberta uma brecha por onde um dos alunos, inesperadamente, penetrou. Quando foi comentado o final da narrativa, o estudante levantava a hipótese de que todo um discurso “revolucionário”, desenvolvido pelo ficcionista português no texto do conto, podia ressumar uma ideologia passadista, para não dizer saudosista, o que faria do tópico uma fonte de mais dissensão.

O fato aqui é que a abordagem do estudante não deixa de transpirar coerência e interesse. Ele dizia que por Jacinto permanecer nas serras, deixando abismado o amigo José Fernandes – por conta de sua mudança de comportamento e de compreensão do mundo –, o leitor poderia ser levado a concluir que se tratava de uma narrativa que celebrava o “retorno” à terra, a volta dos valores campesinos, tão causticamente ironizados pelo mesmo escritor de O primo Basílio e A ilustre casa de Ramires. O que dizer acerca disso? Fiquei prestando atenção, enquanto o estudante falava, e, de repente, me dei conta de que tudo isso não passa de especulação, não a especulação gratuita e superficial, mas uma outra, que chega a levar o leitor a imaginar a possibilidade de deslindar um mistério, ou encontrar um ponto de fuga definitivo. Fiquei prestando atenção, enquanto tentava organizar as idéias ouvidas, em diálogo, nem sempre surdo, com as minhas, com o intuito incontornável de deixar o raciocínio suficientemente armado e livre para prosseguir com a proposta de discussão.

Antes de tratar da atualidade dessa novela, entretanto, talvez valesse a pena situá-la melhor no seu contexto de origem. Para tanto, seria necessário observar que, para além de uma tipologia em que se polarizassem a cidade e o campo, esta obra nos apresentaria uma discussão sobre as possibilidades de um direcionamento para a sociedade burguesa, em que o valor supremo é o dinheiro e tudo o que ele pode comprar. Uma solução finissecular foi o Decadentismo. Isso pode ser percebido quando se lê em certas narrativas de então, uma recusa à vida em sociedade, na tentativa de criar um mundo à parte, regido pela estética e pelo gosto mais refinado: a casa de Jacinto é um exemplo:

Nesse palácio (floridamente chamado o Jasmineiro) que seu pai, também Jacinto, construíra sobre uma honesta casa do século XVII, assoalhada a pinho e branqueada a cal – existia, creio eu, tudo quanto para bem do espírito ou da matéria os homens têm criado, através da incerteza e dor, desde que abandonaram o vale feliz de Septa-Sindu, a Terra das Água Fáceis, o doce país ariano. (p.744)

A casa constitui um ambiente controlado, em que tudo caminha na direção seguida pelo espírito burguês, mantendo o sujeito português preservado de qualquer contato com a vida social e com as formas comuns de sentir e de agir. Ora, em “Civilização”, o protagonista é um dândi, um homem rico, que decide criar, numa casa, um ambiente muito diferenciado. Entretanto, seu caminho não é o isolamento, mas a integração. Assim, Jacinto busca integrar-se completamente no novo mundo burguês, financista e industrial, por intermédio do culto da informação e da técnica modernas. Na mesma medida, ele, por algum tempo, pensará que é pela ciência e pela tecnologia que poderá potencializar mais as suas faculdades espirituais. Jacinto, depois de adquirir todas as novidades do conhecimento e da tecnologia, termina por ficar completamente inapetente – fracassa na consecução do seu objetivo:

Quando Jacinto acabava de se enxugar laboriosamente a toalhas de felpo, de linho, de corda entrançada (para restabelecer a circulação), de seda frouxa (para lustrar a pele) bocejava, com um bocejo cavo e lento.

E era este bocejo, perpétuo e vago, que nos inquietava a nós, seus amigos e filósofos. Que faltava a este homem excelente? (…) E todavia bocejava constantemente, palpava na face com os dedos finos, a palidez e as rugas. Aos trinta anos Jacinto corcovava, como sob um fardo injusto! (…) Era doloroso testemunhar o fastio com que ele, para apontar um endereço, tomava o seu lápis pneumático, a sua pena eléctrica – ou, para avisar o cocheiro, apanhava o tubo telefónico!…  Neste mover lento do braço magro, nos vincos que lhe arrepanhavam o nariz, mesmo nos seus silêncios, longos e derreados, se sentia o brado constante que lhe ia na alma: – Que maçada! Que maçada! (…) Debalde! Mesmo de explorações tão cativantes como essa, através da moral dos negróides, Jacinto regressava mais murcho, com bocejos mais cavos! (…)

Mas porque rolara assim a tão escura desilusão – o saudável, rico, sereno e intelectual; Jacinto? O velho escudeiro Grilo pretendia que “sua exa. sofria de fartura”! (p.748-749)

O fastio de Jacinto é por demais sintomático, de tal maneira explícito, que não há o que acrescentar ao que sobre ele já foi dito. O texto de Eça, contudo, não se encerra no momento em que se demonstra a falência do projeto de Jacinto. Trata-se aqui, como se pode ler, de uma história de salvação, com final feliz, desenvolvida em três momentos bem marcados: uma vivência de caráter “infernal”, uma experiência de redenção e, entre ambas, um momento de purificação, de iniciação numa nova realidade. No que diz respeito à questão ideológica implicada por essa estrutura triádica, diferentemente do que pareciam acreditar alguns dos seus críticos, “Civilização” é um texto cuja atualidade só tem aumentado com o passar do tempo. A ideia de que qualquer crítica à ciência e à tecnologia representa um ponto de vista reacionário e passadista já não faz sentido nos dias que correm. Tampouco é sustentável atribuir imediatamente à nostalgia da vida rural – em que sobrevivem valores pré-industriais – uma coloração apenas regressiva.

Nesse quadro, a narrativa de Eça passa por uma nova leitura e valorização, e os discursos que faz a personagem Zé Fernandes, tentando mostrar a Jacinto todos os aspectos negativos da “super civilização” a que seu amigo sofregamente parece se agarrar, tem uma atualidade e um fascínio que não podia ter para os homens de há quatro décadas. Da mesma forma, também o escritório de Jacinto, que recebe e difunde tanta informação inútil, é uma divertida versão oitocentista de uma central informática, antecipando o que hoje sucede já em muitas casas e escritórios, invadidos pela banalidade da comunicação interativa por meio da Internet e pela profusão de canais de televisão a cabo.

Não existe nessa novela uma proposta de recusa completa à civilização e aos seus produtos tecnológicos. Trata-se, antes, de uma recusa à tecnologia (e à cidade, entendida como o lugar de sua produção), enquanto forma de relação com o mundo, enquanto alternativa à vida “natural”. Porque, afinal, é disso que trata a narrativa: da contraposição entre o “natural” e o “artificial” e da necessária absorção de um pelo outro. Daí que na cidade seja o “artificial” que triunfe, absorvendo o “natural”, ao passo que no campo idealizado, que é a serra de Jacinto, a vitória seja do “natural”. Este, uma vez triunfante, pode sem perigo absorver aquilo que lhe seja necessário do mundo “artificial”, técnico. Entretanto, embora o sentido geral do enredo seja muito claramente perceptível, é preciso observar que a narrativa se faz por intermédio de um narrador que é também uma personagem importante: Zé Fernandes. De fato, não é possível ignorar que a representação de Jacinto, bem como dos seus ambientes e ideias, sejam veiculadas e filtradas pelos olhos e pelas palavras desse narrador astuto, que tem uma tese a demonstrar:

Como eu observei ao meu Jacinto, na cidade nunca se olham os astros por causa dos candeeiros – que os ofuscam: e nunca se entra por isso numa completa comunhão com o universo. O homem nas capitais pertence à sua casa, ou se o impelem fortes tendências de sociabilidade, ao seu bairro. Tudo o isola e o separa da restante natureza – os prédios obstrutores de seis andares, a fumaça das chaminés, o rolar moroso e grosso dos ônibus, a trama encarceradora da vida urbana… Mas que diferença, num cimo de monte, como Torges. (p.765)

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Louvado seja Deus! O meu Jacinto estava, enfim, provido de civilização! Subi contente. Na sala nobre, onde o soalho fora composto e esfregado, encontrei uma mesa recoberta de oleado, prateleiras de pinho com louça branca de Barcelos e cadeira de palhinha, orlando as paredes muito caiadas que davam uma frescura de capela nova. (p.758)

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Eu escutava, assombrado, esse Jacinto novíssimo. Era verdadeiramente uma ressurreição no magnífico estilo de Lázaro. Ao surge et ambula que lhe tinham sussurrado as águas e os bosques de Torges, ele erguia-se do fundo da cova do Pessimismo, desembaraçava-se das suas casacas de Poole, et ambulabat, e começava a ser ditoso. (p.759)

Os adjetivos, no conjunto do relato falam por si. Não cabe aqui esticar este assunto, inclusive por questões de dimensão argumentativa. No entanto, pode-se ter como seguro que Zé Fernandes, quando bem observado, revela-se um narrador ambíguo: dissimulado quanto ao que de fato sabe e pensa; contraditório algumas vezes, fascinado sempre pela cidade que, no nível do discurso, renega e combate. Há, sobretudo, um traço importante na personalidade desse narrador, que é uma ponta de ressentimento que ora aflora como provincianismo, ora como timidez frente ao grand monde urbano e civilizado. Ora, como é Zé Fernandes, o narrador, quem defende, desde o começo, a tese de que o enredo acaba por provar, as suas intenções e a sua caracterização psicológica não podem passar desapercebidas ao leitor que quiser obter desse texto inteligente todo o prazer que ele pode propiciar.

O conto é escrito em primeira pessoa por um Zé Fernandes, personagem secundária. O narrador centraliza seu interesse na figura de Jacinto, descrevendo-o como um homem extremamente forte e rico, que tem seus proventos recolhidos de Portugal, onde a família possui extensas terras, desde os tempos de D. Dinis, com plantações e produção de vinho, cortiça e oliveira, que lhe rendem bem. Zé Fernandes foi chamado pelo tio e parte para Guiães e, somente após sete anos de vida na província, retorna e reencontra Jacinto. A partir daí, o narrador observa, com maior atenção, o amigo. Nos raros momentos em que conseguiam passear, confessava ao amigo que o barulho das ruas o incomodava, a multidão o molestava: ele atravessava um período de nítido desencanto. Alguns incidentes contribuíram sobremaneira para afetar o estado de ânimo de Jacinto: o rompimento de um dos tubos da sala de banho, fazendo jorrar água quente por todo o quarto, inundando os tapetes, foi o bastante para aparecer uma pilha de telegramas sobre o acontecido.

Jacinto não “retorna”, quem voltou foi Zé Fernandes e, sentindo-se abandonado e entediado, descobriu uma porção de fantoches a viverem uma vida falsa e mesquinha. Percebeu que os antigos conhecidos eram seres frágeis e vazios, idênticos entre si e massas impessoais, amorfas, feitas para agradar ou desagradar os outros conforme seus interesses. Não suportando a cidade, retornou a Portugal. Este serrano que anteriormente valorizava os encantos da civilização foi tomado pelos mesmos sentimentos de Jacinto e confirmou uma simples verdade: no fundo, reabilitou Eça de Queirós com o seu Portugal.

Se a ambiguidade do narrador pode ser percebida, não há por que negar ao leitor a dúvida sobre a veracidade de seu discurso, quando da finalização de seu relato. Ou seja, ao voltar ao casarão de Jacinto, percorrendo cinzas, teias de aranha., mofo e ruína, ele não se decide entre a alegria e a nostalgia. Da mesma forma, quando volta a se encontrar com o Jacinto, “civilizadíssimo amigo”, sua reação não deixa entrever clareza e decisão, entre a alegria e o espanto. Das duas posições, ainda que em situações diferentes, pode-se inferir uma outra ambiguidade: a do discurso revolucionário da geração de 70, da qual o autor era partidário. Claro está que a definição de uma posição definitiva e única não cabe ao papel decifrador do leitor, por equivocado que ficaria nesta posição. No entanto, a admissão do fato de que Jacinto havia encontrado a felicidade no campo, tendo prática e pragmaticamente esquecido os confortos da modernidade destroçada nas ruínas de seu casarão, pode ser lido como uma lacuna a ser preenchida pelo leitor. E aqui está todo o respaldo de que a presente leitura se serve. Não fosse a verve irônica e a acuidade sarcástica do autor do conto, não haveria como denegar esta outra possibilidade e optar por concordar com uma certa tradição que define o papel de “revolucionário” por uma renovada visão da nação portuguesa, que valorizasse a “suas coisas” metaforicamente representada pela “serra” – esta depois retomada em narrativa inacabada. No entanto, ainda por isso, persiste a dúvida, e não se pode dizer que esta teria sido a “ideia” autoral. Isto porque este “retorno” de um certo recalcado, faria supor uma perversão narcísica, já apontada por Eduardo Lourenço em ensaio brilhante – como de hábito. Este fato apontaria para uma impossibilidade: a de se encerrar a “interpretação” do texto queirosiano por um viés apenas, aquele que uma certa tradição que insiste em utilizar esta mesma interpretação como amarra legitimadora.

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Infelizmente, continuo perdido entre as vírgulas que já me valeram o epíteto de incompetente. Dado que estou lembrando de uma passagem didática, de uma discussão nem tão acalorada assim, não posso deixar de lembrar que a dúvida vai persistir. A sombra de um Dom Sebastião mítico, por que de outra natureza não se pode valer sua “identidade” nostálgica, prevalece sobra uma desejada clareza que, nem mesmo a maior acuidade sintática poderia supor no uso indevido das vírgulas. De mais a mais, a “comunicação” se faz não por explicitar uma conclusão definitiva, um raciocínio acabado, uma constatação irrefutável. Muito ao contrário, este ato subjetivo e interlocutório, o de comunicar, deve prevalecer-se de sua prerrogativa efêmera, passageira, fugaz e transitória. Eça de Queiroz vai continuar causando coceira no cérebro de quem se presta à sua leitura. Que bom para quem assim o fizer!

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Pausa

Das muitas leituras que tenho feito, uma se sobressai. Na verdade, uma releitura: Os Maias, do Eça de Queirós. Reli porque o Mário Cláudio comentou sobre uma passagem que abria espaço para uma abordagem de cero clima homoerótico na relação entre Carlos da Maia e seu amigo o Ega. Pois é, reli todo o romance, não sem pouco prazer, é claro, mas não me dei conta de tal passagem. Simplesmente não a “li”. Isso já tinha acontecido outra vez. Ainda fazia o doutorado e fui preparar um seminário sobre tradução, quando Veronika, fazendo alguns comentários sobre o assunto, mencionou certa passagem de Dr. Fausto, do Thomas Mann. Ela diz que a tradução publicada pela Nova Fronteira, àquela altura, estava muito boa. Pois peguei o livro e fui ler: um cartapácio. Li-o todo e não consegui pousar minhas fatigadas retinas sobre tal passagem…

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De qualquer maneira, a releitura de Os Maias me fez reter duas ou três passagens. Cada um sabe o que elas podem representar…

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“Afonso não respondeu: olhava cabisbaixo aquela sombrinha escarlate que agora se inclinava sobre Pedro, quase o escondia, parecia envolve-lo todo – como uma larga mancha de sangue alastrando a caleche sob o verde triste das ramas.” (O prenúncio da tragédia que culminará o romance)

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“Os dois velhos abraçaram-se, depois de um momento os seus olhos encontraram-se, vivos e húmidos, e tornaram a apertar-se comovidos.”

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O final do terceiro capítulo do romance insere a peripécia que vai se desfazer do meio para o final do romance. Com a volta de Maria Monforte, a mentira da morte de Maria Eduarda se desfaz e a tragédia anunciada se “realiza”.

LET 874 – 4

Tomo de empréstimo, hoje, parte de uma postagem que encontrei na “rede” (http://professorazildafreitas.wordpress.com), que considerei interessante. Com ela, proponho que você se posicione quanto à seguinte questão:

 

O trecho da carta de Eça a Ramalho Ortigão e a citação de um trecho de A relíquia, é possível dizer que a ironia é instrumento utilizado por Eça na composição de um “quadro”, ao mesmo tempo, “real” e “irônico”, da sociedade portuguesa, principalmente no que diz respeito a um de seus traços marcantes, exatamente aquele que aponta para a forte presença da religiosidade em seus modus operandi? Justifique a sua resposta!

 

Boa leitura, bom trabalho e bom final de semana!

 

“Formalmente apresentada por Eça de Queirós ao leitor, no início da narrativa a personagem Teodorico é ainda um menino, que vai evoluindo à medida que a narrativa se desenvolve, até culminar com sua transformação em Raposão. Sua caracterização como personagem principal do romance é direta e dela o leitor tudo conhece, tanto das características físicas (por exemplo, sua barba viril) até seus pensamentos mais pecaminosos diante do corpo nu das personagens femininas. Com Teodorico, o foco narrativo se move de Portugal para a Terra Santa. Permite assim o ficcionista que Teodorico seja acompanhado pelo leitor em sua viagem à Terra Santa, em um deslocamento espacial (de Lisboa para Jerusalém). Entretanto, também há um deslocamento temporal em A relíquia: de modo fantástico, Teodorico retorno ao período histórico em que teria vivido Jesus.

Sobre seu processo criativo de elaboração de textos literários, escreve Eça de Queirós em uma carta a Ramalho Ortigão:

“Para escrever qualquer página, qualquer linha, tenho de fazer dois violentos esforços: desprender-me inteiramente da impressão que me dá a sociedade que me cerca e evocar, por um retesamento da reminiscência, a sociedade que está longe. Isto faz com que os meus personagens sejam cada vez menos portugueses – sem por isso serem ingleses: começaram a ser convencionais, vão-se tornando uma maneira. (…) De modo que estou nesta crise intelectual: ou tenho de me reconhecer ao meio onde posso produzir, por processo experimental – isto é, ir para Portugal -, ou tenho de me entregar à literatura puramente fantasista ou humorista. “(Queirós, E. 1976:75)

Ironiza o autor sobre a evocação de suas lembranças de Portugal e suas impressões sobre a sociedade portuguesa que conheceu. Poucos autores realistas souberam registrar tão bem as mazelas sociais e a hipocrisia religiosa em suas obras, como o fez Eça de Queirós. A personagem Teodorico Raposo, de A relíquia, representa o individualismo dos homens portugueses daquele período, ao buscar prazeres hedonistas e rejeitar os valores sociais e as tradições religiosas. O que torna A relíquia um romance único e vital para a compreensão das teses realistas é a habilidade de Eça em unir a ironia refinada ao anticlericalismo, sem a abulia da personagem Amaro, do romance queirosiano O Crime do Padre Amaro. Enquanto Amaro assiste a tudo sem reação, Teodorico é uma personagem que questiona, relata e age:

“E à porta do sepulcro de Cristo, onde a titi me recomendara que entrasse de rastros, gemendo e rezando a coroa – tive de esmurrar um malandrão de barbas de ermita, que se dependurara na minha rabona, faminto, rábido, ganindo que lhe comprássemos boquilhas feitas de um pedaço da arca de Noé! – Irra, caramba, larga-me animal! E foi assim, praguejando, que me precipitei, com o guarda-chuva a pingar, dentro do santuário sublime onde a Cristandade guarda o túmulo do seu Cristo.” (Queirós, E., 1976:75).

A partir da personagem Teodorico, Eça de Queirós reencena o episódio bíblico que descreve o comportamento de Cristo no momento de sua entrada triunfal em Jerusalém. Cristo e Teodorico expulsam os vendilhões, que comercializavam no Templo. A cena bíblica é narrada em Marcos 11,1-11; Lucas 19, 28-40 e João 12,12-16 (Barrera, 1995:56-68) e, indubitavelmente, influenciou Eça ao compor o capítulo da chegada de Teodorico a Jerusalém. A revolta da personagem queirosiana, ao recriar o episódio bíblico, denuncia o comércio religioso como mais uma faceta da exploração indevida da fé e a hipocrisia religiosa, que existia na época de Cristo e persiste no século XIX.”

Gosto – final

A última condição do amor descrito por Freud requer que a mulher seja desacreditada sexualmente de alguma maneira. Pode ser uma prostituta ou simplesmente uma mulher casada e um tanto frívola. Este aparente para­doxo de uma mãe-substituta que é moralmente impecável e também ma­culada reflete a descoberta pela criança da sexualidade adulta e da cum­plicidade da mãe no ato. O resultado é uma dicotomia na imagem que a criança tem da mãe e que logo perturbará as relações do homem com ou­tras mulheres. Elisa é, claramente, a figura composta da mãe. Ela simboliza a “madona virginal”, a inacessível divindade do altar, durante os dez anos de matrimônio com Matos Miranda. Esta época representa o primeiro con­ceito da mãe como a imagem da pureza. Com seu casamento com Torres Nogueira, porém, Elisa comete um ato de infidelidade que a deixa desa­creditada sexualmente, ou profanada. Depois, ela confirma sua nova iden­tidade como mulher licenciosa ao aceitar um amante. Esta nova relação, porém, não atormenta José Matias apesar de que desta vez a ligação é ilí­cita e, portanto, de significado mais sensual. E precisamente a existência do aspecto predominantemente físico que explica a segunda mudança na atitude de José Matias. Ao passo que Torres Nogueira era igualmente rival e ideal ina­tingível – a quintessência do homem integral que José Matias não é – o Apontador de Obras Públicas representa o lado exclusivamente físico do amor. Nem tem nome particular. O amante é, como Matias, incapaz de cum­prir todos os aspectos do papel masculino. Ele representa o lado suprimido de José Matias, seu alter ego físico. Os dois não competem; complementam-se. O gesto do amante no cemitério expressa homenagem, mas também sim­boliza o encontro e a integração, por fim, da alma e do corpo polarizados quando, ironicamente, a união já não pode ter lugar.

Apesar de “José Matias” exemplificar um caso quase clinicamente per­feito de impotência psíquica, nada deve a Freud. Não se pode falar de ne­nhuma influência freudiana porque Freud não publicou nada sobre o pro­blema até duas décadas depois de aparecer o conto português. “José Ma­tias é a criação de Eça de Queirós – criação original e de aguda percepção psicológica, embora provavelmente represente uma proje­ção da subconsciência do autor e não uma percepção consciente. A literatura frequentemente serve de depósito para motivos e im­pulsos que o ser humano não quer ou não pode confrontar abertamente na vida verdadeira. “José Matias” é, antes de tudo, obra literária na qual Eça emprega com maestria todos os recursos mais característicos de sua arte estética e narrativa – linguagem viva e espirituosa, acerto nos traços descritivos, originalidade imaginativa das personagens e da intriga, e fino humor que dá o tom tão especial à composição. Possui, porém, valores para além dos puramente literários ou técnicos.

Por meio da elaboração de uma história singular de amor cortês no século XIX, Eça consegue expor os diversos aspectos recônditos de uma aberração psicológica ainda não reco­nhecida nem estudada pelos especialistas médicos da época. José Matias é, de fato, um “doente”, como afirma o narrador, mas sua enfermidade pro­vém da sua incapacidade de oferecer o amor completo que Elisa lhe ins­pira. Ele não foge das materialidades do casamento mas do terrível peca­do que a união física representa para ele. Vive e morre atormentado por uma natureza enfezada e por um amor desequilibrado. Não é o amor que o destrói, é a falta de amor.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

COELHO, Jacinto Prado. As ideias e as formas. Ocidente. Lisboa, v. XXVIII, n. 95, p. 40-43, maio 1946.

QUEIRÓS, José Maria Eça de. Contos. Porto: Lello & Irmão, s/d.

FERRO. Túlio Ramires. O conceito de civilização nos contos de Eça de Queirós. Porto: Porto Editora, s/d.

FREUD, Sigmund. On creativity and the uneonscious. New York: Harper, 1958.

MARTINS, António Coimbra. Eça e ETA. Bulletin des études français. Lisboa, n. 5, 1967, p. 287-325.

ROUGEMONT, Denis de. Love in the Western World. Trad. Montgamcry Belgion. New

York: Pantheon, 1956.

SIMÕES. João Gaspar. Eça de Queirós: o homem e o artista. Lisboa: Rio dc Janeiro, Dois Mundos, 1946.

Gosto – terceira parte

Quando José Matias recusa casar-se com Elisa depois da morte de Matos Miranda, o narrador confessa, com rara honestidade, sua confusão total e sua inabilidade de encontrar uma explicação psicologicamente válida. Em breve, porém, vence sua perplexidade e declara que o ato de José Matias é devido a um excesso de espiritualismo e ao receio das materiali­dades do casamento e das realidades fortes da vida. Quando, depois do ca­samento de Elisa e Torres Nogueira, Matias não consegue recobrar a subli­me felicidade dos primeiros dez anos de sua paixão, o narrador não vacila em explicar a razão: José Matias vê na mocidade, força e paixão física de Torres Nogueira uma ameaça contra seu ideal espiritual, em contraste com Matos Miranda, figura velha e doente e portanto sem força varonil. Se é verdade, porém, que Torres Nogueira é um distúrbio porque in­troduz um elemento erótico na abstração espiritual que Elisa representa para José Matias, então a situação com o Apontador de Obras Públicas deveria produzir um trauma muito pior. Não obstante, sucede tudo ao contrá­rio. Em vez de hostilidade, José Matias só parece sentir curiosidade e sim­patia. De novo, o narrador está pronto com sua explicação:

Os dois anteriores, o Miranda e o Nogueira, tinham entrado na alcova de Elisa publicamente, pela porta da igreja, e para outros fins humanos além do amor — para possuir um lar, talvez filhos, estabilidade e quietação na vida. Mas este era meramente o amante, que ele nomeara e mantinha só para ser amada: e nessa união não aparecia outro motivo racional senão que os dois cor­pos se unissem. (p. 256)

Primeiro o narrador estabelece uma distinção entre os dois maridos, usan­do como base o poder físico de cada um: Matos Miranda é velho, doente e fraco; Torres Nogueira é o epítome de juventude e força bruta. Agora, po­rém, aparecem aliados em oposição ao Apontador, que assume um papel puramente sexual. Anteriormente, o sofrimento de José Matias fora atri­buído à intromissão do fator sexual. Agora, numa inversão total, o narra­dor decide que José Matias aceita gostosamente a nova situação porque quer que o corpo de Elisa seja tão bem servido como sua alma. São contra­dições que provam a confusão do narrador com respeito ao caráter e à conduta de José Matias. Não o compreende, mas para não desmentir a imensa estima que tem de si mesmo como pensador altamente racional e lógico, vê-se obrigado a fingir uma certeza que em realidade está bem lon­ge de sentir.

Então, porque é que Eça o escolhe como narrador? Porque, por exem­plo, não escreveu como autor onisciente ou usando o ponto de vista de Nicolau da Barca, amigo íntimo de José Matias e portanto possuidor de um conhecimento mais profundo do protagonista? A conclusão plausível é a de que Eça não quis oferecer uma revelação mais penetrante do seu protagonista, e que o narrador serve, em parte, para afastar o leitor de José Matias e, talvez, o autor mesmo de sua criação literária. De fato, a viva personalidade do nar­rador funciona frequentemente como distração, desviando a atenção do lei­tor de maneira que examine menos cuidadosamente as ações de José Ma­tias e aceite como certas as conclusões do narrador. Em realidade, porém, essas conclusões contêm contradições que não são resolvidas e provo­cam perguntas que precisam ser esclarecidas se o conto vai ceder todas as riquezas de sua temática complexa.

Na sua teoria da evolução psicológica das emoções do amor, Sigmund Freud afirma que o instinto do amor é o resultado de um desenvolvi­mento gradual que tem origem na infância. Essa evolução começa quando a criança se dá conta de que existe um mundo alheio, de outros seres, e focaliza seu carinho sobre a mãe. Porque a mãe ama o pai, este se torna não só num ideal que deve ser imitado, como também num rival que ins­pira ciúmes e hostilidade. Estas atitudes mudam devido à educação e à bar­reiras impostas pela sociedade, e, gradualmente, o objeto original de amor é substituído pela irmã e depois por outras mulheres parecidas com a mãe e com a irmã. Com a transferência do afeto a evolução normal fica com­pleta. Quando, porém, algum estorvo interrompe esta progressão natural, o resultado é uma desordem erótica que emerge mais tarde, na pessoa já adulta, como no caso de José Matias, que ilustra manifestações neuróticas características de impotência psíquica. Esta condição anormal é definida por Freud como a dissociação das duas correntes da emoção erótica – a ternura e a sexualidade. O homem, que oculta na subconsciência um amor incestuoso e portanto proibido, não pode ter uma relação completa com ne­nhuma mulher digna de respeito porque com esse tipo de mulher só é ca­paz de expressar sentimentos de ternura. A relação fica eroticamente Ine­ficaz, sem o estímulo sexual que o completaria.

Não é preciso salientar as manifestações de semelhante desligamento no amor de José Matias por Elisa. Os diversos exemplos, ao discutir o tema do amor cortês, estão aí! O amor de José Matias é “pura adoração”, “transcendentalmente desmaterializado”. Para o narrador, o amor platônico de Matias prova que ele é “desvairadamente espiritualista”. Para Freud, seria uma manifestação da resposta emocional restrita que Elisa inspira nele devido a sua neurose. Como ela é uma substituta pelo objeto de amor inces­tuoso reprimido, a satisfação sexual é impossível. Puxado por um amor pu­ro e um amor carnal, José Matias tem que procurar um objeto sexual me­nos estimável para satisfazer os impulsos sensuais que não pode expressar com a mulher amada. Durante o casamento de Elisa e Torres Nogueira, José Matias leva uma vida dissoluta, não só porque é uma maneira de fugir, mas porque assim afirma sua natureza física. Num ato culminante de abandono, ele aparece numa cena curiosa, à frente de um grupo de mulheres com quem não sente nenhuma inibição erótica:

Uma ceia oferecida a trinta ou quarenta mulheres das mais tor­pes e das mais sujas, apanhadas pelas negras vielas do Bairro Alto e da Mouraria, que depois mandou montar em burros, e gravemente, melancolicamente, posto na frente, sobre um grande cavalo branco, com um imenso chicote, conduziu aos altos da Graça, para saudar a aparição do Sol! (p. 248)

Matias conduz as mulheres à colina onde fica a Igreja da Braça, num ato sim­bólico que deverá reconciliar sua natureza dividida. Mas o gesto fracassa. Nas palavras do narrador, “todo este alarido não lhe dissipou a dor”. Também não o ajudou a estabelecer uma relação normal com Elisa.

Freud também fala das condições subconscientes que determinam a es­colha da amada. A condição mais Importante exige a presença de um par­ticipante ofendido. A mulher substitui a mãe, e o partícipe ofendido representa o pai. É evidente que Matos Miranda é um modelo pa­terno. O narrador fala da vida resguardada de Elisa “por imposição paternal do marido” e, em outro lugar, menciona o “regime paternal do Matos Mi­randa”. Torres Nogueira também representa a figura do pai, mas ao con­trário de Matos Miranda que a velhice elimina como ameaça, Torres No­gueira exemplifica o pai novo e viril, rival pelo afeto da mãe. É também o ideal que o filho tenta imitar. Estas fantasias da subconsciência explicam o sofrimento de José Matias durante os anos do segundo casamento de Elisa. Ele compreende que não pode competir com Torres Nogueira, o ho­mem completo que oferece a Elisa o elemento sexual do amor que ele não lhe pode dar. Torres Nogueira força José Matias a dar-se conta de sua insuficiência, e a confrontação com essa realidade o devasta. Ele se vê, co­mo devia ser, em Torres Nogueira. Realmente os dois homens só se dife­renciam na cor dos cabelos: José Matias é louro e Torres Nogueira é moreno, um recurso literário bem convencional que Eça emprega frequentemente nas suas obras para contrastar o predomínio de aspectos físicos ou espirituais nas perso­nagens. Do resto, José Matias e Torres Nogueira são reflexos um do outro em tudo, tanto em caráter como em posição social. Ainda que se já possível perceber, implícita, certa oposição, de ordem comportamental, entre eles.

Gosto–segunda parte

Para expressar esta dicotomia em “José Matias”, Eça ressuscita um dos mitos capitais da literatura ocidental, de origem na poesia provençal do século XII. Essencialmente, ele escreve uma versão moderna de amor cor­tês. Todos os elementos principais que denotam o caráter especial do amor cortês aparecem neste conto escrito, aliás, na época em que preva­leciam os conceitos intelectuais contrários do naturalismo e do positivismo. A primeira regra na prática de amor cortês era obediência à sua lei por cima das outras, incluindo a promessa matrimonial e a lealdade feudal. O amante assumia a posição subserviente de vassalo e prometia homenagem eterna a sua dama. Assim procede José Matias desde o momento em que avista Elisa e sente um amor que ó “forte, profundo, absoluto, submisso e su­blime”. Por todo o resto da sua vida ele dedica-se total e exclusivamente à sua paixão. Mesmo quando não vê a mulher amada, José Matias sente sua presença espiritual.

Janta sozinho, mas com velas e flores na mesa, escutando a voz da invisível Elisa. Adorna quarto, carruagens e camarote na ópera com luxo digno da companheira ausente. Todas as ações que revelam outro as­pecto de amor cortês – a importância da ausência no desenvolvimento do amor cortês é, essencialmente, amor de nostalgia que vive do próprio poder entusiasta e nem precisa conhecer a amada. O único contato pessoal entre José Matias e Elisa acontece durante os primeiros dez anos da sua rela­ção, quando se encontram no jantar dos domingos na casa da tia de José Matias. O resto do tempo, vivem separados pelo muro que divide suas casas vizinhas – uma convenção que já existe no século XIII como símbolo do amor impedido. A distância é essencial para que o amor possa atingir a mais alta espiritualidade sem a ameaça devastadora de realização. José Matias ama Eli­sa com um amor que se não desilude nem se farta, porque permanece “sus­penso, imaterial, insatisfeito”.

Segundo Denis de Rougemont, o amor passional na Europa surgiu como reação à doutrina matrimonial do Cristianismo. O casamento representava uma transação meramente material por meio da qual um nobre adquiria a riqueza da mulher e a mulher conseguia segurança e proteção. Era um con­trato que só implicava uma união física. No conto de Eça, todas as referên­cias ao matrimônio compreendem uma associação física ou procriadora. Tor­res Nogueira, segundo marido de Elisa, aparece como simples possuidor car­nal, um “bruto”. Falando da recompensa que José Matias vai receber depois da morte de Matos Miranda, o primeiro marido de Elisa, o narrador antecipa “um ano de luto, e depois muita felicidade e muitos filhos…” Mas José Ma­tias recusa as materialidades do casamento, “as chinelas, a pele pouco fresca ao acordar, um ventre enorme durante seis mess, os meninos berrando no berço molhado”. Em resumo, o matrimônio representa uma relação material, física, totalmente incompatível com os ideais do amor puro, do amor espiri­tual que não se realiza.

No amor cortês, portanto, é preciso evitar a consu­mação do amor e por isso tem que existir alguma obstrução. Paradoxalmen­te, apesar do menosprezo com que é visto, o estado matrimonial da amada funciona como o obstáculo mais eficaz. Casada, Elisa é inacessível e, por conseguinte, é o objeto perfeito do amor cortês. Quando cai a barreira pro­tetora encarnada por Matos Miranda, José Matias fica sem defesa. Imedia­tamente abandona sua posição vulnerável e só regressa quando Elisa, repu­diada por ele, casa com Torres Nogueira e restaura o impedimento indispen­sável. Então José Matias pode recomeçar a adorar a mulher ideal livre do pe­rigo de possessão. Na verdade, o verdadeiro objetivo do amor cortês não era a mulher como ser humano, mas como ente ideal, símbolo do conceito da perfeição mais pura. Visto que tal sublimação da mulher incitava um amor contrário ao casamento, a partir do século XII a Igreja lutou contra essa ameaça, ten­tando desviar a corrente para um canal mais aceitável – para a adoração da Virgem Maria. A diversão triunfou, em parte porque a poesia lírica já então expressava o sentimento religioso da época, empregando a retórica devocional. Os objetos profanos eram idealizados em termos religiosos, com a pala­vra “adorar” no lugar de metáfora predominante e sinônimo de “amar”. A atitude de José Matias para com Elisa é descrita sempre em termos devocionais, e ela é constantemente associada com a Virgem sublimada. Usa-se a mesma figura para descrever a reação de José Matias quando Elisa se casa com Torres Nogueira.

O sentimento deste extraordinário Matias era o de um mon­ge, prostrado ante uma imagem da Virgem em transcendente en­levo – quando, de repente, um bestial sacrílego sobe no altar e ergue obscenamente a túnica da imagem.

A angústia de José Matias a partir das segundas núpcias de Elisa é outro exemplo do mito, visto o sofrimento constituir uma parte capital do ri­tual do amor cortês. Para alcançar plena consciência de si mesmo, o amor-paixão tinha que incluir padecimento, ainda mais talvez do que êxtase. É a ex­periência paradoxal da doença que deleita, da “ferida que dói e não se sente”, de Camões e Petrarca. Segundo Rougemont, Tristão, o paradigma do amante cortês, não ama Isolda, mas o amor mesmo. Para além do amor, ama a morte. Isolda é só um pretexto. O instinto de morte é transfigurado pelo mito que lhe confere um fim espiritual. Destruir-se, desprezar a felicidade, é o caminho para a salvação e para alcançar uma vida superior. Portanto, o amor cortês tem que seguir o rumo do padecimento para atingir sua verda­deira meta – a morte. José Matias, de fato, renuncia toda a possibilida­de de felicidade mundana e, finalmente, a própria vida. Não se destrói du­ma maneira rápida ou dramática, mas por um processo lento de degenera­ção. Ele próprio levanta os obstáculos contra seu amor e rejeita a vida. No final, fica apenas a morte para oferecer à sua paixão como ato de preito.

Jacinto do Prado Coelho afirma que no fim do conto Eça “exalta liri­camente o idealismo amoroso, depois de tê-lo aviltado com diabólica sere­nidade”. Ê verdade que a última imagem que permanece na mente do leitor é a do amante carnal de Elisa colocando um ramo de violetas na cova do amante espiritual – a matéria prestando a homenagem final ao espírito. A última impressão que é dada de Matias – magro, alcoólico, esfarrapado, sub-repticiamente a manter sua vigília no­turna frente a casa de Elisa, enquanto o Apontador de Obras Públicas faz sua visita diária “enfiando regaladamente o portão, bem vestido, bem cal­çado, de luvas claras, com aparência de ser infinitamente mais ditoso na­quelas obras particulares do que nas Públicas”. Finalmente, é a rela­ção ilegítima e física que goza um contentamento sereno. O amante espiri­tual, ao contrário, leva uma existência sórdida e clandestina e sofre uma morte degradante.

E óbvio que o tom do conto é ambivalente, como se Eça não estivesse certo de sua própria atitude para com José Matias. Existem várias ambigui­dades que não são resolvidas, apesar de que o narrador dá a impressão de que a história de José Matias, embora singular, fica completamente escla­recida por ele. É uma impressão errônea. O primeiro enigma que se deve salientar diz respeito à perspectiva empregada por Eça. Falta completa­mente o ingrediente capital de revelação confidencial principalmente porque o narrador não é amigo íntimo de José Matias. Suas explicações represen­tam geralmente interpretações subjetivas de um homem cuja vaidade o obriga a julgar-se sabedor de tudo, mesmo do que realmente não compre­ende. Cada vez que José Matias faz alguma coisa inesperada, o narrador fa­brica uma nova teoria que ele então considera a única, a perfeita explica­ção lógica do caso. A verdade, porém, é que ele nunca compreende José Matias.

Gosto

Há livros e textos e filmes e músicas dos quais a gente jamais se esquece. Seja por dever de ofício, seja por algum incidente “negativo”, seja simplesmente porque a gente gostou deles. Punto i basta. Na obra de Eça de Queriós, encontrei dois textos que até hoje me tocam profundamente – “José Matias”, conto, e O crime do Padre Amaro, romance. Os motivos são vários. Os aspectos quase inumeráveis, as explicações múltiplas. Aqui escrevo um texto sobre o conto. Da primeira leitura, ficou impressão estranha; das demais, o apuro do escritor ofereceu-me momentos de reflexão e delícia. Sim, delícia. O conto é delicioso. Vai aí, então, o que eu escrevi sobre ele!

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JOSÉ MATIAS: amores impossíveis(?)

Tem-se escrito muito com respeito à visão pessimista do amor ex­pressa por Eça de Queirós nas suas obras de ficção. Segundo Túlio Ramires Ferro, o amor nas obras de Eça causa perturbação social e conduz à dege­neração. João Gaspar Simões opina que o amor em Eça é criminal, condenatório ou impossível e que Eça manifesta uma “estranha apreensão quanto à legitimidade do amor sexual”. (SIMÕES, 1945, p. 531) A interpretação mais negativa, porém, é dada por Antônio Coimbra Martins, que atribui a Eça um conceito salubre e destrutivo do amor:

Para o romancista, em resumo, o verdadeiro apelo do amor é degradante. Um obstáculo de natureza social, religiosa ou mes­mo material afasta-nos do fruto proibido e baixamento convida­tivo. Outros, mais ou menos disfarçados, vão colher o fruto às escondidas… mas o verdadeiro resultado do amor são traições, mortes, incestos, heranças perdidas… Toda a obra de Eça o diz: o amor é o pecado original. (MARTINS, 1967, p. 324)

Para Coimbra Martins os contos são igualmente representativos dessa atitude acrimoniosa, com a exceção de “O defunto” que ele considera a única com­posição em toda a obra fictícia de Eça onde o amor se salva. O juízo, porém, é inexato, pelo menos com respeito aos contos. Nos contos, Eça não desacredita o amor; o que condena é a incapacidade do ho­me de aceitar o amor como compromisso total de todo seu ser, físico e es­piritual. É verdade que em alguns dos contos o amor conduz à infelicidade ou à degradação, mas unicamente porque a emoção que sentem os persona­gens é incompleta. Carece do equilíbrio sadio que provém do desenvolvimen­to simultâneo das duas facetas da natureza humana – o espírito e a matéria. Já nas Prosas bárbaras Eça se refere à divisão de alma e corpo. Mais tarde, em contos como “No moinho”, “Um poeta lírico” e “As singularidades duma rapariga loira” ele elabora temas de amores frustrados e relações falha­das por lhes faltarem um dos dois elementos vitais. O conto mais interessan­te, porém, em que Eça trata da polarização completa dos duplos aspectos humanos e das consequências do desequilíbrio resultante é “José Matias”, sem dúvida uma das obras mais complexas e mais originais de Eça.

O conto, inicialmente publicado em 1897, três anos antes da mor­te de Eça de Queirós, relata o caso intrigante de um homem que, durante vin­te anos, se prostra espiritualmente diante da mulher amada, consagrando a vi­da à sua paixão, mas recusando implacavelmente a posse física do objeto de tanta devoção . Por duas vezes, a divina Elisa se encontra viúva e pronta a premiar o admirador dedicado e, por duas vezes, José Matias foge dela, re­gressando só depois de ela voltar a ser esposa ou amante de outro homem.

A narração, escrita na primeira pessoa, apresenta a perspectiva de um antigo condiscípulo universitário de José Matias. A ponto de sair para o fu­neral de José Matias, o narrador encontra um amigo a quem convence de acompanhar o cortejo ao cemitério. Enquanto a procissão avança, o narra­dor fala com seu companheiro. Não se trata tanto de um diálogo como de um monólogo dramático. Só se ouve a voz do narrador. O companheiro per­manece invisível e silencioso durante todo o conto, embora se dê a com­preender que ele também toma parte na conversa. O narrador frequentemen­te comenta sobre as aparentes observações e reações do amigo. Como resultado desta técnica, o leitor transcende o seu papel passivo e parece participar diretamente na história que está a ouvir, como se tomasse o lu­gar do companheiro. Ê o narrador também que interpreta os acontecimentos e os personagens do conto. Ele define Jo­sé Matias como “um doente, …atacado de hiper espiritualismo … um ultra-romântico” que só aceita um amor espiritual porque reconhece a relação incompatível que existe entre os sonhos e a vida, entre a imagem Ideal do amor e o desengano que encerra a realização do amor.

 

Amanhã tem mais!