Das chatices que vêm com o tempo

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“Protágoras de Almeida e Castro é um leitor com alto índice de acuidade exegética. O que diz sobre o romance acerca do qual comenta é notável. Com justeza e sinceridade, faz afirmações coerentes e adequadas ao material que compõe a narrativa que lê. Conhecedor que é da obra do autor sobre o qual se debruça, confirma sua autoridade, sem resvalar em falácias ou afirmações categóricas sem o devido respaldo. Ocorre, no entanto, que suas intuições deveriam vir ancoradas em referências mais sólidas. Explico-me. O crítico infere relações de sentido e apresenta elementos de ilação hermenêutica que se fazem consistentes. No entanto, ao não citar nomes de referência da crítica/teoria literária incorre em categorizações que deixam de apresentar a necessária espessura, para não incorrer em opinião pessoal de menor espectro. Ao ler suas considerações, não se pode dizer que não saiba do que está falando, mas parece uma voz no deserto quando não cita autores que também já se manifestaram sobre os mesmos tópicos (no caso genérico da crítica/teoria) e/ou suas realizações estéticas/formais (no caso do autor em questão). Eu diria que o trabalho peca por falta de citações e referências explícitas. Ao fim e ao cabo, não pode ser relegado ao plano da “opinião”, pela consistência dos elementos discursivos de que se utiliza e que demonstram sua atenta acuidade de leitor voraz e preparado. Se refeito o trabalho, em respeito às normas, não vejo porque não aprová-lo trabalho.”

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O parágrafo acima é extrato de um parecer dado a trabalho acadêmico supostamente apresentado como instrumento parcial para obtenção de título acadêmico. Não importa o seu grau. O que me chama a atenção é a argumentação exarada no texto do parecerista. Ressalte-se sua intensa e vigorosa “cobrança” de referências e citações, o que revela, antes de mais nada e acima de tudo, um exacerbado uso de categorias um tanto fossilizadas pela burocracia acadêmica, no que diz respeito a suas normatizações e protocolos. Claro está que ninguém há de conseguir alçar os píncaros desta egrégia instituição, a universidade, sem se submeter aos protocolos que ela mesma institui e celebra para adequar seus critérios avaliativos. No entanto, o fato de demonstrar “conhecimento de causa” não precisa, necessariamente, transformar-se em critério eliminatório de um escrito, demonstrada que tenha sido a eficiência e a eficácia dos argumentos arrolados em qualquer texto que se apresente como candidatura a um título. Explico-me: não basta demonstrar que sabe… Em outras palavras: não que ser apenas honesto, há que parecer honesto (quem foi mesmo que disse isso???). O que ressalta aos olhos, no fundo, é certa dose de incoerência e/ou contradição do parecerista, para não dizer temor em dizer o que pensa – em função do objeto de análise e não em relação ao que podem dizer acerca do parecer, ele mesmo… e de seu autor…, – pois ele aprova e reprova, simultaneamente, ao longo de suas considerações, sem definir uma posição clara para, no final, optar por exigir (ainda que implicitamente) o trabalho seja reescrito em obediências às normas e aos protocolos de praxe. E eu em pergunto: o que realmente tem “valor” – a discussão desse tema mereceria outras linhas em separado – na situação que se apresenta. Por que não aprovar o trabalho, de conteúdo incontestavelmente válido e qualificado, ainda que não “apresentado” num modelo estrito e, vamos ser sinceros, redutor. Por outro lado, se existem os modelos – ainda que coercitivo – porque o trabalho não foi assim apresentado, evitando certos incômodos posteriores, da ordem do burocrático? E, em terceiro lugar, oh dúvida cruel, o que realmente é para ser feito: um trabalho sério, consistente, ou o preenchimento de um subliminar formulário?

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Perguntei ao Dr. Google sobre o indivíduo acerca do qual escrevi as linhas acima e ele ficou silente. Não me foi dada sequer uma referência. Logo, posso concluir que sou isento de qualquer tipo de responsabilização… Isto posto, estou tranquilo, afinal, tudo não passou de ficção… e ironia!

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Notícias

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Li na edição de hoje do jornal Estado de Minas uma notícia que me fez pensar. Geralmente, leio as manchetes e, quando muito, a legenda da foto – quando é o caso. No entanto, hoje, depois de fazer a leitura de praxe, dei-me ao trabalho de ler a matéria na íntegra. Trata-se de um caso que ocorreu há quase dois anos, se não me engano em Pernambuco. O professor chama a atenção de uma estudante, em sala de aula, mudando-a de lugar porque ela estava conversando e, assim, atrapalhava o andamento do seu trabalho. A “estudante” (Ou seria “estudanta”, a seguir as regras de gramática recentemente revisadas por alguém investido de “poder”…?) teria dito ao professor que já tinha 18 anos e que ninguém mandava nela (Minha vontade é de usar as aspas, mas não me atrevo: preguiça de procurar fontes e referências para ter certezas igualmente questionáveis…). Se li direito a matéria, no dia seguinte, a mãe (Ou teria sido o pai? Nas atuais “condições de temperatura e pressão” isso faz mesmo diferença?) foi até a escola e fez reclamação contra o professor, “argumentando” que a filha foi constrangida diante dos colegas e que estaria sofrendo consequências psicológicas em seu comportamento por conta da violência do professor. A referida “mãe” acionou o Conselho Tutelar e o Ministério Público de Pernambuco. O professor, ao que parece, registrou boletim de ocorrência e o processo “correu”. Levou um tempo, mas, ao final, a família da “aluna” foi condenada a pagar R$ 5.000,00 de indenização ao professor, parece, por danos morais. A matéria termina com uma “pérola” da psicóloga (Não coloquei aspas na segunda palavra para não ficar pesado… o visual da frase!), que afirma que o professor tinha razão pois “O professor tem direito a ditar regras e os alunos devem estar preparados para ouvi-lo” (Declaração da “especialista”).

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Pois bem. A primeira coisa que me veio ao pensamento foi a atitude da aluna. Pouco a comentar. Tenho primas professoras e diretoras de escola. Sou professor universitário. Escuto relatos os mais variados daqui e d’acolá. Logo, pouco a comentar. A atitude desta “garota” nada mais revela que a falência da educação que ela não recebeu. Fico imaginando o que deve ter sido dito a ela, que exemplo ela terá presenciado, que tipo de relação com a realidade ela estabeleceu a partir do que vê, escuta e faz em casa. Aqui ratifico um bordão: educação se adquire em casa e é responsabilidade dos pais. Na escola, o processo é de escolarização, portanto, complementar. No meu tempo (Fala Matusalém!) a gente entrava na escola sabendo escutar, obedecendo ordens, reconhecendo a autoridade e comportando-se adequadamente. A segunda, diz respeito às atitudes da mãe e do professor. Quanto ao segundo, imagino o que deve ser passado por sua cabeça quando da reação da aluna. Em seu lugar, não sei se teria sangue frio e sensatez suficientes para saber reagir de maneira adequada. Já em relação à “mãe”, bem, que coceira na língua… Essa mãe deve ser mais um exemplar do estereótipo que, infelizmente, hoje impera nas famigeradas “redes sociais” e peças publicitárias. Não deve passar disso: um estereótipo. Pelo que a notícia traz de declarações da dita cuja, a atitude que toma é, igual e infelizmente, típica. Guardei o melhor para o final, coincidentemente, seguindo a ordem cronológica da “narrativa” que a notícia explicita (Alguém pode me explicar como foi que nasceu e tem se desenvolvido esse novo conceito de “narrativa”? Intrigante…). A psicóloga, “especialista”, segundo o texto da notícia. A dita cuja afirma que – e repito –: “O professor tem direito a ditar regras e os alunos devem estar preparados para ouvi-lo”. Li corretamente?: “direito a ditar regras”? Até onde acompanhei a procissão, penso que não se trata de “direito” e, muito menos, de “ditar regras”. Estas preexistem a qualquer volição subjetiva. Depois, o professor é responsável pela execução de atividades condicionadas a princípios e regulações que devem ser seguidos, independentemente da vontade de outrem. Ou seja, ao entrar na escola – se educado, obviamente – o estudante introjeta as regras da instituição em que inicia suas atividades exatamente por força da educação que recebeu em casa. Ou seja, não se trata de direito, mas de responsabilidade, obrigação. E não de “ditar regras”, mas de fazer segui-las, obedecê-las, operacionalizar os princípios de comportamento e execução das atividades formativas. A sequência da assertiva “especializada” por aquela que é identificada como “psicóloga” é por demais óbvia: prescinde de exegese…

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É isso. Assim caminha a humanidade…

Dias

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Hoje é dia de São José. Não sou santo, mas sou José. Na verdade, José Luiz, mas José. Posso, então, considerar hoje o meu dia. Pretensão… Sei não… Pode ser… E se for… Há que se sentir culpado? Há que ficar fazendo discurso de modéstia e humildade? Há que me vangloriar. Sei não… O que sei é que metade do meu nome ´José. A outra metade, Luiz. Escrevi cinco linhas e disse muito pouco. Há que vá me julgar…

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Li ontem, no Estado de Minas (minha mãe resiste à ideia de ter um tablete pra ler o jornal e eu ter que acabar essa irritação com os atrasos do entregador do jornal em papel. Uma chatice. Se bem que jornal velho, às vezes, é muito útil. E chega. Não vou escrever outras cinco linhas dizendo nada). Li no Jornal ontem, na página do Editorial, da Opinião, das cartas dos leitores (Os Diários Associados” ainda não acabaram com esta página, como já fizeram com outras tantas de utilidade indiscutível). Pois bem. Li na tal página um “artigo” (?) de Ronaldo Mota, identificado como reitor da Universidade Estácio de Sá. Conheci o gajo nos idos de 90, do século passado (isso soa tão antigo…), em Santa Maria da boca do monte, lá mesmo, no Rio Grande do Sul, no ponto geodésico zero do Estado. Vivi cinco anos por lá. O gajo era professor de física, tudo e havido como um homem bonito. Bem casado – o que causava alegre e descompromissado ciúme do grupo de mulheres amigo do casal que recebia muito bem. Pois… O atual reitor da Universidade Estácio de Sá escreve, logo no primeiro parágrafo de seu “artigo” (?) o que segue:

“Como pensar o papel do docente nos tempos atuais, em que o aluno é diferente do que ele era há poucas décadas atrás? Ou seja, os educandos já não são os mesmos e tampouco o mundo nos quais os estudantes estão imersos é parecido com antes. Há poucas alternativas ao educador, a não ser se reconfigurar para não se tornar inócuo ou mesmo deixar de existir.”

Antes de continuar, devo advertir a quem me lê que minha preguiça impede que eu continue a comentar o que vou comentar em relação a todo o “artigo” (?) do professor. Para além disso, é necessário acrescentar a este introito o seguinte: sou um chato. Pois bem. Vamos adiante. A primeira pergunta que faço é: apenas o aluno “é diferente do que ele era há poucas décadas atrás”? Penso que a diferença se espraia por campo muito vasto que o restrito escol discente a que se refere o autor. Causa-me espécie qualquer raciocínio que, com tal restrição, eleve esse “corpo” (o discente) à altura de foco e núcleo , absoluto e irrecorrível, de qualquer conjuntura que se construa no campo da educação. O aluno não existe por si só. Ele não é o único envolvido. O corpo discente é concorrente (no sentido de articulação) ao docente. Punto i bata“! A segunda pergunta é: Se a tal “diferença” (implícita, ideológica e tendenciosamente positiva) dos alunos é diferente, um dos motivos desta mesma diferença assenta-se no fato óbvio de que o tempo corre, que as coisas mudam e que as configurações que se apresentam em miríades de possibilidades – todas elas adstritas ao imponderável – também seguem o mesmo fluxo.  Chamo a atenção para um problema de concordância, antes de passar à terceira e derradeira pergunta. O correto, do ponto de vista sintático é: “… e tampouco o mundo no qual os estudantes serão imersos…”. O sujeito é “o mundo” não “os estudantes”. O deslize não chega a ser grave, mas o jornal é mediação pública de leitura. E quem escreve é um “doutor”. Logo… Vamos à terceira pergunta: Existem mesmo “poucas alternativas ao educador, a não ser se reconfigurar”? Ora… “reconfigurar” é verbo que remete à ideia de um mundo digitalizado, algo que toca as ideias de softwares, aplicativos e configuração de sistemas. Para a minha chatice é inapropriado. Ademais, só o professor deve ceder à exigência de novas reconfigurações? Por quê? Não vou me estender e concluo dizendo o seguinte: ninguém aprende sozinho. A experiência pessoa é rica e profícua, mas não determina o cerne do conhecido que EXIGE estudo, leitura, reflexão. Por fim, os estudantes carecem de algo que, no meu tempo (ai que antigo!) se aprendia em casa: respeito, ideia, obediência, limite, possibilidade e responsabilidade, para terminar a lista aqui e deixar a provocação fazer seu efeito…

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livro

 

 

Missão

 

Na maré de desânimo e falta de incentivo em que me sinto imerso, o texto que segue me faz respirar e acreditar que alguma coisa faz sentido. Digo isso porque se afirmasse que sou obrigado a fazer determinadas coisas estaria dizendo apenas parte da verdade. Ainda há espaço, na minha cabela pelo menos, para inventar ousar, experimentar, sobretudo quando se trata de LER um TEXTO que se quer LITERÁRIO. Não sou original quando digo que Rodrigo Gurgel tem razão. E por meio dele, que Todorov também tem razão. Sem razão é aquele ou aquela que afirma – como já ouvi pasmado, num corredor de uma faculdade de letras de uma universidade “pública, gratuita e de qualidade” – que para dar aulas de literatura não precisava mais ler romances,contos ou poemas. Quando ouvi isso me perguntei – e ainda me pergunto – as aulas dadas são sobre o que então!!! Mesmo situação se repete quando, ao observar o programa de um curso de crítica literária numa outra instituição de igual quilate, o colega lista uma série de textos para leitura e discussão com os alunos. pasmado percebi que não havia nenhum poema, conto ou trecho de romance na lista. Se o curso era para ser de crítica literária…

O texto que segue, me foi enviado por uma amiga e se encontra no seguinte endereço eletrônico: https://www.facebook.com/RodrigoGurgelcriticoliterario/?fref=nf.

Boa leitura!

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Como a universidade poderia auxiliar na formação de bons leitores de literatura, de bons professores de literatura ou de bons críticos literários?

Primeiro, ela precisa colocar o texto literário acima das teorias. Segundo, deve oferecer ao estudante um panorama fidedigno dos estudos literários — um panorama isento de ideologia. O que, é claro, não acontece.

Costumo dar um exemplo muito comum, que se repete em nossos cursos de Letras: quase todo estudante precisa ler, no Brasil, algumas páginas do “Poética da Prosa”, de Tzvetan Todorov, obra publicada em 1971. Mas é raríssimo encontrar professores que se esforçam para mostrar que Todorov continua ativo em seu trabalho intelectual e, passados mais de 30 anos, em 2007, publicou “A literatura em perigo”, livro no qual recusa as soluções que defendeu no início da carreira, quando participava do grupo estruturalista, e mostra como aquelas ideias prejudicaram a literatura e precisam ser superadas.

Como dizia Ezra Pound, referindo-se aos estudos literários, “o primeiro pântano de inércia pode ser devido à mera ignorância da extensão do assunto ou ao simples propósito de não se afastar de uma área de semi-ignorância. A maior barreira é erguida, provavelmente, por professores que sabem um pouco mais que o público, que querem explorar sua fração de conhecimento e que são totalmente avessos a fazer o mínimo esforço para aprender alguma coisa mais”.

As universidades voltarão a ser úteis quando abandonarem a mera doutrinação dos alunos e decidirem cumprir sua verdadeira função: inserir os alunos no grande debate da inteligência, em que todos podem evoluir e mudar livremente de pensamento.

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Aprendizagem

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Houve um tempo em que, para se comer uma pamonha de milho verde, levava-se quase um dia todo. Primeiro colher as espigas ou, se já colhidas estivessem, descascá-las – tomando cuidado para preservar as palhas melhores, para embrulhar as pamonhas -, limpá-las – tirar aquele “cabelinho” era muito custoso -, lavá-las e raspá-las “até o sabugo” – no adagiário popular esta expressão pode querer dizer outra(s) coisa(s), mas declino do direito de me alonga sobre tal assunto… Depois disso era moer tudo aquilo, numa máquina de moer carne, coisa que cansava, levava tempo e doía. Daí se coava aquela matéria quase líquida, o que demandava mais um tanto de tempo. O que resultava da coagem era cozido, lentamente. Acrescentava-se queijo, açúcar, leite e dá-lhe ficar mexendo – com um colher de pau, é claro! – até que ficasse cozido. O resultado era um mingau de milho verde, muito popular. Se, por acaso, se quisesse mesmo comer pamonha de milho verde, era necessário fazê-las, antes de cozinhar a matéria coada, como dantes. Fazia-se uma espécie de bolsa com uma ou duas palhas verdes de milho. Enchia-se esta bolsinha com o líquido amarelo, devidamente “temperado” – o queijo e o açúcar! – e colocava-se a bolsinha em água fervente para cozinhar. O tempo para ficar pronto, amim sempre pareceu intuitivo. Calma… ainda não acabou! Depois der cozido, esperava-se esfriar um pouco para então saborear o quitute… dos deuses. É de comer rezando, de joelhos, agradecendo a Deus a oportunidade de ter vivido com saúde, e paladar, até aquele momento! Ufa! \pode ser que alguém tenha se cansado e até desistido de chegar até aqui com a leitura. Ou pior, tenha desistido de experimentar a guloseima. Não desista. Se não quiser fazer esforço algum – perdendo, é claro, todo o prazer do processo de feitura – vá a uma casa que venda pamonhas ou então atenda ao reclame enjoado e repetitivo daqueles carros que passam gritando a mesma lenga-lenga de sempre: “Olha a pamonha!”. Não tem graça.

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Esta pequena historieta que aproveito de uma entrevista com um psicólogo que vi na internete esta manhã (esqueci de anotar o endereço eletrônico) é para fazer pensar sobre o que é – em um exemplo apenas – a educação de filhos. Conforme o psicólogo – e faço minhas as palavras dele! – os pais têm que se fazer respeitar para serem amados. Hoje, boa parte desta dupla de pessoas que se auto denominam “pais” querem ser amados, sem dispender o esforço de ensinar o que é respeito. Não dizem não. Atendem a todos os pedidos dos filhos. Não mostram e impõem limites. Não dão a palmada salvadora quando a acriança desobedece e põe a mão onde não devia, depois de avisada. E querem ter o respeito dos filhos. Não dá! Muitos pais não deixam seus filhos caírem no chão, quando estes dão seus primeiros passos, sob o falso e falaz argumento de que estão evitando acidentes e/ou um trauma. Bobagem! Firula! Covardia! A criança tem que cair para aprender a se levantar e aprender também que ela tem limites. A história da pamonha serviu para o psicólogo e agora serve pra mim na tentativa de sinalizar para a importância do convívio, da conversa, da troca de experiências, da exemplificação, da demonstração de como uma coisa é feita. A criança vai aprender que pamonha não “aparece” pronta do nada. Ela querer saber como e porquê. Ela vai “participar” interagindo e colaborando. Isso é aprendizagem. Não há tecnologia de inserção que consiga superar esta experiência…

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Chatices

Faz muito tempo que não escrevo nada. Preguiça, saudade, opinião, indignação, material didático: os assuntos variam muito. Resolvi voltar hoje por conta de um texto que li no Facebook e de que gostei dadas as circunstância de mudanças propostas pelo governo interino que se instalou no Planalto. Especificamente, meu intuito é expressar minha concordância com o texto que vai abaixo. Não disse nada na minha página do Facebook, nem comentei o tal texto, por conta do fato de não querer mais ser incomodado, inclusive por amigos, quando repasso coisa. Jamais o fiz à luz de convicções políticas; coisa que, aliás, penso não ter… E não me envergonho disso. Lá vai…

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“- Aiinnn! Não há negros e mulheres no ministério!
Olha, sinceramente: eu nem deveria comentar, mas vou.
Apenas donos de mentes tacanhas, baldias, ordinárias, pervertidas e PROFUNDAMENTE PRECONCEITUOSAS poderiam, em um momento como esse, olhar para um ensaio de novo governo com olhos de FISCAL DE MELANINA ou avaliando que tipo de balangandã as pessoas têm entre as pernas.
Apenas gente irrecuperavelmente viciada e DOENTE é capaz de acreditar que um pessoa negra não pode ser representada por uma pessoa branca – ou vice-versa; ou que uma mulher não pode ser representada por um homem – ou vice-versa.
Filhinhos (as), deixa o tio contar uma coisa pra vocês, com muito cuidado pra não abalar o mundo de fantasia, cheio de frágeis cristais, que vocês habitam:
nós estamos vivendo em um país ESCANGALHADO por quase catorze anos de política populista e irresponsável, a máquina pública está à beira do COLAPSO, há cidades inteiras FALIDAS, mais de ONZE MILHÕES de pessoas estão à procura de emprego (sem contar outros milhões que não entram nas estatísticas porque não têm e nem procuram ocupação) e UM MILHÃO E OITOCENTAS MIL empresas fecharam só em 2015;
não é POSSÍVEL que pessoas teoricamente “instruídas” sejam tão completamente dominadas pela ESTUPIDEZ IDEOLÓGICA a essas alturas do campeonato.
Essa porcaria desse ministério (no qual inclusive foi necessário alojar algumas criaturas desprezíveis remanescentes do governo que vocês tanto amavam) é o que tem para o momento, foi o que deu pra fazer, é com isso aí que a gente vai daqui pra frente e é dessas pessoas que a gente espera, no mínimo, uma chacoalhada que dê algum ÂNIMO ao país – pouco importando se o sujeito é branco, preto ou amarelo, se mija em pé ou sentado.
Nós sabemos que o petismo – provavelmente a vertente esquerdista mais JECA já surgida desde a Revolução Bolchevique – é uma infecção generalizada, um flagelo do qual possivelmente jamais nos livraremos por completo.
Mas, PELO AMOR DE DEUS:
pelo menos TENTEM sair desse infantilismo melindroso, uma vez na vida TENTEM raciocinar acima do padrão Catraca Livre, pelo menos TENTEM não passar vergonha.
Ou, se realmente não der: tentem ficar calados por algum tempo.
Vocês já deram no saco.”
(Fábio Pregucci)

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Sensatez

Acabo de ler o sensato texto (abaixo) na página da Revista Carta Capital (http://www.cartacapital.com.br/sociedade/precisamos-falar-sobre-a-vaidade-na-vida-academica). Deixando de lado as picuinhas que costumam pulular na disputa pela “audiência” inteligente na/da terra brasilis – sobretudo o que se refere a “revistas” informativas -, penso que a sensatez de quem escreveu o texto é inquestionável. Bem… Nem tanto! A exceção, para o meu gosto, está nos dois últimos parágrafos que, em dias de mais ânimo e em condições favoráveis de temperatura e pressão, eu aceitaria comentar e debater, mas… De qualquer maneira, não vejo porque não usar um chavão: assinaria embaixo!

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Precisamos falar sobre a vaidade na vida acadêmica

Combater o mito da genialidade, a perversidade dos pequenos poderes e os “donos de Foucault” é fundamental para termos uma universidade melhor
por Rosana Pinheiro-Machadopublicado 24/02/2016 03h37, última modificação 24/02/2016 12h17

A vaidade intelectual marca a vida acadêmica. Por trás do ego inflado, há uma máquina nefasta, marcada por brigas de núcleos, seitas, grosserias, humilhações, assédios, concursos e seleções fraudulentas. Mas em que medida nós mesmos não estamos perpetuando essemodus operandi para sobreviver no sistema? Poderíamos começar esse exercício auto reflexivo nos perguntando: estamos dividindo nossos colegas entre os “fracos” (ou os medíocres) e os “fodas” (“o cara é bom”).

As fronteiras entre fracos e ‘fodas’ começam nas bolsas de iniciação científica da graduação. No novo status de bolsista, o aluno começa a mudar a sua linguagem. Sem discernimento, brigas de orientadores são reproduzidas. Há brigas de todos os tipos: pessoais (aquele casal que se pegava nos anos 1970 e até hoje briga nos corredores), teóricas (marxistas para cá; weberianos para lá) e disciplinares (antropólogos que acham sociólogos rasos generalistas, na mesma proporção em que sociólogos acham antropólogos bichos estranhos que falam de si mesmos).

A entrada no mestrado, no doutorado e a volta do doutorado sanduíches vão demarcando novos status, o que se alia a uma fase da vida em que mudar o mundo já não é tão importante quanto publicar um artigo em revista qualis A1 (que quase ninguém vai ler).

Na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, dizíamos que quando alguém entrava no mestrado, trocava a mochila por pasta de couro. A linguagem, a vestimenta e o ethosmudam gradualmente. E essa mudança pode ser positiva, desde que acompanhada por maior crítica ao sistema e maior autocrítica – e não o contrário.

A formação de um acadêmico passa por uma verdadeira batalha interna em que ele precisa ser um gênio. As consequências dessa postura podem ser trágicas, desdobrando-se em dois possíveis cenários igualmente predadores: a destruição do colega e a destruição de si próprio.

O primeiro cenário engloba vários tipos de pessoas (1) aqueles que migraram para uma área completamente diferente na pós-graduação; (2) os que retornaram à academia depois de um longo tempo; (3) os alunos de origem menos privilegiada; (4) ou que têm a autoestima baixa ou são tímidos. Há uma grande chance destas pessoas serem trituradas por não dominarem o ethos local e tachadas de “fracos”.

Os seminários e as exposições orais são marcados pela performance: coloca-se a mão no queixo, descabela-se um pouco, olha-se para cima, faz-se um silêncio charmoso acompanhado por um impactante “ãaaahhh”, que geralmente termina com um “enfim” (que não era, de fato, um “enfim”). Muitos alunos se sentem oprimidos nesse contexto de pouca objetividade da sala de aula. Eles acreditam na genialidade daqueles alunos que dominaram a técnica da exposição de conceitos.

Hoje, como professora, tenho preocupações mais sérias como estes alunos que acreditam que os colegas são brilhantes. Muitos deles desenvolvem depressão, acreditam em sua inferioridade, abandonam o curso e não é raro a tentativa de suicídio como resultado de um ego anulado e destruído em um ambiente de pressão, que deveria ser construtivo e não destrutivo.

Mas o opressor, o “foda”, também sofre. Todo aquele que se acha “bom” sabe que, bem lá no fundo, não é bem assim. Isso pode ser igualmente destrutivo. É comum que uma pessoa que sustentou seu personagem por muitos anos, chegue na hora de escrever e bloqueie.

Imagine a pressão de alguém que acreditou a vida toda que era foda e agora se encontra frente a frente com seu maior inimigo: a folha em branco do Word. É “a hora do vâmo vê”. O aluno não consegue escrever, entra em depressão, o que pode resultar no abandono da tese. Esse aluno também é vítima de um sistema que reproduziu sem saber; é vítima de seu próprio personagem que lhe impõe uma pressão interna brutal.

No fim das contas, não é raro que o “fraco” seja o cavalinho que saiu atrasado e faça seu trabalho com modéstia e sucesso, ao passo que o “foda” não termine o trabalho. Ademais, se lermos o TCC, dissertação ou tese do “fraco” e do “foda”, chegaremos à conclusão de que eles são muito parecidos.

A gradação entre alunos é muito menor do que se imagina. Gênios são raros. Enroladores se multiplicam. Soar inteligente é fácil (é apenas uma técnica e não uma capacidade inata), difícil é ter algo objetivo e relevante socialmente a dizer.

Ser simples e objetivo nem sempre é fácil em uma tradição “inspirada” (para não dizer colonizada) na erudição francesa que, na conjuntura da França, faz todo o sentido, mas não necessariamente no Brasil, onde somos um país composto majoritariamente por pessoas despossuídas de capitais diversos.

É preciso barrar imediatamente este sistema. A função da universidade não é anular egos, mas construí-los. Se não dermos um basta a esse modelo a continuidade desta carreira só piora. Criam-se anti-professores que humilham alunos em sala de aula, reunião de pesquisa e bancas. Anti-professores coagem para serem citados e abusam moral (e até sexualmente) de seus subalternos.

Anti-professores não estimulam o pensamento criativo: por que não Marx e Weber? Anti-professores acreditam em lattes e têm prazer com a possibilidade de dar um parecer anônimo, onde a covardia pode rolar às soltas.

 O dono do Foucault

Uma vez, na graduação, aos 19 anos, eu passei dias lendo um texto de Foucault e me arrisquei a fazer comparações. Um professor, que era o dono do Foucault, me disse: “não é assim para citar Foucault”.

Sua atitude antipedagógica, anti-autônoma e anti-criativa, me fez deixar esse autor de lado por muitos anos até o dia em que eu tive que assumir a lecture “Foucault” em meu atual emprego. Corrigindo um ensaio, eu quase disse a um aluno, que fazia um uso superficial do conceito de discurso, “não é bem assim…”.

Seria automático reproduzir os mecanismos que me podaram. É a vingança do oprimido. A única forma de cortamos isso é por meio da autocrítica constante. É preciso apontar superficialidade, mas isso deve ser um convite ao aprofundamento. Esquece-se facilmente que, em uma universidade, o compromisso primordial do professor é pedagógico com seus alunos, e não narcisista consigo mesmo.

Quais os valores que imperam na academia? Precisamos menos de enrolação, frases de efeitos, jogo de palavras, textos longos e desconexos, frases imensas, “donos de Foucault”. Se quisermos que o conhecimento seja um caminho à autonomia, precisamos de mais liberdade, criatividade, objetividade, simplicidade, solidariedade e humildade.

O dia em que eu entendi que a vida acadêmica é composta por trabalho duro e não genialidade, eu tirei um peso imenso de mim. Aprendi a me levar menos a sério. Meus artigos rejeitados e concursos que fiquei entre as últimas colocações não me doem nem um pouquinho. Quando o valor que impera é a genialidade, cria-se uma “ilusão autobiográfica” linear e coerente, em que o fracasso é colocado embaixo do tapete. É preciso desconstruir o tabu que existe em torno da rejeição.

Como professora, posso afirmar que o número de alunos que choraram em meu escritório é maior do que os que se dizem felizes. A vida acadêmica não precisa ser essa máquina trituradora de pressões múltiplas. Ela pode ser simples, mas isso só acontece quando abandonamos o mito da genialidade, cortamos as seitas acadêmicas e construímos alianças colaborativas.

Nós mesmos criamos a nossa trajetória. Em um mundo em que invejas andam às soltas em um sistema de aparências, é preciso acreditar na honestidade e na seriedade que reside em nossas pesquisas.

 Transformação

Tudo depende em quem queremos nos espelhar. A perversidade dos pequenos poderes é apenas uma parte da história. Minha própria trajetória como aluna foi marcada por orientadoras e orientadores generosos que me deram liberdade única e nunca me pediram nada em troca.

Assim como conheci muitos colegas que se tornaram pessoas amargas (e eternamente em busca da fama entre meia dúzia), também tive muitos colegas que hoje possuem uma atitude generosa, engajada e encorajadora em relação aos seus alunos.

Vaidade pessoal, casos de fraude em concursos e seleções de mestrado e doutorado são apenas uma parte da história da academia brasileira. Tem outra parte que versa sobre criatividade e liberdade que nenhum outro lugar do mundo tem igual. E essa criatividade, somada à colaboração, que precisa ser explorada, e não podada.

Hoje, o Brasil tem um dos cenários mais animadores do mundo. Há uma nova geração de cotistas ou bolsistas Prouni e Fies, que veem a universidade com olhos críticos, que desafiam a supremacia das camadas médias brancas que se perpetuavam nas universidades e desconstroem os paradigmas da meritocracia.

Soma-se a isso o frescor político dos corredores das universidades no pós-junho e o movimento feminista que só cresce. Uma geração questionadora da autoridade, cansada dos velhos paradigmas. É para esta geração que eu deixo um apelo: não troquem o sonho de mudar o mundo pela pasta de couro em cima do muro.

registrado em: Rosana Pinheiro-Machado

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