Possibilidades

“Valério foi um homem de bem. Ele era casado com Iracema e teve cinco filhos: Luíza, Regis, Maura, Anderson, Valdemar e Silésio. Era descendente de alemães. O pai dele era de Bremen e a mãe de Dresden. Ele nasceu em outra terra, do outro lado do mar: Santo Anselmo. Numa terra linda, vermelha, rica em nutrientes, fértil. Fez de tudo um pouco, na infância, adolescência e juventude, para ajudar a família. Mudou-se para uma cidade maior e tornou-se padeiro. Foi assim que ele criou sua família. Uma família grande, de gente alta, de pele branca, olhos claros traços finos. Toda a família era muito ciosa de seus valores e se vangloriava de sua origem, de sua ascendência. Luíza teve uma filha e depois ficou viúva. Regis, que teve dois filhos, divorciou-se algum tempo depois de casada. Maura era diferente, triste, reclusa, tímida, muito diferente de todos os irmãos. Teve um filho também que, depois de adulto, tornou-se artista plástico de sucesso na Europa oriental. Anderson continua casado e tem um casal de filhos. Valdemar tem dois filhos e vive com muitas dificuldades, apesar de todo apoio da família. Por fim, Silésio, o mais jovem e o mais bonito. Pai de duas meninas lindas, não suportou a vida de casado com uma mulher quase inexpressiva – para os padrões de sua família – e divorciou-se. Todos, filhos de Valério, um homem de bem. Quando um irmão de Valério morreu, o que ficou de sua família foi prestar sua solidariedade. Maura não foi porque já tinha morrido. Valdemar e Silésio foram bem mais tarde, quase na hora do enterro. Já Regis e Anderson foram com a mãe e os dois filhos de Regis, acompanhador por Luíza. Ficaram menos que meia hora. Comparecimento protocolar. O escritor observou tudo, com cuidado e atenção. Tomou notas. Reunia material para tentar explicar o que se passou com quem o contratou para escrever sua biografia. O trabalho ia ser longo. Observar pessoas é como pisar em ovos quentes. Todo cuidado é menos que pouco. Muita acuidade. Sensibilidade à flor da pele. O trabalho ia ser longo e penoso. O escritor, ademais, sabia: Valério foi um homem de bem.”

Este é o início de um romance que acabei de ler para fazer a revisão da tradução que dele foi feita. A pedido do autor, não posso revelar, nem seu nome, nem o título de seu romance. Um texto interessantíssimo. Escrito por um homem maduro, que jamais fez uma “oficina de escrita criativa”. Um homem que lê muito. Um homem interessante, que exerceu sua profissão. Um homem comum. O livro parte de uma situação corriqueira que vais, aos poucos, revelando aspectos inusitados das relações humanas, sobretudo aquelas que são chanceladas com o selo “familiar”. Histórias de todo mundo, de todo dia. Histórias que nem todo mundo gosta de contar, mas de derrete de vontade de escutar e goza com elas. É esperar pela publicação do livro e se deleitar. Se eu me lembrar, aviso, quando do lançamento.

Anúncios

A prova da cobra

Foi assim, da primeira vez. Era uma prova de concurso, 1991. Prova escrita. Cinco horas para fazer. Uma hora de consulta e quatro horas para redação. Uma tortura. No fim, a mão e o braço já não respondem ao impulso do cérebro. A gente fica parecendo um robô com falha elétrica em seu sistema motor. Uma tortura. Mas estava lá eu. O ponto sorteado tinha por nome “A escola de Frankfurt”. E eu pensei comigo: que diabos é isso. Sinceramente, até aquele momento (e que momento!) eu jamais tinha ouvido ou lido tal expressão. Mas estava ali, na minha frente, escrito no quadro-negro (que jamais foi negro, sempre verde, a lousa, ou pedra, como já ouvi dizerem…!). Escola de Frankfurt. Fiquei sem saber por onde começar a pensar no que escrever e, pios, onde pesquisar, no meio dos tantos livros que carreguei para a hora de consulta que a prova nos dava. Nada. Eu tinha que escrever alguma coisa. Daí em me lembrei de Horkheimer, Benjamin e Adorno. Fui me lembrar de que eles, alemães, sempre se reuniam para partilhar ideias, discutir teorias, fixar axiomas para o resto da patuleia que ocupa o planeta e se acha preparada para ler e entender o que eles diziam, assim, sem grande dificuldade. Três de um grupo inumerável de schollars! Pois então. Lembrei deles e de algumas ideias deles. Lembrei da afinidade pensamento e sua relação coma tal de modernidade. Pensando nisso, resolvi argumentar que a prática do encontro frequente entre eles, fazia com que o trabalho de cada encontrasse no trabalho de cada outro certa identificação. No mínimo, os três podiam ser lidos num diapasão de Inter comunicabilidade, um diálogo de ideias e posicionamentos. Ainda que não chegassem a um denominador comum, eliminando diferenças, o pensamento dos três poderia ser considerado sob o apanágio de uma perspectiva epistemológica única comum. Decidi então dar nome a esta perspectiva: Escola de Frankfurt. A justificativa de minha escolha se assentou no fato de que esta cidade alemã era o local aos corriqueiramente escolhido para esses encontros e outros, com outros pensadores. Daí à sustentação da hipótese, o passo foi curto. Deram-me a nota máxima.

A segunda vez foi alguns anos mais tarde, 1996. De novo, prova escrita de concurso. O ponto tinha por título: “Dois aspectos da poética da dor: Alphonsus de Guimarães e António Nobre”. Que diabos era “estética da dor”? Tudo que eu sabia sobre António Nobre era que ele foi um poeta português importante. Do ouro, mineiro, conheci no colégio um soneto: “A catedral”. Mais nada. Isso era tudo o que eu tinha de informação. Tinha estudado alguma coisa sobre os dois poetas para preparação do concurso. Mas na hora agá, veio a dúvida: o que fazer com o que eu tinha estudado? O que diabos era a tal de “poética da dor”? Sabia que o mineiro escrevera poesia muito melancólica, um tanto sombria e fantasmagórica até. Bem ao gosto das brumas marianenses de seu tempo. M sofrimento calado, perdido na noite, gemido em responsos e sonetos de gosto simbolista apurado. É o que dizem. Já o português representou certa revolução na península. De formação romântica, ultrapassou as amaras simbolistas e decadentistas propondo obra que, em utilizando os recursos vigentes, projeta poética que ultrapassa limites e, em alguma medida, alarga caminhos para as portas já abertas para o Modernismo lusitano na Literatura. Havia melancolia também, mas de outro diapasão: mais atormentado, mais simbolista ainda, algo mais empírico. Foi pensando assim que resolvi nomear de “poética da dor” o exercício de expressão poética – ou exercício poético de expressão, o leitor escolhe! – da tal de dor. Estava identificada a tal poética. Acrescentei alguns comentários sobre alguns versos e voilá! Estava escrita a prova. Outra nota máxima! Ao final do concurso, com os envelopes lacrados e assinados, senti-me à vontade para perguntar à presidente da banca como foi que me deram a nota máxima para uma prova tão “montada”. E ela, com um sorrisinho matreiro disse que eu sabia me sair muito bem de situações difícil.

Resultado de imagem para prova escrita

É por essas e por outras que sempre falei que, esgotadas todas as saídas possíveis, a carta na manga pode ser a “prova da cobra”. Trata-se de uma historinha ouvida não sei quando, contada não me lembro por quem, sem ideia de onde, que narra o que se passou com um estudante do ginasial – quem tem mais de 40 anos vai saber do que se trata, o tal de ginasial! – que se preparava ara a prova oral de Zoologia. Ele, ao começar a estudar, tinha convicção absoluta de que ia cair, como ponto de prova, os répteis. Como não tinha dúvida disso, mesmo sem saber se de fato ia acontecer desse modo, estudou o que conseguiu sobre répteis. No dia da prova, ao sortear o seu ponto, saiu mamíferos. O estudante tinha meia hora para dissertar oralmente sobre os mamíferos. Ficou apertado. E começou a falar uma coisinha aqui, outra ali e o tempo não passava, Falou, então, do elefante, mamífero interessante por conta de um apêndice, a tromba. A tromba do elefante parece uma cobra, disse o estudante. Por falar em cobra… e gastou o resto do tempo falando da cobra. Ganhou nota máxima. Foi essa a lição que aprendi e utilizei, a prova da cobra. Fica a ideia!

Retomada

images

Semana truncada, para não dizer complicada. Feriado atravessado – com perdão da rima paupérrima. Dispepsia intestinal. Mais preguiça, muita preguiça. Notícias não muito alvissareiras de longe, do litoral. Mais uma semana, em nada e por nada, igual às outras, em que pese o fato de ser exatamente igual às outras. Vai entender. Por isso o silêncio, a ausência, as páginas diárias em branco. O ensaio interrompido do diário. Mas muito pouca gente se importa. E isso basta.

download

Pois é assim. As meninas se viram pra sobreviver. Do melhor jeito que podem e sabem. E vão vivendo. Mas aí o rapazinho metido e abelhudo, com cara de bom moço, sorriso matreiro e oportunista se mete, se auto convida, se promove. E fala e seduz e adula e faz o jogo que o mainstream elege como o correto, o certo, o legal, o que dá lucro, o que leva ao sucesso, à celebridade. Pobres meninas. São analisadas, julgadas, reviradas, criticadas, “orientadas”. A pseudo “banca” de experts – como se o sucesso de um fosse igual ao acesso do outro, mesmo com a mesma metodologia, são sujeitos diferentes, desiguais individualidades. Não adianta. Os mass media não aceitam exceções, impõem regras e quem quiser que se submeta, mesmo sem ter a mínima ideia do preço a pagar. Depois. E lã vão as meninas, nervosas, angustiadas. E o mocinho, com o mesmo sorrisinho cínico – com a devida vênia aos filósofos – instiga a ansiedade, o medo, o temor e ainda debocha, dizendo que vão aparecer. Populismo em sua mais execrável perversidade. Mas sou um chato.

images

Resolvi que, por algum tempo, vou colocar aqui algumas das monografias que escrevei há 32 anos. Trabalhos finais das disciplinas do mestrado na Unb. Tive a ideia de fazer um livro introdutório à Literatura Comparada com o conjunto desses textos. Fui dissuadido pelo tempo, os afazeres e a íntima certeza, quase absoluta de que o volume seria apenas mais uma ganhar poeira em alguma estante perdida pelo planeta. Na época, era essa a imagem. Hoje se fala em ebook, como se fosse um avanço imenso. Bem, por um lado, é mesmo. Mas só por um lado. Desisti. Agora, remexendo papeis velhos para uma faxina, encontro o conjunto e começo a reler. Fico admirado. Algumas intuições já estavam lá. O cuidado com a forma do discurso também. O respeito a certas medidas iniciais do protocolo “acadêmico”, da mesma forma. Fiquei feliz. Resolvi que uma vez por semana vou coloca-los aqui. Pretendo fazê-lo uma vez por semana, pra aliviar a presumida obrigação de escrever todos os dias. Pode ser que acabem por ter o mesmo destino que os idealizados volumes aludidos. Não importa. Foi em quem os escreveu e tenho muito orgulho de tê-lo feito. Ainda que continue sendo um chato. Aguardem…

download

Delírio: um romance

images (1)

“Então fica assim.

Fica assim como não havia ficado antes ou sempre tinha ficado.

Mas como assim, fica assim? Ih… uma rima, paupérrima, mas rima.

Isso poderia até ser o começo de um poema. Não há rima? Então… Se tem rima é poesia. Não é assim que “o povo” pensa? E não venha me dizer que isso é preconceito meu. Não é. Dá uma olhada em volta. Gaste um tempo sem olhar para o celular (andando, de preferência”) e dê uma olha em qualquer página de qualquer publicação que ousa publicar “poesia”. Há de se ver uma rima. Nem que seja um. Umazinha só… Não é regra, mas acontece. Claro que há poemas sem rima. Há publicações que mostram poemas sem rima. Como eu disse, não há regra. E mesmo que houvesse, não dizem por aí que toda regra tem exceção? Quanta originalidade… Que falta de assunto… Ai que preguiça! Se ao menos alguém prestasse atenção… Mas não… na primeira semana, você diz que não pode voltar da casa de seus pais a tempo. Chegou no dia seguinte ao começo de tudo. Pois bem. Como não há maneira de comprovar a veracidade do argumento passa. Na segunda semana, a sua desculpa – sim, trata-se de uma desculpa e não mais que isso – foi a conjuntivite. Para criar um “fato”, você manda dizer que não vai faltar da próxima vez. Há quem tenha acreditado… Como previ… nada… Nem desculpa nem nada… absoluta indiferença. Como se isso não havia acontecido antes. Já aconteceu, mas não assim. Então você levanta a voz e se diz prejudicada porque teve seus direitos vilipendiados. Que tem sido tratada com preconceito e assédio, blá… blá… blá… Quem deveria prestar atenção e dar assistência, está mais preocupado com a sobrecarga da colega recém-chegada… Clama por ajuda e argumenta que ela não é capaz d recolher item por item para a tal tabelinha. E você ali, de nariz empinado, olhando para os outros com desdém, falando alto, cortando a palavra alheia e cheia de razão. Isso também não é novidade. O dia passa. O calor da arde traz mais insetos. O cheiro de mofo se acentua. O silencia dos corredores é quase assustador. A noite cai – se machucou? A noite cai. O silêncio continua. Por sobre as pedras tricentenárias, poucos passos. Apena alguns murmúrios. Passos e murmúrios a cada dia mais escassos, apesar do tempo que correu e deixou suas marcas. Musgo entre as pedras. Cabeça de cruz cortada. Porta amarrada com fibra plástica. Lona estendida no chão. Telhas velhas quebradas. E você lá… Impávida… Esperando que o mundo pare pra prestar atenção em você, tão sem sal, tão sem graça, tão assim… O tempo passa. Muita gente continua escrevendo poesia com rima. Muita outra gente também continua escrevendo poesia sem rima. E a poesia continua, como você, impávida…”

images

Cartas

Entre as muitas agruras que podem ser lidas diariamente, é possível encontrar um oásis de poesia, sinceridade e delicadeza nas palavras de um ser humano. Nesses dias recheados de tragédias, incidentes vergonhosos, superficialidade, escrever passou a ser uma espécie de terapia. Neste rol, inclui-se a carta, a esquecida carta. Houve uma vez que, em casa de uma amiga em Santa Cruz-RS, perguntei à minha anfitriã se poderia me emprestar seu bloco de papel de carta e me dar um envelope para eu escrever uma carta. espantada, ela disse que não tinha, nem o bloco, nem o envelope. mais espantado ainda, eu perguntei como isso era possível na casa de uma professora de literatura!

Estereótipos à parte, fiquei sinceramente estupefato. Mas o tempo passou. Hoje, você digita (Houve um tempo em que o verbo era datilografar… E num tempo mais remoto ainda, escrever – à mão! Imagina!) umas letras e segundos depois ela atravessa três oceanos e duas cordilheiras e deixa feliz ou triste, apreensivo ou relaxado, irritado ou resignado, o outro lado, alguém que, talvez você nunca venha a ver face a face. Milagre? Progresso? Ficção? Vai saber…

Recebi a mensagem que segue de uma amiga-irmã, muito querida. Ela fala desse assunto…

 

“aki naum paramos d escrever
o q eh d+ (Angela Cristina Fonseca)

Tenho saudade de escrever cartas. De ir à papelaria atrás de bloco pautado e envelope. Aqui um parêntese: visitar papelaria sempre foi, para mim, uma aventura sensorial. Gosto de papel, acaricio para sentir a textura; encanto-me com os mais variados tipos de cadernos, blocos, pastas organizadoras, em cores e formatos diferentes; adoro as novas engenhocas usadas para apontar lápis, grampear e clipar, a cada dia mais atrativas; as caixas, de todos os tamanhos e padrões, lindas, de encher os olhos: os lápis – sempre os B’s! -, de maciez variável, respondendo ao toque das mãos, firme ou suave. E os cheiros… ah, os cheiros!… Na verdade, aromas, quase feromônios para minhas narinas irremediavelmente seduzidas… Fecho parêntese.
A última carta pessoal que escrevi data de 2009. O destino, inusitado. Um amigo-irmão, professor de literatura portuguesa, fora passar dois anos na Croácia. Leitorado na Universidade de Zagreb. Muitos de vocês sabem de quem se trata. Conversávamos quase semanalmente no skype, pelo prazer de podermos nos ver. Trocávamos e-mails também, quando havia material didático interessante para compartilhar. Mas, as cartas, não muitas, faziam parte expressiva de nosso repertório de comunicação. É interessante: esse mesmo amigo já viveu umas tantas vezes fora de Belo Horizonte, depois que nos conhecemos. Ausências sempre ligadas à carreira acadêmica. E sempre trocamos cartas. Poucas, a bem da verdade, porém extraordinárias. A primeira parte era constituída de pequenos contos ou crônicas a respeito do que nos acontecia no cotidiano, entretanto, narrados na terceira pessoa, como se outras fossem as personae. Só depois vinha a parte, digamos, mais social e prosaica. Eu adorava.
Outro amigo, artista plástico, ilustrava suas cartas com seus desenhos, que, de tão primorosos, inspiraram-me a ideia de realizar uma exposição, intitulada CARTAS, com aquelas obras de arte. A qual acabou não acontecendo, infelizmente.
Já escrevi muitas cartas nestes meus quase sessenta e seis anos de vida. A maioria à mão. Foi um longo tempo sem computador (não havia, ainda!) e outro tanto, anteriormente, sem máquina de escrever (que só pude comprar já adulta, com o fruto do meu trabalho).
Fico pensando nos jovens de hoje e suas máquinas touch screen. A sensibilidade ao toque não substitui a sensibilidade amorosa de trocar cartas: o prazer de fechá-las como se fossem um cofre cheio de segredos; de colar os selos, que já foram verdadeiros objets d’art miniaturizados; de ir aos Correios, postá-las; e, depois, conferir diariamente a caixa postal, na expectativa de uma resposta.
Vivemos um tempo acelerado, de msgs curtas e cheias de códigos, abreviaturas e ícones. Como no título que dei a esta crônica.
Estou viva e – normal! – vou envelhecendo. Vejo abreviar-se o meu tempo de permanência no planetinha azul, embora não arrefeça o meu desejo de escrever. Venho, então, buscando as referências do meu passado. Lembro-me do dia em que fui enviar a tal carta para a Croácia, com um endereço cheio de palavras estranhas, e o funcionário da agência comentou: “Nossa, nunca tive nas mãos, até hoje, qualquer correspondência para o leste europeu!…”
É por causa destes pequenos eventos que volta, sempre, a saudade de escrever cartas…”

 

Para romance 3 – Razões

“Encontrei a razão e o motivo para escrever. Ele é alto, muito alto. Cabelos avermelhados, arrepanhados num rabo de cavalo muito bem preso. O resto recortado e grande, emoldurado por dois olhos cor de avelã e a boca, carnuda e vermelha. Malares proeminentes completam o quadro viril que vai ostentado por uma musculatura bem definida e forte, sem exagero. Veste-se de maneira comum, sem estereótipos ou gestos estudados. A primeira impressão é de força e poder. Mãos grandes, pernas possantes, costas largas e voz doce. Contrastes… Escreveu durante os anos de convivência com Daniel os seus seis cadernos. Jamais se tocaram. Quando Daniel chegou, ele serviu-se de mais chá e retomou a escrita. Onze anos haviam se passado e muita coisa mudou. Os cadernos meticulosamente guardados, ostentavam numeração seguida. O quatro era o mais volumoso, mas o sexto parecia conter informações mais consistentes. Não sei exatamente de onde tirei essa ideia. Talvez, depois da conversa com Daniel, esse insight tenha acontecido. Samuel era russo de origem e viveu muito tempo sob o sol da Toscana, onde conheceu Vera, com quem quase se casou. Ali começaram as especulações dos outros editores. Daniel me conta que Samuel o amava “à distância”. Isso não era amor platônico. Misto de respeito, medo e insegurança, Samuel não sabia outro modo de se fazer feliz a não ser sendo o arrimo de Daniel. A rima, nos nomes, ajudava a composição quase melancólica da história de amor que os dois viveram. Sem sexo, sem ciúmes, sem planos. Os anos passarm entre as viagens à Itália, na vindima; à Grécia depois do verão, e à América do Sul, para o negócio do vinho. Sempre juntos. A investigação policial que se espraiou sobre aqueles meses de tormento, explica a ausência às duas últimas apresentações do grupo de teatro de que tanto gostavam. Interessaava-me mais ler os cadernos. Samuel conheceu o detetive por conta de um rapaz português que se apresentou à cafetina, gerente de um bar sórdido, perto da estação ferroviária. O “alfacinha” vinha atrás do tal cantor de fado que desaparecera. Ele disse ter chegado da América do Norte, depois de passar boa parte da juventude trabalhando numa casa de campo, no norte de Portugal. Contou uma história esquisita sobre a família, masi esquisita ainda, com quem passou os últimos quatro anos. O cantor de fado não me interessa. A história do rapaz português também não. Os outros editores se ocupariam disso, com prazer. Estava interessado nos cadernos de Samuel. Isso é que me ocupava o pensamento enquanto andava na direção da estação de trem.

Personagens de um romance bem escrito, Daniel e Samuel, a cafetina, o cantor de fado, o rapaz português e o detetive, o grupo formava o dramatis personae de uma história que eu gostaria de ter escrito. Só de pensar na descrição de Samuel, ficava excitado. Fantasias se alimentavam das palavras do livro que a cada página fascinava mais e mais. Um livro que se diferenciava de últimos que tinha lido. Uma história bem contada, bem escrita, sem a preocupação de “inventar moda”. Uma história bem contada. Trama bem urdida que excitava e consumia a atenção, fascinando a mente na busca de continuar seguindo as linhas como pistas para solução de um enigma. Mas não havia enigma. Havia Samuel e seus seis cadernos: esse era o enigma, se assim se pode dizer. Cada página do livro fazia com que aumentasse a curiosidade pelo que poderia vir a ser o outro livro: o que nasceria da edição dos cadernos. Olhar para os cadernos era um exercício diário de prazer: como sonhar com Samuel. Tentar estabelecer contato com essa possante mão de homem russo, a escorregar entre as pernas, num aperto sôfrego que fazia tremer. O prazer era muito grande. Só as muitas páginas de um livro, talvez, fossem capazes de estabelecer uma descrição condigna. Páginas de um livro. Esse era o universo do tormento de Samuel. E eu, no rastro de sombra que esse homem deixava atrás de si, seguia, melancólico, buscando encontrar fios de meada para começar outra trama. Ele merecia isso. Eu é que não sei se seria capaz de fazê-lo! O fato de ser descrito como russo pouco importava. Mas esse mesmo fato alimentava a fantasia: o mito do homem russo. Cheirava a força e sensualidade, uma sensualidade envolta em neve e peles, no meio do vento frio que agora sopra e faz a janela bater. Virilidade. Bate a janela e levanto os olhos para ver que horas são. Deixo o caderno de número três aberto e vou preparar chá…”

Três vidas

“A presença física não é prova de nada. O lugar onde vivemos é o lugar que habitamos em espírito. E, em espírito, nunca regressei. Estou espalhado pelas almas de todas as pessoas que conheci, de todas as coisas que, por lhes ter tocado, modifiquei. Irás aprender isso com o tempo. Um homem não é uma entidade, são muitas e, se não nos decidimos, a tempo certo, por uma delas, acabamos em retalhos.”

Parece até trecho de livro psicografado por algum medium, ao sopro do espírito desencarnado de alguém importante, ou simplesmente caridoso. Até parece… Mas só “parece”! Esse é o trecho que está à página 135 de As três vidas, romance João Tordo, o mais novo enfant gaité da cultura de letras em Portugal. Ele ganhou o prêmio literário José Saramago de 2009. Daqui a duas semanas vou conhecê-lo, aqui em Zagreb. Um rapaz jovem, que escreve, dizem, muito parecido com Paul Auster. Li Paul Auster, mas não me lembro direito de sua escrita. Pelo sim, pelo não, deixo a nota, ainda que essa “coisa” de “escreve parecido a”, acrescente, na verdade, pouquíssimo, ao prazer da leitura de quem quer que seja. Antes de mais nada… ler!

image

As três vidas é um romance interessantíssimo, em que Portugal aparece apenas como referência espacial/contextual para duas ou três personagens que circundam e que se relacionam com o protagonista da narrativa. Isso chama a atenção. Sem malabarismos verbais, sem a invencionice de escrever tudo em minúsculas, sem o arroubo de não pontuar frases em parágrafos caudalosos e imensos, João Tordo “conta” uma história. Há quem torça o nariz para esse tipo de “atitude” literária. Os “pós-modernos” de plantão não vão gostar, de jeito nenhum – mesmo que se possa aproximar João Tordo de Paul Auster. Mas quem gosta de “Literatura” vai aplaudir. Não digo aplaudir de pé, mas aplaudir. O rapaz escreve bem, sim, de verdade, e constrói uma NARRATIVA de muito bom gosto, do tipo que faz a gente pensar, do tipo que propõe novos ângulos de abordar a realidade, com procedimentos de escrita que em nada e por nada ficam a dever alguma coisa. Texto que flui, história que envolve, seduz, emociona. Há algum mal nisso? Ando com saudades de “Literatura” e ainda há tanto para ler…! A saudade, porém, não me impediu de sentir prazer ao ler as páginas desse romance mais que bom! A passagem que citei deixou-me emocionado, depois de um pouco atordoado. Senti-me inteiro nela. Vi-me como diante de um espelho. Creio que qualquer pessoa que sai de seu local de origem e passa a viver em outros lugares, mesmo que por tempo limitado – ou exatamente por isso! – vai constatar o que constatou a personagem principal de As três vidas: um rapaz que, por precisar de trabalho/dinheiro para cuidar da mãe doente, depois do falecimeto do pai, se envolve com uma família estranhíssima. Filosofia, política, espionagem e existencialismo, eu diria, podem ser algumas das referências culturais que amoldam o relato ficcional, de grau superior, do/no livro. Quem puder ler… vai gostar!

image