Semana Santa

A “semana grande”

As aspas servem para exigir o sotaque espanhol… La semana grande, diriam os peninsulares que se separaram de Portugal! A festa religiosa de Espanha, depois do Natal. Mas acontece que o carnaval também ocupa um lugar especial, em Espanha.

Se pensarmos no carnaval carioca, que se transformou num espetáculo hollywoodiano, para usar o termo corrente, há, pelos quadrantes do mundo, outras manifestações que chamam tanto (ou mais!) atenção! A Semana Santa, por exemplo, principalmente na região de Andalucía.

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Os pasos, decoradíssimos, barrocamente decorados, chegam a pesar 3 toneladas. Os homens e mulheres carregam, literalmente nos ombros, as grandes alegorias que, ao contrário de suas similares carnavalescas cariocas, levam o público ao silêncio, quase contrito, numa praça pública, na tarde do primeiro domingo da primavera europeia. As hermandades se esmeram na decoração de los pasos para que o cortejo leve o público a experimentar, simultaneamente, a admiração estética e a contrição espiritual, necessária e típica desta época do ano: a conclusão da Quaresma.

La cena, El Dulce nombre de Jesús, La virgen de las penas, María Santísima de los angeles, La virgen de la gracia y de la esperanza, María Santísima del amor, La cena, Paso de la humildad e de la paciencia, Jesús del prendimiento, Cristo de los desamparados, La oración en el huerto, María de la Candelaria, María Santísima del gran perdón. Estas são as denominações de alguns “carros alegóricos” em diversas locações de Andalucía, neste domingo de Ramos.

A noite vai caindo e a luz das velas, na frente das imagens de Nossa Senhora, fazem um efeito dramático ao percurso. Uma maravilha. Talvez, como o carnaval, esta manifestação cultural espanhola seja a mais impactante.

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Inusitado

Mais uma vez, fui arrebatado pelo inusitado. Às vezes, o que leio me surpreende tanto que não resito. Como costumo dizer, vendo o peixe pelo preço que me venderam… Graças à tecnologia, posso “eternizar” esses momentos. Que nem as “epifanias” da Clarice Lispector!

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DESPACHO JUDICIAL
DECISÃO PROFERIDA PELO JUIZ RAFAEL GONÇALVES DE PAULA
NOS AUTOS DO PROC Nº 124/03 – 3ª Vara Criminal da Comarca de Palmas/TO:
A Escola Nacional de Magistratura incluiu em seu banco de sentenças, o despacho pouco comum do juiz Rafael Gonçalves dePaula, da 3ª Vara Criminal da Comarca de Palmas, em Tocantins. A entidade considerou de bom senso a decisão de seu associado, mandando soltar Saul Rodrigues Rocha e Hagamenon Rodrigues Rocha, detidos sob acusação de furtarem duas melancias:

DECISÃO

Trata-se de auto de prisão em flagrante de Saul Rodrigues Rocha e Hagamenon Rodrigues Rocha, que foram detidos em virtude do suposto furto de duas (2) melancias. Instado a se manifestar, o Sr. Promotor de Justiça opinou pela manutenção dos indiciados na prisão.

Para conceder a liberdade aos indiciados, eu poderia invocar inúmeros fundamentos: os ensinamentos de Jesus Cristo, Buda e Ghandi, o Direito Natural, o princípio da insignificância ou bagatela, o princípio da intervenção mínima, os princípios do chamado Direito alternativo, o furto famélico, a injustiça da prisão de um lavrador e de um auxiliar de serviços gerais em contraposição à liberdade dos engravatados e dos políticos do mensalão deste governo, que sonegam milhões dos cofres públicos, o risco de se colocar os indiciados na Universidade do Crime (o sistema penitenciário nacional)… Poderia sustentar que duas melancias não enriquecem nem empobrecem ninguém.  Poderia aproveitar para fazer um discurso contra a situação econômica brasileira, que mantém 95% da população sobrevivendo com o mínimo necessário apesar da promessa deste presidente que muito fala, nada sabe e pouco faz. Poderia brandir minha ira contra os neo-liberais, o consenso de Washington, a cartilha demagógica da esquerda, a utopia do socialismo, a colonização européia… Poderia dizer que George Bush joga bilhões de dólares em bombas na cabeça dos iraquianos, enquanto bilhões de seres humanos passam fome pela Terra – e aí, cadê a Justiça nesse mundo? Poderia mesmo admitir minha mediocridade por não saber argumentar diante de tamanha obviedade.

Tantas são as possibilidades que ousarei agir em total desprezo às normas técnicas: não vou apontar nenhum desses fundamentos como razão de decidir. Simplesmente mandarei soltar os indiciados. Quem quiser que escolha o motivo.

Expeçam-se os alvarás.
Intimem-se.
Rafael Gonçalves de Paula
Juiz de Direito

Esse é dos meus!

Bandeirinha

Fantasias

Estava na varanda, observando as estrelas – sim, elas ainda existem, mesmo que desde novembro de 2009 a gente não pudesse vê-las, com o brilho habitual – e pensei no seguinte: neste exato momento, como calcular o número de pessoas que estão bebendo champagne na primeira classe dos incontáveis aviões que cortam os céus do planeta? Agora que acabei de escrever esta frase, o número já mudou, mas num esforço de imaginação, tento criar na mente a imagem de pessoas bebendo champagne, como descrevi. Quase impossível fazer o cálculo. E imaginar que tal número se repete a cada dia…

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Da mesma forma que o ritual dos comissários de bordo se repete, diariamente – mesmo com os dias de folga que cada um deles tem, entre os voos que fazem. Isso parece uma bobagem. Vai ver é mesmo. Mas fiquei pensando, enquanto olhava as estrelas, na chatice da vida dessas pessoas que trabalham em primeiras classes de aviões durante os voos internacionais. Chatice? Por que? A gente tem o costume de “medir” as coisas de acordo com a capacidade imaginativa da “própria” razão – peculiaridade do animal humano, bípede, mamífero, desemplumado, que “possui cérebro altamente desenvolvido e polegar opositor”. A frase entre aspas não é minha, ouvi num curta metragem sobre o lixo. Pois bem. A gente tem esse costume. Talvez a vida de um comissário de bordo seja chata, pela repetição dos mesmos rituais, dos mesmos textos, das mesmas apresentações das normas de segurança – quem é que pára de fazer o que está fazendo para observar esse momento? Já um comissário de bordo pode pensar que a vida de um jardineiro também é chatinha, pela mesma repetição, ainda que a natureza não deixe de marcar uma diferença por sua beleza, aos olhos de quem vê. O jardineiro, pode ser, não pensa na vida do comissário de bordo, e vice-versa. Mas e um professor de literatura? Esse pode até pensar, pois conhece uma miríade de jardineiros e de comissários de bordo, a quem, provavelmente, jamais encontrará fisicamente. Boa parte desses profissionais sequer “existe”, de fato, para o professor de literatura. Isso porque ele lida com uma “matéria” volátil, mais volátil que éter: a literatura. Essa coisa que evola das páginas secas – às vezes brancas, às vezes num tom agradável e elegante de amarelo – de um livro. Dos livros que ele passa a vida a “consumir”, ainda que eles permaneçam como depósito inevitável de poeira nas inumeráveis estantes espalhadas pela mesma face do planeta, a que é cruzada pelos aviões em que os comissários trabalham e nos quais os jardineiros sequer pensam. Bem, isso, na minha fantasia. Fantasia. Palavrinha mágica, tão mágica como “literatura”. A fantasia da literatura é permitir so sujeito que ele conviva com outras pessoas, sinta sensações, às vezes, insuspeitadas; reaja a fatos que nunca aconteceram “de verdade” e sonhe com impossibilidades que os olhos da civilização – esta que famigeradamente é conhecida como “cultura” -jamais será capaz de comprovar ou constatar, ou mesmo, ver. As páginas de um livro estão recheadas de sujeitos e coisas e animais e plantas e cheiros e cores e pessoas e sons e mais, muito mais. Só não percebe quem não quer… Infelizmente, há muita gente que não quer…

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Voltando aos comissários de bordo, a chatice de suas vidas pode ser justificada, e até aceita, quando se pensa que se trata de uma profissão como outra qualquer, guardadas as devidas proporções. Estas, por sua vez, admitem e agenciam uma série infindável de variáveis que deixaria um cientista maluco curado de sua loucura. Mas a chatice continuaria existindo para quem, por acaso, não fosse comissário de bordo. Como será que um comissário de bordo vê um jardineiro? Ou, por outro lado, como um jardineiro “enxerga” um professor de literatura? O que pensa um professor de literatura sobre a vida de m comissário? Isso me lembra Drummond:

Quadrilha

João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história

Olhar para as estrelas agorinha mesmo me fez pensar, mais uma vez, como a relatividade das coisas, do infinito absoluto, é total, inescapável. E a gente fica cismando…

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