Pausa pequena

Pra não dizerem que saí sem “abanar o rabo”… Volto em dez dias!

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Intervalo

Quem te disse ao ouvido esse segredo
Que raras deusas têm escutado —
Aquele amor cheio de crença e medo
Que é verdadeiro só se é segredado?…
Quem te disse tão cedo?

Não fui eu, que te não ousei dizê-lo.
Não foi um outro, porque não sabia.
Mas quem roçou da testa teu cabelo
E te disse ao ouvido o que sentia?
Seria alguém, seria?

Ou foi só que o sonhaste e eu te o sonhei?
Foi só qualquer ciúme meu de ti
Que o supôs dito, porque o não direi,
Que o supôs feito, porque o só fingi
Em sonhos que nem sei?

Seja o que for, quem foi que levemente,
A teu ouvido vagamente atento,
Te falou desse amor em mim presente
Mas que não passa do meu pensamento
Que anseia e que não sente?

Foi um desejo que, sem corpo ou boca,
A teus ouvidos de eu sonhar-te disse
A frase eterna, imerecida e louca —
A que as deusas esperam da ledice
Com que o Olimpo se apouca.

Fernando Pessoa, in “Cancioneiro”

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Pra não dizer…

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Pra não perder o ritmo, pra não deixar de publicar postagem hoje, pra não dizer que não falei de flores, coloco aqui um poema que me toca cada vez que o leio, sempre e mais. Um poema que é bastante conhecido, que já foi interpretado de várias maneiras, por muitos artistas. Um poema… Mais um poema… Assim vai ele:

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Num meio dia de fim de primavera
Tive um sonho como uma fotografia
Vi Jesus Cristo descer à terra,
Veio pela encosta de um monte
Tornado outra vez menino,
A correr e a rolar-se pela erva
E a arrancar flores para as deitar fora
E a rir de modo a ouvir-se de longe.

Tinha fugido do céu,
Era nosso demais para fingir
De segunda pessoa da Trindade.
No céu era tudo falso, tudo em desacordo
Com flores e árvores e pedras,
No céu tinha que estar sempre sério
E de vez em quando de se tornar outra vez homem

E subir para a cruz, e estar sempre a morrer
Com uma coroa toda à roda de espinhos
E os pés espetados por um prego com cabeça,
E até com um trapo à roda da cintura
Como os pretos nas ilustrações.
Nem sequer o deixavam ter pai e mãe
Como as outras crianças.
O seu pai era duas pessoas –
Um velho chamado José, que era carpinteiro,
E que não era pai dele;
E o outro pai era uma pomba estúpida,
A única pomba feia do mundo
Porque não era do mundo nem era pomba.
E a sua mãe não tinha amado antes de o ter.

Não era mulher: era uma mala
Em que ele tinha vindo do céu.
E queriam que ele, que só nascera da mãe,
E nunca tivera pai para amar com respeito,
Pregasse a bondade e a justiça!

Um dia que Deus estava a dormir
E o Espírito Santo andava a voar,
Ele foi à caixa dos milagres e roubou três,
Com o primeiro fez que ninguém soubesse que ele tinha fugido.
Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.
Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz

E deixou-o pregado na cruz que há no céu
E serve de modelo às outras.
Depois fugiu para o sol
E desceu pelo primeiro raio que apanhou.
Hoje vive na minha aldeia comigo.
É uma criança bonita de riso e natural.
Limpa o nariz no braço direito,
Chapinha nas poças de água,
Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.
Atira pedras nos burros,
Rouba as frutas dos pomares
E foge a chorar e a gritar dos cães.
E, porque sabe que elas não gostam
E que toda a gente acha graça,
Corre atrás das raparigas
Que vão em ranchos pelas estradas
Com as bilhas às cabeças
E levanta-lhes as saias.

A mim ensinou-me tudo.
Ensinou-me a olhar para as cousas,
Aponta-me todas as cousas que há nas flores.
Mostra-me como as pedras são engraçadas
Quando a gente as tem na mão
E olha devagar para elas.

Diz-me muito mal de Deus,
Diz que ele é um velho estúpido e doente,
Sempre a escarrar no chão
E a dizer indecências.
A Virgem Maria leva as tardes da eternidade a fazer meia,
E o Espírito Santo coça-se com o bico
E empoleira-se nas cadeiras e suja-as.
Tudo no céu é estúpido como a Igreja Católica.

Diz-me que Deus não percebe nada
Das coisas que criou –
“Se é que as criou, do que duvido” –
“Ele diz, por exemplo, que os seres cantam a sua glória,
mas os seres não cantam nada,
se cantassem seriam cantores.
Os seres existem e mais nada,
E por isso se chamam seres”.
E depois, cansado de dizer mal de Deus,
O Menino Jesus adormece nos meus braços
E eu levo-o ao colo para casa.
………………………………………………………………..
Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro.
Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava.
Ele é o humano que é natural,
Ele é o divino que sorri e que brinca.
E por isso é que eu sei com toda a certeza
Que ele é o Menino Jesus verdadeiro.
E a criança tão humana que é divina
É esta minha quotidiana vida de poeta,
E é porque ele anda sempre comigo que eu sou poeta sempre,
E que o meu mínimo olhar
Me enche de sensação,
E o mais pequeno som, seja do que for,
Parece falar comigo.

A Criança Nova que habita onde vivo
Dá-me uma mão a mim
E a outra a tudo que existe
E assim vamos os três pelo caminho que houver,
Saltando e cantando e rindo
E gozando o nosso segredo comum
Que é o de saber por toda a parte
Que não há mistério no mundo
E que tudo vale a pena.

A Criança Eterna acompanha-me sempre.
A direção do meu olhar é o seu dedo apontando.
O meu ouvido atento alegremente a todos os sons
São as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas.
Damo-nos tão bem um com o outro
Na companhia de tudo
Que nunca pensamos um no outro,
Mas vivemos juntos a dois
Com um acordo íntimo
Como a mão direita e a esquerda.

Ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhas
No degrau da porta de casa,
Graves como convém a um deus e a um poeta,
E como se cada pedra
Fosse todo o universo
E fosse por isso um grande perigo para ela
Deixá-la cair no chão.

Depois eu conto-lhe histórias das cousas só dos homens
E ele sorri, porque tudo é incrível.
Ri dos reis e dos que não são reis,
E tem pena de ouvir falar das guerras,
E dos comércios, e dos navios
Que ficam fumo no ar dos altos-mares.
Porque ele sabe que tudo isso falta àquela verdade

Que uma flor tem ao florescer
E que anda com a luz do sol
A variar os montes e os vales,
E a fazer doer aos olhos os muros caiados.
Depois ele adormece e eu deito-o
Levo-o ao colo para dentro de casa
E deito-o, despindo-o lentamente
E como seguindo um ritual muito limpo
E todo materno até ele estar nu.

Ele dorme dentro da minha alma
E às vezes acorda de noite
E brinca com os meus sonhos,
Vira uns de pernas para o ar,
Põe uns em cima dos outros
E bate as palmas sozinho
Sorrindo para o meu sono.
………………………………………………………………………
Quando eu morrer, filhinho,
Seja eu a criança, o mais pequeno.
Pega-me tu no colo
E leva-me para dentro da tua casa.
Despe o meu ser cansado e humano
E deita-me na tua cama.
E conta-me histórias, caso eu acorde,
Para eu tornar a adormecer.
E dá-me sonhos teus para eu brincar
Até que nasça qualquer dia
Que tu sabes qual é.
…………………………………………………………………………
Esta é a história do meu Menino Jesus,
Por que razão que se perceba
Não há de ser ela mais verdadeira
Que tudo quanto os filósofos pensam
E tudo quanto as religiões ensinam?

(O guardador de rebanhos, VIII, Alberto Caeiro, 08-03-1914)

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Sem título

Entre uma e outra aula, às vezes, a gente deixa a cabeça voar pelos infinitos campos do pensamento e o espírito plana no planeta palavra. Os astros são poucos, mas os corpos celestes inúmeros, como elas, as palavras. Surpreendentes coisas/entes de utilidade múltipla, de malícia aliciante, cuja abrangência não tem limites, não e pode medir. Assim, é possível pensar no que é um poema. Repetindo o mesmo leitmotiv, entre uma e outra aula, deparo-me com um poema de Álvaro de Campos. Não tenho vergonha de fazer esta afirmação. Há quem fique envergonhado. Há quem nem chega a admitir a hipótese de fazê-la. De sequer considerar a possibilidade desta falta. Não tenho vergonha: não conhecia este poema. A ocasião fez o ladrão, para afagar o ego do adagiário popular. Tinha que falar de heteronímia e dei de cara com este poema, por força do meio xará, o José, aluno que disse ter decorado este poema para uma aula de teatro. Larguei o raciocínio que estava desenvolvendo para explicar a tal de heteronímia e li o poema em voz alta, para uma turma um tanto desatenta e sem muita curiosidade – para manter certo nível de educação. Li, tentando dar entonação adequada a cada palavra, cada frase, cada verso. Aí vai ele:

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Apontamento

A minha alma partiu-se como um vaso vazio.
Caiu pela escada excessivamente abaixo.
Caiu das mãos da criada descuidada.
Caiu, fez-se em mais pedaços do que havia loiça no vaso.

Asneira? Impossível? Sei lá!
Tenho mais sensações do que tinha quando me sentia eu.
Sou um espalhamento de cacos sobre um capacho por sacudir.

Fiz barulho na queda como um vaso que se partia.
Os deuses que há debruçam-se do parapeito da escada.
E fitam os cacos que a criada deles fez de mim.

Não se zanguem com ela.
São tolerantes com ela.
O que era eu um vaso vazio?

Olham os cacos absurdamente conscientes,
Mas conscientes de si mesmos, não conscientes deles.

Olham e sorriem.
Sorriem tolerantes à criada involuntária.

Alastra a grande escadaria atapetada de estrelas.
Um caco brilha, virado do exterior lustroso, entre os astros.
A minha obra? A minha alma principal? A minha vida?
Um caco.
E os deuses olham-o especialmente, pois não sabem por que ficou ali.

 

O autor do poema é o Álvaro de Campos, o heterônimo que, junto com Alberto Caeiro, me levam a gostar do ortônimo. O livro se chama Poesias de Álvaro de Campos, foi publicado em Lisboa pela Ática, em 1944. A sua primeira publicação se deu em 1929, na edição do número de Abril-Maio, da Revista Presença, nº 20 (Lapsos corrigidos segundo: Álvaro de Campos – Livro de Versos. Fernando Pessoa. Edição Crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes, Lisboa,

Estampa, 1993.

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Os primeiros quatro versos são, a meu ver, a pedra de toque para uma possível definição de “heteronímia”. O “vaso vazio”, de certa forma, pode ser lido como alegoria da própria subjetividade. Sujeito=vaso vazio. O advérbio, no segundo verso, leva o leitor por um caminho indicado pela voz poética, aquele que aponta para o mais fundo da alma, da existência: o fundo do poço, numa linguagem popular. “Baixo” não necessariamente é uma palavra com sentido pejorativo aqui. Muito ao contrário, o baixo confirma a ideia contida na imagem do fundo do poço. A parataxe com a terceira pessoa do pretérito perfeito do indicativo do verbo “cair” que compõe o conjunto de três versos que concluem a primeira estrofe. A criada descuidada é a vida (?). Se é mesmo a vida, o seu descuido acaba por revelar o que antes parecia obscuro e inatingível. Os mais “pedaços do que havia loiça no vaso” vão então revelar a essência, o que identifica e, simultaneamente distingue os vários eus em que se dilacera a subjetividade do poeta. A mim não deixa de parecer, por metonímia, a expressão poética do fenômeno tão estudado: a heteronímia.

Escrevi mais três parágrafos sobre o poema, mas não sei o que houve: o wordpress não os aceita… o texto completo vai estar no Academia.edu. Uma pena…

 

 

 

Para LET874

Abaixo, leem-se dois poemas que compõem o livro Mensagem, de Fernando Pessoa (ortônimo). São o primeiro e o último, respectivamente. Leia-os com atenção!!

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BRASÃO

  1. Os campos

O dos castelos

A Europa jaz, posta nos cotovelos:
De Oriente a Ocidente jaz, fitando,
E toldam-lhe românticos cabelos
Olhos gregos, lembrando.

O cotovelo esquerdo é recuado;
O direito é em ângulo disposto.
Aquele diz Itália onde é pousado;
Este diz Inglaterra onde, afastado,
A mão sustenta, em que se apoia o rosto.

Fita, com olhar ’sfíngico e fatal,
O Ocidente, futuro do passado.

O rosto com que fita é Portugal

*********************************************************

NEVOEIRO

Nem rei nem lei, nem paz nem guerra,
Define com perfil e ser
Este fulgor baço da terra
Que é Portugal a entristecer —
Brilho sem luz e sem arder,
Como o que o fogo-fátuo encerra.

Ninguém sabe que coisa quer.
Ninguém conhece que alma tem,
Nem o que é mal nem o que é bem.
(Que ânsia distante perto chora?)
Tudo é incerto e derradeiro.
Tudo é disperso, nada é inteiro.
Ó Portugal, hoje és nevoeiro…

É a Hora!

Valete, Fratres.

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Costumo dizer que este livro de Fernando Pessoa pode ser abordado como uma leitura de Os lusíadas, na perspectiva do Modernismo português, levando-se em consideração o “clima” que se instaura em Portugal (porque deu-se o mesmo na Europa) no período da História geralmente reconhecido como “entre guerras”. Tendo este pressuposto como ponto de partida, deixando de lado – por enquanto! – tudo o que você já leu e ouviu sobre a heteronímia, pense no significado de Os lusíadas para a História e a Literatura de Portugal. A partir destes dois elementos destaque alguns versos dos poemas acima e comente-os, ressaltando o “tom” melancólico que se pode depreender da leitura, Não se esqueça de que a mim importa a SUA opinião, o resultado de SEU raciocínio. Seja franco e sincero e objetivo e escreva como se estivesse dando uma explicação a qualquer outra pessoa, que não a mim! Bom proveito!

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Maré

Outro dia, vendo mais um capítulo da chatíssima novela “Velho Chico”, encantei-me com a leitura de uns versos que, logo vi, seriam da pena de Fernando Pessoa ortônimo ou de um de seus heterônimos. À parte o fato desse “mistério” alimentar o pensamento de muita gente – em lugar de simplesmente fruir a singela beleza dos versos do poeta -, causou-me espécie que o volume que Camila Pitanga segurava enquanto lia era apenas uma edição compilada dos versos do português publicada pela afamada (e saudosa) Livraria Editora Agir – agora a chatice é minha… uma vez mais. No tal capítulo, os versos serviam como luva à situação vivida pela personagem representada por Camila. Nada mais óbvio. Fui atrás do livro de Fernando Pessoa e encontrei: a quinta parte de O guardador de rebanhos, do Alberto Caeiro. Dos quatro mais afamados heterônimos de Fernando Pessoa, este é um dos três de que mais gosto. Os outros dois são o Álvaro de Campos – um tantinho menos – e o Bernardo Soares – que sempre me perturba. Ainda não aprendi a gostar do Ricard Reis e seu… digamos… cinismo… Mas quem sabe um dia…

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O Guardador de Rebanhos

V

Há metafísica bastante em não pensar em nada.

O que penso eu do mundo?
Sei lá o que penso do mundo!
Se eu adoecesse pensaria nisso.

Que ideia tenho eu das coisas?
Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos?
Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma
E sobre a criação do mundo?
Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhos
E não pensar. É correr as cortinas
Da minha janela (mas ela não tem cortinas).

O mistério das coisas? Sei lá o que é mistério!
O único mistério é haver quem pense no mistério.
Quem está ao sol e fecha os olhos,
Começa a não saber o que é o Sol
E a pensar muitas coisas cheias de calor.
Mas abre os olhos e vê o Sol,
E já não pode pensar em nada,
Porque a luz do Sol vale mais que os pensamentos
De todos os filósofos e de todos os poetas.
A luz do Sol não sabe o que faz
E por isso não erra e é comum e boa.

Metafísica? Que metafísica têm aquelas árvores?
A de serem verdes e copadas e de terem ramos
E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar,
A nós, que não sabemos dar por elas.
Mas que melhor metafísica que a delas,
Que é a de não saber para que vivem
Nem saber que o não sabem?

«Constituição íntima das coisas»…
«Sentido íntimo do Universo»…
Tudo isto é falso, tudo isto não quer dizer nada.
É incrível que se possa pensar em coisas dessas.
É como pensar em razões e fins
Quando o começo da manhã está raiando, e pelos lados das árvores
Um vago ouro lustroso vai perdendo a escuridão.

Pensar no sentido íntimo das coisas
É acrescentado, como pensar na saúde
Ou levar um copo à água das fontes.
O único sentido íntimo dos coisas
É elas não terem sentido íntimo nenhum.

Não acredito em Deus porque nunca o vi.
Se ele quisesse que eu acreditasse nele,
Sem dúvida que viria falar comigo
E entraria pela minha porta dentro
Dizendo-me: Aqui estou!

(…)

PS: ler é como a maré… por isso a referência! E na maré da leitura na novela…

Retorno

Mais de um mês sem escrever nada aqui… Mas de um mês com ideias e insights para escrever e… nada! Mais de um mês com as habituais decepções e surpresas, risadas e melancólicos momentos, saudades e vontade de desaparecer.., Mais de um mês com tudo que um mês pode trazer… Mas estou de volta. Quase sessentão (faltam nove dias) e algumas defecções já se anunciaram. Há quem ainda não tenha respondido ao chamado: será que receberam meu convite? Há quem não saiba de nada… como sempre! Há tanta coisa e tanta gente e… Há de do e eu vou morrer e não vou ver tudo. Quem vai? Mais um atentado na França. Mais um jogador de futebol deve estar assinando contrato para ganhar milhões de reais para ficar correndo atrás de uma bola e posando de celebridade. Mais um estudantes não lê uma página de nada, ms se gaba de usar a camisa da moda, de ter comprado o tablet mais “irado” e de ter passado uma noite inteira beijando desconhecidos pelo simples prazer de beijar. Prazer??? É tanta coisa. Ainda tenho dúvidas sobre a continuidade disso aqui. O impulso de hoje foi uma observação de Rogério Miranda de Almeida, amigo de longa data, pouca convivência e contato, mas muita afeição e inteligência. Pergunta-me ele se estou a gostar de seu ultimo livro e se ainda mantenho o blogue onde registrei impressões de outros dois que me encantaram… Resolvi voltar. Assim, falo do livro do Rogério, do último romance do Pedro Eiras e quem sabe destilo meu descontentamento com celebrado Proust…

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http://arquivopessoa.net/textos/3381

 

Cansado até dos deuses que não são…

Ideais, sonhos… Como o sol é real

E na objectiva coisa universal

Não há o meu coração…

Eu ergo a mão.

 

Olho-a de mim, e o que ela é não sou eu.

Ente mim e o que sou há a escuridão.

Mas o que são a isto a terra e o céu?

 

Houvesse ao menos, visto que a verdade

É falsa, qualquer coisa verdadeira

De outra maneira

Que a impossível certeza ou realidade.

 

Houvesse ao menos, sob o sol do mundo,

Qualquer postiça realidade não

O eterno abismo sem fundo,

Crível talvez, mas tendo coração.

 

Mas não há nada, salvo tudo sem mim.

Crível por fora da razão, mas sem

Que a razão acordasse e visse bem;

Real com coração, inda que […]

                                                                                                 10-7-1920

 Poesias Inéditas (1919-1930). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990): 24.

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Poesia

Digam o que disserem, ara o bem e para o mal… a poesia está viva e assim vai continuar. Ontem foi o Dia de Camões, feriado em Portugal. Dia em que se comemora a poesia. Na minha página do Facebook, coloquei um dos sonetos – em que pesem as dúvidas da real autoria do poeta. Essas questões ecdóticas, às vezes, são de uma chatice sem fim, mas… Hoje pensei em Fernando Pessoa e num poema que, em muitas ocasiões, chamo de minha biografia acadêmica. Aí vai ele.

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(Álvaro de Campos)

[538]

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe – todos eles príncipes – na vida…
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,
Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?


Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos – mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

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