Possibilidades

“Valério foi um homem de bem. Ele era casado com Iracema e teve cinco filhos: Luíza, Regis, Maura, Anderson, Valdemar e Silésio. Era descendente de alemães. O pai dele era de Bremen e a mãe de Dresden. Ele nasceu em outra terra, do outro lado do mar: Santo Anselmo. Numa terra linda, vermelha, rica em nutrientes, fértil. Fez de tudo um pouco, na infância, adolescência e juventude, para ajudar a família. Mudou-se para uma cidade maior e tornou-se padeiro. Foi assim que ele criou sua família. Uma família grande, de gente alta, de pele branca, olhos claros traços finos. Toda a família era muito ciosa de seus valores e se vangloriava de sua origem, de sua ascendência. Luíza teve uma filha e depois ficou viúva. Regis, que teve dois filhos, divorciou-se algum tempo depois de casada. Maura era diferente, triste, reclusa, tímida, muito diferente de todos os irmãos. Teve um filho também que, depois de adulto, tornou-se artista plástico de sucesso na Europa oriental. Anderson continua casado e tem um casal de filhos. Valdemar tem dois filhos e vive com muitas dificuldades, apesar de todo apoio da família. Por fim, Silésio, o mais jovem e o mais bonito. Pai de duas meninas lindas, não suportou a vida de casado com uma mulher quase inexpressiva – para os padrões de sua família – e divorciou-se. Todos, filhos de Valério, um homem de bem. Quando um irmão de Valério morreu, o que ficou de sua família foi prestar sua solidariedade. Maura não foi porque já tinha morrido. Valdemar e Silésio foram bem mais tarde, quase na hora do enterro. Já Regis e Anderson foram com a mãe e os dois filhos de Regis, acompanhador por Luíza. Ficaram menos que meia hora. Comparecimento protocolar. O escritor observou tudo, com cuidado e atenção. Tomou notas. Reunia material para tentar explicar o que se passou com quem o contratou para escrever sua biografia. O trabalho ia ser longo. Observar pessoas é como pisar em ovos quentes. Todo cuidado é menos que pouco. Muita acuidade. Sensibilidade à flor da pele. O trabalho ia ser longo e penoso. O escritor, ademais, sabia: Valério foi um homem de bem.”

Este é o início de um romance que acabei de ler para fazer a revisão da tradução que dele foi feita. A pedido do autor, não posso revelar, nem seu nome, nem o título de seu romance. Um texto interessantíssimo. Escrito por um homem maduro, que jamais fez uma “oficina de escrita criativa”. Um homem que lê muito. Um homem interessante, que exerceu sua profissão. Um homem comum. O livro parte de uma situação corriqueira que vais, aos poucos, revelando aspectos inusitados das relações humanas, sobretudo aquelas que são chanceladas com o selo “familiar”. Histórias de todo mundo, de todo dia. Histórias que nem todo mundo gosta de contar, mas de derrete de vontade de escutar e goza com elas. É esperar pela publicação do livro e se deleitar. Se eu me lembrar, aviso, quando do lançamento.

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Lirismo em prosa

O que pode haver de comum entre uma aparição de Nossa Senhora e uma oficina de conserto de pianos? Aparentemente, nada! De fato, os dois tópicos parecem absolutamente dissociados. A coisa fica ainda mais complexa ao acrescentarmos a figura de um maratonista que morre durante uma corrida em Estocolmo, na Suécia. O jornal Observador, de Portugal traz a certa (https://observador.pt/especiais/francisco-lazaro-a-morte-ao-sol-do-carpinteiro-que-se-fez-mito-na-maratona/) matéria sobre o atleta: “E se é verdade que Lázaro terá sofrido muitos destes sintomas – os “delírios” no hospital, como que correndo, poderiam ser convulsões –, também é verdade que a aplicação de estricnina era prática comum, sem males de maior. O caso mais conhecido no uso de estricnina é talvez o de Dorando Pietri. Italiano, maratonista, pasteleiro na ilha de Capri, Pietri participou nos Jogos Olímpicos de Londres, em 1908. E cortou em primeiro lugar a meta. A custo, mas cortou. Chegou ao estádio coberto de estricnina no corpo, caiu repetidas vezes, esteve perto de desistir, mas acabou por concluir a prova, levado em ombros por juízes. Acabou a maratona em 2h54m46s, mas seria desclassificado, não pelo uso de estricnina, mas por ter sido auxiliado nos últimos metros. O vencedor seria Johnny Hayes, segundo classificado, com 2h55m18s. Armando Cortesão, que participou com Lázaro nos Jogos Olímpicos, negou então que o maratonista tenha morrido por envenenamento. E aponta as causas da morte: sebo. E calor. “O Lázaro não foi envenenado. Isso é um disparate! O Lázaro morreu por dois motivos: primeiro, porque se untou com sebo. Fui eu e o Fernando Correia, quando ele não aparecia à partida da maratona, que o procurámos no balneário e lá o encontrámos a besuntar-se com sebo. Não faço a menor ideia como Lázaro conseguiu arranjá-lo – ele que mal falava português –; mas conseguiu sebo e estava a untar-se… Eu e o Fernando ainda tentámos que ele tomasse banho, mas não havia tempo. E ele lá foi correr a maratona todo besuntado com sebo, com os poros da pele tapados, o que impedia a transpiração. E outra coisa: só ele e um japonês e que foram de cabeça descoberta àquele sol”, garantiu. .” Assim trata do assunto o periodista. O atleta desmaia durante a corrida e vem a morrer horas depois. Este é o mote que José Luis Peixoto toma para desenvolver o enredo de Cemitério de pianos, narrativa instigante que “viaja” na ideia de morte – ouso arriscar que há sempre a sombra da morte do pai do autor a pairar sobre seu texto, “mas esta é só a minha opinião” – e faz do discurso da memória, do fluxo de consciência, da poesia intrínseca à Língua Portuguesa (ainda que haja quem duvide de sua natureza melódica…), o modus operandi de um texto intenso, lírico, contundente. A morte do atleta narrada quilômetro a quilômetro vai seguindo acompanhada pelas anotações ficcionais que o autor tece, bordando um painel profundo, tocante da intimidade do sujeito, quase um sonho. Meu quase xará – não fosse a diferença de uma letra – é um poeta e sua narrativa nada fica a dever a qualquer dos versos que também compõe. Na mesma toada, Em teu ventre é outra narrativa que mistura, desta feita História e Ficção, envolvendo o aparecimento de Nossa Senhora na azinheira grande em Fátima. Os três pastorinhos são alvo da acuidade poética do autor que flui com sua característica melodia interna, ritmo próprio. O texto de José Luis Peixoto seduz pela plasticidade do ritmo e da sonoridade do verso que, em prosa, se faz perceber, página a página. Parece, em conclusão, que, afinal d contas, pode existir algo de comum entre a aparição e a oficina: um autor. Boa leitura!

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Lusitanidades

Acabei de ler os dois últimos livros escritos por um simpático e jovem escritor português, o João Tordo, a quem tive o prazer de conhecer em Zagreb, entre 2008 e 2010, quando lá vivi. São eles: Ensina-me a voar sobre os telhados e A mulher que correu atrás do vento, respectivamente. Dele já tinha lido outros dois livros – As três vidas, Anatomia dos mártires e Biografia involuntária dos amantes. O primeiro que li, As três vidas, fez pensar e sentir e ler um tanto de Paul Auster, ainda que com um tratamento trágico-lírico muito peculiar. João Tordo tem esta particularidade: sei lirismo, muito próximo de uma tragédia retumbante, escapa do melodrama pelo cuidado com que o autor localiza suas personagens no drama que engendra. Diferentemente de Paul Auster e de outros tantos que caminham pelas mesmas sendas, João Tordo define sua própria estrada, marcada por esta marca personalíssima de/em sua ficção. Os dois últimos trabalhos que somam em torno de novecentas páginas, são a culminância de um estilo que se construiu pelo fio da maturação de uma linguagem muito própria que parece paralisar acontecimentos em prol do mergulho em espíritos atormentados pela busca de um entendimento impossível (?) que, no entanto, anda disponível pelos desvãos da trajetória mesma daqueles que o procuram. Escritor eminentemente urbano, difere de José Luis Peixoto, seu conterrâneo e coetâneo – perdão pela rima involuntária – no que diz respeito, digamos, à “paisagem” que vai sendo desenhada – não retratada! – pela ficção de/em ambos. O trecho que segue, retirado de um dos volumes que acabei de ler (não vou dizer de qual para instigar os possíveis leitores destas linhas a procurarem pelos livros e tentarem encontrar a passagem citada – já, de antemão, sabendo da quase impossibilidade disto, pois os livros são um tanto caros… mas vale a pena!). Então, segue o trecho escolhido:

“Não sabemos o que é um sonho porque não sabemos o que não é um sonho. Foram muitos aqueles que, no decurso da história da literatura, insistiram nesta ideia. Tomemos, a título de exemplo, os versos de Edgar Allan Poe: “All that we see or seem/Is but a dream within a dream”. Ou Shakespeare, dito por Próspero, ainda mais fracturante: “We are such stuff/As dreams are made on, and our little life/Is rounded with a sleep”.  Porventura, a ideia mais pertinente é que o sonho e a vigília não são compartimentos estanques; misturam-se, fundem-se habilmente e, ao mesmo tempo, com imensa discrição, de tal maneira que é possível sonhar e saber que estamos a sonhar, e estar acor­dado sabendo que sonhamos. Talvez esta última ideia seja menos comum. Mas só o é porque, na vigília, que dura mais tempo (e apresenta maior consistência narrativa), existe a neces­sidade de nos assegurarmos do real, ou a vida seria uma panóplia de surpresas: rostos trocados, objectos desaparecidos, carros voadores.

Mas haverá alguém que tenha acreditado, mesmo que por um breve segundo, que o sonho da noite anterior, ou de há meses ou anos, foi realidade? Que era tão consistente como o chão ou as montanhas ou a chuva? É inútil esboçar argumentos ou tentar explicar esta ideia, mesmo a nós próprios. Seria como convencer Dom Quixote da sua loucura – e portanto, remover-lhe o véu da ilusão, condenando-o a um aborrecido destino enquanto Alonso Quijano. Ou convencer um homem desperto de que, na verdade, está a sonhar: Vogler, o mudo-falante, demonstrando-lhe a inépcia das suas ilusões. Tudo isto faria sentido se soubéssemos a diferença.”

Isso faz com que eu goste mais do escritor. Como disse, conheci-o, tímido, em Zagreb, durante uma oficina. Gosto do que ele escreve. Estou com outros títulos de sua autoria à espera de leitura. Vou fazê-lo, de certeza! Antes, porém, retomei o Peixoto, aqui citado, relendo dele O cemitério de pianos, mas este é um assunto para outra hora…

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Palavra fazendo arte

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São três livros em seguida. Uma trilogia da qual me dei conta somente na leitura do segundo livro. Os três apresentam uma voz narrativa única: um sujeito de idade, de origem judaica, em estado de emergência, pra não dizer terminal. Um senhor cuja mãe se matou e, por isso, deixou cicatrizes fundas na personalidade do narrador. Este narra o primeiro dos três livros. Um outro, andarilho, sujo e maltrapilho, vaga pela cidade, em meio a alucinações. Sempre se faz acompanhar por um volume com os “Adágios” de Erasmo de Rotterdam. Um terceiro narrador é mulher. Num leito de hospital ela vaga, delirante, pelos mais inusitados cenários, supostamente a bus ade explicações. Para o quê, exatamente, é difícil dizer. Este clima de incômodo que se auto exibe parece ser a marca registrada da escrita deste mineiro de Araxá. O nome dele: Evandro Affonso Ferreira. Já andei falando dele por aqui. Comentei, a certa altura o livro Não tive nenhum prazer em conhecê-los (Record, 2016), o penúltimo por ele publicado. Depois desse, há ainda Nunca houve tanto fim como agora (Record, 2017). Uma prosa instigante e perturbadora. As orelhas de todos os quatro volumes lidos são unânimes em destacar, entre outros detalhes, a pontuação. Eu acrescentaria que faz parte do inusitado (envolto em absoluto sucesso) modo de escrever desse autor, a sintaxe e da frase e, também, por que não, a ortografia. Aqui cabe uma explicação: não faz o mesmo que Guimarães Rosa, seja na criação, seja na recuperação d palavras da “última for do Lácio, inculta e bela”. Não. Definitivamente não. Evandro, neste aspecto é original, como o é na manipulação da massa narrativa. Ou, se quiserem, na construção da história, para não ficar na famigerada terminologia “acadêmica”: do enredo. Que não, por acaso… Os livros de Evandro contam histórias sem se preocupar com a costura de episódio e a “composição” de personagens que carregam discursos com endereço certo. As vozes que falam através de sua ficção podem identificar miríades de tipos sociais, na mesma medida que inventam seres absolutamente inexistentes, a considerar os quadrantes de uma realidade rala e quase esgarçada. Não. As personagens de Evandro, considerando os volumes que dele li, não “representam”, como se espera desta entidade textual tão prezada pelo “romance”. Não. O texto respira incômodo, quase náusea, sem ser bolorento ou arrastado. A forma nada sincopada de narrar, faz dos textos ficcionais de Evandro um exercício poético dos mais requintados, o que deve incomoda muito a certos “mestres” das famigeradas “oficinas”. Isso porque sua ficção está anos luz distante das “tramas” policialescas que tentam inovar um gênero já consolidado, com pitadas de idiossincrasias outras, menores. O último título lido foi Os piores dias de minha vida foram todos, o anterior, O mendigo que sabia de cor os adágios de Erasmo de Rotterdam e o primeiro desta série, Minha mãe se matou sem dizer adeus. Só posso dizer que os livros de Evandro – e falo, evidentemente, dos que li, porque ainda me resta algum juízo e senso de responsabilidade – são um exercício poético de leitura primorosa, que enleva, faz pensar, dá coceira no cérebro e convence como resultado de ficção de calibre, espessura e requinte. Claro está que os detratores de plantão, sobretudo aqueles que dependem, como junkies, do status quo mercadológico, vão torcer o nariz e jogar a pecha de diatribe para identificar esta obra. Por que é uma obra, na verdade, mais que uma obra, um projeto estético que faz elevar, e muito, o patamar de importância da Língua Portuguesa como código passível de manipulação estética. Obra de arte, diriam os mais apressados. Os detratores vão ter continuar se coçando, pois tão cedo há de aparecer “ESCRITOR”, como este.

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Ficção, ainda que aos pedaços

O plano ainda é o mesmo: escrever um livro de ficção. Enquanto o de cartas não sai e a batalha contra a preguiça continua, ao menos, surge mais um trecho…

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A palma das mãos vai ficando engelhada. Nos pés, mais exatamente nos calcanhares, uma bolinha incômoda, vulgarmente conhecida como esporão – será este mesmo o nome? – estava lá. Lembrava que um dia, tempos atrás, um remédio fiz com que desaparecesse. Mas cadê memória? Cadê lembrança? O nome escapava, acompanhada pelo tempo. Ainda assim, a esperança de poder entender o que se passara era mais forte. Mais forte que a própria vontade de seguir em frente. Seguia, mas por inércia, cedendo ao impulso da energia que faz a existência atravessar os atalhos e pistas deixados por Cronos. De nada adianta ter este tipo de certeza. O mais certo é que não havia escapatória. Os livros lidos, as lições estudas, os exemplos observados, nada disso conta. Mais vale saber que, um dia, mesmo inesperadamente, o sentido se apresenta. Pode ser de frente, na lata. Pode ser de repente, inesperado como um susto. As pessoas que acreditam na inteligência, no progresso e no entendimento, são as que tiveram uma infância infeliz. As outras, andam atônitas, quase zumbis, seguindo modas, acreditando em falácias, céleres para o abismo caminhando. Assim, não sei como é que leitores conseguem entender aquilo que se escreve. Depois de algum tempo, mesmo quem escreveu não sabe o sentido do que fez. Quando muito, pensa, em silêncio admirado “Fui eu mesmo?”. Ou por outra, desdenha: “Jamais escreveria tal bobagem”. Da mesma forma, fica difícil explicar porque a única coisa que torna possível a identidade é a ausência de mudança, mas ninguém acredita de fato que haja similaridade, quase semelhança entre o fato e o que se pensa do fato. Porque a contradição sei impõe, sempre, sem escapatória: quando sozinho, o desejo é estar acompanhado, e quando acompanhado, o contrário. Acreditar piamente, sem duvidar, de tal arbitrariedade de sentido é negar a própria capacidade de raciocínio. Isso pode ser a humanidade. É preciso muito tempo para formar-se gênio ou transformar-se num. Há que prevalecer o ócio criativo ficar sentado sem fazer nada, realmente sem fazer nada. Como Dorival, que criava poesia. Porque, ao fim e ao cabo, todo mundo tem medo da morte e se pergunta sobre seu lugar no universo. Por isso o poeta tem função: se não sucumbir ao desespero, vai encontrar antídotos para o vazio da existência, o veneno de pensar.

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Releituras

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“O inesperado convite, dirigido ao mestre por Giuliano Lorenzo de’Medici, para que executasse em Roma um programa de obras extraordinárias, libertaria Salai, e ao menos tempo­rariamente, da dolorosa emulação que sustentava com Melzi. Irmão de Leão X, o papa reinante, Giuliano requeria do Homem um conjunto de maravilhosas benfeitorias, a empreender nos jardins do Belvedere. Sempre o rapaz pintara a corte pontifícia como um teatro de delícias opulentas, e de irresistíveis relaxações, entremeadas pelo balanceio dos turíbulos exaladores do incenso, e pelo roçagar da cauda vermelha dos cardeais. Aí se celebravam, ou assim o entendia ele, ininterruptos festins, atra­vessados por bandejas de prata, carregadas de frutos exóticos, e entre gritos e suspiros dos convivas que bebiam vermentino por cálices multicores, e que distraidamente escutavam os com passos de um alaúde que ao longe se tangia. Nas câmaras de tectos recamados de oiro, e a todo o instante, desfaleciam ana­fadas cortesãs, resvalando de um leito de penas para o soalho coberto por alfombras de alto preço. Seguia depois, e ao clarão dos archotes, uma leva de pecadores indultados na Quaresma, a cumprir um roteiro das ruínas do império fundado pelos filhos da loba, e detendo-se num qualquer lugar de mármores, um templo, um cemitério, ou umas termas. Entoavam em coro sinistras ladainhas, guiados por uma feiticeira de pele alvissima, e conhecedora da gramática dos velhos augúrios, a qual, uma vez concluído o rito, completamente se desnudava para se flagelar. As bancas de jogo armavam-se pelas esquinas, e as mulheres dos embaixadores do mundo inteiro, aborrecidas na canícula, e exasperadas com os mosquitos, desciam negligentemente à rua, a tentar a sorte aos dados, ou a recrutar os favores de algum mariola, adolescente ainda, que as salvasse do pasmo em que embruteciam. O moço via tudo isto, e enumerava pelos dedos quanto alegremente haveria de fazer na Cidade Eterna. Oferecessem-lhe a oportunidade, congeminava ele, e converteria o amo em personagem muito mais famosa do que era, e cujos serviços poderiam vir a ser disputados pelo Grão-Mogol, ou pelo Prestes João das índias. E desta forma ia-se esquecendo dos agravos que Francesco Melzi lhe infligia, e daquele desprimor com que o artista dera em castigá-lo, seduzido pelas arti­manhas do Bellissimo Fanciullo que o trazia nas palminhas. Correu por conseguinte a entrouxar os aprestos da oficina, e os trastes de sala e quarto, e botou-se a despedir-se das lavadeiras do Adda, reconciliadas enfim com ele, e que não paravam de lamentar a perda do malandrete que tanto as escandalizara, mas que não menos as pusera num sobressalto fora do comum.

O primeiro dos ágapes para que foram convidados, recém admitidos numa Roma que a ameaça da Reforma apenas de leve tocava, realizar-se-ia no palácio do então embaixador por­tuguês, e futuro cardeal, Dom Miguel da Silva. Concorria ao festejo uma multidão de nobres e purpurados, ora imersos na atonia da ociosidade, ora arrastados pelo impulso da dissipação. Deambulavam pelas estâncias aquecidas a braseiros, isto porque andava Fevereiro inclemente de um frio que se entranhava, mais ou menos curiosos da redentora surpresa, ou expectantes da liberdade inopinada. O cardeal abria os braços aos que iam entrando, muito solícito na colheita de informes sobre a saúde de cada qual, ou na obtenção de notícias da última trica vaticana. E os cães da casa, habituados a vaguear sem qualquer disciplina, ladravam a todo o intruso que desse mostras de que­rer invadir-lhes o espaço vital. Pietro Aretino, o obeso poeta que pedia meças às enxúndias do próprio Santo Padre, deslocava-se vagarosamente de quadra em quadra, amparado por vali­dos que lhe bichanavam à orelha nome e função dos hóspedes com que ia topando. E como a baleia que engolira Jonas, o pro­feta, arrastava-se ele até se espapaçar na chaise-percée que um fâmulo lhe achegava, e onde ao longo do serão iria esvaziando as tripas atestadas. Vinham os criados de Dom Miguel, erguendo acima da cabeça candelabros de oito velas acesas, a anunciar que se achavam franqueadas as salas de pasto, e de tempos a tempos um tinido de campainhas avisava do ingresso de novo serviço de acepipes. Foi numa dessas alturas que, um pouco de improviso, e um pouco de maneira programada, se encenou um quadro vivo que contava Salai como protagonista, e que resultava da encomenda que o representante diplomático, e promo­tor da recepção, fizera ao mestre florentino, descido às margens do Tibre. Soou uma trompa rouca, descerrou-se uma cortina de damasco azul, e ali estava ele, o eterno aprendiz, acomodado sobre um rochedo, de perna traçada,  e exatamente na posição dos rapazolas que pelas adjacências do Castelo de Sant’Angelo, e  apoiando-se nos muros meio derruidos, ofereciam préstimos, entre submissos e displicentes, a quem ia passando. O anfitrião bateu palmas, e apresentou em voz impostada aquilo que designava por Baco nos Campos de Tebas, e que consistia na pessoa do moço, mal coberta de peles de animais, e de indicador em riste, a afrontar um mistério à sua esquerda, ou a exprimir sem palavras uma infâmia inominável. O pintor manifestara já o eu engenho, ao fazer deslizar  pela távola principal, e espavorindo tutti quanti, uma grossa cobra de patas a cujo dorso havia colado com azougue umas asas escamosas que se agitavam, tudo de molde a conformar uma horrenda criatura, à qual nem sequer faltavam os cornos retorcidos, 0s olhos pintados, e a barbicha diabólica. Do avesso do reposteiro em que se ocultara, magicando geometrias que o distraíssem de semelhante cafarnaum, Leonardo avistou o seu protegido, encarnando o mais debochado dos deuses do Olimpo. E com um soluço na garganta, e de mão tremula, rabiscou no caderninho que retirara dos dentros de sua véstia, «Bacco no, San Giovanni Battista».”

retrato-de-rapaz

É longo o trecho. Eu sei. Nos dias que correm, sobretudo pela síndrome de Peter Pan que acomete boa parte da população do planeta – ainda não consigo alcançar o sentido de tal falta de senso – eu temo pela falta de capacidade de leitura de muita gente… infelizmente. De um jeito ou de outro, não resisti. O trecho foi retirado de um livro que acabo de reler, repetindo o mesmo prazer de quando da primeira volta, ainda em Coimbra, no já aparentemente distante inverno de 2014. Trata-se de Retrato de rapaz, do Mário Cláudio. Quem já leu os livros dele, vai poder reconhecer sua marca personalíssima no exercício narrativo que se multiplica em seus numerosos volumes. A alegoria, a melancolia, a ironia – com os devidos pedidos de desculpas pela insistência numa rima paupérrima, mas involuntária – acompanham a acuidade e o mordaz olhar sobre a existência humana em sua mais substancial natureza. Eu gosto. E não estou sozinho neste gostar. O volume de onde retirei este trecho relata uma visão bastante peculiar de Leonardo da Vinco em sua biografia, aqui ficcionalizada. Carregada de tinturas homoeróticas, esta narrativa de Mário Cláudio compõe, com Boa noite, senhor Soares e O fotógrafo e a rapariga, o que se conhece como “Trilogia da velhice”. Esta expressão, ouvi ou li, alhures, e não vou forçar a memória para saber exatamente onde. Fica, entretanto o convite… implícito para ler o autor!

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Leitura… deleite…

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Um homem, devagar recorda e degusta as memórias que tem de sua amiga. Fala em primeira pessoa sobre ela e sobre si mesmo. Muda para o registro plural, um “nós” indefinível, para fazer corroborar muitas das passagens que vai cosendo ao longo de seu relato. Para quem? Não se sabe. Mas aqui, do outro lado da página, sabe-se que esse outro é, obviamente, o leitor. E então, a primeira intuição: terá sido o autor próximo de sua protagonista. Terá com ela partilhado, de alguma forma, contato? A dúvida persiste ao longo de 117. O texto não é longo. O tipo gráfico, muito agradável ao olhar atento do leitor, espraia-se pelo volume esbelto que a Imprensa Nacional-Casa da moeda fez publicar. A capa do livro é sobrecoberta com uma outra, mostrando ilustração da protagonista em pleno ato. Há algumas fotografias e uma que outra ilustração, a descansar (?) os olhos leitores, quase que exatamente ao meio do volume. Desavisadamente, pode-se pensar que se trata de uma biografia. Não deixa de sê-lo, mas não o é, de fato, ipsis litteris. E aqui não faço mero jogo de palavras. O autor é mais que conhecido por sua incrível capacidade de penetrar nos labirintos mais escondidos de uma biografia para aí encontrar falhas, dúvidas, lacunas, surpresas e omissões (voluntárias, às vezes, mas nem sempre!). O texto, exemplo de poesia em prosa, caudalosa e milimetricamente costurada com o fio de ouro da Língua Portuguesa, traduz, com melancolia calculada e brilho elegante, a visão que um poeta tem de outro artista. Mário Cláudio, de fato, neste livro é poeta., na acepção mãos plena e ampla da palavra. Ele é autor do livro que leva o nome de sua protagonista Guilhermina. Diz uma das orelhas do livro que se trata do segundo volume de uma trilogia a que o autor dá o nome de Trilogia da mão composta por Amadeo, Guilhermina e Rosa. Um exemplo é o trecho que segue, final do texto de Mário Cláudio:

Aterrou já, vinda da London Clinic, onde a operaram, através de cujos pavilhões seu reconhecimento exprimiu a toda a equipa. Com alguma ambiguidade, confiará a um amigo “levo umas injeções, se não fizerem efeito, não haverá terapêutica.”  Ao desembarcar, todavia, com um molho de jasmins, irá afirmar que chega para morrer. Ocupará a quinzena seguinte, frenética de despacho, enviando mensagens sarrabiscando conselhos e disposições. Na cama estará, depois, com o violoncelo que pediu lhe deitassem ao lado, tendo exigido que lhe arranjassem o cabelo, lhe cuidassem das unhas, as sobrancelhas lhe colorissem e os lábios. Escolheu uma veste branca, sem arrebiques, ordenando que quando morta lha pusessem, implorando que lhe ocultassem bem a tumefacção das pernas. À cave mandou, então, Clarinda, a buscar uma garrafa de champagne, que diante de si quis ver ser servido. Era o Domingo de trinta de Julho de cinquenta desse portuense calor sem remédio, que aos boeiros faz expirar um fedor narcotizante. Fora a rua tomada pela desbocada chinfrineira dos adeptos de futebol, do jogo saídos com suas bandeiras, uma lata velha chutando, que até o silêncio, pelo empedrado, irá retumbar. Sustentou a bebida, com um sorriso de mofa, logo soltou três gritos sincopados. Na barra do lençol, esforçados, seis vezes os dedos se lhe moveram, […]. Eram os compassos de uma bourrée de Bach, infinita alegria, da terra levantada para ser relâmpago, à treva recolhida, saciada.

Sobre mim, porém, é que a fronte reclina, a velha cabelei­ra docilmente se aparta. Por ela fiz repicar os sinos do Porto, os de São Francisco e os de São Nicolau, passarei nas avenidas de Neuilly, a um portão iluminado me quedando, ao Tâmisa fui descendo, com Outubro vergastando os castanheiros. Ao fim, como dantes, a entrevejo, no desvairado fato de anêmonas escarlates, quando me trava do braço e me leva através dos convidados, ao ouvido, num murmúrio, me segreda “acha que vai o embaixador gostar do meu vestido?”

Daqui o enxergo, também, ao manuscrito que me foi entregue, no embrulho imenso de papel manteigueiro, com o barbante que em toscos nós o estreita. Só Deus sabe se algum dia haverei de o publicar, sob meu nome ou de um outro, em vez desse, funesto, que o travo dos meses me acidulou. Voga Priscila contra um renque de salgueiros, nau pejada de futuro da carga liberta das vidas que se saldaram. Por entre regas, poeiras, alguma estrela já, fica Álvaro debruçado sobre a terra, sem remissão a cavando. A cada golpe seu, calhaus e radículas desentranha, cacos cocheiros, ossadas. Guilhermina partiu, muito longe demora, nunca mais saberemos que história contaria.

O trecho foi retirado da edição da Imprensa Nacional-Casa da moeda, publicada em 1986, como parte da “Biblioteca de autores portugueses”. Trata-se de ficção biográfica ou biografia funcionalizada de Guilhermina Suggia. Filha de Augusto Jorge de Medin Suggia, de ascendência italiana e espanhola, e de Elisa Augusta Xavier. O pai foi violoncelista no Real Teatro de São Carlos e aluno no Conservatório de Música de Lisboa. Já casado recebeu o convite para dar aulas nas escolas da Santa Casa de Misericórdia de Matosinhos. O casal foi viver no Porto onde nasceram as duas filhas do casal: Virgínia e, 3 anos mais tarde, Guilhermina. Passados 2 anos, tiveram que deixar a casa da Ferreira Borges, que foi demolida e foram morar na Casa de Manhufe (ainda de pé), em Matosinhos. O pai estuda muito e Guilhermina com 2 anos já pede para ouvi-lo e para ele tocar determinadas músicas. Neste ambiente familiar, Guilhermina, aos 5 anos, pede ao pai para ensinar-lhe a tocar violoncelo. O pai andava felicíssimo com as raras qualidades que ia descobrindo na filha. A sua primeira aparição pública verificou-se quando tinha sete anos de idade, em Matosinhos. Guilhermina ao violoncelo e a sua irmã Virgínia ao piano, eram convidadas para atuar no seio cultural portuense. Com apenas 13 anos, Guilhermina era violoncelista principal da Orquestra do Orpheon do Porto, tocando também com o quarteto de cordas Bernardo Moreira de Sá. No verão de 1898, o já famoso violoncelista catalão, Pablo Casals, abrilhantava as noites no Casino de Espinho. Moreira de Sá recomenda a Augusto Suggia que vá com a filha escutar Casals. Assim foi e, no final da récita, vão conversar com o violoncelista. Augusto fala-lhe da filha e Casals sugere que ela toque para a ouvir. Passa-lhe o seu violoncelo. Ficou de tal modo agradavelmente surpreendido que se propõe dar-lhe aulas durante esse verão, ali em Espinho. E uma vez por semana, Augusto e Guilhermina vão até Espinho. Em 27 de Março de 1901, as duas irmãs tocaram no Palácio das Necessidades em Lisboa, para a Família Real. Com 15 anos apenas, Guilhermina respondeu a uma interpelação da rainha Dona Amélia sobre qual seria o sonho da sua vida, dizendo que gostaria de aperfeiçoar os seus conhecimentos musicais no estrangeiro. No trecho acima, há que se notar duas coisas: a oscilação da voz narrativa, num breve momento, do singular para o plural. A atenção a este “detalhe” funciona como segredo de cofre para acompanhar as sinuosas curvas poéticas que Mário Cláudio imprime a seu texto, comme d’habitude. O outro tópico a ressaltar é a descrição do momento da morte de Guilhermina que, depois de pedir que colocassem seu violoncelo a seu lado, na cama em que jazia, movimenta os dedos. São seis movimentos. O narrador menciona de onde teriam saído os movimentos, símile de frase musical das mais agradáveis para a moribunda. Uma cena lírica na mais cristalina expressão de lirismo de que a Língua Portuguesa é capaz, através, obviamente, de um artista superior e delicadamente soberbo: Mário Cláudio. A releitura do livro foi provocada por comentário de Jorge Valentim, professor de Literatura Portuguesa na Universidade Federal de São Carlos. Em postagem no Facebook, por participar de certa brincadeira que pedia a referência a dez cenas literárias mais tocantes, uma das que ele citou, com muita ênfase foi exatamente a que menciono aqui. Ele tem razão. É linda! Tocante. Obrigado, Jorge!

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