Primórdios IV

Tentativa de estabelecimento de categorias do Existencialismo na obra de Graciliano Ramos: Angústia

Introdução

            A grande motivação deste trabalho nasce da perspectiva, cada vez mais instigante, de tentar um discurso teórico-críti­co que consiga estabelecer de maneira definitiva, a relação intrínseca entre Literatura e Filosofia.

Em que medida podemos afirmar que uma e outra se servem e se utilizam mutuamente, para veicular seu próprio discurso?

É certo que podemos encontrar grandes questões filosó­ficas desenvolvidas num texto tipicamente literário; em contrapartida,podemos encontrar um texto filosófico que se inscreva –

em sua formalização e concepção – no campo da realização li­terária. Este fato não constitui novidade. Provoca, entrementes, uma discussão que procura esclarecer se,nestes moldes, o problema fica resolvido ou se e preciso explicitar mais os me­canismos de realização deste encontro.

 O objetivo desta disciplina – Filosofia e Literatura – se estabelece e se fundamenta no desenvolvimento desta discus­são. Não podemos deixar de estar atentos a todos os desdobramentos que esta provoca em todo o campo do saber acadêmico.

O presente trabalho, atento a todas as seguidas cons­tatações a este respeito,não pretende esgotar o assunto em sua esfera teórica.

Tomando um texto literário, de qualidade inegável, tentaremos elucidar esta questão a partir do trabalho criativo desenvolvido por Graciliano Ramos.

A perspectiva da análise será dada pelo personagem cen­tral da narrativa, Luís da Silva. Isto, a nosso ver, operacionaliza melhor o trabalho de consideração dos temas do Existencialismo na sequência narrativa desenvolvida pelo autor através do personagem.

Acreditamos não ser importuna a observação de que não faremos um trabalho comparativo com outras obras que apresentam o mesmo caráter. A exiguidade do tempo e os objetivos específicos deste trabalho assim o exigem.

Partiremos de uma breve consideração do título do romance, não do ponto de vista da narratologia moderna, que não de­ve ser considerada inválida por causa disto. A nossa intenção com esta atitude é tentar criar um clima propício para a discussão proposta, almejando uma melhor compreensão e aceitação de nossas especulações.

A preferência por obras de caráter mais analítico sobre o tema do Existencialismo se vê plenamente justificada nos ob­jetivos já apresentados.Gostaríamos apenas de apresentar um pequeno acréscimo que diz que os manuais e livros introdutórios obedeceram a um caráter de generalidade e abrangência global do tema,uma vez que este trabalho não possui a pretensão de ser final ou conclusivo em relação ao tema tratado a partir do texto literário escolhido.

Gostaríamos ainda de acrescentar que é de nosso interesse particular o estudo ora apresentado, uma vez que é grande a utilidade apresentada pelo elenco de contribuições, veiculadas por ele,para o desenvolvimento de nosso trabalho final de mestrado.

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Da palavra angústia

Não se pode negar o absoluto poderio da palavra, quando consideramos o vasto campo coberto pela necessidade de transmissão de ideias. Assim, na Filosofia, a palavra conhece maior celebração, por sua capacidade de levar o homem à reflexão profunda de todas as suas possibilidades, a partir da abstração possibilitada e veiculada por ela mesma.

Particularmente, neste trabalho, podemos afirmar que um apalavra se apresenta como chave de compreensão do jogo es­tabelecido, e cada vez mais buscado, entre Filosofia e Litera­tura.

Antes de qualquer explanação, gostaríamos de deixar claro que não é nossa intenção corroborar tentativas de rotulação categorizante sobre a obra de qualquer escritor. No caso de Graciliano Ramos, muito se tem dito[1] e não nos parece opor­tuno discutir todas as abordagens feitas sobre sua obra. Não podemos, no entanto,deixar escapar uma oportunidade de exercitar nossa capacidade analítica no caminho proposto para alcan­çar objetivos maiores.

Podemos dizer, como vínhamos fazendo, que uma palavra-chave se apresenta como ponto departida para a nossa análise. É a palavra “angústia”.

Derivada do latim angustia, significa estreiteza, li­mite,restrição, ansiedade ou aflição intensa ou ainda, ânsia, agonia, sofrimento tormentoso, tribulação.

Destas primeiras considerações, podemos nos remeter a um contexto quase patológico, onde se localiza o espírito humano quando experimenta tal sensação. Gomo podemos deduzir, angústia não possui uma existência material, não chega a consti­tuir-se como ser, mas como sensação, sentimento.

A etimologia da palavra nos apresenta elementos interessantes. Na palavra angústia encontramos angusti elemento composicional do latim angŭstus que significa estreito, apertado, pontia­gudo.

Esta segunda consideração nos esclarece mais a situação criada pela palavra angústia. Seu caráter redutivo, e quase opressor, é evidente. Este traço define todo o espirito que circunda esta palavra quando consideramos sua significação no contexto da obra literária analisada.

Não é uma coincidência simples, ofato de angústia ser uma palavra-chave. Afinal,ela dá nome à narrativa de Graciliano Ramos[2]. Foi uma escolha propositada pois encontramos na Filosofia o respaldo de ideias que nos ajudarão a compreender, não só o título da obra, como também a relação que a Literatu­ra estabelece com aquela, nesta narrativa invulgar.

Dois dos precursores do Existencialismo fazem observações interessantes, são elas:

Segundo Kierkegaard, angústia e uma determinação que revela a condição espiritual do homem caso se manifeste de maneira ambígua e o desper­te para a possibilidade da liberdade. Já Heidegger coloca que é a disposição afetiva pela qual se configura a existência.

Destas duas observações podemos retirar duas ideias que serão trabalhadas posteriormente. Em primeiro lugar, um certo clima de opção, de escolha, que se define a partir do próprio clima de instabilidade, criado pela situação mesma da angústia. Em segundo lugar, a ideia de nadificação do ser, marcando a total impossibilidade de modificação da impassibilidade do homem diante dos objetivos finais, ontológicos, de sua própria existência.

Não temos a intenção de dar por acabada, pelo menos nos limites definidos por este trabalho, a discussão acerca desta palavra. Cremos, no entanto, que os elementos por ela veicula­dos, e até aqui apresentados, já nos oferecem luminosidade su­ficiente para que possamos desenvolver a análise proposta.

O texto de Graciliano Ramos parece ser de grande valia para esta análise. Ela também não é única. A riqueza de seu personagem central – Luís da Silva – e a qualidade técnica da narrativa impõem-se como parâmetros básicos mais que suficientes para a consideração de algumas categorias existencialistas em seu universo diegético.

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Fundamentação teórico-filosófica

Começamos a nossa caminhada citando um dos autores con­sultados[3]:

“O existencialismo é uma filosofia em primeira pessoa, e em primeira pessoa concreta, que põe na Filosofia tudo de seu, e não nada de seu,como exigia o pensamento abstrato”.

Esta primeira citação nos direciona as especulações, colocando como vetor máximo o homem, o indivíduo, e sua medida. Não podemos falar do Existencialismo como mero exercício de abstração. Há necessidade intrínseca de levar em conta a concretude do indivíduo considerado no universo de sua existência e focalizado em sua impassibilidade total diante do mistério que o rodeia.

Kierkegaard já postulava esta necessidade ao considerar que a dificuldade do pensamento abstrato se concentra em todos os problemas da vida humana. Isto deve estar sempre presente,pois a abstração a par de seu valor operacional, em muitas si­tuações, tende a escamotear, a apartar, as dificuldades concretas do existir humano.

O pensamento abstrato não possui nenhum interesse imediato e próprio, mas a dificuldade da existência reside justa­mente no maciço interesse dirigido sobre a própria busca da essência, empreendida pelo homem que tenta pensar sobre ela; que tenta encontrar explicações, esclarecimentos sobre sua própria vida. O pensamento puro nos leva à verdade, mas misturado às paixões ou sentimentos, nos fornece opiniões que não nos permitem ter uma visão objetiva do mundo. Não nos deixa escapar de sua força de sacrifício.

A Filosofia existencialista distancia-se do abstrato e aproxima-se do que realmente existe na vida do homem que observa sua própria existência. O Existencialismo tenta refletir sempre sobre a experiência do ser humano na sua própria busca de essência.

O Existencialismo adapta como língua a linguagem do romance, principalmente, e também do teatro. Simone de Beauvoir já considera esta realidade e diz que “a descrição da essência pertence à Filosofia propriamente dita; só o romance permitirá evocar na sua realidade completa, singular e temporal, o jato original da existência”[4].

A abordagem individual da realidade se faz através da abstração de nossa própria existência, o que faz saltar aos olhos a verdadeira concretude, a realidade material das coisas fora de nós.A aventura de existir está muito dependentemente ligada à realidade material das coisas; isto nos leva à consideração do fato de que a observação da existência ultrapassa a materialidade, pois revela o caráter singular e único de cada existência em separado. A aparente contradição existente entre estas duas observações enfatiza o caráter de emergência que pode seri nferido das atitudes e colocações do indivíduo ao pen­sar a sua própria existência.

Segundo Aristóteles, a ciência começa pelo espanto e o Existencialismo, considerado num aparato científico, que supostamente envolve as especulações filosóficas, tem seu início no espantoso perceber da própria existência humana, o fato da vi­da. Esta percepção coloca mais uma característica particular, a de unicidade diante da possibilidade infinita, a individualidade no universo. Esta característica atribui, de antemão, uma qualidade de diferenciação plausível na investigação existencialista.

Há na existência do homem uma constante possibilidade de “vir a ser” que o põe, radicalmente, em relação à brutalidade material das coisas. Esta passagem, ou mesmo, a sua consideração, marca a primeira condição da existência humana, o esco­lher.

O homem é privilegiado pois pode optar pela existência desejada. De certa forma, esta condição parece contradizer-se quando observamos que não há escolha do par genitor. Este pon­to abre novas perspectivas que por ora ultrapassam nossos objetivos.

Na verdade, não basta escolher “ser”, mas “ser” o esco­lhido na existência que já está determinada. A partir desse ponto, podemos afirmar, com certeza, que este movimento dialógico estabelecido entre “ser” e “existir” é o responsável pelo aparecimento das angústias que se apresentam como elemento de discussão do próprio homem. Paulo Foulquié[5] nos dá uma visão bastante interessante deste ponto:

“Em cada circunstância, o homem,ao contrário, pode escolher entre muitas hipóteses: e só depois de sua escolha, sabe-se o que de fato ele escolheu, no que esta escolha o transformou, qual a sua essência”

A escolha do que somos revela a capacidade de obedecer. a uma consciência, caráter de responsabilidade que envolve qualquer atitude do homem.Nós temos nossa atenção sempre vol­tada para o exterior e esta é a única possibilidade de justificação de nossa própria consciência. Ao lado da responsabilida­de já prevista e, antecipadamente, existente, nos leva à consideração da liberdade de escola, dentro de um quadro de proba­bilidades concretas e acessíveis.

Neste jogo de percepção,a existência e seus modos de percepção e análise nos trazem a imagem do outro.

Este fato constitui a concretização dos conceitos abs­tratos que são veiculados em todo este processo especulativo. Este conjunto de elementos determina a necessidade de confron­tação não só do indivíduo com ele mesmo, como entre todos os possíveis polos estabelecidos a partir da relação dialética considerada. Isto é apenas um condicionamento da própria existência humana era seu exercício ontológico.

Há,ainda, que se levar em conta a necessidade constan­te e fundamental, do compromisso individual com as próprias opções e resoluções (incluindo a sua própria negação). Este fator demonstra a adaptação necessária do processo ao caráter contingente da própria existência no mundo. É o reconhecimento de certa relatividade, apesar de aparentemente grande, ontoló­gica de todo o processo desenvolvido.

“Os nossos fins governam todas as nossas escolhas; a li­vre escolha de nossos fins acarreta a liberdade de todas as nossas determinações particulares”[6]. A partir desta observa­ção, podemos aventar um vínculo de consequência entre este processo de opção e responsabilidade e a angustia que dele decor­re. Não há como escapar a esta conclusão, pois a determinação de uma opção num conjunto de possibilidades determina o abandono das demais. A redundância se reflete no caráter – quase ób­vio – desta observação.

A angústia se apresenta, então, como uma consequência automática que não permite, praticamente,nenhuma modificação processual. É rejeitando todas as construções do espírito no mundo atual que ele se coloca que os existencialistas procuram dar por terminada e determinada esta contradição, que se reve­la no ato de escolher, sem nenhum princípio de escolha. Esta contradição se reflete também no momento de determinar no acerto ou não de toda e qualquer decisão. Aí se fundamenta a angústia existencialista.

A perspectiva individual da existência humana, de sua análise e de todos os desdobramentos ultrapassam a esfera da responsabilidade e da liberdade de opção. Ha ainda a consideração de estar no mundo com os outros. Esta observação coloca todos os homens, respeitadas as devidas diferenças, no mesmo ní­vel de condição existencial.

Partindo daí, podemos dizer, com certa segurança, que o diálogo é a possibilidade primeira e fundamental de mútua apresentação condicional. Há uma existência “com”, que não pode ser destituída de valore abandonada nas especulações que bus­cam generalizações filosóficas.

A preocupação constante do Existencialismo é reencontrar um sujeito existencial, o de nossa experiência pessoal,vivida; e restaurar o contato íntimo, na existência humana, entre a subjetividade e a transcendência, dois termos que estabelecem uma antítese, mas que se apresentara sempre e indissoluvelmente ligados.

O homem não constitui uma existência individualizada, no sentido de isolada do todo universal. Pelo contrário, faz par­te dele e nele atua de maneira operacional.

Até aqui, colocamos algumas observações generalizadoras acerca do Existencialismo, num enfoque principalmente filosófico. Não deixamos de lado a tentativa de operacionalizar estas ideias, tendo em vista a análise da narrativa que será posteriormente desenvolvida.

Uma consideração a mais, que podemos dizer importante, por particularizar um aspecto da especulação filosófica, diz respeito a Deus.

Esta ideia e a possível anulação de sua existência pos­tulam os fundamentos do Existencialismo. Dizemos isto, pois, o caráter finito da existência humana pede, como necessidade essencial o estabelecimento de valores básicos – funcionando como parâmetros – de moral e critério de avaliação e tomada deposição.

Implicitamente, em qualquer atividade proposta como instrumento de especulação filosófica, caracteristicamente existencialista, tem-se a necessidade de uma projeção para o infinito.

Retomando nosso discurso, preparando um momento de con­clusão, podemos levar em consideração duas posições precursoras do Existencialismo.

Para Heidegger, o homem é um ser para a norte. Isto se constitui como a grande possibilidade da vida humana, garantindo a existência de todas as outras possibilidades, consideradas menores, que vão preenchendo o tempo até o fato derradeiro.

Jaspers, na tentativa de negação da morte, postula para o homem uma fatalidade de naufrágio. O caos existencial vai tomando conta da própria vida, impedindo sua subsistência livre e desimpedida.

Como fator de contemporaneidade, Sartre considera que o homem não tem um destino programável ou definível ontologicamente. O homem é um ser para o “nada”. O futuro da humanidade é o desaparecimento completo e este “nada” é que leva a cabo a existência  do próprio ser humano.

A existência do homem é, então, demarcada em sua finitude pelo nascimento e pela morte. O“vir a ser” e o “ter sido”são os dois termos de uma linha evolutiva,que marca, para to­do o sempre, todas as atitudes do homem em seu caminho de bus­ca da própria essência. Esta caracterização pela finitude, pode-se dizer, é que dá a marca de peculiaridade à existência – e existência  racional – do homem.

Podemos dizer, então, com alguma certeza, que uma atitude existencialista possui duas fontes principais: a tomada de consciência de urna situação histórica e social de crise e de revolução; e a mesma tomada de posição, com relação ao conhecimento que se desenvolve a partir da própria existência.

Concluímos esta primeira parte do trabalho, com uma citação instigante que deixa um campo aberto atrás de si[7]:

“Os existencialistas devolvem à palavra “existir”seu sentido etimológico. “Existir”quer dizer estar fora, ir para fora. Na palavra “existir”, o importante é o “ex”, que indica o movimento de algo para outra coisa. Existir é estar fo­ra do próprio centro, fora de si mesmo (…). O homem, enquanto existe, é o ser que está fora de si, o ser que se estranha a si mesmo, o ser lon­ge de si”.

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Luís da Silva: possível estudo de caso

Chamamos esta parte do trabalho de possível estudo de caso pelo simples fato de que um nome comum identifica um ho­mem comum, um homem como qualquer outro. Seus traços de herói se perdem numa diluição quase completa de formas corriqueiras de existir.

Não tomamos parte muito expressiva no contexto de Luís da Silva talvez, por força do incômodo que sua situação e história criam em nossa própria existência, de mais a mais, con­cordamos com o professor Rui Mourão[8], quando diz que:

“O ana­lista deve se colocar diante da obra literária sem qualquer plano antecipado de trabalho, pondo em suspenso, inclusive, a sua carga organizada de conhecimentos, a fim de que a intuição crítica se realize em toda sua plenitude, é necessário deixar o texto falar, até que se revelem os seus suportes expressivos fundamentais.

A partir deste momento, o esforço de interpretação se orientará no sentido da descoberta da unidade da estrutura de significados, através do levantamento tanto mais completo quanto possível, dos diversos extratos, para que se chegue ao amplo descortínio da fisionomia íntima do fenômeno vivo. A crítica, entretanto, somente dará por terminada a sua tarefa quando esse devassamento dos suscetíveis níveis de significação atin­gir os planos mais amplos e gerais, em que o produto estético deixa de ser para o intérprete uma realidade absoluta, ganhan­do a dimensão relativa, que corresponde à própria maneira de se inserir no processo geral da cultura”.

Penetrando diretamente no texto de Angústia,podemos conferir que a utilização da prosa subjetiva, com os verbos quase sempre em primeira pessoa, causa efeitos que, supostamente, ultrapassam uma possível estruturação narrativa desejada pelo próprio autor. Como não temos certeza de suas reais intenções, baseamos nossas observações em processos evidentes de escritura,como a modificação do gênero narrativo que coloca em substantivos comuns a designação do ser que fala, dificultando a determinação da voz narrativa. Tal procedimento tende a estabelecer uma possível tentativa de universalização atemporal, e não determinada no espaço, dos problemas de comunicação de toda a problemática existencialista que pode ser inferida do discurso narrativo.

Todo o texto, a partir da consideração estilística da utilização do tempo verbal (um dos níveis plausíveis), coloca a situação de imobilidade do indivíduo diante do tédio causado pela inexplicabilidade de seu próprio drama existencial. Podemos perceber isto num dos trechos iniciais do texto de Graciliano

“Um sujeito chega, atenta, encolhendo os ombros ou estirando o beiço, naqueles desconhecidos que se amontoam por detrás do vidro. Outro larga uma opinião à-toa. Basbaques escutam, saem, e os autores, resignados, mostram as letras e os algarismos, oferecendo-se como as mulheres da rua da Lama”.

Logo nas primeiras páginas, percebemos que algo começa a se estruturar apesar da caótica apresentação de uma visão de coisas. Não sabemos ao certo com que estamos fazendo contato ou em que tempo objetivo nos encontramos. Começamos a distinguir o mundo social e geográfico em que vive nosso guia oculto, começamos a partilhar com ele suas próprias emoções, sem que elas percam sua absoluta particularidade, e a penetrar no seu próprio campo de visão da realidade; adotamos o seu enfoque. Neste contexto, o caráter filosófico do discurso, que passa a ser considerado filosófico, o mesmo que orienta a leitura do texto, a partir desta tentativa de universalização dos confli­tos vividos – já em processo – por um personagem que não se diferencia do narrador, demonstra toda a impassibilidade do homem diante da constatação da própria perplexidade.

O personagem de Angústia procura trazer todas as sen­sações, tudo o que lhe aconteceu no passado, para dentro de um único instante, o instante mesmo de sua conscientização diante da realidade objetiva dos fatos que vai sendo conscientizada.

O posicionamento do indivíduo diante da complexidade de sua própria existência, exige uma parada no tempo, como que querendo absorver, lucidamente, toda a carga sensível de sua aventura existencial; na tentativa de apreensão de um sentido,que se perdeu na própria experiencia do viver.Ainda no início de Angústia,encontramos outro trecho que ilustra com bastante força temática, as observações feitas até aqui:

“Não consigo escrever. Dinheiro e propriedades, que me dão sempre desejos violentos de mor­tandade e outras destruições, as duas colunas mal impressas,caixilho, dr. Gouveia, Moisés, homem da luz, negociantes, políticos, diretor e secretário,tudo se move na minha cabeça, como um bando de vermes, em cima de uma coisa amarela,gorda e mole que é, reparando-se bem, a cara ba­lofa do Julião Tavares muito aumentada. Essas sombras se arrastam com lentidão viscosa, misturando-se,formando um novelo confuso”.

Luís da Silva é um homem atormentado. Ele se sente acuado, vive a própria angustia de existir, imerso num mundo confu­so, caótico. Ele vai desenvolvendo um processo de descoberta, como se abrisse uma caixa,encontrando outra e depois outra. Faz sair uma emoção, uma recordação, uma visão, etc.; por aí chega a alcançar o infinito de sua experiência, quer dizer, co­meça a tocar a linha que esgota todos os compartimentos e subcompartimentos de sua lucidez. As anotações possíveis do que vai percebendo ficam reunidas num só instante, um compartimento maior: a caixa que comporta todas as outras caixas.

Podemos inferir um forte traço intimista no discurso de Graciliano Ramos, veiculado, é claro, por Luís da Silva.

Este intimismo, em algumas passagens, marca a aproxima­ção realizada entre o texto e algumas categorias da Filosofia marcadamente existencialista. Por exemplo, o individualismo, que não se fecha ao real pois tende a universalizações que possam emoldurar outras considerações diferenciadas. Outro exemplo muito ilustrativo é o da náusea,apresentada, colorida e muito evidenciada em determinados detalhes que perpassam todo o texto, criando climas opressivos, quentes até. Um abafamento agoniado,zumbir de moscas sobre mesas engorduradas, zunir do ouvido provocado pelo álcool,a terra, o sono, a sufocação.

O texto vai desenvolvendo de maneira ilustrada, quase comentada. “o espetáculo de uma consciência em funcionamento”. Podemos, a cada passo, acompanhar com o personagem cada etapa do processo de diluição do peso da existência humana diante da imensa opressão do infinito da vida.

Desta forma, há a realização de uma possível comunhão da Filosofia com a Literatura,apresentando as vantagens dos recursos estéticos no desenvolvimento de um raciocínio filosó­fico, sobre uma tese qualquer.

Os operadores estéticos fazem encobrir a aridez do conflito existencial puro, considerado pelo discurso da Filosofia na trama confusa e opaca de uma existência individual, sem grandes pretensões de importância. O texto não procura dimensionar juízos de valor sobre o discurso filosófico, nem sobre o discurso literário. Há um processo de intercomplementaridade de visões que proporciona um grande momento de reflexão, esteticamente construído.

Há uma proposta existencialista clara: o jogo estabele­cido entre essência e existência. Tal ludoterapia proporciona ao indivíduo a possibilidade de reabilitação de seu próprio ser diante da náusea, que o acomete perenemente. Luís da Silva participa do jogo e vai desfiando um novelo, procurando estabelecer parâmetros que possam beneficiá-lo na busca de solução de suas dúvidas, apreensões e projetos.

O professor Rui Mourão nos apresenta mais alguns elementos de orientação nas observações possíveis, no seguinte trecho de seu livro, já citado anteriormente:

“A impressão que se tem é de que, havendo atingido,nas suas viagens pelo tempo, o campo da meninice, de lá não deseje retomar. O presente em que nos coloca é qualquer coisa de anestesiante – um presente comprometido pela inação, um presente que parece estar fora do tempo,por não ser capaz de dar a ideia de sucessividade. Ele pertence à atualidade ou ao passado? À atualidade, mas bem que poderia pertencer igualmente ao passado, uma vez que o personagem insistia de tal maneira em reviver os dias idos que o passa­do acaba por se tomar a sua atualidade”.

Podemos dizer que, de acordo com estas observações, o texto de Graciliano Ramos apresenta as implicações da escolha do que se quer ser para a comprovação da tese – uma das principais – do Existencialismo. Estas constituem um pressuposto fundamental:a liberdade. O ser pode optar por sua existência e, assim, se localizar no tempo. Luís da Silva faz sua opção e percebe que a angústia que vivencia pode ter plantado uma de suas raízes na fundamentação desta liberdade de escolha. Ele escolheu uma dentre as inúmeras manifestações de possibilidade existencial veiculadas pelo tempo.

O fato de prender-se à prática de escrever artigos para o jornal, o fato de ser funcionário público, o fato de ser apaixonado por Marina e o fato de ter de se livrar de Julião Tavares – seu rival declarado – dimensionam e conduzem a opção de Luís da Silva, apontando para elas a solução que parece a mais adequada,aquela que poderá aplacar um pouco sua própria angústia, pacificando seu espírito. O sentir-se acuado pode terminar como uma solução procurada. Não é inoportuno apontar aqui uma abertura para possível abordagem psicanalítica do mesmo processo de opção entre as possibilidades de solução do im­passe existencial[9].

Podemos ainda observar que o texto se limita a acumular uma única forma verbal,contrariando as possibilidades de estabelecimento de uma sucessividade na apresentação dos fatos. A contraposição de formas verbais viabilizaria esta sucessivida­de. No entanto, parece que a atitude do autor é intencional. Mais uma vez, podemos dizer que o procedimento narrativo esco­lhido e responsável pela busca constante de compatibilização entre os discursos filosófico e literário;ou ainda, por sua intercomplementaridade operacional o significativa.

No fundo, os resultados obtidos por tal procedimento são essencialmente mais importantes:o texto construído em sua atemporalidade evidente, faz tornar mais perceptível a definição do drama existencial de Luís da Silva. Ele torna-se,gradualmente, mais visível em seus “flancos”.

A ansiedade intensa, a preocupação exclusivista de Luís da Silva, abrangem, de tal maneira, todas as áreas de sua consciência, que seus mergulhos no passado,no mundo da memória, não passam de ilusão. O que consegue é, simplesmente,trazer o passado para o presente, misturar as recordações com as angús­tias atuais e agravar ainda mais a sua atualidade de animal acuado. Tudo isto se deve à comparação que se estabelece entre as duas fases de sua vida.

A vida de Luís da Silva não é recheada de novidades, ao contrário, parece repetir sempre o clima de angústia e de per­da, que tivera sua primeira instância com a morte do próprio pai:

“O personagem narrador age de maneira intencional.Não está sendo lançado para esse ou aquele lado das lembranças, ao sabor de momentânea e ocasional emotividade, porém se encaminha para um destino certo,fixa uma data. Sentimos que está se colocando num ponto de partida para relatar uma história (…). Lutando, durante todo o tempo, pura escapar da consciência,via permanentemente frustrarem-se os seus esforços: não con­seguia se proteger satisfatoriamente no passado, nem obtinha apoio efetivo na realidade em que vivia.Acossado, correndo o risco de sucumbir, foi conduzido ao caminho do se esvaziar pela confis­são. (…) O sentido da segregação é por demais vivo no personagem e isso vai sendo marcado diante te de nos à medida que nos estampa a sua cosmovisão, que inclui como que uma barreira que o separa de tudo o mais. (…) Emparedado dentro de si próprio, o personagem não tem qualquer diretriz, não busca avançar em qualquer sentido –naufraga irremediavelmente. Entrega-se ao sabor de suas emoções, que não passam de insolúvel obsessão, de eterno retornar aos mesmos pontos”[10].

Este longo trecho parece comprovar, através de especulações sobre o texto de Graciliano Ramos, o exercício das principais teses existencialistas na pessoa de Luís da Silva. Ele se sente acuado – num determinado momento de sua vida, não podemos nega r–, tem necessidade de dar vazão à sua angústia, percebe-se um verdadeiro oceano de possibilidades, faz sua opção, reage aos acontecimentos dela decorrentes sem faltar com sua responsabilidade, leva suas atitudes às últimas consequências, e,como era de se esperar, parece tornar-se um homem de espírito pacificado.

Para terminar esta exposição, gostaríamos de citar outro trecho do texto de Graciliano Ramos que, a nosso ver, pro­porciona uma visão sintética de uma possível formulação existencialista de sua narrativa. É o seguinte:

“A réstia descia a parede, viajava em cimada cama, saltava no tijolo –e era por aí que se via que o tempo passava. Mas no tempo não havia horas, 0 relógio da sala de jantar tinha parado. Certamente fazia semanas que eu me estirava no colchão duro, longe de tudo. Nos rumores que vi­nham de fora as pancadas dos relógios da vizinhança morriam durante c dia. E o dia estava dividi­do em quatro partes desiguais uma parede, uma cama estreita, alguns metros de tijolos, outra parede. Depois era a escuridão cheia do pancadas, que às vezes não se podiam contar porque batiam vários relógios simultaneamente, gritos de crianças, a voz arreliada de d. Rosália, o barulho dos ratos no armário dos livros, ranger de armadores, silêncios compridos. Eu escorregava nesses silêncios, boiava nesses silêncios como numa água pesada. Mergulhava neles, subia, descia ao fundo, voltava à superfície,tentava segurar-me a um galho. Estava um galho por cima de mim, e era-me impossível alcançá-lo. Ia mergulhar outra vez, mergulhar para sempre, fugir das bocas da treva que me queriam morder, os braços da treva que me queriam agarrar”.

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 Conclusão

Luís da Silva e um homem qualquer. Sua condição não o coloca em posições privilegiadas de existir, mas vai proporcionando situações optativas. Sua angústia aumenta na medida em que vai se sentindo mais pressionado, acuado mesmo, por uma situação absolutamente insustentável.Ele decide por uma atitude; determinadamente, arca com as suas consequências,pacifica-se. Este personagem é comum, é ímpar, mas é cada um de nós. Sem qualquer condicionamento temporal, ou mesmo circunstancial, peculiar.

Graciliano Ramos, no plano da narrativa, cria um universo por demais conhecido. Com um toque de gênio, porém, transforma sua história num primoroso tratado, quase um estudo de caso – como ousamos chamar a última parte deste trabalho – onde ca­da detalhe descritivo, cada ponta de pensamento do personagem, deflagra um processo de abordagem do ser do homem, em obediên­cia quase servil às principais teses do Existencialismo.

Não há, e isto não seria absolutamente necessário, pre­ocupação com escolha deste ou daquele filósofo e de sua doutrina ou sistematização[11].

O pensamento é um processo fluído e acumulativo. Este postulado é que orienta os parâmetros filosóficos do texto li­terário.

Luís da Silva sente-se insatisfeito, angustiado mesmo, com sua condição socioeconômica e aflige-se com uma paixão não resolvida, não consumada. Os oponentes são muitos.O indi­víduo sente-se acuado pela própria impassibilidade que enfati­za a finitude de seus recursos diante do peso infinito da existência. O indivíduo busca sua essência e pressente o momento de optar por caminhos que viabilizem sua finalidade existencial.Luís da Silva conhece as consequências do ato pensado e age, assumindo total responsabilidade por sua própria opção. Cônscio de que pode perder sua liberdade por não poder desfrutar de sua paixão, resolve colocar um ponto final no peso opressivo da angústia que pontua sua vida e elimina seu principal oponente – Julião Tavares – quase um símbolo. O indivíduo pacifica-se e então percebe a profundidade do “nada”, do “naufrágio” completo que conclui todo o processo de eleição.

A narrativa de Graciliano Ramos utiliza de recursos de linguagem, aparentemente simples, como meio de viabilizar um discurso filosófico de alto nível. A ousadia de utilizar pala­vras corriqueiras em detrimento de vocábulos técnicos, ou antes, específicos, nos proporciona grande abertura para penetração no texto. Os personagens não alçam grandes voos estilísti­cos e sua vida fica quase ensimesmada: há completa identifica­ção com o concreto do dia adia.

A dificuldade em se estabelecer de quem e a voz narrativa, livra o discurso de se tornar pesado, ou mesmo pastoso. Este último adjetivo se aplica, magistralmente, ao universo diegético aí reside uma de suas qualidades filosóficas, a materialidade da náusea sartreana.

O livro nos coloca em contato com alguns momentos de uma vida qualquer. Paradoxalmente, sua universalidade é inegá­vel. Ao lado do altíssimo nível estético do texto, podemos ad­mitir, sem qualquer dúvida, a profundidade filosófica de sua frase.

Se um dos grandes impasses da pretensa ciência literária é encontrar exemplos deligação estrutural e artística da pró­pria Literatura com a Filosofia, temos com Angústia um exemplo perfeito desta integração. Voltando ao início de nossas obser­vações, basta apenas prestar atenção ao nome da obra…

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Bibliografia

A – De análise

RAMOS, Graciliano. Angústia. 3 ed. Rio de Janeiro, Editora e Livraria José Olympio, 1947.

B – Crítica

CRISTOVÃO, Fernando Alves. Graciliano Ramos: estruturas e valores de um modo de narrar. 2 ed. Rio de Janeiro, Editora Brasília/Rio, 1977. Coleção Letras.

LIMA, Luís Costa. Por quê Literatura?. Petrópolis, Editora Vozes, 1966.

MOURÃO, Rui.  Estruturas: ensaio sobre o romance de Graciliano Ramos. Belo Horizonte, Edições Tendência, 1969.

C – De apoio

BUENO, Francisco da Silveira.Grande dicionário etimológico-prosódico da Língua Portuguesa. São Paulo, Edição Saraiva, 1963.

CUNHA, Antônio Geraldo da. Dicionário etimológico Nova Fronteira da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro, Editora Nova Fronteira, 1982.

FATONE, Vicente. Introducción al existencialismo. 4 ed. Buenos Aires, Editorial Columba, 1962. (Coleção Esquema,4)

FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Novo dicionário da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro, Editora Nova Fronteira, 1975.

FOULQUIÉ,Paul. O existencialismo. Trad. de J.Guinsburg.  São Paulo, Difusão Europeia do Livro, 1955.

GARAUDI, Roger. Perspectivas do homem. Trad. de Reinaldo Alves Ávila. 2 ed. Rio de Janeiro, Editora Civilização Brasileira, 1966.

KIERKEGAARD, Sören. O conceito de angústia. Trad. João Lopes Alves. 2 ed. Lisboa, Editorial Presença, s. d. (Coleção Divulgação e ensaio, 7)

LIMA, Alceu Amoroso. O existencialismo. Rio de Janeiro, Livraria Agir Editora, 1951.

PENHA, João da. O que é o existencialismo. São Paulo, Editora Brasiliense, 1984.(Coleção Primeiros passos)

(Trabalho final da disciplina Filosofia e Literatura, Prof. João Ferreira)


[1] Esta afirmação vem deixar clara nossa isenção com relação a toda e qualquer crítica que possa ter sido veiculada a partir da consideração da obra deste autor sob o enfoque do Existencialismo.Partimos deste pressuposto, pois o nosso objetivo maior esta além deste trabalho, o que não deixa de ter sua importância peculiar.

[2] A escolha desta palavra é completamente arbitrária. Poderíamos ter escolhido “existência”, já que se liga por traços etimológicos ao tema do trabalho – o Existencialismo. Pareceu-nos mais interessante, porém, estabelecer uma ligação com o clima, o tom, o tema suscitado pela obra, através de seu título.

[3] FATONE. Introducción al existencialismo…

[4] BEAUVOIR,Simone de. O existencialismo e a sabedoria das nações. Lisboa, Editora Minotaure, 1965 (Coleção Ensaio)

[5] FOULQUIÉ, Paul. O existencialismo

[6] Idem.

[7] FATONE, Vicente. Obra citada.

[8] MOURÃO, Rui. Estruturas: ensaio sobre c romance de Graciliano Ramos…

[9] Esta observação se fundamenta numa constante alusão à pessoa do avô do personagem, juntamente com outras imagens do passado do próprio Luís da Silva: Rosenda, o pai, alguns aspectos de sua vida ulterior. Em termos de abordagem psicanalítica, é interessante notar a falta de alusão explícita à imagem da mãe do personagem. Todas estas possibilidades têm, além de tudo, a missão de remeter sempre a uma consideração fenomenológica do texto em estudo.

[10] MOURÃO, Rui. Obra citada.

[11] Esta afirmação não pretende anular a validade de toda a diversidade do pensamento filosófico existencialista. Tentamos apenas condensar as correntes mais representa­tivas, em grandes linhas de pensamento, procurando recuperar os pontos recorrentes 
– mesmo que identificados por terminologia diferenciada, apesar de sinônima, mui­tas vezes – das principais posições.Respeitamos a ordem de evolução do pensamento existencialista e acatamos sua ordenação; tendo em vista que nunca é demais ousar…

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Entre os dois, meu coração balança

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Dois verbos que, a princípio parecem antagônicos e excludentes: lembrar e esquecer. Mas só parecem. Na verdade, um não existe sem o outro, quando usados para expressar o que quer que seja, em uma oração, para expressar qualquer coisa. De fato, um não existe sem o outro. É só parar e pensar um pouquinho. O raciocínio pode até se assemelhar ao que se faz quando se tenta responder a uma pergunta, da mesa forma, aparentemente inócua e inútil: quem veio primeiro, ovo ou a galinha? Pois bem Quem ainda não experimentou a sensação de já ter estado em determinado lugar, inesperadamente e ter dito aquelas palavras, naquele horário, para aquela pessoa. Estranho. Estranho mesmo, mais ainda que o sentido desta palavra na lição de Freud. Nesta situação, a gente não sabe muito perceber se é memória ou outra coisa. Como a lembrança não é vívida, a experiência parece um tanto mágica, quase misteriosa. Mas simultaneamente, tem-se a certeza da repetição. Nesta situação, o sujeito pode parar e refletir sobre a experiência que viveu e há duas, no mínimo, possibilidades: ter-se equivocado e reportar a experiência ao acaso, à coincidência; constatar que se recorda de algo parecido, esquecido no tempo e que volta, por um motivo desconhecido, pela menos de sua consciência.

Há muita coisa sendo escrita na face da terra sobre os mais diversos tópicos. A famigerada “literatura de auto ajuda” consegue desfazer, de maneira questionável, alguns enigmas. A horizontalidade desse tipo de abordagem devolve a dúvida. Ao fim e ao cabo, não esclarece, não explica. O fato permanece intocável, creio, por força da superficialidade de argumentos, da generalização exagerada, da despreocupação com o rigor do pensamento. Tudo isso põe por terra qualquer tentativa minimante séria, o que faz com que referida “literatura” caia, cada vez mais aprofundadamente, no esquecimento. Sintomaticamente, isso faz lembrar da lição freudiana do chiste, ou mesmo, de seu voluptuoso conceito de inconsciente. Ambas as noções poderiam funcionar como esteio de um raciocínio que se desejasse um tanto ais espesso, mais complexo, por isso mesmo, mais esclarecedor. Entre estas duas possibilidades, vislumbro um caminho de esclarecimento – aquele que faz “lembrar” da quase “esquecida” mitologia, e duas de suas personagens: Mnemosyne e Léthe – que poderia ser apontado pelo seguinte:

“Entre as duas reinava uma resistência, uma discordância, uma discrepância, uma hiância ou um conflito primordial que, justamente por isso, apontava para um vínculo originário ou para a impossibilidade mesma de se pensar uma sem a outra, ou de se conceber uma sem, simultaneamente, deduzir que ambas se imbricavam, incluíam-se, completavam-se e, mutuamente, evocavam-se.” (p. 9)

 Mnemosyne e Léthe são duas entidades mitológicas. A primeira era uma titânide, filha de Urano e Gaia. É a deusa que personificava a memória. O segundo, um dos rios do Hades. Aqueles que bebessem de sua água ou, até mesmo, tocassem na sua água experimentariam o completo esquecimento. Como a mitologia faz parte dos fundamentos da cultura na qual nascemos e pela qual fomos educados, parece-me mais que pertinente a referência. O trecho citado é retirado de um livro mais que interessante: A memória, o esquecimento e o desejo (São Paulo, Ideias&Letras, 2016). Seu autor, Rogério Miranda de Almeida (dileto amigo a quem devo o início de meu interesse pela Literatura e os primeiros fundamentos daquilo que hoje chamo de sinceridade e de honestidade intelectuais).

Partindo de ideias já muito estudadas, o autor passeia pela cultura ocidental tendo como guia o conceito de “desejo”. Motor do mundo, esse conceito, de feição ambivalente – no sentido positivo do termo – dado que oriundo do pensamento de Freud e Lacan, o desejo é o combustível que queima as arestas que possivelmente poderiam subsistir no embate representado alegoricamente entre as duas entidades mitológicas. A Psicanálise é, em minha opinião, sua primeira ferramenta de trabalho. Ao lado de Freud, Nietzsche e Santo Agostinho são seus outros bastiões. Estas duas forças da natureza humana, o esquecer e o lembrar, são coo cavaleiros medievais em torneios disputando a honra da princesa, sombreada pelas artimanhas do desejo – aproveitando a saga de Artur e os cavaleiros da távola redonda. Minha referência aqui se deve à arguta aproximação que o autor faz dos conceitos com os quais opera. A acuidade na/da escolha do vocabulário, a refinada ironia no desdizer de ideias preconcebidas e conceituações equivocadas, porque superficiais, completam o menu discursivo explicitado ao longo das 243 páginas do livro, que se lê com prazer e deleite.

Partindo da pseudo dicotomia “lembrar/esquecer”, Rogério discorre sobre os mecanismos da memória, evocando a dinâmica dos sonhos e a potencia do recalcamento, ideias psicanalíticas fundamentais para esboçar o perímetro do campo que é abrangido pela aventura mental que se desenrola entre lembrar e esquecer. Estas atividades mentais guardam um ponto comum: a “potência do esquecer”, tópico central a orientar as elucubrações feitas a partir das ideias do pensador alemão, sobretudo quando destaca que “é o próprio esquecimento, e não a recordação de uma promessa, que faz com que se desenvolvam os conceitos básicos da civilização: a justiça, a liberdade e o direito.” Interessante perspectiva de leitura, a proposta de Rogério sai do lugar comum das ideias de Nietzsche as alarga, circunscrevendo-as ao movimento subliminar do desejo. De novo, o adjetivo aqui atribuído a desejo, requer atenção, pois não o dinamiza, mas o “potencializa”.

A articulação entre História e Filosofia se apresenta neste passo do ensaio que o autor apresenta para o prazer de quem à sua leitura se dedica. “Biscoito fino” para apropriar-me da ideia de Oswald de Andrade, o texto demonstra o cuidado com os termos, sua significação e etimologia, os reflexos disso na construção do discurso e o cirúrgico cuidado na leitura deste, para a sustentação dos argumentos que apresenta, em defesa de suas hipóteses. No horizonte de expectativas da articulação do pensamento nietzscheano, vislumbra-se a discussão de situações com a da sociedade e suas ideologias. Num segundo plano, o pensamento de Marx diz presente, sobretudo na constatação de levar em consideração a ideia de que tudo o que o homem “produz” é efeito da “cultura”, mas não aquela que se vende com propósitos alheios à sua genealogia, ou seja,

“… sob a pena do discípulo de Dioniso, as produções culturais – no seu movimento niilista de destruição e reconstrução – apresentam-se como um contínuo desfilar de máscaras, ídolos, ideais, juízos e tábuas de valores. Esta é uma das razões pelas quais muito estudiosos têm relacionado Nietzsche com Marx e Freud quanto a saber até que ponto as produções culturais estariam intrinsecamente ligadas a interesses, seja de indivíduos, grupos ou classes.” (p. 116)

Passando de mera consequência, o dueto lembrar/esquecer demonstra certa autonomia em suas articulações, dada sua natureza dinâmica – porque oriunda do desejo – e a explicitação prática de seus efeitos – por conta de sua potência. Assim, faltaria ainda um aspecto para que o tripé não ficasse manco: o amor. Neste sentido, o recurso ao pensamento de Santo Agostinho se apresenta em toda a sua pujança. Auferindo os resultados das artimanhas desejo, na explicitação de uma potência criativa, os movimentos de lembrar e esquecer demandam também os afetos do espírito. A eles pode-se dar o nome de amor.

Raciocínio refinado, acuidade na escolha das palavras, sofisticada ironia. Três particularidades do texto de Rogério Miranda de Almeida. Sem se furtar ao rigoroso apanhado filosófico dos conceitos, o autor desliza leve e macio pelos meandros discursivos de seu raciocínio claro. Não é leitura para iniciantes. Da mesma forma, não se trata de tratado que esgota o assunto. Na aparente dicotomia que estes dois traços inauguram, ecoa um símile daquela que dá início a esta apresentação. Da mesma forma que nos outros volumes que escreveu e publicou, Rogério Miranda de Almeida seduz e conquista o leitor pela inteligência. Isso tem se tornado raridade. Fica o convite!!!

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Barbáries

Barbáries… O que dizer delas? Sobre elas? Há muito já dito. Talvez haja muito ainda a dizer. Quem pode saber… O tempo, pai de tudo, senhor de TODO o conhecimento sabe. Mas não revela. Enquanto isso, divirto-me com esse senhor que me diverte. Piada? Não. Reconhecimento. Uma “aula”. Mais uma”! Divirtam-se!

Domingo inteligente

Fui pego de surpresa e me agradou muitíssimo ver este vídeo até o fim! Vale a pena! Acresce a admiração e a saudade de Rogério Miranda de Almeida, a pessoa responsável por muito do que aprendi a gostar em literatura, sobretudo Graciliano Ramos. Um homem inteligente, perspicaz, sarcástico e divertido. Dele já li dois livros. Há um outro que está na lista e, pela entrevista, fiquei a saber de um quarto que está para sair. Foi uma delícia ouvi-lo. Bateu uma saudade… fomos colegas no noviciado da Companhia de Jesus entre 1977 e 1978, quando lá estive.  Sinto-me honrado em ser amigo dele.

Aproveite!

Experiência

Mais uma que recebi. Internete também tem coisas boas, interessantes, úteis… Como gosto, fico alegre quando recebo, leio, encontro, alguma coisa que me faz pensar nem que seja um pouquinho só. É diferente da minha vizinha que grita o dia inteiro, gasta água sem controle e reclama da Prefeitura porque a caixa está quase vazia, depois reclama que a caixa está vazando e daí gasta mais e mais jogando água pra fora da varanda. Grita mais um pouco e chama pela vizinha, num tom de voz estridentemente irritante ou irritantemente estridente: você escolhe. Uma tristeza. Fala, fala, fala, fala. Só sai de casa pra falar – a maior parte do tempo a casa está hermeticamente fechada. Mas chega de fuxico e vamos ao que interessa. Mais uma vez, tenho que avisar que desconheço a autoria do texto que segue. Espero que gostem…

“No processo de seleção da Volkswagen do Brasil, os candidatos deveriam responder a seguinte pergunta: ‘Você tem experiência’? A redação abaixo foi desenvolvida por um dos candidatos. Ele foi aprovado e seu texto está fazendo sucesso, e ele com certeza será sempre lembrado por sua criatividade, sua poesia, e acima de tudo por sua alma.

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REDAÇÃO VENCEDORA:

Já fiz cosquinha na minha irmã pra ela parar de chorar, já me queimei brincando com vela.

Eu já fiz bola de chiclete e melequei todo o rosto, já conversei com o espelho, e até já brinquei de ser bruxo.

Já quis ser astronauta, violonista, mágico, caçador e trapezista.

Já me escondi atrás da cortina e esqueci os pés pra fora.

Já passei trote por telefone.

Já tomei banho de chuva e acabei me viciando.

Já roubei beijo.

Já confundi sentimentos.

Peguei atalho errado e continuo andando pelo desconhecido.

Já raspei o fundo da panela de arroz carreteiro, já me cortei fazendo a barba apressado, já chorei ouvindo música no ônibus.

Já tentei esquecer algumas pessoas, mas descobri que essas são as mais difíceis de se esquecer.

Já subi escondido no telhado pra tentar pegar estrelas, já subi em árvore pra roubar fruta, já caí da escada de bunda.

Já fiz juras eternas, já escrevi no muro da escola, já chorei sentado no chão do banheiro, já fugi de casa pra sempre, e voltei no outro instante.

Já corri pra não deixar alguém chorando, já fiquei sozinho no meio de mil pessoas sentindo falta de uma só.

Já vi pôr-do-sol cor-de-rosa e alaranjado, já me joguei na piscina sem vontade de voltar, já bebi uísque até sentir dormente os meus lábios, já olhei a cidade de cima e mesmo assim não encontrei meu lugar.

Já senti medo do escuro, já tremi de nervoso, já quase morri de amor, mas renasci novamente pra ver o sorriso de alguém especial.

Já acordei no meio da noite e fiquei com medo de levantar.

Já apostei em correr descalço na rua, Já gritei de felicidade, já roubei rosas num enorme jardim.
Já me apaixonei e achei que era para sempre, mas sempre era um ‘para sempre’ pela metade.

Já deitei na grama de madrugada e vi a Lua virar Sol, já chorei por ver amigos partindo, mas descobri que logo chegam novos, e a vida é mesmo um ir e vir sem razão.

Foram tantas coisas feitas, momentos fotografados pelas lentes da emoção, guardados num baú, chamado coração.

E agora um formulário me interroga, me encosta na parede e grita: ‘Qual sua experiência?’.

Essa pergunta ecoa no meu cérebro: experiência… experiência…

Será que ser ‘plantador de sorrisos’ é uma boa experiência?

Sonhos!!! Talvez eles não saibam ainda colher sonhos!

Agora gostaria de indagar uma pequena coisa para quem formulou esta pergunta: Experiência? ‘Quem a tem, se a todo o momento tudo se renova?’”

Rubem Alves: mais uma vez

 

Eu gosto, até agora, de tudo o que o Rubem Alves escreve. Não julgo o mérito do seu discurso, não condeno suas ideias a priori, não discuto a plausibilidade de suas argumentações. Eu simplesmente gosto de ler o que ele escreve. Não o conheço pessoalmente… Jamais o ouvi ao vivo e a cores… Gosto de ler o que ele escreve, quando encontro um texto seu. Daí, mais esse que segue:

A complicada arte de ver
Rubem Alves

Ela entrou, deitou-se no divã e disse: “Acho que estou ficando louca”. Eu fiquei em silêncio aguardando que ela me revelasse os sinais da sua loucura. “Um dos meus prazeres é cozinhar. Vou para a cozinha, corto as cebolas, os tomates, os pimentões – é uma alegria! Entretanto, faz uns dias, eu fui para a cozinha para fazer aquilo que já fizera centenas de vezes: cortar cebolas. Ato banal sem surpresas. Mas, cortada a cebola, eu olhei para ela e tive um susto. Percebi que nunca havia visto uma cebola. Aqueles anéis perfeitamente ajustados, a luz se refletindo neles: tive a impressão de estar vendo a rosácea de um vitral de catedral gótica. De repente, a cebola, de objeto a ser comido, se transformou em obra de arte para ser vista! E o pior é que o mesmo aconteceu quando cortei os tomates, os pimentões… Agora, tudo o que vejo me causa espanto.”

Ela se calou, esperando o meu diagnóstico.

Eu me levantei, fui à estante de livros e de lá retirei as Odes elementales, de Pablo Neruda. Procurei a “Ode à cebola” e lhe disse: “Essa perturbação ocular que a acometeu é comum entre os poetas. Veja o que Neruda disse de uma cebola igual àquela que lhe causou assombro: ‘Rosa de água com escamas de cristal’. Não, você não está louca. Você ganhou olhos de poeta… Os poetas ensinam a ver.”

Ver é muito complicado. Isso é estranho porque os olhos, de todos os órgãos dos sentidos, são os de mais fácil compreensão científica. A sua física é idêntica à física óptica de uma máquina fotográfica: o objeto d o lado de fora aparece refletido do lado de dentro. Mas existe algo na visão que não pertence à física.

William Blake sabia disso e afirmou: “A árvore que o sábio vê não é a mesma árvore que o tolo vê.” Sei disso por experiência própria. Quando vejo os ipês floridos, sinto-me como Moisés diante da sarça ardente: ali está uma epifania do sagrado. Mas uma mulher que vivia perto da minha casa decretou a morte de um ipê que florescia à frente de sua casa porque ele sujava o chão, dava muito trabalho para a sua vassoura. Seus olhos não viam a beleza. Só viam o lixo.

Adélia Prado disse: “Deus de vez em quando me tira a poesia. Olho para uma pedra e vejo uma pedra.” Drummond viu uma pedra e não viu uma pedra. A pedra que ele viu virou poema. Há muitas pessoas de visão perfeita que nada vêem. “Não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores. Não basta abrir a janela para ver os campos e os rios”, escreveu Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa. O ato de ver não é coisa natural. Precisa ser aprendido.

Nietzsche sabia disso e afirmou que a primeira tarefa da educação é ensinar a ver. O zen-budismo concorda, e toda a sua espiritualidade é uma busca da experiência chamada satori, a abertura do “terceiro olho”. Não sei se Cummings se inspirava no zen-budismo, mas o fato é que escreveu: “Agora os ouvidos dos meus ouvidos acordaram e agora os olhos dos meus olhos se abriram”. Há um poema no Novo Testamento que relata a caminhada de dois discípulos na companhia de Jesus ressuscitado. Mas eles não o reconheciam. Reconheceram-no subitamente: ao partir do pão, “seus olhos se abriram”. Vinicius de Moraes adota o mesmo mote em “Operário em construção”: “De forma que, certo dia, à mesa ao cortar o pão, o operário foi tomado de uma súbita emoção, ao constatar assombrado que tudo naquela mesa – garrafa, prato, facão – era ele quem fazia. Ele, um humilde operário, um operário em construção.”

A diferença se encontra no lugar onde os olhos são guardados. Se os olhos estão na caixa de ferramentas, eles são apenas ferramentas que usamos por sua função prática. Com eles vemos objetos, sinais luminosos, nomes de ruas – e ajustamos a nossa ação. O ver se subordina ao fazer. Isso é necessário. Mas é muito pobre. Os olhos não gozam… Mas, quando os olhos estão na caixa dos brinquedos, eles se transformam em órgãos de prazer: brincam com o que vêem, olham pelo prazer de olhar, querem fazer amor com o mundo. Os olhos que moram na caixa de ferramentas são os olhos dos adultos. Os olhos que moram na caixa dos brinquedos, das crianças. Para ter olhos brincalhões, é preciso ter as crianças por nossas mestras.

Alberto Caeiro disse haver aprendido a arte de ver com um menininho, Jesus Cristo fugido do céu, tornado outra vez criança, eternamente: “A mim, ensinou-me tudo. Ensinou-me a olhar para as coisas. Aponta-me todas as coisas que há nas flores. Mostra-me como as pedras são engraçadas quando a gente as têm na mão e olha devagar para elas”. Por isso – porque eu acho que a primeira função da educação é ensinar a ver – eu gostaria de sugerir que se criasse um novo tipo e professor, um professor que nada teria a ensinar, mas que se dedicaria a apontar os assombros que crescem nos desvãos da banalidade cotidiana. Como o Jesus menino do poema de Caeiro.*Sua missão seria partejar “olhos vagabundos”…

Eros e Tânatos: a vida, a morte, o desejo IV

 

Nessa direção, reproduzo aqui, pela terceira e última vez, um trecho do livro que, me parece, se não é a sua síntese, chega muito perto disso. O trecho está na página 112, quando o autor vai tecendo suas considerações teleológicas acerca do Banquete. Diz ele que “o falar de amor já é sintomático de um traçado centrífugo cujo sujeito que o emite só se dá, paradoxalmente, no esquivar-se ou no eclipsar-se mesmo de sua enunciação. Em outros termos, fala-se de amor somente a partir de uma falta ou de uma hiância fundamental que, justamente, se inscreve, se traça, se sofre e se goza no movimento mesmo de uma colmatagem que nunca cessa de se completar, porque nunca cessa de recomeçar.” Este trecho sintetiza, de maneira praticamente metalinguística, o movimento do livro no seu desejo de tentar encontrar um caminho em que se encontrem o amor e a morte, sem necessariamente terem de se separar.

Concluo afirmando que o exercício intelectual de Rogério Miranda de Almeida, no campo da Filosofia, acaba por tocar nas margens de algo muito mais inusitado do que a questão a que se dedica, ao longo das páginas de seu livro. Em outras palavras, o que acaba por acontecer é uma aventura de “leitura” – palavra mágica que perpassa cada linha de seu livro. Assim não fosse, ele não teria passeado pela História da Filosofia, com a desenvoltura, a independência, a autoridade, a competência e o prazer com que o faz, galhardamente. O estudo em questão, “lê” no sentido pleno d apalavra – eu diria no sentido da jouissance que palavra carrega, para apontar para o sentido que Lacan dá ao termo. Assim, ao invés de apenas demonstrar uma tese, o texto do livro de Rogério Miranda de Almeida é uma lição de “leitura”. E digo mais, partindo da Filosofia, o exercício exegético a que se debruça o autor não deixa dúvidas sobre sua articulação com a Literatura.

Esta é a forma de expressão da dicotomia morte e vida, sintetizada pela metáfora mítica operacionalizada no livro de Rogério. A Literatura, como mais uma forma de “leitura”, comparece de maneira quase imperceptível. Não há citações, não há referências diretas. No entanto, a arquitetura do estudo me fez lembrar os esboços que se fazem da estruturação de uma obra matriz da literatura ocidental: a Divina comédia. Repetindo o que disse logo acima, os círculos do inferno, do purgatório e do paraíso, recebem aqui outras denominações e renovadas configurações. Os pré-socráticos, a longa duração que se estende até o século dezenove e a finalização com Freud, a meu ver, podem, sem risco de equívoco, fazer lembrar na memória afetiva da leitura, a arquitetura poética do autor italiano. É claro que apenas este argumento não sustenta a tese que lanço aqui, ainda que implicitamente. Trata-se muito mais de uma provocação para o leitor do livro de Rogério. Uma provocação, claro, que depende da leitura que cada um vai fazer desse livro, quando o fizer. É este movimento contínuo, que tão bem demonstra o autor, de que falo aqui. Por isso a importância da ilação com a Literatura. Rogério Miranda de Almeida sabe do que está falando. Apenas por isso eu convido a quem chegou até aqui, a ir mais longe, acompanhando o brilhante raciocínio do autor do livro que pretendi resenhar.