Eros e Tânatos: a vida, a morte, o desejo III

 

O passeio que o autor faz pela Filosofia, na sua incansável busca por elementos que sustentem a hipótese de uma resposta para a pergunta obsedante de Santo Agostinho: eminência parda que, com sua sombra instigante, vai cobrindo os caminhos percorridos pelo autor, é deslumbrante. Ao contrário do que poder-se-ia imaginar, a sombra não atrapalha, mas refresca a mente do leitor que vai acompanhando as reviravoltas do raciocínio engenhoso do autor: praticamente um Pierre Menard da Filosofia (no sentido do impulso criativo e imaginativo da personagem borgeana). A articulação com a Literatura marca presença neste extenso percurso filosófico.

O passeio a que me refiro, faz pensar na possibilidade de um sujeito ver-se na iminência de dar a vida por alguém, abdicar de um bem para permitir que o outro usufrua desse mesmo bem que é viver. Isso é, de fato, muito louvável, muito da essência afetiva humana no sentido do oposto ao espírito de sobrevivência biológica de cada indivíduo. Abrir mão de alguém – metaforicamente esta situação pode ser lida como uma representação de morte –, abdicar do desejo e do direito de morrer (mesmo que numa vida não digna) para permitir que outro tenha um sentido de vida para quem a sua presença é uma inspiração, é igualmente louvável e cheio de certo espírito altruísta de doação e de generosidade. Morrer por uma causa, para fazer valer uma ideia que traga repercussões no bem estar da comunidade, modificações benéficas a uma sociedade, melhorias na qualidade de vida dos que habitam um espaço culturalmente determinado, é de um altruísmo sedutor e generoso. Esta é uma das lições mais gratificantes que a leitura do livro de Rogério oferece!

Em qualquer das situações, a liberdade é o núcleo. Liberdade que se tem quando vivo em se decidir sobre o fim dessa vida, direito de livre arbítrio que a todos é (ou devia ser) inerente. Liberdade que não possui aquele que está condenado à morte, que não tem opção, seja por doença, acidente, ou por determinação macabramente deliberada pelo juízo doutros humanos que de forma maníaca se autodenominam de deuses, como se um julgamento fosse uma convocatória para o Olimpo.

Quem são os deuses que definem os critérios para determinar o que é digno ou não? Que critérios são esses: estar em sofrimento e dependente total não é indigno, mas ter de viver torna alguém digno? Questões que avaliam as instituições legais.

Por duas vezes, mencionei de passagem uma possibilidade de articulação em níveis diversos, com a Literatura. Pois bem, isso eu sinto e afirmo porque percebo na “estruturação” do livro – como “obra”, não como cartapácio de papel organizado em capítulos com mancha gráfica milimetricamente definida – um desenho, um movimento, uma certa musicalidade estrutural que me faz lembrar a Divina comédia. Isso porque os capítulos, tal como os círculos – purgatório, céu e inferno – se subdividem em fossos, campos, montes e quejandos, para alçar o topo, o centro, o cerne da ideia que dá título ao livro. Além disso, a linguagem do texto, a dicção do autor, fazem com que a leitura flua como poesia, e aqui eu me lembro de Borges, numa de suas conferências coletadas sob o título de “Siete noches”, em que afirma e reafirma que a língua, qualquer que seja, em si mesmo, é poesia. Isso, em minha opinião, se faz suficiente para o recurso de aproximação com a Literatura, na espessura do discurso que o texto de Rogério desenvolve. É ele mesmo quem abre esta possibilidade para cada leitor que se aproxima e, gentil e seduzidamente, se deixa levar pelo ritmo da frase que volteia o pensamento do autor que não está só, mas muito bem acompanhado.

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Eros e Tânatos: a vida, a morte, o desejo II

 

“O homem é, evidentemente, constituído não de uma simples, mas de uma múltipla, não de uma certa, mas de uma ambígua natureza. Por conseguinte, ele deve ser colocado como um meio entre as coisas mortais e as imortais.” Este é o período de abertura do livro de Rogério. E as últimas são: “Termino, pois – se é que realmente termino –, repetindo a mesma pergunta de Agostinho que evoquei logo no início do primeiro capítulo, a saber: Trata-se de uma vida mortal ou de uma morte vital? Ou de ambas ao mesmo tempo?…” Evidente está que não obedeci às “normas técnicas de citação”. Isso se dá, pelo simples fato de que não estou citando o autor. Trago aqui as suas palavras, pois entre o começo e o fim, entre as duas pontas da vida – lembrando de Machado de Assis –, o texto de Rogério se espraia sobre um mistério: esse enigma ao qual se convencionou dar o nome de existência. Sua investigação esmiúça meandros do pensamento ocidental, na busca de pistas para o equacionamento de questões primordiais do próprio sujeito humano. Não me cabe dizer se ele é bem sucedido ou não. Isto aqui é uma resenha, estou tentando mostrar o que o livro traz de bom, não apresentar ao autor uma crítica a seu pensamento, apontando-lhe os erros, os lapsos, as escorregadelas. O próprio autor conclui com a dúvida. Não serei eu a dirimi-la.

O que pode haver de comum entre Platão, Hesíodo, Santo Agostinho, Empédocles, Nietzsche, Heráclito, Schopenhauer, Freud, Parmênides, Hegel, Aristóteles, Tomás de Aquino e Lacan? Os filósofos diriam que muito, mas apenas alguns deles. Outros insistiriam que nada. Eu não escolho nem um lado nem outro da resposta. Penso apenas que, nas páginas deste livro, desenha-se um arco que vai dos pré-socráticos até Lacan. Com passagem por Hegel e coda que chega às fímbrias de Freud. Para que tanto? Alguém poderia fazer essa pergunta. Eu não saberia responder. O livro de Rogério apresenta uma possibilidade de equacionamento para uma possível resposta. Desculpem a redundância nos cognatos, mas ela dá bem a medida do movimento do livro em epígrafe. O texto desliza entre considerações de cunho epistemológico sobre a Filosofia e a Psicanálise, para, a partir da Mitologia, recolocar, com novo frescor nas/das tintas, a imagem da dúvida eterna da existência humana em seus princípios: vida e morte, prazer e desprazer, luto e gozo, riso e lágrima. A lista das dicotomias, ou das dualidades, se quiserem, é infinita.

Na mitologia grega, duas figuras se opõem: Eros, o deus grego do amor, e Tânatos, a personificação da morte. Esses dois personagens foram resgatados por diversos filósofos para explicar a dualidade entre a morte e o desejo. No lançamento das Edições Loyola, Eros e Tânatos: a vida, a morte e o desejo, o autor Rogério Miranda de Almeida faz uma análise profunda da obra dos filósofos que tentaram interpretar esse “eterno conflito da construção e da destruição, da vida e da morte, do ódio e do amor, da satisfação e da insatisfação”. Ao resgatar o pensamento dos filósofos pré-socráticos até Nietzsche e Freud, o autor explicita esse debate de oposição inspirado na mitologia grega. Apelando para os physis, os primeiros “cosmologistas” jônicos que buscam ligar a geração e a corrupção, o amor e o ódio pela arte do diálogo. Platão tenta descolar a angústia para o reino das ideias, pelos conceitos de vontade, de desejo e retorno. Schopenhauer, Nietzsche e Freud procuram conectar, articular, interpretar um universo de pulsões e forças que não cessam de se entrelaçar e de se separar. Até Lacan é vislumbrado quando joga com a jouissance, de “essência” estética – sentido foucaultiano do termo – o que me leva a, página após página, nas entrelinhas do texto, desejar a imagem da ideia de literatura, um instrumento ímpar na representação de todo esse trajeto do pensamento.

Eros e Tânatos: a vida, a morte, o desejo I

 

A primeira ideia que me ocorre para desenvolver a apresentação deste livro (ALMEIDA, Rogério Miranda de. Eros e Tânatos: a vida, a morte, o desejo. São Paulo: Edições Loyola, 2007, 341 p.) é a de maniqueísmo. De acordo com os dicionários, maniqueísmo é o nome que se dá a certo dualismo religioso que se originou na Pérsia. Tal dualismo prevê e defende a existência de um princípio conflituoso cósmico entre o reino da luz (o bem) e o das sombras (o mal). Esta dicotomia se estende na compreensão de que a matéria, a carne, o corpo, eram elementos constitutivos do reino do mal e que caberia ao indivíduo o dever de vencer o mal por meio de práticas ascéticas. Por via de consequência, este mesmo princípio se impõe a todo o momento quando o sujeito se depara com situações em que tem de escolher entre uma coisa e outra. Em outras palavras, prevalece (ainda?!) a ideia de que “tudo” se conforma entre dois princípios opostos e incompatíveis, excludentes. Numa visão um pouco mais detalhista, uma primeira conclusão se apresenta a este raciocínio: a matéria é “essencialmente”, “intrinsecamente” má, por princípio, por definição. Cabendo o papel de “bom” ao espírito, para não deixar de fazer o princípio maniqueísta. Esta seria a “mão” do pensamento. A contramão é o que diz Rogério Miranda de Almeida, em seu delicioso e fascinante livro.

A segunda ideia que me ocorre é a de perceber que, como diz o adagiário popular: há mais coisas entre o céu e a terra, do que sonha nossa vã filosofia. Ora, guardadas as devidas proporções, mesmo sem (eruditamente) citar a fonte de tal ditado, a frase explicita a ideia de que nada pode ser percebido em sua totalidade, de maneira simultânea e cabal. Ou seja, não se pode ter absoluta certeza de nada, por conta da inequívoca e eterna existência de “outra” coisa, subsistente a tudo. Esta é a trilha que o autor esboça e persegue ao longo de seu texto, para gáudio de seus leitores.

Uma terceira colocação inicial, diz respeito a certas práticas (ditas acadêmicas) de compartimentar o pensamento em “áreas do saber”, em “disciplinas”, em “setores”. Evoé Foucault! Essa “administração do conhecimento”, por si só, já define ignorância prévia e tacanha: aquela que aponta para a tentativa (sempre frustrada) de negar a universalidade do conhecimento. De certa maneira, as palavras que se cunham, ao longo do tempo, para tentar identificar o movimento dos saberes, são exemplo acabado de que a inquestionável falibilidade da linguagem ainda prevalece na sua subsistência atávica. Dizendo de outra forma: é no fracasso da palavra que as “verdades” se revelam, aí mesmo, nos interstícios do pensamento revelado pelos torneios verbais. Estes, sim, são os atores que constroem os discursos que não podem ser “departamentalizados”, circunscritos a “áreas”, contidos em “disciplinas”, por que universais, amplos em demasia, na sua própria “natureza”. É dessa “natureza” de que trata o livro em epígrafe.