Por fim…

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Os dois parágrafos que seguem foram retirados de um texto de Freud intitulado “Recordar, repetir, elaborar”. Eu ainda insisto na tentativa de fazer meus alunos lerem este texto – sobretudo nas disciplinas Literatura Comparada e Seminário de narrativa – ao longo destes quase trinta anos de magistério superior. Em que pese o questionamento que se possa vir a fazer do epíteto “superior”… Vou deixar passar a oportunidade! Voltando… O texto é de Freud e faz menção a alguns processos terapêuticos por ele articulados na formação do que vem a ser a Psicanálise. Não vou fazer uma exegese dos parágrafos, mas vou, dele, retirar uma ideia. Antes disso, é preciso ler os parágrafos mencionados:

“Por exemplo, o paciente não diz que recorda que costumava ser desafiador e crítico em relação à autoridade dos pais; em vez disso, comporta-se dessa maneira para com o médico. Não se recorda de como chegou a um impotente e desesperado impasse em suas pesquisas sexuais infantis; mas produz uma massa de sonhos e associações confusas, queixa-se de que não consegue ter sucesso em nada e assevera estar fadado a nunca levar a cabo o que empreende. Não se recorda de ter-se envergonhado intensamente de certas atividades sexuais e de ter tido medo de elas serem descobertas; mas demonstra achar-se envergonhado do tratamento que agora empreendeu e tenta escondê-lo de todos. E assim por diante.

Antes de mais nada, o paciente começará seu tratamento por uma repetição deste tipo. Quando anunciamos a regra fundamental da psicanálise a um paciente com uma vida cheia de acontecimentos e uma longa história de doença, e então lhe pedimos para dizer-nos o que lhe vem à mente, esperamos que ele despeje um dilúvio de informações; mas, com freqüência, a primeira coisa que acontece é ele nada ter a dizer. Fica silencioso e declara que nada lhe ocorre. Isto, naturalmente, é simplesmente a repetição de uma atitude homossexual que se evidencia como uma resistência contra recordar alguma coisa [ver em [1]]. Enquanto o paciente se acha em tratamento, não pode fugir a esta compulsão à repetição; e, no final, compreendemos que esta é a sua maneira de recordar.” (Estes parágrafos foram copiados da edição digitalizada da edição standard das obras de Sigmund Freud, disponíveis para quem quiser ler. Basta pegar na mão do Dr. Google e deixar que ele leve até o texto).

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Pois bem. Destes dois blocos retiro a ideia que me interessa: repetição. Atitude comum, corriqueira, banal, nas mais diversas situações da existência humana. Para Freud, esta atitude pode ser reveladora de outras que, articuladas numa narrativa autoral do paciente, instigam o analista a pontuar constantes, reconhecer recorrências e administrar vínculos que chegam a ilações que podem dirimir o sofrimento – ainda que inconsciente, sofrimento – do paciente. Isto posto, não é muito exagero dizer que a repetição é instrumento terapêutico indispensável para que a vida psíquica de alguém, possa vir a contar com boa dose de apoio, na busca de diminuir a intensidade do sofrimento que acomete este mesmo sujeito – e repito: ainda que inconsciente, sofrimento.

Agora vem o busílis: o que é que isso tem a ver com as linhas que escrevi ontem? Aparente e incialmente, nada. Mas convenhamos, ontem falei de imperativo e hoje de repetição. No texto evangélico a mesma cena se repete e hoje afirmo que a repetição é terapêutica. Fato é que, em conversa com um amigo judeu, amigo mito querido, pessoa ilustre de inteligência brilhante, perspicácia refinada e humor sutil e igualmente refinado, este amigo propôs uma espécie de axioma. Há de se prestar atenção no fato de que Jesus perdoa a presumida adúltera e faz andar o coxo. Ele repete a ação para a salvação da alma de ambos. Faz isso com um imperativo taxativo: Vá e não peques mais! Isso quer dizer (ou pode querer dizer) que, para Cristo, não interessa a argumentação que tente justificar o passado, a explicação das circunstâncias em que o pecado se deu, qualquer justificativa ou protesto de mudança do perdoado. Jesus simplesmente usa o imperativo. E isso quer significar (ou pode querer significar) que o que interessa é começar daquele ponto. Seguir adiante sem se voltar para o passado. Exatamente o oposto do que é proposto pelo raciocínio de cariz terapêutico do vienense. Há uma contradição? Não creio. Existe uma oposição clara e excludente? Não acredito. Admito que as perspectivas podem até caminhar de maneira oposta, como na Física: dois vetores de mesma direção e sentido oposto. Digo isso porque, ao fim e ao cabo, ambas as atitudes, ambos usos do discurso acabam por atingir o mesmo objetivo, mesmo que aparentemente isso não seja explicitado. No caso de Cristo, o perdão. No de Freud, a “cura”. Ora, penso que essa situação (seria um sofisma?) leva a pensar na relatividade da ciência e da religião, simultaneamente, na mesma medida. Para Cristo não interessa vascular o passado em busca de indícios de solução (=gratificação, satisfação, saúde, fim do sofrimento). Para Freud é tudo o que interessa (=idem). Isso faz pensar. Pode ser que faça pensar pouco, mas faz pensar…

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Estão explicadas as aspas de ontem. Bem, pelo menos, em tentativa…

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Poema azedo

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Hoje foi domingo.

Pediu cachimbo.

O cachimbo era de ouro e bateu no touro.

O touro era valente e bateu na gente.

A gente, fraca, caiu no buraco. Buraco fundo. Acabou o mundo.

Nostradamus estava certo?

O verbo no passado e a pergunta sem resposta. Vi ser sempre assim.

Sempre… desde quando?

O sujeito abre a boca e diz que entre as dezenas de livros que recebe, de editoras e de pessoas, apenas um ou dois, quando muito, são passíveis de leitura. “Valem” alguma coisa.

Quem disse?

Como é que isso começou?

Quem foi que disse a Aristóteles que as anotações que fazia para suas aulas eram exatas, muitos bem escritas, articuladas, bem embasadas, argumentadas consistentemente, respaldadas por referências… canônicas?

Quem?

E, no entanto, estas mesmas anotações correram o mundo, rasgaram o tempo, estilhaçaram o espaço e continuam sendo lidas e discutidas e referidas e citadas e… e… e…

Como é que é isso?

Quer dizer que o que eu digo não pode simplesmente ser tomado como palavra minha, dedução minha, articulação minha, resultado de minhas leituras, fruto de minha imaginação, opinião gratuita…

Minha?

Não?!

E o sujeito em e pontifica o que é bom e o que não é?

Isso é justo?

Isso está certo?

O outro tira uma foto de si mesmo, num ônibus de luxo, com vestuário estereotipado, põe uma legenda estudada e repetida aos borbotões, sorri – ensaiado – e se sente muito feliz porque vai se desidratar numa estapafúrdia convulsão sociopática que tem nome… esdrúxulo.

A outra sorri comovida ao ouvir os ganidos infantis de sua cria, ao microfone, em estridentes grunhidos aos quais, pudicamente, cola o rótulo de canções…

Só porque é uma criança?

Só porque a festa de aniversário de criança “é” assim?

E o bando de desocupados imbecilizados que dão risada por conta do casal de turistas atordoado por um enxame de abelhas.

Em lugar de socorro e amparo oferecem o escárnio estúpido e ignorante da cínica situação de estudantes universitários que vivem em repúblicas “federais”.

E ainda querem que eu defenda o direito ao ensino superior público, gratuito e de qualidade, cegamente.

Defender… cegamente… não!!!

Jamais!!!

Não indiscriminadamente.

Há de haver um limite.

Há um limite.

A morte é um limite.

Mas esta senhora é incognoscível… inacessível… inexplicável…

Apesar de recorrente.

Um paradoxo.

Como o do amigo judeu que cita frase recorrente no Evangelho – “Vá e não peques mais” (ou qualquer coisa parecida) – como contraponto para a insistência freudiana em chafurdar no passado, sempre mais, mais e mais fundo, sempre se refestelando em cacos de memória, fragmentos de afeto perdido no tempo e no espaço, na pocilga do desejo que não se satisfaz por impossível

A natureza do desejo é sua insatisfação eterna.

Estaria errado ele em sua ilação?

Não o Evangelho.

Não o psicanalista.

O judeu.

Estaria errado?

Por que estaria?

Se a solução dada pela frase que quase se faz uma parataxe, no conjunto em que se encontra, e aponta para outra dimensão exegética a indicar um caminho mais plausível, mais possível, menos repetitivo e mais saudável para a cura…

Perdão.

Foi domingo…

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Margens

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Nise, o coração da loucura. Este é o nome do filme que acabei de ver. Poderia estar passando a limpo as notas do semestre (que já estão passadas a limpo). Poderia estar fazendo contas dos pontos distribuídos pelo semestre. Poderia estar tentando acabar de ler o quinto volume de À procura do tempo perdido. Depois de muitas tentativas malogradas ao chegar ao terceiro volume, terminei, na semana passada, a leitura do quarto volume. Ontem, antes de dormir, como de hábito, comecei a ler o quinto volume. Confesso, sem pudor: que chatice! A expressão, em sua veemência (invisível aos olhos de quem lê), mas palpável quando da leitura – vá se entender um bagulho desses! – justifica-se: é a minha opinião. Uma chatice. Confesso que considero o livro do Proust, uma chatice. Diferentemente de outras duas chatices – no âmbito da leitura – Os lusíadas e Grande sertão: veredas. Estes dois, ao se enfrentar a tal chatice, deságua vislumbradamente numa beleza poética que não encontra limites nem palavras como expressão. Uma chatice que dá prazer, imenso. Prazer de ler. Penso, na minha intimidade, que esta experiência escapa quando da leitura do romance francês. Longe de mim afirmar que tal portentosa obra de escrita e “fabulação” não presta para nada. Jamais! No entanto, repito: o livro de Proust é uma chatice! E hei de vencer os seis volumes da edição brasileira há muito, por mim, comprada. Guardada durante anos e umas três tentativas de leitura. Na altura dos mais de 60, hei de ler todos os volumes. O delírio sobre o romancista francês me leva ao encontro das primeiras linhas de hoje. Falo do impacto que o filme causou. No início, resisti, e deixei aberta página do Netflix, sem coragem de continuar a ver, temendo por cenas corriqueiras, melodramáticas e tendenciosas. Ledo engano. O filme, que conta com desempenho impecável (mais um!) de Glória Pires, narra um intervalo da história de um processo de cura através da arte. Na verdade, a constituição de um método terapêutico no tratamento de “anomalias” psíquicas. Um portento! Ao fim do filme, pensei no Proust e na relatividade absoluta – em que pese a sedutora contradição em termos – de todos os juízos que fazemos. Nise da Silveira ousou pular no abismo, como narra metaforicamente a voz em off no início de Freud, além da alma – filme de 1962, dirigido por John Huston, estrelado pelo legendário e icônico Montgomery Clift. Imperdível! A psiquiatra praticamente erige, sozinha, contra a corrente machista, tacanha, subserviente e interesseira de um hospital que não liga para os !clientes” como diz a médica. Uma história mais que tocante. Uma pedrada – como a que leva o “Lima”, personagem do filme. Uma pedrada na falsa certeza de que podemos afirmar categoricamente alguma coisa, sem reconhecer que, antes de mais nada, somos incapazes de abarcar a totalidade do que tentamos afirmar.Um paradoxo, como a própria existência humana. Vale a pena conferir.

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Para “Tópicos de crítica” II

livro

A postagem de hoje tenta unir o útil ao agradável. Claro está que os dois textos de Freud – “Escritores criativos e devaneios”  e “Recordar, repetir, elaborar” são o pano de fundo, sobretudo o segundo. Acima de tudo o segundo! Do outro lado, está o romance de José Luiz Passos que vocês já leram, estão lendo ou estão em vias de… Pois bem. Para começar, proponho que vocês leiam o seguinte trecho:

“Trazer alguma coisa de volta, para o desesquecimento: quando começa canhestramente a marinhar pelos primeiros degraus da sua escada de Jacó particular, todo pobre de Deus que escreve aprende, aos poucos, às suas próprias custas, o que isso quer dizer. E não pela razão – porque não foi esse truão do conhecimento quem lhe ensinou isso, foi, ao contrário, um carma luciferino, o mesmo que lhe soprou nas ventas, a um tempo, o fogo estigmatizador de seu ofício de escrevinhar e o abrasador alento com que o pobre diabo que rabisca sobe, às vezes, e às vezes – ah! demasiadas vezes! – baixa pelos degraus dessa escada; não, o escritor que vale a pena não é nunca adestrado pelo bobo da corte da razão, mas pelas Fúrias que o penetram em suas insônias, no mínimo a Nêmesis que cada sujeito que escreve incorpora à força em seu couro, como um cavalo de Umbanda possuído por um orixá incontrastável, a que sele empresta sua temerosa voz e sua desajeitada expressão, mas expressão verdadeira, como quer que seja, em quanto finge no furor do seu transe. O que há de notável, então, que, joguete das obscuras forças que o dominam, o escritor oscile e mude ao sabor das mudanças que as palavras e os dias imprimem a tudo que alternadamente criam e devoram, como Cronos a seus filhos? Ao fim e ao cabo, a mudança é movimento, o movimento é a expressão física, espácio-temporal, de um querer, e o querer é vida. Ser é estar sendo transformado, ser é vir a ser – tudo o que vive  se metamorfoseia e se converte em algo diferente de si mesmo.” (LOPES, Edward. A palavra e os dias. São Paulo: Edusp; Campinas: Ed.Unicamp, p.22-23.)

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O autor deste trecho é professor e está a falar do ato de escrever como criação ficcional. Ainda que não explicite estes termos. Pois bem. Escolham um capítulo de O sonâmbulo amador. Escolha um de que você mais gostou. Releia-o à luz do texto freudiano – “Recordar, repetir, elaborar” -, relacionando-o com o trecho de Edward Lopes. Escreva, não menos que dez linhas, comentando o resultado de sua leitura. Uma vez mais: interessa-me mais a sua OPINIÃO (“crítica”) e não a repetição de ideias alheias. Boa leitura!

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Para “Tópicos de crítica” I

Boa tarde!

Como combinado em nosso encontro de ontem à noite, abaixo vocês têm a primeira postagem referente às quatro aulas que a mim couberam na reditribuição dos encargos da Cilza, afastada para tratmento médico e pós-doc. Como eu disse, hoje a postagem se refere aos textos de Freud, indicados previamente para leitura, sobre os quais falei panoramicamente ontem. Espero que tenham lido, sobretudo e principalmente “Escritores criativos e devaneios” e “Recordar, repetir, elaborar”. O trecho que segue é retirado do primeiro destes dois textos. Vamos lá!

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“O escritor criativo faz o mesmo que a criança que brinca. Cria um mundo de fantasia que ele leva muito a sério, isto é, no qual investe uma grande quantidade de emoção, enquanto mantém uma separação nítida entre o mesmo e a realidade. A linguagem preservou essa relação entre o brincar infantil e a criação poética. Dá [em alemão] o nome de ‘Spiel‘ [‘peça’] às formas literárias que são necessariamente ligadas a objetos tangíveis e que podem ser representadas. Fala em ‘Lustspiel‘ ou ‘Trauerspiel‘ [‘comédia’ e ‘tragédia’: literalmente, ‘brincadeira prazerosa’ e ‘brincadeira lutuosa’], chamando os que realizam a representação de ‘Schauspieler‘ [‘atores’: literalmente, ‘jogadores de espetáculo’]. A irrealidade do mundo imaginativo do escritor tem, porém, conseqüências importantes para a técnica de sua arte, pois muita coisa que, se fosse real, não causaria prazer, pode proporcioná-lo como jogo de fantasia, e muitos excitamentos que em si são realmente penosos, podem tornar-se uma fonte de prazer para os ouvintes e espectadores na representação da obra de um escritor.

Existe uma outra circunstância que nos leva a examinar por mais alguns instantes essa oposição entre a realidade e o brincar. Quando a criança cresce e pára de brincar, após esforçar-se por algumas décadas para encarar as realidades da vida com a devida seriedade, pode colocar-se certo dia numa situação mental em que mais uma vez desaparece essa oposição entre o brincar e a realidade. Como adulto, pode refletir sobre a intensa seriedade com que realizava seus jogos na infância, equiparando suas ocupações do presente, aparentemente tão sérias, aos seus jogos de criança, pode livrar-se da pesada carga imposta pela vida e conquistar o intenso prazer proporcionado pelo humor.

Ao crescer, as pessoas param de brincar e parecem renunciar ao prazer que obtinham do brincar. Contudo, quem compreende a mente humana sabe que nada é tão difícil para o homem quanto abdicar de um prazer que já experimentou. Na realidade, nunca renunciamos a nada; apenas trocamos uma coisa por outra. O que parece ser uma renúncia é, na verdade, a formação de um substituto ou sub-rogado. Da mesma forma, a criança em crescimento, quando pára de brincar, só abdica do elo com os objetos reais; em vez de brincar, ela agora fantasia. Constrói castelos no ar e cria o que chamamos de devaneios. Acredito que a maioria das pessoas construa fantasias em algum período de suas vidas. Este é um fato a que, por muito tempo, não se deu atenção, e cuja importância não foi, assim, suficientemente considerada.

As fantasias das pessoas são menos fáceis de observar do que o brincar das crianças. A criança, é verdade, brinca sozinha ou estabelece um sistema psíquico fechado com outras crianças, com vistas a um jogo, mas mesmo que não brinque em frente dos adultos, não lhes oculta seu brinquedo. O adulto, ao contrário, envergonha-se de suas fantasias, escondendo-as das outras pessoas. Acalenta suas fantasias como seu bem mais íntimo, e em geral preferiria confessar suas faltas do que confiar a outro suas fantasias. Pode acontecer, conseqüentemente, que acredite ser a única pessoa a inventar tais fantasias, ignorando que criações desse tipo são bem comuns nas outras pessoas. A diferença entre o comportamento da pessoa que brinca e da fantasia é explicada pelos motivos dessas duas atividades, que, entretanto, são subordinadas uma à outra.

O brincar da criança é determinado por desejos: de fato, por um único desejo – que auxilia o seu desenvolvimento -, o desejo de ser grande e adulto. A criança está sempre brincando ‘de adulto’, imitando em seus jogos aquilo que conhece da vida dos mais velhos. Ela não tem motivos para ocultar esse desejo. Já com o adulto o caso é diferente. Por um lado, sabe que dele se espera que não continue a brincar ou a fantasiar, mas que atue no mundo real; por outro lado, alguns dos desejos que provocaram suas fantasias são de tal gênero que é essencial ocultá-las. Assim, o adulto envergonha-se de suas fantasias por serem infantis e proibidas.”

Bom. Depois da releitura desse trecho, devo salientar (repetindo-me) que a pergunta a ser respondida leva em consideração a leitura do romance, preferencialmente. Em outras palavras, para responder à pergunta: levem em consideração como “pano de fundo”/ perspectiva/referência, o romance de José Luiz Passos. Além disso, é, para mim, aqui, muito mais importante a sua OPINIÃO que uma resenha do texto freudiano ou, mesmo, uma tentativa de interpretação. Vamos lá!

Freud aproxima a criança e o escritor. Nesta aproximação, ele usa como instrumental a ideia de fantasia. Segundo o raciocínio daí decorrente, você considera plausível/possível/justificável aproximar esta ideia à de ficção, no campo dos estudos literários? Tente justificar e, quem sabe, ilustrar a sua resposta! Boa leitura!

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Entre os dois, meu coração balança

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Dois verbos que, a princípio parecem antagônicos e excludentes: lembrar e esquecer. Mas só parecem. Na verdade, um não existe sem o outro, quando usados para expressar o que quer que seja, em uma oração, para expressar qualquer coisa. De fato, um não existe sem o outro. É só parar e pensar um pouquinho. O raciocínio pode até se assemelhar ao que se faz quando se tenta responder a uma pergunta, da mesa forma, aparentemente inócua e inútil: quem veio primeiro, ovo ou a galinha? Pois bem Quem ainda não experimentou a sensação de já ter estado em determinado lugar, inesperadamente e ter dito aquelas palavras, naquele horário, para aquela pessoa. Estranho. Estranho mesmo, mais ainda que o sentido desta palavra na lição de Freud. Nesta situação, a gente não sabe muito perceber se é memória ou outra coisa. Como a lembrança não é vívida, a experiência parece um tanto mágica, quase misteriosa. Mas simultaneamente, tem-se a certeza da repetição. Nesta situação, o sujeito pode parar e refletir sobre a experiência que viveu e há duas, no mínimo, possibilidades: ter-se equivocado e reportar a experiência ao acaso, à coincidência; constatar que se recorda de algo parecido, esquecido no tempo e que volta, por um motivo desconhecido, pela menos de sua consciência.

Há muita coisa sendo escrita na face da terra sobre os mais diversos tópicos. A famigerada “literatura de auto ajuda” consegue desfazer, de maneira questionável, alguns enigmas. A horizontalidade desse tipo de abordagem devolve a dúvida. Ao fim e ao cabo, não esclarece, não explica. O fato permanece intocável, creio, por força da superficialidade de argumentos, da generalização exagerada, da despreocupação com o rigor do pensamento. Tudo isso põe por terra qualquer tentativa minimante séria, o que faz com que referida “literatura” caia, cada vez mais aprofundadamente, no esquecimento. Sintomaticamente, isso faz lembrar da lição freudiana do chiste, ou mesmo, de seu voluptuoso conceito de inconsciente. Ambas as noções poderiam funcionar como esteio de um raciocínio que se desejasse um tanto ais espesso, mais complexo, por isso mesmo, mais esclarecedor. Entre estas duas possibilidades, vislumbro um caminho de esclarecimento – aquele que faz “lembrar” da quase “esquecida” mitologia, e duas de suas personagens: Mnemosyne e Léthe – que poderia ser apontado pelo seguinte:

“Entre as duas reinava uma resistência, uma discordância, uma discrepância, uma hiância ou um conflito primordial que, justamente por isso, apontava para um vínculo originário ou para a impossibilidade mesma de se pensar uma sem a outra, ou de se conceber uma sem, simultaneamente, deduzir que ambas se imbricavam, incluíam-se, completavam-se e, mutuamente, evocavam-se.” (p. 9)

 Mnemosyne e Léthe são duas entidades mitológicas. A primeira era uma titânide, filha de Urano e Gaia. É a deusa que personificava a memória. O segundo, um dos rios do Hades. Aqueles que bebessem de sua água ou, até mesmo, tocassem na sua água experimentariam o completo esquecimento. Como a mitologia faz parte dos fundamentos da cultura na qual nascemos e pela qual fomos educados, parece-me mais que pertinente a referência. O trecho citado é retirado de um livro mais que interessante: A memória, o esquecimento e o desejo (São Paulo, Ideias&Letras, 2016). Seu autor, Rogério Miranda de Almeida (dileto amigo a quem devo o início de meu interesse pela Literatura e os primeiros fundamentos daquilo que hoje chamo de sinceridade e de honestidade intelectuais).

Partindo de ideias já muito estudadas, o autor passeia pela cultura ocidental tendo como guia o conceito de “desejo”. Motor do mundo, esse conceito, de feição ambivalente – no sentido positivo do termo – dado que oriundo do pensamento de Freud e Lacan, o desejo é o combustível que queima as arestas que possivelmente poderiam subsistir no embate representado alegoricamente entre as duas entidades mitológicas. A Psicanálise é, em minha opinião, sua primeira ferramenta de trabalho. Ao lado de Freud, Nietzsche e Santo Agostinho são seus outros bastiões. Estas duas forças da natureza humana, o esquecer e o lembrar, são coo cavaleiros medievais em torneios disputando a honra da princesa, sombreada pelas artimanhas do desejo – aproveitando a saga de Artur e os cavaleiros da távola redonda. Minha referência aqui se deve à arguta aproximação que o autor faz dos conceitos com os quais opera. A acuidade na/da escolha do vocabulário, a refinada ironia no desdizer de ideias preconcebidas e conceituações equivocadas, porque superficiais, completam o menu discursivo explicitado ao longo das 243 páginas do livro, que se lê com prazer e deleite.

Partindo da pseudo dicotomia “lembrar/esquecer”, Rogério discorre sobre os mecanismos da memória, evocando a dinâmica dos sonhos e a potencia do recalcamento, ideias psicanalíticas fundamentais para esboçar o perímetro do campo que é abrangido pela aventura mental que se desenrola entre lembrar e esquecer. Estas atividades mentais guardam um ponto comum: a “potência do esquecer”, tópico central a orientar as elucubrações feitas a partir das ideias do pensador alemão, sobretudo quando destaca que “é o próprio esquecimento, e não a recordação de uma promessa, que faz com que se desenvolvam os conceitos básicos da civilização: a justiça, a liberdade e o direito.” Interessante perspectiva de leitura, a proposta de Rogério sai do lugar comum das ideias de Nietzsche as alarga, circunscrevendo-as ao movimento subliminar do desejo. De novo, o adjetivo aqui atribuído a desejo, requer atenção, pois não o dinamiza, mas o “potencializa”.

A articulação entre História e Filosofia se apresenta neste passo do ensaio que o autor apresenta para o prazer de quem à sua leitura se dedica. “Biscoito fino” para apropriar-me da ideia de Oswald de Andrade, o texto demonstra o cuidado com os termos, sua significação e etimologia, os reflexos disso na construção do discurso e o cirúrgico cuidado na leitura deste, para a sustentação dos argumentos que apresenta, em defesa de suas hipóteses. No horizonte de expectativas da articulação do pensamento nietzscheano, vislumbra-se a discussão de situações com a da sociedade e suas ideologias. Num segundo plano, o pensamento de Marx diz presente, sobretudo na constatação de levar em consideração a ideia de que tudo o que o homem “produz” é efeito da “cultura”, mas não aquela que se vende com propósitos alheios à sua genealogia, ou seja,

“… sob a pena do discípulo de Dioniso, as produções culturais – no seu movimento niilista de destruição e reconstrução – apresentam-se como um contínuo desfilar de máscaras, ídolos, ideais, juízos e tábuas de valores. Esta é uma das razões pelas quais muito estudiosos têm relacionado Nietzsche com Marx e Freud quanto a saber até que ponto as produções culturais estariam intrinsecamente ligadas a interesses, seja de indivíduos, grupos ou classes.” (p. 116)

Passando de mera consequência, o dueto lembrar/esquecer demonstra certa autonomia em suas articulações, dada sua natureza dinâmica – porque oriunda do desejo – e a explicitação prática de seus efeitos – por conta de sua potência. Assim, faltaria ainda um aspecto para que o tripé não ficasse manco: o amor. Neste sentido, o recurso ao pensamento de Santo Agostinho se apresenta em toda a sua pujança. Auferindo os resultados das artimanhas desejo, na explicitação de uma potência criativa, os movimentos de lembrar e esquecer demandam também os afetos do espírito. A eles pode-se dar o nome de amor.

Raciocínio refinado, acuidade na escolha das palavras, sofisticada ironia. Três particularidades do texto de Rogério Miranda de Almeida. Sem se furtar ao rigoroso apanhado filosófico dos conceitos, o autor desliza leve e macio pelos meandros discursivos de seu raciocínio claro. Não é leitura para iniciantes. Da mesma forma, não se trata de tratado que esgota o assunto. Na aparente dicotomia que estes dois traços inauguram, ecoa um símile daquela que dá início a esta apresentação. Da mesma forma que nos outros volumes que escreveu e publicou, Rogério Miranda de Almeida seduz e conquista o leitor pela inteligência. Isso tem se tornado raridade. Fica o convite!!!

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Repetição

Freud deve ter mesmo acertado quando estudou, pensou sobre e escreveu sobre a repetição. fenômeno interessante que leva mesmo a especular sobre um monte de coisas. Junte-se a esta idiossincrasia fomentada pelo inconsciente a minha proverbial preguiça – síndrome de Macunaíma – e vai o poema de José Régio, uma vez mais. Também ele repleto de repetições…

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Cântico Negro

“Vem por aqui” – dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: “vem por aqui!”
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali…

A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
– Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe

Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos…

Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: “vem por aqui!”?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí…

Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?…
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos…

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios…
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios…

Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: “vem por aqui”!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou…
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
– Sei que não vou por aí!

José Régio, in ‘Poemas de Deus e do Diabo

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