Lembranças

Nos idos de 2006, quando eu ainda acreditava haver qualquer possibilidade de vitória sobre o empuxo das forças do mal que me arrastavam na corrente de desilusão e ceticismo, propus projeto de pesquisa, no âmbito de um programa de iniciação científica. A proposta foi aprovada. Um estudante ganhou uma bolsa e desenvolveu a pesquisa de maneira brilhante, galharda, exemplar. Alguns anos depois o texto que o estudante escreve como resultado da pesquisa foi, com minha interferência e colaboração, publicado numa revista catalã de estudos culturais. O estudante, hoje, é professor num instituto federal de educação, em Florianópolis. Não sei dizer quantas vezes o artigo foi consultado e/ou citado. Em tempos de choro e ranger de dentes sobre contingenciamento de bolsas de pesquisas, me deu vontade de publicar o “referencial teórico” do citado como um de meus humildes e consistentes sucessos. O projeto leva o seguinte título: “O ROMANCE PORTUGUÊS E A HISTÓRIA – A NARRATIVA DE EÇA DE QUEIROZ E ALMEIDA FARIA”.

Como a proposta de estudo investe na análise das relações entre Literatura e História a partir da leitura dos romances A ilustre casa de Ramires, de Eça de Queiroz e Cavaleiro andante, de Almeida Faria, nesse quarto tópico discorremos sobre os estudos que fundamentarão teoricamente a perspectiva de investigação adotada. É na convergência das teorias dos autores mencionados, na sequência, que iremos procurar s subsídios teóricos para um correto e coerente desenvolvimento da pesquisa. Será possível constatar que a revisão bibliográfica do projeto envolve dois conjuntos de estudos indispensáveis para uma investigação como a que propomos. Um primeiro conjunto corresponde às análises teórico-críticas que sondaram as linhas de força da ficção dos autores selecionados. Um segundo conjunto é composto de textos teóricos que examinam as relações entre a Literatura e a História.

No que diz respeito ao primeiro conjunto de estudos, a consideração da fortuna crítica sobre os autores leva-nos a mencionar que sua produção narrativa já foi o alvo de algumas investigações, as quais se configuram hoje como obrigatórias para investigações que se debruçam sobre a obra em questão. Uma das reflexões mais atualizadas sobre a narrativa de Almeida Faria, por exemplo, consiste na de Carlos Reis[1], que destaca como decisiva a contribuição a obra do autor de Cavaleiro andante para a sedimentação e a afirmação criativa da narrativa portuguesa da contemporaneidade. Esse contributo traz consigo fundamentais inovações temáticas, ideológicas e formais que dominarão a ficção lusitana do último quartel do século XX. Tal contribuição estabelece um diálogo com a extensa fortuna crítica da obra do escritor realista, o que, antes de mais nada, instiga-nos a uma abordagem de igual envergadura, dado que esta não se encontra com frequência. Em outras palavras, depara-se com uma certa lacuna nos estudos queirosianos, quando se trata da aproximação de sua obra com o referencial aqui adotado. Tal fato faz-se suficiente para respaldar a presente proposta de investigação comparativa.

Em conformidade com Reis, tais inovações operacionalizadas pela obra de Almeida Faria são identificadas a partir dos seguintes elementos: a tendência para rearticular, de forma paródica e provocatória, gêneros narrativos recuperados do passado ou de zonas antes entendidas como subliterárias; a enunciação de discursos de índole assumidamente intertextual, como processo de incorporação na narrativa de outros textos literários e não literários; a elaboração de engenhosas construções metadiscursivas e metaficcionais; a concepção da narrativa como um campo propício à problematização e mesmo à deslegitimação de narrativas fundadoras ou identitárias; a reescrita da história sob o crivo ficcional.[2] Na sequência da abordagem de Reis sobre a obra de Almeida Faria, cumpre destacar a reflexão de Vergílio Ferreira, que, no prefácio ao romance Rumor Branco (1962), sublinha a ficção de Almeida Faria como uma das mais significativas do romance português contemporâneo por “protagonizar uma consequente e vistosa derrogação da doxa literária e ideológica que o Neorrealismo impusera”. Nesse “ensaio-prefácio”, Vergílio Ferreira saudava a emancipação promovida pela obra de Faria como uma escrita liberta do estatuto e das imposições do Neorrealismo.[3]

Quanto a Eça de Queiroz, não se pode deixar de dizer que sua contribuição ficcional funciona como uma espécie de “base” para as elucubrações realizadas pela narrativa de Almeida Faria. Com isso não estamos querendo dizer que o romancista do século XIX oferece ao do século XX os elementos de que este se utiliza para realizar sua “leitura do mundo”.  Ao contrário, no painel que intenta construir da sociedade burguesa em Portugal, Eça de Queiroz, ainda que este não tenha sido seu objetivo precípuo – não se pode nunca negar e/ou afirmar absolutamente nada sobre este assunto – acaba por tocar em questões relevantes para a articulação do binômio Literatura e História, nos termos em que este aqui se apresenta.

Vergílio Ferreira constata, não só a ligação direta de Almeida Faria a uns anos 60 muito fecundos em termos de rupturas estéticas, mas antecipa uma renovação temática e formal que os romances do autor, reunidos sob a denominação de Tetralogia lusitana, incorporarão antes e depois daquela fronteira histórica que o ano de 1974 configura. Acerca disso, é oportuno mencionar o estudo de Cristina Robalo Oliveira, no qual a autora assevera que a Tetralogia lusitana é, em rigor, não apenas uma indagação ficcional sobre a história portuguesa recente, mas também, a sua maneira, um premente desafio a essa História.[4]

Com o romance A Paixão (1965), Almeida Faria encetou uma vasta parábola de alcance duplamente coletivo, no plano familiar e nacional, articulada com o pano de fundo da Semana Santa em decurso. Em 1965, o romancista que inicia essa parábola parecia adivinhar o momento de ressurreição que havia de vir, depois da libertação, com os Cravos de 1974. Só, assim, “assumia pleno sentido um projeto que, sem essa libertação, ficaria bloqueado”.[5] Se o segundo romance do ciclo, Cortes (1978) era o estágio intervalar que antecedia a ressurreição/revolução expressa em Lusitânia (1980), o romance Cavaleiro andante (1983) vem a ser, como aponta Clara Ferreira Alves, “esse momento de celebração da vida nova, já inclinada, contudo por uma deriva pós-revolucionária e pós-colonial”.[6] Esse romance “conclui o ciclo da família e o da História, desembocando no 25 de novembro de 1975, em que a Revolução atinge um clímax de ópera bufa”.[7]

Na ficção de Eça de Queiroz, para ratificar oque aqui vem sendo explicitado, destacam-se Os maias, importante e monumental romance que apresenta um quadro da vida lisboeta no fim de século. Tal proposta parece ter sido parte de um projeto inacabado, infelizmente. Não se trata, evidentemente, de um romance histórico. No entanto, ao fazer o que deseja, o painel pintado pelo autor realista acaba por tocar em questões relevantes da História de seu país, temperadas com a “pena da galhofa”, sem deixar de deixar abertas certas brechas interpretativas para a relação que se procura analisar aqui.

O segundo conjunto de estudos que integra esta revisão bibliográfica consiste de reflexões sobre a interlocução entre a Literatura e a História. Em função disso, não pode deixar de lado referências teóricas fundamentais como os estudos elaborados por Georges Duby, Hayden White, Paul Ricouer, Peter Burke, Walter Benjamin, Linda Hutcheon, Júlia Kristeva e Mikhail Bakhtin. Cumpre observar, com base nesses autores que, nas últimas décadas, a História de cunho positivista teve seus alicerces senão derrubados, ao menos, abalados pela irrupção da “Nouvelle Histoire”. Reconhece-se que a História, enquanto disciplina, é uma indagação sobre a verdade dos fatos humanos. No entanto, o resultado dessa atividade reflexiva é sempre parcial, comprometido com o sujeito enunciador do discurso, com o tempo do discurso, com o público ao qual o discurso se destina.[8] A ficção, por sua vez, consiste também numa busca dessa mesma verdade, desse mesmo conhecimento sobre a experiência do ser humano com o seu passado. A Literatura vale-se de uma visão mágica, criativa, imaginativa e simbólica, diametralmente oposta à pretensa visão clara, unívoca e objetiva da Ciência.

Ora, atualmente, ao tratarmos das relações entre Literatura e História, não podemos mais nos ater àquelas convicções que, além de separar, opõem Ciência e Ficção. A História Nova, a Nouvelle Histoire, mostrou que a atitude de ressurreição integral do passado é vã, pois existem lacunas, fendas e silêncios que são irrecuperáveis. Por causa disso, o discurso histórico nasce de um trabalho com fontes selecionadas em detrimento de outras. Isso implica a presença de um sujeito comprometido com sua carga ideológica pessoal e com a carga ideológica do seu tempo. Segundo Georges Duby[9], em História, tudo é discurso sobre algo que aconteceu ou que acontece, o qual é elaborado através de uma narração que, imaginariamente, no momento presente, lança-se à tentativa de resgatar e recompor o real do tempo passado. O discurso historiográfico nasce de um sonho apoiado em esteios conscientes, em marcas deixadas sobre o passado. As lacunas e silêncios são preenchidos pela matéria onírica.

O discurso historiográfico é um sonho condicionado a esteios e marcas deixadas sobre o passado. Por essa razão, toda a História é contemporânea. As lacunas e silêncios existentes são preenchidos pela fantasia e pela imaginação. De acordo com Duby, o trabalho de pesquisa e investigação do passado, levado a efeito pela historiografia atual, postula o encontro com o literário, com o ficcional. Dessa forma, o resgate e a representação das formas assumidas pela vida humana no passado opõem-se à reconstrução objetiva, pois pressupõem o lirismo, o sonho, a fantasia, a criatividade e a imaginação, caracteres essenciais do fazer ficcional. Refletindo sobre a narrativa historiográfica, Duby contempla, nessa estrutura discursiva, além da reabilitação do estilo o desejo subjacente de contar uma boa História.[10] As considerações de Duby sintomatizam o debate contemporâneo sobre a narratividade como princípio constitutivo da História e de sua conseqüente aproximação da narrativa literária. Vislumbra-se, nesse debate, não só a convicção de que a Historiografia, enquanto processo discursivo, procura não só resgatar e reconstituir o real dos tempos passados, mas, sobretudo, como menciona Paul Ricoeur, a “capacidade desdobrada” da Literatura de não só registrar e ficcionalizar os fatos históricos concernentes à vida dos povos, mas também de, na plenitude de sua potencialidade ficcional, “fazer História”.[11]

A defesa de um diálogo entre a Literatura e a História tem em Hayden White um dos seus principais expoentes atuais.[12] Ao incursionar pelo terreno da Historiografia e da Literatura Comparada, o teórico norte-americano sublinha a circunscrição do discurso histórico como uma prática eminentemente narrativa, portanto, literária. White reflete sobre a necessidade de expansão das fronteiras da História, no que concerne às suas definições e métodos de investigação e escrita, insistindo que a tendência da História tem sido a de manter-se situada no âmbito dos paradigmas literários e científicos do século XIX. A Literatura e a Ciência ultrapassaram há muito tempo essa fase. Por essa razão, White convida aquela Historiografia, atrelada às idéias do século XIX, a abrir-se aos procedimentos críticos que ocasionaram transformações no âmbito da Literatura, da Arte e da Ciência. Segundo White, em oposição aos ficcionistas, os historiadores desconsideraram o elemento imaginário de suas obras, acreditando que conseguiram transcender e se desvincular da Ficção pelo estabelecimento de rigorosas linhas de pesquisa e investigação para a História, enquanto disciplina. Entretanto, apesar desses limites, conscientes ou não, todas as descrições dos acontecimentos históricos fundamentam-se em narrativas que revelam a coerência, a integridade, a plenitude e a inteireza de uma imagem de vida que é, e só pode ser, imaginária. A reflexão de White descortina que a reflexão acerca das relações entre Literatura e História deve considerar o fato de as duas serem formas narrativas que têm como instrumento comum a linguagem.

Assim sendo, merece destaque, na sequência de posturas teóricas, a reflexão de Walter Benjamin sobre a narração, a qual vislumbra a Literatura e a História como vizinhas de longa data, por habitarem o solo comum e fértil do gênero narrativo.[13] Benjamin lança mão da narrativa literária para atribuir à História uma vocação narrativa, apostando na caminhada comum empreendida pelos dois discursos. A reflexão benjaminiana indica a disposição de redefinir o papel da narrativa no âmbito da Ficção e da História. A referência à arte de contar está a serviço, no pensamento benjaminiano, da apologia do historiador como um cronista, cujo artefato de sua arte é o relato. Benjamin preconiza, nos seus textos sobre a narração e o discurso da História, uma revitalização da dimensão inventiva, nomeadora da linguagem e o retorno a uma criatividade original que ele identifica no narrador tradicional, cuja expressão declina na Modernidade. A reflexão de Benjamim acerca da extinção da arte de narrar aponta para o desejo e a necessidade de uma nova narratividade tanto na Literatura quanto no âmbito da História.

A questão sobre as relações entre a Literatura e a História torna inevitável a reflexão sobre a intertextualidade, como princípio fundamental dessa interlocução entre os discursos da Literatura e da História. Acerca da intertextualidade, nos valemos do pensamento de Linda Hutcheon, nas reflexões de Julia Kristeva e de Mikhail Bakhtin. Com base nesses teóricos, a intertextualidade é contemplada como o princípio basilar das convergências e distanciamentos entre Literatura e História. Assim, a intertextualidade assinala que os meios de expressão e os mecanismos organizadores da narrativa ficcional são os mesmos que instrumentalizam a narrativa histórica. Por se constituírem como constructos linguísticos, História e Ficção apresentam-se como gêneros permeáveis, convencionalizados em suas formas narrativas.


[1] REIS, Carlos. História crítica da literatura portuguesa: Do neo-realismo ao Post-modernismo. Lisboa: Verbo, 2006, v.9, p.287-357. O post-modernismo e a ficção portuguesa do fim do século XX.

[2] Idem, p.296.

[3] FERREIRA, Vergílio. Prefácio. In: FARIA, Almeida. Rumor branco. Lisboa: Portugália Editora, 1962, p. 5-11.

[4] OLIVEIRA, Cristina Robalo Cordeiro. A paixão de Almeida Faria. Coimbra: Instituto Nacional de Investigação Científica, 1980.

[5] AZEVEDO FILHO, Leodegário de. Uma visão brasileira da literatura portuguesa. Coimbra: Almedina, 1973, p.5-7. Nota prévia ao romance de Almeida Faria.  

[6] ALVES, Clara Ferreira. A propósito de Cavaleiro andante. In: JL-Jornal de Letras, Artes e Idéias. Lisboa, n.20, p.17, 7 de junho de 1983.

[7] Cf. PIWNIK, Marie-Hélène (org.) La littérature portugaise: regards sur deux fins de siècle (XIXe-XXe). Bordeaux: Maison des Pays Ibériques, 1996, p.121.

[8] BURKE, Peter. A escrita da história. São Paulo: Editora da UNESP, 1992, p.37. Ainda: ___. A Escola dos Annales 1929-1989 – A Revolução Francesa da Historiografia. 2 ed. São Paulo: Editora da UNESP, 1992.

[9] DUBY, Georges; LARDREAU, Guy. Diálogos sobre a Nova História. Lisboa: Dom Quixote, 1989, p.41.

[10] Idem, p.10.

[11] Cf. RICOEUR, Paul. Tempo e narrativa. Campinas, SP: Papirus, 1997, v.3.

[12] Cf. WHITE, Hayden. Trópicos do discurso: ensaios sobre a crítica da cultura. São Paulo: EDUSP, 1994. Ainda:___. Meta-História: a imaginação histórica do século XIX. São Paulo: EDUSP, 1995.

[13] Cf. BENJAMIN, Walter. Obras escolhidas I – Magia e técnica – Arte e Política. 7 ed. São Paulo: Brasiliense, 1994. Ainda: ___. Obras escolhidas II – Rua de mão única. 4 ed. São Paulo: Brasiliense, 1994. ___. Obras escolhidas III – Charles Baudelaire – Um lírico no auge do capitalismo. São Paulo: Brasiliense, 1989.

Rever

Endorinologista e Metabologista. Eu o chamo de endocrinologista de amplo espectro. É o médico com quem me faço acompanhar clinicamente agora. A esta altura, eu precisaria de um geriatra. Não vou procurar um geriatra desconhecido, que não tem a mínima ideia de minha histórica e de meu histórico familiar para começar do zero. Por isso escolhi ele: o endocrinologista de amplo espectro. Esse epíteto se deve ao fato de que ele não se prende aos laços da endocrinologia e da metabologia para clinicar e acompanhar seus pacientes. Ele atenta para a cardiologia, a angiologia e até a pneumologia. Ele deu uma sobrevida mais alongada para mamãe, cuidou de papai nos últimos anos de sua vida e fez em excelente trabalho com meu irmão. Por isso, eu o escolhi. Ele conhece meu histórico familiar e tem uma visão mais holística da medicina. Gosto dele. Confio nele. E por isso causou-me espanto, positivo de qualquer maneira, o comentário que fez hoje. Falando com ele sobre as últimas leituras que tenho feito, acresci que gostaria de escrever memórias, ainda que minha vida seja de interesse de muito pouca gente, talvez só de meu interesse mesmo. Ele disse para eu escrever a biografias de meus pais. Uma ideia a se pensar, uma ideia instigante, ainda que eu saiba, de antemão, que muitas fontes já se foram. Talvez eu pudesse escrever uma biografia ficcionalizada. O leitor ficaria em dúvida sobre o que é fato e o que é ficção. Tudo isso para chegar em quatro títulos de livros: Lições de abismo, O nariz do morto, O anel e O livro de Antônio. O professor google vai dizer que ambos são escritores católicos, nomes de destaque no pensamento católico brasileiro. O mesmo professor há de classificar o primeiro título como um romance e os demais como livros de memórias. Ele não está de todo errado. No entanto, o que me faz escrever sobre estes quatro livros – o primeiro de autoria de Gustavo Corção e os demais, de autoria de Antônio Caros Villaça – não vão ao encontro de uma teoria de gêneros narrativos. Longe disso. Já não me sinto obrigado a justificar este tipo de abordagem ou embasamento para proferir opinião, ou impressão de leitura. Já pressinto narizes torcidos, mas vou deixá-los de lado. Os quatro livros são quatro peças IM-PRES-SIO-NAN-TES descrita. E de escrita literária. Em que pese o fato de os quatro poderem ser articulados a um fio autobiográfico inegável – eu não vejo por que esse tópico ainda causa tanta objeção! –, nada nele basta para reduzir o monumento de escrita literária que constroem. Bom é lembrar que nenhum dos autores frequentou as famigeradas oficinas e escrita criativa – como se essa coisa pudesse ser capaz de formar talentos… ninguém me demove da certeza de que o talento é nato, congênito, “essencial”, o que se pode é aperfeiçoá-lo, burilar suas restas, fazê-lo mais consistente – nem ganhou prêmio literários patrocinados por editoras e “governos” com o fim de “abastecer o mercado livreiro”. Jamais! ambos foram ES-CRI-TO-RES. Coisa raríssima hoje em dia. Por força de consequência, os dois deveriam ser estudados, lidos e relidos, incensados como reais e inescapáveis bastiões da tão empobrecida Literatura Brasileira. O livro de Corão é um soco no estômago, daquele que impossibilitam qualquer reação que não seja a de total e absoluta reverência à sua contundência inegável. O quase solilóquio de um homem em situação limite, faz com que o leitor faça deslizar seu olhar pelas linhas do texto enquanto se arrepia com as imagens, o caráter direto e cru das assertivas, a melancolia que envolve algumas observações e um forte espírito cético que a tudo aponta com a varinha da quase insensatez. Um texto “poético” por excelência que faz de Gustavo Corção um escritor, como disse acima, inescapável. O fato de ser “arrolado” no panteão dos escritores católicos não diminui em nada a preciosidade de sua escrita. Texto denso, pesado, bonito, bem escrito. Um exemplo do que a Língua Portuguesa pode oferecer em ternos de recursos sintáticos e semânticos para articular um discurso que está anos luz à frente de muito do que se tem produzido com o mesmo código, o que é triste. Não mais triste que constatar que o autor foi, de fato, abandonado numa esquina qualquer da História da Literatura Brasileira. Não muito distante dele, está Antônio Calos Villaça, que tive o prazer de conhecer pessoalmente em duas ocasiões. Dele tenho duas cartas pessoais e uma memória que vai ficar guardada no cofre das preciosidades afetivas que a existência proporciona assim, gratuitamente. Um andar curtinho, ritmado pela enorme quantidade de banha que adiposamente se espalhava no traje preto, constante de sua figura. O arremate ficava por conta da imensa barba branca – barba de monge, que foi – que emoldurava um rosto quadrado iluminado por dois olhinhos pequenos e absurdamente penetrantes. Uma mente mais que admirável. Dele, os três outros títulos mencionados. Mesclando lembranças de seu passado sofrido e um tanto agressivo, passeia por longas referências a autores e livros que compulsou e, em muitos casos, com quem conviveu seja por períodos longos, seja fortuitamente. Um homem de biblioteca e de livraria, de capela e de restaurante. Da solidão dos quartos e dos caminhos abertos da natureza que apontavam para a imensa criação divina, como soe acontecer no pensamento católico. Os livros do Villaça são, como o de Corção, um poema bem-acabado. Escrito em ritmo personalíssimo que envolve o leitor em bruma de acuidade penetrante, de sutil ironia, de desvelamento melancólico e de uma verdade incontestável: a fugacidade da vida e sua absoluta relatividade. Villaça é outro nome esquecido por essas esquinas tão “festeiras”, tão de “feiras” e de festivais… Uma pena.

Eu não sabia…

POR QUE OS REIS DE PORTUGAL NÃO USAM COROA?

Durante toda a dinastia dos Bragança, as imagens oficiais dos reis eram marcadas pela inutilização da Coroa Real. Entenda o motivo

ANDRÉ NOGUEIRA PUBLICADO EM 08/08/2019, ÀS 08H00

https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/reportagem/historia-por-que-os-reis-de-portugal-nao-usam-coroa-em-todas-imagens-coroa-esta-na-mesa-e-cabeca-esta-sem-nada.phtml?fbclid=IwAR1YYeQralBM-A6kP20xUQTz2Vesd3pgWxBiqOlsDTLyhkjBlYlD1VDi3pU

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Crédito: Wikimedia commons

A Coroa é um símbolo de suma importância para as monarquias, ela representa e marca o poder do Rei. Diversos reis na História foram retratados por imagens e símbolos e a Coroa é tradicionalmente um elemento imagético no universo de signos régios. Este não é o caso das representações em imagem dos reis de Portugal desde a restauração e a independência do país após anos de União Ibérica.

A partir de 1640, ano do fim da União, assume em Portugal a Casa Real de Bragança, linhagem que governou o Império Português até a dissolução da monarquia em 1910. A tradição dos Bragança não era muito distinta do restante a cultura política de outras partes da Europa: monarcas absolutistas que negociavam as bases de seu poder com as cortes e sustentavam a exploração marítima de suas colônias ultramarinas. Porém, a nível imagético, a distinção da representação dos reis de Portugal é significativa.

Para além da pintura, os reis de Portugal não eram formalmente coroados, sendo conclamados em sua posição a partir do título de Dom. A tradição existe desde a fundação da monarquia bragantina, com D. João IV, em 1640.

Na decorrência de sua coroação, o rei se recusou a colocar em sua cabeça o símbolo da monarquia e, ao invés disso, colocou a coroa nos pés da estátua da Virgem Maria, a declarando “Rainha de Portugal” e “Guardiã da Coroa”.

Hoje se discute se o ato foi uma posição da fé declarada do monarca ou uma forma de articular a unidade de Portugal a partir da tradição católica como forma de manutenção da independência em relação à Espanha.

N. Sra. de Fátima coroada / Crédito: José Ferreira Thedim

No caso da imagem de Dom José I, a relação é mais clara. O rei posa sem a coroa, mas o cetro que segura está apoiado na mesa onde a coroa está depositada:

D. José Emanuel / Crédito: Wikimedia Commons

 Além de apontar diretamente para a Coroa, a disposição dos elementos do quadro demonstra uma relação entre Rei e Coroa que é, ao mesmo tempo, de associação e de distância.

O mesmo se vê no retrato pintado por Pompeo Batoni, representação do rei Dom João V, o Magnânimo. O Rei usa em sua cabeça a tradicional peruca da nobreza, que declara o poder e a riqueza moral do monarca, mas a coroa permanece na mesa, onde se apoia o cetro real:

D. João V / Crédito: Wikimedia commons

A relação entre o campo simbólico da representação do rei e a tradição política pronunciada pela monarquia é um elemento básico para entender o campo da monarquia dos Bragança. Isso, pois, é elementar na concepção política do monarca português o fator mitológico que fundamenta o universo político de Portugal, nos séculos bragantinos. É impossível entender a política em Portugal sem somar à equação a ascensão, a partir do século XVII, do Sebastianismo.

Contam as histórias tradicionais que Dom Sebastião I de Portugal,  foi um dos grandes nomes da Reconquista ibérica e batalhou incessantemente pela vitória do mundo católico. Em sua última destreza, Sebastião partiu para a guerra com os mouros em Alcácer-Quibir (atualmente Marrocos), onde morreu em batalha.

Entretanto, no mito desse rei, defende-se que Sebastião nunca morreu, pois seu corpo nunca foi encontrado. Na verdade, o rei não havia morrido, mas apenas desaparecido e, como um Messias, seu destino era um dia retornar a Portugal e assumir novamente a Coroa.

O Sebastianismo, portanto, é a crença mitológica do retorno futuro de Sebastião como Rei de Portugal. Segundo essa lógica, o verdadeiro rei da nação portuguesa é Sebastião, o “rei adormecido”.

Enquanto isso, os sucessores de Sebastião e reis temporários do Império seriam, no limite, guardiões da Coroa Portuguesa na espera do retorno do verdadeiro rei. O Sebastianismo teve grande influência em Portugal e também no Brasil.

Nesse universo político, o rei de Portugal guarda a coroa enquanto a Virgem Maria, ou a Nossa Senhora de Fátima, consideradas padroeiras de Portugal e mãe de Cristo, é abençoadora do reinado português e mantenedora da sacralidade da Coroa. Nesse sentido, é possível entender a representação imagética dos reis. Veja, por exemplo, a imagem de Pedro III, o Edificador:

D. Pedro III / Crédito: Wikimedia Commons

O retrato de Pedro III, a representação é clara: mais do que possuindo, mas não usando, a Coroa, o monarca protege o símbolo da monarquia, segurando-a como se a guardasse, enquanto expõe em seu peito a Cruz da Ordem de Cristo.

O Rei de Portugal seria, portanto, um representante nobre da Coroa que serve de guardião da instituição sacra da monarquia lusitana, enquanto aguarda o verdadeiro dono da Coroa, único que poderia coloca-la na cabeça e ser declarado monarca absoluto do Império Português, representante digno do Poder, o Rei Sebastião.

A Nossa Senhora, nesse caso, apareceria como equivalente, no campo do divino, ao poder simbólico de Sebastião, pois ambos se confundem simbolicamente com a própria ideia de “Portugal” como nação monárquica e católica.

De coincidências e olhares

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Certa feita, num restaurante do Village, em Nova Iorque, o Lip’s, Ginger, uma das drag queens que desempenhavam a função de garçonetes, chegou-se a mim, antes de subir ao palco, e disse que eu era o Billy Joel dela. Ginger era responsável pelas quatro mesas que ocupavam o canto do salão em que eu estava. Durante o show, fez várias referências ao cantor e a mim. Foi uma noite agradável que ficou perdia em minha memória e em algumas fotos que já não sei onde andam… Este episódio não tem nada de ficcional. Nada nele me levou a escrever um romance – ainda duvido que tenha competência para tanto – e, mesmo assim, foi interessante. Leva a pensar se, de fato, existem coincidências. Não me vejo parecido com o cantor norte-americano, mas Ginger sim. E outro momento, durante um congresso no Rio de Janeiro, fiquei conversando com uma professora que eu conhecia. Eu já tinha estado com ela, já tinha sido a ela apresentado, mas ela, membro da “república dos phdeuses” naquela altura, não me reconhecia. Conversávamos animadamente, ainda que me sentisse incomodado com o tipo de perguntas que ela fazia. Não conseguia supor o porquê daquela curiosidade, dado que eu a conhecia e sabia que era uma pessoa sem a mínima importância para ela. O desconforto durou até o momento em que, por um movimento brusco, fiz virar o crachá que usava e que, até então, ocultava meu nome. Estupefata ela perguntou: “Você não é o João Gilberto Noll?”. E foi-se, como tinha aparecido. Num átimo. Ri a bandeiras despregadas, mas não consegui escutar a conferência do escritor gaúcho pois, ao chegar ao auditório, ao olhar para ele, lá embaixo, à mesa, vi a mim mesmo falando. Fiquei mais que encodado. Coincidência?

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Estas considerações servem para criar certo tipo de “pano de fundo” para alguns pitacos sobre um romance de Helder Macedo, intitulado Sem nome Lisboa, Presença, 2006). Encontrei-o em edição brasileira… “por acaso”, da última vez que entre na livraria Leitura, do BHShopping – coisa que não faço com frequência. O romance, “assenta-se” num detalhe fortuito: certa aparência facial, dois números trocados e uma ou duas letras trocadas. Parece pouco n[e? Mas para o escritor/professor português não é. Ele constrói uma trama (até) interessante sobre um sujeito que perdeu a namorada durante o ditadura salazarista e acaba por se encontrar com uma mulher, em outro país, no aeroporto que, na opinião dele, se parece muito com a namorada perdida. O detalhe dos números se refere à quase coincidência do ano de nascimento de ambas, ainda que sua namorada teria mais de 60 anos quando do encontro e a rapariga não tinha sequer 40 mal contados. Mas a troca dos números instigou a curiosidade do protagonista. Outra coisa era o nome da namorada e da moça no aeroporto: Bernardo ou Barnarda? (Se não cometo equívoco – estou com preguiça de consultar o livro…) A relação entre os dois envolve um amigo dela, homossexual, diplomata que faz uma parte um tanto confusa na trama. E a história se envolve nas tramas da memória, da fabulação e do fluxo de consciência. Tinha curiosidade de ler algum livro deste autor – sua obra é bastante ampla. Confesso que gostei, mas não ao ponto de colocá-lo em lugar de destaque em qualquer estante, não este romance. Já ouvi coisas boas a respeito de dois ou três outros, durante um outro confesso. Fato é que este romance prende a atenção do leitor por conta de suas reviravoltas que, ao fim e ao cabo, relatam situações contextualizadas no período mais escuro da cultura lusitana com suas perseguições, suas imposições e seus impedimentos. A trama de Helder Macedo é leve, chega a ser engraçado com pitadas de surpresa, aqui e ali. O romance agrada. A relação com a História de Portugal, faz deste romance um texto que instiga e questiona, sem deixar de enlevar o espírito em questões que, ainda que de raspão, tocam a Psicanálise, respaldando leitura de afetos e intimidades que, por vezes, foram sufocadas pela nuvem salazarista. O próprio desfecho remete, em certa medida, ao horizonte mais aberto e esperançoso que se espraia sobre a península prenunciando tempos melhores… Ou piores, se a chave de leitura levar à porta da ironia e da derrisão, no que diz respeito à História em/de Portugal. Vale a pena a leitura.

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Recordar é viver

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Entre 2008 e 2010 vivi em Zagreb, capital da Croácia. Foram dois anos como Leitor de Português na Universidade de Zagreb. Para além das atividades acadêmicas, como fui o primeiro Leitor Brasileiro (havia um leitorado português, mantido pelo Instituto Camões), mantive estreita relação, não apenas profissional com o corpo consular sediado na Embaixada do Brasil naquela cidade. Uma relação muito proveitosa que me rendeu momentos mais que gratificantes. Um deles foi o da conferência que fiz em comemoração dos 200 anos da chegada da família real portuguesa ao Brasil. Tal conferência, feita a convite do senhor embaixador, foi uma delícia. Para começar a semana, publico aqui o roteiro que utilizei então…

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Boa tarde

Agradecimentos:

– ao Senhor Embaixador, Haroldo Teixeira Valadão Filho, pela acolhida, pelo apoio e pelo incentivo que me tem dado;

– à senhora Helga Dworshck Arantes, vice-cônsul responsável pelo setor cultural da embaixada do Brasil em Zagreb e à Ivana Kasunić, assistente do mesmo setor, pelo convite que me foi feito e pela oportunidade de falar aqui.

Uma alegria enorme de estar aqui, grande satisfação em estar vivendo essa experiência muito desejada, muito prazer pela oportunidade de fazer esta conferência.

Três pontos importantes a considerar, a partir do pressuposto da comemoração dos 200 anos da chegada da família real ao Brasil:

  1. a ideia de tomar o “evento” como “mote” para uma reflexão acerca das relações entre Literatura História, para dar continuidade a uma linha de investigação que venho perseguindo na Universidade, no Brasil;
  2. a ideia de celebrar um evento de fundamental importância para o início de um processo de “desenvolvimento” com todos os seus impasses, dificuldades e problemas, nas mais diversas perspectivas de abordagem;
  3. a reflexão acerca das relações entre Literatura e História, na abordagem de um evento de tamanha envergadura, como exercício de releitura do texto cultural que a Histórias das relações entre Brasil e Portugal – desde o descobrimento até os dias atuais – enseja e mantém

Para começar, a leitura do segundo capítulo de O guarani, romance de José de Alencar, publicado em 1872, 64 anos depois da chegada da família real ao Brasil.

O trecho do romance denuncia e preconiza, em certa medida, o desenho da “paisagem” que vai emoldurar o evento que se comemora este ano. De certa maneira, José de Alencar, ainda que não o tenha desejado conscientemente, para a finalidade a que me proponho aqui, acaba por fixar o pano de fundo do evento chamado “chegada”. Sua descrição e comentários, a partir do discurso do narrador do romance, já denotam alguns traços de caráter “cultural” que vão estar presentes em território brasileiro, a partir da chegada da família real. É bom notar que o romance, publicado já na segunda metade do século 19, narra o que José de Alencar imaginou se passar na segunda metade do século 16. Esse dado abre uma oportunidade de discussão das relações entre Literatura e História, com base em argumentação teórico-crítica da Literatura Comparada que vou, por questão de coerência, deixar de lado, por agora. No entanto, quero reafirmar minha convicção de que esse trecho do romance é factível de ser tomado como objeto de desejo da leitura que faço do evento aqui celebrado, na perspectiva da História da Literatura Brasileira. José de Alencar produz um recuo no tempo da História para, na leitura que proponho, redesenhar a “paisagem” que o quadro histórico da “chegada” seja pintado.

Maneiras

Princípios

Ideologia

Ética

Costumes

de Portugal, metrópole, trasladados para a Colônia (Reino,

depois da “chegada”)

Faz 201 anos que a 29 de novembro a família real partia de maneira um tanto atabalhoada, de acordo com os registros da História “oficial”, de Lisboa.

Em 22 de janeiro de 2008, comemorou-se a chegada da família real em Salvador, sua primeira escala, eu diria acidental (quase como o próprio “descobrimento”!).

Em 7 de março de 2008, comemorou-se a chegada de D. João VI e sua família ao Rio de Janeiro

200 anos depois, um detalhe pode chamar a atenção e ensejar toda uma série de elucubrações, sustentando hipóteses e orientando leituras nas mais diversas perspectivas do fato histórico que foi a chegada. Afinal de contas. A família real mudou-se ou fugiu? Uma questão semântica, apontada de maneira inteligente, perspicaz e, eu diria, definitiva, por Laurentino Gomes, em seu livro 1808: como uma rainha louca, um príncipe medroso e uma corte corrupta enganaram Napoleão e mudaram a História de Portugal e do Brasil. (LER TRECHO SELECIONADO DA PÁGINA 21, MARCADOR COR-DE-ROSA)

Contexto conjuntural da chegada

– invasão napoleônica em Portugal

– necessidade de manter a coroa

– necessidade de constatar, in loco, a situação da maior colônia portuguesa além-mar

– à parte as caricaturas de costume:      – os piolhos e as cabeças raspadas

– o temperamento impulsivo e sanguíneo da

rainha

– a separação do casal real

– os frangos e o temperamento melancólico do rei

– a loucura de D. Maria I

– a importância da chegada: – abertura dos portos

para a Inglaterra e demais

nações importantes na rota comercial pelo mar

(a carta régia de 28 de janeiro

– a criação – do Banco do Brasil

– Jardim Botânico

– da Biblioteca Real

– a fundação da Escola Médica Cirúrgica de Salvador

– a Imprensa Régia

Dois aspectos ressaltam o que está envolvido na chegada: a intriga e a conjuntura: D. João VI foi, naquele momento, o único rei que escapou ao controle de Napoleão, fato pouco destacado que faz mudar toda a perspectiva de leitura do evento que foi a chegada.

Importante dizer que entre a chegada,. Durante a estada da família real em solo brasileiro até a sua partida, gestou-se o que hoje conhecemos como República, o que não pouco!!!

Um pouco desse contexto pderia ter sido melhor aproveitado num romance (até) interessante intitulado O cozinheiro do Rei D. João VI, de autoria de Hélio Loureiro, badalado chef português. Valem a pena, no livro, duas coisas: as receitas e a oportunidade vislumbrada de apresentar o mesmo evento, sem a marca da caricatura, mas pela perspectiva “interna” dele. Perdida porque o autor não soube aproveitar os dados do evento histórico, por conta da falibilidade de sua competência narrativo-ficcional. O livro pinta, no entanto, um outro quadro de referências que aproxima, mais uma vez, Literatura e História. Vale como referência curiosa.

Indubitavelmente, as conseqüências, tanto positivas, quanto negativas da vinda da família real para o Brasil são inumeráveis. No entanto, pela própria Literatura Brasileira, pode-se constatar alguns detalhes destas conseqüências.

Exemplo disso é o romance de Machado de Assis, Dom casmurro. Dentre tantas perspectivas possíveis de leitura, quero destacar aqui a composição da família de Bento Santiago, protagonista e narrador do romance. O intuito é o de constatar que o modelo familiar apresentado à, então colônia, quando da chegada de D. João VI e seu séquito ao Rio de Janeiro, manteve algumas de suas características, ao longo da História do Brasil, passando de Império a República.

Maneiras

Princípios

Ideologia

Ética

Costumes

de Portugal, metrópole, desenvolvidos e aclimatados ao Império

Para ilustrar o que estou dizendo, leio três capítulos do referido romance, os capítulos: V – O agregado, VI – Tio Cosme e VII – D. Glória.

A viuvez de Dona Glória e a manutenção de sua personalidade, a figura do agregado e o Tio solteirão, são três personagens sociologicamente tipificadas pela Teoria da Literatura, em associação com o modus vivendi da sociedade imperial. Muito do que vai mostrado aí, no romance, a partir desse esboço de figura que Bentinho faz pode ser considerado como uma herança sócio-cultural do comportamento que foi modificado, na colônia, com a chegada da família imperial.

É fato que Machado de Assis, talvez, não tenha tido esta intuição e não a tenha perseguido, na composição de seu romance. No entanto, a finalidade da referência a este texto, aqui, é apenas a de ilustrar como a família real deixou suas marcas, em todos os quadrantes da vida social e cultural da então colônia portuguesa

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Memória afetiva… e mais

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Meu pai foi prefeito da cidade em que hoje eu vivo. Ele administrou o município entre 1977 e 1981. Depois disso, tentou dar continuidade em sua carreira política, mas não deu certo. Ainda como prefeito, eleito pelo MDB (só quem tem mais de 40 anos serão capazes de se lembrar o peso do significado desta sigla naquela altura). Ainda me lembro da carreata que encerrou sua campanha. Um grupo grande de pessoas, quase todos com a camiseta amarela com o número da sigla e o nome dele. O cortejo chegou até a praça da cidade, atrás da matriz de São Gonçalo. Todo mundo entrou no cine teatro que ali havia. Quando meu pai chegou, uma chuva de papel picado, gritaria, foguetório, banda música. Uma balbúrdia. Ainda hoje me escapa o sentido e o efeito disso tudo. Sinceramente, não conseguia alcançar o porquê de tanta euforia e, antes, o propósito, o desejo, o plano de meu pai. Ah… Hoje posso dizer sem culpa, a vaidade humana é como água: vai tomando a forma que o espaço e a circunstância permitem. Com isso, estou longe de criticar a atitude de meu, o fato dele ter se candidatado. Pois foi eleito e, ainda hoje, há gente que fala dele, não sem uma dose de doce e sentida nostalgia. O borracheiro, que hoje atende a mim e a meu irmão, comenta, emocionado, que o imóvel onde funciona sua oficina foi doado pelo prefeito de 1978: meu pai. A gratidão dele é tocante. Lá pelas tantas, já na reta final do mandato, meu pai presidia uma associação de prefeito da área metropolitana de Belo Horizonte, a GRANBEL. O dinheiro andava curto (Parece até que algum dia isso foi novidade). A administração já vislumbrava seu final. A tal associação resolveu atender ao chamado de Golbery do Couto e Silva para uma reunião. Lá se foi meu pai. No retorno: uma polêmica. Todos os prefeitos da GRANBEL conseguiram (milagre!) concluir as obras e os feitos alocados em seus planos de governo, apresentado quatro anos antes. Um fato inédito. Cadê a polêmica? Alguém pergunta. A polêmica reside na mudança de partido de todo o grupo de prefeitos. Mudaram de MDB para PDS. Gritaria, confusão, xingamentos. Por uns bons anos, os jornais vociferavam contra a então mencionada “traição”. O fato remanesce: a administração daquele grupo de prefeitos se CONCLUIU, na acepção, mas plena e acabada do verbo. Punto i basta! Meu pai não ficou rico. Nós não mudamos nosso padrão de vida e, melhor, nossos princípios. As contas foram contestadas por muito tempo e, depois de período esticado à exaustão, foram aprovadas sem emendas, sem processos, sem “operações” de ministério público estadual (Isso sim pode ser considerado um milagre!). E eu ainda me pergunto para quê isso tudo?

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De noite (ou no escuro!), todos os gatos são pardos…

De perto ninguém é igual…

Quem vê cara não vê coração…

As aparências enganam…

Por fora bela viola, por dentro pão bolorento…

O adagiário popular está repleto de expressões similares. Todas elas falam de aparência, de imagem. O verbete no dicionário, não deixa dúvidas, quanto a tratar-se de substantivo feminino, mas…:

– representação, reprodução ou imitação da forma de uma pessoa ou de um objeto; representação de seres que são objeto de culto, de veneração;

estampa, sem caráter de obra original ou rara, que reproduz temas diversos ou, mais esp., motivos religiosos;

– aspecto particular pelo qual um ser ou um objeto é percebido; cena, quadro;

 – reprodução invertida de um ser ou de um objeto, transmitida por uma superfície refletora;

 – reprodução estática ou dinâmica de seres, objetos, cenas etc. obtida por meios técnicos;

 – derivação: sentido figurado: pessoa muito bonita; cromo; aquilo que apresenta uma relação de analogia, de semelhança (simbólica ou real); réplica, retrato, reflexo; pessoa que representa, simboliza ou faz lembrar alguma coisa abstrata; personificação; opinião (contra ou a favor) que o público pode ter de uma instituição ou personalidade;

 – na rubrica: literatura: qualquer maneira particular de expressão literária que tem por efeito substituir a representação precisa de um fato, situação etc. por uma alegoria, visão, evocação etc.;

 – na rubrica: matemática: elemento determinado pela aplicação de uma função em um determinado ponto;

 – na rubrica: óptica: representação de um objeto que emite ou recebe luz e que é formada por raios luminosos que passam por uma lente, espelho ou qualquer outro sistema óptico;

 – na rubrica: psicologia: representação ou reprodução mental de uma percepção ou sensação anteriormente experimentada;

 – na rubrica: psicologia: representação mental de um ser imaginário, um princípio ou uma abstração.

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Não é bolinho! No fundo (ou, como dizem os portugueses, “ao fim e ao cabo”) o ponto de fuga é a ideia de imagem. Pela multifacetada gama de nuances semânticas do termo, imagine-se (ops!) a igualmente multifacetada e inumerável gama de variações de sentido que se pode atribuir a seres, acontecimentos, fatos, ideias, etc., em associação com tal substantivo. Para além disso, note-se que se trata de substantivo de gênero feminino, o que levaria a pensar numa outra plausível gama de mais complexa e intrincada composição semântica: a ideia de sedução. Deixo de lado, por ora, tal variação. Parto da ideia de imagem para comentar, ainda que brevemente, um livro que estou terminar de ler. Academicamente falando, deveria terminar a leitura antes de ousar dizer alguma coisa sobre ele, o livro. Não estou na “academia” aqui… O livro se chama “Conquistadores: como Portugal criou o primeiro império global”. Seu ator, Roger Crowley – autor e pesquisador de origem maltesa, estudou Literatura Inglesa em Cambridge e viveu por algum tempo na Grécia e em Istambul, escreveu vários livros populares sobre guerra naval e conquistas de potências europeias nos tempos modernos. Desde 2005, vive em Gloucestershire -, faz uma leitura inesperada, instigante, detalhada e criativa da História das conquistas Portuguesas, sobretudo a já cantada em versos camonianos. O estabelecimento do caminho marítimo para as Índias, feito fenomenal dos lusitanos, é também objeto do escrutínio do autor que, na contramão da História oficial – consideradas aqui as versões documental e literária -, relê uma sequência de episódios, enfatizando a crueldade e a sanha conquistadora dos portugueses neste périplo que definiu os rumos de uma Europa em franco caminho para a Modernidade. Lê-se o livro como se lê um romance bem escrito, muito bem escrito. A intimidade com que trata as personagens – aqui, em seu duplo sentido – é de uma delícia anos-luz distante de qualquer palavra que se possa desejar usar. Não há como descrever. A facilidade com que conduz o leitor pelos meandros do poder naval em pleno séculos XV, XVI e XVII – como eu disse, o rigor acadêmico em sua ausência, aqui, me dá asas… e a imaginação pode voar livre e desimpedida! – faz com que certas “verdades” sejam definitivamente alocadas na categoria de imponderavelmente relativas e discutíveis. Aliás, o propósito do livro pode ser também compreendido como um exercício de afirmação deste axioma. De um jeito ou de outro, para o bem e para o mal, a “IMAGEM” dos portugueses não permanece inalterada depois da leitura do livro. Não ouso afirmar que ela fica manchada. Também não aposto na solene grandiloquência da possibilidade de cristalização de outra imagem: a de heróis. Tudo é absolutamente relativo, como bem demonstra o texto de Crowley. Cada passo, da História, aparece acompanhado, na história, por fatos que podem ou não ser ficcionais – ou inventados se assim o quiser o leitor -, inesperados e reveladores de maldade, da crueldade, do sadismo: tais peculiaridades não são assim tão correntes nas infinitas leituras que até hoje se produziram sobre este passo da História mundial. Unindo o termo “conquistadores” e a expressão “império global”, o intencional sarcasmo hermenêutico a que se entrega o pesquisador de língua inglesa não deixa dúvida sobre o seu ímpeto: contar “outra” história. E nisto não vai nenhuma intenção de desmerecer a História. Longe disso, muito longe. É preciso ter inteligência muito rasa para tomar literalmente as palavras do autor, como bastião de uma derrubada do caráter oficial que nos foi legado, depois de cantado em verso pelo poeta português. O fato permanece: na memória, nos documentos, nos textos que sobre eles se debruçam e a partir dele se escrevem e se escreveram. Eles permanecem como a camada de cera no “bloco mágico”, para lembrar Freud. O livro é extraordinariamente bem escrito, bem fundamentado e delicioso aos olhos de quem sobre ele desliza a atenção das retinas, mesmo que cansadas. Vale a pena!

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