De coincidências e olhares

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Certa feita, num restaurante do Village, em Nova Iorque, o Lip’s, Ginger, uma das drag queens que desempenhavam a função de garçonetes, chegou-se a mim, antes de subir ao palco, e disse que eu era o Billy Joel dela. Ginger era responsável pelas quatro mesas que ocupavam o canto do salão em que eu estava. Durante o show, fez várias referências ao cantor e a mim. Foi uma noite agradável que ficou perdia em minha memória e em algumas fotos que já não sei onde andam… Este episódio não tem nada de ficcional. Nada nele me levou a escrever um romance – ainda duvido que tenha competência para tanto – e, mesmo assim, foi interessante. Leva a pensar se, de fato, existem coincidências. Não me vejo parecido com o cantor norte-americano, mas Ginger sim. E outro momento, durante um congresso no Rio de Janeiro, fiquei conversando com uma professora que eu conhecia. Eu já tinha estado com ela, já tinha sido a ela apresentado, mas ela, membro da “república dos phdeuses” naquela altura, não me reconhecia. Conversávamos animadamente, ainda que me sentisse incomodado com o tipo de perguntas que ela fazia. Não conseguia supor o porquê daquela curiosidade, dado que eu a conhecia e sabia que era uma pessoa sem a mínima importância para ela. O desconforto durou até o momento em que, por um movimento brusco, fiz virar o crachá que usava e que, até então, ocultava meu nome. Estupefata ela perguntou: “Você não é o João Gilberto Noll?”. E foi-se, como tinha aparecido. Num átimo. Ri a bandeiras despregadas, mas não consegui escutar a conferência do escritor gaúcho pois, ao chegar ao auditório, ao olhar para ele, lá embaixo, à mesa, vi a mim mesmo falando. Fiquei mais que encodado. Coincidência?

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Estas considerações servem para criar certo tipo de “pano de fundo” para alguns pitacos sobre um romance de Helder Macedo, intitulado Sem nome Lisboa, Presença, 2006). Encontrei-o em edição brasileira… “por acaso”, da última vez que entre na livraria Leitura, do BHShopping – coisa que não faço com frequência. O romance, “assenta-se” num detalhe fortuito: certa aparência facial, dois números trocados e uma ou duas letras trocadas. Parece pouco n[e? Mas para o escritor/professor português não é. Ele constrói uma trama (até) interessante sobre um sujeito que perdeu a namorada durante o ditadura salazarista e acaba por se encontrar com uma mulher, em outro país, no aeroporto que, na opinião dele, se parece muito com a namorada perdida. O detalhe dos números se refere à quase coincidência do ano de nascimento de ambas, ainda que sua namorada teria mais de 60 anos quando do encontro e a rapariga não tinha sequer 40 mal contados. Mas a troca dos números instigou a curiosidade do protagonista. Outra coisa era o nome da namorada e da moça no aeroporto: Bernardo ou Barnarda? (Se não cometo equívoco – estou com preguiça de consultar o livro…) A relação entre os dois envolve um amigo dela, homossexual, diplomata que faz uma parte um tanto confusa na trama. E a história se envolve nas tramas da memória, da fabulação e do fluxo de consciência. Tinha curiosidade de ler algum livro deste autor – sua obra é bastante ampla. Confesso que gostei, mas não ao ponto de colocá-lo em lugar de destaque em qualquer estante, não este romance. Já ouvi coisas boas a respeito de dois ou três outros, durante um outro confesso. Fato é que este romance prende a atenção do leitor por conta de suas reviravoltas que, ao fim e ao cabo, relatam situações contextualizadas no período mais escuro da cultura lusitana com suas perseguições, suas imposições e seus impedimentos. A trama de Helder Macedo é leve, chega a ser engraçado com pitadas de surpresa, aqui e ali. O romance agrada. A relação com a História de Portugal, faz deste romance um texto que instiga e questiona, sem deixar de enlevar o espírito em questões que, ainda que de raspão, tocam a Psicanálise, respaldando leitura de afetos e intimidades que, por vezes, foram sufocadas pela nuvem salazarista. O próprio desfecho remete, em certa medida, ao horizonte mais aberto e esperançoso que se espraia sobre a península prenunciando tempos melhores… Ou piores, se a chave de leitura levar à porta da ironia e da derrisão, no que diz respeito à História em/de Portugal. Vale a pena a leitura.

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Recordar é viver

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Entre 2008 e 2010 vivi em Zagreb, capital da Croácia. Foram dois anos como Leitor de Português na Universidade de Zagreb. Para além das atividades acadêmicas, como fui o primeiro Leitor Brasileiro (havia um leitorado português, mantido pelo Instituto Camões), mantive estreita relação, não apenas profissional com o corpo consular sediado na Embaixada do Brasil naquela cidade. Uma relação muito proveitosa que me rendeu momentos mais que gratificantes. Um deles foi o da conferência que fiz em comemoração dos 200 anos da chegada da família real portuguesa ao Brasil. Tal conferência, feita a convite do senhor embaixador, foi uma delícia. Para começar a semana, publico aqui o roteiro que utilizei então…

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Boa tarde

Agradecimentos:

– ao Senhor Embaixador, Haroldo Teixeira Valadão Filho, pela acolhida, pelo apoio e pelo incentivo que me tem dado;

– à senhora Helga Dworshck Arantes, vice-cônsul responsável pelo setor cultural da embaixada do Brasil em Zagreb e à Ivana Kasunić, assistente do mesmo setor, pelo convite que me foi feito e pela oportunidade de falar aqui.

Uma alegria enorme de estar aqui, grande satisfação em estar vivendo essa experiência muito desejada, muito prazer pela oportunidade de fazer esta conferência.

Três pontos importantes a considerar, a partir do pressuposto da comemoração dos 200 anos da chegada da família real ao Brasil:

  1. a ideia de tomar o “evento” como “mote” para uma reflexão acerca das relações entre Literatura História, para dar continuidade a uma linha de investigação que venho perseguindo na Universidade, no Brasil;
  2. a ideia de celebrar um evento de fundamental importância para o início de um processo de “desenvolvimento” com todos os seus impasses, dificuldades e problemas, nas mais diversas perspectivas de abordagem;
  3. a reflexão acerca das relações entre Literatura e História, na abordagem de um evento de tamanha envergadura, como exercício de releitura do texto cultural que a Histórias das relações entre Brasil e Portugal – desde o descobrimento até os dias atuais – enseja e mantém

Para começar, a leitura do segundo capítulo de O guarani, romance de José de Alencar, publicado em 1872, 64 anos depois da chegada da família real ao Brasil.

O trecho do romance denuncia e preconiza, em certa medida, o desenho da “paisagem” que vai emoldurar o evento que se comemora este ano. De certa maneira, José de Alencar, ainda que não o tenha desejado conscientemente, para a finalidade a que me proponho aqui, acaba por fixar o pano de fundo do evento chamado “chegada”. Sua descrição e comentários, a partir do discurso do narrador do romance, já denotam alguns traços de caráter “cultural” que vão estar presentes em território brasileiro, a partir da chegada da família real. É bom notar que o romance, publicado já na segunda metade do século 19, narra o que José de Alencar imaginou se passar na segunda metade do século 16. Esse dado abre uma oportunidade de discussão das relações entre Literatura e História, com base em argumentação teórico-crítica da Literatura Comparada que vou, por questão de coerência, deixar de lado, por agora. No entanto, quero reafirmar minha convicção de que esse trecho do romance é factível de ser tomado como objeto de desejo da leitura que faço do evento aqui celebrado, na perspectiva da História da Literatura Brasileira. José de Alencar produz um recuo no tempo da História para, na leitura que proponho, redesenhar a “paisagem” que o quadro histórico da “chegada” seja pintado.

Maneiras

Princípios

Ideologia

Ética

Costumes

de Portugal, metrópole, trasladados para a Colônia (Reino,

depois da “chegada”)

Faz 201 anos que a 29 de novembro a família real partia de maneira um tanto atabalhoada, de acordo com os registros da História “oficial”, de Lisboa.

Em 22 de janeiro de 2008, comemorou-se a chegada da família real em Salvador, sua primeira escala, eu diria acidental (quase como o próprio “descobrimento”!).

Em 7 de março de 2008, comemorou-se a chegada de D. João VI e sua família ao Rio de Janeiro

200 anos depois, um detalhe pode chamar a atenção e ensejar toda uma série de elucubrações, sustentando hipóteses e orientando leituras nas mais diversas perspectivas do fato histórico que foi a chegada. Afinal de contas. A família real mudou-se ou fugiu? Uma questão semântica, apontada de maneira inteligente, perspicaz e, eu diria, definitiva, por Laurentino Gomes, em seu livro 1808: como uma rainha louca, um príncipe medroso e uma corte corrupta enganaram Napoleão e mudaram a História de Portugal e do Brasil. (LER TRECHO SELECIONADO DA PÁGINA 21, MARCADOR COR-DE-ROSA)

Contexto conjuntural da chegada

– invasão napoleônica em Portugal

– necessidade de manter a coroa

– necessidade de constatar, in loco, a situação da maior colônia portuguesa além-mar

– à parte as caricaturas de costume:      – os piolhos e as cabeças raspadas

– o temperamento impulsivo e sanguíneo da

rainha

– a separação do casal real

– os frangos e o temperamento melancólico do rei

– a loucura de D. Maria I

– a importância da chegada: – abertura dos portos

para a Inglaterra e demais

nações importantes na rota comercial pelo mar

(a carta régia de 28 de janeiro

– a criação – do Banco do Brasil

– Jardim Botânico

– da Biblioteca Real

– a fundação da Escola Médica Cirúrgica de Salvador

– a Imprensa Régia

Dois aspectos ressaltam o que está envolvido na chegada: a intriga e a conjuntura: D. João VI foi, naquele momento, o único rei que escapou ao controle de Napoleão, fato pouco destacado que faz mudar toda a perspectiva de leitura do evento que foi a chegada.

Importante dizer que entre a chegada,. Durante a estada da família real em solo brasileiro até a sua partida, gestou-se o que hoje conhecemos como República, o que não pouco!!!

Um pouco desse contexto pderia ter sido melhor aproveitado num romance (até) interessante intitulado O cozinheiro do Rei D. João VI, de autoria de Hélio Loureiro, badalado chef português. Valem a pena, no livro, duas coisas: as receitas e a oportunidade vislumbrada de apresentar o mesmo evento, sem a marca da caricatura, mas pela perspectiva “interna” dele. Perdida porque o autor não soube aproveitar os dados do evento histórico, por conta da falibilidade de sua competência narrativo-ficcional. O livro pinta, no entanto, um outro quadro de referências que aproxima, mais uma vez, Literatura e História. Vale como referência curiosa.

Indubitavelmente, as conseqüências, tanto positivas, quanto negativas da vinda da família real para o Brasil são inumeráveis. No entanto, pela própria Literatura Brasileira, pode-se constatar alguns detalhes destas conseqüências.

Exemplo disso é o romance de Machado de Assis, Dom casmurro. Dentre tantas perspectivas possíveis de leitura, quero destacar aqui a composição da família de Bento Santiago, protagonista e narrador do romance. O intuito é o de constatar que o modelo familiar apresentado à, então colônia, quando da chegada de D. João VI e seu séquito ao Rio de Janeiro, manteve algumas de suas características, ao longo da História do Brasil, passando de Império a República.

Maneiras

Princípios

Ideologia

Ética

Costumes

de Portugal, metrópole, desenvolvidos e aclimatados ao Império

Para ilustrar o que estou dizendo, leio três capítulos do referido romance, os capítulos: V – O agregado, VI – Tio Cosme e VII – D. Glória.

A viuvez de Dona Glória e a manutenção de sua personalidade, a figura do agregado e o Tio solteirão, são três personagens sociologicamente tipificadas pela Teoria da Literatura, em associação com o modus vivendi da sociedade imperial. Muito do que vai mostrado aí, no romance, a partir desse esboço de figura que Bentinho faz pode ser considerado como uma herança sócio-cultural do comportamento que foi modificado, na colônia, com a chegada da família imperial.

É fato que Machado de Assis, talvez, não tenha tido esta intuição e não a tenha perseguido, na composição de seu romance. No entanto, a finalidade da referência a este texto, aqui, é apenas a de ilustrar como a família real deixou suas marcas, em todos os quadrantes da vida social e cultural da então colônia portuguesa

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Memória afetiva… e mais

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Meu pai foi prefeito da cidade em que hoje eu vivo. Ele administrou o município entre 1977 e 1981. Depois disso, tentou dar continuidade em sua carreira política, mas não deu certo. Ainda como prefeito, eleito pelo MDB (só quem tem mais de 40 anos serão capazes de se lembrar o peso do significado desta sigla naquela altura). Ainda me lembro da carreata que encerrou sua campanha. Um grupo grande de pessoas, quase todos com a camiseta amarela com o número da sigla e o nome dele. O cortejo chegou até a praça da cidade, atrás da matriz de São Gonçalo. Todo mundo entrou no cine teatro que ali havia. Quando meu pai chegou, uma chuva de papel picado, gritaria, foguetório, banda música. Uma balbúrdia. Ainda hoje me escapa o sentido e o efeito disso tudo. Sinceramente, não conseguia alcançar o porquê de tanta euforia e, antes, o propósito, o desejo, o plano de meu pai. Ah… Hoje posso dizer sem culpa, a vaidade humana é como água: vai tomando a forma que o espaço e a circunstância permitem. Com isso, estou longe de criticar a atitude de meu, o fato dele ter se candidatado. Pois foi eleito e, ainda hoje, há gente que fala dele, não sem uma dose de doce e sentida nostalgia. O borracheiro, que hoje atende a mim e a meu irmão, comenta, emocionado, que o imóvel onde funciona sua oficina foi doado pelo prefeito de 1978: meu pai. A gratidão dele é tocante. Lá pelas tantas, já na reta final do mandato, meu pai presidia uma associação de prefeito da área metropolitana de Belo Horizonte, a GRANBEL. O dinheiro andava curto (Parece até que algum dia isso foi novidade). A administração já vislumbrava seu final. A tal associação resolveu atender ao chamado de Golbery do Couto e Silva para uma reunião. Lá se foi meu pai. No retorno: uma polêmica. Todos os prefeitos da GRANBEL conseguiram (milagre!) concluir as obras e os feitos alocados em seus planos de governo, apresentado quatro anos antes. Um fato inédito. Cadê a polêmica? Alguém pergunta. A polêmica reside na mudança de partido de todo o grupo de prefeitos. Mudaram de MDB para PDS. Gritaria, confusão, xingamentos. Por uns bons anos, os jornais vociferavam contra a então mencionada “traição”. O fato remanesce: a administração daquele grupo de prefeitos se CONCLUIU, na acepção, mas plena e acabada do verbo. Punto i basta! Meu pai não ficou rico. Nós não mudamos nosso padrão de vida e, melhor, nossos princípios. As contas foram contestadas por muito tempo e, depois de período esticado à exaustão, foram aprovadas sem emendas, sem processos, sem “operações” de ministério público estadual (Isso sim pode ser considerado um milagre!). E eu ainda me pergunto para quê isso tudo?

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De noite (ou no escuro!), todos os gatos são pardos…

De perto ninguém é igual…

Quem vê cara não vê coração…

As aparências enganam…

Por fora bela viola, por dentro pão bolorento…

O adagiário popular está repleto de expressões similares. Todas elas falam de aparência, de imagem. O verbete no dicionário, não deixa dúvidas, quanto a tratar-se de substantivo feminino, mas…:

– representação, reprodução ou imitação da forma de uma pessoa ou de um objeto; representação de seres que são objeto de culto, de veneração;

estampa, sem caráter de obra original ou rara, que reproduz temas diversos ou, mais esp., motivos religiosos;

– aspecto particular pelo qual um ser ou um objeto é percebido; cena, quadro;

 – reprodução invertida de um ser ou de um objeto, transmitida por uma superfície refletora;

 – reprodução estática ou dinâmica de seres, objetos, cenas etc. obtida por meios técnicos;

 – derivação: sentido figurado: pessoa muito bonita; cromo; aquilo que apresenta uma relação de analogia, de semelhança (simbólica ou real); réplica, retrato, reflexo; pessoa que representa, simboliza ou faz lembrar alguma coisa abstrata; personificação; opinião (contra ou a favor) que o público pode ter de uma instituição ou personalidade;

 – na rubrica: literatura: qualquer maneira particular de expressão literária que tem por efeito substituir a representação precisa de um fato, situação etc. por uma alegoria, visão, evocação etc.;

 – na rubrica: matemática: elemento determinado pela aplicação de uma função em um determinado ponto;

 – na rubrica: óptica: representação de um objeto que emite ou recebe luz e que é formada por raios luminosos que passam por uma lente, espelho ou qualquer outro sistema óptico;

 – na rubrica: psicologia: representação ou reprodução mental de uma percepção ou sensação anteriormente experimentada;

 – na rubrica: psicologia: representação mental de um ser imaginário, um princípio ou uma abstração.

autor

Não é bolinho! No fundo (ou, como dizem os portugueses, “ao fim e ao cabo”) o ponto de fuga é a ideia de imagem. Pela multifacetada gama de nuances semânticas do termo, imagine-se (ops!) a igualmente multifacetada e inumerável gama de variações de sentido que se pode atribuir a seres, acontecimentos, fatos, ideias, etc., em associação com tal substantivo. Para além disso, note-se que se trata de substantivo de gênero feminino, o que levaria a pensar numa outra plausível gama de mais complexa e intrincada composição semântica: a ideia de sedução. Deixo de lado, por ora, tal variação. Parto da ideia de imagem para comentar, ainda que brevemente, um livro que estou terminar de ler. Academicamente falando, deveria terminar a leitura antes de ousar dizer alguma coisa sobre ele, o livro. Não estou na “academia” aqui… O livro se chama “Conquistadores: como Portugal criou o primeiro império global”. Seu ator, Roger Crowley – autor e pesquisador de origem maltesa, estudou Literatura Inglesa em Cambridge e viveu por algum tempo na Grécia e em Istambul, escreveu vários livros populares sobre guerra naval e conquistas de potências europeias nos tempos modernos. Desde 2005, vive em Gloucestershire -, faz uma leitura inesperada, instigante, detalhada e criativa da História das conquistas Portuguesas, sobretudo a já cantada em versos camonianos. O estabelecimento do caminho marítimo para as Índias, feito fenomenal dos lusitanos, é também objeto do escrutínio do autor que, na contramão da História oficial – consideradas aqui as versões documental e literária -, relê uma sequência de episódios, enfatizando a crueldade e a sanha conquistadora dos portugueses neste périplo que definiu os rumos de uma Europa em franco caminho para a Modernidade. Lê-se o livro como se lê um romance bem escrito, muito bem escrito. A intimidade com que trata as personagens – aqui, em seu duplo sentido – é de uma delícia anos-luz distante de qualquer palavra que se possa desejar usar. Não há como descrever. A facilidade com que conduz o leitor pelos meandros do poder naval em pleno séculos XV, XVI e XVII – como eu disse, o rigor acadêmico em sua ausência, aqui, me dá asas… e a imaginação pode voar livre e desimpedida! – faz com que certas “verdades” sejam definitivamente alocadas na categoria de imponderavelmente relativas e discutíveis. Aliás, o propósito do livro pode ser também compreendido como um exercício de afirmação deste axioma. De um jeito ou de outro, para o bem e para o mal, a “IMAGEM” dos portugueses não permanece inalterada depois da leitura do livro. Não ouso afirmar que ela fica manchada. Também não aposto na solene grandiloquência da possibilidade de cristalização de outra imagem: a de heróis. Tudo é absolutamente relativo, como bem demonstra o texto de Crowley. Cada passo, da História, aparece acompanhado, na história, por fatos que podem ou não ser ficcionais – ou inventados se assim o quiser o leitor -, inesperados e reveladores de maldade, da crueldade, do sadismo: tais peculiaridades não são assim tão correntes nas infinitas leituras que até hoje se produziram sobre este passo da História mundial. Unindo o termo “conquistadores” e a expressão “império global”, o intencional sarcasmo hermenêutico a que se entrega o pesquisador de língua inglesa não deixa dúvida sobre o seu ímpeto: contar “outra” história. E nisto não vai nenhuma intenção de desmerecer a História. Longe disso, muito longe. É preciso ter inteligência muito rasa para tomar literalmente as palavras do autor, como bastião de uma derrubada do caráter oficial que nos foi legado, depois de cantado em verso pelo poeta português. O fato permanece: na memória, nos documentos, nos textos que sobre eles se debruçam e a partir dele se escrevem e se escreveram. Eles permanecem como a camada de cera no “bloco mágico”, para lembrar Freud. O livro é extraordinariamente bem escrito, bem fundamentado e delicioso aos olhos de quem sobre ele desliza a atenção das retinas, mesmo que cansadas. Vale a pena!

livro

Passado

Numa de mexer em “papéis” velhos, encontrei esta comunicação apresentada em Viçosa em 2007. Nasceu de um artigo publicado em Santa Maria-RS, logo depois de lá ter chegado. Tenho a impressão de que publiquei uma terceira versão do mesmo texto, mas já me lembro onde…

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O evangelho segundo Jesus Cristo: notas acerca de um (certo) parricídio

José Luiz Foureaux de Souza Júnior, Ph.D. (UFOP)

Nos termos do que Freud chamou de romance familiar, a identidade é considerada com toda a ambivalência não resolvida de uma crise edípica em que não existe, estranhamente, nenhum pai simbólico que venha dar resgate.

Harold Bloom, Abaixo as verdades sagradas

Esta comunicação encerra um conjunto de apontamentos necessários para a formalização de uma proposta de trabalho que pretende se estender por um tempo incalculável, como sempre acontece com a pesquisa acadêmica. Nesse sentido, não se trata de apresentar resultados, por impossível, mas de organizar as pistas até agora encontradas para a realização de um percurso de leitura. Essa é a palavra-chave aqui: leitura. O evangelho segundo Jesus Cristo, romance de José Saramago, é aqui o objeto dessa leitura, numa perspectiva que se quer, necessariamente, circunstancial e penúltima, dado que um exercício hermenêutico que privilegia o texto e seus desdobramentos, em lugar de teorizações circulares e fronteiriças, desprezando o que de melhor um texto de romance pode oferecer. Trata-se de uma tentativa de pensar uma categoria psicanalítica, a do parricídio, que remete, discursivamente à do mito de Édipo, na sua conotação clínica – a que aponta para a necessidade de constituição de um lugar para o sujeito na conjuntura cultural lusitana de todos os tempos.

Jesus Cristo, segundo a tradição, nasceu há mais de dois mil anos. Aqui também ele não é o autor do evangelho: a sua boa nova, nesse caso, é outra e faz pensar no escritor que anuncia a sua própria boa nova. O “Evangelho” de Saramago tem, na verdade, muito pouco de boa nova: sua história é velha, antiquíssima. Partindo do drama do filho de Deus, considerando a palavra drama em seu sentido etimológico, Saramago sai da ficção em direção à tentativa de revestir a ela mesma de vida própria. Seus movimentos são desejados em tormentas de dias passados, tanto da tradição bíblica, quanto da História de Portugal. José Saramago abre sua narrativa com a descrição pontual de uma obra de arte, a gravura de Albert Dürer, em que os elementos essenciais para articular a leitura, que aqui desejo apresentar, são destacados:

O sol mostra-se num dos cantos superiores de rectângulo, o que se encontra à esquerda de quem olha, representando, o astro-rei, uma cabeça de homem donde jorram raios de aguda luz e sinuosas labaredas, tal uma rosa-dos-ventos indecisa sobre a direcção dos lugares para onde quer apontar, e essa cabeça tem um rosto que chora, crispado de uma dor que não remite, lançando pela boca aberta um grito que não poderemos ouvir, pois nenhuma destas coisas é real, o que temos diante de nós é papel e tinta, mais nada. Por baixo do sol vemos um homem nu atado a um tronco de árvore, cingidos os rins por um pano que lhe cobre as partes a que chamamos pudendas ou vergonhosas, e os pés tem-nos assentes no que resta de um ramo lateral cortado, porém, por maior firmeza, para que não resvalem desse suporte natural, dois pregos que os mantêm, cravados fundo. Pela expressão d acara, que é de inspirado sofrimento, e pela direcção do olhar, erguido para o alto, deve de ser o Bom ladrão. O cabelo, todo aos caracóis, é outro indício que não engana, sabendo-se que anjos e arcanjos assim o usam, e o criminoso arrependido, pelas mostras, já está no caminho de ascender ao mundo das celestiais criaturas. (…) Tal como José de Arimateia, também esconde com o corpo o pé desta outra árvore que, lá em cima, no lugar dos ninhos, levanta ao ar um segundo homem nu, atado e pregado como o primeiro, mas este é de cabelos lisos, deixa pender a cabeça para olhar, se ainda pode, o chão, e a sua cara, magra e esquálida, dá pena, ao contrário do ladrão do outro lado, que mesmo no transe final, de sofrimento agônico, ainda tem valor para mostrar-nos um rosto que facilmente imaginamos rubicundo, corria-lhe bem a vida quando roubava, não obstante a falta que fazem as cores aqui. Magro, de cabelos lisos, de cabeça caída para terra que o há-de comer, duas vezes condenado, à morte a ao inferno, este mísero despojo só pode ser o Mau ladrão, rectíssimo homem afinal, a quem sobrou a consciência para não fingir acreditar, a coberto de leis divinas e humanas, que um minuto de arrependimento basta para resgatar uma vida inteira de maldade ou uma simples hora de fraqueza. (…) Neste lugar, a que chamam Gólgota, muitos são os que tiveram o mesmo destino fatal e outros muitos o virão a ter, mas este homem, nu, cravados de pés e mãos numa cruz, filho de José e de Maria, Jesus de seu nome, é o único a quem o futuro concederá a honra da maiúscula inicial, os mais nunca passarão de crucificados menores. É ele, finalmente, este para quem apenas olham José de Arimateia e Maria Madalena, este que faz chorar o sol e a lua, este que ainda agora louvou o Bom Ladrão e desprezou o Mau, por não compreender que não há nenhuma diferença entre um e outro, ou, se diferença há, não é essa, pois o Bem e o Mal não existem em si mesmos, cada um deles é somente a ausência do outro. Tem por cima da cabeça, resplandecente de mil raios, mais do que, juntos, o sol e a lua, um cartaz escrito em romanas letras que o proclamam Rei dos Judeus e, cingindo-a, uma dolorosa coroa de espinhos, como a levam, e não sabem, mesmo quando não sangram para fora do corpo, aqueles homens a quem não se permite que sejam reis em suas próprias pessoas. Não goza Jesus de um descanso para os pés, com o têm os ladrões, todo o peso do seu corpo estaria suspenso das mãos pregadas no madeiro se não fosse restar-lhe ainda alguma vida, a bastante para manter erecto sobre os joelhos retesados, mas que cedo se lhe acabará, a vida, continuando o sangue a saltar-lhe da ferida do peito, como já foi dito. (SARAMAGO, 1991, p.13-20)

A descrição da gravura de Dürer, feita pelo narrador de Saramago, coloca a figura de Jesus Cristo como conclusão do passo descritivo que explicita a imagem do corpo, como um ícone operador da leitura que aqui se pretende. Os detalhes serão aqui dispensados, não por insuficiente ou inutilidade, mas por uma questão de tempo e espaço. No entanto, essa gravura anuncia a inversão de que trato aqui, na leitura do romance. O Jesus Cristo do escritor português, que dá título ao romance, pode estar recuperando apenas parte de sua trajetória terrena, na ficção de José Saramago, a gravura referida visualiza e sustenta essa hipótese.

Colocado no meio de dois ladrões, sua apresentação constitui uma síntese que explicita a verve irônica impiedosa do autor, no esboço da imagem do “filho do homem”. A ironia se dirige a uma das linhas de força da cultura lusitana, herdeira da visão carola e romantizada de um Cristo – paradigma especular da imperial figura do sujeito português. Em outras palavras, a subversão de uma divindade absoluta e inquestionável, numa humanidade de moral duvidosa e ética cambiante: a que, edipicamente, mata o pai, para tentar encontrar o seu próprio lugar, como soe acontecer.

O romancista conta histórias, colocando a História de cabeça pra baixo. Afinal, enquanto o mundo de um passado distante tem sua realidade própria, independentemente de quem tente visualizá-lo e descrevê-lo, a visão de um escritor é subjetiva, na medida em que seu próprio ponto de observação e as complexas lentes do preconceito, do interesse e da predisposição moldam o que ele discerne e, com isso, o que ele consegue escrever. Falo aqui, ainda que implicitamente, na subjetividade. Esta não reduz a possibilidade de encarar o narrador como representação de uma nacionalidade, de uma identidade cultural, para além de um individualismo tacanho.

Por outro lado, o preconceito ameaça a leitura realizada por Saramago que coloca a nu uma certa dose de hipocrisia que, em momento algum, pode ser utilizada como sustentáculo de uma excomunhão, uma vez que a narrativa toca fundo em alguns dogmas sagrados, tanto da Religião, quanto da História de Portugal. José Saramago coloca, na consciência do leitor, a reflexão sobre o imponderável da realidade artística. Quando provoca essas reviravoltas, misturando História e ficção, faz com que a realidade passe a não suportar o seu próprio reflexo, rejeitando-o. Assim, apenas uma realidade outra pode ser alocada no lugar daquela que se quis expressar. Sendo diferentes entre si, História e ficção se mostram explicando-se, se enumeram. A realidade como invenção que foi, a ficção como realidade que deseja ser.

Passar de uma área à outra é fazer a travessia de um rio. Essa passagem, no romance de fundo, aqui, se dá pelo viés da Religião. Este  destaca a figura do Cristo que coloca um ponto  de interrogação no discurso legitimado pela tradição cristã. A ação que, numa narrativa – seja ela literária ou histórica – dramatiza a travessia e é a construção de uma ponte, se explicita no texto que é lido. Assim é porque a História fala daquilo que não poderá ser visto duas vezes seguidas da mesma forma, uma vez que ela narra os fatos “reais” que têm o homem como ator: A História é uma espécie de “romance real”. A Literatura, por sua vez, pode recriar o mesmo fato, sem que necessariamente se transforme em outro, num segundo ou num terceiro. Pode ser sempre o mesmo: vai depender dos “olhos de ler”.

Em O evangelho de Jesus Cristo, o protagonista duvida da própria divindade. As aparições de Deus estão sempre envoltas em fumaça e em obscuridades, o que não aparece nos textos da tradição bíblica. Bifurca-se o caminho da interpretação da realidade: por um lado, o percurso do poder instituído, na História sócio-política de Portugal, apresenta-se diante da própria essência da sombra – se se toma aqui o mito do sebastianismo, como “o encoberto”, aquele que vai voltar para restaurar a grandeza de um (quinto) império. Por outro lado, Jesus Cristo fica sempre reclamando de seu pai a contraparte de um projeto que o envolve, mas que não o considera para negociações necessárias à conclusão do mesmo. Penso aqui nas ideias que Eduardo Lourenço lança sobre a História de Portugal, enfocando literariamente os processos de libertação política, de construção de uma autonomia franca e ampla. Se a História é o horizonte em que melhor se percebe o que é ou não é a realidade, a autópsia psico-religiosa da identidade cultural portuguesa, realizada pelo romance de Saramago, ela revela o irrealismo prodigioso da imagem que os portugueses, com a ajuda da Igreja, fazem de si mesmos. Essa História é marcada por um caráter mítico de um destino grandioso que faz com que o sujeito português se confunda, sentindo-se perdido, na desesperança de reencontrar um fim, um sentido que começou a ser construído sem ele.

A mistura fascinante de quixotice e humildade, de imprevidência e confiança, de inconsciência e presságio, que constitui o fundo do caráter português, está ligada a um fundo trans-histórico que se faz em si mesmo, que se supera e se segue, antecedendo-se a si mesmo. O embate constante contra os mouros recupera historiográfica e culturalmente o que O evangelho segundo Jesus Cristo suscita: a discussão da viabilidade ou não de um projeto mítico. O mito de uma raça escolhida se perde num “labirinto de saudade”, onde o fio de Ariadne se rompe para dar lugar a uma teia muito bem urdida pela Literatura Portuguesa.

O parricídio se oculta na repetição do mistério cristão: a encarnação de Cristo. Estou pensando nos remorsos do carpinteiro José e nos sonhos de Jesus, que salpicam a narrativa de Saramago. Em ambos, a morte do pai aparece simbolicamente representada como a exigir a solução de um enigma. O sucesso da empreitada é de uma impossibilidade insofismável. Freud afirma que o homem – que o mesmo Freud qualifica de “moral” – é aquele capaz de reagir à tentação, tão logo a sente sem seu coração, sem submeter-se a ela. Trata-se, então, de um homem que peca e depois, sem remorso, exige padrões elevados morais, expondo-se à censura de tornar as coisas fáceis demais para si mesmo. É o sujeito que repete essas ações, sempre alternando entre o pecado e a culpa. Jesus Cristo, pelo menos o que está presente no texto de Saramago, pode ser lido como esse “homem moral”, na economia ficcional do texto. Seu pecado pode ter sido o sonho de realmente ser filho de Deus. A tentação era grande, tanto que ele tenta, desesperadamente, reagir, mas vai-se conformando com o destino que lhe é imposto. O nome de Deus, nome-do-pai, é evocado diversas vezes e o remorso aloja-se como desejo recalcado na figura ambígua e manca de José, o carpinteiro, o marido da mãe de Jesus. Marido sim, porque seu nome não fica inscrito na personalidade de Jesus. A figura do pai, então, tem que aparecer morta, para que o ciclo se feche e a alternância, como referido acima, se desfaça de uma vez por todas. Talvez a obediência seja o signo dessa conclusão: obediência que é ironizada nas últimas palavras do Jesus de Saramago, fazendo blague com as célebres “palavras” relatadas nos Evangelhos, como ao final do romance:

Jesus morre, morre, e já o vai deixando a vida, quando de súbito o céu por cima se abre de par em par e Deus aparece, vestido como estivera na barca, e a sua vez ressoa por toda a terra, dizendo, Tu és o meu Filho muito amado, em ti pus toda a minha complacência. Então Jesus compreendeu que viera trazido ao engano como se leva o cordeiro ao sacrifício, que a sua vida fora traçada para morrer assim desde o princípio dos princípios, e, subindo-lhe à lembrança o rio de sangue e de sofrimento que do seu lado irá nascer e alagar toda a terra, clamou para o céu aberto onde Deus sorria, Homens, perdoai-lhe, porque ele não sabe o que fez. Depois foi morrendo no meio de um sonho (…). (SARAMAGO, 1991, p. 444)

No universo ficcional do evangelho escrito por Saramago, o parricídio é mais que necessário, ele é, mesmo, essencial. Sem ele, a moralidade do homem Jesus esfacelar-se-ia. Jesus quer ser como os homens de sua época, mas esbarra no desejo interdito da perfeição divina. Divindade inexplicada e inexplicável que se inscreve no remorso de José. Ele sabia que Herodes ordenara a morte dos primogênitos com menos de um ano. Sabia e  não avisou a ninguém. Sabia e fugiu com a família. Não cedeu à tentação. Não é um homem moral. Do contrário, as coisas teriam sido fáceis demais. A salvação dos primogênitos teria confirmado a divindade de seu próprio filho? Ele não suportou a dúvida. Preferiu acreditar que sim para não aceitar a facilidade da outra opção. Excludentes, esses dois encaminhamentos possíveis não dariam conta de determinar a verdade dos fatos: aquela verdade que José procurou até morrer. Atormentado pelo remorso, ele matou a imagem divina da paternidade que gerara Cristo. Repulsa e desejo: elos de uma corrente que ensandece José. Ele não simboliza a sua refeição totêmica e emblematiza a denegação da imagem do homem moral de que Freud falava. Ademais, o anjo da anunciação confirma, por palavras tortas, a participação de José na geração de Jesus no ventre puro de Maria. No romance, essa pureza é questionável, como bem ilustra a seguinte passagem:

Maria veio abrir, o pedinte ali estava, de pé, mas inesperadamente grande, muito mais alto do que antes lhe tinha parecido, afinal é certo o que se diz, que há uma enorme diferença entre comer e não ter comido, porquanto a este homem era como se lhe resplandecesse a cara e faiscassem os olhos, ao mesmo que as roupas que vestia, velhas e esfarrapadas, se agitavam sacudidas por um vento que não se sabia donde vinha, e com esse contínuo movimento se nos confundia a vista, a ponto de, em um instante, parecerem os farrapos finas e sumptuosas telas, o que só estando presente se acredita. Estendeu Maria as mãos para receber a tigela de barro, a qual, em consequência duma ilusão de óptica em verdade assombrosa, porventura gerada pelas cambiantes luzes do céu, era como se a tivessem transformado em vaso de mais puro ouro, e, no mesmo instante em que a tigela passava dumas mãos para as outras, disse o mendigo com poderosíssima voz, que até nisto o pobre de Cristo tinha mudado, Que o Senhor te abençoe, mulher, e te dê todos os filhos que a teu marido aprouver, mas não permita o mesmo Senhor que os vejas como a mim me podes ver agora, que não tenho, ó vida mil vezes dolorosa, onde descansar a cabeça, Maria segurava a escudela no côncavo das duas mãos, taça sobre taça, como quem esperava que o mendigo lhe depositasse algo dentro, e ele sem explicação assim fez, que se baixou até ao chão e tomou um punhado de terra, e depois erguendo a mão deixou-a escorregar lentamente por entre os dedos, enquanto dizia em surda e ressoante voz, O barro ap barro, o pó ao pó, a terra à terra, nada começa que não tenha que acabar, tudo o que começa nasce do que acabou. Turbou-se Maria e perguntou, Isso que quer dizer, e o mendigo respondeu apenas, Mulher, tens um filho na barriga, e esse é o único destino dos homens, começar e acabar, acabar e começar, Como soubeste que estou grávida, Ainda a barriga não cresceu e já os filhos brilham nos olhos das mães, Se assim é, deveria meu marido ter visto nos meus olhos o filho que em mim gerou, Acaso não olha ele para ti quando o olhas tu, E tu quem és, para não teres precisado de ouvi-lo da minha boca, Sou um anjo, mas não o digas a ninguém. (SARAMAGO, 1991, p. 32-33)

Pode-se pensar aqui na efetiva relação histórica que a identidade cultural portuguesa mantém consigo própria: relação autotélica que reflete a congênita consciência de uma fraqueza insuperável. Instala-se, recalcadamente, a convicção mítica de uma proteção divina – que, por mais de uma vez, é explicada no “texto fundador” de Camões – revelada na fabula ficcional: uma nação pequena que desde a origem se recusou a assumir a sua própria pequenez e não conseguiu convencer-se de que se transformara numa grande nação. Historiograficamente, essa hipótese se sustenta no bom senso de não se perder na idealidade de um viver descontínuo, pouco resistente que se revela no sentimento de independência nacional. Essa “consciência” revela um destino anterior, previamente fixado. O viver nacional que sempre foi uma experiência de sobressalto e inquietação, paradoxalmente confiante no mito do destino grandioso, orienta-se para um futuro utópico pela mediação obsessiva do passado. Descontentes com o presente, os portugueses sonham simultaneamente com o passado e com o futuro: desejo insaciável que se revela alegoricamente na dúvida da paternidade de José.

A aparição do anjo, na figura de um pedinte que come a comida que Maria serve e que se confunde com o demônio, não dá explicações suficientes para apaziguar o espírito do marceneiro atormentado. Ciúme? O anjo diz que José participou da geração de Jesus. E daí? A magia da escrita de Saramago preenche de ironia as lacunas que os textos sagrados, em todas as suas traduções, insistem em manter. Numa tessitura que entrecruza discursos, o narrador vai revelando a urdidura de mitos e verdades, ficções que o texto do romance engendra para dar prosseguimento aos questionamentos que a própria História de Portugal não dá conta de responder, como demonstrado na análise que Eduardo Lourenço faz da cultura portuguesa em O labirinto da saudade, de 1978.

José Saramago abre espaço na narrativa para que criador e criatura dialoguem. A ironia é um instrumento de modernização do texto sagrado e, aqui, se instala outra dúvida: essa modernização parece dotar o texto sagrado de um espírito fragmentado, típico da cultura contemporânea. Ela consegue articular uma alegoria que explicita a questão da historicidade do sujeito que se fragmenta na escrita – própria ou alheia. A ficção de José Saramago é, mais uma vez, uma leitura crítica do passado, parecendo encaminhar-se para a formulação de um futuro fantasmático. Articular historiograficamente o passado não significa conhecê-lo “como realmente ele foi”. Significa apropriar-se de uma reminiscência como ela aparece num momento crítico, de tensão.

Como avaliar a experiência de recriar a personagem de um outro autor? É aí que aponta, mais uma vez, a sombra do parricídio: fonte do sentimento de culpa. Haveria outra interpretação plausível para os sonhos do jovem Jesus? O remorso de José é transfigurado nos sonhos do filho. O desejo de identificar-se completamente com o pai, para livrar-se da castração, não se satisfaz, Jesus é crucificado, apesar de protestar. Sendo impossível vencer o desejo do próprio pai, entrega-se à representação da morte por ele sonhada. Identifica-se. Mata, no próprio corpo, a imagem de um pai, impõe-se a sua lei. Isso remete novamente a Freud, quando analisa a situação de um “menino” que deseja estar no lugar de seu pai, pelo simples motivo de admirá-lo, pelo desejo comum de ser como ele; ao mesmo tempo, por desejar deixá-lo fora do campo, no que diz respeito à relação unária, inconscientemente “vivida” no útero materno. A isca edipiana fica também jogada nesse mar de palavras. Instala-se um diálogo inconsciente com fantasmas que remetem a uma realidade que, apesar de desejada, vai sendo, paradoxalmente, recalcada.

Se a cultura portuguesa pode servir de contraponto especular a este tipo de argumentação sobre o romance de Saramago, é uma pergunta plausível e instigante, passível de receber respostas, no mínimo, múltiplas. O que vale dizer é que a leitura deste romance traz ao pensamento a ideia de que a metáfora edipiana pode ser articulada ao desejo de recuperação de um corpo mítico e monumental, o de um império perdido na névoa do tempo. O corpo, de novo, alegorizado na imagem desejada do encoberto, “um adolescente loiro, de coroa na cabeça e beiços amuados, vindo de Alcácer Quibir”. Aproximação lírica que, num outro romance da Literatura Portuguesa, As naus, António Lobo Antunes descreve um percurso similar ao de Saramago, ainda que por sendas um tanto inesperadas, construindo em seu final uma alegoria oniricamente instigante:

Amparados uns aos outros para partilhares em conjunto do aparecimento do rei a cavalo, com cicatrizes de cutiladas nos ombros e no ventre, sentaram-se nos barcos de casco ao léu, no convés de varanda das traineiras, nos flutuadores de cortiça e nos caixotes esquecidos, de que se desprendiam, odores de suicida dado às dunas pela chibata das correntes. Esperamos, a tiritar no ventinho da manhã, o céu de vidro das primeiras horas de luz, o nevoeiro cor de sarja do equinócio, os frisos de espuma que haveriam de trazer-nos, de mistura com os restos de feira acabada das vagas e dos guinchos de borrego da água no sifão das rochas, um adolescente loiro, de coroa na cabeça e beiços amuados, vindo de Alcácer Quibir com pulseiras de cobre trabalhado dos ciganos de Carcavelos e colares baratos de Tanger ao pescoço, e tudo o que pudemos observar, enquanto apertávamos os termômetros nos sovacos e cuspíamos obedientemente o nosso sangue nos tubos do hospital, foi o oceano vazio até à linha do horizonte coberta a espaços de uma crosta de vinagreiras, famílias de veraneantes tardios acampados na praia, e os mestres de pesca, de calças enroladas, que olhavam sem entender o nosso bando de gaivotas em roupão, empoleiradas a tossir nos lemes e nas hélices, aguardando, ao som  de uma flauta que as vísceras do mar emudeciam, os relinchos de um cavalo impossível.(ANTUNES, 2000, p. 247)

A cena aqui descrita conclui o romance deste outro escritor português, numa espécie de fechamento de ciclo da leitura engendrada pelo romance de Saramago. O eco é patente, dado que a figura de Dom Sebastião, implícita no romance de Saramago aparece desenhada de maneira onírica, quase esquizofrênica, numa mistura multicultural de elementos trazidos pela expansão ultramarina. A ideia de um império fracassado pode ser aproximada à de uma missão cumprida, no sentido em que o narrador de Saramago anuncia o evangelho ironicamente invertido, segundo o “filho do homem”. Sim, a inversão, para não dizer a perversão da figura de Jesus Cristo admite, aqui, esse diapasão discursivo: o da ironia. Assim, metaforização da História, o evangelho anunciado revê um trecho da biografia de um dos sujeitos mais complexos da História de Humanidade, Jesus Cristo, que através da lente psicanalítica do parricídio, na voz narrativa do romance, explica o processo de constituição de uma subjetividade, simultaneamente, desejada e recalcada, dado que a humanidade de Cristo serve, ao mesmo tempo, de chave de leitura e de obstáculo intransponível para uma explicação do mistério. Essa mesma humanidade, traz à cena do romance a ideia de que a morte do pai é fato incontestável na economia do mito, retomada pela dicção terapêutica da Psicanálise, refletindo discursivamente na História. Esse percurso, realizado pela narrativa de José Saramago, reinventa a apresentação da cultura portuguesa, numa harmonia cadenciada de alegoria e fato, desta vez, privilegiando um dos motores da identidade cultural portuguesa, a sua carolice.

Referências bibliográficas

ANTUNES, António Lobo. As naus. 4 ed. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2000.

BOECHAT, Maria Cecília Bruzzi et alii (orgs.). Romance histórico: recorências e transformações. Belo Horizonte: FALE/UFMG, 2000.

LOURENÇO, Eduardo. O labirinto da saudade. Lisboa: Dom Quixote, 1978.

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Abril

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Acabo de receber de um amigo virtual português, ligação para um texto ilustrado interessantíssimo sobre o significado do nome do mês que se iniciou na sexta-feira passada: Abril. Por coincidência, depois de gozar férias “deslocadas”, recomeço minhas aulas no primeiro “semestre” letivo do ano de 2016 no dia 25 de Abril, dia emblemático para Portugal, com aulas de Literatura Portuguesa! Para além da coincidência, celebro hoje a conclusão dos 85 anos de vida de uma mulher extraordinária: Alice Páschoa Foureaux de Souza, minha mãe! Feliz aniversário mamãe!!!

Segue, a quem interessar possa, a ligação: http://thoth3126.com.br/abril-e-o-brasil/

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Cartapácios…

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São três volumes. São três volumes encorpados. São três volumes bem encorpados. Encorpados como aqueles volumes que as professoras e professoras indicavam para a temida leitura, seguida da mais temida ainda prova de leitura. A partir do quarto ano primário esse purgatório começava. Era mesmo um purgatório, mas fazia com que ao final do período de formação, a gente já tinha lido basicamente os clássicos da Literatura Brasileira e, com um pouco de sorte, alguma coisa de Vieira, Camões e Eça. Sim, já houve este tempo. A gente entrava para o jardim de infância e ficava por um ano. Depois fazia quatro anos de curso primário. Daí havia a “admissão” que podia ser feita através de provas ao fim de um mês, seis meses ou um ano de curso. Minha ,mãe optou pelo curso anual, que fiz no Colégio Salesiano – àquela altura só admitia meninos – onde também fiz os dois primeiros anos do curso ginasial. os dois últimos foram feitos no grupo escola Odilon Behrens (neste eu fiz os dois primeiros anos do curso primário, os dois últimos cursei no Grupo escolar Maurício Murgel). Daí a gente entrava para o segundo grau: científico, técnico ou clássico. Fiz dois anos do científico na Escola estadual Milton Campos – o famoso Colégio estadual, dirigido com mão de ferro pelo saudoso Elias Murad. os dois primeiros. Fui reprovado no segundo ano e ingressei na Escola Técnica, hoje Instituto federal de Educação Técnica (ou será tecnológica?). Completei o Curso de Edificações e ingressei na Universidade aos 23 anos de idade. Isto parece ser uma coisa inimaginável para a “galera”… Mas já tínhamos lido muito mais que toda essa geração…

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Vou deixar a conversa mole de lado e vou voltar ao que me interessa hoje: os três volumes encorpados. São três volumes encorpados, reunidos numa caixa de papelão. Foram publicados pela Editora Vozes. São mesmo grandes os volumes. Em média, 600 páginas cada um. Não é livro de um autor só. É uma tradução de obra publicada em Francês originalmente. A primeira edição é de 2006. A obra tem três “diretores”: Alain Corbin, Jean-Jacques Courtine e Georges Vigarello. História do corpo é o título. Trata-se de trabalho coletivo de historiadores que vasculham acervos e alfarrábios e bibliotecas e… e… e… com o intuito de esboçar uma História do corpo desde a antiguidade até a atualidade. Interessantíssimo. Não são tratados sobre o corpo, mas estudos – leves, concisos, claros e fluidos – sobre os diversos matizes desse conceito encarnado que parece ser ainda tão desconhecido apesar dos avanços da “ciência”. Passando pela sacralização do corpo eucarístico e suas variantes, desde a Idade Média, chegando aos esterótipos de beleza, celebridade e sexualização do mesmo corpo. Um painel rico, variado, multifacetado, organizado com mãos de maestro pelos três diretores. Uma leitura mais que agradável.

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Aviso: não é leitura para quem acredita que escrever número reduzidíssimo de palavras no micro espaço do Tweeter seja exercício de criatividade, talento e modernidade…