(des)Autoria

Encontrei estes dois pequenos textos em um arquivo perdido no meu laptop. Não sei mais se fui eu quem os escreveu ou se copiei de alguém e me esqueci de registrar a autoria. Pelo sim, pelo não, vão aqui publicados pelas aspas. Se alguém, por acaso, descobrir a autoria, é favor me informar. Depois vão sair por aí dizendo que sou um plagiário. Tudo que não precisa acontecer comigo é algo parecido…

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“Cada um sabe de si. Mas há quem não saiba nada. Há quem pense apenas que o ser humano é um balão cheio de sentimentos e ideias vagando num universo habitado por alfinetes. A imagem não é perfeita, porque há balões e balões, assim como há alfinetes e alfinetes. Mas a ideia pode render alguma coisa. Mesmo num ambiente hostil, as ideias podem prosperar e não há que faça isso ser mentira, antes de um julgamento criterioso. Nesse mesmo ambiente alimentado pela hostilidade foram suas as palavras sobre aquele escritor português. Contra tudo e contra todos, àquela altura, as ideias foram como que esbofeteadas. O Mário de Sá-Carneiro. Não era possível condenar sem antes saber do todo.”

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“A palma das mãos vai ficando engelhada. Nos pés, mais exatamente nos calcanhares, uma bolinha incômoda, vulgarmente conhecida como esporão – será este mesmo o nome? – estava lá. Lembrava que um dia, tempos atrás, um remédio fiz com que desaparecesse. Mas cadê memória? Cadê lembrança? O nome escapava, acompanhada pelo tempo. Ainda assim, a esperança de poder entender o que se passara era mais forte. Mais forte que a própria vontade de seguir em frente. Seguia, mas por inércia, cedendo ao impulso da energia que faz a existência atravessar os atalhos e pistas deixados por Cronos. De nada adianta ter este tipo de certeza. O mais certo é que não havia escapatória. Os livros lidos, as lições estudas, os exemplos observados, nada disso conta. Mais vale saber que, um dia, mesmo inesperadamente, o sentido se apresenta. Pode ser de frente, na lata. Pode ser de repente, inesperado como um susto. As pessoas que acreditam na inteligência, no progresso e no entendimento, são as que tiveram uma infância infeliz. As outras, andam atônitas, quase zumbis, seguindo modas, acreditando em falácias, céleres para o abismo caminhando. Assim, não sei como é que leitores conseguem entender aquilo que se escreve. Depois de algum tempo, mesmo quem escreveu não sabe o sentido do que fez. Quando muito, pensa, em silêncio admirado “Fui eu mesmo?”. Ou por outra, desdenha: “Jamais escreveria tal bobagem”. Da mesma forma, fica difícil explicar porque a única coisa que torna possível a identidade é a ausência de mudança, mas ninguém acredita de fato que haja similaridade, quase semelhança entre o fato e o que se pensa do fato. Porque a contradição sei impõe, sempre, sem escapatória: quando sozinho, o desejo é estar acompanhado, e quando acompanhado, o contrário. Acreditar piamente, sem duvidar, de tal arbitrariedade de sentido é negar a própria capacidade de raciocínio. Isso pode ser a humanidade. É preciso muito tempo para formar-se gênio ou transformar-se num. Há que prevalecer o ócio criativo ficar sentado sem fazer nada, realmente sem fazer nada. Como Dorival, que criava poesia. Porque, ao fim e ao cabo, todo mundo tem medo da morte e se pergunta sobre seu lugar no universo. Por isso o poeta tem função: se não sucumbir ao desespero, vai encontrar antídotos para o vazio da existência, o veneno de pensar.”

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Saco cheio

1986 foi um ano emblemático. Foi o ano em que completei três décadas de existência. Foi o ano em que entrei para o Mestrado em Teoria da Literatura na Universidade de Brasília. Fui aprovado em primeiro lugar e, por isso mesmo, fui alçado ao lugar de representante discente junto ao Colegiado do Curso. Conheci por dentro, o funcionamento da pós-graduação e suas relações institucionais. Nesse contexto é que, numa tarde, durante uma aula, começamos um papo que varou a tarde e quase a noite, não fosse a secretária da graduação bater à porta. A disciplina era desenvolvida por dona Algaêda Facó Ventura. Uma mulher interessantíssima, de vasta cultura, de senso de humor inigualável.  Disciplina se chamava Estética literária – creio que muito pouca gente vai saber do que se trata. Líamos os poemas, contos, romances (ou trechos deles), críticas, resenhas, dissertações/teses, artigos antes das aulas. As discussões se davam a partir destas leituras, por óbvio. Infelizmente, hoje não é assim. Já faz um tempo que não é assim. Mas não é isto o que me interessa. Na verdade, o que me interessa tem a ver com aquela tarde perdida no tempo. Dona Aglaêda comentava sore sua alegria em ter comprado os dois volumes da edição da Pléiade (francesa) de À la recherche du temps perdu, do Marcel Proust. O comentário dela deve soar deslocado, sem sentido, inócuo. E não é nada disso, absolutamente nada. Seguindo ao comentário, dona Aglaêda vai falando isso e aquilo e pergunta: e se o que está acontecendo aqui, agora, não é real; é apenas uma memória de outra dimensão na qual vivemos esta situação e que volta agora. O papo correu solto sobre as possibilidades de esta afirmação ter veracidade e poder ser levada a sério. Falamos muito. Muito mesmo. Foi uma das aulas mais instigantes e proveitosas pois, apesar da aparente desarticulação entre o tema proposto – a biblioteca, a partir da leitura de um texto de Jorge Luiz Bordes: “A biblioteca de Babel” – e a conversa que levou horas de puro deleite intelectual e aprendizado inegável, a professora fazia suas ilações a partir da leitura do texto do escritor argentino. Como nós tínhamos, de fato, lido o texto com antecedência – prática que, àquela altura era absoluta e cristalinamente natural, automática, o que, de novo, parece não mais ocorrer no espaço dito acadêmico – a aula cumpriu sua missão, a professora atingiu seus objetivos e nós ganhamos algo que “teoria” nenhuma pode explicar, que dinheiro nenhum pode comprar. Esta recordação, me leva a pensar numa de minhas constatações, um tanto absurdas, confesso, mas minhas. Houve um tempo em que as pessoas trocavam seu conhecimento, sua prática, sua experiência e sua expertise pelos similares alheios, dada sua ignorância em alguns setores das relações sociais. Explico-me. Houve um tempo em que o plantador de batatas levava suas batatas ao mercado e as trocava por óleo para as lamparinas de sua casa e/ou por peças de vestuário que ele, obviamente não sabia produzir. E vice-versa.  Aquele/a que sabia costurar levava suas peças para trocar por pedaços de carne ou pão, dado que não caçava e não sabia fazer pão. Os exemplos possíveis apontam para o infinito, mas a constatação é uma só, na medida das condições contemporâneas a esta “cultura” havia equilíbrio e satisfação. Não sou ingênuo ao ponto de não admitir falcatruas, diferenças, invejas e todos os ales que qualquer relação social pressupõe, pelo menos, a partida dos parâmetros já “fixados” como senso suficientemente capazes de explicar as mudanças posteriores. Foro íntimo, coloco em dúvida a afirmação – cega e inquestionável, às vezes – de que o mundo evoluiu, que a sociedade evoluiu depois disso. Será? O que leva à constatação de tal ideia é apenas e somente o resultado da especulação que se desenvolve a partir de registros de “fatos” e referências devidamente abalizadas acerca do passado da humanidade. Tudo isso é, em síntese, resultado de elaboração humana, intelectual. Assim não fosse, ninguém poderia colocar em questão o resultado de pesquisas historiográficas, em qualquer de suas vertentes. E todo mundo abe que a História, per se, não é, não pode ser, a expressão de uma verdade absoluta, mas a leitura feita a partir de dados que atravessam o tempo e, nesse ciclo, vão ganhando foro e consistência de “verdade”. Ainda assim, a elaboração humana é imprescindível, irrecorrível, inquestionável. Logo, minha ideia não peca por falta de sentido. Isso me faz pensar na absoluta relatividade de TUDO. Ainda que possa ser usado o argumento da incoerência e de certa contradição em termos… Isso posto, fica a minha dúvida: quem pode me obrigar a defender isso ou aquilo, a subscrever esta ou aquela ideia, sob pena de ser rechaçado se meu posicionamento é a favor ou contra isto ou aquilo, dependendo do ângulo a partir do qual se observa a questão. Eu dou a mim mesmo o direito de exercer outro inalienável direito: o de não ter que tomar posição, o de acreditar na absoluta falência de qualquer processo de seleção afirmativa, a absoluta certeza de que a natureza humana, sobretudo em seus instintos mais baixo e mais sórdidos em perímetros geopoliticoculturais, não tem conserto. E ainda assim…

Três leituras II

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O segundo livro da série é de um escritor gaúcho. Creio que já escrevi sobre ele no meu blogue por duas vezes. Já não me lembro. O que me lembro bem é de um imbroglio que envolveu a ele, a mim e a uma senhora portuguesa da Fundação Calouste Gulbenkian. Incidente um tanto desagradável. Lembro-me dele, mas declino da possibilidade de a ele voltar. Muito incômodo. No entanto, este mesmo incômodo fez ficar mais apertado o laço de respeito e admiração que já nutria pelo autor do livro a ser comentado hoje. Gosto dele desde que descobri que é de sua autoria um cartapácio, de deliciosa leitura, intitulado História da Literatura Brasileira. O livro se desenvolve a partir das leituras das obras que o autor fez e que, a partir dela, constrói o fio historiográfico que desenvolve em ais de 600 páginas.  A linguagem fluida e poética do autor fazem da leitura uma delícia. Estou a falar do poeta Carlos Nejar. O imbroglio que me referi acima refere-se a um livro de poesias intitulado Odysseus, o velho. Belíssimo projeto estético sofisticado e luminoso que retoma o mito e faz dele uma leitura mais que sui generis, amalgamada na verve poética do autor gaúcho. O que me traz aqui hoje é, entretanto, um outro livro: carta aos loucos. Difícil dizer do que se trata – no que concerne à famigerada mania de encontrar rótulos e generalizações taxonômicas que facilitam as estatísticas, mas em quase nada contribuem para a LEITURA dos livros. A ficha catalográfica da obra diz que se trata de um romance. Há controvérsias, para dizer o mínimo. A linguagem, marca identitária da obra de Carlos Nejar, revela-se plena e soberba neste livro. O título induz o leitor a uma espécie de experiência cuja frustração em nada é pejorativa ou condenatória. Os parágrafos, muitas vezes constituídos de mais espessa e profunda poesia, acabam por chamar a atenção de quem lê para as nuances, as inter-relações implícitas e explícitas, as referências, as citações, a ironia. Assombro é, às vezes mulher, amante da voz da narrativa que assina Israel Rolando. Por outras vezes é nome da cidade em que se passa o relato. O texto faz lembrar as gestas medievais, pelo uso da didascália e pela erudição nas referências e citações. O cariz poético da frase sobressai, fazendo com que o relato mais se parece (com leveza) aos relatos historiográficos dos cronicões. O Trovadorismo, o romanceiro cavalheiresco, as narrativas medievais fazem par a sofísticos diálogos intertextuais como que há de melhor na poesia clássica, para não falar antiga, o que poderia induzir algum leitor meu a erro de interpretação. Nada há de antigo nesta carta. Da galeria de escritores canônicos, filósofos de matriz, personagens de outras gestas e demais “personagens” que perambulam pela crônica de Israel Rolando cria-se o dramatis personae de que se serve Carlos Nejar para escrever aos loucos. Estes destinatários de uma carta poeticamente inesperada e instigante somos nós e não há necessidade de nos prenderem amarrados a camisas de força em instituições mais que preparadas para evitar fugas indesejadas. O movimento poético do texto é que liberta a loucura que há em cada sintagma, em cada parágrafo, em cada nova reviravolta do relato de Israel Rolando, o que mantém o foco da narrativa com sua voz. Carta aos loucos (2008) é mais velho que Odysseus, o velho (2010). Ainda assim a soberba carpintaria poética de ambos é inigualável. O primeiro pela surpresa e pelo inusitado do exercício narrativo; o segundo, pela beleza da revisitação oferecida em versos. Acrescento para finaliza que a leitura deste livro é mais que prazerosa. Muito, mas muito mesmo!

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Ossos (ócios?) do ofício

Na falta do que dizer, muita gente fala bobagem, repete asneira, cria estupidez. Isso é muito triste. Outra coisa que é muito triste é a incontrolável vontade – para muita gente, é mesmo incontrolável – de saber de tudo, sobre tudo e para tudo. Você comenta sobre os benefícios de uma planta e há quem diga que já tomou chá dela e que não foi eficaz. Ou comenta sobre um problema de saúde e a solução encontrada por qualquer um, e ela diz que passou pelo mesmo, mas teve outra solução. Fala de um prato gostoso e desconhecido experimentado assim, meio sem querer. E lá vem ela dizer que já comeu e que “achou” muito amargo e que deu dor de barriga ou que não viu graça… Uma chatice. Antes que comecem a telefonar para mim ameaçando-me, antes que me cerquem na rua para me dar uma sova, antes que abram um processo por calúnia e difamação, devo dizer que o “ela” que usei acima, refere-se a “gente”. Não há de sexismo, nada de tendencioso e/ou misógino… Fico cansado d éter que fazer tal observação, mas o adagiário está mais que certo: antes prevenir que remediar. De mais a mais, anda tão chato falar qualquer coisa… Parece que “pensar” é crime e que mais vale a cópia, o estereótipo, o raso, o convencional, o que todo mundo “acha”… Uma chatice… Ai que preguiça… A mesma preguiça que senti ontem ao tentar ver, um pedacinho que fosse do que convencionaram chamar de “debate” entre os presidenciáveis… Essa gente perdeu a noção completa de um monte de coisas básicas, como sinceridade, compromisso, inteligência, bom senso… Não vi. Não vou ver. Como li hoje em vários lugares: o mais do mesmo. Num momento como esse gostaria de já ter 70 anos para não mais ser obrigado a votar… Nem pagar a multa por não comparecer não vale a pena. Segundo li por aí, o dinheiro arrecadado com o pagamento destas multas é revertido para o tal de “fundo partidário”. Um desses fundos sem fundo… que só servem para alimentar a ganância humana que, ao que parece, tornou-se conditio sine qua non para ser “político”. Taí uma palavrinha que não diz quase nada de tão usada, vilipendiada, desgastada, usurpada em seu sentido, rota, violentada. Se a palavra assim está, os indivíduos que acreditam poder usá-la impunemente estão com os dias contados, Só não vou ser capaz de ver quantos dias serão, mas tenho certeza de que contados estão. E mais não digo!

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Unidunitê…

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Ah se eu pudesse e se o meu dinheiro desse. O que eu faria? Já não sei. Se colocasse estas frases empilhadas, teria feito um poema? Também não sei. Mas o que é mesmo que a gente sabe? Outra pergunta sem respostas. E são tantas. Vão sendo acumuladas – sim, com a locução verbal, caso contrário, usando a forma pronominalizada, tem-se a impressão de que as perguntas se acumulam a si mesmas, que elas têm esta potência, que elas agem por si. E não é bem o caso… Vão sendo acumuladas como as incisões na camada de cera do “bloco mágico”. Desenho sobre desenho. Na superfície, eles desaparecem, mas as marcas ficam e vão se recobrindo: palimpsesto imaginário que não se revela, mas se desvela ao sabor a autorização do inconsciente… (Quem leu Freud sabe do que estou a falar…) E assim… dizem… contam a vida… Parece que, quase literalmente, são expressões de um texto dito por Elis Regina nas performances de seu último show, Trem azul. Não o vi. Aliás, não vi todos os shows dela. Conheci-a em 1972, voltando de Maceió, depois de disputar os Jogos Estudantis Brasileiros. Naquele ano, o governo do Médici (se não me falha a memória a cadeira de presidente era ocupada por ele, mais um general na lista da sucessão entre 1964 e 1988), levou todos os estudantes para os jogos de avião. Todos. E nós nos julgávamos privilegiados. Mal sabíamos o que estava se passando nos “porões da ditadura” (Ai que essa expressão me incomoda… não gosto dela!). Pois bem. Voltando de Maceió, numa escala no Rio de Janeiro (o aeroporto ainda se chamava Galeão e não havia a linha vermelha, se não me engano…) ouvi Casa no campo, na voz da Elis. Corri numa loja e discos e comprei o LP, com a sobra do dinheiro que meu pai havia me dado para gastar com as… bem deixa pra lá, isso é assunto para outra hora. Foi quando conheci a cantora. Daí comecei a comprar cada disco que ela lançava. Não vi Falso brilhante, mas vi Transversal do Tempo. No meio disso, dois outros shows, um no Mackenzie (o clube mineiro, não a universidade paulistana) e outro no Teatro Marília. Depois houve Elis, essa mulher: apoteótico. Mas não vi Trem azul. O último que vi foi Saudade do Brasil: uma ópera popular emocionante. A apresentação na Globo também valeu a pena ver, assim como o programa da Record, se não me engano. Tantos anos escutando música de qualidade inquestionável, interpretada por uma voz inigualável. No Brasil, ainda não apareceu outra para superá-la. Tantas músicas, tantos shows, tantas emoções (ai… ato falho… nada a ver com Roberto Carlos… peloamordedeus!). Assim, as perguntas, com resposta ou sem… Perguntas, dúvidas, ideias, sonhos, desejos… tanta coisa. E o tempo passa, deixa suas marcas e passa, incólume, ao que parece…

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Projetos, sonhos e chatices outras

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Trinta e seis linhas. Por que trinta e seis e não cinquenta? Ou outra quantidade qualquer de páginas. Toda decisão tem um motivo e uma consequência, no mínimo. Toda determinação obedece a certo impulso, talvez criativo, talvez copiativo. Pode ser, no entanto, que não haja sequer um impulso, que a coisa seja, assim, gratuita. Trinta e seis página. Trinta e seis é múltiplo de seis. Seis é o número da besta, se repetido três vezes… 666. Xô capeta! Trinta e seis é múltiplo de seis. Seis é o número de versos de uma aldravia. Seis versos univocabulares. Uma forma novíssima de poesia. Forma novíssima inventada numa cidade nada nova. Forma inventada em Mariana, cidade tricentenária. Inventada por uma mulher que faz parte de um grupo de quatro poetas. Carinhosamente, alcunhei o grupo de “meus quatro cavaleiros do apocalipse”. Assim mesmo, com minúsculas, sem desrespeito algum. A aldravia é a forma poética que deseja legar ao futuro da Literatura Brasileira uma contribuição. O legado, se assim o for, vai valer bem mais que o das histórias desse rapaz de quem leio o primeiro livro. Tão celebrado. Tão incensado. Estou quase a acabar o “romance”. Quando isso acontecer, volto a falar dele. E duvido que esta volta vai trazer alguma novidade ou alguma mudança na impressão que em mim vai se consubstanciando a respeito dessa obra…. Retomando o trinta e seis. Este número me veio, assim, sem razão aparente, intrigar-me a criar um romance com trinta e seis personagens. Trinta e seis personagens que se organizam no enredo em seis grupos de seis. Os seis grupos também tentariam estabelecer elos entre si. Cada capítulo teria exatamente trinta e seis linhas. O número de personagens é trinta e seis. O número de pares de personagens é dezoito, considerando uma única possibilidade de se formar pares. Logo, é o número mínimo de pares. Esta possibilidade pode ser mais elevada se se fizer o cálculo de análise combinatória, como num estacionamento. Imaginando que haja um e estacionamento com seis lugares. Quantas são as possibilidades de se alocar cada carro em cada uma das vagas. Perguntei ao doutor google – minhas aulas de matemática se perdem nas “calendas gregas”! – e ele me respondeu com este exemplo dizendo que “o primeiro carro tem 6 opções para estacionar, o segundo 5, o terceiro 4, o quarto 3, o quinto 2 e o sexto apenas 1. Logo as possibilidades são em número de 6! = 6. 5. 4. 3. 2. 1 = 720.” Imagina! Setecentas e vinte combinações diferentes! Será que eu dou conta? Será que sou capaz? Será que tenho talento? Sinceramente, sei que não posso, in advance, responder a estas três perguntas. Só sei, de certeza, que, sinceramente, não me importo. Na verdade, posso tentar. Quero tentar. Quando isso vai se dar, só Deus sabe. Só sei, de novo, sinceramente, que tentarei fazer o melhor que puder e já sei que há de ser melhorzinho que o romance do escritor “revelação” de quem estou a ler o primeiro romance. Não vou me repetir. Volto a falar dele… outra hora. Por hoje é só!

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PS: queiram me desculpar aqueles que acreditam que um blogue é obrigatoriamente uma peça literária de acabamento refinado, aqueles que acreditam que um blogue deve ter “conteúdo”,  que deve apenas divulgar trabalhos “sérios”, que tem que instituir modelos e formar opinião. Para mim, um blogue funciona como espaço em que escrevo o que eu quero, na que me dá na cabeça, falando sobre o que o acaso indicar. Punto i basta!

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Por fim…

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Os dois parágrafos que seguem foram retirados de um texto de Freud intitulado “Recordar, repetir, elaborar”. Eu ainda insisto na tentativa de fazer meus alunos lerem este texto – sobretudo nas disciplinas Literatura Comparada e Seminário de narrativa – ao longo destes quase trinta anos de magistério superior. Em que pese o questionamento que se possa vir a fazer do epíteto “superior”… Vou deixar passar a oportunidade! Voltando… O texto é de Freud e faz menção a alguns processos terapêuticos por ele articulados na formação do que vem a ser a Psicanálise. Não vou fazer uma exegese dos parágrafos, mas vou, dele, retirar uma ideia. Antes disso, é preciso ler os parágrafos mencionados:

“Por exemplo, o paciente não diz que recorda que costumava ser desafiador e crítico em relação à autoridade dos pais; em vez disso, comporta-se dessa maneira para com o médico. Não se recorda de como chegou a um impotente e desesperado impasse em suas pesquisas sexuais infantis; mas produz uma massa de sonhos e associações confusas, queixa-se de que não consegue ter sucesso em nada e assevera estar fadado a nunca levar a cabo o que empreende. Não se recorda de ter-se envergonhado intensamente de certas atividades sexuais e de ter tido medo de elas serem descobertas; mas demonstra achar-se envergonhado do tratamento que agora empreendeu e tenta escondê-lo de todos. E assim por diante.

Antes de mais nada, o paciente começará seu tratamento por uma repetição deste tipo. Quando anunciamos a regra fundamental da psicanálise a um paciente com uma vida cheia de acontecimentos e uma longa história de doença, e então lhe pedimos para dizer-nos o que lhe vem à mente, esperamos que ele despeje um dilúvio de informações; mas, com freqüência, a primeira coisa que acontece é ele nada ter a dizer. Fica silencioso e declara que nada lhe ocorre. Isto, naturalmente, é simplesmente a repetição de uma atitude homossexual que se evidencia como uma resistência contra recordar alguma coisa [ver em [1]]. Enquanto o paciente se acha em tratamento, não pode fugir a esta compulsão à repetição; e, no final, compreendemos que esta é a sua maneira de recordar.” (Estes parágrafos foram copiados da edição digitalizada da edição standard das obras de Sigmund Freud, disponíveis para quem quiser ler. Basta pegar na mão do Dr. Google e deixar que ele leve até o texto).

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Pois bem. Destes dois blocos retiro a ideia que me interessa: repetição. Atitude comum, corriqueira, banal, nas mais diversas situações da existência humana. Para Freud, esta atitude pode ser reveladora de outras que, articuladas numa narrativa autoral do paciente, instigam o analista a pontuar constantes, reconhecer recorrências e administrar vínculos que chegam a ilações que podem dirimir o sofrimento – ainda que inconsciente, sofrimento – do paciente. Isto posto, não é muito exagero dizer que a repetição é instrumento terapêutico indispensável para que a vida psíquica de alguém, possa vir a contar com boa dose de apoio, na busca de diminuir a intensidade do sofrimento que acomete este mesmo sujeito – e repito: ainda que inconsciente, sofrimento.

Agora vem o busílis: o que é que isso tem a ver com as linhas que escrevi ontem? Aparente e incialmente, nada. Mas convenhamos, ontem falei de imperativo e hoje de repetição. No texto evangélico a mesma cena se repete e hoje afirmo que a repetição é terapêutica. Fato é que, em conversa com um amigo judeu, amigo mito querido, pessoa ilustre de inteligência brilhante, perspicácia refinada e humor sutil e igualmente refinado, este amigo propôs uma espécie de axioma. Há de se prestar atenção no fato de que Jesus perdoa a presumida adúltera e faz andar o coxo. Ele repete a ação para a salvação da alma de ambos. Faz isso com um imperativo taxativo: Vá e não peques mais! Isso quer dizer (ou pode querer dizer) que, para Cristo, não interessa a argumentação que tente justificar o passado, a explicação das circunstâncias em que o pecado se deu, qualquer justificativa ou protesto de mudança do perdoado. Jesus simplesmente usa o imperativo. E isso quer significar (ou pode querer significar) que o que interessa é começar daquele ponto. Seguir adiante sem se voltar para o passado. Exatamente o oposto do que é proposto pelo raciocínio de cariz terapêutico do vienense. Há uma contradição? Não creio. Existe uma oposição clara e excludente? Não acredito. Admito que as perspectivas podem até caminhar de maneira oposta, como na Física: dois vetores de mesma direção e sentido oposto. Digo isso porque, ao fim e ao cabo, ambas as atitudes, ambos usos do discurso acabam por atingir o mesmo objetivo, mesmo que aparentemente isso não seja explicitado. No caso de Cristo, o perdão. No de Freud, a “cura”. Ora, penso que essa situação (seria um sofisma?) leva a pensar na relatividade da ciência e da religião, simultaneamente, na mesma medida. Para Cristo não interessa vascular o passado em busca de indícios de solução (=gratificação, satisfação, saúde, fim do sofrimento). Para Freud é tudo o que interessa (=idem). Isso faz pensar. Pode ser que faça pensar pouco, mas faz pensar…

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Estão explicadas as aspas de ontem. Bem, pelo menos, em tentativa…

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