Ooops!

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“Um homem.

Um homem. Sozinho.

Um homem. Sozinho na casa.

Um homem. Sozinho na casa. No meio do nada.

Um, Sozinho na casa no meio do nada, Escrevendo.

A sequência poderia continuar. Indefinidamente. A pontuação teria, obrigatoriamente, que ir sendo modificada. Ela pode dar consistência ao pensamento que se espraia nos intervalos e espaços vazios entre as letras, no meio de seu corpo, em seus vãos. Os vãos. Os vazios O homem que escreve a preencher vazios. Pelo menos, é o que ele deseja, o que ele tenta fazer. O que ele tenta fazer desesperadamente. Tenta fazer desesperadamente cada vez que entra no escritório.

O escritório.

A mesa no centro do escritório.

A janela defronte a mesa que está no cetro do escritório.

A estante de livros do lado oposto ao da janela que ilumina a mesa no centro do escritório.

Na mesma medida, a descrição, entre idas e vindas na organização ordenada (ou não) dos elementos que compõem a cena, vai sendo construída como a compor um pano de fundo dramático para a cena que vai se desenrolar neste cenário. as que cena seria esta? Quais e quantos são seus personagens? Eles falariam uns com os outros? Haveria troca de informações? Essas informações serviriam para criar um enredo a envolver as personagens que aparecem no meio dessa cena inicial?”

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“Uma conhecida que há muito não se vê diz que é preciso escrever de tal maneira que quem for ler não se canse. As imagens podem ser um substituto interessante para captar a atenção do leitor. Ninguém mais tem saco de ficar lendo indefinidamente.

O político atravessa o corredor cercado de policiais e fotógrafos, como a procurar por uma novidade. O político é o mesmo. A situação é a mesma – sua prisão. O assunto, o mesmo, corrupção.

As pernas do nadador a caminho da beirada do trampolim para fazer seu salto. Os músculos retesados de pernas e braços e abdômen. As vias saltadas. O erótico mergulho no espelho azul em movimento.

O calendário marca a data final. A mensagem diz a data final. Que saco…”

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Ontem não escrevi a postagem. Ontem quebrei um ritmo que havia estabelecido inconscientemente para o retorno de minhas postagens. Fui visitar uma amiga muito querida. Uma amiga que já foi minha professora. Uma tarde mais que gostoso para finalizar o dia mais bobo da semana: o domingo!

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Diário Coimbrão 6

Ainda não vi engarrafamento de trânsito em Coimbra. Claro está que a certa hora do dia – mais ou menos entre as quatro e meia e as seis da tarde, o tráfego fica mais carregado. No bairro em que moro e por conta de uma escola infantil que manda pra casa as crianças depois das quatro da tarde. Elas chegam de manhã cedo. Ao contrário da universidade, onde, ao que parece, as aulas não começam antes das nove, até onde eu sei…

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Hoje, na volta pra casa, assando pelo mesmo lugar, na mesma hora – uma avenida que passa pela porta do hotel em que me hospedei quando aqui fiquei por oito dias em 2000, senti um cheiro conhecido. Era o cheiro de uma árvore que, segundo minha memória, era usada para formar uma cerca verde em torno de uma piscina. Em dois lugares de minha infância/adolescência havia esta árvore, logo, eu sentia esse cheio: no DI, no Prado, hoje conhecido como Clube dos Sargentos e no América, a casa de uns estrangeiros para onde com a família Andreazzi toda, em alguns finais de semana. A lembrança foi tão forte que cheguei a parar de andar para não deixa escapar a sensação de volta no tempo… Para completar o quadro, o céu se limpou um pouco. Livrou-se dos enevoados nimbos cinzentos que teimavam em cobrir o brilho do sol que insistiu, mas não venceu a força das nuvens. O dia estava um tantinho mais quente e continuei andando até em casa, pensando no que escrevi na universidade, enquanto relia algumas páginas de Os mais, exercício que tem feito eu voltar mais rápido para o gabinete depois do almoço…

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“Foi assim, de repente, sem querer, que pensei em Eduardo, como ele achava charmoso o sino tocando no instituto. Aqui, o badalar dos sinos a cada quarto de hora. Nas horas cheias outros toques, cada um marcando as horas. Todos ecoando os séculos. No seu rastro, do eco, as almas atormentadas pela neblina noturna do Outono coimbrão murmuram. A umidade e o vento. A escadaria monumental. A porta férrea e, do outro lado, os dois globos de concreto, ponteando as grossas colunas, bem debaixo das barbas de D. Dinis. Ah… a melancolia desta cidade que fica mais acesa quando o céu se descobre em azul. O azul sempre lavado. As colinas que envolvem o vale em que se deita e rola o Mondego. Ou, por outra, o rasgado vale que o rio banha, levando sempre e constantemente o badalar dos sinos, a neblina, a melancolia.”

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Relatório de viagem 3

 

Quinze dias. Onze e meia da manhã, aqui. Seriam quinze e trinta lá, na terra de Camões, poeta que supostamente está enterrado nos Jerônimos, nome de um convento monumental, construído às margens do Tejo. Hoje, este distancia um tanto dele por conta dos aterros sucessivos. Jamais soube que a Torre de Belém foi construída, originalmente, em pleno leito do rio, para guardar a foz que se espraia pelo Atlântico, uma visão que deveras impressionou os portugueses ao longo dos séculos, colocando-os como referência do que se conhecia como “mundo” até o século XVI, quando fomos “descobertos”, mas essa história fica para outra hora…

Os Jerônimos     Entrada dos Jerônimos

Nos Jerônimos

Quando é que eu ia sonhar que exciste na terra uma cidade chamada Vila Franca de Xira? A pergunta respondeu-se pela memória de quinze anos passados, quando estive em Portugal pela primeira vez: deslumbramento! Foi quando conheci Coimbra (um dia apenas, desta vez, pois voltaria dois anos depois para ficar oito dias inteiros nesta joia à beira do Mondego!). Entre Lisboa e Coimbra, passa-se por Vila Franca de Xira, um lugarzinho mais que charmoso, mais que bucólico, mais que romântico, revestido pela diáfana melancolia: espinha dorsal de certa portugalidade, de que gosto imenso. Lá passamos pela praça do campino – a versão lusa do cowboy – e entre vielas estreitas e ruas calmas chegamos ao Clube Taurino Vilanfranquense onde comemos “Carne de toiro bravo à panela de campino”. Carne de toiro bravo? Quem diria!!! E de um sabor até delicado, harmonizado com os legumes, o pão, as azeitonas, deslizando pelas papilas já excitadas pelo sabor dos peixinhos grelhados na entrada, e aveludadamente misturados aos efúvios etílicos de uma safra especial, igualmente servida em jarras de vidro, vidro mesmo, nada da frescura de cântaros de cristal parae decantação. A rusticidade eleva a alma, como o Paulo, presidente que, à mesa, deu mais uma lição de cultura, civilidade, simplicidade e alegria: aprendeu quem quis. Até fiz um brinde…

Brinde em Vila Franca de Xira

 

Com Paulo Silva na Tertília de Vila Franca de Xirea

Depois do lauto almoço, a visita ao Museu do Neo-realismo onde, de fato, me reencontrei com esta estética que, na Literatura, por dever de ofício, tenho que visitar, apesar de não me agradar muito. Mas confesso: a visita ao museu produziu algumas mudanças…

Nu museu do neo-realismo em Vila Franca de Xira

A conclusão do dia ficou a cargo do pessoal da Tertúlia Cirófila, uma espécie de clube de amantes da tauromaquia – o caminho até a estante para consultar o dicionário não é assim tão longa. Miguel, em nome de todos, nos recebeu. Não é o mesmo Miguel, Infante de Portugal, mas um homem comum, bonito, elegante, educado, divertido e… casado com uma mulher divertidíssima. Chave de ouro com mais uma etapa da cultura mais que rica que sobeja em território lusitano e que as miríades de “turistas” não fazem ideia do que estão perdendo…

Com a ceifeira em Vila Franca de Xira     Mais uma com Miguel (2)

O toureiro

Relatório de viagem 2

Passagem comprada, reserva de hotel confirmada, passaporte separado. O essencial está pronto para a partida. Agora é enfrentar o trânsito, encontrar vaga no estacionamento e aguentar as caras e bocas daqueles que “se acham” porque estão na fila para embarque num voo internacional. Parece coisa de cinema de quinta… Uma mixórdia de tipos que se olham e observam os demais, fazendo comentários e dando informações as mais inúteis sobre tudo o que não interessa. Para além disso, a vergonha em que se transformou a “sala de embarque internacional” do aeroporto de Confins. Sofrível… Mais um atestado de incompetência e falta de senso do Brasil que tanto se preza por conta da conquista do direito de sediar eventos da magnitude dos que estão vindo por aí… A julgar pela “sala”, o fiasco é como morte anunciada…

A viagem. Bem, a viagem. O que dizer da viagem num tudo de ar comprimido com misturas gasosas as mais diversas, durante quase nove horas, num apertamento que não se justifica por nada desse mundo. Depois da epopeia noturna sobre o Atlântico, chegamos, sãos e salvos. Bem, não posso garantir que cem por cento sãos, mas…  Salvos! Já na recepção do aeroporto, o casal sobre quem vou dedicar capítulo à parte nesta “saga”, Vitor e Ana Cristina, nos recepcionando com a “carrinha” – é como os “alfacinhas” (=lisboetas, na variante europeia) chamam as vans e/ou os microônibus. O pá! Dali ao hotel, para deixar malas, e rumo a Sintra.

 

Almoço em Sintra

 

Almoço mais que bem vindo. Cozinha tradicional, num restaurante “pequenino”, com muito charme e calor humano. Os portugueses são mestres na arte de bem receber. Eu disse arte, não estereótipo. Nada como a boa e velha casa portuguesa que abre suas portas para o deleite dos olhos e narizes, para não dizer bocas e, às vezes, ouvidos. Ramas de alho espalhados pelos beirais interiores, ladeados por garrafas de vinho e vidros de conservas. As espetadas de carne e o arroz ao dente, sobrevindos com arroz doce (que lá leva muito ovo, mas bota ovo nisso!) e o vinho, servido em jarras de barro: a cara da terra lusitana! Barriga cheia, pé na estrada. Sintra. Um charme, uma delicadeza. Com direito à companhia (no papel de guia turístico – para um turismo que a maioria dos turistas execraria, mas que eu simplesmente *A*D*O*R*O*!) de S.A.R. Dom Miguel, Infante de Portugal, Duque de Viseu – legítimo descendente (em linha direta) da Casa de Brangança… (Ele é o que está à minha direita na foto). Não é para qualquer um!

 

Com Vitor e Dom Miguel, o infante

 

 

Ana Cristina, esposa do Vítor, ele mesmo e Dom Miguel deram verdadeiras aulas durante a visita ao Palácio da Vila de de Sintra. Uma cidadezinha, repetindo, encantadora.

 

Com Andreia em Sintra     A fonte     Almoço em Sintra     Castelo de Sintra     Da janela vendo o castelo

 

Janela do Atlântico     Jardim interno do Palácio de Sintra     ouvindo um pouco de História em Sintra     Primeiro almoço     Sintra - a praça

 

O primeiro dia continuou intenso, com uma sessão “acadêmica” num restaurante de Lisboa – Clara Chiado – estabelecimento gourmet que nos recebeu de braços abertos, com uma generosidade inenarrável, em companhia de gente mais que simpática. De Sintra até o Chiado, o trajeto foi coroado com os saborosos comentários de Vitor e Ana Cristina, anfitriões impecáveis!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Atentos à peofwssora     Colina do castelo da Pena

Relatório de viagem 1

Da janela vendo o castelo

Da primeira vez, comprei lá mesmo um caderno preto para anotar impressões dicas, descobertas e lembretes. Nada muito formal, nem preocupado com o que fazer depois… O volume, que ainda conta com algumas páginas em branco, continua numa prateleira, recolhendo poeira. De vez em quando, passo os olhos sobre aquelas páginas em que encontro a sequência das mais de cem fotos que tirei, durante as férias. Tudo aparentemente muito organizado. Uma viagem pode mesmo, de verdade, ser organizada? O elemento surpresa, quero crer, adiciona muito ao périplo que se deseja realizar. Isso dá saber à viagem. Muito mais isso que a contabilidade de compras e de lugares da moda que frequentei… Argh!

De outra feita, fui colocando aqui as impressões diárias. Já não era o mesmo tipo de viagem, não eram as férias. Um congresso pode também revelar aspectos inusitados da natureza humana, para além da impressão que fica pelo primeiro contato com uma terra desconhecida, uma gente  igualmente desconhecida, ainda que plantada no mesmo chão. Foi assim, da segunda vez. Ficaram as fotos, agora digitais, e as anotações que o blogue “eterniza”. Mais eterno que a lembrança gravada no subconsciente e as sensações vividas, o blogue não pode ser, não está em seu alcance…

Agora um retorno a Portugal. Nem férias, nem congresso, um périplo “acadêmico”. Volto a Portugal, quinze anos depois da primeira viagem. E a crise econômica na “zona do euro” se fez sentir, de forma implacável! Em vez de fazer um diário, resolvi fazer este relatório, depois: com visão retrospectiva a seleção de impressões pode até perder em intensidade, mas ganha em acuidade.

A fonte

Semelhanças

Numa das muitas sequências narrativas de Os maias, o narrador de Eça de Queirós aproxima Maria Eduarda e Calos da Maia. A sutileza ferina do autor envolve as duas personagens em eflúvios românticos para, num golpe fatal, “cortar o barato” do casal com a revelação de que são irmãos. Isto não se dá logo no começo desta “célula” dramática. Aos poucos, insidiosamente, a pena do autor evoca a voz narrativa para, bem ao sabor romântico/naturalista, enunciar a terrível revelação. Na adaptação televisiva, coube a Marília Pera o papel de Maria Monforte, a que volta para fazer desandar o enlace do casal de protagonistas. Tudo muito elegante, trágico, solene. O tempo que envolve as escolas concorrentes na construção do romance não deixa de explicitar suas marcas mais recorrentes, de maneira única, inconfundível: o estilo de Eça. Verdadeira delícia, gozo lento e saboroso que cai, como vaso de procelana da mão de faxineira estabanada ou criança traquinas. Paf… Miríades de cacos se espalham e o “que era vidro se quebou”! A deceoção é grande, mas não supera o prazer da revelação e do ritmo da própria narrativa. Romance é isso.

Em outro momento, do lado de cá do Atlântico, algumas décadas depois de Eça, há passagem semelhante em outro romance. Apenas isso, semelhante. A menina “danadinha” envolve o primo numa cena de sedução em plena festa de noivado deste. A noiva é sua prima também. O mal está feito e tudo parece caminhar para um dramalhão sem final melancólico quando, do nada, Dr. Arnaldo, o pai da moça devassa, revela, abruptamente, que o suposto primo é, na verdade, irmão desta. Já adivinharam? Pois é… Nelson Rodrigues. O romance é o primeiro volume (de dois) de Engraçadinha. Diminutivo, no mínimo, ambíguo na pena do ferino Nelson. A sua marca é a esta “diferença”. Não há elegância, como em Eça, mas não há vulgaridade. É tudo rasgado. O leitor se divide entre o susto quase envergonhado e a gargalhada sacana… Escritor danado esse Nelson Rodrigues. Romance digno de ser comparado com Eça, sim senhor, sem a menor pretensão de estabelecer níveis hierárquicos de “valor”, como os mais sisudos da academia gostam de fazer. Falo por prazer de falr, pelo prazer de ler e comentar. se isso não é um passo de crítica, digam-me, por caridade, o que é…

O que os dois têm em comum? Eu diria que, entre tantas outras qualidades, o talento de criar uma cena, de imprimir ritmo e clima adequados para o que desejam dizer, cada um a seu modo. Uma coisaa os une, arriscaria afirmar… O naturalismo de sua “dicção” narrativa. Ambos são naturalistas, cada um a seu modo. Os dois dissecam o ser humano e a sociedade de maneira impiedosa. Um de maneira elegante, outro de maneira descarada (será que existe antonímia entre esses dois adjetivos? preguiça de consultar o “pai dos burros”!). Um cria o clima e, ao final, revela o que mais interessa, quebrando esse mesmo clima, sem destoar no tom da melodia narrativa. O outro não tem papas na língua e reproduz o mais corriqueiro e coloquial “deixa que eu falo”. Ambos são implacáveis. Ambos são impagáveis. Admiro os dois!

Impressões para romance

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Sou pretensioso. Quero escrever um romance. Quem sabe um dia. Enquanto isso, como agora, registro passagens. Escrevo trechos. Penso migalhas para, quem sabe um dia, vir a transformar tudo isso em “matéria narrativa”, ainda que, ao fim e ao cabo, a gente jamais seja capaz de dizer e-xa-ta-men-te o vem a ser isso, mesmo com todas as leituras, teorias e elucubrações dos mais renomados e eminentes medalhões. Nesse enlevo de devaneio em tarde modorrenta, encontrei, num banco de praça, um caderno. Fiquei um tempo na dúvida: pego ou não pego? Ninguém me conhecia naquela cidade (fica ao norte de Minas e não é lá muito grande). Ia ficar por ali apenas dois dias e o primeiro já se tinha ido. Mais dúvida e insegurança. Fiz hora, olhei para os lados. Demorei mais um pouco e, finalmente, venci a vergonha, o embaraço, o medo de ser pilhado. Peguei o dito cujo. Não havia muita coisa escrita. Na verdade, estava quase em branco, a não ser pelas últimas páginas – fato estranhíssimo – que mostravam alguns parágrafos que transcrevo abaixo. Resolvi copiar, entre sôfrego e amedrontado. Já não era tão cedo, a luz escasseava e eu tinha esquecido meus “olhos de ler” no hotel. Copiei. Deixei o caderno no banco da praça e corri para o hotel. Guardei a cópia que abaixo segue. Depois voltei à praça, como quem não quer nada, e fiquei no passeio, à frente de um bar – numa dessas mesinhas esdrúxulas de plástico. Observava o cair da noite. Entre um chope e outro, tentei vislumbrar o banco em que fiquei sentado, copiando. Não consegui divisar o caderno – talvez por fraqueza de foco visual, talvez pelo enevoamento leve e gostoso do álcool. Até hoje estou na dúvida: o dono o reencontrou? Alguém foi mas corajoso que eu e o levou para casa? As “margaridas” o recolheram ao serviço de limpeza urbana? Uma alma caridosa – geralmente senhora ou senhor de certa idade – o entregou para um policial que, porventura por ali passava? O que terá acontecido, meu Deus, com aquele caderno? De quem seria? Por que fora deixado ou esquecido ali? Perguntas e mais perguntas e nenhuma resposta.Penso que é um incidente interessante para constar de um romance. Eu e minha pretensão ficamos satisfeitos! Segue a cópia!

“Faz algum tempo, numa escola em que trabalhei, os alunos do segundo ano reclamavam comigo sobre a obrigatoriedade de uso de uniforme na escola. Diziam que era feio, que a camiseta tinha uma cor horrorosa e que o logotipo do colégio era medonho. A única “vantagem” que viam era poder usar o tal “uniforme” (na verdade, apenas a camiseta) com jeans. As freiras não exigiam o mesmo calçado. Comecei a rir. Quando me deram chance, pedi a eles que se olhassem uns aos outros, atentamente. Depois de alguns segundos perguntei: o que vocês usam para carregar o material de vocês? Resposta uníssona: mochila. Que tipo de calçado vocês preferem usar? De novo, a uma só voz: tênis. Por fim, arrisquei: que tipo de calça estão usando? Uníssono, para gáudio da “galera” (ops… um anacronismo…): jeans. Deixei que ficassem me olhando, em silêncio – entre interrogativos e superiormente gozadores, como soe acontecer com boa parte dos “aborrescentes” do planeta – e disse: e são vocês a reclamarem de uniforme???

Agora, lembrando disso, fico pensando nos “rapazes” e “moças” – entendam estas aspas como quiserem – que estudam onde dou aulas. A cada dia que passa, firma-se mais a minha convicção de que estamos parados no tempo, em certo sentido. Um ex-colega costumava dizer que havia uma cabeça de burro enterrada embaixo do prédio magnífico. Prédio mais que centenário, que guarda em suas paredes histórias que linguagem alguma é capaz de contar. Os documentos existenciais ali arquivados ficarão eternamente no oblivium,por impossibilidade de expressão. Os que ali viveram, os que por ali passaram e os que estão ali agora já fazem parte desta memória que vai ser, um dia, como é hoje, praticamente ancestral. Pois… É nesse lugar que corrijo a assertiva do colega. Penso que não uma cabeça de burro apenas, acredito – cada dia mais – que há cabeças de uma manada de burros. Magotes e magotes dos mamíferos que ali ficaram, soterrados, puxando para baixo as energias que mantêm viva a arquitetura barroca, tombada pelo patrimônio. Digo isso não sem alguma tristeza, pois seria mais que interessante, nesse lugar, plasticamente e visualmente deslumbrante – pela antiguidade – poder contar com todos os confortos científicos em seu interior. Mas não é bem assim. À parte isso, causa-me espanto, para não dizer ojeriza – ó… disse! – a estética do proletariado tardio, dos hippies sonolentos e dos revolucionários renitentes. Essa estética que mistura a falsa impressão de desobediência civil, a camuflada aventura da aprendizagem, o superficial verniz das benesses em falácia didático-pedagógica e o fulgor da vaidade acadêmica. Ao lado desse dramatis personae, voeja, qual mariposas em postes de iluminação pública em dias de forte calor e pouca chuva por vir, aqueles que andam de chinelos de dedo, carregam sacolas de pano e ou mochilas penduradas nos ombros, usam bermudas e camisetas surradas, cabelos despenteados – nisso não são pós-modernos: com a graça de Deus não enfiaram o dedo na tomada para eletrificar os cabelos e/ou empastaram a cabelama com goma arábica, fazendo imagem e semelhança de cacatuas falantes e muito, mas muito eruditas, interdisciplinares, neo-politizadas e muito descoladas, fashion mesmo!”

Hoje, relendo essas linhas, penso na sua autoria. De quem será? Como é que vive ele ou ela nos dias que correm, se é que vive. Se for professor de ensino médio, pode ter sido ameaçado por algum aluno mais exaltado, filho de pai importante na cidade, ameaçando a autoridade pedagógica caso fosse reprovado. Se de ensino superior, pode até ter sido assassinado por um estudante desequilibrado, como aconteceu na capital. Vai ver, participou e um movimento de apoio a alguma estudante mais ousada que resolveu ir às aulas já pronta para a “balada”. Ou então é alguém que não se nota, que entra e sai do prédio em que trabalha sem ao menos ser notado. Terá sido alguém que ainda tem família, ou já vivia só, sem mais parentes, quando escreveu aquelas linhas. Onde ela ou ela estará agora? O que estará fazendo? Dorme vestido(a)? Quantas perguntas meu Deus, quantas dúvidas, quanta curiosidade…

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