Intervalo sarcástico

Juceldio tem malária.

Vaneilda sofre de amebíase.

Hermengarda pena com sua artrite reumatoide.

Valfrêncio, há anos, luta contra o lúpus erimatoso sistêmico, junto com seu irmão gêmeo, Hermonildo, que sofre de lúpus discoide.

Zeniolga é portadora de sarcaidose.

Sinfrônio tem porfíria.

Eles vão sofrer de hipotensão, vasodilatação, supressão da função miocárdica, arritmias cardíacas, parada cardíaca, poderão passar por períodos de confusão, tendo convulsões e até entrar em coma. Vão pear com a cefaleia, a irritação do trato gastrointestinal, os distúrbios visuais e a urticária. Além disso, corem o risco de vir a ser vítimas de retinopatia e ototoxicidade irreversíveis. São sérios candidatos a sofrer de miopatia tóxica, cardiopatia e neuropatia periférica, visão borrada, diplopia, confusão, convulsões, erupções, quineloides na pele, embranquecimento dos cabelos, alargamento do complexo QRS e anormalidade da onda T. Dizem por aí que eles todos vão sofrer com hemólise e discrasias sanguíneas. Tudo isso porque são medicados, desde o diagnóstico de suas enfermidades, com Difosfato de Cloroquina

Lições de Português para os incautos em tempo de pandemia II

GANÂNCIA

Substantivo feminino: ação ou efeito de ganhar (diacronismo: antigo), utilidade ou lucro que resulta do trato do comércio (diacronismo: antigo), juro pago por mutuário (diacronismo: antigo); ânsia por ganhos exorbitantes, avidez, cobiça, cupidez; ânsia de ágio, agiotagem, usura; desejo exacerbado de ter ou de receber mais do que os outros.

Lições de Português para os incautos em tempo de pandemia I

VAIDADE

Substantivo feminino: qualidade do que é vão, vazio, firmado sobre aparência ilusória; valorização que se atribui à própria aparência, ou quaisquer outras qualidades físicas ou intelectuais, fundamentada no desejo de que tais qualidades sejam reconhecidas ou admiradas pelos outros; avaliação muito lisonjeira que alguém tem de si mesmo; fatuidade, imodéstia, presunção, vanidade; coisa insignificante, futilidade; vanidade. (Copiado do Houaiss, editado por mim)

Sofisma

Está lá, no parágrafo único, do artigo 1º, do título 1, da constituição federal, a constituição cidadã: “Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição.” O verbo emanar apresenta, no Houaiss, duas acepções como verbo transitivo indireto: vir de, ter origem em; espalhar-se em partículas; soltar-se, exalar-se. Aqui interessa a primeira. Nesta, destaco a ideia de origem. Isso pode levar à sustentação do argumento que dá lastro ao que se conhece como voto direto. Não apenas como processo simbólico, formal, protocolar, mas como evento central da tal democracia que se alimenta desse poder que… “emana” do povo. Daí, há que pensar numa palavrinha desgastada e tão famigeradamente utilizada à exaustão: povo. Voltemos ao dicionário. O verbete é grande. Substantivo masculino: conjunto de pessoas que falam a mesma língua, têm costumes e interesses semelhantes, história e tradições comuns; conjunto de pessoas que vivem em comunidade num determinado território; nação, sociedade; conjunto de indivíduos de uma mesma região, cidade, vila ou aldeia; conjunto de pessoas que não habitam o mesmo país, mas que estão ligadas por uma origem, sua religião ou qualquer outro laço; conjunto dos cidadãos de um país em relação aos governantes; conjunto de pessoas que pertencem à classe mais pobre, plebe (em sentido pejorativo); multidão de pessoas; pequena povoação, lugarejo, aldeia, vila; a gente de casa, a família; turma, gente. Numa primeira visada mais ampla, a sociedade é formada pelo povo, sem distinção. Acontece que há uma acepção que cria situações, no mínimo, esdrúxulas. É a que diz que povo é “conjunto dos cidadãos de um país em relação aos governantes”. Como diria uma personagem de Rubem Fonseca: é aí que mora o busílis. E que busílis. Em pindorama, acredito, esta acepção tornou-se um axioma que define o grupo daqueles que, por terem sido eleitos pelo povo, se sentem no direito e com a razão de se distanciar deste mesmo povo, colocando-se em posição superior, em relação a ele. Ora. Pau que dá em Francisco dá em chico, com toas as minúsculas, pois não quero identificar um indivíduo aqui. Não. Este axioma leva esses “distintos” representantes do povo a se colocarem acima e além de qualquer ilação, concreta ou metafísica com esta entidade incorpórea, mas absolutamente concreta, o povo. Por outro lado. Fica ainda mais esdrúxula a coisa. É quando, porções desse mesmo povo se colocam num outro lugar e começam a tergiversar cobre um sofisma que acaba com qualquer noção de lógica. Sofisma que faz os restos mortais de Aristóteles e Platão se reunirem em fúria, fazendo tremer as bases do pensamento ocidental. É o seguinte. Essas porções afirmam que há na totalidade do povo, aquela parcela que não acompanha o pensamento, a opção, a orientação, a decisão dos demais. A isso chamam de minoria. Essas mesmas porções afirmam ainda que a vontade dessa minoria tem que se apor à vontade do resto, a maioria, sob pena de transformar o que se conhece por democracia, numa ditadura da maioria sobre a minoria. Ora, na tal de democracia, respeitadas as diferenças e variedades, sempre vai haver, no mínimo, dois grupos: a maioria e a minoria. Repetindo, o sofisma pregar que a minoria tem que se impor sobre a maioria sob pena de se ver transformada a democracia numa ditadura da maioria. Mas a sobreposição da minoria sobre a maioria, ditando-lhe as normas de funcionamento, não é em si mesma uma ditadura da minoria sobre a maioria. Estranha conclusão que, ao que parece, não se sustenta nas bases que escolheu para se erigir. Castelo da cartas ou de areia. Balela. Potoca. Invenção de moda que leva aos absurdos mais inesperados de tão absurdos. Alguma relação com a realidade hodierna de/em pindorama?

Fluxo de consciência

Vai e olha de soslaio. Faça isso antes que alguém venha dizer que não pode. Não se obrigue a ficar dando explicações. Deixe lado aqueles que, a tudo que você diz, escrevem que concordam ou discordam, mesmo que você não tenha pedido a opinião alheia. A chatice anda tão grande que não se pode mais olhar uma criança por muito tempo, ou esbarrar, sem querer, obviamente, numa senhora, ou chamar carinhosamente alguém de neguinho/a. Se, por acaso, você escrever que não gosta de fulano por isso e mais aquilo, vão dizer que você é fascista por aquilo e aquilo-outro. Se você não usa o mesmo jargão, fodeu. De fato. De verde e amarelo. Gasta-se tempo e esforço pra falar mal de gente sem a menor expressão, sem a menor importância, só porque aparece na televisão, fala o que mandam – está enganado quem acredita que as opiniões são “pessoais” e/ou “sinceras” na telinha – e depois ficam posando de isentas e indiferentes. Come-se, bebe-se, grita-se, come-se de novo, bebe-se ainda mais, grita-se mais alto e este ciclo pode se repetir incontáveis vezes, numa noite que se quer especial, mas que, de fato, nada tem de especial. Uma noite como outra qualquer. Ah, o lixo? Os garis passam por aí amanhã de manhã. A pessoa engorda, e logo uma multidão de repórteres que saber o que se passa. Se a pessoa emagrece, os mesmos repórteres vão dizer que é anorexia. Todos os repórteres, em/de pindorama, com honrosíssimas exceções falam “récorde” em lugar de “recórde” (os acentos servem, aqui, para marcar a tonicidade da prolação do vocábulo. Se não sabe o que eu disse, procure um dicionário e tente ler os verbetes correspondentes!). A memória histórico-política em pindorama tem a duração de quatro anos, no máximo oito. Entra eleição, sai eleição, é sempre mais do mesmo: o que saiu imediatamente antes da entrada do novo carrega todos os pecados mundo. Não presta. Será que procede de fato dizer que se “hay gobierno, soy contra”??? Ai, que preguiça. Na gramática, se o verbo é de ligação, a concordância se faz com o predicativo. Às vezes, foca tão feio. Mas a gramática diz que é assim, salvo nas ocorrências das famosas “licenças poéticas”… Alguém ainda estuda isso? Você não toma a iniciativa, não se dispõe, não se oferece e depois vem dar palpite, dizer que está tudo errado, que tem que ser de outra forma, que se fosse diferente daria certo. E então, como é que fica?! Ai que chatice…

Três fronteiras

Então, de repente, do nada, o professor, ou a professora – ai essa chatice de ter que esquecer que a riqueza da Língua Portuguesa permite o uso de uma única forma para os dois gêneros vocabulares… chatice! Não vou dar asas à cobra aqui!– vira-se para os alunos e pergunta na lata, apontando para a mesa onde está um livro: o que está sobre a mesa? E todos respondem: um livro. Ele pergunta de novo: de quem é o livro? E a resposta: da professora. Então, ele muda o livro de lugar e continua com uma série de perguntas sobre o livro e sua posição. Um dos alunos pergunta para que aquilo tudo. E o professor, pachorrentamente, responde que aquilo tem a ver com a ideia de posição. Ou seja, não importa onde o livro esteja, como ele esteja sobre a mesa. O fato de ele estar sobre a mesa continua o mesmo. Em outras palavras a sua posição não interfere no fato de estar sobre a mesa. Então outro aluno pergunta, mas o que isso tem a ver com a “matéria”? O professor, mais pachorrentamente, responde que está fazendo um aquecimento para explicar a importância da ordem dos elementos na frase e algumas de suas consequências. Então, de promptu, ele escreve na lousa – ui, que antigo! Sim, sou desse tempo! – dois versos: “Ouviram, do Ipiranga, as margens plácidas / do povo heroico, o brado retumbante”. E lascou a pergunta: qual o sujeito desta oração? Mas isso é o hino nacional, disse alguém. E uma gritaria se alastrou. Sim, disse o professor (ainda pachorrentamente), mas é uma oração. Uma oração em forma de verso. Então. Qual o sujeito. Silêncio sepulcral. Um dos alunos mais ousados e debochados disse que não havia sujeito. O professor perguntou por quê. O aluno disse que não havia nada antes do verbo. A professora, com toda a sua pachorra, comentou: prestem atenção no verbo. O que tem ele, perguntaram. Ele está no plural, alguém respondeu. Pois é, disse o pachorrento professor. Isso é um dado importante aqui. Se o verbo está no plural, o sujeito tem que estar no plural, não é? Silêncio sepulcral. Daí a professora pergunta o que foi que “ouviram”. Uma das alunas mais aplicadas respondeu: “o brado retumbante”. E o professor atalhou: logo, essa expressão não pode ser o sujeito da oração. De quem é o brado, arriscou o professor. Ora, disse, outra das alunas aplicadas, “povo heroico”, pois margens não falam. O que é Ipiranga, pergunta a professora. Silêncio sepulcral. O mais engraçadinho murmura: “o posto de gasolina”. Risada geral. Balbúrdia. O professor, já não tão pachorrentamente assim, responde, não, é o nome de um riacho, o local onde Dom Pedro I declarou a Independência do Brasil. Então, insiste, qual é o sujeito. O nerd da turma responde: “As margens do Ipiranga”. Como você chegou a essa conclusão, pergunta a professora: ora. disse o aluno. Se o verbo está no plural, o sujeito também tem que estar no plural. Na oração que está na lousa a única coisa que está no plural é “as margens plácidas”. Logo, este é o sujeito da oração. Ele está deslocado. Alguma vaia, risinhos, quase balbúrdia. O professor assentiu e continuou seu discurso sobre as possibilidades de deslocamento do sujeito numa oração.

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“Saudade dela, aquela mulher imensa. Sempre sentada a fazer crochê. Sempre falando baixo e com um sorriso rasgado, quando não crispava a expressão por conta de alguma indiscrição, ou por condenar alguma palavra mais grosseira. Uma santidade encarnada. Saudade dele, quando, pela manhã, acordava coçando a barriga, solta na frente da blusa desabotoada do pijama. Mastigando a própria língua e lambendo as gengivas, livre das dentaduras ainda no copo d’água, na cabeceira da cama imensa. A calma encarnada. Tudo grande. Família grande de gente imensa, larga. Tanto que um dos filhos foi para o Japão lutar sumô…” (Não sei o porquê de escrever isso aqui. Encontrei anotado numa agenda velha, sem nenhuma referência.)

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Então é assim: um sujeito afirma que vem sendo preso desde 2002. Os delitos são variados assim como as penas por ele sofridas. Seu depoimento é calmo. Ao final, ele afirma que por ter uma filha de dez anos e por ter sido trabalhador antes da sequência de prisões, recebeu da “justiça” quase duzentos mil reais. Não há comentário. Não se sabe se foi indenização. Não se tem notícia se o valor é o somatório da “ajuda” que veio recebendo enquanto encarcerado. De qualquer das maneiras. Isso é inexplicável. E eu ainda tive que aguentar comentário safado, depois que partilhei o vídeo, dizendo que eu deveria procurar a fidedignidade das fontes para não espalhar notícia falsa, dado que, na opinião de quem comentou minha postagem, a situação é plenamente compreensível, viável e, até, justa! Eu posso?

Ressaca antes da festa

Muito tempo sem escrever. Pois é. E daí? Alguém está mesmo se importando com isso? Vai ver há alguém que se importa e eu não sei. Mas a preguiça, essa velha conhecida, e talvez má conselheira, diz sempre ao pé do meu ouvido que não. Não pode haver. Num lugar em que habitam 15.000 milionários que atravessaram meio planeta para ficar em Doha, no Qatar, para torrar os caraminguás acompanhando a corrida de 22 descerebrados atrás de uma bola… E querem que eu me preocupe se alguém lê o que eu escrevo? Não há crise em pindorama. Não há. Definitivamente não. Não há. Esses 15.000 milionários são a prova inconteste desta afirmação. Irrecorrível e insofismável verdade. Na mesma “vibe” há professor brasileiro viajando para Portugal como que, atravessa uma poça d’água em dia de chuva. E nos dias de sol, vai para a rua vociferar contra o corte de verbas da educação e achincalhar tudo e todos, indiscriminadamente, apenas porque fazem parte de um governo que não pauta pela ideologia do vermelho… Por falar nisso, recebi mensagem hoje com um texto interessantíssimo, só com agradecimentos a tudo e a todo que tiveram alguma participação no que aconteceu a pindorama nos últimos 25 anos. Não posso reproduzir o texto aqui: vão dizer que sou estúpido, nazista, conservador, pulha, pelego, etc…. Cansei. O texto vai ficar na margem, ali, quietinho, esperando um momento que parece não poder voltar jamais porque hoje é assim ou assado, branco ou preto, em cima ou embaixo, na frente ou atrás, perto ou longe, direita ou esquerda. Tudo assim, dois, duplo, excludente. Cadê o meio termo? Cadê a perspicácia pra perceber a ironia? Cadê o espaço para a divergência e o raciocínio? E então, deparo-me com o seguinte:

“O estarrecedor laudo do IML sobre as mortes em Paraisópolis (Leia mais: https://www.jornaldacidadeonline.com.br/noticias/17793/o-estarrecedor-laudo-do-iml-sobre-as-mortes-em-paraisopolis). Leia. É pequeno o texto, mas devastador seu conteúdo. Já, já sei, vão me chamar de hipócrita também. Caguei. Estou como cavalo de parada militar: cagando e andando, literalmente. Sou chato e estou cansado dessa chatice que não é a minha porque não é saudável: a chatice da patrulha, das certeza insofismáveis, da falácia da juventude poderosa, do politicamente correto e do “muderno”. Cansei…