Lusitanidades

Acabei de ler os dois últimos livros escritos por um simpático e jovem escritor português, o João Tordo, a quem tive o prazer de conhecer em Zagreb, entre 2008 e 2010, quando lá vivi. São eles: Ensina-me a voar sobre os telhados e A mulher que correu atrás do vento, respectivamente. Dele já tinha lido outros dois livros – As três vidas, Anatomia dos mártires e Biografia involuntária dos amantes. O primeiro que li, As três vidas, fez pensar e sentir e ler um tanto de Paul Auster, ainda que com um tratamento trágico-lírico muito peculiar. João Tordo tem esta particularidade: sei lirismo, muito próximo de uma tragédia retumbante, escapa do melodrama pelo cuidado com que o autor localiza suas personagens no drama que engendra. Diferentemente de Paul Auster e de outros tantos que caminham pelas mesmas sendas, João Tordo define sua própria estrada, marcada por esta marca personalíssima de/em sua ficção. Os dois últimos trabalhos que somam em torno de novecentas páginas, são a culminância de um estilo que se construiu pelo fio da maturação de uma linguagem muito própria que parece paralisar acontecimentos em prol do mergulho em espíritos atormentados pela busca de um entendimento impossível (?) que, no entanto, anda disponível pelos desvãos da trajetória mesma daqueles que o procuram. Escritor eminentemente urbano, difere de José Luis Peixoto, seu conterrâneo e coetâneo – perdão pela rima involuntária – no que diz respeito, digamos, à “paisagem” que vai sendo desenhada – não retratada! – pela ficção de/em ambos. O trecho que segue, retirado de um dos volumes que acabei de ler (não vou dizer de qual para instigar os possíveis leitores destas linhas a procurarem pelos livros e tentarem encontrar a passagem citada – já, de antemão, sabendo da quase impossibilidade disto, pois os livros são um tanto caros… mas vale a pena!). Então, segue o trecho escolhido:

“Não sabemos o que é um sonho porque não sabemos o que não é um sonho. Foram muitos aqueles que, no decurso da história da literatura, insistiram nesta ideia. Tomemos, a título de exemplo, os versos de Edgar Allan Poe: “All that we see or seem/Is but a dream within a dream”. Ou Shakespeare, dito por Próspero, ainda mais fracturante: “We are such stuff/As dreams are made on, and our little life/Is rounded with a sleep”.  Porventura, a ideia mais pertinente é que o sonho e a vigília não são compartimentos estanques; misturam-se, fundem-se habilmente e, ao mesmo tempo, com imensa discrição, de tal maneira que é possível sonhar e saber que estamos a sonhar, e estar acor­dado sabendo que sonhamos. Talvez esta última ideia seja menos comum. Mas só o é porque, na vigília, que dura mais tempo (e apresenta maior consistência narrativa), existe a neces­sidade de nos assegurarmos do real, ou a vida seria uma panóplia de surpresas: rostos trocados, objectos desaparecidos, carros voadores.

Mas haverá alguém que tenha acreditado, mesmo que por um breve segundo, que o sonho da noite anterior, ou de há meses ou anos, foi realidade? Que era tão consistente como o chão ou as montanhas ou a chuva? É inútil esboçar argumentos ou tentar explicar esta ideia, mesmo a nós próprios. Seria como convencer Dom Quixote da sua loucura – e portanto, remover-lhe o véu da ilusão, condenando-o a um aborrecido destino enquanto Alonso Quijano. Ou convencer um homem desperto de que, na verdade, está a sonhar: Vogler, o mudo-falante, demonstrando-lhe a inépcia das suas ilusões. Tudo isto faria sentido se soubéssemos a diferença.”

Isso faz com que eu goste mais do escritor. Como disse, conheci-o, tímido, em Zagreb, durante uma oficina. Gosto do que ele escreve. Estou com outros títulos de sua autoria à espera de leitura. Vou fazê-lo, de certeza! Antes, porém, retomei o Peixoto, aqui citado, relendo dele O cemitério de pianos, mas este é um assunto para outra hora…

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Três vidas

“A presença física não é prova de nada. O lugar onde vivemos é o lugar que habitamos em espírito. E, em espírito, nunca regressei. Estou espalhado pelas almas de todas as pessoas que conheci, de todas as coisas que, por lhes ter tocado, modifiquei. Irás aprender isso com o tempo. Um homem não é uma entidade, são muitas e, se não nos decidimos, a tempo certo, por uma delas, acabamos em retalhos.”

Parece até trecho de livro psicografado por algum medium, ao sopro do espírito desencarnado de alguém importante, ou simplesmente caridoso. Até parece… Mas só “parece”! Esse é o trecho que está à página 135 de As três vidas, romance João Tordo, o mais novo enfant gaité da cultura de letras em Portugal. Ele ganhou o prêmio literário José Saramago de 2009. Daqui a duas semanas vou conhecê-lo, aqui em Zagreb. Um rapaz jovem, que escreve, dizem, muito parecido com Paul Auster. Li Paul Auster, mas não me lembro direito de sua escrita. Pelo sim, pelo não, deixo a nota, ainda que essa “coisa” de “escreve parecido a”, acrescente, na verdade, pouquíssimo, ao prazer da leitura de quem quer que seja. Antes de mais nada… ler!

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As três vidas é um romance interessantíssimo, em que Portugal aparece apenas como referência espacial/contextual para duas ou três personagens que circundam e que se relacionam com o protagonista da narrativa. Isso chama a atenção. Sem malabarismos verbais, sem a invencionice de escrever tudo em minúsculas, sem o arroubo de não pontuar frases em parágrafos caudalosos e imensos, João Tordo “conta” uma história. Há quem torça o nariz para esse tipo de “atitude” literária. Os “pós-modernos” de plantão não vão gostar, de jeito nenhum – mesmo que se possa aproximar João Tordo de Paul Auster. Mas quem gosta de “Literatura” vai aplaudir. Não digo aplaudir de pé, mas aplaudir. O rapaz escreve bem, sim, de verdade, e constrói uma NARRATIVA de muito bom gosto, do tipo que faz a gente pensar, do tipo que propõe novos ângulos de abordar a realidade, com procedimentos de escrita que em nada e por nada ficam a dever alguma coisa. Texto que flui, história que envolve, seduz, emociona. Há algum mal nisso? Ando com saudades de “Literatura” e ainda há tanto para ler…! A saudade, porém, não me impediu de sentir prazer ao ler as páginas desse romance mais que bom! A passagem que citei deixou-me emocionado, depois de um pouco atordoado. Senti-me inteiro nela. Vi-me como diante de um espelho. Creio que qualquer pessoa que sai de seu local de origem e passa a viver em outros lugares, mesmo que por tempo limitado – ou exatamente por isso! – vai constatar o que constatou a personagem principal de As três vidas: um rapaz que, por precisar de trabalho/dinheiro para cuidar da mãe doente, depois do falecimeto do pai, se envolve com uma família estranhíssima. Filosofia, política, espionagem e existencialismo, eu diria, podem ser algumas das referências culturais que amoldam o relato ficcional, de grau superior, do/no livro. Quem puder ler… vai gostar!

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