Pedro Eiras e seus mestres

Ensaio. Uma palavra simples. Pode “funcionar” como substantivo ou como verbo, dependendo da situação discursiva. No dicionário, suas acepções atestam a flexibilidade semântica que envolve o vocábulo: avaliação crítica sobre as propriedades, a qualidade ou a maneira de usar algo, teste, experimento. Na área da engenharia mecânica: maneira de testar as propriedades mecânicas de material, equipamento etc., usando como parâmetro normas técnicas e requisitos preestabelecidos. Pode significar também ação ou efeito de testar (algo) ou de agir, sem que se tenha certeza do resultado final, tentativa, experiência. Já no âmbito das artes dramáticas – bailado, música, teatro – é a montagem experimental de um espetáculo a portas fechadas, que vale como sessão preparatória à estreia para o público. Já na fisioquímica: operação científica que visa analisar e descrever as propriedades físico-químicas de um corpo. Enfim, no campo da literatura: prosa livre que versa sobre tema específico, sem esgotá-lo, reunindo dissertações menores, menos definitivas que as de um tratado formal, feito em profundidade. Isto posto, escolho a primeira e a última para sustentar as elucubrações que passo a fazer. Como “avaliação crítica sobre as propriedades, a qualidade ou a maneira de usar algo” o ensaio pressupõe um a priori: o material sobre o qual esta avaliação crítica vai se debruçar. Neste sentido, “as propriedades, a qualidade” deste mesmo material podem ser apresentadas, esquadrinhadas e devidamente avaliadas, como quer o sentido do termo escolhido como vetor destas linhas. Assim, o material se abre aos olhares curiosos de quem ensaia sobre eles falar, na mesma medida, da mesma maneira, que se oferece dadivoso aos demais olhares que, depois da “avaliação” ensaiada”, sobre o mesmo material se debruçam. No que diz respeito à “maneira de usar algo”, há que se ressaltar o caráter dinâmico de tudo e de cada coisa que se apresenta como constituinte do ensaio. Dado que o material existe e é considerado, o que desse ou sobre ele se diz, se ensaia, pode apontar para possibilidades várias – as já utilizadas por quem ensaia (olha a natureza verbal do termo!), teste, experimento. A última acepção está circunscrita ao campo da Literatura, especificamente. Como “prosa livre que versa sobre tema específico”, nesta acepção, ressalto ao adjetivo “livre” que muito bem faz para o texto que agora tento resenhar. Na mesma medida, outro adjetivo, “específico”, remete ao tópico de eleição do autor, o fazer literário, em muitas de suas variações e num largo espectro da semântica vocabular que carrega. Por fim, ao reunir “dissertações menores, menos definitivas que as de um tratado formal, feito em profundidade”, o livro de Pedro Eiras é um constructo sólido de referência obrigatória a partir de sua publicação. A obrigatoriedade se dá uma vez que o conjunto de fragmentos reunidos pelo autor acaba por construir, subliminarmente, um discurso muito bem urdido que, simultaneamente, apresenta e critica o fazer literário, muito acentuadamente em seu diapasão crítico. Sore o livro, num blogue português (https://sol.sapo.pt/artigo/591881/pedro-eiras-da-citacao-como-arte-da-decoracao-de-interiores), lê-se: “Todos já escutámos, desse trapo que esbofeteia o ar amarrado a um poste na vizinhança das instituições onde os estudos literários são o campo onde pastam as gerações de académicos, alguma das lendas forjadas à volta da obra que Walter Benjamin deixou inacabada – Passagen-Werk, ou  a Obra das Passagens –, a quimérica operação de montagem a partir de uma vastíssima recolha de fragmentos, recortes e citações, um prodigioso mosaico que deveria erguer uma enérgica malha de sentidos, numa constelação atrás da qual o genial exegeta poderia prescindir de qualquer comentário.


A ideia não era, contudo, tão radical, e a par das citações, que, segundo Rolf Tiedermann, serviriam para construir as paredes deste monumental edifício de saber, Benjamin teria fornecido uma grande quantidade de reflexões teóricas e interpretações, as quais, funcionando como a argamasse, deveriam assegurar a solidez desse edifício. Se a obra nunca se concluiu e se o próprio editor desta “se perguntou algumas vezes se seria razoável publicar esta esmagadora massa de citações”, talvez, permanecendo como um sonho, esta obra tenha projectado um horizonte bem mais aliciante para os seus seguidores. E é fácil perceber este fascínio considerando que, “em termos simplesmente quantitativos, este volume constitui um sexto da produção intelectual de Benjamin, e os seus fragmentos de pesquisas e comentários debruçam-se sobre aquele conjunto de temas que guiaram todo o seu pensamento e escrita de maturidade”, como sublinha Susan Buck-Morss.” O texto, no blogue, continua. No entanto, bastam esses dois parágrafos – iniciais na/da postagem de onde são retirados – para se ter uma ideia do alcance do livro de Pedro Eiras. Há que dizer, sobre o título da postagem, que cabe correção. A associação da matéria do livro de Pedro Eiras com “decoração de interiores” pode parecer descabida. Entretanto, tomando-se como referência o “interior” do fazer crítico, sobretudo aquele que supostamente sustenta a crítica universitária, a expressão é revestida de sentido renovado e, em tudo e por tudo, coerente com a proposta do livro. Salvo equívoco meu. É do interior mesmo de sua crítica, como leitor contumaz e mais que preparado, que Pedro Eiras fala. Sua imensa coleção de fragmentos é prova inconteste da atenção com que o autor se dedica aos estudo comparatistas. Prova disso, igualmente inconteste, é sua produção ficcional, poética e dramática, para não repetir a porção ensaística que completa sua bibliografia ativa. Devo dizer que, num primeiro momento, a leitura do livro de Pedro Eiras causou-me espécie, quase estranhamento, muito próximo de uma situação de negação. Aos poucos, com o correr das citações, vai-se percebendo, sutil e delicadamente um visgo de intenção e método. Uma vez mais, salvo engano meu. O livro de Pedro Eiras poderia ser reduzido a uma simples coletânea, antologia, de citação de autores e ideias alheias que, em nada contribuiriam para os estudos comparatistas de Literatura. Ledo engano. No aparente desdém a que a própria disposição do texto pode induzir, percebe-se uma rasura poética, pelo mesmo motivo: a escolha da ordenação, não temática, mas gráfica, do texto que se desenrola nas 504 páginas do volume que seduz, ilumina e instiga.

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Primórdios VII

A Literatura Comparada e o estudo de temas

Introdução

Estudar literatura não pode ser considerada uma prática simplificada ou automatizada. As nuances sempre estarão marcan­do presença e determinando abordagens e interpretações,

A orientação prevista pelo comparativismo eleva à enésima potência essa cadeia de complexidades interpretativo-analíticas. Toma-se muito mais fundamental a atenção aos detalhes, as nuances particularizantes, que vão redefinindo espaços de teori­zação.

O estudo de temas, na orientação da Literatura Comparada tem uma história quase tão antiga quanto a da disciplina à qual se integra. Não podemos dizer, com absoluta certeza, que o conceito fundamental de “tema” oriente constantemente os traba­lhos desta divisão. O próprio conceito, tal qual a disciplina, carece de um fechamento conteudístico. A grande variedade de circunstâncias significativas vai caracterizar este intervalo num círculo fechado. Este é um dos objetivos deste trabalho. Anteriormente, procuraremos dar uma visão globalizada do que se tem discutido a respeito dos estudos de tema, a partir de proposições teóricas de alguns estudiosos do assunto, propo­sições que conformam uma bibliografia básica sobre a qual continuam se assentando os esforços de teorização.

Trata-se de um trabalho desenvolvido a partir de um tí­pico teórico tomado de um programa dado para desenvolvimento da disciplina como crédito obrigatório para a aprovação no currículo de mestrado. Todavia, não podemos afirmar que a sua abordagem se faça do maneira exclusiva, individualizada.

No caso da Literatura Comparada, em que pese a infelicidade/impropriedade ou não do nome da disciplina, nada podo ser considerado individualmente. A relação das rubricas faz parte da natureza mesma da própria disciplina enquanto campo do espe­culação teórica. Assim, por exemplo, não podemos deixar de fazer remessas constantes à História das ideias, quando nos detemos no estudo de gêneros e movimentos. Por consequência, a ideia de cosmopolitismo/provincialismo não deixa de perpassar nossa atenção quando do estudo de fontes e influências ou mesmo de recepção e intertextualidade.

Acompanhando este raciocínio, podemos aceitar com bastante serenidade e segurança, a observação que delega ao estudo de temas – tematologia, parece-nos bastante apropriado enquanto generalização de conceito – um caráter de privilégio no quadro das rubricas encobertas pela Literatura Comparada enquanto dis­ciplina sistematizada a partir de uma vocação generalizada e não de um objeto definido e circunscrito a una metodologia inflexível e particularizada.

O grande objetivo implícito de todo este trabalho pare­ce ser, a nosso ver, a tentativa de constatação desse privilégio aglutinador da tematologia, quase que como una consequência especular do privilégio da própria disciplina à qual se submete operacionalmente.

É interessante ressaltar também que a consulta a manuais alguns, inclusive, já ultrapassados, quer do ponto de vista ideológico, quer do ponto de vista de conteúdo, não pode deixar de ser feita pelo simples fato de que é através da observação atenta do processo de gênese que podemos fazer ressaltar as princi­pais correntes – ideológicas e de conteúdo – que vão determinando os caminhos de emancipação da disciplina – Literatura Comparada – na qual localizamos o caráter geral e da Tematologia no particular.

Sem pretender ser exaurível ou tentar esgotar as possi­bilidades, o que nos parece óbvio, na tradição acadêmica, procu­raremos dar a este trabalho o feitio e a seriedade que as circunstâncias, que o particularizam, exigem para a sua completa e satisfatória realização e compreensão.

Cumpre-nos, ainda, dizer que a exemplificação prática foi suprimida do corpo do trabalho, uma vez que a proposta ini­cial do curso foi realizar uma pesquisa de cunho teórico sobre a matéria. Sendo assim, passamos agora ao desenvolvimento do nossas proposições.

***

Algumas proposições

Nesta parte do trabalho, procuraremos apresentar os elementos básicos que são operacionalizados teoricamente em cada um dos manuais consultados. É claro que se trata de um esboço do que cada autor pretendeu desenvolver com relação ao estudo de temas no âmbito da Literatura Comparada.

A sua apresentação procura acompanhar uma linha evolutiva baseada na cronologia da publicação das obras referenciadas, de maneira que possamos acompanhar, de certa forma, o caminho traçado pela evolução da matéria como meio de compreender melhor a disciplina exigida para a realização de trabalhos de orientação temática.

Sempre que possível, e cabível, nossa interferência far-se-á sentir para tentar aferir a veracidade de opiniões pessoais bem como discutir a veracidade e funcionalidade de certos princípios.

1. De van Thieghem

O mais antigo manual por nos consultado, apresenta alguns conceitos fundamentais da tematologia, como princípios operacionais para o que ele chama de literatura geral. Isto, por conta do conceito primário de Literatura Comparada que em sua época se fazia sentir com maior força persuasiva.

A tematologia, que aqui ainda não recebe esta terminologia, se responsabiliza pela análise e interpretação dos chamados “temas”, tipos e legendas. Sente-se uma profunda vinculação destes estudos com as literaturas populares. Pode-se dizer que tal vínculo também se dá em relação àquelas literaturas que continuam uma certa tradição “folclórica”, passando a outra fase de desenvolvimento sem negar as marcas das próprias origens.

Os estudos de tema não apresentam, apesar de merecerem atenção metodológica acurada em teses, artigos e trabalhos diversos, grande importância para a História da literatura.

É opinião do autor que a diferenciação individual, procurada por cada artista na interpretação de uma legenda dada, confere a esta uma singularidade tão grande que, por extensão, confere à tematologia um caráter que escapa à Literatura Comparada, porque ela não se ocupa de influências literárias.

Não podemos deixar de observar que muitas das opiniões expressas pelo autor, como a imediatamente anterior, parecera contradizer o espírito atual da disciplina. Forçoso é salientar que tais leituras se dão em direção a uma época que começava a sistematizar, teoricamente, uma disciplina que contava com anos de prática efetiva acumulada.

A identidade entre tema e personagens, levando em consideração as exigências de adaptabilidade de ambos para a consecução do objetivo proposto pelo autor, não confere a seus autores o status de influenciados um pelo outro. Não podemos partir do pressuposto errôneo de que haja sempre uma relação de forças causais na evolução de um tema. Isoladamente não.

Existe uma grande dificuldade de se estabelecer subdivisões rígidas para a tematologia, devido à vastidão do campo por ela abarcado e pela diversidade de trabalhos e estudos que podem ser realizados sob essa rubrica.

O estudo de temas exige um levantamento minucioso de dados concretos para a formulação de teses. Tal procedimento se faz essencial e, via de regra, é tomado como justificativa para o fracasso dos menos avisados e incompetentes.

Apesar de apresentar um campo vastíssimo de atuação, a tematologia não pôde, ainda, suplantar o estudo de fontes e in­fluências que é considerado a mola mestra dos estudos comparatistas em geral e da tematologia em particular.

2. De Guiyard

Este autor parece colocar um pouco mais elevado o pedestal da tematologia. Normalmente execrada pelos comparatistas mais tradicionais, os estudos de tema não podem ainda ser veiculados de forma independente. Diz ele, em seu livro A literatura comparada:

Com efeito, eles constituem apenas a matéria da literatura: esta começa com sua valorização, graças aos gêneros, à forma ou ao estilo”. (p. 54)

Ha sempre uma preocupação muito grande em caraterizar o estudo de temas como uma possibilidade recente e inovadora de estudos comparatistas; ele aparece como um direcionamento modi­ficado da orientação comparatista que vai estar sempre ligada ao “psicologismo” da narrativa moderna.

Para este autor, a tematologia aparece como uma grande contribuição para a História das ideias. Os temas veiculam o sentimento humano através de conteúdos quase que sistematizados. No fundo, as grandes ideias é que dão consistência a esta maté­ria da literatura.

3. De Etiemble

Num texto bastante crítico, em que o autor utiliza uma linguagem bastante simples, mas com intensa expressividade, Etiemble coloca toda a sua contestação com relação ao fechamento da Literatura Comparada em torno de quatro ou cinco literaturas europeias ou americanas, como campo mais propício para os estudos comparatistas e de tematologia.

Ele coloca a necessidade de busca de novos horizontes e a abertura para as literaturas escritas em línguas pouco conhe­cidas, o que faria crescer a bagagem cultural das especulações comparatistas.

Suas considerações sobre a tematologia acompanham a orientação geral que é proposta. Ele compreende que esta parece estar tomando um lugar de destaque no quadro geral dos estudos comparatistas, mas ainda, a nosso ver, bastante dependente da consideração evolutiva da História dos gêneros.

Em seu livro Comparaison n’est pas raison, ele faz uma proposta que engloba, sem sombra de dívida, a tematologia, como uma das prioridades da comparatística internacional. O trecho é o seguinte:

“… eu desejaria que, em todos os países onde se ensina nossa disciplina, uma associação verdadeiramente internacional de literatura comparada propusesse um certo número de ‘assuntos’ de interesse geral que seria tratado por todos a fim de mostrar aos estudantes do planeta que cada literatura deve qualquer coisa a todas as literaturas, e que todas se devem coisas mutuamente”. (p. 107).

Cremos que esta posição, bastante clara, denuncia as lacunas existentes na disciplina, em seu contexto atual, além de propor uma pratica globalizante dos estudos comparados – inclu­indo, evidentemente, a tematologia – que só beneficiaria a dis­ciplina como um todo.

4. De Pichois & Rousseau

Os dois autores parecem vincular a tematologia à procu­ra de uma universalidade que poderia ser encontrada a partir da consideração do folclore nacional, que permeia qualquer litera­tura nacional, e do caráter de fantástico que pode estar cristalizado no tratamento temático objetivado em cada obra literá­ria produzida.

Em seu livro La literatura comparada, eles fazem algumas observações interessantes a respeito destas considerações. Entre elas, apresentamos as seguintes:

“Quando se distanciaram, empírica ou racionalmente, estas questões de princípio, o estudo de temas e motivos folclóricos padece de um descré­dito provocado pelos abusos de um romantismo demasiado lírico, seguido por uma ciência pedante ou metafísica de origem germânica (…). Na pressa da síntese, os comparatistas se precipitaram so­bre o conteúdo mais banal de toda a literatura, fabulas, contos e lendas comuns a toda a humani­dade”. (p. 168)

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“A Literatura Comparada acolhe qualquer tema ou motivo que permita agrupar as obras sem reparar na nacionalidade, partindo da mais imediata causalidade até as afinidades indiretas”. (p. 176)

As duas citações parecem contraditórias, mas guardam duas particularidades da tematologia: a sua vinculação com o universal e a peculiaridade característica de cada forma de tratamento dado a um tema.

É de consenso dos autores a ideia de que, por quaisquer caminhos que possam ter passado, os temas mais nacionais ou particularmente trabalhados numa literatura, sempre se reportam aos mitos clássicos da antiguidade, que guardam consigo a originalidade conteudística dos primórdios da civilização ocidental e o status de matéria literária desde as primeiras produções.

Encampam também, como sendo um dos “departamentos” da tematologia, o estudo de tipos. Isto porque os tipos têm se tornado fonte de inspiração para muita literatura que se fez a partir de um elemento estratificado e de suas relações com outro elemento e com o próprio contexto no qual está originariamente inserido.

Chamam a atenção para o fato de que os comparatistas devem estar sempre atentos aos meandros da questão dos tipos para localizá-los dentro de obras que tenham valor. Não fazendo assim, correm o risco de procederem a um estudo sociológico das relações de elementos estratificados de uma comunidade qualquer.

Em suma, colocam como fontes temáticas para os estudos comparatistas a natureza: seus elementos, processos e criações; o homem e suas circunstâncias, sentimentos e situações de vida e os fatos mesmos da vida humana no planeta.

De Trousson

Considerada como um clássico dentro do quadro bibliográfico que versa sobre tematologia, a obra de Raymon Trousson trabalha quase à exaustão o assunto.

Partindo de um levantamento bastante completo e atuali­zado de obras teóricas sobre o assunto, o autor inicia sua obra colocando a situação da tematologia – ontem e hoje –no quadro de estudos comparatistas.

Faz um longo percurso, baseado também num levantamento minucioso, da problemática da terminologia. Define, operacional­mente, o conceito de tema, contrapondo as diversas variações sinonímicas existentes.

Aborda a questão da tradição histórica que pode definir uma linha de conduta na pesquisa tematológica, levando em consideração a imanência da obra literária; a problemática da sincronia e diacronia para a definição de uma orientação da tematolo­gia; a discussão sobre “fontes e influências”, alongada na con­sideração de originalidade (criação) e tradição; a delimitação geográfica e histórica da tematologia e a possibilidade de determinação de preferências de autores, de épocas e de nações para os estudos de natureza temática.

Finalizando seu trabalho, o autor coloca a profunda e essencial vinculação da tematologia como método e do tema como objeto, com o contexto histórico que os marca, direciona e orienta numa dada direção especulativa.

***

Confronto terminológico

É bem verdade que, via de regra, a definição de conceitos é o primeiro passo para a organização de um discurso sobre qualquer conteúdo. No caso da tematologia, não há quebra desta tra­dição acadêmica.

Neste trabalho, pareceu-nos melhor acompanhar a ordena­ção de conteúdos que se deu, analogamente, na própria História da Literatura Comparada: ela começou com uma prática ancestral sem centralização metodológica e, num segundo passo, começa a merecer teorizações sistematizadoras para a tentativa de organização do próprio conteúdo trabalhado.

Ao apresentar algumas proposições sobre o assunto, não nos preocupamos, em primeira instância, com uma diferenciação sistemática dos termos como forma de delimitar seus campos específicos de atuação. Fazemo-lo agora.

A diferença significativa de uma mesma palavra, de lín­gua para língua, se impõe como primeiro problema da tematologia no âmbito da Literatura Comparada. Motivo, tipo, fábula, mito, lenda, tema e legenda são palavras utilizadas como sinônimos, agravando a complexidade da questão terminológica.

Uma situação muito particular ocorre com relação ao termo “mito”. Geralmente considerado em seu contexto natural, a Antropologia, este termo não deixa de aparecer em outros contextos – a literatura particularmente – para significar aquele conteúdo que ultrapassou os limites da realidade, deixando para trás as caracterizações particularizadas, impondo-se como invariante universal de significação ciara que, via de regra, nos remete sempre aos primórdios de nossa própria origem, enquanto cultura ocidental.

Há de se levar em conta, nesta consideração, o caráter de “sagrado” que marca e envolve este conteúdo cultural denomina do mito.

Muito regulamente, usa-se mito e tema com a mesma pre­tensão significativa. Talvez, a tendência pelo uso de mito, ve­nha a representar urna certa possibilidade de eliminação da confusão terminológica que marca de modo peculiar esta rubrica.

Podemos considerar ainda o traço coletivo do mito que marca particularizando o conceito, enquanto tomado sob o enfoque de personagem mítico de um universo diegético. Com esta ob­servação, temos que acrescentar que, para o comparatista, não há Prometeu, Antígona ou Fedra exteriores ao texto literário. Estes personagens são sempre considerados em intensa e interna vinculação com o contexto textual, uma vez que e neste que se dá a apropriação “pessoal” do conteúdo universalmente reconhecido e respeitado.

A questão da terminologia revela uma compulsão para a classificação. A utilização da palavra “mito”, na significação temática era que por vezes e tomada, não quer estabelecer, aqui, uma discussão etimológica; tenta, na verdade, uma conjugação de considerações conceituais identificadas por uma gama variada de termos.

Neste primeiro momento de reflexão, não podemos deixar de levar em consideração a apropriação conceitual realizada pelos vários teóricos que, de certa forma, exemplifica a retórica gasta para a apresentação do problema.

Para Simon Jeune, temos tipos (legendários, bíblicos, literários, histéricos, etc.) e os temas (elementos da natureza, sentimentos, ideias).

Esta primeira classificação particular é o ponto de partida para uma malha fina de variações terminológicas de sentido. De autor para autor, um conceito pode ter seu nome trocado, sem que haja uma modificação total e absoluta em sua significação menos profunda. Assim, os tipos de Simon Jeune são os “persona­gens literários” de Pichois & Rousseau; Já Weisstein fala de “tema” para os tipos “individuais” e de “motivos” para algumas si­tuações em que se dinamizam ideias e sentimentos.

Uma esfera um pouco maior do problema conceitual, que e apresentada e considerada a partir de agora, nos coloca a consideração da questão de denominação do estudo em si mesmo.

Em Van Thieghem a tematologia – apesar de não aparecer especificamente com este nome – corresponde à tematologia como organização das obsessões de Roland Barthes; a acontecimentos ou situações infantis de J.-P. Webwe; à constelação de palavras, ideias e conceitos de J.-P. Richard; a um elementos verbal para G. Genot.

Podemos concluir que as nuances podem, por vezes, determinar diferenças e particularidades conteudísticas que “complicam” a questão terminológica. Há de se levar em conta o proble­ma da vaidade pessoal que acaba influenciando uma ou outra posição como forma de inovação, sem os cuidados necessários com as possíveis consequências negativas ou mesmo delicadas.

Por outro lado, podemos também chamar a atenção para uma outra etapa desta confrontação, que vai se ater particular­mente sobre as noções de tema e motivo.

Estas noções vinculam-se de maneira bastante aproximada, apesar de serem absolutamente independentes uma da outra. Daí a necessidade de questionamentos e conclusões individualizadas, num movimento maior de intercomplementaridade. Os conteúdos aqui veiculados podem ser tomados em sua especificidade, que os define de modo quase absoluto.

Acompanhando o raciocínio de Raymon Trousson, apresentamos algumas questões levantadas, por ele, sobre o assunto:

“O que é um motivo? Escolhemos chamar assim a um pano de fundo, um conteúdo largo, designando ora uma certa atitude ora uma situação de base, im­pessoal; o que os autores ainda não podem individualizar”. (Thèmes et mythes, p. 22)

Temos que admitir que há uma distância conteudística que separa o motivo, organizado na representação literária, dos arquétipos da espécie humana. Para utilizarmos uma expressão jungiana:

“O que é um tema? Convencionemos chamar assim a expressão particular de um motivo, sua individualização ou, se querem, a passagem do geral para o particular”. (Thèmes et mythes, p. 23)

Nesta etapa, consideramos a necessidade de levar em conta um evento duradouro num determinado espaço como mola mestra da caracterização conceitual de um tema.

Cremos não ser completamente inoportuna a observação de que o ponto de vista do autor citado parece inverter, pelo menos aparentemente, a localização dos termos no jogo de oposição geral/particular. Via de regra, o motivo parece estar sempre colocado no lugar em que aparece, aqui, o tema…

Podemos ainda, aventar a possibilidade de se considerar a distinção dos conceitos como pontos de defesa da própria dis­ciplina.

Parece haver um movimento de justificação da não neces­sidade de se considerar o tema como matéria mesma da literatura, complementada pela figura do “tipo” específico; e para determi­nar, como tal, o motivo que não carece do tipo, pois veicula a própria experiência humana em sua alteridade existencial.

O motivo é o elemento não literário que delimita as si­tuações e as atitudes fundamentais, por isso, é a matéria mesma da literatura, enquanto particularização no tratamento do conteúdo universal.

Há uma crítica muito forte contra a tematologia, enquanto preocupada com a extensão conteudístico-operacional de seus próprios conceitos, que tenta tirar dela seu caráter de profunda aplicabilidade quando diz que a tematologia é o estudo da evolução de um só personagem em todas as suas apresentações. Tal ob­servação, ao que nos parece, guarda uma certa dose de verdade. Não fosse assim, não haveria justificativa para trabalhos exaustivos como o de Jean Rousset, sobre Don Juan.

A tematologia descobre, analisa, compara e descreve as máscaras sob as quais o mesmo conteúdo temático costuma se apresentar.

O tema não pode ter mesmo uma significação única, uma vez que esta se dá através da apresentação variada e múltipla dos motivos. Parece haver uma relação de justificação exemplificada e variável; o tema está muito mais preso aos liames do tempo e do contexto histórico que o motivo.

Nota-se, assim, que há uma forte presença, e consequente influência, quase uma força coercitiva, das ideologias diacrônicas na determinação e descrição utilitária dos temas.

Os temas só existem em momentos dados, pois servem para veicular os conteúdos ideológicos de um passus da existência humana através dos mais diferentes motivos.

Falar das apresentações temáticas não pode ser uma prá­tica restrita a elementos interiores dessa representação, mas há de se levar em conta os entraves histórico-temporais.

Ainda uma outra característica é a viabilidade simbóli­ca do tema numa época determinada, e mesmo nas diversas obras de um autor num espaço de tempo limitado.

Concluiremos esta parte de nosso trabalho com a transcrição de dois trechos da obra de Raymon Trousson:

“Le thème, cristallisation et particularisation d’un motif est d’emblée objet littéraire parce qu’il n’existe pas qu’a partir du moment où le motif s’est exprimé dans une oeuvre, devenue le point de départ d’une série plus ou moins importante d’autres oeuvres, le point de depart d’une tradition littéraire”. (p. 26)

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la distinction à établir entre leg notions de thème et de motif apparait de première importance, non seulement en soi, sur le plan de la ter­minologie littéraire, mais aussi parce quelle déterminará des differences sensibles sur le plan metodologique”. (p. 30)

É nossa opinião, vale a pena acrescentar, que, das observações acima, podemos inferir uma característica primordial de um confronto terminológico no âmbito da teratologia, numa perspectiva comparatista: a operacionalidade dos conceitos. Sem esta preocupação, todo o esforço terá sido mero exercício retórico.

***

Conclusão

Faz parte da tradição da Literatura Comparada, enquanto disciplina sistematizada, começar pela prática para depois che­gar a uma teorização que organiza e esclareça as diversas possibilidades da matéria. Não deixamos de acompanhar esta tradição. Da busca, em dicionários gerais e especializados, do significado da palavra “tema”, podemos concluir que seu traço característico se localiza em sua essencialidade.

A noção de tema sempre nos reporta a um conceito de base fundamental para a realização de um discurso. Com relação à música, então, a definição toma-se muito clara, fazendo uma remessa direta ao conceito veiculado em literatura:

Motivo: o que é o germe do qual procede e no qual se desenvolve a composição.

Podemos, então, dizer que não existe uma obra literária se não houver um tema bastante preciso? Ou seria supor um exagero?

Realizando a mesma busca com a palavra “mito”, vimos que esta nos reporta a alguns conteúdos praticamente supra-reais. Faz constante referência às cosmogonias essenciais da humanida­de, conjugando valores fabulosos, fantásticos, utópicos.

Logo na primeira impressão, não podemos ter dúvida, nos é apresentada uma confusão, uma certa impossibilidade de identificação conceitual entre as duas palavras.

A Literatura, enquanto arte das palavras, não pode dei­xar que, nas teorizações que sobre ela se realizam, o bom senso na aplicação de termos precisos seja deixado de lado, sem uma explicação justa, plausível.

A querela terminológica, estabelecida entre tema e mito, cremos nós, nunca terá fim. É bom que se procure, portanto, a sua aplicação, sempre que possível, precisa, para que maiores confusões não sejam uma consequência negativa para a própria Literatura.

O estudo de temas, no âmbito da Literatura Comparada, parece não ter contado sempre com o aval dos comparatistas, apesar de ser uma prática especulativa bastante realizada por muitos deles.

É de se notar que, na tradição histórica da disciplina, muitos trabalhos identificados de maneira diferente, com títulos diferenciados, realizavam pesquisas de orientação temática. Esta observação, além de curiosa, pode sor tomada como ponto de partida para uma justificação da importância fundamental dos estudos de tema na perspectiva da Literatura Comparada.

Determinar o campo semântico dos termos analisados, para melhor compreender sua utilização, não esgota o leque de possibilidades da tematologia. Esta procura, sempre e mais, a nosso ver, a identificação e elucidação de certos invariantes univer­sais que vão sofrendo apropriações e tratamento individualizado, correspondente a cada contexto histórico e geográfico no qual se encontra uma especulação de cunho comparatista.

Muitos são os teóricos e os críticos que já se colocaram na posição de advogados do diabo, para melhor discutir a questão da validade ou não da tematologia nos estudos comparatistas.

Não temos a pretensão de ser definitvos, nem de acabar de vez com estas questões. Dentro de nosso modesto trabalho procu­ramos demonstrar o caráter privilegiado – quase fundamental – da tematologia.

Não nos parece absurdo afirmar que, indiretanente, esta rubrica da Literatura Comparada se liga profundamente a outras tais como: gêneros, movimentos, história das idéias, fontes e influências, recepção, etc.

Sem querer assinalar com a originalidade as nossas dis­cussões, pretendemos corroborar a opinião de muitos estudiosos do assunto que colocam a tematologia quase como o estudo da matéria literária em si mesma.

Dentro das pesquisas realizadas, ficou-nos a impressão de que, pela própria imprecisão de que se valem os termos utilizados em seus trabalhos, a tematologia acompanha a carência de sistematização mais rígida, característica muito particular à própria Literatura Comparada.

Nesta, as metodologias se multiplicam, dando origem a uma diversidade de orientações que acabam por confundir um pou­co a linha geral da disciplina. Acreditamos que, cora relação à tematologia acontece, analogamente, a mesma coisa. As buscas são tão numerosas e variadas, as direções tomadas aparentemen­te tão contraditórias, ou mesmo indefinidas, que provocam o questionamento interno da própria disciplina.

Não acreditamos num trabalho comparatistas de largo es­pectro, que não comporte a tematologia, como um de seus procedimentos fundamentais.

É nossa impressão que a tematologia se constitui um ponto de polarização dos trabalhos comparatistas por força de sua atuação universal, quase impossível de ser catalogada ou mesmo catalogada caracterizadamente de maneira sucinta.

Cinco possibilidades de enfocar a tematologia no âmbito dos estudos comparatistas podem se:

a) possibilidades discursiva e narrativa de se aproximar uma cultura nacional e sua literatura dos demais pontos de consideração comparatista;

b) instrumento de descoberta de cavilosidades ideológicas no discurso narrativo colocado em questão, dentro de um determinado contexto e em comparação com outros;

c) índice de grandes correntes de ideias que perpassam uma ou mais narrativas em qualquer contexto;

d) caminho aberto para um aprofundamento maior de uma imagologia, numa determinada literatura (em si mesma e em comparação com outras);

e) parâmetro de determinação da qualidade estática da criação, da apropriação, da parodia, da intertextualidade, etc.

Diante destas indagações, parece-nos ter se tomado pe­quena e quase sem importância a questão terminológica. Ao contrário! Não podemos deixar de acreditar que é na dinâmica mesma desta discussão que podemos localizar o vigor dos estudos de tema; o que só contribui para a afirmação e maior aproveitamento da Literatura Comparada. Esperamos ter demonstrado estas convicções com suficiente clareza.

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Bibliografia

BRUNEL, Pierre., PICHOIS, Claude., ROUSSEAU, André-Marie. Qu’est-ce que la littérature comparée?. Paris, Armand Colin, 1983.

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(Trabalho final da disciplina “Literatura Comparada”, Profª Neide de Faria)

Primórdios IV

Tentativa de estabelecimento de categorias do Existencialismo na obra de Graciliano Ramos: Angústia

Introdução

            A grande motivação deste trabalho nasce da perspectiva, cada vez mais instigante, de tentar um discurso teórico-críti­co que consiga estabelecer de maneira definitiva, a relação intrínseca entre Literatura e Filosofia.

Em que medida podemos afirmar que uma e outra se servem e se utilizam mutuamente, para veicular seu próprio discurso?

É certo que podemos encontrar grandes questões filosó­ficas desenvolvidas num texto tipicamente literário; em contrapartida,podemos encontrar um texto filosófico que se inscreva –

em sua formalização e concepção – no campo da realização li­terária. Este fato não constitui novidade. Provoca, entrementes, uma discussão que procura esclarecer se,nestes moldes, o problema fica resolvido ou se e preciso explicitar mais os me­canismos de realização deste encontro.

 O objetivo desta disciplina – Filosofia e Literatura – se estabelece e se fundamenta no desenvolvimento desta discus­são. Não podemos deixar de estar atentos a todos os desdobramentos que esta provoca em todo o campo do saber acadêmico.

O presente trabalho, atento a todas as seguidas cons­tatações a este respeito,não pretende esgotar o assunto em sua esfera teórica.

Tomando um texto literário, de qualidade inegável, tentaremos elucidar esta questão a partir do trabalho criativo desenvolvido por Graciliano Ramos.

A perspectiva da análise será dada pelo personagem cen­tral da narrativa, Luís da Silva. Isto, a nosso ver, operacionaliza melhor o trabalho de consideração dos temas do Existencialismo na sequência narrativa desenvolvida pelo autor através do personagem.

Acreditamos não ser importuna a observação de que não faremos um trabalho comparativo com outras obras que apresentam o mesmo caráter. A exiguidade do tempo e os objetivos específicos deste trabalho assim o exigem.

Partiremos de uma breve consideração do título do romance, não do ponto de vista da narratologia moderna, que não de­ve ser considerada inválida por causa disto. A nossa intenção com esta atitude é tentar criar um clima propício para a discussão proposta, almejando uma melhor compreensão e aceitação de nossas especulações.

A preferência por obras de caráter mais analítico sobre o tema do Existencialismo se vê plenamente justificada nos ob­jetivos já apresentados.Gostaríamos apenas de apresentar um pequeno acréscimo que diz que os manuais e livros introdutórios obedeceram a um caráter de generalidade e abrangência global do tema,uma vez que este trabalho não possui a pretensão de ser final ou conclusivo em relação ao tema tratado a partir do texto literário escolhido.

Gostaríamos ainda de acrescentar que é de nosso interesse particular o estudo ora apresentado, uma vez que é grande a utilidade apresentada pelo elenco de contribuições, veiculadas por ele,para o desenvolvimento de nosso trabalho final de mestrado.

***

Da palavra angústia

Não se pode negar o absoluto poderio da palavra, quando consideramos o vasto campo coberto pela necessidade de transmissão de ideias. Assim, na Filosofia, a palavra conhece maior celebração, por sua capacidade de levar o homem à reflexão profunda de todas as suas possibilidades, a partir da abstração possibilitada e veiculada por ela mesma.

Particularmente, neste trabalho, podemos afirmar que um apalavra se apresenta como chave de compreensão do jogo es­tabelecido, e cada vez mais buscado, entre Filosofia e Litera­tura.

Antes de qualquer explanação, gostaríamos de deixar claro que não é nossa intenção corroborar tentativas de rotulação categorizante sobre a obra de qualquer escritor. No caso de Graciliano Ramos, muito se tem dito[1] e não nos parece opor­tuno discutir todas as abordagens feitas sobre sua obra. Não podemos, no entanto,deixar escapar uma oportunidade de exercitar nossa capacidade analítica no caminho proposto para alcan­çar objetivos maiores.

Podemos dizer, como vínhamos fazendo, que uma palavra-chave se apresenta como ponto departida para a nossa análise. É a palavra “angústia”.

Derivada do latim angustia, significa estreiteza, li­mite,restrição, ansiedade ou aflição intensa ou ainda, ânsia, agonia, sofrimento tormentoso, tribulação.

Destas primeiras considerações, podemos nos remeter a um contexto quase patológico, onde se localiza o espírito humano quando experimenta tal sensação. Gomo podemos deduzir, angústia não possui uma existência material, não chega a consti­tuir-se como ser, mas como sensação, sentimento.

A etimologia da palavra nos apresenta elementos interessantes. Na palavra angústia encontramos angusti elemento composicional do latim angŭstus que significa estreito, apertado, pontia­gudo.

Esta segunda consideração nos esclarece mais a situação criada pela palavra angústia. Seu caráter redutivo, e quase opressor, é evidente. Este traço define todo o espirito que circunda esta palavra quando consideramos sua significação no contexto da obra literária analisada.

Não é uma coincidência simples, ofato de angústia ser uma palavra-chave. Afinal,ela dá nome à narrativa de Graciliano Ramos[2]. Foi uma escolha propositada pois encontramos na Filosofia o respaldo de ideias que nos ajudarão a compreender, não só o título da obra, como também a relação que a Literatu­ra estabelece com aquela, nesta narrativa invulgar.

Dois dos precursores do Existencialismo fazem observações interessantes, são elas:

Segundo Kierkegaard, angústia e uma determinação que revela a condição espiritual do homem caso se manifeste de maneira ambígua e o desper­te para a possibilidade da liberdade. Já Heidegger coloca que é a disposição afetiva pela qual se configura a existência.

Destas duas observações podemos retirar duas ideias que serão trabalhadas posteriormente. Em primeiro lugar, um certo clima de opção, de escolha, que se define a partir do próprio clima de instabilidade, criado pela situação mesma da angústia. Em segundo lugar, a ideia de nadificação do ser, marcando a total impossibilidade de modificação da impassibilidade do homem diante dos objetivos finais, ontológicos, de sua própria existência.

Não temos a intenção de dar por acabada, pelo menos nos limites definidos por este trabalho, a discussão acerca desta palavra. Cremos, no entanto, que os elementos por ela veicula­dos, e até aqui apresentados, já nos oferecem luminosidade su­ficiente para que possamos desenvolver a análise proposta.

O texto de Graciliano Ramos parece ser de grande valia para esta análise. Ela também não é única. A riqueza de seu personagem central – Luís da Silva – e a qualidade técnica da narrativa impõem-se como parâmetros básicos mais que suficientes para a consideração de algumas categorias existencialistas em seu universo diegético.

***

Fundamentação teórico-filosófica

Começamos a nossa caminhada citando um dos autores con­sultados[3]:

“O existencialismo é uma filosofia em primeira pessoa, e em primeira pessoa concreta, que põe na Filosofia tudo de seu, e não nada de seu,como exigia o pensamento abstrato”.

Esta primeira citação nos direciona as especulações, colocando como vetor máximo o homem, o indivíduo, e sua medida. Não podemos falar do Existencialismo como mero exercício de abstração. Há necessidade intrínseca de levar em conta a concretude do indivíduo considerado no universo de sua existência e focalizado em sua impassibilidade total diante do mistério que o rodeia.

Kierkegaard já postulava esta necessidade ao considerar que a dificuldade do pensamento abstrato se concentra em todos os problemas da vida humana. Isto deve estar sempre presente,pois a abstração a par de seu valor operacional, em muitas si­tuações, tende a escamotear, a apartar, as dificuldades concretas do existir humano.

O pensamento abstrato não possui nenhum interesse imediato e próprio, mas a dificuldade da existência reside justa­mente no maciço interesse dirigido sobre a própria busca da essência, empreendida pelo homem que tenta pensar sobre ela; que tenta encontrar explicações, esclarecimentos sobre sua própria vida. O pensamento puro nos leva à verdade, mas misturado às paixões ou sentimentos, nos fornece opiniões que não nos permitem ter uma visão objetiva do mundo. Não nos deixa escapar de sua força de sacrifício.

A Filosofia existencialista distancia-se do abstrato e aproxima-se do que realmente existe na vida do homem que observa sua própria existência. O Existencialismo tenta refletir sempre sobre a experiência do ser humano na sua própria busca de essência.

O Existencialismo adapta como língua a linguagem do romance, principalmente, e também do teatro. Simone de Beauvoir já considera esta realidade e diz que “a descrição da essência pertence à Filosofia propriamente dita; só o romance permitirá evocar na sua realidade completa, singular e temporal, o jato original da existência”[4].

A abordagem individual da realidade se faz através da abstração de nossa própria existência, o que faz saltar aos olhos a verdadeira concretude, a realidade material das coisas fora de nós.A aventura de existir está muito dependentemente ligada à realidade material das coisas; isto nos leva à consideração do fato de que a observação da existência ultrapassa a materialidade, pois revela o caráter singular e único de cada existência em separado. A aparente contradição existente entre estas duas observações enfatiza o caráter de emergência que pode seri nferido das atitudes e colocações do indivíduo ao pen­sar a sua própria existência.

Segundo Aristóteles, a ciência começa pelo espanto e o Existencialismo, considerado num aparato científico, que supostamente envolve as especulações filosóficas, tem seu início no espantoso perceber da própria existência humana, o fato da vi­da. Esta percepção coloca mais uma característica particular, a de unicidade diante da possibilidade infinita, a individualidade no universo. Esta característica atribui, de antemão, uma qualidade de diferenciação plausível na investigação existencialista.

Há na existência do homem uma constante possibilidade de “vir a ser” que o põe, radicalmente, em relação à brutalidade material das coisas. Esta passagem, ou mesmo, a sua consideração, marca a primeira condição da existência humana, o esco­lher.

O homem é privilegiado pois pode optar pela existência desejada. De certa forma, esta condição parece contradizer-se quando observamos que não há escolha do par genitor. Este pon­to abre novas perspectivas que por ora ultrapassam nossos objetivos.

Na verdade, não basta escolher “ser”, mas “ser” o esco­lhido na existência que já está determinada. A partir desse ponto, podemos afirmar, com certeza, que este movimento dialógico estabelecido entre “ser” e “existir” é o responsável pelo aparecimento das angústias que se apresentam como elemento de discussão do próprio homem. Paulo Foulquié[5] nos dá uma visão bastante interessante deste ponto:

“Em cada circunstância, o homem,ao contrário, pode escolher entre muitas hipóteses: e só depois de sua escolha, sabe-se o que de fato ele escolheu, no que esta escolha o transformou, qual a sua essência”

A escolha do que somos revela a capacidade de obedecer. a uma consciência, caráter de responsabilidade que envolve qualquer atitude do homem.Nós temos nossa atenção sempre vol­tada para o exterior e esta é a única possibilidade de justificação de nossa própria consciência. Ao lado da responsabilida­de já prevista e, antecipadamente, existente, nos leva à consideração da liberdade de escola, dentro de um quadro de proba­bilidades concretas e acessíveis.

Neste jogo de percepção,a existência e seus modos de percepção e análise nos trazem a imagem do outro.

Este fato constitui a concretização dos conceitos abs­tratos que são veiculados em todo este processo especulativo. Este conjunto de elementos determina a necessidade de confron­tação não só do indivíduo com ele mesmo, como entre todos os possíveis polos estabelecidos a partir da relação dialética considerada. Isto é apenas um condicionamento da própria existência humana era seu exercício ontológico.

Há,ainda, que se levar em conta a necessidade constan­te e fundamental, do compromisso individual com as próprias opções e resoluções (incluindo a sua própria negação). Este fator demonstra a adaptação necessária do processo ao caráter contingente da própria existência no mundo. É o reconhecimento de certa relatividade, apesar de aparentemente grande, ontoló­gica de todo o processo desenvolvido.

“Os nossos fins governam todas as nossas escolhas; a li­vre escolha de nossos fins acarreta a liberdade de todas as nossas determinações particulares”[6]. A partir desta observa­ção, podemos aventar um vínculo de consequência entre este processo de opção e responsabilidade e a angustia que dele decor­re. Não há como escapar a esta conclusão, pois a determinação de uma opção num conjunto de possibilidades determina o abandono das demais. A redundância se reflete no caráter – quase ób­vio – desta observação.

A angústia se apresenta, então, como uma consequência automática que não permite, praticamente,nenhuma modificação processual. É rejeitando todas as construções do espírito no mundo atual que ele se coloca que os existencialistas procuram dar por terminada e determinada esta contradição, que se reve­la no ato de escolher, sem nenhum princípio de escolha. Esta contradição se reflete também no momento de determinar no acerto ou não de toda e qualquer decisão. Aí se fundamenta a angústia existencialista.

A perspectiva individual da existência humana, de sua análise e de todos os desdobramentos ultrapassam a esfera da responsabilidade e da liberdade de opção. Ha ainda a consideração de estar no mundo com os outros. Esta observação coloca todos os homens, respeitadas as devidas diferenças, no mesmo ní­vel de condição existencial.

Partindo daí, podemos dizer, com certa segurança, que o diálogo é a possibilidade primeira e fundamental de mútua apresentação condicional. Há uma existência “com”, que não pode ser destituída de valore abandonada nas especulações que bus­cam generalizações filosóficas.

A preocupação constante do Existencialismo é reencontrar um sujeito existencial, o de nossa experiência pessoal,vivida; e restaurar o contato íntimo, na existência humana, entre a subjetividade e a transcendência, dois termos que estabelecem uma antítese, mas que se apresentara sempre e indissoluvelmente ligados.

O homem não constitui uma existência individualizada, no sentido de isolada do todo universal. Pelo contrário, faz par­te dele e nele atua de maneira operacional.

Até aqui, colocamos algumas observações generalizadoras acerca do Existencialismo, num enfoque principalmente filosófico. Não deixamos de lado a tentativa de operacionalizar estas ideias, tendo em vista a análise da narrativa que será posteriormente desenvolvida.

Uma consideração a mais, que podemos dizer importante, por particularizar um aspecto da especulação filosófica, diz respeito a Deus.

Esta ideia e a possível anulação de sua existência pos­tulam os fundamentos do Existencialismo. Dizemos isto, pois, o caráter finito da existência humana pede, como necessidade essencial o estabelecimento de valores básicos – funcionando como parâmetros – de moral e critério de avaliação e tomada deposição.

Implicitamente, em qualquer atividade proposta como instrumento de especulação filosófica, caracteristicamente existencialista, tem-se a necessidade de uma projeção para o infinito.

Retomando nosso discurso, preparando um momento de con­clusão, podemos levar em consideração duas posições precursoras do Existencialismo.

Para Heidegger, o homem é um ser para a norte. Isto se constitui como a grande possibilidade da vida humana, garantindo a existência de todas as outras possibilidades, consideradas menores, que vão preenchendo o tempo até o fato derradeiro.

Jaspers, na tentativa de negação da morte, postula para o homem uma fatalidade de naufrágio. O caos existencial vai tomando conta da própria vida, impedindo sua subsistência livre e desimpedida.

Como fator de contemporaneidade, Sartre considera que o homem não tem um destino programável ou definível ontologicamente. O homem é um ser para o “nada”. O futuro da humanidade é o desaparecimento completo e este “nada” é que leva a cabo a existência  do próprio ser humano.

A existência do homem é, então, demarcada em sua finitude pelo nascimento e pela morte. O“vir a ser” e o “ter sido”são os dois termos de uma linha evolutiva,que marca, para to­do o sempre, todas as atitudes do homem em seu caminho de bus­ca da própria essência. Esta caracterização pela finitude, pode-se dizer, é que dá a marca de peculiaridade à existência – e existência  racional – do homem.

Podemos dizer, então, com alguma certeza, que uma atitude existencialista possui duas fontes principais: a tomada de consciência de urna situação histórica e social de crise e de revolução; e a mesma tomada de posição, com relação ao conhecimento que se desenvolve a partir da própria existência.

Concluímos esta primeira parte do trabalho, com uma citação instigante que deixa um campo aberto atrás de si[7]:

“Os existencialistas devolvem à palavra “existir”seu sentido etimológico. “Existir”quer dizer estar fora, ir para fora. Na palavra “existir”, o importante é o “ex”, que indica o movimento de algo para outra coisa. Existir é estar fo­ra do próprio centro, fora de si mesmo (…). O homem, enquanto existe, é o ser que está fora de si, o ser que se estranha a si mesmo, o ser lon­ge de si”.

***

Luís da Silva: possível estudo de caso

Chamamos esta parte do trabalho de possível estudo de caso pelo simples fato de que um nome comum identifica um ho­mem comum, um homem como qualquer outro. Seus traços de herói se perdem numa diluição quase completa de formas corriqueiras de existir.

Não tomamos parte muito expressiva no contexto de Luís da Silva talvez, por força do incômodo que sua situação e história criam em nossa própria existência, de mais a mais, con­cordamos com o professor Rui Mourão[8], quando diz que:

“O ana­lista deve se colocar diante da obra literária sem qualquer plano antecipado de trabalho, pondo em suspenso, inclusive, a sua carga organizada de conhecimentos, a fim de que a intuição crítica se realize em toda sua plenitude, é necessário deixar o texto falar, até que se revelem os seus suportes expressivos fundamentais.

A partir deste momento, o esforço de interpretação se orientará no sentido da descoberta da unidade da estrutura de significados, através do levantamento tanto mais completo quanto possível, dos diversos extratos, para que se chegue ao amplo descortínio da fisionomia íntima do fenômeno vivo. A crítica, entretanto, somente dará por terminada a sua tarefa quando esse devassamento dos suscetíveis níveis de significação atin­gir os planos mais amplos e gerais, em que o produto estético deixa de ser para o intérprete uma realidade absoluta, ganhan­do a dimensão relativa, que corresponde à própria maneira de se inserir no processo geral da cultura”.

Penetrando diretamente no texto de Angústia,podemos conferir que a utilização da prosa subjetiva, com os verbos quase sempre em primeira pessoa, causa efeitos que, supostamente, ultrapassam uma possível estruturação narrativa desejada pelo próprio autor. Como não temos certeza de suas reais intenções, baseamos nossas observações em processos evidentes de escritura,como a modificação do gênero narrativo que coloca em substantivos comuns a designação do ser que fala, dificultando a determinação da voz narrativa. Tal procedimento tende a estabelecer uma possível tentativa de universalização atemporal, e não determinada no espaço, dos problemas de comunicação de toda a problemática existencialista que pode ser inferida do discurso narrativo.

Todo o texto, a partir da consideração estilística da utilização do tempo verbal (um dos níveis plausíveis), coloca a situação de imobilidade do indivíduo diante do tédio causado pela inexplicabilidade de seu próprio drama existencial. Podemos perceber isto num dos trechos iniciais do texto de Graciliano

“Um sujeito chega, atenta, encolhendo os ombros ou estirando o beiço, naqueles desconhecidos que se amontoam por detrás do vidro. Outro larga uma opinião à-toa. Basbaques escutam, saem, e os autores, resignados, mostram as letras e os algarismos, oferecendo-se como as mulheres da rua da Lama”.

Logo nas primeiras páginas, percebemos que algo começa a se estruturar apesar da caótica apresentação de uma visão de coisas. Não sabemos ao certo com que estamos fazendo contato ou em que tempo objetivo nos encontramos. Começamos a distinguir o mundo social e geográfico em que vive nosso guia oculto, começamos a partilhar com ele suas próprias emoções, sem que elas percam sua absoluta particularidade, e a penetrar no seu próprio campo de visão da realidade; adotamos o seu enfoque. Neste contexto, o caráter filosófico do discurso, que passa a ser considerado filosófico, o mesmo que orienta a leitura do texto, a partir desta tentativa de universalização dos confli­tos vividos – já em processo – por um personagem que não se diferencia do narrador, demonstra toda a impassibilidade do homem diante da constatação da própria perplexidade.

O personagem de Angústia procura trazer todas as sen­sações, tudo o que lhe aconteceu no passado, para dentro de um único instante, o instante mesmo de sua conscientização diante da realidade objetiva dos fatos que vai sendo conscientizada.

O posicionamento do indivíduo diante da complexidade de sua própria existência, exige uma parada no tempo, como que querendo absorver, lucidamente, toda a carga sensível de sua aventura existencial; na tentativa de apreensão de um sentido,que se perdeu na própria experiencia do viver.Ainda no início de Angústia,encontramos outro trecho que ilustra com bastante força temática, as observações feitas até aqui:

“Não consigo escrever. Dinheiro e propriedades, que me dão sempre desejos violentos de mor­tandade e outras destruições, as duas colunas mal impressas,caixilho, dr. Gouveia, Moisés, homem da luz, negociantes, políticos, diretor e secretário,tudo se move na minha cabeça, como um bando de vermes, em cima de uma coisa amarela,gorda e mole que é, reparando-se bem, a cara ba­lofa do Julião Tavares muito aumentada. Essas sombras se arrastam com lentidão viscosa, misturando-se,formando um novelo confuso”.

Luís da Silva é um homem atormentado. Ele se sente acuado, vive a própria angustia de existir, imerso num mundo confu­so, caótico. Ele vai desenvolvendo um processo de descoberta, como se abrisse uma caixa,encontrando outra e depois outra. Faz sair uma emoção, uma recordação, uma visão, etc.; por aí chega a alcançar o infinito de sua experiência, quer dizer, co­meça a tocar a linha que esgota todos os compartimentos e subcompartimentos de sua lucidez. As anotações possíveis do que vai percebendo ficam reunidas num só instante, um compartimento maior: a caixa que comporta todas as outras caixas.

Podemos inferir um forte traço intimista no discurso de Graciliano Ramos, veiculado, é claro, por Luís da Silva.

Este intimismo, em algumas passagens, marca a aproxima­ção realizada entre o texto e algumas categorias da Filosofia marcadamente existencialista. Por exemplo, o individualismo, que não se fecha ao real pois tende a universalizações que possam emoldurar outras considerações diferenciadas. Outro exemplo muito ilustrativo é o da náusea,apresentada, colorida e muito evidenciada em determinados detalhes que perpassam todo o texto, criando climas opressivos, quentes até. Um abafamento agoniado,zumbir de moscas sobre mesas engorduradas, zunir do ouvido provocado pelo álcool,a terra, o sono, a sufocação.

O texto vai desenvolvendo de maneira ilustrada, quase comentada. “o espetáculo de uma consciência em funcionamento”. Podemos, a cada passo, acompanhar com o personagem cada etapa do processo de diluição do peso da existência humana diante da imensa opressão do infinito da vida.

Desta forma, há a realização de uma possível comunhão da Filosofia com a Literatura,apresentando as vantagens dos recursos estéticos no desenvolvimento de um raciocínio filosó­fico, sobre uma tese qualquer.

Os operadores estéticos fazem encobrir a aridez do conflito existencial puro, considerado pelo discurso da Filosofia na trama confusa e opaca de uma existência individual, sem grandes pretensões de importância. O texto não procura dimensionar juízos de valor sobre o discurso filosófico, nem sobre o discurso literário. Há um processo de intercomplementaridade de visões que proporciona um grande momento de reflexão, esteticamente construído.

Há uma proposta existencialista clara: o jogo estabele­cido entre essência e existência. Tal ludoterapia proporciona ao indivíduo a possibilidade de reabilitação de seu próprio ser diante da náusea, que o acomete perenemente. Luís da Silva participa do jogo e vai desfiando um novelo, procurando estabelecer parâmetros que possam beneficiá-lo na busca de solução de suas dúvidas, apreensões e projetos.

O professor Rui Mourão nos apresenta mais alguns elementos de orientação nas observações possíveis, no seguinte trecho de seu livro, já citado anteriormente:

“A impressão que se tem é de que, havendo atingido,nas suas viagens pelo tempo, o campo da meninice, de lá não deseje retomar. O presente em que nos coloca é qualquer coisa de anestesiante – um presente comprometido pela inação, um presente que parece estar fora do tempo,por não ser capaz de dar a ideia de sucessividade. Ele pertence à atualidade ou ao passado? À atualidade, mas bem que poderia pertencer igualmente ao passado, uma vez que o personagem insistia de tal maneira em reviver os dias idos que o passa­do acaba por se tomar a sua atualidade”.

Podemos dizer que, de acordo com estas observações, o texto de Graciliano Ramos apresenta as implicações da escolha do que se quer ser para a comprovação da tese – uma das principais – do Existencialismo. Estas constituem um pressuposto fundamental:a liberdade. O ser pode optar por sua existência e, assim, se localizar no tempo. Luís da Silva faz sua opção e percebe que a angústia que vivencia pode ter plantado uma de suas raízes na fundamentação desta liberdade de escolha. Ele escolheu uma dentre as inúmeras manifestações de possibilidade existencial veiculadas pelo tempo.

O fato de prender-se à prática de escrever artigos para o jornal, o fato de ser funcionário público, o fato de ser apaixonado por Marina e o fato de ter de se livrar de Julião Tavares – seu rival declarado – dimensionam e conduzem a opção de Luís da Silva, apontando para elas a solução que parece a mais adequada,aquela que poderá aplacar um pouco sua própria angústia, pacificando seu espírito. O sentir-se acuado pode terminar como uma solução procurada. Não é inoportuno apontar aqui uma abertura para possível abordagem psicanalítica do mesmo processo de opção entre as possibilidades de solução do im­passe existencial[9].

Podemos ainda observar que o texto se limita a acumular uma única forma verbal,contrariando as possibilidades de estabelecimento de uma sucessividade na apresentação dos fatos. A contraposição de formas verbais viabilizaria esta sucessivida­de. No entanto, parece que a atitude do autor é intencional. Mais uma vez, podemos dizer que o procedimento narrativo esco­lhido e responsável pela busca constante de compatibilização entre os discursos filosófico e literário;ou ainda, por sua intercomplementaridade operacional o significativa.

No fundo, os resultados obtidos por tal procedimento são essencialmente mais importantes:o texto construído em sua atemporalidade evidente, faz tornar mais perceptível a definição do drama existencial de Luís da Silva. Ele torna-se,gradualmente, mais visível em seus “flancos”.

A ansiedade intensa, a preocupação exclusivista de Luís da Silva, abrangem, de tal maneira, todas as áreas de sua consciência, que seus mergulhos no passado,no mundo da memória, não passam de ilusão. O que consegue é, simplesmente,trazer o passado para o presente, misturar as recordações com as angús­tias atuais e agravar ainda mais a sua atualidade de animal acuado. Tudo isto se deve à comparação que se estabelece entre as duas fases de sua vida.

A vida de Luís da Silva não é recheada de novidades, ao contrário, parece repetir sempre o clima de angústia e de per­da, que tivera sua primeira instância com a morte do próprio pai:

“O personagem narrador age de maneira intencional.Não está sendo lançado para esse ou aquele lado das lembranças, ao sabor de momentânea e ocasional emotividade, porém se encaminha para um destino certo,fixa uma data. Sentimos que está se colocando num ponto de partida para relatar uma história (…). Lutando, durante todo o tempo, pura escapar da consciência,via permanentemente frustrarem-se os seus esforços: não con­seguia se proteger satisfatoriamente no passado, nem obtinha apoio efetivo na realidade em que vivia.Acossado, correndo o risco de sucumbir, foi conduzido ao caminho do se esvaziar pela confis­são. (…) O sentido da segregação é por demais vivo no personagem e isso vai sendo marcado diante te de nos à medida que nos estampa a sua cosmovisão, que inclui como que uma barreira que o separa de tudo o mais. (…) Emparedado dentro de si próprio, o personagem não tem qualquer diretriz, não busca avançar em qualquer sentido –naufraga irremediavelmente. Entrega-se ao sabor de suas emoções, que não passam de insolúvel obsessão, de eterno retornar aos mesmos pontos”[10].

Este longo trecho parece comprovar, através de especulações sobre o texto de Graciliano Ramos, o exercício das principais teses existencialistas na pessoa de Luís da Silva. Ele se sente acuado – num determinado momento de sua vida, não podemos nega r–, tem necessidade de dar vazão à sua angústia, percebe-se um verdadeiro oceano de possibilidades, faz sua opção, reage aos acontecimentos dela decorrentes sem faltar com sua responsabilidade, leva suas atitudes às últimas consequências, e,como era de se esperar, parece tornar-se um homem de espírito pacificado.

Para terminar esta exposição, gostaríamos de citar outro trecho do texto de Graciliano Ramos que, a nosso ver, pro­porciona uma visão sintética de uma possível formulação existencialista de sua narrativa. É o seguinte:

“A réstia descia a parede, viajava em cimada cama, saltava no tijolo –e era por aí que se via que o tempo passava. Mas no tempo não havia horas, 0 relógio da sala de jantar tinha parado. Certamente fazia semanas que eu me estirava no colchão duro, longe de tudo. Nos rumores que vi­nham de fora as pancadas dos relógios da vizinhança morriam durante c dia. E o dia estava dividi­do em quatro partes desiguais uma parede, uma cama estreita, alguns metros de tijolos, outra parede. Depois era a escuridão cheia do pancadas, que às vezes não se podiam contar porque batiam vários relógios simultaneamente, gritos de crianças, a voz arreliada de d. Rosália, o barulho dos ratos no armário dos livros, ranger de armadores, silêncios compridos. Eu escorregava nesses silêncios, boiava nesses silêncios como numa água pesada. Mergulhava neles, subia, descia ao fundo, voltava à superfície,tentava segurar-me a um galho. Estava um galho por cima de mim, e era-me impossível alcançá-lo. Ia mergulhar outra vez, mergulhar para sempre, fugir das bocas da treva que me queriam morder, os braços da treva que me queriam agarrar”.

***

 Conclusão

Luís da Silva e um homem qualquer. Sua condição não o coloca em posições privilegiadas de existir, mas vai proporcionando situações optativas. Sua angústia aumenta na medida em que vai se sentindo mais pressionado, acuado mesmo, por uma situação absolutamente insustentável.Ele decide por uma atitude; determinadamente, arca com as suas consequências,pacifica-se. Este personagem é comum, é ímpar, mas é cada um de nós. Sem qualquer condicionamento temporal, ou mesmo circunstancial, peculiar.

Graciliano Ramos, no plano da narrativa, cria um universo por demais conhecido. Com um toque de gênio, porém, transforma sua história num primoroso tratado, quase um estudo de caso – como ousamos chamar a última parte deste trabalho – onde ca­da detalhe descritivo, cada ponta de pensamento do personagem, deflagra um processo de abordagem do ser do homem, em obediên­cia quase servil às principais teses do Existencialismo.

Não há, e isto não seria absolutamente necessário, pre­ocupação com escolha deste ou daquele filósofo e de sua doutrina ou sistematização[11].

O pensamento é um processo fluído e acumulativo. Este postulado é que orienta os parâmetros filosóficos do texto li­terário.

Luís da Silva sente-se insatisfeito, angustiado mesmo, com sua condição socioeconômica e aflige-se com uma paixão não resolvida, não consumada. Os oponentes são muitos.O indi­víduo sente-se acuado pela própria impassibilidade que enfati­za a finitude de seus recursos diante do peso infinito da existência. O indivíduo busca sua essência e pressente o momento de optar por caminhos que viabilizem sua finalidade existencial.Luís da Silva conhece as consequências do ato pensado e age, assumindo total responsabilidade por sua própria opção. Cônscio de que pode perder sua liberdade por não poder desfrutar de sua paixão, resolve colocar um ponto final no peso opressivo da angústia que pontua sua vida e elimina seu principal oponente – Julião Tavares – quase um símbolo. O indivíduo pacifica-se e então percebe a profundidade do “nada”, do “naufrágio” completo que conclui todo o processo de eleição.

A narrativa de Graciliano Ramos utiliza de recursos de linguagem, aparentemente simples, como meio de viabilizar um discurso filosófico de alto nível. A ousadia de utilizar pala­vras corriqueiras em detrimento de vocábulos técnicos, ou antes, específicos, nos proporciona grande abertura para penetração no texto. Os personagens não alçam grandes voos estilísti­cos e sua vida fica quase ensimesmada: há completa identifica­ção com o concreto do dia adia.

A dificuldade em se estabelecer de quem e a voz narrativa, livra o discurso de se tornar pesado, ou mesmo pastoso. Este último adjetivo se aplica, magistralmente, ao universo diegético aí reside uma de suas qualidades filosóficas, a materialidade da náusea sartreana.

O livro nos coloca em contato com alguns momentos de uma vida qualquer. Paradoxalmente, sua universalidade é inegá­vel. Ao lado do altíssimo nível estético do texto, podemos ad­mitir, sem qualquer dúvida, a profundidade filosófica de sua frase.

Se um dos grandes impasses da pretensa ciência literária é encontrar exemplos deligação estrutural e artística da pró­pria Literatura com a Filosofia, temos com Angústia um exemplo perfeito desta integração. Voltando ao início de nossas obser­vações, basta apenas prestar atenção ao nome da obra…

***

Bibliografia

A – De análise

RAMOS, Graciliano. Angústia. 3 ed. Rio de Janeiro, Editora e Livraria José Olympio, 1947.

B – Crítica

CRISTOVÃO, Fernando Alves. Graciliano Ramos: estruturas e valores de um modo de narrar. 2 ed. Rio de Janeiro, Editora Brasília/Rio, 1977. Coleção Letras.

LIMA, Luís Costa. Por quê Literatura?. Petrópolis, Editora Vozes, 1966.

MOURÃO, Rui.  Estruturas: ensaio sobre o romance de Graciliano Ramos. Belo Horizonte, Edições Tendência, 1969.

C – De apoio

BUENO, Francisco da Silveira.Grande dicionário etimológico-prosódico da Língua Portuguesa. São Paulo, Edição Saraiva, 1963.

CUNHA, Antônio Geraldo da. Dicionário etimológico Nova Fronteira da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro, Editora Nova Fronteira, 1982.

FATONE, Vicente. Introducción al existencialismo. 4 ed. Buenos Aires, Editorial Columba, 1962. (Coleção Esquema,4)

FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Novo dicionário da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro, Editora Nova Fronteira, 1975.

FOULQUIÉ,Paul. O existencialismo. Trad. de J.Guinsburg.  São Paulo, Difusão Europeia do Livro, 1955.

GARAUDI, Roger. Perspectivas do homem. Trad. de Reinaldo Alves Ávila. 2 ed. Rio de Janeiro, Editora Civilização Brasileira, 1966.

KIERKEGAARD, Sören. O conceito de angústia. Trad. João Lopes Alves. 2 ed. Lisboa, Editorial Presença, s. d. (Coleção Divulgação e ensaio, 7)

LIMA, Alceu Amoroso. O existencialismo. Rio de Janeiro, Livraria Agir Editora, 1951.

PENHA, João da. O que é o existencialismo. São Paulo, Editora Brasiliense, 1984.(Coleção Primeiros passos)

(Trabalho final da disciplina Filosofia e Literatura, Prof. João Ferreira)


[1] Esta afirmação vem deixar clara nossa isenção com relação a toda e qualquer crítica que possa ter sido veiculada a partir da consideração da obra deste autor sob o enfoque do Existencialismo.Partimos deste pressuposto, pois o nosso objetivo maior esta além deste trabalho, o que não deixa de ter sua importância peculiar.

[2] A escolha desta palavra é completamente arbitrária. Poderíamos ter escolhido “existência”, já que se liga por traços etimológicos ao tema do trabalho – o Existencialismo. Pareceu-nos mais interessante, porém, estabelecer uma ligação com o clima, o tom, o tema suscitado pela obra, através de seu título.

[3] FATONE. Introducción al existencialismo…

[4] BEAUVOIR,Simone de. O existencialismo e a sabedoria das nações. Lisboa, Editora Minotaure, 1965 (Coleção Ensaio)

[5] FOULQUIÉ, Paul. O existencialismo

[6] Idem.

[7] FATONE, Vicente. Obra citada.

[8] MOURÃO, Rui. Estruturas: ensaio sobre c romance de Graciliano Ramos…

[9] Esta observação se fundamenta numa constante alusão à pessoa do avô do personagem, juntamente com outras imagens do passado do próprio Luís da Silva: Rosenda, o pai, alguns aspectos de sua vida ulterior. Em termos de abordagem psicanalítica, é interessante notar a falta de alusão explícita à imagem da mãe do personagem. Todas estas possibilidades têm, além de tudo, a missão de remeter sempre a uma consideração fenomenológica do texto em estudo.

[10] MOURÃO, Rui. Obra citada.

[11] Esta afirmação não pretende anular a validade de toda a diversidade do pensamento filosófico existencialista. Tentamos apenas condensar as correntes mais representa­tivas, em grandes linhas de pensamento, procurando recuperar os pontos recorrentes 
– mesmo que identificados por terminologia diferenciada, apesar de sinônima, mui­tas vezes – das principais posições.Respeitamos a ordem de evolução do pensamento existencialista e acatamos sua ordenação; tendo em vista que nunca é demais ousar…

De finais e de começos – conclusão

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Pois muito bem. Pode ser que a leitura dos trechos que aqui divulguei não tenha sido suficiente para entender a minha proposta de leitura. Dizendo melhor, talvez os trechos não tenham colaborado para esse fim, em lugar da leitura que pode ter sido proveitosa. Num ou outro caso, só me resta dizer que, para não fugir de um “chavão”, a intenção foi a melhor possível.

Neste primeiro mês de aposentadoria, confesso minha alegria de ter conseguido estabelecer um ritmo de leitura que há muito não desfrutava com tanto prazer. O fato de não ter que ler a não ser pelo prazer de ler, ele mesmo, sem mais “que tais”, é algo que não pode ser colocado em palavras, sob pena de perder a espessura e a profundidade do sentido da experiência. Nesta linha de raciocínio, devo fazer outra confissão: a gratificação de experimentar na leitura das páginas que se sucedem sob meu olhar nesses dias – acima de tudo, aquelas que constituem os três volumes de Rodrigo Gurgel (estou no começo do terceiro livro dele, mas tenho a certeza de que o prazer e a gratificação vão se repetir positivamente). Esta gratificação se deve à constatação de que penso quase do mesmo modo que o autor destes livros, no que concerne ao conceito e à prática da crítica literária. Aqui vou deixar uma lacuna, em forma de lacuna: leiam os livros do Rodrigo Gurgel para saber o que se entende de fato – ele e eu neste time – por “crítica literária”. Este prazer, para blaguear a peça publicitária: “não tem preço”!

Isto posto, cabe-me apenas concluir. A diferença entre a intenção e o gesto, mesmo aqui, neste meu exercício, vai se manter incomensurável. Não posso controlar a reação e o entendimento dos olhos que me acompanham. Os dois começos apontam para um tópico recorrente na Literatura Ocidental: intertextualidade. O ponto de fuga assenta-se na distância cronológica entre os dois romances. Determinado este pressuposto, faz-se plausível perguntar: é fato que Graciliano Ramos leu Machado de Assis, a ponto de deixar indelével em sua fabulação o impacto da leitura da obra do mulato do Cosme Velho? As similaridades entre os dois capítulos, se não atestam, também não impedem tal ilação. Ainda que a perspectiva seja diferente, como eu aponto – Graciliano, para o enfoque coletivo, social e Machado para o enfoque individual, subjetivo – acabam por fazer o mesmo percurso discursivo: o relato de desenvolvimento de uma proposta natimorta. Ela é assim porque tanto num caso como noutro, os narradores que anunciam suas propostas não são capazes de realizá-la, de cumpri-la. Cada um, a seu modo, em certa medida, acabam por atestar seu próprio fracasso. Este tema, quer me parecer, é mais recorrente em Machado. Por isso mesmo, penso, com veemência – porque, a fim e ao cabo, a gente não é capaz de ter certeza de nada –, que a pergunta que fiz como provocação de meu exercício de leitura é plausível, faz sentido.

Por outro lado, os finais, ambos considerados no âmbito da obra de um mesmo autor, apontam não mais para uma tematização do fracasso, como aventado antes. Neste caso, os finais reafirmam o caráter sarcástico do humor melancólico e um tanto sombrio de Eça de Queiroz. Ao lado desta característica, desponta outra, talvez um tanto mais implícita, coisa que não me convence: a consideração da hipocrisia como constituinte da identidade cultural lusitana sobretudo quando considerada em sua conformação finissecular. Carlos da Maia e Amaro personificam, cada um a seu modo, obedecendo os ditames protocolares da classe social a que pertencem o efeito do exercício da hipocrisia como conditio sine qua non para certo “sucesso”, ainda que passível de questionamento e, até, condenação. Num e noutro caso, a “ata finda” de minha proposta se assenta na possibilidade de se fazer Literatura Comparada no âmbito de uma mesma língua – impossibilidade que marca os primeiros passos dessa nova prática hermenêutica dos/nos estudos literários na/da virada do século 19 para o 20. A outra possibilidade é a de fazer Literatura Comparada entre obras de um mesmo autor. Penso que, nos dois casos, o exercício da leitura e a construção do sentido com participação definidora do leitor são as práticas comparatistas que se especificam, se desdobram, se desenvolvem em propostas cada vez mais abrangentes e flexíveis, numa tentativa – acredito que mais uma – de acompanhar a mesma volatilidade deste fenômeno que não se contém nem pode ser contido: a Literatura!

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Ecos do passado

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Com a proverbial preguiça que me acomete, ainda me ressinto do que senti ontem e não sei definir em palavras. Depois da macacada dos togados, autoridades em Pindorama. Ainda não sei. Apreensão. Dúvida. Não sei de mais nada… Assim, nesta maré de nada, resolvi colocar aqui um texto que escrevi ainda em Santa Maria. Foi apresentado em Toulouse, certa feita, nos idos dos 90 do século passado… Alguém discordou do plot: punição. Já pensei em reescrever… mas já viu né… Aí vai ele:

AS MULHERES E AS LÍNGUAS: PUNIÇÃO E IDENTIDADE PELA LEITURA

José Luiz Foureaux de Souza Júnior UFSM – BRASIL

Para Hélène e Amanda.

(…) a ardilosa realidade da condição feminina confrontou muitos homens da classe média – e muitas mulheres também – com a necessidade de clarificar atitudes, de pôr preconceitos à prova, de tomar decisões. A auto percepção do homem estava em jogo. Os sentimentos exasperados que essa situação provocou, e as numerosas controvérsias que ela gerou, só podem deixar atônitos aqueles que não conseguem perceber a preponderante parcela de sentimentos ocultos existente na criação de atitudes sociais e ideologias políticas.

(Peter Gay)

Não há muito exagero em dizer que esse século é marcado por dois momentos ideológicos contraditórios, aliás, aparentemente contraditórios: a paródia e o ceticismo. Duas observações iniciais são necessárias. A questão da ideologia é por demais complicada, mas tomo aqui a palavra em seu sentido mais primário, aquele que se refere a um conjunto de ideias, em tomo de um tema comum, por exemplo. A segunda observação se refere à contradição, ainda que aparente, passível de ser detectada entre esses dois movimentos. Essa contradição exigiria um ensaio completo para sua sustentação. Insisto nela apenas por uma questão de colocar em xeque as questões aparentemente certas e livres de problemas, dúvidas, etc.

Toda essa introdução se justifica por força da qualidade de um escritor latino-americano que, na minha opinião, e conforme o quadro de referências apresentado, pode ser tomado como paradigma dessa situação, principalmente no que se refere à literatura. Trata-se de Jorge Luiz Borges. Esse nome é aqui referido explicitamente, por conta de uma de suas personagens mais intrigantes: Pierre Menard. Essa personagem é responsável pela tentativa de reescrever o Quixote, tentativa que acaba por deixar metaforizada a grande ansiedade da literatura, a busca de uma origem e/ou de uma originalidade absoluta de uma utopia.

A referência a Pierre Menard vai me levar ao ponto inicial de minhas considerações nessa comunicação. Trata-se de um artigo de Silviano Santiago, chamado “Eça, autor de Madame Bovary”. Em linhas gerais, o ensaio do crítico brasileiro coloca em discussão uma das instâncias textuais mais complexas, o autor. Santiago coloca em questão a composição narrativo-estrutural de dois romances escritos em Língua Portuguesa – O primo Basílio, de Eça de Queirós e Dom Casmurro, de Machado de Assis – ambos tomados como uma reapropriação de Madame Bovary, de Flaubert. Por que a insistência no nome dos autores? Porque, na verdade, essa referência vai explicitar um dos objetivos, mais genérico, dessa comunicação, que é pensar a questão da identidade que se constitui, também, na língua e em seus usos. Essa identidade deve ser, aqui, considerada uma experiência permanentemente recomposta, inapropriável. Pois bem, Santiago discute a possibilidade de pensar a escrita de seu romance como um plágio[1] – ainda que essa seja uma palavra muito forte – do romance do escritor francês. O sentido de plágio, aqui, não se recobre de censura ou condenação porque, enquanto o leitor de um texto é sempre um outro, é possível considerar que o texto é a lembrança de uma tela, algo que faz lembrar de um “texto” anterior. Assim, a leitura remete ao desejo de um grau zero da escritura[2] que nunca existiu

Outra ideia a ser considerada aqui é a de que a leitura é sempre uma escritura de segundo grau, não apenas em relação à realidade cultural representada no texto, mas também da escritura ela mesma. Assim, o plágio é apenas um caso particular de escritura e, eu diria, um exercício de leitura sempre derivada de uma outra leitura. A proposta de discussão se assenta numa crítica contemporânea a Machado de Assis que o teria acusado de plagiar o romance de Eça. A argúcia do crítico brasileiro relê as linhas dessa proposta de polêmica, gênero muito comum no final do século XIX e início do nosso, para desenvolver um raciocínio brilhante acerca da questão da questão da “autoria” de um texto literário, o que acaba por refletir-se na consideração do que costuma denominar de identidade cultural.

Meu interesse particular é propor, a partir dessas premissas, um caminho de reflexão sobre a relação intercultural que pode ser identificada e analisada a partir da leitura comparativa dos três romances anteriormente citados. Vale lembrar que a leitura é, ao mesmo tempo, uma atividade individual e social.[3] Ideologia e coletividade se intercambiam dando forma ao que podemos chamar de discurso cultural. Quando se faz esse tipo de consideração no âmbito do que se conhece por língua, é necessário afirmar que a leitura é, em si mesma, um acontecimento em que a própria língua se transforma. E claro que não vou concluir essa discussão aqui, nem, tão pouco, ouso desenvolver toda uma hipótese teórica. Minha arrogância se junta à minha honestidade intelectual para apenas determinar algumas linhas que considero plausíveis e básicas para repensar uma série de coisas – entre outras a relação inter­lingual que pode ser pensada nas atividades de leitura no ensino superior. Não interessa aqui a discussão pura e simples de diferenciações identitárias entre língua materna, língua estrangeira e língua segunda, por exemplo. No entanto, acredito que tais especulações podem abrir mais um caminho para a discussão de questões pertinentes a essas três categorias.

Uma outra motivação para a apresentação de minha proposta de especulação é o fato de que nos três romances em referência, a cena final é idêntica. Cada um a seu modo, acaba por apresentar uma situação de punição da mulher que se identifica com um traço atávico da cultura ocidental, daí a possibilidade de pensar a identidade cultural, na interlocução entre língua portuguesa – do Brasil e de Portugal – e língua francesa. O pano de fundo é o trabalho com a leitura de textos literários, no ensino superior.

É necessário esclarecer que por “cena final” estou entendendo, aqui, a sequência narrativa que culmina com a morte das três protagonistas – Ema, Luísa e Capitu. Em rápidas pinceladas o que acontece é o seguinte: no caso de Ema Bovary, o narrador nos apresenta o suicídio de Ema, por um motivo que é recorrente ao longo do romance – a insatisfação da protagonista e sua sede de prazer e felicidade, abortados pelos repetidos malogros amorosos, inclusive, o matrimônio; nesse caso a punição se dirige à devassidão. No caso do romance português, a protagonista é punida com uma febre inexplicável, e mortal. Sem quê nem porquê, da noite para o dia, Luísa amanhece febril, seus cabelos são cortados – aí está o significante da punição – e ela morre; seu pecado foi a traição aos princípios burgueses de fidelidade conjugal. Em Machado de Assis, a situação é análoga, mas a motivação é um tanto particular, porque burguesia e devassidão não se juntam, mas induzem Capitu a cair na rede do ciúme atormentado de Bentinho: não se pode “afirmar” que houve o adultério. À parte as diferenças no tratamento ficcional dado ao tema do adultério nos três romances, considero importante colocar algumas reflexões pormenorizadas – guardadas as proporções do espaço de minha comunicação – acerca de cada uma das narrativas. Adianto que não vou me deter na questão vocabular por si mesma, ainda que, ao final, venha a propor um direcionamento das considerações para o campo da tradução.

No caso do romance de Flaubert, temos um casal de província que é – e esse fato é fundamental para entendermos um pouco das perspectivas de leitura de romances franceses do século XIX, devedores convictos de uma tradição descritivo-realista fundamental para a literatura da época, o casal de protagonistas sacramenta, com seu casamento, um contrato burguês no campo: nada da burguesia urbana que vai caracterizar outras narrativas ficcionais da época, mas a insistência na articulação entre provincianismo e vida no campo. Ema é uma mulher “romântica”, por vício de formação. Leitora dos românticos mais em voga, vive influenciada pelo imaginário romântico e desenvolve uma procura desesperada de ascensão social aliada ao prazer sensual. Nesse desejo desenfreado por mudança de status existencial, Ema recusa sua condição provinciana, em nome do desejo burguês de bem viver. Nesse sentido, seu casamento se reveste de uma aura de interesse, marcada pela busca de um status social diferenciado. Em contrapartida, Charles, o marido, reconhece, ao longo do romance, sua falência como marido mesmo, enquanto instrumento de realização marital dos desejos de ascensão social de Ema. Ela ama sua mulher mas não perde de vista seu perfil estreito de médico de província, o que lhe impões e à mulher, uma série de limitações absolutamente frustrantes para ambos. Dadas essas condições, a punição de Ema – veiculada por um suicídio que nada tem de covarde, mas funciona como admissão do fracasso, no sentido nietzcheano – funciona como sentença social provinciana para o pecado da devassidão. Na esteira da luxúria, Ema perde o controle da situação e se deixa arrastar numa enxurrada de “crimes” que não podiam ficar impunes: o moralismo provinciano da burguesia do campo não o permite.

Num segundo momento, temos o casal formado por Luísa e Jorge, igualmente provincianos, mas de um provincianismo citadino, urbano – como requer o código da modernidade. Luísa também é leitora dos românticos franceses, mas ao contrário de Ema, não se sente atraída por mais nada além do que já possui: boa casa em Lisboa, empregados, um marido dedicado e todos os confortos que o modelo burguês poderia oferecer. Seu paraíso começa a ser ameaçado com a volta de um primo, amor antigo, atropelado pelo casamento apaixonado. O contrato burguês aqui se localiza na cidade, como já se disse. Há de se insistir que um certo provincianismo pode ser detectado nesse quadro narrativo, mas um provincianismo dirigido à situação de Lisboa no contexto europeu “fin-de-siècle”. Jorge é o protótipo do macho bem sucedido, para a época. O detalhe que chama a atenção no aparente equilíbrio da cena de fundo é o fato de que a célula dramática do romance é espelhada no texto do próprio romance. Na mise-en-abyme realizada pelo narrador, Ernestinho, uma das personagens do romance, escreve uma peça cujo fim é vivenciado pelo casal de protagonistas. O marido é traído e deve decidir sobre o destino da mulher adúltera. Coincidentemente, ela morre, mas não por meio da febre que vitima Luísa. Esse espelhamento em profundidade pode remeter à narrativa de Flaubert, recuperada pela dicção narrativa de Eça de Queirós que, por meio de insistentes comparações da vida lisboeta com a mundanidade parisiense, acaba por reduplicar a situação de insatisfação vivida por Ema e sua punição que, no caso de Luísa, é revestida de uma erudição atávica no perfil culto-intelectual dos portugueses. Em outras palavras, a morte de Luísa remonta à punição medieval das mulheres tomada pelo demônio. Os jesuítas, mestres na arte de “arrancar” confissões de obsessão de homens e mulheres têm uma participação mais que profunda na formação do caráter religioso dos portugueses. Essa marca se deixa transparecer quando Luíza tem a cabeça raspada. Esse elemento dramático pode ser associado ao ritual inquisitorial, já referido, o que, por sua vez, na economia do romance de Eça acaba por explicitar urna faceta da religiosidade – marca indiscutível da identidade cultural portuguesa.

Fiquemos, agora, com algumas considerações acerca do romance de Machado de Assis. De maneira diferente, em relação às duas protagonistas já citadas, Capitu tem uma personalidade forte. Moça decidida, resolve todas as situações com um senso de objetividade e equilíbrio, que superam o próprio Bentinho, personagem fraca e indecisa, apesar de nomear a narrativa, fato que o faz coincidir com Basílio, o vértice do triângulo de adultério estabelecido no romance português. Bentinho, como já se disse, é fraco e seu espírito frequentemente assaltado por dúvidas e inseguranças. Talvez seja resultado da força impositiva da mãe, substituída depois pela objetividade de Capitu. No fim de sua trajetória narrativa, Bentinho é um homem atormentado por um ciúme doentio, um pouco fruto de sua imaginação, associada à insegurança que lhe marca a personalidade. Suas fantasias são comuns quando se pensa no perfil do homem burguês – na perspectiva de Peter Gay que coloca no homem um temor desmedido pelo “sexo misterioso” da mulher, o que acaba por refletir uma insegurança em relação à possibilidade de perda de seu lugar na hierarquia social da burguesia fin-de-siècle. Ainda sobre Dom casmurro, é necessário que se diga que os nomes das personagens são significantes mais que sintomáticos das situações aqui referidas. A mãe de Bentinho se chama Glória; Capitu, na verdade, se chama Capitolina, o que remete o significado de seu nome para o campo semântico da superioridade que marca sua personalidade. Bentinho, ele mesmo, tem no nome um diminutivo ambíguo, ao mesmo tempo carinhoso e depreciativo.

Todas essas considerações, a meu ver, remetem para uma reflexão acerca do exercício da leitura. Não há como negar o valor das teorias que se debruçam sobre essa perspectiva de trabalho com o texto, seja ele literário ou não. No caso específico da literatura, pode-se pensar nas considerações de Wolfgang Iser[4] e todo um ideário acerca do ato de leitura, ato fundador de sentido. No que se refere ao ensino de língua, tal perspectiva me parece igualmente válida, uma vez que o texto literário, para além de suas questões particulares, apresenta, no mínimo, duas outras facetas instigantes para esse trabalho. De um lado, a possibilidade de se pensar e discutir e refletir e teorizar acerca das representações que a própria linguagem, utilizando determinado código linguístico, acaba por construir de urna cultura. O texto literário é porta voz desses discursos difusos, subliminares, aparentemente inocentes. De outro lado, a questão das formas linguísticas elas mesmas que, confrontadas pela ótica da tradução – por exemplo – apresentam outro fecundo conjunto de variáveis igualmente fecundas. Além do mais, o texto literário encena um sujeito que escapa do controle gramatical de uma língua. Em outras palavras, o eu que fala no texto, na linguagem, nunca é, nem poderá sê-lo, uma entidade compacta, única. A história de sua nacionalidade, os traços de sua cultura, as entorses de seus códigos sempre serão mais fortes. A leitura, ela mesma, é reveladora desses subterfúgios nos quais o eu do leitor se identifica com aquele outro, o que o faz repetir a mesma série de considerações Assim, estabelece-se uma mise-en-abyme constante, crescente e circular, girando sempre em tomo da utopia de uma língua adâmica, original, como queria Haroldo de Campos.[5]

Tudo isso pode ser correlacionado quando, se o quisermos, tomamos a representação agenciada pelo discurso desenvolvido na linguagem ficcional, através, por exemplo, da descrição realizada no romance, qualquer que seja ele. Muitas teorias devem haver sobre as inúmeras possibilidades que o texto ficcional oferece. Nesse sentido, o que disse sobre os três romances, no curto espaço dessa comunicação, acaba por propor uma linha de discussão que pode, por exemplo, eleger a paródia como inversões narrativas, enquanto formas de leitura intercultural Silviano Santiago estaria certo, então, ao considerar Eça de Queiroz autor de Madame Bovary, apenas pelo fato de ter tomado a categoria de “autor” como aquele – dentre outras – que privilegia a consideração de um discurso intercultural agenciado e permitido pela linguagem literária que é “lida”. Assim, na conclusão desse conjunto de provocações, creio ter deixado clara a minha proposta de encaminhamento não apenas de uma discussão teórica sobre o assunto – no sentido da determinação de possíveis “modelos” para as análises possíveis, mas um encaminhamento até certo ponto prático, um exercício demonstrativo das ideias que gostaria de ver discutidas e teorizadas aqui e em outras oportunidades. É nesse sentido que considero pertinente declarar que a Literatura Comparada, enquanto pretensa disciplina, é interessante para a “leitura”, enquanto metodologia de trabalho teórico na Universidade.

[1] SCHNEIDER, Michel. Voleurs de mots. 1985, p.47-70.

[2] BARTHES, Roland Le degré zéro de l’écriture. 1972, p. 165-167.

[3] NUNES, José Horta. Formação do leitor brasileiro. 1994, p.9-12.

[4] ISER. Wolfgang. The act of reading: a t theory of asthetic response. 1980.

[5] CAMPOS. Haroldo de. Deus e o diabo no Fausto de Goethe. 1981. p. 179-209.

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Muxoxos

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Outro dia, conversando com uma colega, comentava a minha dificuldade em aceitar que a Literatura Comparada é uma “disciplina nova”. Muita gente usa esta expressão. Muitos autores de livros dizem a mesma coisa. Sandra Nitrini afirma que “As origens da literalura comparada se confundem com as da própria literatura. Sua pré-história remonta às literaturas grega e ro­mana. Bastou existirem duas literaturas para se começar a compará-las, com o intuito de se apreciai seus respectivos méritos, embora se estivesse ainda longe de um projeto de comparatismo elaborado, que fugisse a uma mera inclinação empírica.” Viu só? Minha colega e eu conversávamos sobre a possibilidade de eu utilizar as ideias que expus, a partir do argumento respaldado pela citação, num texto que poderia compor, no mínimo, parte do relatório de pesquisa em que estamos (estávamos?) trabalhando. O tal projeto busca averiguar as condições de ensino de Matemática e Língua Portuguesa, em princípio. A ideia era mapear as matrizes curriculares de diversos cursos de licenciatura em Matemática e em Letras, bem como dos cursos de Pedagogia. A hipótese era a de que há algo “fora do lugar” no que diz respeito à determinação das disciplinas consideradas fundamentais – no jargão institucional elas são chamadas “obrigatórias” – para a formação do professor de Matemática e Língua Portuguesa – por extensão, de Literatura Brasileira.

Pois bem. Não acredito que Literatura Comparada seja mesmo uma disciplina. Mais: penso que não chega a ser uma disciplina. Parto do pressuposto de que a mesma dúvida pode ser colocada em relação à Psicanálise: disciplina ou ciência? A discussão é longa e espinhenta – espinhosa daria outro colorido ao discurso, não desejado aqui! O argumento que se sustenta na citação que faço de Sandra Nitrini parece encontrar respaldo em outra citação, desta feita, de Tânia Franco Carvalhal: “Se à época de seu surgimento, no século XIX, a Literatura Com­parada punha em relação duas literaturas diferentes ou perseguia a migra­ção de um elemento literário de um campo literário a outro, atravessando as fronteiras nacionais, hoje é possível dizer que sua atuação se ampliou largamente. Essa ampliação, que corresponde a mudança de paradigmas e que provocou diversas alterações metodológicas na disciplina, constitui a própria história do comparativismo literário. De sua fase inicial, em que era concebida como subsidiária da historiografia literária (“une branche de Histoire Littéraire”, como diria Carré) passa a exercer outras funções, mais adequadas a outros tempos. Surgida de uma necessidade de evitar o fechamento em si das nações recém constituídas e com uma intenção de cosmopolitismo literário, a Literatura Comparada deixa de exercer essa função “internacionalista” para converter-se em uma disciplina que põe em relação diferentes campos das Ciências Humanas.

O contexto é sem dúvida diverso. Do mesmo modo que se poderia explicar a inexistência de comparativismo literário como atividade sistemática no século XVIII por não haver ainda se forta­lecido integralmente o conceito de nação e o estabelecimento de seus limites definitivos, poder-se-ia compreender as alterações por que passa a Literatura Comparada em nosso século no exame da consti­tuição das diferentes disciplinas que compreendem o domínio das Ciências Humanas e da necessidade que surge em relacioná-las para a compreensão dos fenômenos.

Vista a questão de outro ângulo, o de sua definição, é ainda numa perspectiva histórica que se poderia dizer que se antes a espe­cificidade da Literatura Comparada era assegurada por uma restrição de campos e modos de atuação, hoje, essa mesma especificidade é lograda pela atribuição à disciplina da possibilidade de atuar entre várias áreas, apropriando-se de diversos métodos, próprios aos obje­tos que ela coloca em relação.”

A autora coloca lado a lado os conceitos de “disciplina” e de “atividade sistemática” e carrega no tempero com a última afirmação, quando menciona certa “possibilidade” antepenúltima linha do trecho citado. Pois bem. Isso aqui não é um artigo, uma resenha, uma tese ou um tratado sobre Literatura. Blagueando, uma vez mais, o André Moscoso: isso é só a minha opinião. Mas insisto. Não vejo a Literatura Comparada como uma “disciplina nova”. Sem demérito nenhum, enxergo-a como uma ampliação do campo dos estudos literários. O conceito de “campo”, aqui, vem, obviamente, à sombra da Sociologia de Pierre Bourdieu. E mais, tal como a Psicanálise, penso que a maior eficácia e cristalina efetividade das práticas comparatistas (ou comparativistas… você escolhe!) vem da possibilidade de se colocar constantemente em questão todas as certezas que estas “práticas” venham a desenhar no horizonte de expectativas do referido campo.

Sei que esta postagem destoa de quase todas as demais, ao longo de todo o tempo de existência do meu blogue. Sou capaz de concordar, mas não me importo. Escrevi estas linhas pensando, a todo instante, nos magoes e magotes de estudantes que pensam que me fizeram de bobo quando assinaram as listas de presença por outros colegas; ou naqueles que copiaram trechos inteiros da internete para, equivocadamente, me agradarem com as respostas para as perguntas que fiz em provas e exercícios; ou ainda, para além destes, mais magotes e magotes de outros que sequer gastaram um instante de seu tempo na graduação para ler que seja uma linha de um dos muitos textos sempre disponibilizados. Sinceramente?! Não sei o que essa gente pensou quando fez isso. Mais, não sei o que essa gente pensa que sabe se, ao fazer um curso de Letras, não se preocuparam em ler, no mínimo uma página de ficção ou dois ou três versos de um poema, ou um parágrafo de um texto de crítica/história/teoria da literatura… E ainda assim, ao final, gastam tempo, energia, dinheiro e a paciência alheia para comemorar a conclusão do curso e o famigerado diploma… Durma-se com um barulho desses…

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Literatura Comparada

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Era uma vez uma gata.

Era uma vez uma gata que pariu dois gatinhos.

O dono (ou a dona… ai que preguiça dessa “coisa” de gênero”…) da gata que pariu os dois gatinhos deu um dos filhotes para sua empregada doméstica e outro para um médico veterinário. (Mais preguiça…)

A empregada doméstica não sabia ler e escrever. Vivia na casa de seu patrão. Não tinha família e não tinha vontade de estudar. Jamais teve um animal de estimação na vida e recebeu com muita alegria o gatinho.

O médico veterinário (Idem, ibidem) era especialista em felinos. Tinha uma clínica veterinária e era um estudioso contumaz. Ele também recebeu com muita alegria o gatinho.

Desta historinha, aparentemente, banal e sem graça, surge uma pergunta: quem trata melhor o gato?

O dilema que se institui me leva, como narrador desta historieta, a uma sugestão de resposta. Quem pode dizer se o gato foi bem tratado é o gato, uai!

O médico veterinário, especialista em felinos, possui toda a qualificação “profissional” e “científica” para tratar do animal, em que pese suposta capacidade de ter carinho pelo animal. Já a empregada doméstica, poderia esmerar-se em carinhos e cuidados, mais da ordem do afetivo do que que do “científico”. Quem pode dizer o que foi mais eficiente, prazeroso, eficaz, saudável, gratificante, sensato, etc., etc., etc., é o gato!

Essa parábola, eu usei numa prova de concurso quando questionado sobre uma crítica que fiz à pressuposta e presunçosa superioridade da Teoria da Literatura sobre a própria Literatura. O meu “ponto de fuga” foi, então, a ideia de que a Literatura, acima de tudo e antes de mais nada, é um “fenômeno” cultural que se materializa e não um “objeto” que se constrói e se dá como “natural”, por força da própria construção… A ideia de fenômeno me parece mais eficaz, por conta de sua espessura semântica e de sua extrema flexibilidade discursiva.

Foi partindo desta premissa – claro está que reconheço a possibilidade irrecorrível de seu questionamento, para o bem e para o mal! – que argumentei a favor de uma crítica à afirmação de que “Literatura Comparada” é uma “disciplina nova”. As aspas se justificam, no meu raciocínio, claro!  A primeira expressão é resultado de sua similar em língua francesa, sem tirar nem por: Littérature Comparée. Há que se destacar que rios de tinta já correram no esforço sempre contínuo de elucidar o alcance do sentido desta expressão. Os franceses são mestres nesta arte. Os sucedâneos, de qualquer nacionalidade ainda insistem neste caminho. Penso que, ao fim e ao cabo, a expressão apenas identifica um novo arranjo (quase) epistemológico para os estudos literários que sofreram um primeiro golpe (quase mortal) com a reviravolta que se processou nos estudos de linguagem, sobretudo os oriundos do grupo do Port Royal e imediatamente depois… culminando com a (famigeradamente aparente) pá de cal ensejada por Ferdinand de Saussure e seu Cours Linguistique Général.

Por outro lado, a segunda expressão entre aspas “disciplina nova” enseja dois planos de discussão. O primeiro diz repito à novidade. O segundo, ao conceito de “disciplina”. De antemão, vislumbro neste último, boa oportunidade de rever e reagenciar ideias de Michel Foucault, sobretudo aquelas vinculadas a duas outras: controle e poder. Para usar o adagiário: fica a dica. Quanto à novidade, a meu ver, não cabe gastar muita pólvora com jacu listrado (vide adagiário gauchesco). A novidade está no rearranjo e não na matéria. De fato, é o que penso, a Literatura Comparada acaba por estabelecer um princípio metodológico, de efeito epistemológico. Tal qual a Psicanálise, a Literatura Comparada se propõe (ou dever-se-ia propor) o constante colocar-se em dúvida, o recorrente questionar-se, deixando de lado a pretensa vocação a sustentáculo de verdades terminais que, semanticamente, decretariam o seu próprio fim. Dada a natureza da Literatura e, por via de consequência, de seus estudos, esta seria uma maneira mais efetiva de aproveitar as lições que os diversos “manuais” preconizaram na viradinha final do século 19 para o século 20.

Já estamos no final de segunda década do novo século e ainda há muito ranço, em que pesem os avanços e a evolução que marca a trajetória humana e sua inteligência sobre a face do planeta. Mas há que estar sempre se colocando a mesma questão de fundo, para não perder o fio da meada: aquele da transitoriedade…

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