Como “se dar bem” com uma tese de doutoramento.

Leia toda a obra de Walter Scott e tudo o que encontrar sobre ela. Leia os três romances indianistas – O guarani, Ubirajara e Iracema – do José de Alencar, e um que outro comentário, resenha ou artigo sobre eles. Afinal você vai escrever uma tese de Literatura Comparada. A sua proposta – você vai dizer isso na “Introdução” da tese e, depois, na hora de fazer a sua defesa – é comparar o trabalho ficcional dos dois, cada um utilizando sua língua, como instrumento de consolidação da identidade cultural à qual pertencem, utilizando, para tanto, o desenvolvimento de um uso nacionalizado” da própria língua: o scottish, no caso do Scott e o “brasileiro”, no caso de Alencar. Só esta proposta já vai angariar muitos “ah” e “oh”, tanto da banca de qualificação, quanto de alguns colegas – não todos porque, afinal, todo mundo é humano e “a inveja mata”. Escreva umas 450 páginas, espaço 1,5, margens de dois centímetros em papel A4; pode usar Times New Roman ou Arial. Tudo isso vai depender dos preceitos normativos exarados no regulamento do curso de pós-graduação ao qual você está vinculado(a). Dessas 450 páginas, 50 serão reservadas para Introdução, Conclusão e Bibliografia. As outras 400 podem ser divididas em dois momentos: uma montagem do “arcabouço teórico” de que você vai se servir para desenvolver sua tese e a “análise” propriamente dita – não se esqueça: comparativa. Veja que você já tem aí quatro capítulos que podem ser divididos em subcapítulos e este, por sua vez, em secções que podem, a seu critério, se espraiarem por tópicos e subtópicos. O negócio é seduzir o leitor – a banca, sobretudo, dado que depois de defendida e aprovada (se aprovada!) a tese vai ganhar a sóbria, circunspecta, conspícua, irrecorrível e seráfica pátina do tempo em alguma prateleiras aqui e alhures: suprema glória do academicismo mais erudito das/nas ditas “universidades” tupiniquins (Eu escrevi mesmo universidades?). Em outras palavras, o cartapácio vai comer poeira por todo o sempre. Pois bem. No desenvolvimento escrito de sua… tese, você deve se aprofundar cirurgicamente sobre os detalhes mais ínfimos do processo de constituição e consolidação do scottish, exemplificando com passagens mais que esmiuçadas dos textos do Walter Scott. Pra não dizer que você se esqueceu do “recorte” comparatista de seu trabalho, você solta aqui e ali, exemplos do Alencar, acompanhados, comme il faut, de comentários genéricos, que servirão, é claro, para corroborar tudo o que você disse a respeito do outro autor. Claro está que esse tratamento é mais que admirado pelos doutos arguidores que vão primar nos elogios, destacando sua acuidade, seu cuidado, sua atenção, sua delicadeza, a profunda imersão no “universo scottish” que serve, entre outras coisas, para justificar a aparente falência do escritor tupiniquim. Isso ratifica a importância de língua inglesa e sua coerência em relação ao que você já faz e vai continuar fazendo: enaltecendo a literatura de língua inglesa, salpicando suas apresentações de detalhes curiosos da produção ficcional “da terra”, em sua mesmice, sua futilidade, sua superficial faceta festeira, descompromissada e ingênua. Mais “oh” e “ah”, com sorriso matreiro da banca e da plateia – numerosa, claro, afinal, seu orientador é o coordenador do programa. Pronto. Você conclui sua defesa. Recebe seu diploma de conclusão do doutoramento. Já pode usar o “Dr.” na frente de seu nome e empinar o nariz quando forem apresentar você numa das miríades de mesas de comunicações livres nos inumeráveis congressos mundo afora. Aqueles que te dão 15 minutos pra você falar, enquanto quase ninguém presta atenção e, ao final, todos saem correndo para os fuxicos de bastidores no coffee break. O mais chato que pode acontecer é você se deparar, na banca, com um “ferrinho de dentista” que vai elogiar a manufatura da sua tese mas vai fazer aquela pergunta que você temeu escutar durante as quase quatro horas de defesa e arguição: “cadê a comparação?”. E você não vai responder. É este mesmo “ferrinho de dentista” que, na reunião fechada da banca para as deliberações finais, vai se recusar a assinar a ata de defesa que destaca sua tese com menção de louvor e recomendação para publicação. Ele estraga a sua festa. Põe água na sua fervura. O argumento vai ser a pergunta não respondida, por óbvio! Mas ele é só mais um “ferrinho de dentista”! Boa sorte!

PS: para sua alegria, o tal “ferrinho de dentista” jamais vai voltar a ser convidado para uma banca na universidade em que você se doutorou!

Ecos do passado – final

Depois de um período extenso – ainda que nem tanto – de ausência, volto para concluir a série que reúne textos que escrevi e sobre os quais não tenho informações mais detalhadas como origem, objetivo e localização. É isso, então, acabou!

De um como e um porque sem saber (ao certo onde)

As coisas se tornam menos importantes do que as ideias das coisas: tudo o que for feito às ideias das coisas inevitavelmente acontecerá também com as coisas.                                       .

(Fraser, citado por Freud em Totem e Tabu)

Toda dicotomia – e a que encadeia História e Literatura não escapa a esta regra – leva a pensar em dúvida, em questionamento. Os anos 60 e 70 estão embutidos neste quadro referencial. Eles foram um fervilhar, direto e constante, de ideias. Eles espalharam-nas como pó. Este texto acompanha e respeita esta tradição. O jogar ideias pode parecer uma prática criticável mas abala estruturas, incomoda e faz pensar. Como um ventilador ligado sobre um prato de farofa, come­ço com uma pergunta, uma dúvida: e se Américo Vespúcio, como o Jesus, de Saramago, se questionasse sobre os rumos de sua viagem, de sua missão, negando-se a embarcar? Talvez não estivéssemos aqui, pensando a dicotomia descoberta/invenção, presente de certa forma na cultura brasileira, mediada que é por uma Literatura formada e escrita numa lín­gua segunda, importada, imposta e, aqui mesmo, caracterizada por uma diferença plural que, por paradoxal que seja, identifica uma diferen­ça. Se o descobridor da América não tivesse descoberto a América, é bem provável que a cultura brasileira; não necessitasse de seu estatu­to de objeto de pesquisa constante. Parece claro afirmar que todo ob­jeto de pesquisa é um “objeto de desejo”.

A América, na palavra que a identifica, pode ser lida como um chiste perverso, construído com um nome de homem, e colocado na berlinda através desta mesma palavra. Muitos são os eventos que têm aconteci do aqui, sob a égide dos quinhentos anos de descobrimento da América. Fico pensando no padre que celebra a missa das vinte horas, na catedral. Desde o início do mês de outubro, ao lado do comentarista, ele fala da comemoração dos quinhentos anos de evangelização da América. 0 filme A missão é uma obra de arte que deve ser lembrada aqui. Não ape­nas por se tratar de uma obra de arte de inegável valor, mas também por colocar em discussão os custos e as consequências desta evangelização. É preciso que se diga que os jesuítas primaram pelo recalcamento da cultura autóctone para impor a religião católica aos índios que na América já viviam. Com esta atitude eles podem ser arrolados entre aqueles que, num certo sentido, inventaram a América. Sim, porque o desejo de trazer para cá a cultura europeia – portuguesa, espanhola, ou italiana, tanto faz – esboçou uma terra outra, radicalmente diferente da realidade que aqui se encontrou depois da descoberta. Respondendo a uma questão sobre o assunto, o crítico e ensaísta Wilson Martins fez declarações bastante instigantes, a saber:

Sim, mas as pessoas não pensam na alternativa. O que se queria? Que Colombo não descobrisse a Améri­ca? Outro a teria descoberto. As consequências seriam as mesmas. Ninguém nega o horror que foi o processo civilizatório, mas, de um ponto de vista rea­lista, não podemos evitar essas violên­cias que ocorrem a longo da História. Na Europa a civilização foi feita à custa de hecatombes de populações, guerras e, destruições. E é o que chamamos de civilização. Ou aceitamos esses males para obter o fim que desejamos ou então não fazemos nada. Os índios não podem ser conservados na Idade da Pedra em pleno século XX. Ou se adaptam ou serão destruídos. Não porque tais pes­soas vão lá para destruir os índios. Eles serão destruídos no processo civilizató­rio porque não viverão mais no seu tempo. Sei que essa é uma posição impopular, mas temos que enfrentar essas questões seriamente.

Será que as coisas se passaram tão simplesmente assim? Outro teria realmente descoberto a América? As consequências teriam sido realmente as mesmas? A justificativa parece um tanto tendenciosa para não dizer sintomá­tica da indiferença. O argumento da civilização enquanto processo também de sofrimento, é uma falácia ambígua e perigosa. A sombra da resignação não parece atenuar os efeitos de um calor que vem de dentro, que incomoda, que parece não encontrar um refrigério adequado a suas apoquentações. É perigoso afirmar que o tempo do processo civilizatório pode petrificar situações, depende do ponto de vista. Quem, realmente, quer assim? Alguém perguntou à população Americana à época do descobrimento, se ela queria passar por um processo “civilizatório”?

É bom pensar também que tudo o que se conhecia sobre a terra descoberta sempre foi mediado pela palavra. As metrópoles envolvidas no evento ficaram sabendo de tudo através das cartas, dos comunicados, das descrições verbais de quem aqui aportou. Palavra esta que mimetizava o dado concreto, filtrada que era pelas subjetividades em combate, na luta pela posse definitiva da nova terra. Há, então, uma espécie de atribuição de empenho que se faz a Literatura, enquanto repositório de textos informativos. A etimologia da palavra “Literatura” e insidiosa. Repleta de curvas e sinuosidades, é apenas uma palavra, entre tantas ou­tras. Tal como América. Se o navegador italiano não tivesse deixado a sua terra natal, talvez a descoberta da América não se desse; ou melhor, seria impossível a sua invenção. Pois que a América é apenas um nome atribuído a algo que ganha consistência depois de nomeado; um lu­gar identificado por alguém, em algum momento, por algum motivo. A coisa foi encontrada ao cabo de uma viagem. Sujeito, olhar e viagem voltam-se miticamente para algo desconhecido. Com estes três elementos pode-se pensar no caráter transitório que marca todo e qualquer descobrimento. Depois de identificado por um nome que pode ser inventado, o que se descobriu passa a ser conhecido, deixa de articular o fantástico, o inesperado, o mágico da descoberta. Está descoberta a América. Está inventada a América? Para finalizar esta primeira abordagem do que me proponho dizer, quero apresentar a “verdade” sobre Colombo, nas palavras de Jô Soares:

Neste momento de comemorações sobre a descoberta da América, muito foi dito a respeito de Cristóvão Colombo. Colombo para os mais íntimos. Uns se pronun­ciaram contra, outros, a favor, outros, muito pelo contrá­rio. Desbravador? Descobridor? Devastador? Conquista­dor? Várias novas teorias foram formuladas. Faltou, no entanto, clareza.

Colombo era, quando menino, bem criança. Homem do seu tempo. Colombo foi filho de seus pais, e também neto de seus avós, pertencendo desde cedo à família.

Extraordinário navegador, possuía ele ainda a peculiari­dade de só exercer suas habilidades marítimas quando a bordo de caravelas e seus conhecimentos náuticos se restringiam aos navios e a outras embarcações. O que poucos sabem é que Colombo era um homem que tinha os pés no chão, sempre que estava em terra firme.

Dizem alguns cronistas bem informados e documenta­dos que Colombo demonstrava muito mais talento e inteligência do que todos os que eram menos dotados do que ele. Tanto, que passou para a adolescência na puberdade e depois disso ficou adulto. Quando menos se esperava, Colombo, num rasgo cronológico, atingiu a maioridade aos 21 anos.

Se ainda pairavam dúvidas quanto à verda­deira origem de Colombo, hoje pode-se dizer, sem sombra de dúvidas, que ele veio ao mundo na sua cidade natal, exatamente no dia do seu aniversário, que, aliás, era comemorado anualmente. Num ponto, todos os historiadores con­cordam: Colombo casou-se com sua mulher.

Além de exímio navegador. Colombo era homem de várias habilidades e foi perito em tudo aquilo que de melhor fazia. Registros da época narram, com detalhes, que sua memória era tão fantástica que ele conseguia se lembrar nitidamente de tudo aquilo que não esquecia. Pessoa de poucos amigos. Colombo se dava com quem conhecia e tratava com indiferença todos aqueles que não eram das suas relações. Uma frase da época o definia perfeitamente: “Amigo dos seus amigos, inimigo dos seus inimigos”.

Ao contrário do que dizem, antes de ver o mar, Colombo jamais tinha pisado numa nau. Hoje sabe-se, pelos relatos de antigos marinheiros que viajaram com ele, que, no fundo, Colombo era uma pessoa de temperamento suave, a não ser quando se exaltava, e, afirmam ainda, que o famoso navegador só se cansava em momen­tos de exaustão. Seus homens o admiravam, pois nunca foi visto dormindo quando acordado.

Tantas viagens fizeram com que, no fim da vida. Colombo dominasse com perfeição todas as línguas que falava sem dificuldade. Alguns pesquisadores dizem até que quando ele conversava usava a palavra, deixando apenas para redigir tudo aquilo que escrevia. Além disso, essas viagens fizeram com que o famoso navega­dor conhecesse todas as regiões do mundo a não ser aqueles lugares onde nunca esteve.

Tamanho era o empenho de Colombo naquilo que fazia que certa vez, na Itália, um velho marinheiro ao vê-lo tão atarefado cumprindo seus afazeres no convés não resistiu e exclamou em genovês arcaico: “Quiste, quan labut, lavór”. Em português significa: “Este, quando labuta, trabalha”.

Finalmente, é fundamental que se esclareça de vez o famoso episódio do ovo. Por mais que isto venha a contrariar opiniões abalizadas e consternar especialistas e acadêmicos, é preciso que se revele a verdade: o ovo não era de Colombo. Era de galinha.

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Descobrimento, em certa medida, é o assunto de Asas do desejo e Europa, filmes que voltam seu olhar para um país destruído, em pleno processo de reconstrução. Uma situação análoga ao descobrimento, porque uma coisa diferente está aparecendo. 0 cenário em ruínas de Europa dialoga com o contraste entre cores e preto-e-branco de Asas do desejo. Em ambos os textos fílmicos, um outro indivíduo descobre, de novo, um país. Algo desconhecido, não nomeado, ainda, 0 olhar estrangeiro pousa sobre a paisagem circundante, um descobrimento outro, diferente.

A voz do narrador em Europa condiciona o protagonista a obedecer às suas ordens. A onisciência narradora é incomparável, e no desenrolar da alegoria, é possível ler o desenvolvimento de um outro olhar: o da crítica, presente no discurso do anjo, em Asas do desejo. Passados cinco séculos, esta se volta sobre si mesma, a crítica, centralizando forças e atenção sobre o novo continente, para deslindar a dúvida fundamental: descoberta ou invenção? A coisa pode se complicar quando se pensa que a América são três: sul, centro e norte; se misturam numa infinidade de diferenças em que a Literatura, mesmo com a diversidade linguística, consegue identificar num texto comum a ser decodificado, reelaborado, narrado e, depois, criticado; para que o princípio do prazer não seja subjugado pe­lo da realidade.

É bom pensar nos caminhos que a Literatura Brasileira, em sentido lato, tem tomado para continuar um processo de construção de sua própria identidade, enquanto parte constitutiva da América. Trabalho de Sísifo, inútil em si mesmo, pois a linguagem não tem o status de obje­to de posse. As palavras escapam, sempre e mais. Assim, na Literatura, tout court, sempre acabam se concentrando discussões que, sob a chancela de interdisciplinaridade, pulverizam o nome de um continente.

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Peitorais desenvolvidos, bicos do peito duros de prazer, múscu­los abdominais torneados e latejantes; pele branca, cabelos lisos e olhos azuis: o macho branco que está sempre no comando, como Caetano jamais nos deixa esquecer. Em nada estranho, porém estrangeiro, esse indivíduo continua sendo o parâmetro de qualidade, um biotipo a ser imi­tado, padrão de beleza, de sedução, de poder: e a inteligência?

Do Robson Crusoé, de Defoe, ao Jesus Cristo, de Saramago, passando pelo Peri, de Alencar, o macho branco continua vomitando regras. A Literatura as alegoriza, num desejo latente de vitória sobre a insignificância. Ou seria o contrário? Mesmo as propostas culturais de movimentos de apoio e expressão de minorias, os valores organizados de po­líticas universalizantes e fraternas, tudo se estabelece a partir dos parâmetros europeus, brancos, quase arianos…

O desespero do homem americano quase corresponde ao delírio es­pecular da Alice, de Lewis Caroll. A pulsão escópica orientou a armada de Colombo e não colocou nenhum ovo em pé. Certos discursos podem come­ter o deslize de repetir obviedades, como aconteceu com a página de Jô Soares. Apesar disso, podem não ser totalmente inválidos, fazendo levantar uma lebre, que num piscar de olhos se transforma…

A Literatura, representação em palavras, signo gráfico que não diz nada se o olhar do leitor por ele não passar, continua a tradição atávica para a espécie humana: ler. Ler a América, hoje, e reler textos que passaram a compor o acervo de bibliotecas estranhas e familiares. É assim que funciona, caso se leve a sério o que diz Freud quando pensa sobre Das Unheimliche. Os escaninhos da História alimentam as traças do esquecimento, ou não, como poder-se-á ver com a contribuição de Deonísio da Silva. A América é um objeto de desejo de um conjunto de feitos grandiosos, de personagens heroicos, quase míticos. Por outro lado, o rever estes textos desnuda uma outra coisa, inesperada. A palavra constrói um outro sujeito, duplo, perdido entre espelhos: o da memória e o da História.

Na superfície escorregadia e translúcida do texto, a imagem se esboça, quase miragem, a pulsar num desejo, ato contínuo, que se esgarça na tentativa vã de um toque, da petrificação de um lugar… América. Afinal, estamos aqui, falando de cultura brasileira, uma realidade sul-americana, veiculada pela língua brasileira.

Em La conquéte de l’Amérique, Todorov delineia o que seria um projeto do grande outro para o europeu conquistador, bravo e prepotente – aqui, de novo, um vislumbre do que o Romantismo tanto buscou. Não fosse uma pseudosaga cantada em prosa e, principalmente, em verso – como em Camões, por exemplo, acompanhando alente de aumento instituída ensaisticamente por Eduardo Lourenço –, o patriarcado da Língua Portuguesa poderia estar difuso em fragmentos, sujeitos diluídos e alienados em discursos outros, quem sabe, numa Literatura sem fronteiras nacionais, se isso fosse possível. Não seria o retorno de um grande e perigoso recalcado? A língua indígena foi recalcada pelo português, pelo espanhol, pelo italiano, mesmo que, hoje seja possível encontrar todo um acervo lexicográfico presente e efetivo na língua portuguesa, oriundo desta recalcada. É no sentido de uma miscigenação linguística que a língua portuguesa da corpo a desejos, sonhos, invenções e descobrimentos de microrrealidades brasileiras: um espelho, dentre outros, da América.

A corte portuguesa aporta na fonte de suas riquezas por obra e graça das mandíbulas anglicanas que, sôfregas e vorazes, ameaçavam manchar a reputação de uma raça mistificada em verso e prosa. Este é um dado curioso, maquiado pelo discurso da oficialidade histórica, que, muito contribui para a mudança de perspectivas no ensino de nossa Literatura. Outro não era o principal interesse da citada corte, senão a ex­ploração colonialista do Brasil, parte da América. A língua, mátria velosiana, fez seu papel de chancela, de carimbo de oficialização: marcou a diferença. Falada, ela parece ser mais bem assimilada pelas men­tes pensantes de então. O caráter tacanho da inteligência colonial no duplo sentido da adjetivo se sente ameaçado quando o mestiço Machado de Assis coloca em dúvida a força potencial de uma nacionalidade telúrica, para estabelecer o caráter de questionamento, de busca da origem do processo de construção de uma identidade através da Literatura. Em “Instinto de Nacionalidade”, o escritor carioca golpeia implacável a crença num gigante ainda deitado em berço esplêndido.

O descobrimento do Brasil ecoa e repete o da América. Numa sequência perversa de aparentes coincidências, o ato de nomear uma nova terra, um novo lugar, aqui repetido, alça foros de grandiosidade e do­cumento. A invenção da América traz consigo a descoberta de um… poder outro, diferenciado: o poder do nome, a força da palavra, o desenho lexical de um desejo, contorno de um vazio. 0 caso Brasil volta a chamar a atenção de leitores ciosos da verdade, mesmo que esta seja apenas uma e não toda. O Brasil, na sequência alfabética de seu nome, repete a América, em quadros históricos diferentes, é claro. A pulsão escópica e a escrita literária, no entanto, parecem mumificar um mesmo e único objetivo: satisfazer um desejo.

O olhar do europeu civilizado e racionalista se espelha no verde-amarelo que começa a identificar as letras que a colônia produz e tece. Fantasma mítico que faz com que o tecer, o tecido, o texto, encarne, para ambos, colonizador e colonizado, a posse da terra e, para­doxalmente, o pavor de uma castração simbólica. O primeiro grito pode ter sido a manifestação de um instinto, o machadiano, que ecoa na Semana de 22, apesar de todas as sombras e dos nichos vazios. Este toma forma, corporifica-se numa desejada pós-modernidade, mais desejada que consistente. É assim que se pode pensar num modelo de entendimento do processo de formação de uma identidade para a Literatura feita aqui, a partir das direções opostas de um mesmo projeto. No caso do Romantismo, esta direção volta-se para a faceta política da História; no caso do Modernismo, volta-se para a faceta estética. Ambos tinham um mesmo e único objetivo: desenhar o perfil de uma cultura, uma língua, literariamente trabalhada. Daí poder-se pensar também que o corte com o público, que marca um certo momento do Modernismo, e a contraface da moeda que procurava, sob a égide do olhar estrangeiro, esboçar desenho desejado do mesmo público.

Como consequência, é impossível desconhecer a luta incruenta da ficção de um João Gilberto Noll, principalmente em BandoleirosRastros de verão e O quieto animal da esquina. Obras cujo lirismo fracassado – no que este qualificativo tem de nietzscheano, portanto, de construti­vo – só encontra respaldo nos delírios urbanos, cosmopolitas, metropo­litanos, de um Caio Fernando Abreu em Onde andará Dulce Veiga?. Ambos os conjuntos de obras buscam um caminho na encruzilhada de atalhos que a cultura brasileira desenha. Estas narrativas apontam para um traço te­lúrico que faria parte constitutiva da cultura brasileira. No meio desta “turba insone” e assanhada, Clarice Lispector poderia ser a bandei­ra que o vento não toca, por força da microscopia social na intimidade feminina de A hora da estrela. Intimidade feminina e narrativa. Imóvel, ela abate, fulmina com o olhar desenhado na letra arfante de uma escrita que tateia, dedilhando um teclado desconhecido: a memória nacional, mais que isso, a memória continental. Existe a sombra de um destino de grandiosidade que sucumbe diante de uma facilidade mágica de encontras inesperados: seria essa a es­sência da descoberta?

No quadro caótico que a Literatura desenha na terra descoberta por Colombo primeiro e por Cabral depois, a diferença se entranha e, nas entrelinhas, desenha uma identidade mestiça, sem contornos defini­dos. Assim, refletem As mulheres de Tijucopapo e O lago encantado de Grongonzo, romances de Marilene Felinto, nordestina que escarafuncha e explora a língua pátria, construindo e reconstruindo imagens de uma particularidade singular: Herança do regionalismo de 30? Esta visada se choca profundamente com a aparente ingenuidade regionalista de Charles Kiefer, em A face do abismo e Valsa para Bruno Stein, textos em que as raízes mais prosaicas e ancestrais insistem em florescer. Aqui é possível pensar num projeto que busque redesenhar o perfil cultural da Literatura gaúcha, no seu viés marcado pela imigra­ção, reinscrevendo está mesma Literatura na historiografia literária nacional. Charles faz o passeio por uma linguagem simples e direta, pelos campos do estrangeiro enraizado em solo brasileiro, em solo americano, minando a prepotência de uma identidade robusta e bem calcada, pura. Não só a imigração como o fluxo migratório interno causam modificações radicais no texto literário que a América produz. Isso é resultado de urdiduras diferenciadas que promovem e liberam a constituição de uma identidade confusa, alienada nas malhas da própria letra. Como encontrar o genuinamente brasileiro? Como “ensinar” o caos dos cursos de Literatura, no segundo grau e de Letras?

O descobrimento da América, mulher que emblematiza o navegador, no retorno de um recalcado coletivo, pelo menos para o europeu, e mais um trunfo da linguagem. A terra; sempre esteve aqui, respeitados os abalos sísmicos e as acomodações da camada terrestre do planeta. A América já é antes de ser descoberta. Esta invenção fica espetando a consciência que tendenciosamente tem servido de desculpa para exageros, trambicagens e arapucas homéricas em que, mais uma vez, o sujeito se perde.

O Brasil se torna independente com o gritodo Ipiranga, conforme reza a tradição. O grito é acompanhado por um cortar os laços e a cena se passa perto de um riacho. A simbolicidade destes elementos não afasta a hipótese do grito primal, do parto, 0 efeito ainda e de mise-en-abîme. A América reproduzida no Brasil ou o Brasil reproduzido na américa? Ao lado disso, há que considerar o fato de que a Medicina é um dos primeiros cursos a marcar a entrada do Brasil no mundo da universidade. É bom lembrar, então, de Michel Foucault, no conjunto de suas obras, quando e enquanto ausculta o Ocidente, rastreando os sintomas, os indícios de um controle que joga por terra a autonomia de uma identidade para inscrevê-la na esfera do proibido. É a sublimação que se consuma. Luiz Costa Lima trabalha nesta direção, quando considera a questão da documentalidade do ficcional, até certo ponto vítima de um veto in­devido e, por que não, perverso. Estaria, talvez, aí, uma das chaves de leitura para uma outra questão: a dependência cultural, embasada na díade: economia, e etnia. Neste contexto, a Literatura Brasileira receberia o estatuto de invenção, pois tinha a necessidade de identificar-se e à nação recém descoberta, em sua autonomia. A repetição do processo coloca o Brasil e a América no mesmo plano analógico, apesar de um ser parte da outra. A Literatura de invenção na América e no Brasil, em particular, descreve a tangente que se- desloca do outro para o eu, em termos de uma identidade cultural. Talvez aqui esteja delineada uma pequena pista para o esclarecimento do sucesso do realismo-mágico ou, ainda, de uma certa narrativa fantástica, em solo americano.

Seria o momento de recordar as labirínticas bibliotecas borgeanas, caminhos que se cruzam entre paredes, vedando a visão do exterior. Do mesmo modo, os longos colóquios político-culturais de Vargas Llosa, principalmente em Conversa na catedral e Tia Julia e o escrevinhador. Para completar, poder-se-ia evocar a obra de Garcia Marques, no caso de Cem anos de solidão e A triste história de Candida Eréndira e sua avó desalmada. Não se podem deixar de lado, no entanto, nomes como os de Julio Cortazar, Alejo carpentier, Lezama Lima e Cabrera Infante, para não alongar demais a lista e o assunto. Todos numa galeria inteiramente cosmopolita que se abre nesse flanco da Literatura latino-americana; bem ao gosto da dicotomia que funda este texto. Invenção e descoberta confundem-se numa rua de mão dupla. Esta duplicidade, esta ambigüidade, se realiza no texto fantástico. Mas o que é fantástico?

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Mesmo que haja um pouco de ingenuidade, os anos 60 e 70 não po­dem ser descartados do dossiê americano, desdobrado em terras brasileiras. Este desdobramento, para mim, é eminentemente literário. É neste sentido, neste âmbito, que inscrevo minhas observações e meus delírios. A América foi descoberta. Ela foi inventada também. Não há como negar esta evidência. Trata-se, no entanto, de uma palavra que, enca­deada a outras, articula um discurso. 0 fluxo incessante de acontecimentos, registros e identificações promove uma abertura maior para a Literatura produzida, principalmente, de cinco séculos para cá.

A América foi inventada, porque sempre há necessidade, e uma necessidade zen de explicar origens e destinos. Desta forma, a marca da diferença se faz sentir, como vetor que esclarece a direção e o sentido da construção de uma identidade. A América é um processo e parece bastar a constatação óbvia da sua dinamicidade. O mais é especulação, tentativa, sonho, desejo, delírio. A América é, na verdade, escrita. Escrever é um ato de inteligência, requer aprendizado. Sendo resultado da utilização da língua, para dar forma à cultura. Este ato de escrever, aqui e agora, tentou delinear o esforço de um olhar particular – o bra­sileiro – sobre a dualidade que emblematiza a América. As obras e seus autores estão aí, muitas vezes, esperando por esse olhar, para não fi­carem mudos diante do fluxo da História, este ato de escrever revela um desejo particular, muitas vezes vilipendiado, mas isso já é uma ou­tra história…


Ecos do passado II

Não me lembro a origem deste texto. Peno que foi preparação para uma monografia de final de semestre, durante o mestrado. Talvez para a disciplina “Teoria da narrativa”, sob a batuta de minha orientadora: Margarida de Aguiar Patriota. O texto foi escrito à cause do impacto do filme O nome da rosa, depois da leitura do romance homônimo.

A cozinha, a capela, a biblioteca: um elogio à Teoria da Literatura

Conta o folclore, que em reuniões de postulantes à vida religiosa, para identificar a que ordem religiosa pertence determinada casa de formação, bastaria ver onde a luz da tal casa está acesa. Assim, se na capela, a casa seria de beneditinos; se na biblioteca, a casa seria ou de jesuítas ou de dominicanos; se na cozinha, seria, fatalmente, de franciscanos.

A presença do poder da Igreja em suas mais variadas formas e acepções pode ser constatada no discurso literário (ficcional, mais especificamente) do Ocidente, em sua história evolutiva. Desta forma, a iro­nia e o humor com que tais ou quais atitudes dos grupos formadores desta casta podem ser tratados, acaba por conferir certa “dramaticidade” à produção literária que se envolve nas malhas, hoje, vaticanas. Em nome da rosa, Umberto Eco nos apresenta um painel interessantíssimo dessas relações, para gáudio do autor, semióticas. Crimes são cometidos numa abadia beneditina. Um frade franciscano é chamado para desvendá-los – enquanto seus confrades estão reunidos para outros, fins, na mesma, abadia – até que um dominicano chega para envolver toda a trama nas malhas da letra inquisitória. Nada demais, não fosse a profusão de sinais fortemente evidenciadores de intenções muito mais amplas e profundas que a própria realização literária – estética e semiótica poderiam ser outros epítetos tranquilamente acrescentadas – da obra ficcional pretendida. Assim, não é à toa que o monge responsável pela biblioteca da aba­dia/cenário é cego e se chama “Jorge de Burgos”. Coincidentemente, todos os mortos ousaram se aproximar da chave de um enigma que esse monge teria ocultado em “sua” biblioteca. Sintomaticamente, a biblioteca acaba ardendo em chamas: uma alegoria do inferno…

Um outro ponto a considerar diz respeito ao noviço beneditino, auxiliar de Guilherme, cujo nome é “Adso”. Quem não se lembraria de Sherlock Holmes? Toda a sua astúcia não foi suficiente para fazê-lo perceber o pecado contra a humildade – carisma fulcral da ordem franciscana – Guilherme é franciscano, lógico. Pecado cometido repetidamente, intensamente a cada passo dado rumo ã solução do “enigma assassino”. Por último, chega Bernardo Gui, o dominicano. Ele chega com a força e o poder do fogo da Inquisição, “paradoxalmente”, sua grande arma é a palavra. Por intermédio dela, o dominicano interfere na ordem dos fatos e envolve três pessoas, que não articulam discursos completos no corpo da narrativa, nas chamas da Inquisição.

Estes três tópicos são aqui considerados por se relacionarem diretamente com os três pilares da trama “romanesca” de O nome da rosa. Dom Abade e as vítimas demonstram a prudência, o equilíbrio e o senso de “segredo” peculiares à família de São Bento. Os franciscanos que se encon­tram para discutir a pobreza de Jesus se assustam com a vaidade e o sen­so prático de Guilherme, um “anátema”: ele peca pelo excesso de vaidade. Bernardo Gui dirige o tribunal da Inquisição que se instala como forma de demonstrar o poder da Igreja de Roma sobre as “questões terrenas”. Vale lembrar que o senso pedagógico e a palavra (por extensão semântica) marcam o carisma da intelectualidade do batalhão de Santo Inácio de Loyola.

Isto traduzir-se-ia como vulgaridade de leitura, ingenuidade, não fosse a articulação ficcional que estabelece um sentido logico, “racional” para a obra, enquanto narrativa. Pode-se dizer que se trata de uma obra que “celebra” o gênero “romance policial”. Há uma série de assassinatos. Coincidentemente ou não, os primeiros a morrer são jovens, e a idade das vítimas vai aumentando na medida em que o suposto volume sobre a Comédia, escrito por Aristó­teles – uma contrapartida, complementar, à Poética –, vai sendo colocado como pomo da discórdia instaurada na abadia. A homenagem ao argentino Jorge Luis Borges e sua Biblioteca de Babel é inequívoca. A sequência do incêndio evoca o dogma do inferno e os primeiros versículos do Eclesiástico, simultaneamente.

É interessante notar como todos os elementos, que articulam uma outra leitura para o romance de Umberto Eco estão à vista. Esta presença evidente, apesar de não destacada, pode ser usada para a estruturação de um outro discurso (ou poderiam ser outros…) que perpassa subliminarmente o próprio texto. Há um livro interdito, sobre o qual pouco se sabe e muito se sus­peita. Existe uma pessoa que o encontra e que guarda sob sete chaves o enigma que o envolve e que é responsável pela trama “macabra” do romance. Não há assassino! O livro é quem mata aqueles que dele se aproximam. A beleza, a juventude, a magnanimidade, a inteligência, a humildade, a prolixidade são, todos, elementos de uma mesma estrutura: a vaidade. Esta desfaz-se como fogo…

nome da rosa descreve um roteiro que aparentemente vai dar em lugar algum – ou poderia ser, vai dar em todos os lugares. Todas as in­ferências podem encontrar pontos-de articulação suficientemente consistentes. A busca do infinito nasce com o gênero humano e sua racionalidade busca engendrar caminhos que tentem encontrar a saída para os embates  que se organizam. Teologicamente, haveria muito mais que discutir pois as três famílias religiosas se dissolvem em seus carismas semioticamente caricaturizados no bojo do romance. Haja vista as citações em latim, que são para­fraseadas no texto, a cada momento. Não é à toa que o livro tem uma divisão em capítulos que reproduz as “horas litúrgicas”, prática institucional dos mosteiros e, neste caso específico, também, parecem lembrar a estruturação da própria Divina Comedia, de Dante.

Do ponto de vista narratológico, a semiotização do romance, enquanto discurso urdido, promete-se tão rica que qualquer comentário tomaria o espaço de um ensaio. Basta lembrar, por exemplo, e mais uma vez, a profusão de alegorias construídas no correr do texto e a narração, quase gêmea, dos clássicos policiais, tão repetidos e reaproveitados. Neste ponto, abrir-se-ia outro capítulo, pois teríamos que tocar em duas práticas bastante valorizadas e utilizadas, até, pelo próprio romance: a intertextualidade e a paródia. Algo que caminha para o caráter de pastiche, que marcaria o espírito pós-moderno que, insidiosa e capciosamente vai orientando a narrativa enquanto discurso, como qualificado no início deste parágrafo.

Levantaríamos, se fosse possível, uma série longa de dados que dariam consistência à afirmação capital, pretendida por este texto; a leitura de O nome da rosa oferece a oportunidade competente para experimentarmos nossa capacidade crítica enquanto teóricos da Literatura. Em outras palavras, não seria exagerado (e completamos: talvez, mesmo, nada original) dizer que o romance desenvolve de maneira exemplar a Teoria da Literatura que o Ocidente tanto preza em valorizar, estudar, compreender e experimentar. A busca de um arquitexto, que daria a chave final para todas as equações narrativas – que se propuseram depois da Poética de Aristóteles. Este arquitexto acaba queimado na ficção de Umberto Eco. No filme, a sequência final do incêndio, quando Guilherme sai da biblioteca chamuscado, deixando cair do hábito ratos e livros, é muitíssimo significativa. Este arquitexto, enquanto solução, é a própria utopia da Literatura. É a tentativa de impressão de um desejo, 0 próprio livro faz isso…

Referências bibliográficas

GENETTE, Gerard. Introdução ao arquitexto. Tradução de Cabral Mar­tins. Lisboa, Vega, s.d. Serie Universidade.

LIMA, Luiz Costa. O fingidor e o censor: no ancien regi­me, no iluminismo e hoje. Rio de Janeiro, Forense Universitária, 1988.

SANTIAGO, Silviano. O narrador pós-moderno. In: Nas malhas da letra. São Paulo, Companhia das Letras, 1989, pp. 38-52.

Ecos do passado

Faz algum tempo, publiquei aqui os textos que foram escritos como monografias para avaliação de disciplinas cursadas durante o mestrado que fiz na Unb. Desta feita, retomo o mesmo ímpeto de publicação, com a diferença de que vou trazer textos similares, mas apresentados durante o doutoramento.

Sobre uma natureza das tesouras

 Porque Narciso acha feio o que não é espelho.

Caetano Veloso

 O confronto entre as perspectivas do comparativismo e as teorizações acerca da recepção literária, suscita apresentação de propostas de retomada desta linha de pesquisa, numa perspectiva renovada, buscando encontrar possíveis encaminhamentos para questões pertinentes à leitura específica de textos literários, quer em sua particularidade intrínseca, quer na articulação deste com outros textos e discursos afins. Este trabalho articula-se à pesquisa de doutoramento realizada pelo autor, na tentativa de elucidar um caminho de reali­zação literária para o discurso de constituição do sujeito.

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A mulher tem cara de pateta. É revendedora de uma famosa marca de produtos de beleza. Tudo em sua vida gira em torno disso. Ela mora em uma cidade pequena e provinciana, perto da qual existe um castelo abandonado, muito antigo. É casada, tem dois filhos e o marido trabalha na mesma fábrica em que trabalham os maridos das outras mulheres, suas clientes. A personagem em questão vai ao castelo, num dia comum de trabalho. Entra e encontra um rapaz estranho: cabelos arrepiados, num corte esquisito; uma roupa preta cheia de cintos, amarras e remendos; a cara toda marcada por cicatrizes e, no lugar das mãos, tesouras. Sua expressão é absolutamente angelical. Ele é um misto de FranksteinBlade runner e Brinquedo assassino. Sua expressão é absolutamente inocente, angelical mesmo. A mulher traz o rapaz para sua casa. Em rápidas palavras, ele conquista toda a cidade. É quando, numa série de equívocos, aqueles que o acolheram, o escorraçam. Uma inversão só cabível num con­to de fadas. Trata-se de alguma coisa muito próxima disso.

A sequência inicial do filme Edward, scissorhands, não dá conta de preparar o espectador expectante para as surpresas que a his­tória reserva. O filme não tem muito de profundo, mas ultrapassa, e muito, o estreito limite da ingenuidade. Posto que é uma obra de arte, já se chegaria à conclusão de que não há ingenuidade neste “ar­tefato”. Com este status, o filme é exibido para ser recebido. E neste particípio verbal está a seta de orientação de minhas observações.

Todos os habitantes da cidade ficcional, que sintomaticamen­te não tem nome, ficam excitados com a chegada de Edward. A representante dos produtos de beleza se preocupa com os mínimos detalhes até o momento em que o contato se estabelece entre a população e o rapaz. As relações são também, inicialmente, amigáveis. O controle dela começa, então, a perder eficiência quando a série de equívocos tem início. Edward é vítima desses equívocos. A ingenuidade desta personagem não deixa que ele ultrapasse a faixa da infan­tilidade de suas associações e reflexos. Ele volta a seu lugar de origem: um velho e empoeirado prédio antigo. Cheio de teias de aranha. Ha uma série de elementos que consubstanciam a grande metáfora no texto fílmico. Ela é apenas suscitada. Então, na cena final, aparece uma velhinha contando uma história para sua neta antes de dormir…

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Nos estudos de Literatura Comparada, a moda parece ser a dissenção e a diferença. De modo bastante generalizado, tudo aquilo que faz pressentir um movimento de volta às origens tem a chancela do vulgar, do pobre; e acaba alijado das esferas mais sublimes do comparativismo. Num determinado sentido, é sempre isso que se faz: isolar, desdenhar. As coisas parecem, então, tornar-se menores. As­sim, não tenho medo de afirmar que a Teoria da recepção – dever-se-ia utilizar a expressão Estética da Recepção? – tem sofrido, de certa maneira, o influxo de uma crítica tendenciosa que teima em limitar a recepção literária ao estudo de fontes e influências. Esta última expressão, como é de conhecimento de todos, está carregada de sentidos pejorativos, narizes torcidos e caretas. Sou forçado a concordar com Regina Zilberman quando diz:

Oferecer a estética da. recepção como um novo figurino ou esperar que ela encontre seguidores e adeptos entre nós, seduzidos por suas promessas e já saturados de alguma outra corrente crítica ou filosófica, é não apenas ter uma visão frívola da Teoria da Literatura ou do intelectual brasileiro; signifi­ca também colaborar para a alienação e dependência culturais, de que aquela frivolidade é um dos sintomas.

É evidente a abrangência da observação de Regina. Não vou elucidá-la por completo. No entanto, quero chamar a atenção para a tentativa de esclarecimento que ela contém: os estudos de recepção literária não se propõem uma inovação absoluta e inflexível da Teo­ria da Literatura. Muito antes pelo contrário, a Estética da Recepção, para utilizar a terminologia da autora, pode auxiliar no trabalho da teoria que acaba alargando o campo de atuação da Literatura Comparada. Isto, na medida em que não postula uma originalidade epistemológica. Ela é mais um meio de concentrar a atenção no particularmente literário, apesar de sobrevoar outras latitudes. O que eu quero dizer, é que, com a orientação teórica desenvolvida a partir de 1967, na Escola de Constança, hoje é possível colher melhores frutos em nossas especulações críticas e teóricas em torno do emblema Literatura Comparada. Especulações críticas e teóricas sim, pois nada pode ser tomado com absoluta e definitiva chancela de conclusão final nesta matéria. Haja vista a vastidão do campo de trabalho que a Literatura Comparada se propõe.

No desenvolvimento dos estudos literários, a Estética da Recepção representa um “ponto de mutação” na orientação dada a estes estudos. A História passa a ser valorizada no computo geral de diversos elementos com alguma influência, no quadro delineado pelo que se tentou chamar de “ciência literária”. Ora, a História não se restringe a uma escavação de verdades fossilizadas que vão dando um sentido, a cada momento de atualização da existência humana em cur­so. Desta forma, este posicionamento “novo” condiciona os estudos literários a seu aspecto, processual, à sua duração, no sentido de uma constante modificação e desenvolvimento. Não se trata apenas de uma renovação, de retirar a pátina do tempo, depositada sobre os sentidos obliterados pela “cegueira” hermenêutica da própria Teoria da Literatura a cada passo. Todo e qualquer movimento neste campo não pode abrir mão do leitor, sob pena de perder absolutamente sua razão de ser. Este elemento aponta, possivelmente, para uma questão muito mais ampla: a construção de uma imagem. A terminologia pode parecer exageradamente abstrata ou, mesmo, estéril. No entanto, quero ressaltar que, com a preocupação voltada para o ato da leitura – como jogo de relações efetivas entre os diversos elementos envolvidos – a Estética da Recepção começa a articular a questão do sujei­to. Sou eu quem quer pensar assim. Outra não parece ser a leitura possível de um elemento que, no curso das teorizações da recepção literária, recebe vários epítetos: o leitor. Este é um sujeito, operador e operado na/da/pela leitura. Sujeito na dupla acepção da pa­lavra. O sujeito-leitor é o elemento que, no final das contas, vai dar sentido ao sentido geral gerado pela obra literária, ou aos sentidos possíveis desta. E isso é um processo. Desta forma, é forçoso concordar com Jauss, no sentido de negar a autonomia absoluta do texto. Ele não pode se sobrepor ao sujeito “por contar com uma estrutura autossuficiente, cujo sentido advém tão somente de sua organização interna”. Isso é uma posição tendenciosamente perversa.

Entre tantos outros aspectos, este me interessa em particular: qualquer um dos direcionamentos teóricos que podem ser considerados para os estudos da Estética da Recepção, sempre tomar-se-á como ponto de referência, a relação estabelecida entre o texto e o leitor. A ênfase ora num ora noutro desses elementos vai mudar, é claro. O problema da historiografia-literária, como pano de fundo para estes estudos prevalece. Este pano de fundo acaba se tornando, por força das circunstâncias, o conjunto de objetivos “finais” des­ta mesma historiografia. O que desejo destacar e a emergência desta imagem, desta “figura”, como já citado. O leitor vai ser, sem certo exagero, o objeto de desejo das teorizações da Estética da Recepção. O ponto de partida aqui é a consideração de que o leitor é sempre uma “construção” – tal como as personagens e, mesmo, o narrador. Estou falando do leitor ideal – generalizando todas as “classificações” que este recebe ao longo, dos estudos de recepção literária. Em termos de comunicação e na particularidade estética da comunicação literária, não se pode negar que o receptor é sempre uma construção “ideal”. Ele já está disseminado no próprio texto. Desta forma, a Estética da Recepção se coloca também uma outra questão: a possibilidade, mesmo que tênue, de delinear o esboço do que seria o público leitor de determinada obra literária, stricto sensu. É nes­ta altura que eu gostaria de colocar como análoga, a questão do su­jeito. Trata-se obviamente de um desejo.

A literatura é resultado de um trabalho com a linguagem. Ela é linguagem. Neste processo, pelo menos três elementos são essenciais: quem escreve, o que escreve e quem lê ou articula o que está escrito. Se tomarmos a ideia de que o sujeito se constitui na e pela linguagem, é possível pensar na analogia proposta. O “leitor adequado” é desejado pelo crítico, depois de ser desejado pelo escritor, mesmo que inconscientemente. O crítico tra­balha com os postulados da Estética da Recepção, na medida em que se coloca no âmbito de um possível horizonte de expectativa a ser reconstruído. Isso para não dizer que este mesmo horizonte de expectativas é provável, o que implicaria em outras formulações de senti­do. Este horizonte faz parte dos elementos fragmentariamente disseminados no próprio texto, objeto de especulações do crítico. O aspecto “pretensioso” da Estética da Recepção facilita certas aproxi­mações. Uma delas é a que se esboça aqui. Esta pretensão pode ser entendida como um desejo desta modalidade de crítica literária; por que ela também se volta para a Literatura, enquanto texto que possui uma certa autonomia. Não há condições de estabelecer, portanto, parâmetros definitivos para o horizonte de expectativas. O sentido, ou os sentidos, poderiam ser concretizados de diferentes maneiras, su­pondo então sua sujeição a diferentes necessidades e contextos. Por que não pensar aqui em desejos?

A palavra sujeito supõe duas leituras para seu próprio sentido. De um lado, é o indivíduo responsável pelo texto em si mesmo, aquele que o escreveu; ou ainda, aquele que está submetido pelo tex­to. Sujeito, aqui, equivale a uma estrutura de sentido. Não se tra­ta efetivamente de um indivíduo, mas de um sentido possível a ser concretizado, mais um sentido, outro sentido, talvez. E concretiza­do por meio da estruturação da linguagem nos próprios textos que venham a ser escritos e lidos.

Seguindo a ideia de sujeito, tem-se a ideia de estrutura. Esta ideia pode ser tomada como mais um ponto de apoio para a deseja­da proposta de aproximação esboçada aqui. Nestes termos, é necessário lembrar que alguns dos teóricos da recepção, senão a sua grande maioria, devem muito ao Estruturalismo, tão em moda nos anos 50/60, o que não os desautoriza. Sem entrar em aprofundamentos indesejados, é bom que se diga que a ideia de estrutura perpassa os trabalhos de Riffaterre e de Stanley Fish. Articulando noções, da Linguística, eles procuram, na observação do trabalho estilístico realizado no texto, uma possibilidade de se entender uma das concretizações de sentido que o próprio texto possi­bilita. Da mesma forma, mais recentemente, Umberto Eco, trabalhando com material da semiótica e o equivocado Antonio Garcia Berrio, perdendo-se num labirinto de impressionismos, travestidos de conside­rações psicanalíticas sobre a lírica contemporânea, Eles são dois outros exemplos de teóricos que, partindo da noção de estrutura, desenvolvem abordagens muito instigantes, curiosamente convergentes, no que diz respeito ao elemento que, em termos de comunicação, se chama receptor. No âmbito dos estudos da recepção literária ele é identificado como sujeito.

Nas diferenciações provocadas durante a leitura, pelas diversas linhas perseguidas pelos estudiosos, uma outra questão que se coloca subjaz à própria proposta de sistematização da Estética da recepção como disciplina integrada ao comparativismo. Ela se encontra atualizada sob aspectos diferentes; trata-se da leitura enquan­to interpretação. Partindo deste elemento, é possível apontar para outras direções no propósito aqui delimitado. É mais que sabido que o sentido de uma obra não é único. Na medida em que se aceita operacionalmen­te o fato de que a linguagem dissemina e fragmenta o sujeito, como faz com o sentido do texto, há de se supor que o leitor, enquanto uma representação adequada deste sujeito, uma instância do texto, não é igualmente único. Outra maneira de ver este ponto é pensar nas estratégias que o texto articula e potencializa, na tentativa de representar os sentidos possíveis de si mesmo. Ainda assim, a presen­ça de um sujeito é mais que necessária, é essencial.

No entanto, na articulação de mais esta rede de significantes, escapa alguma coisa. O adjetivo “adequada” é o representante desta coisa. Ele é o significante de uma subjetividade que elabora critérios e determina parâmetros para a desejada chegada a um destino indeterminado: o sentido. Em sua multiplicidade, que nega toda e qualquer unidade absoluta, total, unitária mesmo, o sentido é outra instância textual que aponta para um desejado equilíbrio de forças, na relação que mantém com seu agente concretizador: o leitor, o su­jeito. É mais uma das possíveis estratégias do texto, por que não?! Contraditoriamente, este também não é único. O advérbio aqui utili­zado confunde e esclarece. Confunde porque poder-se-ia supor uma coerência natural, dada, entre as multiplicidades análogas de leitor e de sentido. Esclarece por que o que se busca nesta relação analógica não existe, não tem consistência mas apenas representação. Nestes termos, pode-se dizer que este elemento buscado concretiza-se num desejo: elemento móvel, dinâmico e dinamizador, que nunca se satisfaz. Se fosse possível discorrer aqui sobre uma teoria do desejo, seria igualmente possível apontar para uma unidade perdida. Uma origem totalizadora que se perdeu num tempo, talvez arcaico e impulsionador deste processo, sempre na direção de um “a mais”. É bom que se diga que esta unidade nada tem a ver com a consciência racional pensante de Descartes. Estamos, todos, um passo adiante.

Tentando colocar os pés no chão, retomo o fio da história. A Estética da Recepção, em sua diversidade de abordagens de um mesmo “fenômeno hermenêutico”, possibilita essas aproximações, pelos sim­ples fato de que parte de um pressuposto bastante instigante: o re­torno da crítica e da teoria literárias para o segundo polo da efe­tividade comunicativa na Literatura, esteticamente realizada no texto: o receptor, o leitor. É evidente que muitas das especulações aqui suscitadas podem ser tomadas no sentido do autor. No entanto, a proposta inicial da Estética da Recepção e destas anotações é o leitor, o sujeito. Assim, a repetição tenta reafirmar a validade das especulações e suas particularidades, de caráter apenas circunstancial. O que faz possível recolocá-la no âmbito do comparativismo.

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Dizem que um exemplo vale mais que mil palavras. Enquanto escrevo este texto, penso no trabalho que uma gravadora realiza para a produção de um disco… Paralelamente, penso na busca de definição de uma estratégia de marketing que se concretiza na publicação de uma revista. Em ambos os casos, análogos à situação de um livro, o marketing dita as regras de funcionamento do jogo, para que o prazer catártico efetivamente se concretiza na venda e na leitura/audição do produto. A atualidade dos termos e da estratégia não desmerece o exemplo, em reação à Estética da Recepção, na Literatura.

O comércio, tem demonstrado, cada vez mais, a sua necessidade atávica de atingir um público sempre maior, mesmo que as condições econômicas não sejam compatíveis, adequadas, aos projetos do comér­cio. O que destaco aqui é a importância da determinação dos traços característicos da clientela potencial para o produto a ser lançado. Neste ponto, o marketing e suas estratégias são obrigados a definir, pelo menos em termos de expectativa, de desejo portanto, o tipo de cliente, a cara do freguês, o perfil do consumidor adequado para aquele produto. Qualquer semelhança não terá sido mera coincidência… Em outras palavras, quem vende, produz ou escreve, deseja que tal ou qual tipo de pessoa goste do que lhe é oferecido. Guardadas as devidas proporções, acredito na efetividade deste exemplo, praticamente conclusivo. Ele está aí para ser recebido, ou seja, lido, analisado e criticado. Só desejo, agora, apresenta-lo.

Referências bibliográficas

EAGLETON, Terry. Teoria da literatura: uma introdução. Tradução de Waltensir Dutra. São Paulo, Martins Fontes, s.d., p. 59-96. Fenomenologia, Hermenêutica e Teoria da recepção.

ISER, Wolfgang. Problemas da literatura atual. In: LIMA, Luis Costa. Teoria da Literatura em suas fontes. 2 ed. rev. e amp. Rio de Janeiro, Francisco Alves, 1983, vol.2, p. 359-383.

LACAN, Jacques. Écrits. Paris, Éditions du Seuil, 1966. p.793-828. Subversion du désir dans l’inconscient freudien.

________. O seminário – Livro 20 – Mais, ainda. 2 ed. Tradução de M.D. Magno. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 1985.

LIMA, Luis Costa. A literatura e o leitor: textos de estética da recepção. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1979. p.9-39. Introdução: o leitor demanda (d)a leitura.

OLGILVIE, Bertrand. Lacan: a formação do conceito de sujeito. Tradução de Dulce Estrada. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 1988. Transmissão da Psicanálise, 3.

Zilberman, Regina: Estética da recepção e a história da literatura: São Paulo, Ática, 1989. Fundamentos, 41.

Pedro Eiras e seus mestres

Ensaio. Uma palavra simples. Pode “funcionar” como substantivo ou como verbo, dependendo da situação discursiva. No dicionário, suas acepções atestam a flexibilidade semântica que envolve o vocábulo: avaliação crítica sobre as propriedades, a qualidade ou a maneira de usar algo, teste, experimento. Na área da engenharia mecânica: maneira de testar as propriedades mecânicas de material, equipamento etc., usando como parâmetro normas técnicas e requisitos preestabelecidos. Pode significar também ação ou efeito de testar (algo) ou de agir, sem que se tenha certeza do resultado final, tentativa, experiência. Já no âmbito das artes dramáticas – bailado, música, teatro – é a montagem experimental de um espetáculo a portas fechadas, que vale como sessão preparatória à estreia para o público. Já na fisioquímica: operação científica que visa analisar e descrever as propriedades físico-químicas de um corpo. Enfim, no campo da literatura: prosa livre que versa sobre tema específico, sem esgotá-lo, reunindo dissertações menores, menos definitivas que as de um tratado formal, feito em profundidade. Isto posto, escolho a primeira e a última para sustentar as elucubrações que passo a fazer. Como “avaliação crítica sobre as propriedades, a qualidade ou a maneira de usar algo” o ensaio pressupõe um a priori: o material sobre o qual esta avaliação crítica vai se debruçar. Neste sentido, “as propriedades, a qualidade” deste mesmo material podem ser apresentadas, esquadrinhadas e devidamente avaliadas, como quer o sentido do termo escolhido como vetor destas linhas. Assim, o material se abre aos olhares curiosos de quem ensaia sobre eles falar, na mesma medida, da mesma maneira, que se oferece dadivoso aos demais olhares que, depois da “avaliação” ensaiada”, sobre o mesmo material se debruçam. No que diz respeito à “maneira de usar algo”, há que se ressaltar o caráter dinâmico de tudo e de cada coisa que se apresenta como constituinte do ensaio. Dado que o material existe e é considerado, o que desse ou sobre ele se diz, se ensaia, pode apontar para possibilidades várias – as já utilizadas por quem ensaia (olha a natureza verbal do termo!), teste, experimento. A última acepção está circunscrita ao campo da Literatura, especificamente. Como “prosa livre que versa sobre tema específico”, nesta acepção, ressalto ao adjetivo “livre” que muito bem faz para o texto que agora tento resenhar. Na mesma medida, outro adjetivo, “específico”, remete ao tópico de eleição do autor, o fazer literário, em muitas de suas variações e num largo espectro da semântica vocabular que carrega. Por fim, ao reunir “dissertações menores, menos definitivas que as de um tratado formal, feito em profundidade”, o livro de Pedro Eiras é um constructo sólido de referência obrigatória a partir de sua publicação. A obrigatoriedade se dá uma vez que o conjunto de fragmentos reunidos pelo autor acaba por construir, subliminarmente, um discurso muito bem urdido que, simultaneamente, apresenta e critica o fazer literário, muito acentuadamente em seu diapasão crítico. Sore o livro, num blogue português (https://sol.sapo.pt/artigo/591881/pedro-eiras-da-citacao-como-arte-da-decoracao-de-interiores), lê-se: “Todos já escutámos, desse trapo que esbofeteia o ar amarrado a um poste na vizinhança das instituições onde os estudos literários são o campo onde pastam as gerações de académicos, alguma das lendas forjadas à volta da obra que Walter Benjamin deixou inacabada – Passagen-Werk, ou  a Obra das Passagens –, a quimérica operação de montagem a partir de uma vastíssima recolha de fragmentos, recortes e citações, um prodigioso mosaico que deveria erguer uma enérgica malha de sentidos, numa constelação atrás da qual o genial exegeta poderia prescindir de qualquer comentário.


A ideia não era, contudo, tão radical, e a par das citações, que, segundo Rolf Tiedermann, serviriam para construir as paredes deste monumental edifício de saber, Benjamin teria fornecido uma grande quantidade de reflexões teóricas e interpretações, as quais, funcionando como a argamasse, deveriam assegurar a solidez desse edifício. Se a obra nunca se concluiu e se o próprio editor desta “se perguntou algumas vezes se seria razoável publicar esta esmagadora massa de citações”, talvez, permanecendo como um sonho, esta obra tenha projectado um horizonte bem mais aliciante para os seus seguidores. E é fácil perceber este fascínio considerando que, “em termos simplesmente quantitativos, este volume constitui um sexto da produção intelectual de Benjamin, e os seus fragmentos de pesquisas e comentários debruçam-se sobre aquele conjunto de temas que guiaram todo o seu pensamento e escrita de maturidade”, como sublinha Susan Buck-Morss.” O texto, no blogue, continua. No entanto, bastam esses dois parágrafos – iniciais na/da postagem de onde são retirados – para se ter uma ideia do alcance do livro de Pedro Eiras. Há que dizer, sobre o título da postagem, que cabe correção. A associação da matéria do livro de Pedro Eiras com “decoração de interiores” pode parecer descabida. Entretanto, tomando-se como referência o “interior” do fazer crítico, sobretudo aquele que supostamente sustenta a crítica universitária, a expressão é revestida de sentido renovado e, em tudo e por tudo, coerente com a proposta do livro. Salvo equívoco meu. É do interior mesmo de sua crítica, como leitor contumaz e mais que preparado, que Pedro Eiras fala. Sua imensa coleção de fragmentos é prova inconteste da atenção com que o autor se dedica aos estudo comparatistas. Prova disso, igualmente inconteste, é sua produção ficcional, poética e dramática, para não repetir a porção ensaística que completa sua bibliografia ativa. Devo dizer que, num primeiro momento, a leitura do livro de Pedro Eiras causou-me espécie, quase estranhamento, muito próximo de uma situação de negação. Aos poucos, com o correr das citações, vai-se percebendo, sutil e delicadamente um visgo de intenção e método. Uma vez mais, salvo engano meu. O livro de Pedro Eiras poderia ser reduzido a uma simples coletânea, antologia, de citação de autores e ideias alheias que, em nada contribuiriam para os estudos comparatistas de Literatura. Ledo engano. No aparente desdém a que a própria disposição do texto pode induzir, percebe-se uma rasura poética, pelo mesmo motivo: a escolha da ordenação, não temática, mas gráfica, do texto que se desenrola nas 504 páginas do volume que seduz, ilumina e instiga.

Primórdios VII

A Literatura Comparada e o estudo de temas

Introdução

Estudar literatura não pode ser considerada uma prática simplificada ou automatizada. As nuances sempre estarão marcan­do presença e determinando abordagens e interpretações,

A orientação prevista pelo comparativismo eleva à enésima potência essa cadeia de complexidades interpretativo-analíticas. Toma-se muito mais fundamental a atenção aos detalhes, as nuances particularizantes, que vão redefinindo espaços de teori­zação.

O estudo de temas, na orientação da Literatura Comparada tem uma história quase tão antiga quanto a da disciplina à qual se integra. Não podemos dizer, com absoluta certeza, que o conceito fundamental de “tema” oriente constantemente os traba­lhos desta divisão. O próprio conceito, tal qual a disciplina, carece de um fechamento conteudístico. A grande variedade de circunstâncias significativas vai caracterizar este intervalo num círculo fechado. Este é um dos objetivos deste trabalho. Anteriormente, procuraremos dar uma visão globalizada do que se tem discutido a respeito dos estudos de tema, a partir de proposições teóricas de alguns estudiosos do assunto, propo­sições que conformam uma bibliografia básica sobre a qual continuam se assentando os esforços de teorização.

Trata-se de um trabalho desenvolvido a partir de um tí­pico teórico tomado de um programa dado para desenvolvimento da disciplina como crédito obrigatório para a aprovação no currículo de mestrado. Todavia, não podemos afirmar que a sua abordagem se faça do maneira exclusiva, individualizada.

No caso da Literatura Comparada, em que pese a infelicidade/impropriedade ou não do nome da disciplina, nada podo ser considerado individualmente. A relação das rubricas faz parte da natureza mesma da própria disciplina enquanto campo do espe­culação teórica. Assim, por exemplo, não podemos deixar de fazer remessas constantes à História das ideias, quando nos detemos no estudo de gêneros e movimentos. Por consequência, a ideia de cosmopolitismo/provincialismo não deixa de perpassar nossa atenção quando do estudo de fontes e influências ou mesmo de recepção e intertextualidade.

Acompanhando este raciocínio, podemos aceitar com bastante serenidade e segurança, a observação que delega ao estudo de temas – tematologia, parece-nos bastante apropriado enquanto generalização de conceito – um caráter de privilégio no quadro das rubricas encobertas pela Literatura Comparada enquanto dis­ciplina sistematizada a partir de uma vocação generalizada e não de um objeto definido e circunscrito a una metodologia inflexível e particularizada.

O grande objetivo implícito de todo este trabalho pare­ce ser, a nosso ver, a tentativa de constatação desse privilégio aglutinador da tematologia, quase que como una consequência especular do privilégio da própria disciplina à qual se submete operacionalmente.

É interessante ressaltar também que a consulta a manuais alguns, inclusive, já ultrapassados, quer do ponto de vista ideológico, quer do ponto de vista de conteúdo, não pode deixar de ser feita pelo simples fato de que é através da observação atenta do processo de gênese que podemos fazer ressaltar as princi­pais correntes – ideológicas e de conteúdo – que vão determinando os caminhos de emancipação da disciplina – Literatura Comparada – na qual localizamos o caráter geral e da Tematologia no particular.

Sem pretender ser exaurível ou tentar esgotar as possi­bilidades, o que nos parece óbvio, na tradição acadêmica, procu­raremos dar a este trabalho o feitio e a seriedade que as circunstâncias, que o particularizam, exigem para a sua completa e satisfatória realização e compreensão.

Cumpre-nos, ainda, dizer que a exemplificação prática foi suprimida do corpo do trabalho, uma vez que a proposta ini­cial do curso foi realizar uma pesquisa de cunho teórico sobre a matéria. Sendo assim, passamos agora ao desenvolvimento do nossas proposições.

***

Algumas proposições

Nesta parte do trabalho, procuraremos apresentar os elementos básicos que são operacionalizados teoricamente em cada um dos manuais consultados. É claro que se trata de um esboço do que cada autor pretendeu desenvolver com relação ao estudo de temas no âmbito da Literatura Comparada.

A sua apresentação procura acompanhar uma linha evolutiva baseada na cronologia da publicação das obras referenciadas, de maneira que possamos acompanhar, de certa forma, o caminho traçado pela evolução da matéria como meio de compreender melhor a disciplina exigida para a realização de trabalhos de orientação temática.

Sempre que possível, e cabível, nossa interferência far-se-á sentir para tentar aferir a veracidade de opiniões pessoais bem como discutir a veracidade e funcionalidade de certos princípios.

1. De van Thieghem

O mais antigo manual por nos consultado, apresenta alguns conceitos fundamentais da tematologia, como princípios operacionais para o que ele chama de literatura geral. Isto, por conta do conceito primário de Literatura Comparada que em sua época se fazia sentir com maior força persuasiva.

A tematologia, que aqui ainda não recebe esta terminologia, se responsabiliza pela análise e interpretação dos chamados “temas”, tipos e legendas. Sente-se uma profunda vinculação destes estudos com as literaturas populares. Pode-se dizer que tal vínculo também se dá em relação àquelas literaturas que continuam uma certa tradição “folclórica”, passando a outra fase de desenvolvimento sem negar as marcas das próprias origens.

Os estudos de tema não apresentam, apesar de merecerem atenção metodológica acurada em teses, artigos e trabalhos diversos, grande importância para a História da literatura.

É opinião do autor que a diferenciação individual, procurada por cada artista na interpretação de uma legenda dada, confere a esta uma singularidade tão grande que, por extensão, confere à tematologia um caráter que escapa à Literatura Comparada, porque ela não se ocupa de influências literárias.

Não podemos deixar de observar que muitas das opiniões expressas pelo autor, como a imediatamente anterior, parecera contradizer o espírito atual da disciplina. Forçoso é salientar que tais leituras se dão em direção a uma época que começava a sistematizar, teoricamente, uma disciplina que contava com anos de prática efetiva acumulada.

A identidade entre tema e personagens, levando em consideração as exigências de adaptabilidade de ambos para a consecução do objetivo proposto pelo autor, não confere a seus autores o status de influenciados um pelo outro. Não podemos partir do pressuposto errôneo de que haja sempre uma relação de forças causais na evolução de um tema. Isoladamente não.

Existe uma grande dificuldade de se estabelecer subdivisões rígidas para a tematologia, devido à vastidão do campo por ela abarcado e pela diversidade de trabalhos e estudos que podem ser realizados sob essa rubrica.

O estudo de temas exige um levantamento minucioso de dados concretos para a formulação de teses. Tal procedimento se faz essencial e, via de regra, é tomado como justificativa para o fracasso dos menos avisados e incompetentes.

Apesar de apresentar um campo vastíssimo de atuação, a tematologia não pôde, ainda, suplantar o estudo de fontes e in­fluências que é considerado a mola mestra dos estudos comparatistas em geral e da tematologia em particular.

2. De Guiyard

Este autor parece colocar um pouco mais elevado o pedestal da tematologia. Normalmente execrada pelos comparatistas mais tradicionais, os estudos de tema não podem ainda ser veiculados de forma independente. Diz ele, em seu livro A literatura comparada:

Com efeito, eles constituem apenas a matéria da literatura: esta começa com sua valorização, graças aos gêneros, à forma ou ao estilo”. (p. 54)

Ha sempre uma preocupação muito grande em caraterizar o estudo de temas como uma possibilidade recente e inovadora de estudos comparatistas; ele aparece como um direcionamento modi­ficado da orientação comparatista que vai estar sempre ligada ao “psicologismo” da narrativa moderna.

Para este autor, a tematologia aparece como uma grande contribuição para a História das ideias. Os temas veiculam o sentimento humano através de conteúdos quase que sistematizados. No fundo, as grandes ideias é que dão consistência a esta maté­ria da literatura.

3. De Etiemble

Num texto bastante crítico, em que o autor utiliza uma linguagem bastante simples, mas com intensa expressividade, Etiemble coloca toda a sua contestação com relação ao fechamento da Literatura Comparada em torno de quatro ou cinco literaturas europeias ou americanas, como campo mais propício para os estudos comparatistas e de tematologia.

Ele coloca a necessidade de busca de novos horizontes e a abertura para as literaturas escritas em línguas pouco conhe­cidas, o que faria crescer a bagagem cultural das especulações comparatistas.

Suas considerações sobre a tematologia acompanham a orientação geral que é proposta. Ele compreende que esta parece estar tomando um lugar de destaque no quadro geral dos estudos comparatistas, mas ainda, a nosso ver, bastante dependente da consideração evolutiva da História dos gêneros.

Em seu livro Comparaison n’est pas raison, ele faz uma proposta que engloba, sem sombra de dívida, a tematologia, como uma das prioridades da comparatística internacional. O trecho é o seguinte:

“… eu desejaria que, em todos os países onde se ensina nossa disciplina, uma associação verdadeiramente internacional de literatura comparada propusesse um certo número de ‘assuntos’ de interesse geral que seria tratado por todos a fim de mostrar aos estudantes do planeta que cada literatura deve qualquer coisa a todas as literaturas, e que todas se devem coisas mutuamente”. (p. 107).

Cremos que esta posição, bastante clara, denuncia as lacunas existentes na disciplina, em seu contexto atual, além de propor uma pratica globalizante dos estudos comparados – inclu­indo, evidentemente, a tematologia – que só beneficiaria a dis­ciplina como um todo.

4. De Pichois & Rousseau

Os dois autores parecem vincular a tematologia à procu­ra de uma universalidade que poderia ser encontrada a partir da consideração do folclore nacional, que permeia qualquer litera­tura nacional, e do caráter de fantástico que pode estar cristalizado no tratamento temático objetivado em cada obra literá­ria produzida.

Em seu livro La literatura comparada, eles fazem algumas observações interessantes a respeito destas considerações. Entre elas, apresentamos as seguintes:

“Quando se distanciaram, empírica ou racionalmente, estas questões de princípio, o estudo de temas e motivos folclóricos padece de um descré­dito provocado pelos abusos de um romantismo demasiado lírico, seguido por uma ciência pedante ou metafísica de origem germânica (…). Na pressa da síntese, os comparatistas se precipitaram so­bre o conteúdo mais banal de toda a literatura, fabulas, contos e lendas comuns a toda a humani­dade”. (p. 168)

……………………………………………………………………………………………………………………………..

“A Literatura Comparada acolhe qualquer tema ou motivo que permita agrupar as obras sem reparar na nacionalidade, partindo da mais imediata causalidade até as afinidades indiretas”. (p. 176)

As duas citações parecem contraditórias, mas guardam duas particularidades da tematologia: a sua vinculação com o universal e a peculiaridade característica de cada forma de tratamento dado a um tema.

É de consenso dos autores a ideia de que, por quaisquer caminhos que possam ter passado, os temas mais nacionais ou particularmente trabalhados numa literatura, sempre se reportam aos mitos clássicos da antiguidade, que guardam consigo a originalidade conteudística dos primórdios da civilização ocidental e o status de matéria literária desde as primeiras produções.

Encampam também, como sendo um dos “departamentos” da tematologia, o estudo de tipos. Isto porque os tipos têm se tornado fonte de inspiração para muita literatura que se fez a partir de um elemento estratificado e de suas relações com outro elemento e com o próprio contexto no qual está originariamente inserido.

Chamam a atenção para o fato de que os comparatistas devem estar sempre atentos aos meandros da questão dos tipos para localizá-los dentro de obras que tenham valor. Não fazendo assim, correm o risco de procederem a um estudo sociológico das relações de elementos estratificados de uma comunidade qualquer.

Em suma, colocam como fontes temáticas para os estudos comparatistas a natureza: seus elementos, processos e criações; o homem e suas circunstâncias, sentimentos e situações de vida e os fatos mesmos da vida humana no planeta.

De Trousson

Considerada como um clássico dentro do quadro bibliográfico que versa sobre tematologia, a obra de Raymon Trousson trabalha quase à exaustão o assunto.

Partindo de um levantamento bastante completo e atuali­zado de obras teóricas sobre o assunto, o autor inicia sua obra colocando a situação da tematologia – ontem e hoje –no quadro de estudos comparatistas.

Faz um longo percurso, baseado também num levantamento minucioso, da problemática da terminologia. Define, operacional­mente, o conceito de tema, contrapondo as diversas variações sinonímicas existentes.

Aborda a questão da tradição histórica que pode definir uma linha de conduta na pesquisa tematológica, levando em consideração a imanência da obra literária; a problemática da sincronia e diacronia para a definição de uma orientação da tematolo­gia; a discussão sobre “fontes e influências”, alongada na con­sideração de originalidade (criação) e tradição; a delimitação geográfica e histórica da tematologia e a possibilidade de determinação de preferências de autores, de épocas e de nações para os estudos de natureza temática.

Finalizando seu trabalho, o autor coloca a profunda e essencial vinculação da tematologia como método e do tema como objeto, com o contexto histórico que os marca, direciona e orienta numa dada direção especulativa.

***

Confronto terminológico

É bem verdade que, via de regra, a definição de conceitos é o primeiro passo para a organização de um discurso sobre qualquer conteúdo. No caso da tematologia, não há quebra desta tra­dição acadêmica.

Neste trabalho, pareceu-nos melhor acompanhar a ordena­ção de conteúdos que se deu, analogamente, na própria História da Literatura Comparada: ela começou com uma prática ancestral sem centralização metodológica e, num segundo passo, começa a merecer teorizações sistematizadoras para a tentativa de organização do próprio conteúdo trabalhado.

Ao apresentar algumas proposições sobre o assunto, não nos preocupamos, em primeira instância, com uma diferenciação sistemática dos termos como forma de delimitar seus campos específicos de atuação. Fazemo-lo agora.

A diferença significativa de uma mesma palavra, de lín­gua para língua, se impõe como primeiro problema da tematologia no âmbito da Literatura Comparada. Motivo, tipo, fábula, mito, lenda, tema e legenda são palavras utilizadas como sinônimos, agravando a complexidade da questão terminológica.

Uma situação muito particular ocorre com relação ao termo “mito”. Geralmente considerado em seu contexto natural, a Antropologia, este termo não deixa de aparecer em outros contextos – a literatura particularmente – para significar aquele conteúdo que ultrapassou os limites da realidade, deixando para trás as caracterizações particularizadas, impondo-se como invariante universal de significação ciara que, via de regra, nos remete sempre aos primórdios de nossa própria origem, enquanto cultura ocidental.

Há de se levar em conta, nesta consideração, o caráter de “sagrado” que marca e envolve este conteúdo cultural denomina do mito.

Muito regulamente, usa-se mito e tema com a mesma pre­tensão significativa. Talvez, a tendência pelo uso de mito, ve­nha a representar urna certa possibilidade de eliminação da confusão terminológica que marca de modo peculiar esta rubrica.

Podemos considerar ainda o traço coletivo do mito que marca particularizando o conceito, enquanto tomado sob o enfoque de personagem mítico de um universo diegético. Com esta ob­servação, temos que acrescentar que, para o comparatista, não há Prometeu, Antígona ou Fedra exteriores ao texto literário. Estes personagens são sempre considerados em intensa e interna vinculação com o contexto textual, uma vez que e neste que se dá a apropriação “pessoal” do conteúdo universalmente reconhecido e respeitado.

A questão da terminologia revela uma compulsão para a classificação. A utilização da palavra “mito”, na significação temática era que por vezes e tomada, não quer estabelecer, aqui, uma discussão etimológica; tenta, na verdade, uma conjugação de considerações conceituais identificadas por uma gama variada de termos.

Neste primeiro momento de reflexão, não podemos deixar de levar em consideração a apropriação conceitual realizada pelos vários teóricos que, de certa forma, exemplifica a retórica gasta para a apresentação do problema.

Para Simon Jeune, temos tipos (legendários, bíblicos, literários, histéricos, etc.) e os temas (elementos da natureza, sentimentos, ideias).

Esta primeira classificação particular é o ponto de partida para uma malha fina de variações terminológicas de sentido. De autor para autor, um conceito pode ter seu nome trocado, sem que haja uma modificação total e absoluta em sua significação menos profunda. Assim, os tipos de Simon Jeune são os “persona­gens literários” de Pichois & Rousseau; Já Weisstein fala de “tema” para os tipos “individuais” e de “motivos” para algumas si­tuações em que se dinamizam ideias e sentimentos.

Uma esfera um pouco maior do problema conceitual, que e apresentada e considerada a partir de agora, nos coloca a consideração da questão de denominação do estudo em si mesmo.

Em Van Thieghem a tematologia – apesar de não aparecer especificamente com este nome – corresponde à tematologia como organização das obsessões de Roland Barthes; a acontecimentos ou situações infantis de J.-P. Webwe; à constelação de palavras, ideias e conceitos de J.-P. Richard; a um elementos verbal para G. Genot.

Podemos concluir que as nuances podem, por vezes, determinar diferenças e particularidades conteudísticas que “complicam” a questão terminológica. Há de se levar em conta o proble­ma da vaidade pessoal que acaba influenciando uma ou outra posição como forma de inovação, sem os cuidados necessários com as possíveis consequências negativas ou mesmo delicadas.

Por outro lado, podemos também chamar a atenção para uma outra etapa desta confrontação, que vai se ater particular­mente sobre as noções de tema e motivo.

Estas noções vinculam-se de maneira bastante aproximada, apesar de serem absolutamente independentes uma da outra. Daí a necessidade de questionamentos e conclusões individualizadas, num movimento maior de intercomplementaridade. Os conteúdos aqui veiculados podem ser tomados em sua especificidade, que os define de modo quase absoluto.

Acompanhando o raciocínio de Raymon Trousson, apresentamos algumas questões levantadas, por ele, sobre o assunto:

“O que é um motivo? Escolhemos chamar assim a um pano de fundo, um conteúdo largo, designando ora uma certa atitude ora uma situação de base, im­pessoal; o que os autores ainda não podem individualizar”. (Thèmes et mythes, p. 22)

Temos que admitir que há uma distância conteudística que separa o motivo, organizado na representação literária, dos arquétipos da espécie humana. Para utilizarmos uma expressão jungiana:

“O que é um tema? Convencionemos chamar assim a expressão particular de um motivo, sua individualização ou, se querem, a passagem do geral para o particular”. (Thèmes et mythes, p. 23)

Nesta etapa, consideramos a necessidade de levar em conta um evento duradouro num determinado espaço como mola mestra da caracterização conceitual de um tema.

Cremos não ser completamente inoportuna a observação de que o ponto de vista do autor citado parece inverter, pelo menos aparentemente, a localização dos termos no jogo de oposição geral/particular. Via de regra, o motivo parece estar sempre colocado no lugar em que aparece, aqui, o tema…

Podemos ainda, aventar a possibilidade de se considerar a distinção dos conceitos como pontos de defesa da própria dis­ciplina.

Parece haver um movimento de justificação da não neces­sidade de se considerar o tema como matéria mesma da literatura, complementada pela figura do “tipo” específico; e para determi­nar, como tal, o motivo que não carece do tipo, pois veicula a própria experiência humana em sua alteridade existencial.

O motivo é o elemento não literário que delimita as si­tuações e as atitudes fundamentais, por isso, é a matéria mesma da literatura, enquanto particularização no tratamento do conteúdo universal.

Há uma crítica muito forte contra a tematologia, enquanto preocupada com a extensão conteudístico-operacional de seus próprios conceitos, que tenta tirar dela seu caráter de profunda aplicabilidade quando diz que a tematologia é o estudo da evolução de um só personagem em todas as suas apresentações. Tal ob­servação, ao que nos parece, guarda uma certa dose de verdade. Não fosse assim, não haveria justificativa para trabalhos exaustivos como o de Jean Rousset, sobre Don Juan.

A tematologia descobre, analisa, compara e descreve as máscaras sob as quais o mesmo conteúdo temático costuma se apresentar.

O tema não pode ter mesmo uma significação única, uma vez que esta se dá através da apresentação variada e múltipla dos motivos. Parece haver uma relação de justificação exemplificada e variável; o tema está muito mais preso aos liames do tempo e do contexto histórico que o motivo.

Nota-se, assim, que há uma forte presença, e consequente influência, quase uma força coercitiva, das ideologias diacrônicas na determinação e descrição utilitária dos temas.

Os temas só existem em momentos dados, pois servem para veicular os conteúdos ideológicos de um passus da existência humana através dos mais diferentes motivos.

Falar das apresentações temáticas não pode ser uma prá­tica restrita a elementos interiores dessa representação, mas há de se levar em conta os entraves histórico-temporais.

Ainda uma outra característica é a viabilidade simbóli­ca do tema numa época determinada, e mesmo nas diversas obras de um autor num espaço de tempo limitado.

Concluiremos esta parte de nosso trabalho com a transcrição de dois trechos da obra de Raymon Trousson:

“Le thème, cristallisation et particularisation d’un motif est d’emblée objet littéraire parce qu’il n’existe pas qu’a partir du moment où le motif s’est exprimé dans une oeuvre, devenue le point de départ d’une série plus ou moins importante d’autres oeuvres, le point de depart d’une tradition littéraire”. (p. 26)

…………………………………………………………………………………………………………………………

la distinction à établir entre leg notions de thème et de motif apparait de première importance, non seulement en soi, sur le plan de la ter­minologie littéraire, mais aussi parce quelle déterminará des differences sensibles sur le plan metodologique”. (p. 30)

É nossa opinião, vale a pena acrescentar, que, das observações acima, podemos inferir uma característica primordial de um confronto terminológico no âmbito da teratologia, numa perspectiva comparatista: a operacionalidade dos conceitos. Sem esta preocupação, todo o esforço terá sido mero exercício retórico.

***

Conclusão

Faz parte da tradição da Literatura Comparada, enquanto disciplina sistematizada, começar pela prática para depois che­gar a uma teorização que organiza e esclareça as diversas possibilidades da matéria. Não deixamos de acompanhar esta tradição. Da busca, em dicionários gerais e especializados, do significado da palavra “tema”, podemos concluir que seu traço característico se localiza em sua essencialidade.

A noção de tema sempre nos reporta a um conceito de base fundamental para a realização de um discurso. Com relação à música, então, a definição toma-se muito clara, fazendo uma remessa direta ao conceito veiculado em literatura:

Motivo: o que é o germe do qual procede e no qual se desenvolve a composição.

Podemos, então, dizer que não existe uma obra literária se não houver um tema bastante preciso? Ou seria supor um exagero?

Realizando a mesma busca com a palavra “mito”, vimos que esta nos reporta a alguns conteúdos praticamente supra-reais. Faz constante referência às cosmogonias essenciais da humanida­de, conjugando valores fabulosos, fantásticos, utópicos.

Logo na primeira impressão, não podemos ter dúvida, nos é apresentada uma confusão, uma certa impossibilidade de identificação conceitual entre as duas palavras.

A Literatura, enquanto arte das palavras, não pode dei­xar que, nas teorizações que sobre ela se realizam, o bom senso na aplicação de termos precisos seja deixado de lado, sem uma explicação justa, plausível.

A querela terminológica, estabelecida entre tema e mito, cremos nós, nunca terá fim. É bom que se procure, portanto, a sua aplicação, sempre que possível, precisa, para que maiores confusões não sejam uma consequência negativa para a própria Literatura.

O estudo de temas, no âmbito da Literatura Comparada, parece não ter contado sempre com o aval dos comparatistas, apesar de ser uma prática especulativa bastante realizada por muitos deles.

É de se notar que, na tradição histórica da disciplina, muitos trabalhos identificados de maneira diferente, com títulos diferenciados, realizavam pesquisas de orientação temática. Esta observação, além de curiosa, pode sor tomada como ponto de partida para uma justificação da importância fundamental dos estudos de tema na perspectiva da Literatura Comparada.

Determinar o campo semântico dos termos analisados, para melhor compreender sua utilização, não esgota o leque de possibilidades da tematologia. Esta procura, sempre e mais, a nosso ver, a identificação e elucidação de certos invariantes univer­sais que vão sofrendo apropriações e tratamento individualizado, correspondente a cada contexto histórico e geográfico no qual se encontra uma especulação de cunho comparatista.

Muitos são os teóricos e os críticos que já se colocaram na posição de advogados do diabo, para melhor discutir a questão da validade ou não da tematologia nos estudos comparatistas.

Não temos a pretensão de ser definitvos, nem de acabar de vez com estas questões. Dentro de nosso modesto trabalho procu­ramos demonstrar o caráter privilegiado – quase fundamental – da tematologia.

Não nos parece absurdo afirmar que, indiretanente, esta rubrica da Literatura Comparada se liga profundamente a outras tais como: gêneros, movimentos, história das idéias, fontes e influências, recepção, etc.

Sem querer assinalar com a originalidade as nossas dis­cussões, pretendemos corroborar a opinião de muitos estudiosos do assunto que colocam a tematologia quase como o estudo da matéria literária em si mesma.

Dentro das pesquisas realizadas, ficou-nos a impressão de que, pela própria imprecisão de que se valem os termos utilizados em seus trabalhos, a tematologia acompanha a carência de sistematização mais rígida, característica muito particular à própria Literatura Comparada.

Nesta, as metodologias se multiplicam, dando origem a uma diversidade de orientações que acabam por confundir um pou­co a linha geral da disciplina. Acreditamos que, cora relação à tematologia acontece, analogamente, a mesma coisa. As buscas são tão numerosas e variadas, as direções tomadas aparentemen­te tão contraditórias, ou mesmo indefinidas, que provocam o questionamento interno da própria disciplina.

Não acreditamos num trabalho comparatistas de largo es­pectro, que não comporte a tematologia, como um de seus procedimentos fundamentais.

É nossa impressão que a tematologia se constitui um ponto de polarização dos trabalhos comparatistas por força de sua atuação universal, quase impossível de ser catalogada ou mesmo catalogada caracterizadamente de maneira sucinta.

Cinco possibilidades de enfocar a tematologia no âmbito dos estudos comparatistas podem se:

a) possibilidades discursiva e narrativa de se aproximar uma cultura nacional e sua literatura dos demais pontos de consideração comparatista;

b) instrumento de descoberta de cavilosidades ideológicas no discurso narrativo colocado em questão, dentro de um determinado contexto e em comparação com outros;

c) índice de grandes correntes de ideias que perpassam uma ou mais narrativas em qualquer contexto;

d) caminho aberto para um aprofundamento maior de uma imagologia, numa determinada literatura (em si mesma e em comparação com outras);

e) parâmetro de determinação da qualidade estática da criação, da apropriação, da parodia, da intertextualidade, etc.

Diante destas indagações, parece-nos ter se tomado pe­quena e quase sem importância a questão terminológica. Ao contrário! Não podemos deixar de acreditar que é na dinâmica mesma desta discussão que podemos localizar o vigor dos estudos de tema; o que só contribui para a afirmação e maior aproveitamento da Literatura Comparada. Esperamos ter demonstrado estas convicções com suficiente clareza.

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Bibliografia

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JEUNE, Simon. Littérature Genérale et littérature compacarée. Essai d’orientation. Paris, Minard, 1968.

PAGEAUX, Daniel-Henri. La recherche en littérature comparée en France. Aspects et problémes. Paris, S.F.L.G.C., 1983.

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TROUSSON, Raymond. Thèmes et mythes. Questions de méthode. Bruxelles, Éditions de l’Université de Bruxelles, 1981.

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WELLEK, René & WARREN, Austin. Literatura geral, Literatura Comparada e Literatura nacional. In: Teoria da Lite­ratura. Tradução de José Palia e Carmo. 2 ed. Lisboa, Publicações Europa-América, sd.

________. Imagem, metáfora, símbolo e mito. In: Teoria da Literatura. Lisboa, Publicações Europa-América, sd.

________. A crise da Literatura Comparada. In: Conceitos de crítica. Tradução de Oscar Mendes. São Paulo, Editora Cultrix, sd.

(Trabalho final da disciplina “Literatura Comparada”, Profª Neide de Faria)

Primórdios IV

Tentativa de estabelecimento de categorias do Existencialismo na obra de Graciliano Ramos: Angústia

Introdução

            A grande motivação deste trabalho nasce da perspectiva, cada vez mais instigante, de tentar um discurso teórico-críti­co que consiga estabelecer de maneira definitiva, a relação intrínseca entre Literatura e Filosofia.

Em que medida podemos afirmar que uma e outra se servem e se utilizam mutuamente, para veicular seu próprio discurso?

É certo que podemos encontrar grandes questões filosó­ficas desenvolvidas num texto tipicamente literário; em contrapartida,podemos encontrar um texto filosófico que se inscreva –

em sua formalização e concepção – no campo da realização li­terária. Este fato não constitui novidade. Provoca, entrementes, uma discussão que procura esclarecer se,nestes moldes, o problema fica resolvido ou se e preciso explicitar mais os me­canismos de realização deste encontro.

 O objetivo desta disciplina – Filosofia e Literatura – se estabelece e se fundamenta no desenvolvimento desta discus­são. Não podemos deixar de estar atentos a todos os desdobramentos que esta provoca em todo o campo do saber acadêmico.

O presente trabalho, atento a todas as seguidas cons­tatações a este respeito,não pretende esgotar o assunto em sua esfera teórica.

Tomando um texto literário, de qualidade inegável, tentaremos elucidar esta questão a partir do trabalho criativo desenvolvido por Graciliano Ramos.

A perspectiva da análise será dada pelo personagem cen­tral da narrativa, Luís da Silva. Isto, a nosso ver, operacionaliza melhor o trabalho de consideração dos temas do Existencialismo na sequência narrativa desenvolvida pelo autor através do personagem.

Acreditamos não ser importuna a observação de que não faremos um trabalho comparativo com outras obras que apresentam o mesmo caráter. A exiguidade do tempo e os objetivos específicos deste trabalho assim o exigem.

Partiremos de uma breve consideração do título do romance, não do ponto de vista da narratologia moderna, que não de­ve ser considerada inválida por causa disto. A nossa intenção com esta atitude é tentar criar um clima propício para a discussão proposta, almejando uma melhor compreensão e aceitação de nossas especulações.

A preferência por obras de caráter mais analítico sobre o tema do Existencialismo se vê plenamente justificada nos ob­jetivos já apresentados.Gostaríamos apenas de apresentar um pequeno acréscimo que diz que os manuais e livros introdutórios obedeceram a um caráter de generalidade e abrangência global do tema,uma vez que este trabalho não possui a pretensão de ser final ou conclusivo em relação ao tema tratado a partir do texto literário escolhido.

Gostaríamos ainda de acrescentar que é de nosso interesse particular o estudo ora apresentado, uma vez que é grande a utilidade apresentada pelo elenco de contribuições, veiculadas por ele,para o desenvolvimento de nosso trabalho final de mestrado.

***

Da palavra angústia

Não se pode negar o absoluto poderio da palavra, quando consideramos o vasto campo coberto pela necessidade de transmissão de ideias. Assim, na Filosofia, a palavra conhece maior celebração, por sua capacidade de levar o homem à reflexão profunda de todas as suas possibilidades, a partir da abstração possibilitada e veiculada por ela mesma.

Particularmente, neste trabalho, podemos afirmar que um apalavra se apresenta como chave de compreensão do jogo es­tabelecido, e cada vez mais buscado, entre Filosofia e Litera­tura.

Antes de qualquer explanação, gostaríamos de deixar claro que não é nossa intenção corroborar tentativas de rotulação categorizante sobre a obra de qualquer escritor. No caso de Graciliano Ramos, muito se tem dito[1] e não nos parece opor­tuno discutir todas as abordagens feitas sobre sua obra. Não podemos, no entanto,deixar escapar uma oportunidade de exercitar nossa capacidade analítica no caminho proposto para alcan­çar objetivos maiores.

Podemos dizer, como vínhamos fazendo, que uma palavra-chave se apresenta como ponto departida para a nossa análise. É a palavra “angústia”.

Derivada do latim angustia, significa estreiteza, li­mite,restrição, ansiedade ou aflição intensa ou ainda, ânsia, agonia, sofrimento tormentoso, tribulação.

Destas primeiras considerações, podemos nos remeter a um contexto quase patológico, onde se localiza o espírito humano quando experimenta tal sensação. Gomo podemos deduzir, angústia não possui uma existência material, não chega a consti­tuir-se como ser, mas como sensação, sentimento.

A etimologia da palavra nos apresenta elementos interessantes. Na palavra angústia encontramos angusti elemento composicional do latim angŭstus que significa estreito, apertado, pontia­gudo.

Esta segunda consideração nos esclarece mais a situação criada pela palavra angústia. Seu caráter redutivo, e quase opressor, é evidente. Este traço define todo o espirito que circunda esta palavra quando consideramos sua significação no contexto da obra literária analisada.

Não é uma coincidência simples, ofato de angústia ser uma palavra-chave. Afinal,ela dá nome à narrativa de Graciliano Ramos[2]. Foi uma escolha propositada pois encontramos na Filosofia o respaldo de ideias que nos ajudarão a compreender, não só o título da obra, como também a relação que a Literatu­ra estabelece com aquela, nesta narrativa invulgar.

Dois dos precursores do Existencialismo fazem observações interessantes, são elas:

Segundo Kierkegaard, angústia e uma determinação que revela a condição espiritual do homem caso se manifeste de maneira ambígua e o desper­te para a possibilidade da liberdade. Já Heidegger coloca que é a disposição afetiva pela qual se configura a existência.

Destas duas observações podemos retirar duas ideias que serão trabalhadas posteriormente. Em primeiro lugar, um certo clima de opção, de escolha, que se define a partir do próprio clima de instabilidade, criado pela situação mesma da angústia. Em segundo lugar, a ideia de nadificação do ser, marcando a total impossibilidade de modificação da impassibilidade do homem diante dos objetivos finais, ontológicos, de sua própria existência.

Não temos a intenção de dar por acabada, pelo menos nos limites definidos por este trabalho, a discussão acerca desta palavra. Cremos, no entanto, que os elementos por ela veicula­dos, e até aqui apresentados, já nos oferecem luminosidade su­ficiente para que possamos desenvolver a análise proposta.

O texto de Graciliano Ramos parece ser de grande valia para esta análise. Ela também não é única. A riqueza de seu personagem central – Luís da Silva – e a qualidade técnica da narrativa impõem-se como parâmetros básicos mais que suficientes para a consideração de algumas categorias existencialistas em seu universo diegético.

***

Fundamentação teórico-filosófica

Começamos a nossa caminhada citando um dos autores con­sultados[3]:

“O existencialismo é uma filosofia em primeira pessoa, e em primeira pessoa concreta, que põe na Filosofia tudo de seu, e não nada de seu,como exigia o pensamento abstrato”.

Esta primeira citação nos direciona as especulações, colocando como vetor máximo o homem, o indivíduo, e sua medida. Não podemos falar do Existencialismo como mero exercício de abstração. Há necessidade intrínseca de levar em conta a concretude do indivíduo considerado no universo de sua existência e focalizado em sua impassibilidade total diante do mistério que o rodeia.

Kierkegaard já postulava esta necessidade ao considerar que a dificuldade do pensamento abstrato se concentra em todos os problemas da vida humana. Isto deve estar sempre presente,pois a abstração a par de seu valor operacional, em muitas si­tuações, tende a escamotear, a apartar, as dificuldades concretas do existir humano.

O pensamento abstrato não possui nenhum interesse imediato e próprio, mas a dificuldade da existência reside justa­mente no maciço interesse dirigido sobre a própria busca da essência, empreendida pelo homem que tenta pensar sobre ela; que tenta encontrar explicações, esclarecimentos sobre sua própria vida. O pensamento puro nos leva à verdade, mas misturado às paixões ou sentimentos, nos fornece opiniões que não nos permitem ter uma visão objetiva do mundo. Não nos deixa escapar de sua força de sacrifício.

A Filosofia existencialista distancia-se do abstrato e aproxima-se do que realmente existe na vida do homem que observa sua própria existência. O Existencialismo tenta refletir sempre sobre a experiência do ser humano na sua própria busca de essência.

O Existencialismo adapta como língua a linguagem do romance, principalmente, e também do teatro. Simone de Beauvoir já considera esta realidade e diz que “a descrição da essência pertence à Filosofia propriamente dita; só o romance permitirá evocar na sua realidade completa, singular e temporal, o jato original da existência”[4].

A abordagem individual da realidade se faz através da abstração de nossa própria existência, o que faz saltar aos olhos a verdadeira concretude, a realidade material das coisas fora de nós.A aventura de existir está muito dependentemente ligada à realidade material das coisas; isto nos leva à consideração do fato de que a observação da existência ultrapassa a materialidade, pois revela o caráter singular e único de cada existência em separado. A aparente contradição existente entre estas duas observações enfatiza o caráter de emergência que pode seri nferido das atitudes e colocações do indivíduo ao pen­sar a sua própria existência.

Segundo Aristóteles, a ciência começa pelo espanto e o Existencialismo, considerado num aparato científico, que supostamente envolve as especulações filosóficas, tem seu início no espantoso perceber da própria existência humana, o fato da vi­da. Esta percepção coloca mais uma característica particular, a de unicidade diante da possibilidade infinita, a individualidade no universo. Esta característica atribui, de antemão, uma qualidade de diferenciação plausível na investigação existencialista.

Há na existência do homem uma constante possibilidade de “vir a ser” que o põe, radicalmente, em relação à brutalidade material das coisas. Esta passagem, ou mesmo, a sua consideração, marca a primeira condição da existência humana, o esco­lher.

O homem é privilegiado pois pode optar pela existência desejada. De certa forma, esta condição parece contradizer-se quando observamos que não há escolha do par genitor. Este pon­to abre novas perspectivas que por ora ultrapassam nossos objetivos.

Na verdade, não basta escolher “ser”, mas “ser” o esco­lhido na existência que já está determinada. A partir desse ponto, podemos afirmar, com certeza, que este movimento dialógico estabelecido entre “ser” e “existir” é o responsável pelo aparecimento das angústias que se apresentam como elemento de discussão do próprio homem. Paulo Foulquié[5] nos dá uma visão bastante interessante deste ponto:

“Em cada circunstância, o homem,ao contrário, pode escolher entre muitas hipóteses: e só depois de sua escolha, sabe-se o que de fato ele escolheu, no que esta escolha o transformou, qual a sua essência”

A escolha do que somos revela a capacidade de obedecer. a uma consciência, caráter de responsabilidade que envolve qualquer atitude do homem.Nós temos nossa atenção sempre vol­tada para o exterior e esta é a única possibilidade de justificação de nossa própria consciência. Ao lado da responsabilida­de já prevista e, antecipadamente, existente, nos leva à consideração da liberdade de escola, dentro de um quadro de proba­bilidades concretas e acessíveis.

Neste jogo de percepção,a existência e seus modos de percepção e análise nos trazem a imagem do outro.

Este fato constitui a concretização dos conceitos abs­tratos que são veiculados em todo este processo especulativo. Este conjunto de elementos determina a necessidade de confron­tação não só do indivíduo com ele mesmo, como entre todos os possíveis polos estabelecidos a partir da relação dialética considerada. Isto é apenas um condicionamento da própria existência humana era seu exercício ontológico.

Há,ainda, que se levar em conta a necessidade constan­te e fundamental, do compromisso individual com as próprias opções e resoluções (incluindo a sua própria negação). Este fator demonstra a adaptação necessária do processo ao caráter contingente da própria existência no mundo. É o reconhecimento de certa relatividade, apesar de aparentemente grande, ontoló­gica de todo o processo desenvolvido.

“Os nossos fins governam todas as nossas escolhas; a li­vre escolha de nossos fins acarreta a liberdade de todas as nossas determinações particulares”[6]. A partir desta observa­ção, podemos aventar um vínculo de consequência entre este processo de opção e responsabilidade e a angustia que dele decor­re. Não há como escapar a esta conclusão, pois a determinação de uma opção num conjunto de possibilidades determina o abandono das demais. A redundância se reflete no caráter – quase ób­vio – desta observação.

A angústia se apresenta, então, como uma consequência automática que não permite, praticamente,nenhuma modificação processual. É rejeitando todas as construções do espírito no mundo atual que ele se coloca que os existencialistas procuram dar por terminada e determinada esta contradição, que se reve­la no ato de escolher, sem nenhum princípio de escolha. Esta contradição se reflete também no momento de determinar no acerto ou não de toda e qualquer decisão. Aí se fundamenta a angústia existencialista.

A perspectiva individual da existência humana, de sua análise e de todos os desdobramentos ultrapassam a esfera da responsabilidade e da liberdade de opção. Ha ainda a consideração de estar no mundo com os outros. Esta observação coloca todos os homens, respeitadas as devidas diferenças, no mesmo ní­vel de condição existencial.

Partindo daí, podemos dizer, com certa segurança, que o diálogo é a possibilidade primeira e fundamental de mútua apresentação condicional. Há uma existência “com”, que não pode ser destituída de valore abandonada nas especulações que bus­cam generalizações filosóficas.

A preocupação constante do Existencialismo é reencontrar um sujeito existencial, o de nossa experiência pessoal,vivida; e restaurar o contato íntimo, na existência humana, entre a subjetividade e a transcendência, dois termos que estabelecem uma antítese, mas que se apresentara sempre e indissoluvelmente ligados.

O homem não constitui uma existência individualizada, no sentido de isolada do todo universal. Pelo contrário, faz par­te dele e nele atua de maneira operacional.

Até aqui, colocamos algumas observações generalizadoras acerca do Existencialismo, num enfoque principalmente filosófico. Não deixamos de lado a tentativa de operacionalizar estas ideias, tendo em vista a análise da narrativa que será posteriormente desenvolvida.

Uma consideração a mais, que podemos dizer importante, por particularizar um aspecto da especulação filosófica, diz respeito a Deus.

Esta ideia e a possível anulação de sua existência pos­tulam os fundamentos do Existencialismo. Dizemos isto, pois, o caráter finito da existência humana pede, como necessidade essencial o estabelecimento de valores básicos – funcionando como parâmetros – de moral e critério de avaliação e tomada deposição.

Implicitamente, em qualquer atividade proposta como instrumento de especulação filosófica, caracteristicamente existencialista, tem-se a necessidade de uma projeção para o infinito.

Retomando nosso discurso, preparando um momento de con­clusão, podemos levar em consideração duas posições precursoras do Existencialismo.

Para Heidegger, o homem é um ser para a norte. Isto se constitui como a grande possibilidade da vida humana, garantindo a existência de todas as outras possibilidades, consideradas menores, que vão preenchendo o tempo até o fato derradeiro.

Jaspers, na tentativa de negação da morte, postula para o homem uma fatalidade de naufrágio. O caos existencial vai tomando conta da própria vida, impedindo sua subsistência livre e desimpedida.

Como fator de contemporaneidade, Sartre considera que o homem não tem um destino programável ou definível ontologicamente. O homem é um ser para o “nada”. O futuro da humanidade é o desaparecimento completo e este “nada” é que leva a cabo a existência  do próprio ser humano.

A existência do homem é, então, demarcada em sua finitude pelo nascimento e pela morte. O“vir a ser” e o “ter sido”são os dois termos de uma linha evolutiva,que marca, para to­do o sempre, todas as atitudes do homem em seu caminho de bus­ca da própria essência. Esta caracterização pela finitude, pode-se dizer, é que dá a marca de peculiaridade à existência – e existência  racional – do homem.

Podemos dizer, então, com alguma certeza, que uma atitude existencialista possui duas fontes principais: a tomada de consciência de urna situação histórica e social de crise e de revolução; e a mesma tomada de posição, com relação ao conhecimento que se desenvolve a partir da própria existência.

Concluímos esta primeira parte do trabalho, com uma citação instigante que deixa um campo aberto atrás de si[7]:

“Os existencialistas devolvem à palavra “existir”seu sentido etimológico. “Existir”quer dizer estar fora, ir para fora. Na palavra “existir”, o importante é o “ex”, que indica o movimento de algo para outra coisa. Existir é estar fo­ra do próprio centro, fora de si mesmo (…). O homem, enquanto existe, é o ser que está fora de si, o ser que se estranha a si mesmo, o ser lon­ge de si”.

***

Luís da Silva: possível estudo de caso

Chamamos esta parte do trabalho de possível estudo de caso pelo simples fato de que um nome comum identifica um ho­mem comum, um homem como qualquer outro. Seus traços de herói se perdem numa diluição quase completa de formas corriqueiras de existir.

Não tomamos parte muito expressiva no contexto de Luís da Silva talvez, por força do incômodo que sua situação e história criam em nossa própria existência, de mais a mais, con­cordamos com o professor Rui Mourão[8], quando diz que:

“O ana­lista deve se colocar diante da obra literária sem qualquer plano antecipado de trabalho, pondo em suspenso, inclusive, a sua carga organizada de conhecimentos, a fim de que a intuição crítica se realize em toda sua plenitude, é necessário deixar o texto falar, até que se revelem os seus suportes expressivos fundamentais.

A partir deste momento, o esforço de interpretação se orientará no sentido da descoberta da unidade da estrutura de significados, através do levantamento tanto mais completo quanto possível, dos diversos extratos, para que se chegue ao amplo descortínio da fisionomia íntima do fenômeno vivo. A crítica, entretanto, somente dará por terminada a sua tarefa quando esse devassamento dos suscetíveis níveis de significação atin­gir os planos mais amplos e gerais, em que o produto estético deixa de ser para o intérprete uma realidade absoluta, ganhan­do a dimensão relativa, que corresponde à própria maneira de se inserir no processo geral da cultura”.

Penetrando diretamente no texto de Angústia,podemos conferir que a utilização da prosa subjetiva, com os verbos quase sempre em primeira pessoa, causa efeitos que, supostamente, ultrapassam uma possível estruturação narrativa desejada pelo próprio autor. Como não temos certeza de suas reais intenções, baseamos nossas observações em processos evidentes de escritura,como a modificação do gênero narrativo que coloca em substantivos comuns a designação do ser que fala, dificultando a determinação da voz narrativa. Tal procedimento tende a estabelecer uma possível tentativa de universalização atemporal, e não determinada no espaço, dos problemas de comunicação de toda a problemática existencialista que pode ser inferida do discurso narrativo.

Todo o texto, a partir da consideração estilística da utilização do tempo verbal (um dos níveis plausíveis), coloca a situação de imobilidade do indivíduo diante do tédio causado pela inexplicabilidade de seu próprio drama existencial. Podemos perceber isto num dos trechos iniciais do texto de Graciliano

“Um sujeito chega, atenta, encolhendo os ombros ou estirando o beiço, naqueles desconhecidos que se amontoam por detrás do vidro. Outro larga uma opinião à-toa. Basbaques escutam, saem, e os autores, resignados, mostram as letras e os algarismos, oferecendo-se como as mulheres da rua da Lama”.

Logo nas primeiras páginas, percebemos que algo começa a se estruturar apesar da caótica apresentação de uma visão de coisas. Não sabemos ao certo com que estamos fazendo contato ou em que tempo objetivo nos encontramos. Começamos a distinguir o mundo social e geográfico em que vive nosso guia oculto, começamos a partilhar com ele suas próprias emoções, sem que elas percam sua absoluta particularidade, e a penetrar no seu próprio campo de visão da realidade; adotamos o seu enfoque. Neste contexto, o caráter filosófico do discurso, que passa a ser considerado filosófico, o mesmo que orienta a leitura do texto, a partir desta tentativa de universalização dos confli­tos vividos – já em processo – por um personagem que não se diferencia do narrador, demonstra toda a impassibilidade do homem diante da constatação da própria perplexidade.

O personagem de Angústia procura trazer todas as sen­sações, tudo o que lhe aconteceu no passado, para dentro de um único instante, o instante mesmo de sua conscientização diante da realidade objetiva dos fatos que vai sendo conscientizada.

O posicionamento do indivíduo diante da complexidade de sua própria existência, exige uma parada no tempo, como que querendo absorver, lucidamente, toda a carga sensível de sua aventura existencial; na tentativa de apreensão de um sentido,que se perdeu na própria experiencia do viver.Ainda no início de Angústia,encontramos outro trecho que ilustra com bastante força temática, as observações feitas até aqui:

“Não consigo escrever. Dinheiro e propriedades, que me dão sempre desejos violentos de mor­tandade e outras destruições, as duas colunas mal impressas,caixilho, dr. Gouveia, Moisés, homem da luz, negociantes, políticos, diretor e secretário,tudo se move na minha cabeça, como um bando de vermes, em cima de uma coisa amarela,gorda e mole que é, reparando-se bem, a cara ba­lofa do Julião Tavares muito aumentada. Essas sombras se arrastam com lentidão viscosa, misturando-se,formando um novelo confuso”.

Luís da Silva é um homem atormentado. Ele se sente acuado, vive a própria angustia de existir, imerso num mundo confu­so, caótico. Ele vai desenvolvendo um processo de descoberta, como se abrisse uma caixa,encontrando outra e depois outra. Faz sair uma emoção, uma recordação, uma visão, etc.; por aí chega a alcançar o infinito de sua experiência, quer dizer, co­meça a tocar a linha que esgota todos os compartimentos e subcompartimentos de sua lucidez. As anotações possíveis do que vai percebendo ficam reunidas num só instante, um compartimento maior: a caixa que comporta todas as outras caixas.

Podemos inferir um forte traço intimista no discurso de Graciliano Ramos, veiculado, é claro, por Luís da Silva.

Este intimismo, em algumas passagens, marca a aproxima­ção realizada entre o texto e algumas categorias da Filosofia marcadamente existencialista. Por exemplo, o individualismo, que não se fecha ao real pois tende a universalizações que possam emoldurar outras considerações diferenciadas. Outro exemplo muito ilustrativo é o da náusea,apresentada, colorida e muito evidenciada em determinados detalhes que perpassam todo o texto, criando climas opressivos, quentes até. Um abafamento agoniado,zumbir de moscas sobre mesas engorduradas, zunir do ouvido provocado pelo álcool,a terra, o sono, a sufocação.

O texto vai desenvolvendo de maneira ilustrada, quase comentada. “o espetáculo de uma consciência em funcionamento”. Podemos, a cada passo, acompanhar com o personagem cada etapa do processo de diluição do peso da existência humana diante da imensa opressão do infinito da vida.

Desta forma, há a realização de uma possível comunhão da Filosofia com a Literatura,apresentando as vantagens dos recursos estéticos no desenvolvimento de um raciocínio filosó­fico, sobre uma tese qualquer.

Os operadores estéticos fazem encobrir a aridez do conflito existencial puro, considerado pelo discurso da Filosofia na trama confusa e opaca de uma existência individual, sem grandes pretensões de importância. O texto não procura dimensionar juízos de valor sobre o discurso filosófico, nem sobre o discurso literário. Há um processo de intercomplementaridade de visões que proporciona um grande momento de reflexão, esteticamente construído.

Há uma proposta existencialista clara: o jogo estabele­cido entre essência e existência. Tal ludoterapia proporciona ao indivíduo a possibilidade de reabilitação de seu próprio ser diante da náusea, que o acomete perenemente. Luís da Silva participa do jogo e vai desfiando um novelo, procurando estabelecer parâmetros que possam beneficiá-lo na busca de solução de suas dúvidas, apreensões e projetos.

O professor Rui Mourão nos apresenta mais alguns elementos de orientação nas observações possíveis, no seguinte trecho de seu livro, já citado anteriormente:

“A impressão que se tem é de que, havendo atingido,nas suas viagens pelo tempo, o campo da meninice, de lá não deseje retomar. O presente em que nos coloca é qualquer coisa de anestesiante – um presente comprometido pela inação, um presente que parece estar fora do tempo,por não ser capaz de dar a ideia de sucessividade. Ele pertence à atualidade ou ao passado? À atualidade, mas bem que poderia pertencer igualmente ao passado, uma vez que o personagem insistia de tal maneira em reviver os dias idos que o passa­do acaba por se tomar a sua atualidade”.

Podemos dizer que, de acordo com estas observações, o texto de Graciliano Ramos apresenta as implicações da escolha do que se quer ser para a comprovação da tese – uma das principais – do Existencialismo. Estas constituem um pressuposto fundamental:a liberdade. O ser pode optar por sua existência e, assim, se localizar no tempo. Luís da Silva faz sua opção e percebe que a angústia que vivencia pode ter plantado uma de suas raízes na fundamentação desta liberdade de escolha. Ele escolheu uma dentre as inúmeras manifestações de possibilidade existencial veiculadas pelo tempo.

O fato de prender-se à prática de escrever artigos para o jornal, o fato de ser funcionário público, o fato de ser apaixonado por Marina e o fato de ter de se livrar de Julião Tavares – seu rival declarado – dimensionam e conduzem a opção de Luís da Silva, apontando para elas a solução que parece a mais adequada,aquela que poderá aplacar um pouco sua própria angústia, pacificando seu espírito. O sentir-se acuado pode terminar como uma solução procurada. Não é inoportuno apontar aqui uma abertura para possível abordagem psicanalítica do mesmo processo de opção entre as possibilidades de solução do im­passe existencial[9].

Podemos ainda observar que o texto se limita a acumular uma única forma verbal,contrariando as possibilidades de estabelecimento de uma sucessividade na apresentação dos fatos. A contraposição de formas verbais viabilizaria esta sucessivida­de. No entanto, parece que a atitude do autor é intencional. Mais uma vez, podemos dizer que o procedimento narrativo esco­lhido e responsável pela busca constante de compatibilização entre os discursos filosófico e literário;ou ainda, por sua intercomplementaridade operacional o significativa.

No fundo, os resultados obtidos por tal procedimento são essencialmente mais importantes:o texto construído em sua atemporalidade evidente, faz tornar mais perceptível a definição do drama existencial de Luís da Silva. Ele torna-se,gradualmente, mais visível em seus “flancos”.

A ansiedade intensa, a preocupação exclusivista de Luís da Silva, abrangem, de tal maneira, todas as áreas de sua consciência, que seus mergulhos no passado,no mundo da memória, não passam de ilusão. O que consegue é, simplesmente,trazer o passado para o presente, misturar as recordações com as angús­tias atuais e agravar ainda mais a sua atualidade de animal acuado. Tudo isto se deve à comparação que se estabelece entre as duas fases de sua vida.

A vida de Luís da Silva não é recheada de novidades, ao contrário, parece repetir sempre o clima de angústia e de per­da, que tivera sua primeira instância com a morte do próprio pai:

“O personagem narrador age de maneira intencional.Não está sendo lançado para esse ou aquele lado das lembranças, ao sabor de momentânea e ocasional emotividade, porém se encaminha para um destino certo,fixa uma data. Sentimos que está se colocando num ponto de partida para relatar uma história (…). Lutando, durante todo o tempo, pura escapar da consciência,via permanentemente frustrarem-se os seus esforços: não con­seguia se proteger satisfatoriamente no passado, nem obtinha apoio efetivo na realidade em que vivia.Acossado, correndo o risco de sucumbir, foi conduzido ao caminho do se esvaziar pela confis­são. (…) O sentido da segregação é por demais vivo no personagem e isso vai sendo marcado diante te de nos à medida que nos estampa a sua cosmovisão, que inclui como que uma barreira que o separa de tudo o mais. (…) Emparedado dentro de si próprio, o personagem não tem qualquer diretriz, não busca avançar em qualquer sentido –naufraga irremediavelmente. Entrega-se ao sabor de suas emoções, que não passam de insolúvel obsessão, de eterno retornar aos mesmos pontos”[10].

Este longo trecho parece comprovar, através de especulações sobre o texto de Graciliano Ramos, o exercício das principais teses existencialistas na pessoa de Luís da Silva. Ele se sente acuado – num determinado momento de sua vida, não podemos nega r–, tem necessidade de dar vazão à sua angústia, percebe-se um verdadeiro oceano de possibilidades, faz sua opção, reage aos acontecimentos dela decorrentes sem faltar com sua responsabilidade, leva suas atitudes às últimas consequências, e,como era de se esperar, parece tornar-se um homem de espírito pacificado.

Para terminar esta exposição, gostaríamos de citar outro trecho do texto de Graciliano Ramos que, a nosso ver, pro­porciona uma visão sintética de uma possível formulação existencialista de sua narrativa. É o seguinte:

“A réstia descia a parede, viajava em cimada cama, saltava no tijolo –e era por aí que se via que o tempo passava. Mas no tempo não havia horas, 0 relógio da sala de jantar tinha parado. Certamente fazia semanas que eu me estirava no colchão duro, longe de tudo. Nos rumores que vi­nham de fora as pancadas dos relógios da vizinhança morriam durante c dia. E o dia estava dividi­do em quatro partes desiguais uma parede, uma cama estreita, alguns metros de tijolos, outra parede. Depois era a escuridão cheia do pancadas, que às vezes não se podiam contar porque batiam vários relógios simultaneamente, gritos de crianças, a voz arreliada de d. Rosália, o barulho dos ratos no armário dos livros, ranger de armadores, silêncios compridos. Eu escorregava nesses silêncios, boiava nesses silêncios como numa água pesada. Mergulhava neles, subia, descia ao fundo, voltava à superfície,tentava segurar-me a um galho. Estava um galho por cima de mim, e era-me impossível alcançá-lo. Ia mergulhar outra vez, mergulhar para sempre, fugir das bocas da treva que me queriam morder, os braços da treva que me queriam agarrar”.

***

 Conclusão

Luís da Silva e um homem qualquer. Sua condição não o coloca em posições privilegiadas de existir, mas vai proporcionando situações optativas. Sua angústia aumenta na medida em que vai se sentindo mais pressionado, acuado mesmo, por uma situação absolutamente insustentável.Ele decide por uma atitude; determinadamente, arca com as suas consequências,pacifica-se. Este personagem é comum, é ímpar, mas é cada um de nós. Sem qualquer condicionamento temporal, ou mesmo circunstancial, peculiar.

Graciliano Ramos, no plano da narrativa, cria um universo por demais conhecido. Com um toque de gênio, porém, transforma sua história num primoroso tratado, quase um estudo de caso – como ousamos chamar a última parte deste trabalho – onde ca­da detalhe descritivo, cada ponta de pensamento do personagem, deflagra um processo de abordagem do ser do homem, em obediên­cia quase servil às principais teses do Existencialismo.

Não há, e isto não seria absolutamente necessário, pre­ocupação com escolha deste ou daquele filósofo e de sua doutrina ou sistematização[11].

O pensamento é um processo fluído e acumulativo. Este postulado é que orienta os parâmetros filosóficos do texto li­terário.

Luís da Silva sente-se insatisfeito, angustiado mesmo, com sua condição socioeconômica e aflige-se com uma paixão não resolvida, não consumada. Os oponentes são muitos.O indi­víduo sente-se acuado pela própria impassibilidade que enfati­za a finitude de seus recursos diante do peso infinito da existência. O indivíduo busca sua essência e pressente o momento de optar por caminhos que viabilizem sua finalidade existencial.Luís da Silva conhece as consequências do ato pensado e age, assumindo total responsabilidade por sua própria opção. Cônscio de que pode perder sua liberdade por não poder desfrutar de sua paixão, resolve colocar um ponto final no peso opressivo da angústia que pontua sua vida e elimina seu principal oponente – Julião Tavares – quase um símbolo. O indivíduo pacifica-se e então percebe a profundidade do “nada”, do “naufrágio” completo que conclui todo o processo de eleição.

A narrativa de Graciliano Ramos utiliza de recursos de linguagem, aparentemente simples, como meio de viabilizar um discurso filosófico de alto nível. A ousadia de utilizar pala­vras corriqueiras em detrimento de vocábulos técnicos, ou antes, específicos, nos proporciona grande abertura para penetração no texto. Os personagens não alçam grandes voos estilísti­cos e sua vida fica quase ensimesmada: há completa identifica­ção com o concreto do dia adia.

A dificuldade em se estabelecer de quem e a voz narrativa, livra o discurso de se tornar pesado, ou mesmo pastoso. Este último adjetivo se aplica, magistralmente, ao universo diegético aí reside uma de suas qualidades filosóficas, a materialidade da náusea sartreana.

O livro nos coloca em contato com alguns momentos de uma vida qualquer. Paradoxalmente, sua universalidade é inegá­vel. Ao lado do altíssimo nível estético do texto, podemos ad­mitir, sem qualquer dúvida, a profundidade filosófica de sua frase.

Se um dos grandes impasses da pretensa ciência literária é encontrar exemplos deligação estrutural e artística da pró­pria Literatura com a Filosofia, temos com Angústia um exemplo perfeito desta integração. Voltando ao início de nossas obser­vações, basta apenas prestar atenção ao nome da obra…

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Bibliografia

A – De análise

RAMOS, Graciliano. Angústia. 3 ed. Rio de Janeiro, Editora e Livraria José Olympio, 1947.

B – Crítica

CRISTOVÃO, Fernando Alves. Graciliano Ramos: estruturas e valores de um modo de narrar. 2 ed. Rio de Janeiro, Editora Brasília/Rio, 1977. Coleção Letras.

LIMA, Luís Costa. Por quê Literatura?. Petrópolis, Editora Vozes, 1966.

MOURÃO, Rui.  Estruturas: ensaio sobre o romance de Graciliano Ramos. Belo Horizonte, Edições Tendência, 1969.

C – De apoio

BUENO, Francisco da Silveira.Grande dicionário etimológico-prosódico da Língua Portuguesa. São Paulo, Edição Saraiva, 1963.

CUNHA, Antônio Geraldo da. Dicionário etimológico Nova Fronteira da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro, Editora Nova Fronteira, 1982.

FATONE, Vicente. Introducción al existencialismo. 4 ed. Buenos Aires, Editorial Columba, 1962. (Coleção Esquema,4)

FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Novo dicionário da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro, Editora Nova Fronteira, 1975.

FOULQUIÉ,Paul. O existencialismo. Trad. de J.Guinsburg.  São Paulo, Difusão Europeia do Livro, 1955.

GARAUDI, Roger. Perspectivas do homem. Trad. de Reinaldo Alves Ávila. 2 ed. Rio de Janeiro, Editora Civilização Brasileira, 1966.

KIERKEGAARD, Sören. O conceito de angústia. Trad. João Lopes Alves. 2 ed. Lisboa, Editorial Presença, s. d. (Coleção Divulgação e ensaio, 7)

LIMA, Alceu Amoroso. O existencialismo. Rio de Janeiro, Livraria Agir Editora, 1951.

PENHA, João da. O que é o existencialismo. São Paulo, Editora Brasiliense, 1984.(Coleção Primeiros passos)

(Trabalho final da disciplina Filosofia e Literatura, Prof. João Ferreira)


[1] Esta afirmação vem deixar clara nossa isenção com relação a toda e qualquer crítica que possa ter sido veiculada a partir da consideração da obra deste autor sob o enfoque do Existencialismo.Partimos deste pressuposto, pois o nosso objetivo maior esta além deste trabalho, o que não deixa de ter sua importância peculiar.

[2] A escolha desta palavra é completamente arbitrária. Poderíamos ter escolhido “existência”, já que se liga por traços etimológicos ao tema do trabalho – o Existencialismo. Pareceu-nos mais interessante, porém, estabelecer uma ligação com o clima, o tom, o tema suscitado pela obra, através de seu título.

[3] FATONE. Introducción al existencialismo…

[4] BEAUVOIR,Simone de. O existencialismo e a sabedoria das nações. Lisboa, Editora Minotaure, 1965 (Coleção Ensaio)

[5] FOULQUIÉ, Paul. O existencialismo

[6] Idem.

[7] FATONE, Vicente. Obra citada.

[8] MOURÃO, Rui. Estruturas: ensaio sobre c romance de Graciliano Ramos…

[9] Esta observação se fundamenta numa constante alusão à pessoa do avô do personagem, juntamente com outras imagens do passado do próprio Luís da Silva: Rosenda, o pai, alguns aspectos de sua vida ulterior. Em termos de abordagem psicanalítica, é interessante notar a falta de alusão explícita à imagem da mãe do personagem. Todas estas possibilidades têm, além de tudo, a missão de remeter sempre a uma consideração fenomenológica do texto em estudo.

[10] MOURÃO, Rui. Obra citada.

[11] Esta afirmação não pretende anular a validade de toda a diversidade do pensamento filosófico existencialista. Tentamos apenas condensar as correntes mais representa­tivas, em grandes linhas de pensamento, procurando recuperar os pontos recorrentes 
– mesmo que identificados por terminologia diferenciada, apesar de sinônima, mui­tas vezes – das principais posições.Respeitamos a ordem de evolução do pensamento existencialista e acatamos sua ordenação; tendo em vista que nunca é demais ousar…