Decepção–segunda parte

Segue a segunda parte do texto que comecei a publicar ontem…

Bom final de semana para quem ler!

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Momento 2

António Nobre escreve a Alberto d’Oliveira, em 24 de Outubro de 1890. Ele está a caminho de Paris a bordo do navio Britannia. Vale lembrar que o estado de espírito de Nobre não era dos melhores. Por um lado, havia sido reprovado por duas vezes seguidas nos exames em Coimbra, não podendo conseguir aí o diploma de Bacharel em leis. Por outro, a separação do “amigo mais querido”[1], que ficou em terras portuguesas, o que criou o horizonte de expectativas das cartas que trocaram. Desta carta, destaco a seguinte passagem:

(…) sois, talvez, gêmeos, mas não sois com certeza patrícios, por que o teu corpo de Purinho, desengonçado e cor de leite, foi batizado na concha de pedra da Igreja de Santo Ildefonso, o desse monstro do Britannia, sólido e negro, tem o seu nascimento arquivado, nalguma babilónica oficina de Liverpool. Contudo, há esta coincidência mas eu não consinto que a tua pilinha-morango, toque nem de leve o vergalho deste paquete. (CASTILHO, G., 1982: 116)

O poeta faz, neste passo da carta, uma comparação entre o navio em que viaja e o corpo de Alberto de Oliveira. Uma comparação reveladora. Para além disso, muito além aliás, a carta apresenta uma série de três pares comparativos constituídos pelo poeta “da torre”, envolvendo seu amigo e o navio em que viajava. O primeiro par aponta para a coincidência entre o ano de nascimento de Alberto de Oliveira e o de inauguração do Britannia, 1873[2]. São “gêmeos”, como diz Nobre, apesar de nacionalidades diferentes. Dada a particular oscilação de António Nobre em relação a seus sentimentos quando se trata dos ingleses, de cara, evidencia-se a preferência pela própria identidade cultural, o que vai ficar cada vez mais evidente nos pares comparativos seguintes.

Na primeira assertiva do segundo par comparativo, António Nobre opõe “o corpo de Purinho, desengonçado e cor de leite” a “monstro do Britannia, sólido e negro”. Os adjetivos em contraposição explícita revelam dobras semânticas insuspeitadas, quando observados/lidos sob a o enfoque da lente do homoerotismo: “desengonçado” opõe-se a “sólido”, deixando entrever a delicadeza do afeto que aproxima e une os dois poetas, não sem deixar entrever a intimidade física entre eles. O sentido dicionarizado de “desengonçado”, aqui, é abandonado para ceder espaço a uma acepção envolvida por afeto, carinho, que ressalta, ainda uma vez, a delicadeza da relação já referida. Na sequência, “cor de leite” opõe-se a “negro”. O cromatismo, em primeira instância, apela para a dicotomia totalidade/nulidade se se considerar o pressuposto da Física, que apresenta o branco como a presença de todas as cores e o negro como a sua ausência. Daí para a simbologia que as duas cores ensejam e sustentam é um passo: a pureza e a sujidade, a inocência e o vício, o dia e a noite, o permitido e o condenado.

Num breve excurso a esta argumentação, cabe destacar a brancura referida pelo poeta sem sua comparação. Isto porque, em outras alturas da correspondência, há referência ao leite como líquido de celebração da amizade afetuosa partilhada por António Nobre e Alberto de Oliveira: torna-se quase um ícone. Ora, se o caráter simbólico for aqui (também) viável, seria aceitável associar a substância do leite como elo que traz à tona o sêmen, muitas vezes identificado terminologicamente à mesma substância. Esta inferência coloca-se a anos luz de distância de qualquer insinuação de sodomia/pederastia, como variante (ainda que possível) do pacto homossocial estabelecido, mesmo que inconscientemente. No diapasão desta nota, a Psicanálise dá o tom, fazendo com que a plausibilidade da associação seja respaldada pelo axioma lacaniano que toma a linguagem como modus operandi do inconsciente.

A segunda assertiva da mesma comparação aponta para outra dicotomia: sagrado/profano. A “concha de pedra de Santo Ildefonso” é o par opositivo de “nalguma babilónica oficina de Liverpool”. Ora, a “concha de pedra” opõe-se à “babilónica oficina”. A primeira recebe, aconchega, acolhe; a segunda produz, apresenta, lança. O adjetivo “babilónica” é o significante que dispara o discurso comparativo de oposição entre o sagrado e o profano. De mais a mais, a mesma oposição serve para reforçar o caráter afirmativo da valorização do relacionamento entre os dois poetas, conforme atestado nesta correspondência. Uma vez mais, por vias transversas, o pacto homossocial é celebrado.

Por fim, o terceiro par comparativo. António Nobre renega a identificação completa entre o navio e seu amigo: a “pilinha-morango” é oposta ao “vergalho”. Pila é substantivo comum que pode ser sinônimo de pênis, sobretudo coloquialmente. Este significado coloquial se aplica também a “vergalho”. O diminutivo do primeiro aprofunda o sentimento carinhoso e delicado devotado pelo autor da carta a seu amigo. A força fonética do segundo termo confirma a ideia representada pelo navio nas comparações feitas por António Nobre.

O “sabor” da comparação – no sentido barthesiano deste substantivo – não deixa de ser sugestivo: assim, “morango” funciona como índice identificador, uma espécie de predicativo do sujeito. Por um lado, a delicadeza da fruta que se revela no adocicado e no líquido associados ao paladar e, por outro, a cor que identifica, indiretamente, a “adolescência” de Alberto de Oliveira; ratificando, uma vez mais e definitivamente, a delicadeza percebida, devotada e celebrada na/pela relação entre os dois poetas.

Ponto quase final

Uma pergunta caberia aqui: como associar estas linhas ao que representou a revista Orpheu em seu tempo de aparecimento e seu legado? Acredito que a resposta pode ser simples. O primeiro número da revista traz uma “introdução”, de autoria de Luis de Montalvor que pode servir de ponte para a(s) outra(s) possível(is) resposta(s) à questão final que coloco. No sentido de ser veículo de mudança, diz o autor do texto da “Introdução” que a revista “propondo-se, vincula o direito de em primeiro lugar se desassemelhar de outros meios, maneiras e formas de realisar arte, tendo por notavel nosso volume de Beleza não ser incaracteristico ou fragmentado, como literarias que são essas duas formas de fazer revista ou jornal.” Já aqui a nota da diferença na manifestação de certo espírito iconoclasta é perceptível.

Mais adiante, diz Montalvôr que “Puras e raras suas intenções como seu destino de Beleza é o do:—Exilio! Bem propriamente, ORPHEU, é um exilio de temperamentos de arte que a querem como a um segrêdo ou tormento…”. Nas reticências que fecham este período e em seu conteúdo, percebe-se uma das notas que marcam os comentários acerca dos trechos de carta aqui feitos – sobretudo ligadas aos termos “segredo” e “tormento”. “Isto explica nossa ansiedade e nossa essencia!”, continua Montalvôr, reafirmando o que eu já afirmei aqui.

De mais a mais, a julgar pelo que Fernando Pessoa diz acerca dos poemas que desejou publicar no número 3 da revista e o que António Nobre exara nas linhas de uma carta, já saudosa ainda que em princípio de viagem, o espírito de Orpheu, a revista, remete ao incurável sofrimento de Orfeu, o mito, deixando os sujeitos alienados de seu desejo, mas ansiosos por sua satisfação. A expressão artística pode ser considerada um dos instrumentos de concretização desta mesma satisfação.

De uma forma ou de outra, o que resulta como elemento estrutural para a resposta à pergunta acima mencionada é o fato de que o caráter homoerótico que atormenta, tanto a voz heterônima de Fernando Pessoa, quanto a agonia em êxtase da saudade de António Nobre, no contexto da virada de século em Portugal, só se faz possível, acredito eu, com o auxílio mais que luxuoso da publicação de Orpheu. As cartas, ao fim e ao cabo, funcionam como uma das “pontes”, como prenunciado no título desta comunicação.

Sintomaticamente, a revista não enseja realizar todos os seus desejos, enquanto expressão da busca de solução para impasses e dificuldades no âmbito da produção artístico-cultural lusitana. O mito, de certa forma, sobrepõe-se à publicação. Esta falece… números depois de publicada por primeira vez. O encontro de Orfeu e Eurídice deu-se, segundo um dos relatos do mito, após a morte do poeta. Em certa medida, a liberdade e a efetividade da discussão dos temas aqui expostos são o sinal do falecimento da publicação em sua materialidade, mas da permanência em seu ideário e na herança cultural – no sentido mais amplo deste termo – de suas proposições eternizadas, por exemplo, nos trechos aqui apresentados, ainda que de maneira sumária.


[1] Coloco a expressão entre aspas, não porque alguém a tenha citado – e creio que tenha sido – mas porque é usada aqui e ali, e por mim mesmo, para identificar Alberto de Oliveira.

[2] Na verdade, trata-se do ano de naufrágio do navio que foi inaugurado dez anos antes. Pode ter sido uma gralha na edição das cartas. Como não tive acesso ao original – dado que não constitui objeto primordial de minha investigação – levo a cabo a informação obtida na internete: http://en.wikipedia.org/wiki/SS_Britannia, acesso em 10/02/2015.

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