Machado, de novo

Acabei de reler Dom Casmurro e estou terminando a leitura das obras de Santa Tereza d’Ávila, cheguei à “Quinta morada” hoje. Creio não ser possível, assim, de cara, sem mais nada, estabelecer qualquer relação entre os dois textos. Um é cético, a outra, fervorosa in extremis. Nem vou tentar. Peguei agora essa mania de ler dois livros ao mesmo tempo, em dias alternados, sobretudo na leitura de após o almoço. Continuo lendo um só antes de dormir, quando a internete não me seduz… É fato, Dom Casmurro é um mais que excelente livro. Junto com Esaú e Jacó, inaugura o que comecei a chamar de fase romanesca de Machado de Assis. Antes desses dois, o autor carioca escreveu novelas e um livro de memórias, ainda que a avesso, na contramão. Como o que escrevo aqui não constitui trabalho “acadêmico”, nem vou me preocupar em dar explicações sobre isso ou aquilo. Anoto apenas as minhas impressões de leitura e deixo o que vier depois para quem quiser se preocupar com possíveis desdobramentos e/ou ilações. Pois é. Está lá, escrito com todas as letras. Capitu chama Bentinho de mentiroso. Na lata. Já não me lembro exatamente onde, mas está lá, escrito, literalmente: “mentiroso”. Uma amiga minha, a Eni, faz essa insinuação em sua tese de doutoramento ou, se não me equivoco, chegamos a conversar sobre isso. Faz tanto tempo… Uma tese brilhante. Mas votando à vaca fria, Bentinho é mentiroso. Se não tanto, no mínimo, maquiavélico, pois consegue dar todas as informações necessárias ao leitor desconfiado – menos que ele – induzindo-o a concluir que Capitu é traidora. Entretanto, estas mesmas informações não conseguem sustentar a mesma hipótese. Não é possível afirmar com todas as letras que Capitu traiu Bentinho. Já fiz essa pergunta antes: isso é mesmo necessário ou interessante? Disso todo fica uma lição: Dom Casmurro é um livro contundente. De um detalhismo quase chinês, de tão detalhado. Ao mesmo tempo que sua complexidade pode fazer perder o sono, ela seduz e excita, pois faz com que o leitor não se perca nas entrelinhas – que não são poucas – da narrativa. Um episódio doméstico transformado numa quase saga demiúrgica. Todas as personagens, para além do protagonista que é também o narrador, são decorativas. Esta hipótese também merece discussão. Como a anterior, vai ficar para as calendas. Permanece a certeza de que este romance é para ser lido e relido, sempre que der vontade, ou quando se quer fazer o tico e teco funcionarem um pouco mais. Punto i basta!

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Reler Machado II

Na releitura que estou fazendo dos livros de Machado de Assis, algumas coisas se confirmam. Outras passam desapercebidas, como é de se esperar. Há, porém, ideias (para mim) novas. Definir “novo” é de uma dificuldade imensurável, quase impossível. A cada instante, o conceito se renova e se alarga. Pois bem. A primeira ideia que me ocorreu foi, a partir da releitura, constatar que nas primeira quatro obras de narrativa longa (ao patrulheiros da genologia que me perdoem, mas não cedo ao impulso de generalizar) – Iaiá Garcia, Helena, Ressurreição e A mão e a luva, o feminino impera. Em primeiro lugar, nos títulos: todos formados por palavras de gênero feminino. Dois nomes próprios e três substantivos comuns. Seguindo esta linha de raciocínio, nova “coincidência”: nos quatro livros, as mulheres são protagonistas, ainda que apresentadas e conduzidas (como a cinematográfica Miss Daisy!) por um narrador cuja voz é masculina, bem masculina. Ora, o detalhe pode ser superficial e sem sentido, mas, na releitura, seu papel é contundente. Deste pseudo feminino representado – de fato as protagonistas aparecem como marionetes na mão de um narrador cioso de seu papel, cônscio de seu “poder” e atento à sua “responsabilidade” – estas personagens poderiam levar o autor incauto a concordar com a falácia que reúne estas quatro obras num conjunto equivocadamente denominado de “fase romântica”. No caso de Machado de Assis, as aspas são mais que fundamentais… Não vou me ater a este pormenor, mas faço questão de deixá-lo, aqui, devidamente registrado e ressaltado. Digo isso porque, ao fim e ao cabo, o desempenho destas mulheres de papel não chega a alcançar a potência de heroínas românticas como reza o ABC do Romantismo já, a esta altura, mais que conhecido. De mais a mais, o romantismo das histórias atém-se a um certo movimento de vai e vem, bem ao gosto, este sim, do Romantismo mais castiço, sem, contudo, alcançar o ápice da tragédia que também marca o mesmo Romantismo. Há que acrescentar que a “solução” dada pelo narrador a para cada uma das tramas não pode ipso facto ser alcunhada de romântica. Falta-lhe mais estofo. O que não pode levar à desvalorização do trabalho estético de Machado de Assis. De fato, o escritor merece os epítetos que recebeu. Isto me leva a pensar no quinto livro, Memórias póstumas de Brás Cubas. De cara, fico pensando na tradição de chamá-lo de “romance”. Ai, ai… a minha chatice, uma vez mais, não se aquieta e se pergunta, sempre e mais, será mesmo um romance? Vamos ver. Já o título aumenta a dúvida, se aceita como pressuposto, uma vez que traz em seu sintagma nominal uma palavra que pode, se assim o quiserem, ferir de morte os puristas em/de todas as teorias acerca do romance. Trata-se de “memórias”. No sentido mais restrito, o termo não remete imediatamente para espécie bem definida da prosa, consubstanciada ao longo do século XIX. Não. No passo seguinte, o adjetivo “póstumas” já cria outro estranhamento, talvez mais perspicaz e incômodo, simultaneamente. Memórias, sem sombra de dúvida, há de ser algo póstumo. Deixando a tentação de vibrar a corda da redundância para dissonar o título do livro, lembro que o próprio texto machadiano apresenta uma chave para abrir esta porta e tentar “entender” do que se trata. Vejamos: “Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver dedico como saudosa lembrança estas Memórias Póstumas”. Estranho. A dedicatória é posterior à escrita do livro. Até aí, nada. Mas esta mesma dedicatória é igualmente marcada pelo caráter de coisa passada… póstuma. O possessivo “meu”, que particulariza cadáver, descortina um sofisma abissal: quem escreve a dedicatória e, por consequência, o livro, a história, é um morto. O estranhamento se adensa quando se lê, antes, o verbo “roer”, no pretérito perfeito. Nenhuma dúvida quanto à condição do autor: defunto. Melhor dizendo, para acompanhar a tradição: o defunto autor. Aliás, é o próprio autor, Machado de Assis, que insinua isso logo a seguir, no “Prólogo”. Depois dele, o autor, Brás Cubas, escreve um pequeno introito, intitulado “Ao leitor”. Pronto. Está armada a confusão! E se pode aumentar a dúvida, quando da leitura do último parágrafo que diz: “Este último capítulo é todo de negativas. Não alcancei a celebridade do emplasto, não fui ministro, não fui califa, não conheci o casamento. Verdade é que, ao lado dessas faltas, coube-me a boa fortuna de não comprar o pão com o suor do meu rosto. Mais; não padeci a morte de D. Plácida, nem a semidemência do Quincas Borba. Somadas umas coisas e outras, qualquer pessoa imaginará que não houve míngua nem sobra, e conseguintemente que saí quite com a vida. E imaginará mal; porque ao chegar a este outro lado do mistério, achei-me com um pequeno saldo, que é a derradeira negativa deste capítulo de negativas: — Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria.” Destaco, a título de curiosidade, sempre remetendo ao que disse no início, a expressão “… ao chegar a este outro lado do mistério…”. Creio não ser abusado afirmar que o tal mistério é, ambiguamente, a vida e a morte, ambos vivenciados por Brás Cubas. Além do mais, a assertiva fecha o raciocínio e negação que sustenta o parágrafo. Como quis o mesmo autor em outra circunstância, juntando as duas pontas, permanecemos no mesmo ponto: a dúvida. Trata-se mesmo de um romance? Vale lembrar que as histórias narradas são mais episódios vivenciados e rememorados pelo autor defunto, o que não faz deles células dramáticas na/da construção do tecido narrativo peculiar de um romance. Fica a dúvida. Há que ler e reler, para tentar esclarecer. Será que é possível?

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Reler Machado I

Na tentativa de completar a releitura dos romances de Machado de Assis (na segunda etapa, se conseguir vencer a preguiça, é reler a contística toda), deparei-me com uma ideia que, imagino, está longe de ser original. Nos quatro primeiros volumes Ressurreição (1872), A mão e a luva (1874), Helena (1876) e Iaiá Garcia (1878). Lívia, Guiomar, Helena e Iaiá são as protagonistas incontestes. A trama que as envolve é aparentemente simples. O advérbio se justifica pois, como é sabido, NADA em Machado de Assis é casual, corriqueiro e simples. Ainda que as aparências ficcionais da trama – em seu espaço, em seu tempo e na urdidura do relato – demonstrem certa credulidade simplória, pela suposta facilidade do enredo. Não. Definitivamente não. De fato, estes quatro romances, poderiam tranquilamente ser tomados como “novelas” esticadas. O relato se resume a entrecho comum aos quatro livros: o casamento das quatro protagonistas. Entre idas e vindas, ainda que variadas, correspondendo a um mesmo impulso, o autor exerce com maestria sua perícia, apresentando o caráter feminino de maneira inesperada para o momento em que se insere a publicação dos quatro tomos. É costume dizer que estas quatro narrativas “pertencem” a um suposto “ciclo romântico” no conjunto da obra – infelizmente esta expressão anda tão desgastada… Nada mais equivocado, mesmo que tal pressuposto seja uma muleta didática no espaço da sala de aula, ainda assim, nos níveis iniciais da escolarização. Definitivamente. Isso é um equívoco. O motivo é simples: nenhuma das quatro, ipso facto, corresponde ao modelo romântico de protagonista de romance. Não vou descer “às profundas” para demonstrar tal tese. Não estou escrevendo um tratado ou uma tese de livre docência. Não tenho que provar nada a ninguém. Não mais. Digo apenas aquilo que constato da releitura que faço dos textos citados. Como diz o adagiário popular: o incomodados que se retirem. Neste caso particular, que parem de ler e vão fazer outra coisa que lhes agrade mais… As mulheres, nestes livros, a meu ver, reúnem aspectos de uma única mulher que vai, mais adiante, sintetizar tais ademanes e firulas feminis. De fato, o espírito crítico do Realismo, acrescido do sarcasmo machadiano, temperam o entrecho das quatro primeiras narrativas. A apresentação das mulheres, como ponto fulcral do relato, denota a preocupação do autor com um retrato fiel de parte da sociedade que pinta em suas narrativas: a mulher. O quadro é pintado com requinte e sobriedade, sempre salpicado de frívolas comparações, finas ironias e a observação acurada de um olhar de lince que o narrador acaba por mediar. Este traço, as protagonistas não corresponderem ao modelo clássico da personagem romântica, aqui, é suficiente para deixar de lado, de uma vez por todas essa bobagem de romantismo. O fato que permanece da deliciosa – como sempre – leitura dos textos de Machado é que este detalhe vai sofrer mudança radical a partir de Memórias póstumas de Brás Cubas. Já no título, a mudança de gênero é incontestável. O protagonista é homem. O mesmo sucede com os livros subsequentes: Quincas Borba, Dom Casmurro, Esaú e Jacó e Memorial de Aires. Todos homens. Mas isso é matéria para outra conversa, outra hora…

Machado de Assis
Leitura
Romance
Mulher
Opinião
Crítica
Literatura Brasileira
Narrativa

Releituras

No início do ano coloquei uma meta para mim mesmo: reler os romances de Machado de Assis, na ordem de sua publicação. Mais pra frente pretendo fazer o mesmo com os contos e as crônicas. Só não faço com as poesias porque já tentei e não consigo gostar dos versos dele. Isso faz parte de um exercício mental para refrescar a mente como preparação para a leitura do novo romance do português João Tordo, que sai em Março, outros que ainda não li e dois ou três já lidos. Tenho tempo. Não tenho mais a obrigação de ler os livros como preparação para aulas. Nos últimos anos de docência, isso de falar sobre textos lidos por mim e supostamente pelos estudantes, causou-me imensos incômodos. Isso porque os chamados estudantes (não todos, evidentemente, sempre há exceções) simplesmente não faziam ideia sobre o que estava a falar, porque não leram o objeto de minhas considerações. Isso pode parecer despropositado. E é, muito mesmo! Mas essa foi a triste realidade de meus últimos anos de docência. Cheguei a afirmar, numa reunião departamental que havia naqueles três ou cinco anos finais conseguido me pós graduar em docência para desencarnados. Houve quem risse…

Machado de Assis é realmente um fenômeno cultural. Seus primeiros textos de narrativa longa são, na minha opinião, novelas estendidas: Ressurreição (1872), A mão e a luva (1874), Helena (1876) e Iaiá Garcia (1878). Em todos, os perfis femininos se equilibram com os masculinos, na representação ficcional de traços de caráter e de comportamento, quase exemplares. Esse conjunto de elementos descritivos se organiza num mesmo espaço: o Rio de Janeiro, de onde o escritor jamais arredou pé. As tramas se parecem, sempre e mais, à do conto em sua feição tradicional. A apresentação de um drama, geralmente amoroso, às vezes temperado com pitadas de questões morais e/ou políticas e adornadas de discussões filosóficas de amplo espectro constituem manancial mais que caraterístico deste autor. Até aqui nenhuma novidade. E não vou apresentada nenhuma também. Registro apenas a impressão dessa releitura, agora mais embalada pelos eflúvios do deleite genuíno da leitura que se faz sem o compromisso “acadêmico”. Retomo estes textos como um diletante, alguém interessado em gozar do processo estético que a mim é oferecido, mesmo sem o saber, pelo autor. De certa forma, ele sabia. Isso porque, a julgar pelas teorizações de Wolfgang Iser, enquanto escrevia, Machado de Assis delineava o desejado leitor que fosse capaz de acompanhá-lo nas sagas que compunha. Tanto é assim que, em muitos de seus livros – para não dizer em todos – a voz narrativa sempre se dirige diretamente z quem sustenta o volume diante dos olhos. Ainda hoje, tal expediente é rentável e provocativo, seduzindo o leitor, seja desavisado, ingênuo ou preparado. Estas três últimas três categorias são em sua nascença bastante discutíveis, mais ainda funcionam como vetores de orientação crítica. Em Ressurreição, temos uma história que se passa No Rio de Janeiro do século XIX. O Doutor Félix troca de amantes a cada seis meses e rompe com a última delas, Cecília. Viana, seu amigo, apresenta-lhe a irmã Lívia, uma bela mulher, viúva há dois anos, mãe de um menino de cinco anos. Começam a se relacionar como amigos, mas ao fim de alguns encontros e de algumas valsas os dois se apaixonam. De início vivem um amor discreto, oculto da sociedade. Porém, vários conflitos passam a ocorrer devido ao ciúme e desconfiança do protagonista. Depois de muitas idas e vindas, Felix acaba pedindo a viúva em casamento, mas volta atrás na véspera do matrimônio por causa de uma carta anônima com acusações falsas contra Lívia. Graças à intervenção do amigo Meneses, Félix se arrepende de seu gesto impensado e tenta se reconciliar, mas agora é Lívia quem não quer mais se casar com o médico desconfiado e instável. Já em A mão e a luva, o enredo conta a história de Guiomar, uma moça que de início (quando Estêvão se apaixona pela primeira vez por ela) está com 17 anos, afilhada de uma baronesa e deseja ascender socialmente. Ela é disputada por três homens: Jorge, Estêvão e Luís Alves. Estêvão tem caráter fraco, vacilante, indeciso, nascido mais para derrotas do que para vitórias. Jorge, sobrinho e preferido da baronesa, tem um amor quase ingênuo e, simultaneamente, um tanto malicioso. Luís Alves começa a admirar Guiomar apenas depois, com o passar do tempo. Porém, é um meio-termo entre os dois primeiros, pois ele é um homem resoluto e ambicioso. Jorge, com o apoio da baronesa e de sua governanta inglesa, Mrs. Oswald, pede a mão de Guiomar. No dia seguinte, Luís Alves faz o mesmo. Então, a baronesa pede a Guiomar que se decida entre os dois pretendentes. Ela diz que escolhe Jorge, porém a baronesa sabe que a afilhada quer casar-se com Luís Alves. Depois, Guiomar e Luís Alves casam-se e o trecho final do livro justifica seu título. No caso de Helena, a história começa com o anúncio da morte do Conselheiro Vale, pai de Estácio e irmão de Dona Úrsula. O Conselheiro é retratado como homem de boas relações, relativa fortuna e certo gosto pela vida boêmia. Em seu testamento, ele reconhecia uma filha natural chamada Helena, pedindo para a família que a recebesse assim que a menina saísse da escola. Já que a existência da moça era até então desconhecida para Estácio e Dona Úrsula, eles a recebem com sentimentos mistos. Estácio rapidamente acolhe a nova irmã e lhe conquista a confiança, enquanto Dona Úrsula resiste por algum tempo à ideia de dividir seus afetos com uma desconhecida. A vida prossegue harmoniosamente para a família do Conselheiro. Dona Úrsula adoece por um momento. Tendo notado o cuidado com que a nova parenta a velava, abandona todas as suspeitas a respeito de Helena. Logo o padre local (Padre Melquior) e outros amigos da família se afeiçoam por Helena e passam a tratá-la como alguém que sempre estivera na casa. Nesse meio tempo, Estácio se confronta com as imposições sociais comuns a um jovem abastado no Brasil da época: ele tem que casar-se e assumir um cargo público, duas ideias contra que resiste por certo tempo. A noiva que lhe fora designada, a frívola Eugênia, por vezes lhe causa profundo desagrado; um cargo público parece não corresponder a seus interesses pelas matemáticas e ânsia por liberdade tipicamente romântica. Helena, por fim, é aquela que parece guiar Estácio para os rumos esperados pela sociedade que os rodeia; durante o romance nota-se a crescente influência da meia-irmã nas decisões do moço. Helena também tem um pretendente; trata-se de Mendonça, antigo amigo de Estácio, de vida solta e recém-chegado da Europa. Estácio é acometido de profundos ciúmes pela união dos dois, sentimentos que saberá interpretar somente mais tarde, e relaciona-los-á com sua própria resistência contra Eugênia. É o padre Melquior quem desvenda o amor que Estácio nutre pela meia-irmã, apelando para que Estácio renuncie à sua paixão criminosa e siga uma vida normal. No mesmo instante em que a trama do amor proibido é desenrolada, surge uma complicação adicional. Descobre-se que Helena guardava um segredo o tempo todo, à primeira vista inofensivo; a moça tinha por hábito acordar cedo e fazer visitas a uma casa pobre, próxima à chácara do Conselheiro Vale, voltando antes de que seus parentes despertassem. Estácio é o primeiro a se preocupar com tais visitas, em grande medida por ciúmes, pondo-se a investigá-las junto a seus conhecidos. Ao fim, descobre-se que Helena visitava um homem, seu verdadeiro pai biológico (Salvador). No final do livro, Salvador conta como o Conselheiro Vale lhe roubara a esposa, a mãe de Helena, e optara por criar a criança como se fosse sua filha. Helena tinha consciência da história a todo momento, mas não contara a Estácio e Dona Úrsula a pedido de seus dois pais. Depois que a família descobre que Helena na verdade não foi filha natural do Conselheiro, em tese Estácio e Helena estariam livres para se entregarem ao seu amor, não mais incestuoso. Mas existem dois obstáculos: o primeiro, como lembra o padre, é o escândalo que representaria o rompimento dos compromissos já assumidos por ambos (com, respectivamente, Eugênia e Mendonça). O segundo é a crise de consciência de Helena por haver mantido a mentira que o pai e o Conselheiro Vale perpetuaram visando seu próprio bem. Ela também revela ter amado Estácio o tempo todo e haver intencionado unir-se com Mendonça por força da renúncia; uma vez que sente não poder recuperar a confiança da família do Conselheiro, adoece e morre em um período de sete dias. Por fim, Iaiá Garcia. Neste, Luis Garcia era um homem reservado (pai de Iaiá ) e que vivia exclusivamente por sua filha, Lina, uma garota mimada, que tinha toda a atenção de seu pai. Viúvo, vivia em uma casa mais afastada que se enchia de alegria quando Lina, ou melhor, Iaiá Garcia, chegava da escola. Na casa ainda havia um negro que era todo dedicado ao senhor e sua filha. No círculo pequeno de amizades de Luis estava a Sra. Valéria, também viúva. Esta tinha um filho, Jorge. E foi por ele que Valéria chamou Luis à sua casa. Acontecia que ela desejava mandar o filho à guerra do Paraguai e queria que Luis a ajudasse a fazer a cabeça do jovem. Justificava esse desejo afirmando que era seu dever como cidadão e também em referência às glórias e méritos que tais conflitos geram aos vencedores, não acreditando na morte do filho. Porém sua verdadeira razão era fazê-lo esquecer uma grande paixão. Estela Foi passar um tempo na casa de Valéria. E fora justamente essa moça que despertara em Jorge a paixão verdadeira. Jorge a amava e até chegou a se declarar e furta à moça um beijo, o que a fez resolver voltar à casa de seu pai. Mas ela apenas negava o amor que sentia, quando o descobriu logo acreditou na sua impossibilidade e o trancou para sempre ao fundo de seu coração. Jorge que fundia a realidade com romances tanto a sua paixão o ar literário, foi à guerra e lá se manteve fiel à paixão que em carta a Luis Garcia afirmava tê-lo transformado de criança a homem. Enquanto isso Estela não sofria de amores, seu sentimento era como que esquecido e ela mantinha-se orgulhosa, firme e até mesmo fria. Durante os anos em que Jorge ficou na guerra, Valéria, mesmo não acreditando em vestígios do romance de outros tempos, chamou Estela de volta à sua casa e viviam em perfeita harmonia. Como era seu intuito, a senhora falou à moça da necessidade de se casar e assim a segunda lhe disse que quando achasse o homem conveniente a avisaria. Nestas circunstâncias iniciou-se um convívio mais intenso entre a casa de Luis Garcia e de Valéria. Iaiá encantava a todos eles e ela e Estela logo se fizeram companheiras. Em seguida a menina deu a falar de um casamento entre seu pai e a companheira. Luis viu como as duas se davam bem, Estela viu como ele era um homem digno e assim se fez o casamento deles: companheirismo e respeito. Por fim, Jorge voltou da guerra – e cheio de glórias. Sua mãe já havia falecido. Ele também já sabia do casamento de Estela e, como sua família era amiga da de Luis, as visitas se fizeram necessária. Ele inicialmente se abalava enquanto ela era fria como dantes. Quando Luis Garcia se fez doente, a presença de Jorge se tornou mais presente e, como o doente lhe pedira que auxiliasse a família, ele passou a ser íntimo da casa da mesma forma que Procópio Dias era. A convivência ali era calma, no entanto, Iaiá que já se tornara moça parecia sentir por Jorge um desprezo injustificável. A doença de Luis Garcia teve fim, mas seus problemas no coração logo lhe tirariam a vida. Em certo tempo, em uma limpeza de papel que Luis fazia, encontrou ali a carta que Jorge lhe mandara lhe descrevendo seu amor fiel que se transformara de criança em homem. Achou graça de tal texto e deu-lhe para Estela ler. Ele não viu nenhuma das alterações por qual a esposa passara diante da carta, porém Iaiá viu. Em seguida a menina passou a desconfiar que houvesse entre a madrasta e Jorge um romance proibido que fosse mantido em segredo no coração dos dois. Nesse tempo também, Procópio Dias afirmava a Jorge o amor que tinha por Iaiá e pedia-lhe seu apoio, ainda mais porque se via obrigado a uma viagem ao Rio que demoraria quatro meses ou mais. Foi também aí que Iaiá mudou seu relacionamento com a madrasta e com Jorge. Para com Estela vivia de acordo a favorecer a paz doméstica e com Jorge se tornava amável. Este fez referência a ela sobre o amor de Procópio Dias, ao que a menina não mostrava nem um pouco de interesse. E bastaram esses meses que ele se mantinha fora para que Iaiá e Jorge iniciassem um romance, amavam-se de fato. Quando Procópio chegou já não se sentia tão abalado por Iaiá, mas ainda lhe guardava certa paixão. Ao mesmo tempo Luis Garcia sentia o peso dos problemas cardíacos que tinha e beirava a morte. Estela, que estava ciente do romance da enteada, não só afirmou se agradar de tal coisa como também incentivou o casamento dos dois o mais breve possível para que fosse possível a Luis Garcia ter o prazer de dar a bênção à filha. Infelizmente ele faleceu antes, Iaiá, que era profundamente ligada ao pai, ficou abalada por longo tempo e assim adiando seu casamento. Jorge, depois de certo tempo de luto, questionou à noiva sobre a data do casamento ao que ela respondeu com uma carta de rompimento. E encarregou ao negro fiel da família a entrega de outra carta a Procópio, tendo esperanças nos sentimentos que ele afirmara ter por ela. Jorge, como resposta a carta de rompimento, enviou outra a Estela perguntando o porquê da ação de Iaiá. Estela questionou à menina que respondeu que não poderia se casar com Jorge já que ela o amava. A madrasta, extremamente irritada, agiu até convencer Iaiá de que não havia amor nenhum entre eles e assim respondeu a Jorge que a carta da enteada não passara de um capricho. Por sorte, o negro achou melhor não entregar a carta a Procópio e assim o casamento de Jorge e Iaiá foi marcado e concretizado. Estela fora pra outra cidade onde arrumara um emprego. Seu pai, que nunca fora confiável para Luis Garcia, sempre viveu dos outros e desejava ver a filha junto a Jorge, não foi com ela. Madrasta e enteada trocavam cartas e no dia do aniversário de um ano da morte de Luis no cemitério Iaiá encontrou ali uma coroa deixada por Estela, a qual beijou como se fosse a madrasta, que sinceramente deixara ali flores ao falecido marido.

Antes de mais, devo agradecer a quem escreveu os artigos na Wikipedia, de onde tirei boa parte desta postagem. Além disso, como disse anteriormente, não disse ada de novo. A postagem teve apenas e somente o objetivo de expressar o meu prazer em reler o Machado de Assis. Punto i basta!

De finais e de começos – conclusão

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Pois muito bem. Pode ser que a leitura dos trechos que aqui divulguei não tenha sido suficiente para entender a minha proposta de leitura. Dizendo melhor, talvez os trechos não tenham colaborado para esse fim, em lugar da leitura que pode ter sido proveitosa. Num ou outro caso, só me resta dizer que, para não fugir de um “chavão”, a intenção foi a melhor possível.

Neste primeiro mês de aposentadoria, confesso minha alegria de ter conseguido estabelecer um ritmo de leitura que há muito não desfrutava com tanto prazer. O fato de não ter que ler a não ser pelo prazer de ler, ele mesmo, sem mais “que tais”, é algo que não pode ser colocado em palavras, sob pena de perder a espessura e a profundidade do sentido da experiência. Nesta linha de raciocínio, devo fazer outra confissão: a gratificação de experimentar na leitura das páginas que se sucedem sob meu olhar nesses dias – acima de tudo, aquelas que constituem os três volumes de Rodrigo Gurgel (estou no começo do terceiro livro dele, mas tenho a certeza de que o prazer e a gratificação vão se repetir positivamente). Esta gratificação se deve à constatação de que penso quase do mesmo modo que o autor destes livros, no que concerne ao conceito e à prática da crítica literária. Aqui vou deixar uma lacuna, em forma de lacuna: leiam os livros do Rodrigo Gurgel para saber o que se entende de fato – ele e eu neste time – por “crítica literária”. Este prazer, para blaguear a peça publicitária: “não tem preço”!

Isto posto, cabe-me apenas concluir. A diferença entre a intenção e o gesto, mesmo aqui, neste meu exercício, vai se manter incomensurável. Não posso controlar a reação e o entendimento dos olhos que me acompanham. Os dois começos apontam para um tópico recorrente na Literatura Ocidental: intertextualidade. O ponto de fuga assenta-se na distância cronológica entre os dois romances. Determinado este pressuposto, faz-se plausível perguntar: é fato que Graciliano Ramos leu Machado de Assis, a ponto de deixar indelével em sua fabulação o impacto da leitura da obra do mulato do Cosme Velho? As similaridades entre os dois capítulos, se não atestam, também não impedem tal ilação. Ainda que a perspectiva seja diferente, como eu aponto – Graciliano, para o enfoque coletivo, social e Machado para o enfoque individual, subjetivo – acabam por fazer o mesmo percurso discursivo: o relato de desenvolvimento de uma proposta natimorta. Ela é assim porque tanto num caso como noutro, os narradores que anunciam suas propostas não são capazes de realizá-la, de cumpri-la. Cada um, a seu modo, em certa medida, acabam por atestar seu próprio fracasso. Este tema, quer me parecer, é mais recorrente em Machado. Por isso mesmo, penso, com veemência – porque, a fim e ao cabo, a gente não é capaz de ter certeza de nada –, que a pergunta que fiz como provocação de meu exercício de leitura é plausível, faz sentido.

Por outro lado, os finais, ambos considerados no âmbito da obra de um mesmo autor, apontam não mais para uma tematização do fracasso, como aventado antes. Neste caso, os finais reafirmam o caráter sarcástico do humor melancólico e um tanto sombrio de Eça de Queiroz. Ao lado desta característica, desponta outra, talvez um tanto mais implícita, coisa que não me convence: a consideração da hipocrisia como constituinte da identidade cultural lusitana sobretudo quando considerada em sua conformação finissecular. Carlos da Maia e Amaro personificam, cada um a seu modo, obedecendo os ditames protocolares da classe social a que pertencem o efeito do exercício da hipocrisia como conditio sine qua non para certo “sucesso”, ainda que passível de questionamento e, até, condenação. Num e noutro caso, a “ata finda” de minha proposta se assenta na possibilidade de se fazer Literatura Comparada no âmbito de uma mesma língua – impossibilidade que marca os primeiros passos dessa nova prática hermenêutica dos/nos estudos literários na/da virada do século 19 para o 20. A outra possibilidade é a de fazer Literatura Comparada entre obras de um mesmo autor. Penso que, nos dois casos, o exercício da leitura e a construção do sentido com participação definidora do leitor são as práticas comparatistas que se especificam, se desdobram, se desenvolvem em propostas cada vez mais abrangentes e flexíveis, numa tentativa – acredito que mais uma – de acompanhar a mesma volatilidade deste fenômeno que não se contém nem pode ser contido: a Literatura!

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Aves, insetos e letras

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Já faz um tempo, recebi uma mensagem de correio eletrônico de uma amiga de Niterói. Ela perguntava se podia eu substituir um outro colega na redação de uma recensão de um livro de poesia recentemente lançado no Brasil. A recensão seria publicada na prestigiada revista Colóquio Letras, de Lisboa, sob a tutela da não menos prestigiosa Fundação Calouste Gulbenkian. Aceitei. Mais alguns dias e recebi outra mensagem, desta feita do autor do livro, Carlos Nejar, para pedir meu endereço postal para o envio do livro que recebi autografado: uma honra. O terceiro contato foi da responsável pela edição, uma senhora, a princípio, muito educada. O bom senso me leva a não citar seu nome, por decoro. Fiz a recensão e enviei ao autor que se sentiu honrado. O livro, Odysseus, o velho (2010). Uma leitura delicada e instigante do retorno do herói, na perspectiva da epopeia clássica. Aí começou o inferno ou, antes, uma das manifestações do que quer que seja o inferno. O texto foi e voltou três vezes. A editora chefe devolveu, por primeiro, afirmando que o texto estava muito opinativo, muito pessoal. Da segunda vez, depois que submeti o texto a um tratamento mais “objetivo” – alguém na face da terra é capaz de definir o que é isso… eu sou incapaz… – foi devolvido, dizendo que não alcançava o seu objetivo. Uma terceira vez ele foi reenviado e igualmente devolvido, desta feita, sob a chancela de impróprio para a publicação por não e tratar de uma recensão. Enviei todas as mensagens ao autor que, enraivecido, escreveu dizendo da impropriedade – tento, aqui e assim, sintetizar a caudalosa sequência de críticas feitas pelos poetas – dos “pareceres” de tão prestimosa revista. Não contente, o poeta escreveu para Portugal, desancando a revista em função de sua resistência à minha recensão, e proibindo a publicação de qualquer outra sobre este seu livro. Ouvi, da amiga que por primeiro me convidou a observação me criticando por ter provocado esta situação. Por ironia do destino, quase cruzei com a dita editora portuguesa, em Lisboa, na sede da Fundação, por conta de um congresso do qual ambos participávamos. Cheguei ao balcão de vendas de livros, segundos depois que ela de lá saíra. Creio que cheguei a cruzar com ela sem saber que dela se tratava… Ainda bem!

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Pois muito bem. Esta história vem a lume por conta do imenso prazer que me causou a leitura de um livro para mim enviado por seu autor, o Dirceu Magri. O livro se intitula De borboletas e colibris em sobrevoo: presença francesa nas crônicas machadianas. Livro corajoso, sobretudo, pela escolha de seu corpus: o volátil texto da crônica. O adjetivo aqui não é pejorativo. Antes, aponta para a natureza do gênero que ainda carece de certa “definição”, ainda que eu continue questionando a necessidade disso. A crônica é gênero sagaz por natureza. Como a água, não se deixa conter facilmente. O fascínio que causa em seu leitor particular o autor do livro que li, faz com que o seu próprio texto também acompanhe essa peculiaridade. Uma escrita leve, fácil, escorreita, cristalina que passeia com altivez e prazer entre o texto das crônicas de Machado de Assis e o pensamento dos autores franceses pelo autor considerados. Uma delícia a análise que faz da crônica publicada em A Semana, a 5 de agosto de 1894. Esta análise, na leitura que fiz do livro, serve de trampolim bem balanceado para o passeio que Dirceu empreende, pelas veredas da estética da recepção – mesmo que consideravelmente implícita –, no intuito de mapear as fontes e as influências que podem ser percebidas quando da abordagem comparativa dos textos de Machado de Assis e o que dizem os autores franceses em seu pensamento. A estrutura dos livros se faz a partir do nome dos pensadores escolhidos: Voltaire, Rousseau e Diderot. Os três primeiros capítulos ensejam uma abordagem teórico-crítica do gênero, fazendo o desenho contextual do conceito, algo próximo do exercício filosófico de Foucault, sobretudo em As palavras e as coisas. Segue um capítulo sobre o século XVIII, apresentado como seara onde vicejaram as ideias que, inúmeras vezes influenciaram o escritor brasileiro. A “ata finda” do livro retoma a visada do século XVIII ponto de fuga da argumentação sagaz, divertida e sofisticada de Dirceu Magri. Manda o protocolo que se aponte defeitos. Isso é muito chato. Mais chato ainda quando tais defeitos não se apresentam. Antes de mais nada, é imprescindível definir “defeito” para só depois utilizar o conceito, o tópico, a variável, na análise do corpus que se apresenta. Claro está que o livro de Dirceu Magri não é perfeito, pelo simples fato de que perfeição não existe. Assim sendo, cumpre-me dizer que não encontre qualquer resquício de defeito ou problema. Talvez um incômodo aqui e ali, do tipo que se faz perceber, mas não interfere, não compromete. O livro de Dirceu Magri cumpre o que promete. E o faz com graça e elegância, o que se pode perceber já no título da obra, tópico retomado na parte final do livro. As borboletas – que não denegam sua origem de pulpa – e os colibris que se sustentam no ar como por mágica ilustram de maneira leve e graciosa – bem ao gosto do século XVIII – o pensamento arguto, sagaz e divertido de Dirceu Magri. Uma leitura inolvidável!

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Três livros e três mulheres: Capitu

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Agora é a vez de Machado de Assis. O que escrevo sobre o romance dele que aqui me interessa – Dom Casmurro – vai ao encontro das ideias de Silviano Santiago a que me referi ontem. Claro está que não vou me pautar por uma abordagem aproximativa entre textos ficcional e texto crítico. Longe disso. Anoto, aqui, apenas, algumas observações ligeiras, a partir da leitura mais acurada que fiz quando da escrita do meu artigo. De qualquer forma, faço outra referência de cunho teórico e/ou metodológico. Desta feira, não a um texto em particular, mas a uma ideia. Em tese de doutoramento em Literatura Comparada defendida por Eni de Paiva Celidonio, em Porto Alegre, em 2006, a autora insinua certo equívoco de Alfredo Bosi, quando afirma que Capitu recebeu o ratamento que lhe era devido como mulher burguesa no fim do século dezenove. O equívoco é explícito e não cabe aqui averiguar sua relevância, em que pese o deslize do crítico e historiador. Esse tipo de firula já não me apetece mais… O que desejo ressaltar é que, em nada e por nada, pode-se afirmar tal coisa por um motivo simples: no romance, o narrador nos conta que jamais respondeu às cartas que Capitu lhe escrevera e, quando da visita de seu filho, a indiferença – para não dizer sarcasmo e desdém -fizeram com que declinasse do direito de saber o que quer que seja sobre a ex-mulher. Este detalhe, a meu ver, se aproxima da visada que desenvolvo em artigo meu já referido. A hipótese da “punição”, neste caso, faz mais sentido. Diro isto, não me demoro, deixo para as retinas que me acompanharam até aqui a decisão de seguir acompanhando com a terceira parte do meu “relato”.

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Fiquemos, agora, com algumas considerações acerca do romance de Machado de Assis. De maneira diferente, em relação às duas protagonistas já citadas, Capitu tem uma personalidade forte. Moça decidida, resolve todas as situações com um senso de objetividade e equilíbrio, que superam o próprio Bentinho, personagem fraca e indecisa, apesar de nomear a narrativa, fato que o faz coincidir com Basílio, o vértice do triângulo de adultério estabelecido no romance português. Bentinho, como já se disse, é fraco e seu espírito frequentemente assaltado por dúvidas e inseguranças. Talvez seja resultado da força impositiva da mãe, substituída depois pela objetividade de Capitu. No fim de sua trajetória narrativa, Bentinho é um homem atormentado por um ciúme doentio, um pouco fruto de sua imaginação, associada à insegurança que lhe marca a personalidade. Suas fantasia são comuns quando se pensa no perfil do homem burguês – na perspectiva de Peter Gay que coloca no homem um temor desmedido pelo “sexo misterioso” da mulher, o que acaba por refletir uma insegurança em relação à possibilidade de perda de seu lugar na hierarquia social da burguesia fin-de-siècle. Ainda sobre Dom casmurro, é necessário que se diga que os nomes das personagens são significantes mais que sintomáticos das situações aqui referidas. A mãe de Bentinho se chama Glória; Capitu, na verdade, se chama Capitolina, o que remete o significado de seu nome para o campo semântico da superioridade que marca sua personalidade. Bentinho, ele mesmo, tem no nome um diminutivo ambíguo, ao mesmo tempo carinhoso e depreciativo.

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