Lirismo em prosa

O que pode haver de comum entre uma aparição de Nossa Senhora e uma oficina de conserto de pianos? Aparentemente, nada! De fato, os dois tópicos parecem absolutamente dissociados. A coisa fica ainda mais complexa ao acrescentarmos a figura de um maratonista que morre durante uma corrida em Estocolmo, na Suécia. O jornal Observador, de Portugal traz a certa (https://observador.pt/especiais/francisco-lazaro-a-morte-ao-sol-do-carpinteiro-que-se-fez-mito-na-maratona/) matéria sobre o atleta: “E se é verdade que Lázaro terá sofrido muitos destes sintomas – os “delírios” no hospital, como que correndo, poderiam ser convulsões –, também é verdade que a aplicação de estricnina era prática comum, sem males de maior. O caso mais conhecido no uso de estricnina é talvez o de Dorando Pietri. Italiano, maratonista, pasteleiro na ilha de Capri, Pietri participou nos Jogos Olímpicos de Londres, em 1908. E cortou em primeiro lugar a meta. A custo, mas cortou. Chegou ao estádio coberto de estricnina no corpo, caiu repetidas vezes, esteve perto de desistir, mas acabou por concluir a prova, levado em ombros por juízes. Acabou a maratona em 2h54m46s, mas seria desclassificado, não pelo uso de estricnina, mas por ter sido auxiliado nos últimos metros. O vencedor seria Johnny Hayes, segundo classificado, com 2h55m18s. Armando Cortesão, que participou com Lázaro nos Jogos Olímpicos, negou então que o maratonista tenha morrido por envenenamento. E aponta as causas da morte: sebo. E calor. “O Lázaro não foi envenenado. Isso é um disparate! O Lázaro morreu por dois motivos: primeiro, porque se untou com sebo. Fui eu e o Fernando Correia, quando ele não aparecia à partida da maratona, que o procurámos no balneário e lá o encontrámos a besuntar-se com sebo. Não faço a menor ideia como Lázaro conseguiu arranjá-lo – ele que mal falava português –; mas conseguiu sebo e estava a untar-se… Eu e o Fernando ainda tentámos que ele tomasse banho, mas não havia tempo. E ele lá foi correr a maratona todo besuntado com sebo, com os poros da pele tapados, o que impedia a transpiração. E outra coisa: só ele e um japonês e que foram de cabeça descoberta àquele sol”, garantiu. .” Assim trata do assunto o periodista. O atleta desmaia durante a corrida e vem a morrer horas depois. Este é o mote que José Luis Peixoto toma para desenvolver o enredo de Cemitério de pianos, narrativa instigante que “viaja” na ideia de morte – ouso arriscar que há sempre a sombra da morte do pai do autor a pairar sobre seu texto, “mas esta é só a minha opinião” – e faz do discurso da memória, do fluxo de consciência, da poesia intrínseca à Língua Portuguesa (ainda que haja quem duvide de sua natureza melódica…), o modus operandi de um texto intenso, lírico, contundente. A morte do atleta narrada quilômetro a quilômetro vai seguindo acompanhada pelas anotações ficcionais que o autor tece, bordando um painel profundo, tocante da intimidade do sujeito, quase um sonho. Meu quase xará – não fosse a diferença de uma letra – é um poeta e sua narrativa nada fica a dever a qualquer dos versos que também compõe. Na mesma toada, Em teu ventre é outra narrativa que mistura, desta feita História e Ficção, envolvendo o aparecimento de Nossa Senhora na azinheira grande em Fátima. Os três pastorinhos são alvo da acuidade poética do autor que flui com sua característica melodia interna, ritmo próprio. O texto de José Luis Peixoto seduz pela plasticidade do ritmo e da sonoridade do verso que, em prosa, se faz perceber, página a página. Parece, em conclusão, que, afinal d contas, pode existir algo de comum entre a aparição e a oficina: um autor. Boa leitura!

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Memória quase secular

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Era Domingo. Vovô, sentado ao lado, na poltrona verde, com o tradicional Continental sem filtro aceso no canto da boca, olhava. De vez em quando, se levantava e tomava sua igualmente tradicional pinguinha de domingo. Papai, Tio Fernando e Tio Francisco, tomando cerveja picavam papel, gritavam, bebiam cerveja e choravam. O tempo todo chorando. Os primos, comigo no meio, ajudavam a picar papel e gritavam quando os tios gritavam. As tias Judith e Irene, com mamãe, ajudavam vovó Esther na cozinha, depois do almoço. Tia Helena, num canto, só olhava e ria, de vez em quando na sua reclusa timidez. Isso durou um tempo, ao final do qual todos gritavam mais, e mais, e mais. Tio Fernando juntou todo mundo dentro de sua Rural Willys verde e fomos pela Avenida Amazonas, aos gritos, jogando o papel picado durante todo o dia, a caminho do Mackenzie Esporte Clube. Era 21 de Junho de 1970. O Brasil conquistava o tricampeonato no mundial de futebol. Dizem, os “entendidos”, que a seleção vencedora foi a melhor de todos os tempos. Não posso dizer, nem que sim, nem que não… Na altura, aos 19 anos, ainda era atleta de natação e o futebol já não me chamava a mínima atenção. Pra dizer a verdade, futebol jamais me interessou tanto assim. Das três vezes que joguei, o final foi um acidente, dois comigo e um com outro garoto. Nem vale a pena o esforço para lembrar. Ainda que tenha torcido pelo Cruzeiro, jamais gostei, de fato, de futebol. Jamais soube jogar. Junte-se a isso o fato de, já naquela época, não entender o porquê do pagamento de dinheiro para quem jogava futebol. Era e sou de uma geração que considerava o ESPORTE uma atividade altruísta, que fazia bem a saúde, que fomentava o espírito de equipe, que valoriza o esforço individual, que alimentava o desejo de superação, que premiava o vencedor por mérito. A disputa era saudável e a diversão garantida. Nada de “teorizações” sofisticadas. Para disputar prêmios fora da cidade, do Estado, fazíamos vaquinha para as despesas. Pais e mães frequentavam por prazer e apoio e não por celebridade. Finais de semana eram sacrificados para as disputas que valiam pelo esforço, pela disputa, pelo conhecimento mútuo, pelas amizades, pela vitória e pela saúde. Tudo porque a gente GOSTAVA de disputar e praticar o esporte escolhido e não porque patrocinadores haviam investido dinheiro e mais dinheiro como numa loteria ou como numa transação de bolsa de valores. A primeira vez que viajei por conta de terceiros foi (infeliz e coincidentemente) em 1972, para os Jogos Estudantis Brasileiros (Ainda existem? Junto aos Jogos Universitários Brasileiros, eram os dois prélios esportivos que funcionavam também como celeiro de atletas de destaque a compor a seleções regionais e nacionais de então. Há de haver aquele(s) que vão manchar esta situação com o suposto descaso da ingenuidade. Hão de louvar que hoje todos são PROFISSIONAIS. Em parte, isso procede. Por que hoje, o tal de “profissionalismo” deixou de lado o prazer e a dedicação ao esporte para se submeter ao império do dinheiro e da celebridade, do “mercado” do esporte que, ao fim e ao cabo, de ESPORTE, tem muito pouco, mas muito pouco mesmo!!! Sou um chato? Confesso, sou sim. E não tenho do que me arrepender!!!

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PS: hoje faz exatamente 11 anos que comecei este blogue e, para não dizer que não falei de flores, menciono o futebol, subliminarmente. É como eu o encaro, afinal, a sequência de peladas internacionais está para acabar. Graças a Deus!!!

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Unidunitê…

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Ah se eu pudesse e se o meu dinheiro desse. O que eu faria? Já não sei. Se colocasse estas frases empilhadas, teria feito um poema? Também não sei. Mas o que é mesmo que a gente sabe? Outra pergunta sem respostas. E são tantas. Vão sendo acumuladas – sim, com a locução verbal, caso contrário, usando a forma pronominalizada, tem-se a impressão de que as perguntas se acumulam a si mesmas, que elas têm esta potência, que elas agem por si. E não é bem o caso… Vão sendo acumuladas como as incisões na camada de cera do “bloco mágico”. Desenho sobre desenho. Na superfície, eles desaparecem, mas as marcas ficam e vão se recobrindo: palimpsesto imaginário que não se revela, mas se desvela ao sabor a autorização do inconsciente… (Quem leu Freud sabe do que estou a falar…) E assim… dizem… contam a vida… Parece que, quase literalmente, são expressões de um texto dito por Elis Regina nas performances de seu último show, Trem azul. Não o vi. Aliás, não vi todos os shows dela. Conheci-a em 1972, voltando de Maceió, depois de disputar os Jogos Estudantis Brasileiros. Naquele ano, o governo do Médici (se não me falha a memória a cadeira de presidente era ocupada por ele, mais um general na lista da sucessão entre 1964 e 1988), levou todos os estudantes para os jogos de avião. Todos. E nós nos julgávamos privilegiados. Mal sabíamos o que estava se passando nos “porões da ditadura” (Ai que essa expressão me incomoda… não gosto dela!). Pois bem. Voltando de Maceió, numa escala no Rio de Janeiro (o aeroporto ainda se chamava Galeão e não havia a linha vermelha, se não me engano…) ouvi Casa no campo, na voz da Elis. Corri numa loja e discos e comprei o LP, com a sobra do dinheiro que meu pai havia me dado para gastar com as… bem deixa pra lá, isso é assunto para outra hora. Foi quando conheci a cantora. Daí comecei a comprar cada disco que ela lançava. Não vi Falso brilhante, mas vi Transversal do Tempo. No meio disso, dois outros shows, um no Mackenzie (o clube mineiro, não a universidade paulistana) e outro no Teatro Marília. Depois houve Elis, essa mulher: apoteótico. Mas não vi Trem azul. O último que vi foi Saudade do Brasil: uma ópera popular emocionante. A apresentação na Globo também valeu a pena ver, assim como o programa da Record, se não me engano. Tantos anos escutando música de qualidade inquestionável, interpretada por uma voz inigualável. No Brasil, ainda não apareceu outra para superá-la. Tantas músicas, tantos shows, tantas emoções (ai… ato falho… nada a ver com Roberto Carlos… peloamordedeus!). Assim, as perguntas, com resposta ou sem… Perguntas, dúvidas, ideias, sonhos, desejos… tanta coisa. E o tempo passa, deixa suas marcas e passa, incólume, ao que parece…

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Memória afetiva… e mais

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Meu pai foi prefeito da cidade em que hoje eu vivo. Ele administrou o município entre 1977 e 1981. Depois disso, tentou dar continuidade em sua carreira política, mas não deu certo. Ainda como prefeito, eleito pelo MDB (só quem tem mais de 40 anos serão capazes de se lembrar o peso do significado desta sigla naquela altura). Ainda me lembro da carreata que encerrou sua campanha. Um grupo grande de pessoas, quase todos com a camiseta amarela com o número da sigla e o nome dele. O cortejo chegou até a praça da cidade, atrás da matriz de São Gonçalo. Todo mundo entrou no cine teatro que ali havia. Quando meu pai chegou, uma chuva de papel picado, gritaria, foguetório, banda música. Uma balbúrdia. Ainda hoje me escapa o sentido e o efeito disso tudo. Sinceramente, não conseguia alcançar o porquê de tanta euforia e, antes, o propósito, o desejo, o plano de meu pai. Ah… Hoje posso dizer sem culpa, a vaidade humana é como água: vai tomando a forma que o espaço e a circunstância permitem. Com isso, estou longe de criticar a atitude de meu, o fato dele ter se candidatado. Pois foi eleito e, ainda hoje, há gente que fala dele, não sem uma dose de doce e sentida nostalgia. O borracheiro, que hoje atende a mim e a meu irmão, comenta, emocionado, que o imóvel onde funciona sua oficina foi doado pelo prefeito de 1978: meu pai. A gratidão dele é tocante. Lá pelas tantas, já na reta final do mandato, meu pai presidia uma associação de prefeito da área metropolitana de Belo Horizonte, a GRANBEL. O dinheiro andava curto (Parece até que algum dia isso foi novidade). A administração já vislumbrava seu final. A tal associação resolveu atender ao chamado de Golbery do Couto e Silva para uma reunião. Lá se foi meu pai. No retorno: uma polêmica. Todos os prefeitos da GRANBEL conseguiram (milagre!) concluir as obras e os feitos alocados em seus planos de governo, apresentado quatro anos antes. Um fato inédito. Cadê a polêmica? Alguém pergunta. A polêmica reside na mudança de partido de todo o grupo de prefeitos. Mudaram de MDB para PDS. Gritaria, confusão, xingamentos. Por uns bons anos, os jornais vociferavam contra a então mencionada “traição”. O fato remanesce: a administração daquele grupo de prefeitos se CONCLUIU, na acepção, mas plena e acabada do verbo. Punto i basta! Meu pai não ficou rico. Nós não mudamos nosso padrão de vida e, melhor, nossos princípios. As contas foram contestadas por muito tempo e, depois de período esticado à exaustão, foram aprovadas sem emendas, sem processos, sem “operações” de ministério público estadual (Isso sim pode ser considerado um milagre!). E eu ainda me pergunto para quê isso tudo?

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Recuerdos de pascuas

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Hoje é sexta-feira da paixão. Ainda é sexta-feira. Faz pouco mais de três horas que, de acordo com o canon, Jesus expirou e entregou sua alma a Deus. A fé se renova. A esperança reacende o espírito na ânsia pela Ressurreição que virá, depois de amanhã, e sempre! Amanhã, sábado de Aleluia, é dia de malhar o Judas. O que me lembra a infância, quando, entre assustado e curioso, olhava para aquele boneco de pano pendurado numa vara, ou numa árvore a levar pauladas e, às vezes, ser queimado, Fascínio que misturava medo e prazer. Freud deve ser capaz de explicar. Tudo isso me leva, uma vez mais àquela semana mágica que passei em Sevilha. Depois de passar quase vinte horas acordado em pé, sem beber água, sem comer nada, fascinado e boquiaberto, mesmerizado pela expressão de fé e de beleza a cada confraria que passava por la carretera, em Sevilha. Estava na Plaza del Duque a esperar a Macarena e fui surpreendido por El silencio e El gran poder e também por El cachorro. Como explicar o que vi, o que senti, o que ficou n memória? Ainda hoje, três anos depois, não consigo encontrar palavras suficientemente competentes para fazê-lo. Aquele povo todo em silêncio, absoluto silêncio enquanto passava El silêncio. Apenas o som do arrastar dos pés dos costaleros. O tric-tric dos enfeites no paso de palio, onde vinha uma imagem de Nossa Senhora. Uma festa que eu já tinha visto pela televisão quando vivi em Zagreb. Ali nasceu o desejo de ver de perto, ao vivo, no calor da hora. Em 2015 realizei este desejo. Que alegria! Penso que jamais esquecerei o que vi e senti naqueles dias e, especialmente na noite de quinta para sexta, la madrugá! Boa Páscoa, pra quem é de Páscoa.

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Ábacos e astrolábios

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O relógio marca sete horas e cinco minutos. Exatamente. O ponteiro pequeno no sete e o grande no “I”. A numeração romana, ainda antiga, mostra o quatro com “IIII”. O relógio está parado desde as sete horas e cinco minutos de um dia qualquer no passado. Um passado não muito remoto, na verdade, mas passado. Terá sido de manhã ou à noite? Vai saber. O relógio parou. O tempo também parece ter parado junto com aquele relógio. Um tempo que até então ainda não tinha sido plenamente dinâmico. Parou com o relógio. Junto com o relógio e o tempo, uma série de outras “coisas” também parou… a série (Atenção com a concordância”). Até a cruz que encima a parede onde está o relógio parece… parada. E cruz para? Pois é… Esta cruz já não tem a ponta superior. Só a haste e os braços. Pronto. Decepada. Acéfala. Parada. Em cima de uma parede com um relógio parado às sete horas e cinco minutos de um dia qualquer de um passado não muito distante… Parece que é assim que a História se faz…

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Numa página seminal de seu livro Formação da Literatura Brasileira: momentos decisivos, Antonio Candido escreve que “A nossa literatura é ramo da portuguesa”. Muita gente já se descabelou por conta desta afirmação. Do meu lado, penso que, na medida das referências de que se vale o autor, a assertiva tem sua veracidade. No perímetro da História, o Brasil dependeu de Portugal. Fato. Por via de consequência, a literatura aqui produzida seguiu pelo mesmo caminho. Outro fato. Com o passar do tempo, os liames da tal dependência foram ficando puídos pelo desgaste. Cronos é implacável. Logo. Hoje, tomar as palavras do crítico em sua materialidade absoluta, sem relativizá-las em função das configurações discursivas que a própria crítica vai produzindo e fomentando e denegando e desenvolvendo e… e…, é burrice. No entanto, o fato permanece. A Literatura Brasileira é ramo da Literatura Portuguesa. Foram os portugueses que aqui chegaram. Foram os portugueses que implementaram sua cultura, Foi a Língua Portuguesa que se consolidou aqui. Logo, geneticamente, somos ramos sim. Não é ramo no sentido da dependência. Que esta já não existe como outrora. Mas como origem, inegavelmente, ainda ramo. Concluindo com uma polêmica, deixo à interpretação alheia um trecho de livro sagaz, arguto, sarcástico, feroz e incisivo: A poeira da glória. Dele, cito um trecho que vai ecoar as ideias acima. As do segundo parágrafo. Por que o primeiro, fica relegado a uma tentativa (frustrada?) de poesia… Segue o trecho:

“E isto permaneceu até mesmo na época da maturidade, quando se transformou no professor com quem os alunos queriam estudar a qualquer custo, até para se vangloriar como um troféu de prestígio. A partir de 1961, Candido teve a chance de experimentar a criação de um curso de Teoria Literária, primeiro na Faculdade de Assis, depois na Universidade de São Paulo, chegando ao ápice na Universidade Estadual de Campinas, a Unicamp, onde desenvolveu em sua plenitude a matéria depois intitulada de Teoria Literária e Literatura Comparada. Criou-se assim o que se chamaria posteriormente de “paradigma uspiano” e que se tornou a “principal referência da crítica literária contemporânea do país”. De acordo com o registro de Rodrigo Martins Ramassote, num momento de reformulação dos cursos de graduação e programas de pósgraduação [no Brasil], Candido mobilizou investimentos e recursos necessários em diversas frentes de atuação para dinamizar a montagem de uma infraestrutura acadêmica bem-sucedida na área de Teoria Literária, ao disponibilizar recursos financeiros para pesquisa (através de bolsas de pesquisa da FAPESP [Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo]); recrutar e contratar entre os alunos e orientados futuros docentes; remanejar outros tantos para a ocupação de cargos e postos de trabalho em instituições universitárias no interior do estado (sobretudo para a recém-inaugurada Unicamp); gerenciar o espólio intelectual e pessoal de grandes intelectuais e escritores (incorporando tal patrimônio ao meio universitário, bem como supervisionando o seu acesso e consulta); desenvolver e implementar amplos projetos de pesquisa coletiva e, finalmente, sugerir temas de investigação particular para seus estudantes. 70 Há, sem dúvida, um espírito militante em todas essas ações — um espírito que criaria a sua própria tradição de crítica literária, um novo círculo de sábios que cooptaria a literatura brasileira e o jornalismo cultural de tal forma que não se poderia escrever uma única linha sem passar pelo crivo dos discípulos que seguiam o seu cânone. Alguns nomes desses escolhidos pescados a esmo mostram como Antonio Candido se tornou o verdadeiro “interesse dominante” da nossa sensibilidade moral e como sua influência permeia naturalmente a nossa leitura dos grandes autores brasileiros, sem nenhum questionamento. Ela vai de Roberto Schwartz (que transformou Machado de Assis em um protomarxista) e Davi Arrigucci Jr. (um ensaísta talentoso, sem dúvida, mas capaz de escrever várias páginas falando sobre a poesia de Manuel Bandeira apenas no aspecto formal, sem tocar no conteúdo de sua obra), passando por Walnice Nogueira de Galvão (estudiosa séria de Euclides da Cunha e Guimarães Rosa) e Telê de Ancona Lopez (protetora feroz dos arquivos e da obra de Mário de Andrade), terminando com João Luiz Lafetá (falecido precocemente, mas que causou um estrago permanente no estudo do Modernismo Brasileiro ao desprezar escritores de calibre, como Octavio de Faria e Agripino Grieco, simplesmente porque teriam posições opostas à esquerda moderada, defendida por Mário de Andrade após a Revolução de 1930) e Augusto Massi (impetuoso professor que, em nenhum momento, consegue discorrer sobre o problema do Mal na obra de Otto Lara Resende —um sujeito que, conforme veremos no próximo capítulo, só pensava nisso dia e noite). 71 Cada um destes iluminados tem (ou tiveram) atualmente um cargo acadêmico garantido, mantido pelo Estado, com bônus e benesses salariais que fariam a alegria de qualquer brasileiro —e os jornais e as editoras sempre estiveram de portas abertas para eles, especialmente para tecer loas ao antigo e amado mestre. Candido conseguiu transformar o reino da literatura numa espécie de Cuba literária onde a liberdade de discordar é paga com o desprezo solene de quem não se opõe às ideias superficiais de seu líder, porque eles mesmos não querem admitir para si mesmos que tudo o que fizeram até tem algum talento, mas ficou perdido na fragilidade de seus pensamentos. Ainda assim, isto não é nada perto do prejuízo que provocaram nas cabeças dos leitores. Foi uma catástrofe sem precedentes. Este círculo dos sábios simplesmente impediu qualquer possibilidade de aprendermos a fitar o abismo, tirando o prazer de estudar a literatura e inculcando na cabeça de cada um de nós que ela só seria útil se tivesse uma meta adequada à tão esperada revolução. Graças a esta traição dos intelectuais, ninguém mais se importa com o ser humano que foi triturado em carne e osso. O mito da “revolução permanente” contribuiu para que as contradições de Antonio Candido se transformassem em insanidades ratificadas pelas nossas instituições nacionais. Pois foi isso que aconteceu: atordoados por sonhos que não conseguiram transformar em realidade, elas destruíram definitivamente a sensibilidade moral do país, contribuindo para aumentar o abismo que há entre o Brasil real e o Brasil oficial.” (p. 310-311)

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Delicadeza e prazer

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Duas palavras que podem levar leitor desatento a equívoco. Desliza da atenção ou da indução inconsciente que podem ser outros instrumentos desta experiência reveladora que é o equívoco. Sobretudo quando provocado por terceiros. Parece não ser bem este o caso aqui. Não sei se o número ideal para um equívoco é dois. Pode ser três. Pode ser um. Vai saber… O fato é que o equívoco é mais, muito mais, que uma simples ocorrência aleatória. Ainda que não tenham escrito nenhuma “teoria” a respeito. Aliás, num mundo cada vez mais “sustentado” por teorias de tudo – nada a ver com filme homônimo no reinado de Pindorama, se não me equivoco(!) – mais uma menos uma teoria parece não fazer incômodo. Ou causar incômodo seria mais apropriado? Num e/ou noutro caso, fica o alerta. Há que ter ouvidos de ouvir e olhos de ver…

Nem tudo no mar é água e Os invernos da ilha. O que pode haver de comum entre essas duas expressões, para além da implícita relação entre “ilha” e “água”? Bem… a imaginação se faz presente e mostra as suas garras. Já adianto que se trata de dois títulos. De dois títulos de livros. Dois títulos de livros publicados em duas terras separadas pelo mar. Ambas têm no mar um ponto de referência, um ponto de fuga. Num caso, explícito; noutro, implícito. Quem ler os dois livros vai saber qual é cada um.

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O primeiro título veio de uma terra que, a cada dia, aprendo a mais amar. É obra de delicadeza insuperável. Obra que desenha com linhas tênues os meandros de uma memória peculiar: a do afeto. Aquele partilhado desde que se abre os olhos até o momento em que a lucidez da maturidade faz revisitar reentrâncias, conhecidas ou não, mas todas elas reveladoras e que, platonicamente, espantam: levam a um aprendizado que não encontra epíteto que o particularize. Abrangência do existir. Punto i basta! Um trecho que pode servir de teasing àqueles que se deixam seduzir pela curiosidade:

“Isto” tinha batido de chapa na água, sendo de imediato abandonada pela minha fiel foca, que agora flutuava sozinha, mansamente, enquanto eu entrava num mundo turvo, em tons de azul e verde. Era estranho que não visse as coisas com mais nitidez… sentia bolhas à minha volta e por todo o corpo envolvia-me uma água muito mais fria. O fundo também estava mais próximo; cada vez mais próximo e as manchas esbranquiçadas que eu bem conhecia da borda do cais, estavam mesmo ali, sob os meus pés… Foi então que este mundo de silêncio foi estremecido por rompantes jactos de água e de som. O mar estremecera agora, e depois, e depois, as bolhas aumentavam e eram já quase espuma. De súbito, alguém me agarra, invertendo o sentido da minha descida. Segundos depois e já o sol nos aquece os rostos. O meu confiante e sorridente e o do Carlinhos Capela pálido e ainda tenso…”

A passagem se refere à primeira experiência de pular na água sozinha, durante umas férias. Experiência reveladora. A aveludada delicadeza da visão infantil do desconhecido transforma-se nas páginas do livro de Ana Paula Martins Goulart em matéria de quase-ficção. O quase, aqui, nada tem de pejorativo. Pelo contrário, inicia um processo mental que faz repensar  perímetro do conceito no qual não se encaixam as 258 páginas de seu livro. O primeiro aqui referido.

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O segundo caso é, sim, numa visão mais “quadrada”… ficção. Um romance daqueles que fazem a gente querer saber para onde vai, por onde passa, como é que faz… depois que as sinopses e as orelhas do volume anunciam uma série de referências que, particularmente, de pouco serviu para este leitor que, aqui escreve sobre o que leu. Isto também não tem intenção pejorativa. Só faz ressaltar o ceticismo apontado em observação anterior quanto ao que se chama corriqueiramente de “conceitos”… e suas “teorias”. Neste caso, o volume nasceu em terras de Pindorama mesmo. O rapaz que o escreve, de acordo com o que se lê nas abas das capas do livro, desenvolve “trama” que remete a ícones clássicos, canônicos da arte de narrar. Confesso que assim não o li. Não tive esta preocupação. Muito longe da delicadeza do livro de Ana Paula, o de Rodrigo Duarte Garcia – recomendado por críticos de renome – seduziu-me não pelas qualidades adiantadas, mas pelo prazer de acompanhar um percurso de formação – isso renderia algumas páginas de linhas “teóricas” –  do narrador que, em muitas nuances, levou-me à identificação plena. Um candidato à vida religiosa, seus amigos e professores, uma garota que o seduz, as anotações de um viajante estrangeiro de outras épocas e a austeridade geográfica do espaço que acolhe o relato. Estes são os elementos que constituem o fluxo de sedução e prazer que a escrita desse romance oferece aos olhos de um leitor interessado. Um exemplo poderia ser o que segue:

“Dizia W.H. Auden que Narciso não se apaixona pelo próprio reflexo porque é bonito, mas porque é o seu reflexo. Se apenas a beleza o atraísse, a inevitável decadência que o tempo carrega poderia enfim deixá-lo livre. No entanto, poços fundos na forma de espelhos acompanham o tempo, profundos como olheiras. E a tentação de olhar para eles não diminui ruga após ruga. Talvez aumente. E por isso há riscos, há sempre riscos em escrever diários ou reconstituições confessionais. A nobreza de um propósito autodeclarado qualquer pode muitas vezes esconder a paixão solipsista e mimada de quem se ama acima de tudo. Mas quem quer ouvir Tirésias, pobre Tirésias, ceco como um morcego?”.

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Delicadeza e prazer. Não se excluem. Podem se completar. Entre os dois… meu coração balança… mas nem tanto. Boa leitura!