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Endorinologista e Metabologista. Eu o chamo de endocrinologista de amplo espectro. É o médico com quem me faço acompanhar clinicamente agora. A esta altura, eu precisaria de um geriatra. Não vou procurar um geriatra desconhecido, que não tem a mínima ideia de minha histórica e de meu histórico familiar para começar do zero. Por isso escolhi ele: o endocrinologista de amplo espectro. Esse epíteto se deve ao fato de que ele não se prende aos laços da endocrinologia e da metabologia para clinicar e acompanhar seus pacientes. Ele atenta para a cardiologia, a angiologia e até a pneumologia. Ele deu uma sobrevida mais alongada para mamãe, cuidou de papai nos últimos anos de sua vida e fez em excelente trabalho com meu irmão. Por isso, eu o escolhi. Ele conhece meu histórico familiar e tem uma visão mais holística da medicina. Gosto dele. Confio nele. E por isso causou-me espanto, positivo de qualquer maneira, o comentário que fez hoje. Falando com ele sobre as últimas leituras que tenho feito, acresci que gostaria de escrever memórias, ainda que minha vida seja de interesse de muito pouca gente, talvez só de meu interesse mesmo. Ele disse para eu escrever a biografias de meus pais. Uma ideia a se pensar, uma ideia instigante, ainda que eu saiba, de antemão, que muitas fontes já se foram. Talvez eu pudesse escrever uma biografia ficcionalizada. O leitor ficaria em dúvida sobre o que é fato e o que é ficção. Tudo isso para chegar em quatro títulos de livros: Lições de abismo, O nariz do morto, O anel e O livro de Antônio. O professor google vai dizer que ambos são escritores católicos, nomes de destaque no pensamento católico brasileiro. O mesmo professor há de classificar o primeiro título como um romance e os demais como livros de memórias. Ele não está de todo errado. No entanto, o que me faz escrever sobre estes quatro livros – o primeiro de autoria de Gustavo Corção e os demais, de autoria de Antônio Caros Villaça – não vão ao encontro de uma teoria de gêneros narrativos. Longe disso. Já não me sinto obrigado a justificar este tipo de abordagem ou embasamento para proferir opinião, ou impressão de leitura. Já pressinto narizes torcidos, mas vou deixá-los de lado. Os quatro livros são quatro peças IM-PRES-SIO-NAN-TES descrita. E de escrita literária. Em que pese o fato de os quatro poderem ser articulados a um fio autobiográfico inegável – eu não vejo por que esse tópico ainda causa tanta objeção! –, nada nele basta para reduzir o monumento de escrita literária que constroem. Bom é lembrar que nenhum dos autores frequentou as famigeradas oficinas e escrita criativa – como se essa coisa pudesse ser capaz de formar talentos… ninguém me demove da certeza de que o talento é nato, congênito, “essencial”, o que se pode é aperfeiçoá-lo, burilar suas restas, fazê-lo mais consistente – nem ganhou prêmio literários patrocinados por editoras e “governos” com o fim de “abastecer o mercado livreiro”. Jamais! ambos foram ES-CRI-TO-RES. Coisa raríssima hoje em dia. Por força de consequência, os dois deveriam ser estudados, lidos e relidos, incensados como reais e inescapáveis bastiões da tão empobrecida Literatura Brasileira. O livro de Corão é um soco no estômago, daquele que impossibilitam qualquer reação que não seja a de total e absoluta reverência à sua contundência inegável. O quase solilóquio de um homem em situação limite, faz com que o leitor faça deslizar seu olhar pelas linhas do texto enquanto se arrepia com as imagens, o caráter direto e cru das assertivas, a melancolia que envolve algumas observações e um forte espírito cético que a tudo aponta com a varinha da quase insensatez. Um texto “poético” por excelência que faz de Gustavo Corção um escritor, como disse acima, inescapável. O fato de ser “arrolado” no panteão dos escritores católicos não diminui em nada a preciosidade de sua escrita. Texto denso, pesado, bonito, bem escrito. Um exemplo do que a Língua Portuguesa pode oferecer em ternos de recursos sintáticos e semânticos para articular um discurso que está anos luz à frente de muito do que se tem produzido com o mesmo código, o que é triste. Não mais triste que constatar que o autor foi, de fato, abandonado numa esquina qualquer da História da Literatura Brasileira. Não muito distante dele, está Antônio Calos Villaça, que tive o prazer de conhecer pessoalmente em duas ocasiões. Dele tenho duas cartas pessoais e uma memória que vai ficar guardada no cofre das preciosidades afetivas que a existência proporciona assim, gratuitamente. Um andar curtinho, ritmado pela enorme quantidade de banha que adiposamente se espalhava no traje preto, constante de sua figura. O arremate ficava por conta da imensa barba branca – barba de monge, que foi – que emoldurava um rosto quadrado iluminado por dois olhinhos pequenos e absurdamente penetrantes. Uma mente mais que admirável. Dele, os três outros títulos mencionados. Mesclando lembranças de seu passado sofrido e um tanto agressivo, passeia por longas referências a autores e livros que compulsou e, em muitos casos, com quem conviveu seja por períodos longos, seja fortuitamente. Um homem de biblioteca e de livraria, de capela e de restaurante. Da solidão dos quartos e dos caminhos abertos da natureza que apontavam para a imensa criação divina, como soe acontecer no pensamento católico. Os livros do Villaça são, como o de Corção, um poema bem-acabado. Escrito em ritmo personalíssimo que envolve o leitor em bruma de acuidade penetrante, de sutil ironia, de desvelamento melancólico e de uma verdade incontestável: a fugacidade da vida e sua absoluta relatividade. Villaça é outro nome esquecido por essas esquinas tão “festeiras”, tão de “feiras” e de festivais… Uma pena.

Cartas da memória das Índias – final

Com o devido pedido de desculpas a quem me lê (imagino que sejam pouquíssimas pessoas…), segue a terceira e última parte do poema de Al Berto. Não à toa, a mais longa e para o meu gosto, a mais instigante e igualmente bonita.


CARTA DA FLOR DO SOL 
(a meu amigo) 

Há ainda outra árvore de natureza mui singular, chamada irudemaus, que em sua língua significa flor do sol, porque as suas flores não abrem nem aparecem nunca senão ao nascer do sol, e caem quando ele se pões; o que é o contrário da árvore triste. É a mais excelente flor, lança melhor cheiro que todas as outras; e da qual fazem ordinariamente uso o rei e as rainhas. 

Viagem de Francisco Pyrard de Laval: TRADUÇÃO E DESCRIÇÃO DOS ANIMAIS, ÁRVORES E FRUTOS DAS ÍNDIAS ORIENTAIS

vou partir 
como se fosses tu que me abandonasses

o último sonho que tive era estranho 
via o fundo límpido de uma rua estreita 
que desembocava num largo iluminado 
havia leões empalhados nos passeios em areia solta 
já não me lembro bem 
parece que uma mulher avançava com um envelope na mão 
estendia mo e gritava
mas eu não conseguia perceber 
insultava me muito provavelmente
tinha a cara escondida por um pano branco bordado 
apenas via a sua enorme boca abrir se
e furiosamente engolir a púrpura do ar 
que envolvia as cabeças reclinadas dos leões 
ouvia o buzinar nervoso dos carros 
exactamente como se ouvem agora 
mas não conseguia vê los
depois 
um rapaz pareceu a uma esquina e reconhecia te
uma voz gravada na memória acompanhava nos
quando nos dirigimos um para o outro 
em câmara lenta 
ouvíamo la sussurrar:
procuro te
no interior das penumbras no esquecido sal 
das casas abandonadas à beira mar
procuro te no perfume excessivo do mel
armazenado pelas abelhas no entardecer das pálpebras 
vem 
mergulha as mãos nos troncos das árvores 
suspende a noite da longa viagem 
estás a naufragar 
o espelho quebrou se e tu já não reconheces as paisagens
o corpo estilhaçou se


tua presença só é visível nas fotografias dos barcos 
as quilhas são a tua memória longínqua das Índias 
vai 
com os pássaros de bicos exuberantes e sonha 
e estende o corpo cansado nos intervalos da erva fresca 
onde alguém costurou pedras brancas na orla das grandes rotas 
a cidade espera te com o cais de madeira
junto ao rio abre as mãos toca nos corpos com os lábios 
agarra os dentro de ti
até que da terra lodosa brotem especiarias 
porque só longe daqui acharás o que falta da tua identidade 
só longe daqui conhecerás o sangue e talvez a felicidade 
inundando um breve instante a noite de nossos desastres 
só longe daqui 
terás a consciência da quotidiana morte de Deus 

repentinamente a voz cessou de se ouvir 
eu tinha na palma da mão uma quantidade de comprimidos mortais 
depois a voz fez se ouvir a espaços irregulares:

pobres unhas 
pelas amarras húmidas dos lençóis rotos 
barcos 
velas sem sol papel pintado deslocando se das paredes
silêncio espesso sarro da noite 
uma viatura boceja no asfalto 
o corpo treme cintila 
resíduos de cidade ruínas da pele buenas noches 
buenas noches mi amor 
lençóis floridos ranho cabeças de cafres 
pingue pingue de torneira avariada esferas de flipper
noches buenas noches 
barcos despedaçados bolor da memória 
da memória da memória da memória 

tinhas a cara mascarada com sangue quando a voz silenciou 
a mulher ria 
eu corria para ti sem conseguir alcançar te
sentei me na cama
veio me do fundo da idade o momento em que nos conhecemos
resolvi levantar me a meio da noite e escrever te esta carta


lembro me que tínhamos fome havia três dias
encostado ao mármore da mesa de cabeceira dormia a fotografia
e o maço de português suave filtro 
a escuridão não era só exterior 
conhecíamo-nos pelo tacto e pelo olfacto
tornámo-nos murmurantes
e tu refulges ainda no escuro dos quartos que conhecemos 
cruzámos olhares cúmplices 
falámos muito não me recordo de quê 
e no calor dos corpos crescia o desejo 
caminhámos pela cidade 
eu metia a mão nas algibeiras 
onde tacteava tudo o que guardara e possuía 
um lenço uma caixa de fósforos um bloco de notas 
sentia me feliz por quase nada possuir
a imagem azulada de tuas mãos flutuava diante de mim 
gesticulavas para me dizer que estávamos vivos 
e apaixonados 

escrevo te
pelo corpo sinto um arrepio uma vertigem 
que me enche o coração de ausência pavor e saudade 
teu rosto é semelhante à noite 
a espantosa noite de teu rosto! 
corri para o telefone mas não me lembrava do teu número 
queria apenas ouvir tua voz 
contar te o sonho que tive ontem e me aterrorizou
queria dizer te porque parto
por que amo 
ouvir te perguntar

quem fala? 


e faltar me a coragem para responder e desligar
depois caminhei como uma fera enfurecida pela casa 
a noite tornou se patética sem ti
não tinha sentido pensar em ti e não sair a correr para a rua 
procurar te imediatamente
correr a cidade duma ponta a outra 
só para te dizer boa noite ou talvez tocar te
e morrer 
como quando me tocaste a testa e eu não pude reconhecer te


apesar de tudo senti a mão sabia que era a tua mão 
mas não podia reconhecer te
sim 
correr a cidade procurar te mesmo que me afastasses
mesmo que nem me olhasses 
mesmo que dissesses coisas que me 
mesmo que 
e ter a certeza de que serias tu depois a procurar me

correr a cidade com o corpo sedento 
noite esgravatando a pele 
bebendo nas veias as poucas forças que me restam 
uma lâmina pelos sonâmbulos asfaltos 
onde morrem ambíguos nomes de corpos sem sexo 
o veneno agindo dos pés à cabeça 
as mãos encharcadas de chuva tacteando um sexo qualquer 
o sangue a chuva a memória desses dias tão difíceis 
a noite a lambuzar com violência os rostos magoados 
visões de sonhos ainda não sonhados 
dilaceradas imagens de bocas coroadas por flores de aço afiado 
ouço outra vez uma voz e agora não estou a sonhar 
mas a escrever te
e ouço a em mim como se estivesse gravada
e a fita do gravador desgasta pelo uso: 

a tua vida 
será feita de embarcações e de solidão 
beberás a secura dos cabos distantes 
conhecerás ilhas de saliva profunda 
olhar te ás nas fotografias
que as unhas aceradas do tempo arranharam 
e para lá dessas imagens envelhecidas tudo sangra e dói 
a tua infância a tua adolescência e o medo 
de não conseguires sobreviver ao estrume deste país 

avançarás pelo mar dentro 
ferido por outros naufrágios imperceptíveis 
descansarás 
nas areias aveludadas da foz dalgum rio sagrado 
e quando o mar se retirar 
o sol a lua virão tatuar sobre o ombro 
a silhueta viva dum bicho estelar 
e a memória 
essa parte calcinada da vida começará a doer e a latejar 

navegarás pela cidade que adere aos dedos 
como sarna mais antiga navegarás 
com o escorbuto no coração transportarás o silêncio 
e a escrita na fragilidade dos pulsos acorda 
onde cintila a faca acorda 
acorda o mar 
está próximo o mar acorda 
o mar acorda o mar acorda o mar 
o mar 

na gaveta onde o bolor cobriu a roupa guardo as fotografias 
reparo como amareleceram suavemente os rostos 
as mãos que seguram ramos de flores os cabelos os olhos 
exala se deles uma leve doçura cor de sépia
foram perdendo a definição esfumaram se os contornos
numa das fotografias tens vestida a camisa de riscas azuis 
noutras sorris olhas me nos olhos
mas aquele sorriso não é o que ainda ontem te vi esboçar 
o sorriso que tens na fotografia morreu 
e no entanto está ali e fico perturbado quando o vejo 
eu sei que nada está vivo na fotografia ou se repetirá 
aqueles sorrisos aqueles instantes para sempre perdidos 
a camisa às riscas votada à degradação lenta do papel 
acabei por destruir as fotografias queimei as
para que ninguém possa supor através delas 
histórias a nosso respeito 
e também para que minha mulher as não encontre 

a única coisa que levo comigo é a cápsula de laranjada 
atada a um cordão em couro deste ma tu um domingo
quando ainda passávamos perto do rio 
íamos ver o sol morrer nas águas 
caminhávamos sem destino pela cidade 
o crepúsculo atingia nos com misteriosos desejos
seria inútil falar das razões da minha viagem 
no fundo nada a justifica 
embora a minha vida ultimamente seja um barco sem rumo 
de vaga em vaga de ressaca em ressaca 
fui arrastando o meu próprio naufrágio 
mas ser me ia difícil falar te destas catástrofes
prefiro calar me para sempre ou enlouquecer
ou avivar a memória de certas visões aciduladas 
enquanto te escrevo esta última carta 
é também a última vez que penso em ti 
sempre habitei este país de água por engano 
estas planícies asfaltadas pelo tédio estes prédios de urina 
estas paredes vomitadas 
onde as diáfanas aves da solidão embatem e definham 
deixam cair dos bicos fios de sangue e de cuspo que te evocam 
vou migrando de corpo para corpo 
sem nunca conseguir definir o voo complexo do meu 
escrevo te ainda lúcido
no entanto ignoro se chegarei vivo ao fim da noite 
quem poderá afirmar que daqui a instantes 
não atravessarei os espelhos impossíveis da noite? 
ferindo o corpo rasgando borboletas de luz 
no écran da cidade amanhecendo em mim 
esqueço como me chamo 
e tenho a certeza de que nunca mais nos veremos 
mesmo no caso de eu permanecer aqui 
neste país de água por engano 
descobri que a morte calça o mesmo número de sapatos que eu 

sabes 
por vezes queria beijar te
sei que consentirias 
mas se nos tivéssemos dado um ao outro ter nos íamos separado
porque os beijos apagam o desejo quando consentidos 
foi melhor sabermos quanto nos queríamos 
sem ousarmos sequer tocar nossos corpos 
hoje tenho pena 
parto com essa ferida 
tenho pena de não ter percorrido teu corpo 
como percorro os mapas com os dedos teria viajado em ti 
do pescoço às mão da boca ao sexo 
tenho pena de nunca ter murmurado teu nome no escuro 
acordado 
perto de ti as noites teriam sido de ouro 
e as mãos teriam guardado o sabor de teu corpo 


ah meu amigo 
estou definitivamente só 


estou preparado para o grande isolamento da noite 
para o eterno anonimato da morte 
mas perdi o medo 
a loucura assola me
preparo a última viagem às Índias imaginadas 
disseram me que só ali se pode descansar da vida
e da morte 
perscruto a razão profunda desta viagem 
ou talvez seja já a torna viagem o que vislumbro
e não valha a pena partir porque já estou de volta 
sem o saber 
hesito em deixar te escrito mais do que um simples adeus
de qualquer maneira por muito longe que me encontre 
se pousares a tua mão sobre a minha testa senti lo ei
esse gesto aliviar me á de todas as dores
a manhã aproxima se cortante
ouço barcos largarem do cais 
preparo a lâmina 
estendo velas em agonia uma lâmina de vidro 
para fender as águas imperturbáveis do dia sem bússola 
destruo cartas papéis manuscritos outros sinais 
destruo imagens que me chamam e me querem reter aqui 
releio estas poucas palavras para ti: 

child of the moon 
debaixo das cerejeiras uma serpente antiga adormeceu 
em tuas mãos de pétalas lunares 
movem se astros em cima da alba da pele
olharemos os insectos perfurarem a treva da noite 
e tecerem claridades 


mas já não tínhamos mais noite a desvendar 
lembro me
a cidade está cada vez mais rente à nossa separação 
caminhamos em direcções opostas 
ou melhor 
eu caminho enquanto tu não existes 
a noite aproxima se com seus territórios de sombra e fábula
areias penumbras oscilantes apagando resíduos de corpos 
teu corpo minúsculo arrefece dentro de mim 
quando as feras despertam nos olhos abandono me
à lama colorida dos terrenos vagos 
dói me a voz ao chegar aos lábios
os dedos penetram o metal cintilam 
conchas abertas ao sonho 
onde terei abandonado a nossa paixão? 

um cristal flutua no enxofre de remotas cidades 
compridos cabelos de jade espalham se sobre o rosto
indecifráveis vegetações 
o sonho torna se exótico quando abres os braços
surgem nas pálpebras caudalosos rios 
neles pouso a cabeça deixo a flutuar
uma mulher anda aos ziguezagues pelos corredores da casa 
vejo peças de vestuário espalhadas pelo chão 
a mulher grita 
corre à roda do quarto insulta os electrodomésticos 
abre o frigorífico 
atira com os legumes congelados ao chão espezinha os
esborracha os contra a parede chora
ri pega numa camisa de riscas e rasga a em mil tiras
recomeça a correr 
entra na casa de banho e abre todas as torneiras 
abre as janelas e ri 
e lambe as vidraças sujas 
derrama açúcar dentro do telefone 
e por cima das petúnias de plástico fluorescente urina 
mas tudo isto se passou há muito tempo noutro lugar 
noutro corpo 

viro me para o sul de nossos corpos e descubro uma ilha
percorro demoradas estradas de tabaco e o ouro envelhecido 
dos caminhos alquímicos desvendo 
os sinuosos mistérios da seda e da pimenta as grandes rotas 
do vento bebo o amargor da vida errante 
onde uma mulher dorme sossegada sobre a cama desfeita 


o telefone toca obsessivamente toca 
um corpo translúcido surge do papel em que te escrevo 
revela se me a água dos gritos repetidos
um foco de luz incide me sobre a boca fechada
procuro me na silenciosa cinza de tua memória
pela casa atravessada de ecos de fogos postos respiro 
dificilmente ouço zumbidos de flipper 
o quarto povoa se de rostos alados mecânicos olhares
pequenas garras de ar 
desfazem se em finos cordéis de terra
a mulher avança sob o peso da tempestade 
aqui esta sempre a chover 
o frasco de barbitúricos conta me o falhado suicídio
a mulher tem o teu rosto ou o meu já não sei 
a luz percorre te o corpo nu
é noite há muito tempo 
fixo um ponto invisível da parede estou sentado na cama 
escrevo te
e tenho a certeza de que ninguém será capaz 
de roubar a minha morte 
porque eu moro neste país líquido por engano 
e tenho dificuldade em imaginar o sono fora de meu corpo 
se quiseres vem dormir perto de mim vem 
sonharemos um país fabuloso junto ao coração das árvores 
vem 
antes que trema o corpo no frio sem deuses e na loucura 

quase amanhece 
lá fora as avenidas mantêm se vazias
subúrbios sonolentos no refrão dum brutal rock’nd roll 
vicious you are so vicious 
baunilha azul nos lábios orgasmo de baunilha 
tarzan de pastelaria um cigarro de chocolate come 
chocolates come sentado no cimo do ice cream toute la nuit 
fuck fuck 
fuck em diferido 
os eléctricos já passaram e as mãos já não são as minhas 
têm sede 
sede de nudez 
mas vou partir deixar te aí
como se fosses tu que me abandonasses 
viajar antes da alba partir 
para longe deste inúteis dias 
eu 
pobre de mim 
navegador da noite próxima da morte 
vou acendendo no sangue os sonhos dum povo que não sonha 
eu 
arquipélago de cinzas oceano do nada 
vou de veias inchadas e penso que talvez não valha a pena 
mas vou 


preciso encontrar o lugar certo para o nosso amor 
queres vir comigo? 
já avisto da gávea inquietantes iluminuras de rostos de afogados 
mãos antigas como rochedos peixes fantásticos 
bocas aflitas e tua boca mordendo 
o cordame avariado pelo sal 
ah meu amigo 
eis o sofrimento de meus lábios gretados pelo sarro oceânico 
eis minhas unhas doentes protegendo o sexo aberto 
às monções aos ventos adversos às vagas rumorosas 

vou abandonar te no lado claro da noite
onde o tempo é um fio de luz rasgando a espessura do corpo 
vou partir 
com estas manchas de frutos sorvados no coração 
para sempre vagamundo 
no corredor de espelhos sem tempo deixo te o sonho
onde já não arde nenhum rosto nenhum nome 
nenhuma voz de silente treva 
nenhum paixão 

abandono te para além da linha nítida da manhã
onde dizem que tudo existe se transforma e continua vivo 
longe 
muito longe desta inocente memória das Índias

Cartas da memória das Índias 2

Segue a segunda carta, um pouco menos longa!


CARTA DA REGIÃO MAIS FÉRTIL 
(a meu pai) 


É a região mais fértil em frutas que há no mundo, as quais são mui boas e excelentes; e todo o país é coberto de árvores de fruto, laranjas doces e azedas, limões de gosto mui suave e deliciosos, romãs, cocos, ananases e outras frutas da Índia. Carnes de todas as qualidades são ali abundantes; o peixe nunca falta. Há milho, mel, canas, açúcar e manteiga em abundância; mas não se cria ali o arroz, que é o principal alimento e vem de Bengala. Mas toda a canela do mundo só de lá vem e há dela florestas inteiras. Há também grande número de elefantes, muita quantidade de pedras preciosas, como rubis, jacintos, safiras, topázios, granadas, esmeraldas, olhos de gato e outras, as melhores da Índia, e por cima de tudo é lá que há a bela e grande pescaria de pérolas mui finas e belas; mas não há diamantes.

Viagem de Francisco Pyrard de Laval: TRADUÇÃO E DESCRIÇÃO DOS ANIMAIS, ÁRVORES E FRUTOS DAS ÍNDIAS ORIENTAIS

vai certamente estranhar esta quase interminável carta 
pai 
há muito que o silêncio se fez entre nós 
o pai com os seus trabalhos por aí onde o tempo custa a passar 
e eu pobre de mim 
tão aflito me sinto com a velocidade desse mesmo tempo 
a cidade é veloz 
não sei se o pai poderá compreender esta velocidade 
aqui tudo se tornou de dia em dia mais doloroso 
minha mulher anda atarefadíssima com o arranjo da casa 
parece que mais nada existe para ela 
eu sempre na rua por aí 
porque não consigo mais suportar aqueles móveis 
onde o pó não chega a pousar 
não consigo suportar aquela barulheira de electrodomésticos 
continuamente a funcionarem 
já não consigo suportar a minha mulher 

saio de casa logo de manhã 
muitas vezes não me apetece ali voltar 
deambulo pela cidade gasto tempo de café em café 
perco me
noite dentro caminho sem direcção precisa 
sem saber para onde vou atravesso a cidade 
à procura não sei de quê 
o corpo esvaziou se lentamente e
com o passar do tempo sei agora 
este casamento foi um erro 
estou terrivelmente só 
talvez seja por isso que me lembrei de lhe escrever 


pai 
decidi partir 
não me pergunte para onde nem porquê 
partir é o que ressoa na minha cabeça 
viajar sem fim e jamais voltar 
também é inútil perguntar me as razões de tudo abandonar
este conforto enjoa me esta vida dá me vertigens e diarreia
de resto duvido que existam razões de peso 
tenho a certeza de suportar minha mulher 
se ainda a amasse 
partilharia com ela a loucura que adquiriu pela casa 
a semanal mudança de lugar dos móveis 
e mais estranho ainda 
quando põe a máquina da roupa a trabalhar sem nada lá dentro 
diz que adora aquele insuportável ronronar de aço 
que lhe faz muita companhia 
enfim 
se eu ainda a amasse talvez 

mas é certo que arranjei outras compensações 
a amizade segura de um amigo 
talvez seja melhor não revelar grande coisa sobre este assunto 
poderia chocar o pai por demasiado íntimo e delicado 
duvido mesmo que conseguisse entender a amizade como eu a entendo 
que quer 
sempre gostei da travessia das noites e das pessoas 
e de beber 
muitas vezes nem sei quem são as pessoas com quem falo 
o pai dir-me-á que tudo isto são simples fugas
é possível 
desde que me conheço que me fujo 
amo essas fugas esses pedaços doutras vidas cruzando se
com pedaços sombrios da minha 
não leve a mal estes desvarios 
no fundo teria sido melhor para mim ter ficado aí 
onde o tempo parece não avançar e a terra é fértil 
provavelmente hoje seria um desses pastores que meditam 
sobre as fases da lua mesmo antes delas se iniciarem 
é possível que hoje fosse um operário exemplar 
trabalharia sem sequer me pôr a questão de que há outro mundo 
por descobrir para lá do incessante roncar surdo das máquinas 
tudo explodiu dentro de mim e não sei como dizer lho
vou largar tudo 
a mulher o trabalho a cidade onde vivo a casa de que não gosto 
a cidade apagou em mim muitos desejos 
a única coisa que ainda faço com prazer é vagabundear 
o que não é muito 
mas sinto me livre e feliz e anónimo

olho a vida como se o mundo desabasse dentro de instantes 


quanto ao emprego não se preocupe 
vou escrever ao meu patrão para me despedir 
não sei o que me espera longe daqui 
nem onde pararei de viajar 
sei que devo partir de todos os lugares onde chegar 
se é que alguma vez vou chegar a algum lugar 
fascinam me sobretudo as cidades costeiras
nelas poderei embarcar para outras cidades 
ou ficar no cais ver os barcos afastarem se
e quedar me silencioso horas a fio
olhando os desaparecer
com o simples desejo de ir com eles 
mas ficar 
ficar um dia mais para que o desejo de partir se torne tão forte 
insustentável 
e me apeteça morrer em cada porto de partida e de chegada 
nesta incerteza viverei o resto dos meus dias 
atravessando mares devassando corpos e noites 
que de mastro em mastro se tornam peganhentas 
indecisas 

digo isto porque ultimamente tenho sonhado muito 
facto extraordinário que já não me acontecia há muito tempo 
nesses sonhos surgem se grandes planos de rostos
antigas topografias de corpos 
desenhados minuciosamente no espaço como mapas pormenorizados 
dalguma costa pedregosa 
paisagens exuberantes imagens a preto e branco 
semelhantes a fotografias ou a visões 
feras que silentemente passeiam pela praia 
e parecem não ter peso 
imensos mares que não consigo localizar nos mapas 
cheguei mesmo a comprar uma quantidade incrível de mapas 
passei noites a estudá los
senti a necessidade absoluta de saber onde encontraria 
aquelas paisagens de rostos e de feras com pêlo ruivo 
assim percorri estradas e arquipélagos 
percorri cidades sem me deter para pernoitar 
imaginei sedes e fomes terríveis doenças 
e nada consegui saber de mim mesmo 
nem onde se encontrava meu corpo 


por vezes acordava em sobressalto 
olhava minha mulher dormir 
perscrutava seu corpo moreno enrolado no lençol 
avistava praias espreguiçadas pela penumbra do quarto 
deve ter sido uma das últimas vezes que a amei 
mas só mais tarde comecei a ter visões 
ficava sentado na cama estático os olhos em alvo 
apercebia pequenas formas geométricas flutuantes 
delicados cristais movimentando se aderiam aos dedos
sementes de estrelas rebentavam deixando escorrer resina 
claridades pelas paredes abauladas 
o ar ficava incandescente 
podia vê lo e senti lo cortante sobre o peito
a princípio assustei me
mas com o tempo habituei me
como me habituei a ver no escuro a desolação de barcos naufragados 
e a viver sem corpo sem sombra e sem reflexo 
minha mulher achou melhor internarem me
mas nunca me foi visitar 
nem uma só vez enquanto estive atado a uma cama 
precisava tanto dela 
ou de alguém que me tocasse 
para me certificar que a vida ainda latejava no fundo do corpo 
não se assuste pai 
tudo isto passou e a morte parece não querer nada comigo 
de resto 
a vida também não 
talvez não devesse falar lhe destas coisas
que direito terei eu de o inquietar? de o perturbar? 
nem sequer lhe devia escrever 
na verdade fomo nos afastando tanto nos últimos anos
o pai já deve ter os cabelos todos brancos 
pouco ou nada tínhamos a dizer um ao outro 
o sol a chuva o mar e a tempestade eram me indiferentes
o cheiro quase doce da terra molhada 
não sei se o pai consegue imaginar o que é uma cidade 
que respiração ferida de cimento se exala dela 
um coração de gasolina e de néon palpita nas avenidas 
aos subúrbios de latas e de estrumeiras 
que cicatrizes sujas de lágrimas se abrem ao cair da noite 
e tudo brilha e tudo parece viver por trás do que já está morto 
entradas de cinemas montras jornais luminosos umbrais de luz 
poderá imaginar tanta luz em plena noite? 
o espaço rasgado por passos rostos barulhos sibilantes 
sirenes gritos aflições pequenos suicídios 
ignoro se o céu imenso daí não o acharia estreito aqui 
percebe agora como é que alguém se pode perder na noite? 
não sei 

noutros tempos é possível que tivesse vivido como aventureiro 
como esses homens tristes tisnados pelo mar 
viajavam 
levando mercadorias e mensagens iam de porto em porto 
enriquecendo fornicando rezando e largando enteados e sífilis 
quem sabe se não sou habitado pela sombra dum país qualquer 
muito antigo e distante 
ou apenas pelo eco duma língua que estala no coração 
uma voz um rosto murmurado um presságio 
então comecei por atravessar o rio nos cacilheiros 
de dia e de noite sem me aperceber que o tempo deste rio 
já o haviam pintado em retábulos magníficos 
e o rio só existia quando sonhava 
como se isto resolvesse alguma coisa ia e vinha 
sem nunca ter a sensação de quem chega ou de quem parte 
sentia me como que a boiar num tempo remoto
e de mais longe ainda que o meu próprio corpo podia lembrar 
um cheiro inquietante a sal devassa me a intimidade do sonho
corroía me a memória

pensei depois ao olhar as fotografias 
as poucas onde me conseguia reconhecer 
que resolveria esta angustiante procura 
julguei que se pudesse recuar ou avançar no tempo 
ser jovem e velho e velho e jovem simultaneamente 
talvez pudesse reencontrar me de novo ou insinuar me
no corpo fotografado 
encontraria o sorriso simples da infância que me revelaria o nome 
mas foi impossível 
porque aquele rapaz que sorria e me olhava 
com seus olhos em papel sépia não era eu 
e tive medo 
passava as noites a embebedar me
turvava a memória de tudo e de todos 
era me doloroso não conseguir corrigir o passado

a viagem que de manhã inicio é um sobejo de vida 
ignoro se irei parar a um desses países cuja linguagem desconheço 
e os costumes do amor me são estranhos 
não sei se haverá regresso 
mas não esquecerei a sua colecção de selos 
quando o pai receber um postal dum determinado lugar 
é sinal de que já nesse lugar não estarei 
será inútil tentar saber do meu paradeiro 
pouco importa se continuo vivo 
se calhar esta viagem não passa de pura imaginação 

tem de me desculpar esta última carta 
de resto pouco disse do que inicialmente lhe queria dizer 
paciência pai 
não nos veremos mais e eu tenho pena de nunca ter tocado 
os seus cabelos brancos 
mas de qualquer maneira já nos víamos muito pouco 
tanto tempo sem memória nos separou 

peço lhe que queime esta carta
destrua a
e se minha mulher lhe escrever ou telefonar 
diga que nada sabe do seu filho há muitos anos 
é melhor assim 
nenhum resíduo nenhum brilho deve assinalar a minha passagem

Memórias

TRÊS CARTAS DA MEMÓRIA DAS ÍNDIAS


CARTA DA ÁRVORE TRISTE 
(a minha mulher) 


lápide 

a contínua escuridão torna se claridade
iridescência lume 
que incendeia o coração daquele cujo ofício 
é escrever e olhar o mundo a partir da treva 
humildemente 
foi este o trabalho que te predestinaram 
viver e morrer 
nesse simulacro de inferno 

meu deus! 
tinha de escolher a melhor maneira de arder 
até que de mim nada restasse senão um osso 
e meia dúzia de sílabas sujas 
calcinadas 


A árvore que se dá nas Índias Orientais, e lá chamam triste, é assim chamada porque não floresce senão de noite. Quando o sol se põe não se vêem nela flores algumas; e todavia meia hora depois do sol posto, esta árvore fica toda florida, e apenas o sol lança novamente os seus raios, caem lhe as flores, sem lhe ficar alguma. É do tamanho da pereira. A folha assemelha se à do loureiro quando é um pouco cortada. A semente serve para lançar na comida; e a água que se espreme destas flores serve para remédio contra a moléstia dos olhos.

Viagem de Francisco Pyrard de Laval: TRADUÇÃO E DESCRIÇÃO DOS ANIMAIS, ÁRVORES E FRUTOS DAS ÍNDIAS ORIENTAIS

quando te levantares e abrires as janelas 
a luz espalhar se á por toda a casa
cobrirá suavemente os objectos e o mobiliário 
devolvendo lhes os seus pesos formas e volumes
acordá los á para as quotidianas utilizações
e as petúnias em plástico na jarra da sala agitar se ão
à tua passagem em direcção à cozinha 
a cidade entrará repentinamente pela casa adentro 
um grito nas traseiras sacode te para o interior baço da manhã
buzinas sirenes 
o telefone do vizinho atravessando as paredes 
gritos de crianças derrapagens estridentes 
outro telefone 
uma porta que se fecha com estrondo 
passas o olhar pelo jornal de ontem em cima da mesa 
lês: 

um papagaio valioso com 32 anos 
capaz de falar em 3 idiomas 
foi morto por um jovem drácula de nome punk 
Carlinhos Monóxido 
o papagaio foi encontrado morto e de olhos saídos das órbitas 
suspeita se que…


o telefone parou de tocar 
atiras o jornal para o caixote do lixo 
reparas então que tudo o que permanecera na penumbra do sono 
surge subitamente nítido e coberto de luz 
como se tivesses encontrado uma fotografia esquecida 
no fundo dalguma gaveta forrada a papel manteiga
o dia instalar se á igual aos outros milhares de dias
com a banal crueldade dos acontecimentos 
ouves rádio enquanto o café aquece 
deixas queimar um pouco as torradas 
passas os dedos pelos cabelos atados numa fitinha de chita 
ajeitas o roupão para cobrires o peito desarrumado 


depois
com a chávena de café na mão mexendo o açúcar 
arrastando os chinelos de borracha virás até aqui 
onde encontrarás esta carta 

serão talvez nove horas 
a rádio cospe anúncios de sabonetes e detergentes 
o irritante pi do sinal horário 
suspiras ao pegar no envelope 
e apenas o teu suspiro te parecerá deslocado 
de resto há muito que os teus dias são o decalque uns dos outros 

escrevo te enquanto não amanhece
a morte desperta em mim uma planta carnívora 
o mundo parece despedaçar se pelos desertos do meu delírio
pântano de lodo entre a pele da noite e a manhã 
espaço de penumbras e de incertezas 
onde podemos perder tudo e nada desejarmos ainda 
por isso aproveito o pouco tempo que me sobeja da noite 
este vácuo lento este visco dos espelhos 
espessa escuridão agarrada à memória debaixo da pele 
começa a asfixia o perigo de ter amado 
no mais profundo segredo das noites devorávamo nos
e um barco tremeluzia pelas cortina do quarto 
como um presságio 
nos objectos e a roupa atirada para cima das cadeiras 
revelavam me a pouco e pouco a desolação em que tenho vivido

é me desconhecida a vida fora dos sonhos e dos espelhos
tu brincavas com o sangue 
a noite cola se me aos gestos
enquanto balbucio com dificuldade esta carta 
onde gostaria de deixar explicadas tantas coisas 
não consigo 
o silêncio é o único cúmplice das palavras que mentem 
eu sei 
comemos a lucidez do asfalto 
mudámos de morada sempre que foi preciso recomeçar 
vivíamos como nómadas sem nunca nos habituarmos à cidade 
mas nada disto chegou para nos entendermos 
o tempo transformou se num relógio de argila
tudo esqueci dessas derivas 
e pelo corpo de nossos desencontros diluíram se os sonhos
a verdade é que nunca teria conseguido escrever te
sob o peso da luz do dia 
a excessiva claridade amputar me ia todo o desejo
cegar me ia
tentaria cicatrizar as feridas reabertas pela noite 
sou frágil planta nocturna e triste 
o sol ter me ia sido fatal
conduzir me ia ao entorpecimento da memória
e eu quero lembrar me do teu rosto enquanto puder
o pior é que me falta tempo 
sinto a manhã cada segundo mais próxima 
ameaçadora e cruel 
a luz arrastar me á para uma espécie de inércia inexplicável
o silêncio será definitivo 
o sangue adormece nas veias e o desejo de permanecer 
arremessar me ia para o esquecimento sem regresso
poderia até projectar um eventual regresso antes de partir 
tenho a certeza de que parto para sempre 
não haverá regresso nenhum 
creio que se tornaria mais fácil escrever te de longe
na deambulação por algum país cujo nome ainda não me ocorre 
num país com sabor a tamarindos rodeados de mar 
onde flores mirrassem ao entardecer e devagar 
a paixão nascesse durante o sono 
um país um pouco maior que este quarto 
fingiria escrever te para te enviar a minha nova morada
poderia assim queimar os dias no desejo de receber noticias 
inventaria mesmo desculpas plausíveis 
greves dos correios inexistentes terríveis epidemias 
catástrofes 
e na espera duma carta acabaria por me embebedar 
beber muito e esperar 
esperar 


digo tudo isto mas já não te amo 
não te amo 
olho em redor pela última vez demoradamente 
sinto me como uma ilha cuja base se desprendeu do fundo do mar
naufraga algures com todo o seu peso diáfano de praias 
uma sensação de limos frios desce às mãos 
nunca fizeste caso da minha loucura 
nunca vieste visitar me quando estive internado nunca


o enfermeiro azul sabonete chegava às cinco em ponto
injectava me e sorria
atava me debaixo de fortíssimas lâmpadas e sorria
esperei continuamente a tua visita 
nunca vieste 
ficava estendido inerte a gritar para dentro do corpo 
as unhas abrindo sulcos nos lençóis sujos de mijo 
e sabia que lá fora as avenidas esvaziavam se
enquanto a morte se passeava no rosto despreocupado duma mulher 
a carne rasgava se me ao simples contacto com os dedos
a dor invadia me os órgãos do corpo que eu nunca vi
esperava te
por cima da cama voava um corpo translúcido filiforme 
passava rente ao peito agredia me
quando eu tentava gritar afastava me embatia
contra as paredes fazia frio e tu não vinhas 
era inverno dentro e fora de mim 
já não me lembrava de nenhum número de telefone 
nenhum nome amigo 
as pernas e as mãos eram de geleia fendiam se
ao contacto de línguas de vidro invisível 
nem sequer telefonaste 
tentava caminhar e tudo o que conseguia era bater 
com a cabeça no lavatório tentava lembrar me do meu nome
e só um rápido movimento de barbatanas sujas me aflorou a boca 
esperei que viesses ao entardecer 
abrisses os braços para mim 
esperava que surgisses como um osso de luz reconhecível 
mesmo durante a noite esperei 
que me prendesses de novo para que não se enchesse o quarto 
de peixes de enxofre devoradores de paredes 
e tu nunca vieste 
mais nada me poderia acontecer 
teu rosto chegava me à memória como mancha de fumo
longínqua nódoa de água e sangue 
nos pulsos 
uma mancha e tu não chegaste 


desculpa 
o que te queria dizer talvez não fosse isto 
a solidão turva se me de lágrimas
e nas pálpebras tremem visões do meu delírio 
olho as fotografias de antigos desertos 
corpos coerentes que fomos 
bocas de papel amarelecido 
onde a sede nunca encontrou a sua água 
e às vezes ainda tenho sede de ti 
mas na vertigem da viagem o coração galopa desordenadamente 
no écran da memória acende se a imagem da mulher que amei
quase nítida vejo te sentada
à porta da rua bordando um pano de linho branco 
só esta imagem transportarei comigo 
embora nunca tenha conseguido saber o que bordavas 
uma colcha? uma toalha? um sudário? 
também nunca to perguntei 
tinha tempo de sobra para o descobrir 
vivíamos longe da cidade espreitavas a nesga de mar 
como uma risca de azul cerúleo ao fim da rua 

agora tens as traseiras enlameadas dos prédios para olhar o lixo 
cães magros ganindo fogem 
às vassouradas de porteiras húmidas de gordura e rolos na cabeça 
tens carros estacionados 
e todas as merdas que atiram fora pelas janelas 
furtivamente durante a noite ou de madrugada 
de tempos a tempos o som quase limpo da flauta do amola tesouras
pergunto me se a memória não será um espaço arquitectado
para abrigar os mais terríveis remorsos e o futuro 

a noite corrói 
balbucio algarismos nomeio peixes e flores de todos os mares 
de todos os continentes os ventos os naufrágios por vir 
o estrume humano a seiva viva das plantas os astros 
uma a uma as aves 
as cidades onde me perco e me reencontro 
a esperança e a dúvida 
o medo das antárcticas cidades do sonho 
ah como me recordo ainda de ti! 


a noite é uma teia de sirenes que te acordam 
e me esfrangalham os nervos 
derrapas na insónia engoles comprimidos coloridos 
para escapares ilesa à inquietante desolação do sexo 
amávamo nos
e para que não nos devorasse o silêncio 
tartamudeava nomes de barcos: 

Delfim dos Trópicos Lírio dos Mares Ave do Tirreno 
Virgem das Maresias Furacão de Delfos Limo de Zanzibar 
Quilha das Índias 

não 
não estou a enlouquecer 
amávamo nos mesmo quando bordavas e te ferias coma agulha
o sangue alastrava pelo pano 
apressadamente bordavas algumas flores para o esconderes 
compreendo hoje como era doloroso o nosso amor 
onde terás esquecido o pano bordado? 
tudo se perdeu 
e na confusão do pouco tempo que me resta duvido 
que nos tenhamos amado alguma vez 

os dias tornaram se vertiginosos quando mudámos para a cidade
assim que andavas de metro punhas te a delirar com viagens
contavas me aventuras de transiberiano
afinal sou eu que parto 
e não irei do Campo Pequeno aos Anjos 
por onde andará a paragem do meu transiberiano? 
quem sabe se numa praia em que leões cansados de selva 
vêm espreguiçar se no crepúsculo do areal
quem sabe se o sonho ou a morte me conduzirá a algum porto 
onde possa embarcar para não sei que outro porto 

víamo nos cada vez menos até que nos perdemos definitivamente
foi quando me assolaram as primeira visões 
as nossas noites eram sempre mais longínquas uma da outra 
a tua vida encheu se afazeres mesquinhos
televisão cabeleireiros tricots intermináveis 
conversas idiotas ao telefone concursos de rádio 
furtivas saídas ao cinema do bairro e à leitaria da esquina 
como se eu ligasse alguma coisa ao que fazias 
eu já andava atravessando as noites 
onde uma navalha oculta talhava um sexo branco no vento 
abria nas pedras fulvas da praia um lugar para esconder 
o corpo exausto 
a febre esmagava me
recolhia aos quartos de pensão 
com as mãos e o peito cheios de pássaros de haxixe e de vinho 
tinha medo 
medo que certos hálitos fortes me fizessem estremecer 
apesar de tudo avançava fascinado 
trémulo noite dentro avançava sempre para me afastar 
de ti e de mim o mais que pudesse 

experimentei breves paixões tristes carícias 
cantei com as lágrimas molhando as palavras sussurradas 
no escuro do quarto cantava 
a cidade de olhos entumecidos a fome entorpecia os gestos 
atirando o corpo para o mais terrível abandono 
internaram me e tu nunca vieste visitar me
não tenho vontade de voltar a falar sobre isto 
vou partir sem saudades e sem dinheiro 
vou partir sem levar um só objecto que me lembre teu corpo 
levo apenas uma espécie de fogo no fundo de mim 
uma ânsia que não sei explicar 
lembro me de quando enlaçava os braços em tuas pernas
uma nuvem de aves vinha pousar se nos ossos
tua boca deixava na minha um travo de asas estelares 
o sexo húmido perfumado 
não não julgues que estou de novo a enlouquecer 
para lá de meus olhos fechados com força o mundo acorda 
cheio de ecos e de venenos 
moves te nesse mundo que eu recuso
aqui donde te escrevo apenas uma parte de mim ainda não partiu 
era isto que te queria dizer 
poderás começar a preparar a espera 
pouco me importa que continues a polir móveis 
e a mudares a água das jarras 
ou a encerares o soalho dos corredores 
podes varrer os quartos 
varrer a cozinha vagarosamente 
eu nunca mais entrarei em casa com os sapatos enlameados 


e tu gritando coisas que eu já não podia compreender 
encontrarás provavelmente um ou uma amante que te ajude 
a suportar o vazio e o tédio desta casa 
e um dia acabarás por trocar novamente esse amor 
pela limpeza maníaca dos móveis 
pela máquina de lavar e o seu funcionamento 
os electrodomésticos sempre foram mais importantes que eu 
mas não terás que te preocupar mais com as minhas pedradas 
nem com as bebedeiras nem com a música em altos berros 
talvez consigas arranjar boas razões 
para de quando em quando insultares o frigorífico 
ou então mete o de caras na cama
poderás partir um prato do serviço com violência 
ou atirares com os cinzeiros cheios à parede 
estou me nas tintas sempre me estive borrifando
para as tuas fúrias electrodomésticas 
e agora sozinha nada disto terá sentido 
resta te o tricot o infindável tricot da chatice e do silêncio
os dias quase sem ninguém 
arrastar se ão contigo colada às vidraças olhando
olhando a chuva ensopar os papéis que se estampam 
contra o asfalto imundo do estacionamento das traseiras 
e o vento arrastará na primavera o cio dos animais fechados nos quintais 


então lembrar te ás de mim
os dias incendiar se ão no susto da interminável espera
mas hoje ao acordares 
sentirás que te povoo ainda o corpo e a memória 

não te deixo o número de telefone de meu amigo 
não quero que com ele alguma vez venhas a falar 
e tentes saber onde estou 
vou partir sem rumo 
por isso será inútil perguntar em que direcção fui 
por outro lado penso que o meu amigo 
não estaria disposto a dividir segredos contigo 
achas que deveria explicar esta amizade? 
não posso não tenho coragem 
ou talvez seja unicamente por pudor 

a manhã começou a furar a noite 
chega me pelas frinchas das persianas
cheira a cimento molhado e a bolor 


parto dentro de breves instantes 
apenas levo a roupa que trago vestida e algum dinheiro 
muito pouco 
daquele que normalmente se destina às despesas da casa 
espero que encontres neste acto um pretexto para me odiares 
não levo recordações 
a não ser daquelas que por mero acaso mencionei nesta carta 
quase nada 
poderás deitar fora a minha roupa 
e todos os meus objectos pessoais 
para onde vou não preciso deles 
as fotografias queimei as ontem à noite enquanto saíste
se telefonarem do emprego diz 
que fui ver se ainda existem Índias por descobrir 
ou que morri ou que me transformei 
diz o que te der mais jeito 
pensei deixar te duas cartas para meteres no correio
mas no último instante eu mesmo as ponho no marco da esquina 

quando te levantares e abrires as janelas 
a luz espalhar se á por toda a casa
sem mim a casa amanhecerá doutra maneira 
a ausência que já sou estando ainda aqui e a culpa 
impregnar se ão em tudo quanto existiu entre nós
tornar se á insuportável continuares a viver sozinha
eu estarei longe 
nas costas dalguma Etiópia 
onde quantidades de lumes se avistam 
longe 
no cimo lúcido de meu próprio corpo contemplando 
o fulgurante sangue dos astros 
muito longe 
no segredo desse lugar único 
em que a escuridão da noite parece eterna claridade

Lirismo em prosa

O que pode haver de comum entre uma aparição de Nossa Senhora e uma oficina de conserto de pianos? Aparentemente, nada! De fato, os dois tópicos parecem absolutamente dissociados. A coisa fica ainda mais complexa ao acrescentarmos a figura de um maratonista que morre durante uma corrida em Estocolmo, na Suécia. O jornal Observador, de Portugal traz a certa (https://observador.pt/especiais/francisco-lazaro-a-morte-ao-sol-do-carpinteiro-que-se-fez-mito-na-maratona/) matéria sobre o atleta: “E se é verdade que Lázaro terá sofrido muitos destes sintomas – os “delírios” no hospital, como que correndo, poderiam ser convulsões –, também é verdade que a aplicação de estricnina era prática comum, sem males de maior. O caso mais conhecido no uso de estricnina é talvez o de Dorando Pietri. Italiano, maratonista, pasteleiro na ilha de Capri, Pietri participou nos Jogos Olímpicos de Londres, em 1908. E cortou em primeiro lugar a meta. A custo, mas cortou. Chegou ao estádio coberto de estricnina no corpo, caiu repetidas vezes, esteve perto de desistir, mas acabou por concluir a prova, levado em ombros por juízes. Acabou a maratona em 2h54m46s, mas seria desclassificado, não pelo uso de estricnina, mas por ter sido auxiliado nos últimos metros. O vencedor seria Johnny Hayes, segundo classificado, com 2h55m18s. Armando Cortesão, que participou com Lázaro nos Jogos Olímpicos, negou então que o maratonista tenha morrido por envenenamento. E aponta as causas da morte: sebo. E calor. “O Lázaro não foi envenenado. Isso é um disparate! O Lázaro morreu por dois motivos: primeiro, porque se untou com sebo. Fui eu e o Fernando Correia, quando ele não aparecia à partida da maratona, que o procurámos no balneário e lá o encontrámos a besuntar-se com sebo. Não faço a menor ideia como Lázaro conseguiu arranjá-lo – ele que mal falava português –; mas conseguiu sebo e estava a untar-se… Eu e o Fernando ainda tentámos que ele tomasse banho, mas não havia tempo. E ele lá foi correr a maratona todo besuntado com sebo, com os poros da pele tapados, o que impedia a transpiração. E outra coisa: só ele e um japonês e que foram de cabeça descoberta àquele sol”, garantiu. .” Assim trata do assunto o periodista. O atleta desmaia durante a corrida e vem a morrer horas depois. Este é o mote que José Luis Peixoto toma para desenvolver o enredo de Cemitério de pianos, narrativa instigante que “viaja” na ideia de morte – ouso arriscar que há sempre a sombra da morte do pai do autor a pairar sobre seu texto, “mas esta é só a minha opinião” – e faz do discurso da memória, do fluxo de consciência, da poesia intrínseca à Língua Portuguesa (ainda que haja quem duvide de sua natureza melódica…), o modus operandi de um texto intenso, lírico, contundente. A morte do atleta narrada quilômetro a quilômetro vai seguindo acompanhada pelas anotações ficcionais que o autor tece, bordando um painel profundo, tocante da intimidade do sujeito, quase um sonho. Meu quase xará – não fosse a diferença de uma letra – é um poeta e sua narrativa nada fica a dever a qualquer dos versos que também compõe. Na mesma toada, Em teu ventre é outra narrativa que mistura, desta feita História e Ficção, envolvendo o aparecimento de Nossa Senhora na azinheira grande em Fátima. Os três pastorinhos são alvo da acuidade poética do autor que flui com sua característica melodia interna, ritmo próprio. O texto de José Luis Peixoto seduz pela plasticidade do ritmo e da sonoridade do verso que, em prosa, se faz perceber, página a página. Parece, em conclusão, que, afinal d contas, pode existir algo de comum entre a aparição e a oficina: um autor. Boa leitura!

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Memória quase secular

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Era Domingo. Vovô, sentado ao lado, na poltrona verde, com o tradicional Continental sem filtro aceso no canto da boca, olhava. De vez em quando, se levantava e tomava sua igualmente tradicional pinguinha de domingo. Papai, Tio Fernando e Tio Francisco, tomando cerveja picavam papel, gritavam, bebiam cerveja e choravam. O tempo todo chorando. Os primos, comigo no meio, ajudavam a picar papel e gritavam quando os tios gritavam. As tias Judith e Irene, com mamãe, ajudavam vovó Esther na cozinha, depois do almoço. Tia Helena, num canto, só olhava e ria, de vez em quando na sua reclusa timidez. Isso durou um tempo, ao final do qual todos gritavam mais, e mais, e mais. Tio Fernando juntou todo mundo dentro de sua Rural Willys verde e fomos pela Avenida Amazonas, aos gritos, jogando o papel picado durante todo o dia, a caminho do Mackenzie Esporte Clube. Era 21 de Junho de 1970. O Brasil conquistava o tricampeonato no mundial de futebol. Dizem, os “entendidos”, que a seleção vencedora foi a melhor de todos os tempos. Não posso dizer, nem que sim, nem que não… Na altura, aos 19 anos, ainda era atleta de natação e o futebol já não me chamava a mínima atenção. Pra dizer a verdade, futebol jamais me interessou tanto assim. Das três vezes que joguei, o final foi um acidente, dois comigo e um com outro garoto. Nem vale a pena o esforço para lembrar. Ainda que tenha torcido pelo Cruzeiro, jamais gostei, de fato, de futebol. Jamais soube jogar. Junte-se a isso o fato de, já naquela época, não entender o porquê do pagamento de dinheiro para quem jogava futebol. Era e sou de uma geração que considerava o ESPORTE uma atividade altruísta, que fazia bem a saúde, que fomentava o espírito de equipe, que valoriza o esforço individual, que alimentava o desejo de superação, que premiava o vencedor por mérito. A disputa era saudável e a diversão garantida. Nada de “teorizações” sofisticadas. Para disputar prêmios fora da cidade, do Estado, fazíamos vaquinha para as despesas. Pais e mães frequentavam por prazer e apoio e não por celebridade. Finais de semana eram sacrificados para as disputas que valiam pelo esforço, pela disputa, pelo conhecimento mútuo, pelas amizades, pela vitória e pela saúde. Tudo porque a gente GOSTAVA de disputar e praticar o esporte escolhido e não porque patrocinadores haviam investido dinheiro e mais dinheiro como numa loteria ou como numa transação de bolsa de valores. A primeira vez que viajei por conta de terceiros foi (infeliz e coincidentemente) em 1972, para os Jogos Estudantis Brasileiros (Ainda existem? Junto aos Jogos Universitários Brasileiros, eram os dois prélios esportivos que funcionavam também como celeiro de atletas de destaque a compor a seleções regionais e nacionais de então. Há de haver aquele(s) que vão manchar esta situação com o suposto descaso da ingenuidade. Hão de louvar que hoje todos são PROFISSIONAIS. Em parte, isso procede. Por que hoje, o tal de “profissionalismo” deixou de lado o prazer e a dedicação ao esporte para se submeter ao império do dinheiro e da celebridade, do “mercado” do esporte que, ao fim e ao cabo, de ESPORTE, tem muito pouco, mas muito pouco mesmo!!! Sou um chato? Confesso, sou sim. E não tenho do que me arrepender!!!

th (1)

PS: hoje faz exatamente 11 anos que comecei este blogue e, para não dizer que não falei de flores, menciono o futebol, subliminarmente. É como eu o encaro, afinal, a sequência de peladas internacionais está para acabar. Graças a Deus!!!

th (2)

Unidunitê…

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Ah se eu pudesse e se o meu dinheiro desse. O que eu faria? Já não sei. Se colocasse estas frases empilhadas, teria feito um poema? Também não sei. Mas o que é mesmo que a gente sabe? Outra pergunta sem respostas. E são tantas. Vão sendo acumuladas – sim, com a locução verbal, caso contrário, usando a forma pronominalizada, tem-se a impressão de que as perguntas se acumulam a si mesmas, que elas têm esta potência, que elas agem por si. E não é bem o caso… Vão sendo acumuladas como as incisões na camada de cera do “bloco mágico”. Desenho sobre desenho. Na superfície, eles desaparecem, mas as marcas ficam e vão se recobrindo: palimpsesto imaginário que não se revela, mas se desvela ao sabor a autorização do inconsciente… (Quem leu Freud sabe do que estou a falar…) E assim… dizem… contam a vida… Parece que, quase literalmente, são expressões de um texto dito por Elis Regina nas performances de seu último show, Trem azul. Não o vi. Aliás, não vi todos os shows dela. Conheci-a em 1972, voltando de Maceió, depois de disputar os Jogos Estudantis Brasileiros. Naquele ano, o governo do Médici (se não me falha a memória a cadeira de presidente era ocupada por ele, mais um general na lista da sucessão entre 1964 e 1988), levou todos os estudantes para os jogos de avião. Todos. E nós nos julgávamos privilegiados. Mal sabíamos o que estava se passando nos “porões da ditadura” (Ai que essa expressão me incomoda… não gosto dela!). Pois bem. Voltando de Maceió, numa escala no Rio de Janeiro (o aeroporto ainda se chamava Galeão e não havia a linha vermelha, se não me engano…) ouvi Casa no campo, na voz da Elis. Corri numa loja e discos e comprei o LP, com a sobra do dinheiro que meu pai havia me dado para gastar com as… bem deixa pra lá, isso é assunto para outra hora. Foi quando conheci a cantora. Daí comecei a comprar cada disco que ela lançava. Não vi Falso brilhante, mas vi Transversal do Tempo. No meio disso, dois outros shows, um no Mackenzie (o clube mineiro, não a universidade paulistana) e outro no Teatro Marília. Depois houve Elis, essa mulher: apoteótico. Mas não vi Trem azul. O último que vi foi Saudade do Brasil: uma ópera popular emocionante. A apresentação na Globo também valeu a pena ver, assim como o programa da Record, se não me engano. Tantos anos escutando música de qualidade inquestionável, interpretada por uma voz inigualável. No Brasil, ainda não apareceu outra para superá-la. Tantas músicas, tantos shows, tantas emoções (ai… ato falho… nada a ver com Roberto Carlos… peloamordedeus!). Assim, as perguntas, com resposta ou sem… Perguntas, dúvidas, ideias, sonhos, desejos… tanta coisa. E o tempo passa, deixa suas marcas e passa, incólume, ao que parece…

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