Palavra delicada

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Um dos poemas de Cecília Meireles que muito me impressiona é o que segue:

Nós e as sombras

E em redor da mesa, nós, viventes,
comíamos e falávamos, naquela noite estrangeira,
e em nossas sombras pelas paredes
moviam-se, aconchegadas como nós,
e gesticulavam, sem voz.

Éramos duplos, éramos tríplices, éramos trêmulos,
à luz dos bicos de acetilene,
pelas paredes seculares, densas, frias,
e vagamente monumentais.
Mais do que as sombras éramos irreais.

Sabíamos que a noite era um jardim de neve e lobos.
E gostávamos de estar vivos, entre vinhos e brasas,
muito longe do mundo,
de todas as presenças vãs
envoltos em ternura e lãs.

Até hoje pergunto pelo singular destino
das sombras que se moveram juntas, pelas mesmas paredes…
Oh!, as sem saudades, sem pedidos, sem respostas…
Tão fluidas! Enlaçando-se e perdendo-se pelo ar…
Sem olhos para chorar…

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Poema mórbido? Não acredito. Etéreo e quase místico? AH… tem mais jeito. Pois… A poeta, com sua peculiar delicadeza desenha ambiente quase fantasmático que, na leitura que faço, lembra um pouco do clima que Machado deixa crescer no diálogo esticado entre Conceição e Nogueira. Este, tempos depois do acontecido – matéria de sua narração – lembra do que se passou numa noite de Natal, enquanto aguardava o amigo que o acompanharia à missa, homônima do título do conto. O tempo passado, os miasmas da memória e o impacto da sedução de sua interlocutora – sutil e delicada como a frase do escritor carioca – é que, a meu ver, podem ser elemento de comparação com o clima que Cecília oferece a seus leitores. A noite “estrangeira” (= estranha, diferente) tira a voz dos presentes à cena. Os “bicos de acetilene” fazem “monumentais” as sombras naquele ambiente de paredes “seculares, densas, frias”. O tempo e sua pátina se juntam à frialdade de sua própria passagem fazendo com que o símile aponte para algo próximo da morte, do fim, do irrecorrível impedimento do contato com a realidade. A última estrofe reforça esta imagem, penso eu, mas inaugura outra: a da afetividade aconchegada na intimidade que o frio e a noite proporcionam: “Sabíamos que a noite era um jardim de neve e lobos./E gostávamos de estar vivos, entre vinhos e brasas,/
muito longe do mundo,/de todas as presenças vãs/envoltos em ternura e lãs.” O contraste entre “neves e lobos” e “ternura e lãs” é que sustentam a hipótese de nova perspectiva na/da leitura do poema. Os “vinhos e brasas” são o motor desta situação intimista que se choca com a ideia de morte, implícita, acredito. Uma leitura mais atenta e o ânimo para escrever mais, podem oferecer outros detalhes e perspectivas de leitura deste poema. Por enquanto, é só!

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Palavra fazendo arte

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São três livros em seguida. Uma trilogia da qual me dei conta somente na leitura do segundo livro. Os três apresentam uma voz narrativa única: um sujeito de idade, de origem judaica, em estado de emergência, pra não dizer terminal. Um senhor cuja mãe se matou e, por isso, deixou cicatrizes fundas na personalidade do narrador. Este narra o primeiro dos três livros. Um outro, andarilho, sujo e maltrapilho, vaga pela cidade, em meio a alucinações. Sempre se faz acompanhar por um volume com os “Adágios” de Erasmo de Rotterdam. Um terceiro narrador é mulher. Num leito de hospital ela vaga, delirante, pelos mais inusitados cenários, supostamente a bus ade explicações. Para o quê, exatamente, é difícil dizer. Este clima de incômodo que se auto exibe parece ser a marca registrada da escrita deste mineiro de Araxá. O nome dele: Evandro Affonso Ferreira. Já andei falando dele por aqui. Comentei, a certa altura o livro Não tive nenhum prazer em conhecê-los (Record, 2016), o penúltimo por ele publicado. Depois desse, há ainda Nunca houve tanto fim como agora (Record, 2017). Uma prosa instigante e perturbadora. As orelhas de todos os quatro volumes lidos são unânimes em destacar, entre outros detalhes, a pontuação. Eu acrescentaria que faz parte do inusitado (envolto em absoluto sucesso) modo de escrever desse autor, a sintaxe e da frase e, também, por que não, a ortografia. Aqui cabe uma explicação: não faz o mesmo que Guimarães Rosa, seja na criação, seja na recuperação d palavras da “última for do Lácio, inculta e bela”. Não. Definitivamente não. Evandro, neste aspecto é original, como o é na manipulação da massa narrativa. Ou, se quiserem, na construção da história, para não ficar na famigerada terminologia “acadêmica”: do enredo. Que não, por acaso… Os livros de Evandro contam histórias sem se preocupar com a costura de episódio e a “composição” de personagens que carregam discursos com endereço certo. As vozes que falam através de sua ficção podem identificar miríades de tipos sociais, na mesma medida que inventam seres absolutamente inexistentes, a considerar os quadrantes de uma realidade rala e quase esgarçada. Não. As personagens de Evandro, considerando os volumes que dele li, não “representam”, como se espera desta entidade textual tão prezada pelo “romance”. Não. O texto respira incômodo, quase náusea, sem ser bolorento ou arrastado. A forma nada sincopada de narrar, faz dos textos ficcionais de Evandro um exercício poético dos mais requintados, o que deve incomoda muito a certos “mestres” das famigeradas “oficinas”. Isso porque sua ficção está anos luz distante das “tramas” policialescas que tentam inovar um gênero já consolidado, com pitadas de idiossincrasias outras, menores. O último título lido foi Os piores dias de minha vida foram todos, o anterior, O mendigo que sabia de cor os adágios de Erasmo de Rotterdam e o primeiro desta série, Minha mãe se matou sem dizer adeus. Só posso dizer que os livros de Evandro – e falo, evidentemente, dos que li, porque ainda me resta algum juízo e senso de responsabilidade – são um exercício poético de leitura primorosa, que enleva, faz pensar, dá coceira no cérebro e convence como resultado de ficção de calibre, espessura e requinte. Claro está que os detratores de plantão, sobretudo aqueles que dependem, como junkies, do status quo mercadológico, vão torcer o nariz e jogar a pecha de diatribe para identificar esta obra. Por que é uma obra, na verdade, mais que uma obra, um projeto estético que faz elevar, e muito, o patamar de importância da Língua Portuguesa como código passível de manipulação estética. Obra de arte, diriam os mais apressados. Os detratores vão ter continuar se coçando, pois tão cedo há de aparecer “ESCRITOR”, como este.

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Um poema oportuno

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Não conhecia o poema que segue. Conhecia o autor, por referências e poucas leituras. Sei de sua posição na Literatura Portuguesa: Guerra Junqueiro. Mas isso é muito pouco… Assim, de repente, sem a menor sombra de intenção, escutei um vídeo enviado por um amigo pelo WhatsApp. Fiquei boquiaberto. A deputada que o leu, tem minha admiração (até prova em contrário). Jornalista de longa data, agora milita na assembleia carioca. Até prova em contrário (Salve eco!), nada que a lance aos miasmas do subterrâneo asqueroso que envolve a assim chamada “política nacional”. O poema fala por si e foi lido por ela em referência ao “uso” da morte de uma vereadora. Isso mesmo, uso. É de ficar pasmado como até morte, trágica, inesperada e chocante serve de matéria de “uso”. Já não há limites para quase nada… Tristes trópicos… Segue o poema:

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No meio duma feira, uns poucos de palhaços
Andavam a mostrar, em cima dum jumento
Um aborto infeliz, sem mãos, sem pés, sem braços,
Aborto que lhes dava um grande rendimento.

Os magros histriões, hipócritas, devassos,
Exploravam assim a flor do sentimento,
E o monstro arregalava os grandes olhos baços,
Uns olhos sem calor e sem entendimento.

E toda a gente deu esmola aos tais ciganos:
Deram esmola até mendigos quase nus.
E eu, ao ver este quadro, apóstolos romanos,

Eu lembrei-me de vós, funâmbulos da Cruz,
Que andais pelo universo há mil e tantos anos,
Exibindo, explorando o corpo de Jesus.

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Certo/Incerto

O susto da morte. Susto? Susto, sim senhor!

Ainda lembro-me bem de certa noite, em Belo Horizonte, quando, acompanhando um amigo inesperadamente avisado da morte do pai, fazia a ronda pelas funerárias da cidade, de carro, prestando solidariedade. Numa das paradas, enquanto ele se informava no interior do prédio da Santa Casa de Misericórdia, fiquei caminhando diante das capelas do velório da mesma Santa Casa. Deparei-me, numa delas, com um corpo solitário, sujo, mal vestido. O rosto do cadáver tinha um esgar de dor, sofrimento, um espasmo, aparentemente. Fiquei perguntando onde teria ido o “sopro de vida” que fazia com que aquela “pessoa” sentisse dor, fome, frio… Onde?

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De outra feita, acompanhei o período de internação de meu irmão. Dia sim, dia não, ia ao hospital e estava com ele, conversando, animando, tentando acreditar que algo de bom sairia dali. Que a cura dar-se-ia. Que ele voltaria a ter a coloração comum de pele, no lugar daquele amarelão assustador. Duas semanas se passaram e ele se foi, destruído pela depauperação física. Um quadro triste, muito triste. De novo, no dia seguinte, a mesma pergunta ecoou, sem resposta.

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Hoje, a manhã do Brasil e, em parte, do mundo, começou com uma notícia absolutamente inesperada: um acidente aéreo. Um time de futebol, praticamente inteiro, morto num acidente: a queda de um avião. As especulações começaram algumas horas depois. O exagero televisivo na transmissão da dor (indizível) de pessoas absolutamente anônimas, enfrentando um momento igualmente anônimo, porque inexplicável, em que pesem as toneladas e toneladas de impressões, constatações, comprovações e demonstrações de responsabilidade. Por terceira vez, o eco da ausência de resposta à mesma pergunta.

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Tempo

Hoje faz 30 dias que meu irmão morreu. A gente passa bom tempo da vida pensando em se preparar para a morte, própria e alheia. Um aprendizado aparentemente inócuo. De um lado, o inevitável, que parece desafiar qualquer tentativa de pertinência. Por outro, o imponderável, que dizima outro tanto de esforço por conta do susto. Sim. Susto. A morte chega, ainda que “anunciada”, de repente. Não há como prever. A preparação, então, se faz, como já disse, inócua. Meu irmão é o segundo de minha família, a célula mater, a ir-se. Primeiro foi meu pai. E lá se vão quase cinco anos. O tempo passa rápido.

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Diz a mitologia que Cronos era um titã. Um titã era como se fosse um gigante (na mitologia nórdica). Os gigantes eram anteriores aos deuses, os titãs em vez de serem deuses protetores de alguma coisa, eles eram aquela coisa, como no caso de Cronos ele era titã que representava o tempo. Cronos era filho de Urano (o céu) com Gaia (a terra) e era casado com a titã Réia e com ela teve 6 filhos, eram eles: Deméter, Hera, Hades, Zeus, Poseídon e Héstia. Seu pai Urano odiava os filhos por isso quando eles nasciam os colocavam de volta no ventre da mãe, Gaia cansada disso, escondeu seu filho Cronos e fez de seu seio uma lamina em forma de foice e a deu para Cronos que, junto com os seus irmãos, castrou Urano enquanto dormia e Cronos virou o senhor do Olimpo, mas Urano disse que assim como ele foi destronado por seu filho, aconteceria a mesma coisa com Cronos. Apavorado, este começou a devorar todos os seus filhos com Réia, mãe extremosa, escondeu seu último filho (Zeus) e o trocou por uma pedra. Assim, Cronos comeu a pedra, Zeus cresceu e junto com sua mãe Réia atacou seu pai, e rasgou a sua barriga e libertou seus irmãos ja adultos e aprisionou os titãs no Tártaro. Zeus se tornou o senhor do Olimpo que virou um lugar de prosperidade chamado de “idade dourada”.

Aparentemente, a mitologia explica muita coisa. No caso da morte, relacionada com o tempo, o mito de Cronos acrescenta aspectos instigantes que fazem um “colorido” inesperado para uma experiência, ainda e sempre, tão incolor… Vale sempre ter em mente que o processo da existência é, por essência, dinâmico. Sua repetitividade é inesgotável e não diminui em nada a profundidade de seus efeitos. Fica a saudade…

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Morte

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Em A morte e a morte de Quincas Berro d’água, de Jorge Amado, a morte aparece como palavra passe aos desvarios noturnos pela mítica terra bahiana, no afã de eternizar a amizade que une aqueles que arrastam o cadáver de Quincas, em beberagens e pândegas. Um rito de passagem digno do mais visceral desejo de vencer a indesejada das gentes.

Em outra direção, José Saramago, em As intermitências da morte, pinta a danada como uma senhora altiva e debochada que se recusa e levar aqueles que deixaram de viver. Há uma “graça” nisso. Humor negro? Não diria… Penso que se trata mais de uma cutucada séria num assunto penoso, apresentado, visitado e discutido num viés sarcástico, destacando as consequências inesperadas que tal possibilidade acarreta.

Dois pontos de vista diferentes. Duas perspectivas similares dinamizadas por olhares diversos. Um mesmo e único tópico: morte. Fenômeno. Aconteciento. Evento. Fato. Destino. Qualquer que seja o termo que busque identificar “a indesejada das gentes” (a repetição não se faz enfadonha, espero…), sempre resta uma certeza absoluta: a inevitabilidade da ocorrência. É comum dizer que a única coisa certa na vida é a morte. A verdade gritante desta afirmativa não tira dela a sua verdade. Eu, do alto da minha ignorância, acrescentaria que a morte joga uma pá de cal sobre a dúvida que poderia pairar sobre o que se pensa e se diz sobre a morte. Em outras palavras (ai esse maldito vício acadêmico…!), a morte deixa clara, nua, cristalina, irrecorrível verdade: o ser humano é absoluta e terminantemente IMPOTENTE. A morte é o atestado disso. Somos impotentes. Não podemos lidar “de igual para igual” com a vida e/ou com a morte. Resta seguir “vivendo”…

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Aniversário

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Ontem, 21 de Dezembro, foi aniversário de morte de Manuel Maria Barbosa du Bocage, poeta português, equivocada e rasteiramente associado a anedotas, quase sempre, de gosto duvidoso e graça escassa: 210 anos. Passou-me despercebida a data. O que me chamou a atenção para ela foi a nota introdutória ao volume que colide a produção do vate, publicada pela Casa Lello e Irmão “em papel bíblia”: as aspas estão na frase original numa das primeiras páginas do volume encadernado em capa dura, vermelha. No início do estudo intitulado “Sua vida e época literária”, que ocupa as 121 primeiras páginas do citado volume, Teófilo Braga começa narrando os primeiros passos da biografia do poeta e vai citando alguns versos. Destes, chamaram-me a atenção o soneto que leva o número LXXV, à página 203, do mesmo livro. O poema fala da vocação do poeta:

Das faixas infantis despido apenas,
Sentia o sacro fogo arder na mente;
Meu tenro coração inda inocente,
Iam ganhando as plácidas Camenas.

Faces gentis, angélicas, serenas,
De olhos suaves o volver fulgente,
Da idéia me extraíam de repente
Mil simples, maviosas cantilenas.

O tempo me soprou fervor divino,
E as Musas me fizeram desgraçado,
Desgraçado me fez o deus-menino.

A Amor quis esquivar-me, e ao dom sagrado:
Mas vendo no meu gênio o mau destino,
Que havia de fazer? Cedi ao fado.

Estranha, inesperada, funesta e desencantada “coincidência”: o aniversário da morte de Bocage e o incêndio do Museu da Língua Portuguesa, causado, até prova em contrário, por um curto-circuito ocorrido durante a troca de uma lâmpada. Uma vítima fatal. Muita confusão. Consternação de muitos. Indiferença de outros tantos. Tudo sob uma chuva torrencial, bem ao sabor do verão tropical. Fica a nota, com o perdão das minhas “rimas”…

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