Reler Machado I

Na tentativa de completar a releitura dos romances de Machado de Assis (na segunda etapa, se conseguir vencer a preguiça, é reler a contística toda), deparei-me com uma ideia que, imagino, está longe de ser original. Nos quatro primeiros volumes Ressurreição (1872), A mão e a luva (1874), Helena (1876) e Iaiá Garcia (1878). Lívia, Guiomar, Helena e Iaiá são as protagonistas incontestes. A trama que as envolve é aparentemente simples. O advérbio se justifica pois, como é sabido, NADA em Machado de Assis é casual, corriqueiro e simples. Ainda que as aparências ficcionais da trama – em seu espaço, em seu tempo e na urdidura do relato – demonstrem certa credulidade simplória, pela suposta facilidade do enredo. Não. Definitivamente não. De fato, estes quatro romances, poderiam tranquilamente ser tomados como “novelas” esticadas. O relato se resume a entrecho comum aos quatro livros: o casamento das quatro protagonistas. Entre idas e vindas, ainda que variadas, correspondendo a um mesmo impulso, o autor exerce com maestria sua perícia, apresentando o caráter feminino de maneira inesperada para o momento em que se insere a publicação dos quatro tomos. É costume dizer que estas quatro narrativas “pertencem” a um suposto “ciclo romântico” no conjunto da obra – infelizmente esta expressão anda tão desgastada… Nada mais equivocado, mesmo que tal pressuposto seja uma muleta didática no espaço da sala de aula, ainda assim, nos níveis iniciais da escolarização. Definitivamente. Isso é um equívoco. O motivo é simples: nenhuma das quatro, ipso facto, corresponde ao modelo romântico de protagonista de romance. Não vou descer “às profundas” para demonstrar tal tese. Não estou escrevendo um tratado ou uma tese de livre docência. Não tenho que provar nada a ninguém. Não mais. Digo apenas aquilo que constato da releitura que faço dos textos citados. Como diz o adagiário popular: o incomodados que se retirem. Neste caso particular, que parem de ler e vão fazer outra coisa que lhes agrade mais… As mulheres, nestes livros, a meu ver, reúnem aspectos de uma única mulher que vai, mais adiante, sintetizar tais ademanes e firulas feminis. De fato, o espírito crítico do Realismo, acrescido do sarcasmo machadiano, temperam o entrecho das quatro primeiras narrativas. A apresentação das mulheres, como ponto fulcral do relato, denota a preocupação do autor com um retrato fiel de parte da sociedade que pinta em suas narrativas: a mulher. O quadro é pintado com requinte e sobriedade, sempre salpicado de frívolas comparações, finas ironias e a observação acurada de um olhar de lince que o narrador acaba por mediar. Este traço, as protagonistas não corresponderem ao modelo clássico da personagem romântica, aqui, é suficiente para deixar de lado, de uma vez por todas essa bobagem de romantismo. O fato que permanece da deliciosa – como sempre – leitura dos textos de Machado é que este detalhe vai sofrer mudança radical a partir de Memórias póstumas de Brás Cubas. Já no título, a mudança de gênero é incontestável. O protagonista é homem. O mesmo sucede com os livros subsequentes: Quincas Borba, Dom Casmurro, Esaú e Jacó e Memorial de Aires. Todos homens. Mas isso é matéria para outra conversa, outra hora…

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Ecos do passado

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Com a proverbial preguiça que me acomete, ainda me ressinto do que senti ontem e não sei definir em palavras. Depois da macacada dos togados, autoridades em Pindorama. Ainda não sei. Apreensão. Dúvida. Não sei de mais nada… Assim, nesta maré de nada, resolvi colocar aqui um texto que escrevi ainda em Santa Maria. Foi apresentado em Toulouse, certa feita, nos idos dos 90 do século passado… Alguém discordou do plot: punição. Já pensei em reescrever… mas já viu né… Aí vai ele:

AS MULHERES E AS LÍNGUAS: PUNIÇÃO E IDENTIDADE PELA LEITURA

José Luiz Foureaux de Souza Júnior UFSM – BRASIL

Para Hélène e Amanda.

(…) a ardilosa realidade da condição feminina confrontou muitos homens da classe média – e muitas mulheres também – com a necessidade de clarificar atitudes, de pôr preconceitos à prova, de tomar decisões. A auto percepção do homem estava em jogo. Os sentimentos exasperados que essa situação provocou, e as numerosas controvérsias que ela gerou, só podem deixar atônitos aqueles que não conseguem perceber a preponderante parcela de sentimentos ocultos existente na criação de atitudes sociais e ideologias políticas.

(Peter Gay)

Não há muito exagero em dizer que esse século é marcado por dois momentos ideológicos contraditórios, aliás, aparentemente contraditórios: a paródia e o ceticismo. Duas observações iniciais são necessárias. A questão da ideologia é por demais complicada, mas tomo aqui a palavra em seu sentido mais primário, aquele que se refere a um conjunto de ideias, em tomo de um tema comum, por exemplo. A segunda observação se refere à contradição, ainda que aparente, passível de ser detectada entre esses dois movimentos. Essa contradição exigiria um ensaio completo para sua sustentação. Insisto nela apenas por uma questão de colocar em xeque as questões aparentemente certas e livres de problemas, dúvidas, etc.

Toda essa introdução se justifica por força da qualidade de um escritor latino-americano que, na minha opinião, e conforme o quadro de referências apresentado, pode ser tomado como paradigma dessa situação, principalmente no que se refere à literatura. Trata-se de Jorge Luiz Borges. Esse nome é aqui referido explicitamente, por conta de uma de suas personagens mais intrigantes: Pierre Menard. Essa personagem é responsável pela tentativa de reescrever o Quixote, tentativa que acaba por deixar metaforizada a grande ansiedade da literatura, a busca de uma origem e/ou de uma originalidade absoluta de uma utopia.

A referência a Pierre Menard vai me levar ao ponto inicial de minhas considerações nessa comunicação. Trata-se de um artigo de Silviano Santiago, chamado “Eça, autor de Madame Bovary”. Em linhas gerais, o ensaio do crítico brasileiro coloca em discussão uma das instâncias textuais mais complexas, o autor. Santiago coloca em questão a composição narrativo-estrutural de dois romances escritos em Língua Portuguesa – O primo Basílio, de Eça de Queirós e Dom Casmurro, de Machado de Assis – ambos tomados como uma reapropriação de Madame Bovary, de Flaubert. Por que a insistência no nome dos autores? Porque, na verdade, essa referência vai explicitar um dos objetivos, mais genérico, dessa comunicação, que é pensar a questão da identidade que se constitui, também, na língua e em seus usos. Essa identidade deve ser, aqui, considerada uma experiência permanentemente recomposta, inapropriável. Pois bem, Santiago discute a possibilidade de pensar a escrita de seu romance como um plágio[1] – ainda que essa seja uma palavra muito forte – do romance do escritor francês. O sentido de plágio, aqui, não se recobre de censura ou condenação porque, enquanto o leitor de um texto é sempre um outro, é possível considerar que o texto é a lembrança de uma tela, algo que faz lembrar de um “texto” anterior. Assim, a leitura remete ao desejo de um grau zero da escritura[2] que nunca existiu

Outra ideia a ser considerada aqui é a de que a leitura é sempre uma escritura de segundo grau, não apenas em relação à realidade cultural representada no texto, mas também da escritura ela mesma. Assim, o plágio é apenas um caso particular de escritura e, eu diria, um exercício de leitura sempre derivada de uma outra leitura. A proposta de discussão se assenta numa crítica contemporânea a Machado de Assis que o teria acusado de plagiar o romance de Eça. A argúcia do crítico brasileiro relê as linhas dessa proposta de polêmica, gênero muito comum no final do século XIX e início do nosso, para desenvolver um raciocínio brilhante acerca da questão da questão da “autoria” de um texto literário, o que acaba por refletir-se na consideração do que costuma denominar de identidade cultural.

Meu interesse particular é propor, a partir dessas premissas, um caminho de reflexão sobre a relação intercultural que pode ser identificada e analisada a partir da leitura comparativa dos três romances anteriormente citados. Vale lembrar que a leitura é, ao mesmo tempo, uma atividade individual e social.[3] Ideologia e coletividade se intercambiam dando forma ao que podemos chamar de discurso cultural. Quando se faz esse tipo de consideração no âmbito do que se conhece por língua, é necessário afirmar que a leitura é, em si mesma, um acontecimento em que a própria língua se transforma. E claro que não vou concluir essa discussão aqui, nem, tão pouco, ouso desenvolver toda uma hipótese teórica. Minha arrogância se junta à minha honestidade intelectual para apenas determinar algumas linhas que considero plausíveis e básicas para repensar uma série de coisas – entre outras a relação inter­lingual que pode ser pensada nas atividades de leitura no ensino superior. Não interessa aqui a discussão pura e simples de diferenciações identitárias entre língua materna, língua estrangeira e língua segunda, por exemplo. No entanto, acredito que tais especulações podem abrir mais um caminho para a discussão de questões pertinentes a essas três categorias.

Uma outra motivação para a apresentação de minha proposta de especulação é o fato de que nos três romances em referência, a cena final é idêntica. Cada um a seu modo, acaba por apresentar uma situação de punição da mulher que se identifica com um traço atávico da cultura ocidental, daí a possibilidade de pensar a identidade cultural, na interlocução entre língua portuguesa – do Brasil e de Portugal – e língua francesa. O pano de fundo é o trabalho com a leitura de textos literários, no ensino superior.

É necessário esclarecer que por “cena final” estou entendendo, aqui, a sequência narrativa que culmina com a morte das três protagonistas – Ema, Luísa e Capitu. Em rápidas pinceladas o que acontece é o seguinte: no caso de Ema Bovary, o narrador nos apresenta o suicídio de Ema, por um motivo que é recorrente ao longo do romance – a insatisfação da protagonista e sua sede de prazer e felicidade, abortados pelos repetidos malogros amorosos, inclusive, o matrimônio; nesse caso a punição se dirige à devassidão. No caso do romance português, a protagonista é punida com uma febre inexplicável, e mortal. Sem quê nem porquê, da noite para o dia, Luísa amanhece febril, seus cabelos são cortados – aí está o significante da punição – e ela morre; seu pecado foi a traição aos princípios burgueses de fidelidade conjugal. Em Machado de Assis, a situação é análoga, mas a motivação é um tanto particular, porque burguesia e devassidão não se juntam, mas induzem Capitu a cair na rede do ciúme atormentado de Bentinho: não se pode “afirmar” que houve o adultério. À parte as diferenças no tratamento ficcional dado ao tema do adultério nos três romances, considero importante colocar algumas reflexões pormenorizadas – guardadas as proporções do espaço de minha comunicação – acerca de cada uma das narrativas. Adianto que não vou me deter na questão vocabular por si mesma, ainda que, ao final, venha a propor um direcionamento das considerações para o campo da tradução.

No caso do romance de Flaubert, temos um casal de província que é – e esse fato é fundamental para entendermos um pouco das perspectivas de leitura de romances franceses do século XIX, devedores convictos de uma tradição descritivo-realista fundamental para a literatura da época, o casal de protagonistas sacramenta, com seu casamento, um contrato burguês no campo: nada da burguesia urbana que vai caracterizar outras narrativas ficcionais da época, mas a insistência na articulação entre provincianismo e vida no campo. Ema é uma mulher “romântica”, por vício de formação. Leitora dos românticos mais em voga, vive influenciada pelo imaginário romântico e desenvolve uma procura desesperada de ascensão social aliada ao prazer sensual. Nesse desejo desenfreado por mudança de status existencial, Ema recusa sua condição provinciana, em nome do desejo burguês de bem viver. Nesse sentido, seu casamento se reveste de uma aura de interesse, marcada pela busca de um status social diferenciado. Em contrapartida, Charles, o marido, reconhece, ao longo do romance, sua falência como marido mesmo, enquanto instrumento de realização marital dos desejos de ascensão social de Ema. Ela ama sua mulher mas não perde de vista seu perfil estreito de médico de província, o que lhe impões e à mulher, uma série de limitações absolutamente frustrantes para ambos. Dadas essas condições, a punição de Ema – veiculada por um suicídio que nada tem de covarde, mas funciona como admissão do fracasso, no sentido nietzcheano – funciona como sentença social provinciana para o pecado da devassidão. Na esteira da luxúria, Ema perde o controle da situação e se deixa arrastar numa enxurrada de “crimes” que não podiam ficar impunes: o moralismo provinciano da burguesia do campo não o permite.

Num segundo momento, temos o casal formado por Luísa e Jorge, igualmente provincianos, mas de um provincianismo citadino, urbano – como requer o código da modernidade. Luísa também é leitora dos românticos franceses, mas ao contrário de Ema, não se sente atraída por mais nada além do que já possui: boa casa em Lisboa, empregados, um marido dedicado e todos os confortos que o modelo burguês poderia oferecer. Seu paraíso começa a ser ameaçado com a volta de um primo, amor antigo, atropelado pelo casamento apaixonado. O contrato burguês aqui se localiza na cidade, como já se disse. Há de se insistir que um certo provincianismo pode ser detectado nesse quadro narrativo, mas um provincianismo dirigido à situação de Lisboa no contexto europeu “fin-de-siècle”. Jorge é o protótipo do macho bem sucedido, para a época. O detalhe que chama a atenção no aparente equilíbrio da cena de fundo é o fato de que a célula dramática do romance é espelhada no texto do próprio romance. Na mise-en-abyme realizada pelo narrador, Ernestinho, uma das personagens do romance, escreve uma peça cujo fim é vivenciado pelo casal de protagonistas. O marido é traído e deve decidir sobre o destino da mulher adúltera. Coincidentemente, ela morre, mas não por meio da febre que vitima Luísa. Esse espelhamento em profundidade pode remeter à narrativa de Flaubert, recuperada pela dicção narrativa de Eça de Queirós que, por meio de insistentes comparações da vida lisboeta com a mundanidade parisiense, acaba por reduplicar a situação de insatisfação vivida por Ema e sua punição que, no caso de Luísa, é revestida de uma erudição atávica no perfil culto-intelectual dos portugueses. Em outras palavras, a morte de Luísa remonta à punição medieval das mulheres tomada pelo demônio. Os jesuítas, mestres na arte de “arrancar” confissões de obsessão de homens e mulheres têm uma participação mais que profunda na formação do caráter religioso dos portugueses. Essa marca se deixa transparecer quando Luíza tem a cabeça raspada. Esse elemento dramático pode ser associado ao ritual inquisitorial, já referido, o que, por sua vez, na economia do romance de Eça acaba por explicitar urna faceta da religiosidade – marca indiscutível da identidade cultural portuguesa.

Fiquemos, agora, com algumas considerações acerca do romance de Machado de Assis. De maneira diferente, em relação às duas protagonistas já citadas, Capitu tem uma personalidade forte. Moça decidida, resolve todas as situações com um senso de objetividade e equilíbrio, que superam o próprio Bentinho, personagem fraca e indecisa, apesar de nomear a narrativa, fato que o faz coincidir com Basílio, o vértice do triângulo de adultério estabelecido no romance português. Bentinho, como já se disse, é fraco e seu espírito frequentemente assaltado por dúvidas e inseguranças. Talvez seja resultado da força impositiva da mãe, substituída depois pela objetividade de Capitu. No fim de sua trajetória narrativa, Bentinho é um homem atormentado por um ciúme doentio, um pouco fruto de sua imaginação, associada à insegurança que lhe marca a personalidade. Suas fantasias são comuns quando se pensa no perfil do homem burguês – na perspectiva de Peter Gay que coloca no homem um temor desmedido pelo “sexo misterioso” da mulher, o que acaba por refletir uma insegurança em relação à possibilidade de perda de seu lugar na hierarquia social da burguesia fin-de-siècle. Ainda sobre Dom casmurro, é necessário que se diga que os nomes das personagens são significantes mais que sintomáticos das situações aqui referidas. A mãe de Bentinho se chama Glória; Capitu, na verdade, se chama Capitolina, o que remete o significado de seu nome para o campo semântico da superioridade que marca sua personalidade. Bentinho, ele mesmo, tem no nome um diminutivo ambíguo, ao mesmo tempo carinhoso e depreciativo.

Todas essas considerações, a meu ver, remetem para uma reflexão acerca do exercício da leitura. Não há como negar o valor das teorias que se debruçam sobre essa perspectiva de trabalho com o texto, seja ele literário ou não. No caso específico da literatura, pode-se pensar nas considerações de Wolfgang Iser[4] e todo um ideário acerca do ato de leitura, ato fundador de sentido. No que se refere ao ensino de língua, tal perspectiva me parece igualmente válida, uma vez que o texto literário, para além de suas questões particulares, apresenta, no mínimo, duas outras facetas instigantes para esse trabalho. De um lado, a possibilidade de se pensar e discutir e refletir e teorizar acerca das representações que a própria linguagem, utilizando determinado código linguístico, acaba por construir de urna cultura. O texto literário é porta voz desses discursos difusos, subliminares, aparentemente inocentes. De outro lado, a questão das formas linguísticas elas mesmas que, confrontadas pela ótica da tradução – por exemplo – apresentam outro fecundo conjunto de variáveis igualmente fecundas. Além do mais, o texto literário encena um sujeito que escapa do controle gramatical de uma língua. Em outras palavras, o eu que fala no texto, na linguagem, nunca é, nem poderá sê-lo, uma entidade compacta, única. A história de sua nacionalidade, os traços de sua cultura, as entorses de seus códigos sempre serão mais fortes. A leitura, ela mesma, é reveladora desses subterfúgios nos quais o eu do leitor se identifica com aquele outro, o que o faz repetir a mesma série de considerações Assim, estabelece-se uma mise-en-abyme constante, crescente e circular, girando sempre em tomo da utopia de uma língua adâmica, original, como queria Haroldo de Campos.[5]

Tudo isso pode ser correlacionado quando, se o quisermos, tomamos a representação agenciada pelo discurso desenvolvido na linguagem ficcional, através, por exemplo, da descrição realizada no romance, qualquer que seja ele. Muitas teorias devem haver sobre as inúmeras possibilidades que o texto ficcional oferece. Nesse sentido, o que disse sobre os três romances, no curto espaço dessa comunicação, acaba por propor uma linha de discussão que pode, por exemplo, eleger a paródia como inversões narrativas, enquanto formas de leitura intercultural Silviano Santiago estaria certo, então, ao considerar Eça de Queiroz autor de Madame Bovary, apenas pelo fato de ter tomado a categoria de “autor” como aquele – dentre outras – que privilegia a consideração de um discurso intercultural agenciado e permitido pela linguagem literária que é “lida”. Assim, na conclusão desse conjunto de provocações, creio ter deixado clara a minha proposta de encaminhamento não apenas de uma discussão teórica sobre o assunto – no sentido da determinação de possíveis “modelos” para as análises possíveis, mas um encaminhamento até certo ponto prático, um exercício demonstrativo das ideias que gostaria de ver discutidas e teorizadas aqui e em outras oportunidades. É nesse sentido que considero pertinente declarar que a Literatura Comparada, enquanto pretensa disciplina, é interessante para a “leitura”, enquanto metodologia de trabalho teórico na Universidade.

[1] SCHNEIDER, Michel. Voleurs de mots. 1985, p.47-70.

[2] BARTHES, Roland Le degré zéro de l’écriture. 1972, p. 165-167.

[3] NUNES, José Horta. Formação do leitor brasileiro. 1994, p.9-12.

[4] ISER. Wolfgang. The act of reading: a t theory of asthetic response. 1980.

[5] CAMPOS. Haroldo de. Deus e o diabo no Fausto de Goethe. 1981. p. 179-209.

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Clarice 3

Agora, a última parte:

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O inusitado, o inesperado, o revelador. É assim, não necessariamente nessa ordem, que as coisas acontecem nos textos de Clarice. Esta cena no trem aparece na versão cinematográfica de A hora da estrela, em adaptação mais que impecável dirigida por Susana Amaral. Macabéa toma café e observa, ingênua e timidamente, envergonhada, o homem do outro lado do balcão que sorri para ela. Quando ele sai andando ela vê a bengala branca… É como se certo encanto se quebrasse, assim, do nada, de repente, inexplicavelmente. No conto que citei, Ana, no fim do dia, “se atravessara o amor e o seu inferno, penteava-se agora diante do espelho, por um instante sem nenhum mundo no coração. Antes de se deitar, como se apagasse uma vela, soprou a pequena flama do dia.” Assim, uma mulher comum. Tão comum que assusta, espanta, encanta, subverte… É essa mulher que vendo constante repetidamente homenageada, revisitada em sua obra, através de suas projeções líricas em textos que sempre instigam. Mais uma homenagem é o poema a ela dedicado, da lavra de Carlos Drummond de Andrade, Visão de Clarice Lispector:

 

Clarice,
veio de um mistério, partiu para outro.

Ficamos sem saber a essência do mistério.

Ou o mistério não era essencial,

era Clarice viajando nele.

Era Clarice bulindo no fundo mais fundo,

onde a palavra parece encontrar

sua razão de ser, e retratar o homem.
O que Clarice disse, o que Clarice

viveu por nós em forma de história

em forma de sonho de história

em forma de sonho de sonho de história

(no meio havia uma barata

ou um anjo?)

não sabemos repetir nem inventar.

São coisas, são jóias particulares de Clarice

que usamos de empréstimo, ela dona de tudo.

 

Clarice não foi um lugar-comum,

carteira de identidade, retrato.

De Chirico a pintou? Pois sim.
O mais puro retrato de Clarice

só se pode encontrá-lo atrás da nuvem

que o avião cortou, não se percebe mais.
De Clarice guardamos gestos.

Gestos, tentativas de Clarice sair de Clarice

para ser igual a nós todos

em cortesia, cuidados, providências.

Clarice não saiu, mesmo sorrindo.

Dentro dela

o que havia de salões, escadarias,

tetos fosforescentes, longas estepes,

zimbórios, pontes do Recife em bruma envoltas,

formava um país, o país onde Clarice

vivia, só e ardente, construindo fábulas.

 

Não podíamos reter Clarice em nosso chão

salpicado de compromissos. Os papéis,

os cumprimentos falavam em agora,

edições, possíveis coquetéis

à beira do abismo.

Levitando acima do abismo Clarice riscava

um sulco rubro e cinza no ar e fascinava.
Fascinava-nos, apenas.

Deixamos para compreendê-la mais tarde.

Mais tarde, um dia… saberemos amar Clarice.

 

O poema de Drummond faz um retrato mais que emocionado de Clarice. Retrato difícil, no entanto. Não o que o poeta tenta no desenho de seus versos, mas o da retratada. De uma beleza selvagem e quase agressiva, Clarice, em seu raiar, plagiando o título de um artigo seminal sobre sua obra, de autoria do recentemente falecido Antonio Candido – No raiar de Clarice – cegou os olhos da Literatura Brasileira com a intensidade de seu brilho. Tanto é assim que, a meu ver, está nesta cegueira a fonte do equívoco que é a consideração da obra da escritora como hermética. A gente não consegue olhar para o sol, as ele está. Se a gente olhar para ele passa a não ver mais nada. Este é o paradoxo. Isto está por detrás, embaixo, do retrato drummondiano. A ele se apõe o que diz Lúcio Cardoso, com quem, dizem, Clarice Lispector alimentou a fantasia de uma paixão amorosa. Tudo por conta da intensa correspondência mantida com ele. Diz o escritor mineiro: “A finalidade de um retrato não deve ser a de esclarecer, mas de contornar, sugerindo o enigma. De esforço em esforço, atingir a fisionomia plena, mas com o seu segredo, que é o que importa”. É isso!

Aqui seria o ponto de passar o vídeo com parte da entrevista a Affonso Romano de Sant’Anna – https://www.youtube.com/watch?v=hWYS-m-Pcd4)

Clarice Lispector, essa mulher, nasceu, provavelmente, no dia 10 de Dezembro de 1920. Sim provavelmente. Até nisso ela é especial. Nádia Battella Gotlib e Benjamin Moses, seus dois biógrafos mais celebrados, são unânimes em afirmar que há mais de um registro cronológico de nascimento para a escritora da língua presa. Isso passaria desapercebido, não fosse a quase perfeita coincidência na cronologia desse ser humano mais que especial: o mês de nascimento e morte é o mesmo. Por conta de um dia, a perfeição não se fez. Puf! Explosão, como diz o narrador de A hora da estrela. Mais uma epifania – para acompanhar o pensamento de Olga de Sá sobre Clarice Lispector. Uma revelação. Do jeito que apareceu no mundo, se foi! Muito obrigado.

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Segue a segunda parte:

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No universo quase mágico da escrita de Clarice, a criança tem lugar. Joana, de Perto do coração selvagem é uma delas. Personagem que guia um leitor pelos desvãos da descoberta da feminilidade numa relação com o pai que beira o insólito, muito canhestramente gravada na descrição de um banho, cena reveladora. Outra, talvez mais intrigante, é a coadjuvante de “Felicidade clandestina”, conto que completa a seleção de volume homônimo. Diz a voz narrativa sobre a coadjuvante: “Ela era gorda, baixa, sardenta e de cabelos excessivamente crespos, meio arruivados. Tinha um busto enorme, enquanto nós todas ainda éramos achatadas. Como se não bastasse, enchia os dois bolsos da blusa, por cima do busto, com balas. Mas possuía o que qualquer criança devoradora de histórias gostaria de ter: um pai dono de livraria.” Essa menina é má, perversa, sádica. Tem um livro que é desejado pela narradora que de um tudo faz para poder pegá-lo emprestado, em vão… O requinte de maldade da coadjuvante é expresso nas repetidas e descosidas desculpas que inventa para não emprestar o livro: não acabei ainda, não pude ler ontem, esqueci de ler tal página. Os dias correm, a angústia da narradora aumenta até que a maldade tem fim. Diz a narradora: “Até que um dia, quando eu estava à porta de sua casa, ouvindo humilde e silenciosa a sua recusa, apareceu sua mãe. Ela devia estar estranhando a aparição muda e diária daquela menina à porta de sua casa. Pediu explicações a nós duas. Houve uma confusão silenciosa, entrecortada de palavras pouco elucidativas. A senhora achava cada vez mais estranho o fato de não estar entendendo. Até que essa mãe boa entendeu. Voltou-se para a filha e com enorme surpresa exclamou: mas este livro nunca saiu daqui de casa e você nem quis ler!

E o pior para essa mulher não era a descoberta do que acontecia. Devia ser a descoberta horrorizada da filha que tinha. Ela nos espiava em silêncio: a potência de perversidade de sua filha desconhecida e a menina loura em pé à porta, exausta, ao vento das ruas de Recife. Foi então que, finalmente se refazendo, disse firme e calma para a filha: você vai emprestar o livro agora mesmo. E para mim: “E você fica com o livro por quanto tempo quiser.” Entendem? Valia mais do que me dar o livro: “pelo tempo que eu quisesse” é tudo o que uma pessoa, grande ou pequena, pode ter a ousadia de querer. Como contar o que se seguiu? Eu estava estonteada, e assim recebi o livro na mão. Acho que eu não disse nada. Peguei o livro. Não, não saí pulando como sempre. Saí andando bem devagar. Sei que segurava o livro grosso com as duas mãos, comprimindo-o contra o peito. Quanto tempo levei até chegar em casa, também pouco importa. Meu peito estava quente, meu coração pensativo. Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de o ter. Horas depois abri-o, li algumas linhas maravilhosas, fechei-o de novo, fui passear pela casa, adiei ainda mais indo comer pão com manteiga, fingi que não sabia onde guardara o livro, achava-o, abria-o por alguns instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. A felicidade sempre ia ser clandestina para mim. Parece que eu já pressentia. Como demorei! Eu vivia no ar… Havia orgulho e pudor em mim. Eu era uma rainha delicada. Às vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo. Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante.”

Pois é assim. Clarice, como eu disse, não hesita em apresentar animais quase como personagens de seus escritos. Nesse universo muito particular, a popular associação de animais com infância não perde seu lugar. Mas a particularidade supera em muito a universalidade. A prova disso pode aferida em duas outras obras: A mulher que matou os peixes e O mistério do coelho pensante. Este, traz um coelho filósofo e foi resultado do insistente pedido de um de seus filhos para escrever um livro para ele. O outro, traz no texto um tema que não está, em princípio, associado à infância: a morte. Isso não é tudo. Este nicho na bibliografia dessa mulher, a infância e os animais, brinda seus leitores com uma pérola: A vida íntima de Laura. E pasmem. Laura é uma galinha. Sim, uma galinha. O mesmo bicho que aparece num de seus contos, apavorada com a possibilidade de se ver para um almoço em família, motivo pelo qual tem uma crise existencialista e fica tergiversando sobre isso. Parece muito para reduzir a criação de Clarice ao perímetro de certa “normalidade”. Os livros infantis, pelo que se sabe, foram escritos numa máquina de escrever portátil, que Clarice carregava de um lado para outro e sua casa e pousava nos joelhos, enquanto, ninava, alimentava, cuidado de seu filho mais novo. Sim, escrevia com a máquina sobre as pernas, sentada, cuidado do filho. Prática inesperada, para dizer o mínimo. Não tão inesperada como fumar, o que ela fazia com frequência. Esta era tanta que certa feita causou um pequeno incêndio em seu apartamento. Cochilou, deixou o cigarro cair no carpete e pronto. Resultado: uma deformação séria na mão direita. Mais um detalhe que se juntou à língua presa que tantos equívocos provocava.

No turbilhão da leitura de sua obra, dois ouros contos me chamam a atenção por encantamento e inquietação. Respectivamente: “A menor mulher do mundo” e “O corpo”, respectivamente. No primeiro, a história de um antropólogo que descobre uma pigmeia que media 45 cm. Nas palavras do narrador: “ Entre mosquitos e árvores mornas de umidade, entre as folhas ricas do verde mais preguiçoso, Marcel Pretre defrontou-se cm uma mulher de quarenta e cinco centímetros, madura, negra, calada. “Escura como um macaco”, informaria ele à imprensa, e que vivia no topo de uma árvore com seu pequeno concubino. Nos tépidos humores silvestres, que arredondam cedo as frutas e lhes dão uma quase intolerável doçura ao paladar, ela estava grávida.” De um lado o maravilhamento do descobridor, de outro, as diversas reações mais inusitadas de uma sociedade que vivia apenas de seus padrões e crenças e não enxergava o mistério da menor mulher do mundo “escura como um macaco”. O inusitado da descoberta não consegue vencer a mesmice da reação da sociedade que recebe a micro mulher de maneira diametralmente oposta ao que poder-se-ia supor. Afinal, o desconcerto do mundo, tão caro a Camões, aparece transfigurado nesse espécimen esquisito do feminino. Esta é outra marca da escrita de Clarice. Do outro lado, o duplo feminino se revela no conto que narra a história de um triângulo amoroso, o tipo de triângulo que leva a um desfecho que, em nada e por nada, mais que surpreende: leva o leitor a um estado de quase catatonia por conta do espanto. Num trecho mais adiantado da história lê-se o seguinte:

Então foram à cozinha. Os dois facões eram amolados, de fino aço polido. Teriam força?

Teriam, sim.

Foram armadas. O quarto estava escuro. Elas fraquejaram erradamente, apunhalando o cobertor. Era noite fria. Então conseguiram distinguir o corpo adormecido de Xavier.

O rico sangue de Xavier escorria pela cama, pelo chão, um desperdício.

Carmem e Beatriz sentaram-se junto à mesa da sala de jantar, sob a luz amarela da lâmpada nua, estavam exaustas. Matar requer força. Força humana. Força divina. As duas estavam suadas, mudas, abatidas. Se tivessem podido, não teriam matado o seu grande amor.

E agora? Agora tinham que se desfazer do corpo. O corpo era grande. O corpo

pesava.

Então as duas foram ao jardim e com auxílio de duas pás abriram no chão uma cova.

E, no escuro da noite – carregaram o corpo pelo jardim afora. Era difícil porque Xavier morto parecia pesar mais do que quando vivo, pois escapara-lhe o espírito.

Enquanto o carregavam, gemiam de cansaço e de dor. Beatriz chorava.

Puseram o grande corpo dentro da cova, cobriram-na com a terra úmida e cheirosa do jardim, terra de bom plantio. Depois entraram em casa, fizeram de novo café, e revigoraram-se um pouco.

Beatriz, muito romântica que era – vivia lendo fotonovelas onde acontecia amor contrariado ou perdido – Beatriz teve a ideia de plantarem rosas naquela terra fértil.

Então foram de novo ao jardim, pegaram uma muda de rosas vermelhas e plantaram-na na sepultura do pranteado Xavier. Amanhecia. O jardim orvalhado. O orvalho era uma bênção ao assassinato. Assim elas pensaram, sentadas no banco branco que lá havia.

Xavier era, como se diz, o pivô crime. Amante de Carmen e Beatriz. Se não me falha a memória, eram professoras, assim como a protagonista de A maçã no escuro, outro livro fascinante de Clarice. No conto em questão, a banalizada violência do assassinato é suplantada pela indiferente constatação de vazio que acomete as duas amantes do açougueiro. Enterram o corpo do amante no jardim, plantam rosas em cima e vão tomar café. Mas a indiferença, aqui, não se reduz à frieza e/ou à maldade gratuita. Esta é, de fato, sublimada e transmutada, pela ficção de Clarice, na constatação da impotência absoluta, algo que pode beirar uma contraposição ao pensamento de Schopenhauer. Isso mesmo. Tudo em Clarice é assim. Aparentemente banal e assustadoramente revelador. No caso deste conto, em particular, há um paralelo, por antítese, a um conto de Rubem Fonseca. Mas isso é assunto para outra conversa.

Clarice, essa mulher, é assim… Assim mesmo, como Ana, a mulher que, no bonde, carrega uma sacola com compras e entre elas ovos. A personagem pressente mais uma epifania: a certeza de que sua vida não é ada do que ela sempre soube que fosse e sempre esteve vivendo. Este é o plot do conto “Amor”, constante da seleção de Laços de família:

Um pouco cansada, com as compras deformando o novo saco de tricô. (…) seu corpo engrossara um pouco e era de se ver o modo como cortava blusas para os meninos, a grande tesoura dando estalidos na fazenda. (…) Sua juventude anterior parecia-lhe estranha como uma doença de vida. Dela havia aos poucos emergido para descobrir que também sem a felicidade se vivia (…). Sua precaução reduzia-se a tomar cuidado na hora perigosa da tarde, quando a casa estava vazia sem precisar mais dela, o sol alto, cada membro da família distribuído nas suas funções. (…) O bonde se arrastava, em seguida estacava (…). Foi então que olhou para o homem parado no ponto. A diferença entre ele e os outros é que ele estava realmente parado. (…) Era um cego. (…) O que mais havia que fizesse Ana se aprumar em desconfiança? Alguma coisa intranquila estava sucedendo. Então ela viu: o cego mascava chicles… Um homem cego mascava chicles. (…) olhava o cego profundamente, como se olha o que não nos vê. Ele mastigava goma na escuridão. Sem sofrimento, com os olhos abertos. O movimento da mastigação fazia-o parecer sorrir e de repente parar de sorrir, sorrir e deixar de sorrir (…). Ana olhava-o. (…) o bonde deu uma arrancada súbita jogando-a desprevenida para trás, o pesado saco de tricô despencou-se do colo, ruiu no chão (…) Ana deu um grito, o condutor deu ordem de parada. (…) Ana se aprumava pálida (…) os ovos se haviam quebrado (…). Gemas amarelas e viscosas pingavam entre os fios da rede.

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Era pra ser uma performance… em nada transgressora, mas pretensiosamente impactante. Uma vez mais, as condições ínfimas e quase inexistentes da egrégia instituição cujas instalações são usadas, em Mariana, para o evento, não permitiram… Era para começar com um pequeno vídeo ao som de Edith Piaf. Depois de certo tempo de leitura, mais um pequeno vídeo com um trecho de entrevista, celebérrima e cheia de revelações… Ficou só na leitura, ao som de Eric Satie e com repetição incessante de 92 fotos, tiradas das páginas de um livro e da “rede”. Foi bom, de qualquer maneira. Falo da conferência (não gosto da palavra “palestra”) que ontem fiz durante a segunda sessão ordinária do ano de 2017 da/na Alacib. Foi bom. Hoje vai um trecho. Os outros seguem nos dias que virão…

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Clarice, essa mulher

Era sexta-feira. Depois do café da manhã, passei pela sala de leitura, bem à frente da porta de entrada da casa situada na Rua Ricardo Tim, no Bairro Ponte Preta, em Campinas. Rogério lia os jornais do dia, coisa habitual. Entrei, bati um papo e peguei um dos jornais, a Folha de São Paulo. Na primeira página, bem abaixo, ao lado de uma foto muito granulada, vinha a manchete “C. Lispector morre no Rio aos cinqüenta anos”. Assim mesmo, com C maiúsculo e ponto! A foto granulada. No fim a chamada “FOLHA ILUSTRADA”, em caixa alta. Foi assim que tive contato, pela primeira vez com essa mulher, Clarice Lispector. Era mais um dia comum na vida de um noviço jesuíta. Depois de ler o jornal, ainda bati um papo com Rogério trocando impressões com Rogério. Ele foi o primeiro a me guiar nas sendas da Literatura Brasileira. O primeiro livro que dela li foi A paixão segundo GH, livro estranho forte, considerado hermético que continha a famigerada cena da personagem que esmaga uma barata na parede e a come. Na economia semântico-discursiva da obra desta judia/nordestina a cena funciona como um dos momentos de epifania – para ficar com termo cunhado por Olga de Sá, freira de Lorena, uma das primeiras brasileiras a publicar um livro sobre Clarice Lispector e sua obra: A escritura de Clarice Lispector, de 1979.

Clarice Lispector, essa mulher. Inicio fazendo uma blague: “Eu sou mansa, mas minha função de viver é feroz”, dizia você que, pouco tempo depois de nascer, Perto do coração selvagem, já se mostrava iluminada, clara, no centro dos salões parecida com O lustre. Um fenômeno inesperado, uma epifania, a revelação momentânea e fugaz, etérea, tudo envolvendo em miasmas A cidade sitiada pelo espírito inquieto, de uma mulher que veio de longe e arrebatou a todos, sem exceção, com o corte ferino de sua linguagem incomum, equivocadamente tida como hermética, por absolutamente óbvia que é. “Só uma coisa a favor de mim eu posso dizer: nunca feri de propósito. E também me dói quando percebo que feri. Mas tantos defeitos tenho. Sou inquieta, ciumenta, áspera, desesperançosa. Embora amor dentro de mim não falte”, repete você, em sua voz marcada por um defeito físico que muita gente confundia com sotaque da terra distante de onde veio, de onde trouxe já apertados – na multiplicidade semântica do particípio – os Laços de família que a fizeram resistir e ousar. É assim, na sua particularidade de mulher, de mulher estrangeira que opta pela solidão, que você se apresenta, como A maçã no escuro, no escuro da alma humana que, abissal, você vasculhou e revelou, sem meias palavras, dura, liricamente dura, melancolicamente épica, desbravadamente dramática. Mulher, você jamais abandonou a menina, aquela que descobre o prazer, seja num banho demorado, seja no desvendar mágico da leitura. Menina e mulher, simultaneamente duplicada na unidade existencial que faz a descoberta: Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com seu amante. Assim você dilacera o espírito feminino na aventura de amar, A paixão segundo G. H. que, filosoficamente, é vislumbrada por uma mulher sem nome, que se faz conhecer e se dá a conhecer por duas letras e que, na parede do quarto, no traço incerto do desenho e no caminhar da barata revela a inquestionável e absoluta verdade do existir: desconhecimento e, depois, espanto platônico – Platão estava certo!

Clarice, essa mulher, é autora de vários livros dos quais cito alguns na blague, a saber: A legião estrangeira (1964), O mistério do coelho pensante (1967), A mulher que matou os peixes (1968), Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres (1969), Felicidade clandestina (1971), Água viva (1973), Onde estivestes de noite? (1974), A via crucis do corpo (1974), A vida íntima de Laura (1974), A hora da estrela (1977), O ovo e a galinha (1977), Um sopro de vida (1978), Quase de verdade (1978), Quase de verdade (1978), A bela e a fera (1979), A descoberta do mundo (1984), Como nasceram as estrelas (1987).

Clarice, essa mulher, foi um indivíduo esquisito. Conta a lenda que certa feita, depois de voltar da Colômbia, para onde tinha ido convidada a participar de um congresso de bruxaria, Clarice foi convidada para uma conferência na PUC-RJ, convite feito pelo então coordenador da pós-graduação naquela instituição, Affonso Romano de Sant’Anna. Alvoroço, expectativa, frisson geral. Arredia, que sempre fora, avessa a aparições públicas de pompa e circunstância, o convite aceito causo alarde. Há que se destacar uma exceção: a participação de Clarice numa passeata contra a ditadura, rodeada de outros escritores, atores e atrizes, intelectuais, estudantes, juventude. A foto correu mundo e continua hoje circulando na rede. Voltando ao convite… auditório cheio, balbúrdia. Compõe-se a mesa e, como soe acontecer na universidade, pompa e circunstância na apresentação da conferencista. Affonso Romano quase babava. Terminada a apresentação, ele passa a palavra a ela. Silêncio sepulcral. Absoluto. O ambiente energizado de angustiante espera, quase vibra de tanta expectativa. Clarice acende um cigarro, fuma tranquilamente. Apaga o cigarro no cinzeiro, com gestos calmos, aparentemente alheia ao que acontece à sua volta. Quando termina o gesto, levanta-se e sai tranquilamente do auditório. Perguntada se não iria fazer a conferência, responde tranquilamente e misteriosamente: acabei de fazer…

Clarice Lispector, essa mulher. Numa célebre entrevista dada ao mesmo Affonso, a escritora afirma não saber a origem de seu nome. Argumenta que pode ser forma corrompida de palavra oriunda do vocabulário da língua fala na Ucrânia, de onde veio sua família. Comenta ainda que Lispector tem, aparentemente duas partes: “lis”, de flor de lis, símbolo de nobreza, pureza, virgindade e “pector”, talvez originalmente termo latino, significando “peito”. Então… flor no peito… peito de lis… Vai saber. Ela não sabia.

A primeira biografia de Clarice da lavra de Nádia Battella Gotlib, professora da USP, intitulada Uma vida que se conta, traz observações luminosas sobre a vida dessa mulher. A mais recente, da lavra de Bejamin Moser, enfant gaité do tout petit monde universitário norte-americano é bem mais recente e um tanto mais conspícua, quase sisuda, ainda que seu texto seja apaixonado. Lá pelas tantas, na biografia escrita pela professora brasileira, há outra passagem instigante da vida dessa mulher, Clarice. Diz  biógrafa que, durante certo tempo, Clarice assinou coluna feminina num diário carioca. Na página sob sua responsabilidade, a escritora escrevia sobre os mais diversos assuntos. Publicou ali também algumas de suas celebérrimas crônicas. No entanto, chamou-me a atenção a referência que Nádia faz a esta página que, em certa edição do jornal, estampava em seu canto superior esquerdo, um “tijolo” – nome que em jornalismo é usual para identificar uma secção pequena numa página de jornal – com uma receita de bolinhas de queijo para coquetel. Lista os ingredientes, orienta o modo de fazer e pronto. Na mesma página, no cato inferior direito, outro “tijolo”. Desta feita, a receita ensinava a fazer bolinhas de veneno para matar baratas. O curioso é que ingredientes e modos de fazer eram, quase na íntegra, os mesmos. Em se tratando dessa mulher, não há espanto que chegue.

Depois que li, abismado, A paixão segundo GH, resolvi pegar emprestado de uma tia outro livro de Clarice: Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres. A história de Lori, professora primária que se envolve com seu professor de Filosofia e tem um cachorro chamado Ulisses é fascinante. Há que ressaltar que os animais – peixe, cachorro, coelho, galinha, cavalo, gato, entre outros – são presença constante nos textos dessa mulher. Deixam mito longe o estreito perímetro de figuras decorativas para ocupar um bestiário simbólico, de um lado, bem ao gosto da cultura judaica; de outro, eco de manifestações de um inconsciente insondável. Fazendo jus à minha fama de estraga prazeres, Lori não fica com o professor, nem se casa com ele, nem feliz para sempre com ele. Quem quiser saber o que acontece, vai ter que ler o livro. Voltando ao livro, já na universidade, fui informado, nos corredores desta egrégia instituição, que este livro teria sido fruto da experiência vivida por Clarice Lispector, numa relação afetiva com cronista famoso, Paulo Mendes Campos. Pai de duas filhas adoradas, quase endeusadas pelo cronista, a esposa deste, ao saber do affaire, ameaça desaparecer da face do planeta com as filhas. O caso amoroso acaba. Coincidentemente, pouco tempo aparece nas livrarias Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres. Vocês não fazem ideia das coisas que podem ser ouvidas nos bastidores de colóquios e congressos, nas antessalas de entrevistas, nos corredores de universidade, nos bares, cafés, motéis, etc…

Nesta mesma linha, há quem diga que A hora da estrela é livro autobiográfico. Tudo por conta da coincidência de “origem” de Macabéa e da própria Clarice. Como veio muito novinha para o Brasil, a escritora, até prova em contrário, se considerava brasileira, nordestina, como Macabéa. Daí à coincidência, é um passo. Não sei se esta hipótese se sustenta. O que sei é que a leitura desse livro me virou do avesso pela extrema e refinada melancolia que dele brota e pela contundente, nua e crua realidade que explicita. A cena de Macabéa chorando ao ouvir a ária “Una furtiva lacrima”, ária do último ato da ópera L’elisir d’amore, de Gaetano Donizetti é de uma beleza que não encontra palavras suficientemente capazes de ser expressa. Da mesma forma, quando Macabéa pede a Glória, sua colega de trabalho, uma aspirina e a mastiga e, Glória pergunta porque, a nordestina responde que é porque dói. O que dói, pergunta Glória. Dói, diz Macabéa. E mais não digo. Se Clarice é capaz de criar tais situações, não fica difícil entender, aceitar e gostar de afirmações como: “Entender é sempre limitado. Mas não entender pode não ter fronteiras. Sinto que sou muito mais completa quando não entendo.”; ou então, “Eu mesma vivo me levantando e caindo de novo e me levantando. Não sei qual é o bem disso, sei que é essa forma confusa de vida que vivo.” Também nessa outra, a mesma sensação: “Uma pessoa que quisesse tomar minha direção seria bem vinda…Eu nunca sei se quero descansar porque estou realmente cansada, ou se quero descansar para desistir.” Para completar, uma frase que poderia bem ser vir de epitáfio: “Não é que vivo em eterna mutação, com novas adaptações a meu renovado viver e nunca chego ao fim de cada um dos modos de existir. Vivo de esboços não acabados e vacilantes.”

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Passado

Na minha proverbial e incorrigível vibe de preguiça (ai como eu abomino essa gíria…) resolvi colocar aqui um texto que escrevi nos anos 90 do século passado. Nossa! Parece uma coisa tão antiga… Nem verificar nos arquivos do blogue pra ver se já tinha sido postado eu verifiquei. Então aí vai, para aproveitar eu falei desse texto em sala de aula. A plateia ouviu, não sei se escutou; estava lá, mas não sei se acompanhou. Eu sei que escrevi… e sobrevivi! Ah… o texto foi dedicado a Amanda e Hélène.

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AS MULHERES E AS LÍNGUAS: PUNIÇÃO E IDENTIDADE PELA LEITURA

(…) a ardilosa realidade da condição feminina confrontou muitos homens da ciasse média – e muitas mulheres também – com a necessidade de clarificar atitudes, de pôr preconceitos à prova, de tomar decisões. A auto percepção do homem estava em jogo. Os sentimentos exasperados que essa situação provocou, e as numerosas controvérsias que ela gerou, só podem deixar atónitos aqueles que não conseguem perceber a preponderante parcela de sentimentos ocultos existente na criação de atitudes sociais e ideologias politicas. (Peter Gay)

Não há muito exagero em dizer que esse século é marcado por dois momentos ideológicos contraditórios, aliás, aparentemente contraditórios: a paródia e o ceticismo. Duas observações iniciais são necessárias. A questão da ideologia é por demais complicada, mas tomo aqui a palavra em seu sentido mais primário, aquele que se refere a um conjunto de ideias, em torno de um tema comum, por exemplo. A segunda observação se refere à contradição, ainda que aparente, passível de ser detectada entre esses dois movimentos. Essa contradição exigiria um ensaio completo para sua sustentação. Insisto nela apenas por uma questão de colocar em xeque as questões aparentemente certas e livres de problemas, dúvidas, etc.

Toda essa introdução se justifica por força da qualidade de um escritor latino-americano que, em minha opinião, e conforme o quadro de referências apresentado, pode ser tomado como paradigma dessa situação, principalmente no que se refere à literatura. Trata-se de Jorge Luiz Borges. Esse nome é aqui referido explicitamente, por conta de uma de suas personagens mais intrigantes: Pierre Menard. Essa personagem é responsável pela tentativa de reescrever o Quixote, tentativa que acaba por deixar metaforizada a grande ansiedade da literatura, a busca de uma origem e/ou de uma originalidade absoluta, uma utopia.

A referência a Pierre Menard vai me levar ao ponto inicial de minhas considerações nessa comunicação. Trata-se de um artigo de Silviano Santiago, chamado Eça, autor de Madame Bovary”.  Em linhas gerais, o ensaio do crítico brasileiro coloca em discussão uma das instâncias textuais mais complexas, o autor. Santiago coloca em questão a composição narrativo-estrutural de dois romances escritos em Língua Portuguesa – O primo Basílio, de Eça de Queirós e Dom Casmurro, de Machado de Assis – ambos tomados como uma reapropriação de Madame Bovary, de Flaubert. Por que a insistência no nome dos autores? Porque, na verdade, essa referência vai explicitar um dos objetivos mais genéricos dessa comunicação que é pensar a questão da identidade que se constitui, também, na língua e em seus usos. Essa identidade deve ser, aqui, considerada uma experiência permanentemente recomposta, inapropriável. Pois bem, Santiago discute a possibilidade de pensar a escrita de seu romance como um plágio[1] – ainda que essa seja uma palavra muito forte – do romance do escritor francês. O sentido de plágio, aqui, não se recobre de censura ou condenação porque enquanto o leitor de um texto é sempre um outro, é possível considerar que o texto é a lembrança de uma tela, algo que faz lembrar de um texto anterior. Assim, a leitura remete ao desejo de um grau zero da escritura[2] que nunca existiu.

Outra ideia a ser considerada aqui é a de que a leitura é sempre uma escritura de segundo grau, não apenas em relação à realidade cultural representada no texto, mas também da escritura ela mesma. Assim, o plágio é apenas um caso particular de escritura e, eu diria, um exercício de leitura sempre derivada de outra leitura. A proposta de discussão se assenta numa critica contemporânea a Machado de Assis que o teria acusado de plagiar o romance de Eça.

A argúcia do crítico brasileiro relê as linhas dessa proposta de polémica, género muito comum no final do século XIX e inicio do nosso, para desenvolver um raciocínio brilhante acerca da questão da questão da autoria de um texto literário, o que acaba por refletir-se na consideração do que costuma denominar de identidade cultural.

Meu interesse particular é propor, a partir dessas premissas, um caminho de reflexão sobre a relação intercultural que pode ser identificada e analisada a partir da leitura comparativa dos três romances anteriormente citado. Vale lembrar que a leitura é, ao mesmo tempo, uma atividade individual e social.[3] Ideologia e coletividade se intercambiam dando forma ao que podemos chamar de discurso cultural. Quando se faz esse tipo de consideração no âmbito do que se conhece por língua, é necessário afirmar que a leitura é, em si mesma, um acontecimento em que a própria língua se transforma. E claro que não vou concluir essa discussão aqui, nem, tão pouco, ouso desenvolver toda uma hipótese teórica. Minha arrogância se junta à minha honestidade intelectual para apenas determinar algumas linhas que considero plausíveis e básicas para repensar uma série de coisas – entre outras a relação inter-lingual que pode ser pensada nas atividades de leitura no ensino superior.

Não interessa aqui a discussão pura e simples de diferenciações identitárias entre língua materna, língua estrangeira e língua segunda, por exemplo No entanto, acredito que tais especulações pode abrir mais um caminho para a discussão de questões pertinentes a essas três categorias.

Outra motivação para a apresentação de minha proposta de especulação é o fato de que nos três romances em referência, a cena final é idêntica. Cada um a seu modo, acaba por apresentar uma situação de punição da mulher que se identifica com um traço atávico da cultura ocidental, daí a possibilidade de pensar a identidade cultural, na interlocução entre língua portuguesa – do Brasil e de Portugal – e língua francesa. O pano de fundo é o trabalho com a leitura de textos literários, no ensino superior.

É necessário esclarecer que por cena finalestou entendendo, aqui, a sequência narrativa que culmina com a morte das três protagonistas – Ema, Luísa e Capitu. Em rápidas pinceladas o que acontece é o seguinte: no caso de Ema Bovary, o narrador nos apresenta o suicídio de Ema, por um motivo que é recorrente ao longo do romance – a insatisfação da protagonista e sua sede de prazer e felicidade, abortados pelos repetidos malogros amorosos, inclusive, o matrimónio; nesse caso a punição se dirige à devassidão. No caso do romance português, a protagonista é punida com uma febre inexplicável, e mortal. Sem quê nem porquê, da noite para o dia, Luisa amanhece febril, seus cabelos são cortados – aí está o significante da punição – e ela morre; seu pecado foi a traição aos princípios burgueses de fidelidade conjugal. Em Machado de Assis, a situação é análoga, mas a motivação é um tanto particularizada, porque burguesia e devassidão não se juntam, mas induzem Capitu a cair na rede do ciúme atormentado de Bentinho: não se pode afirmar que houve o adultério.

À parte as diferenças no tratamento ficcional dado ao tema do adultério nos três romances, considero importante colocar algumas reflexões pormenorizadas – guardadas as proporções do espaço de minha comunicação – acerca de cada uma das narrativas. Adianto que não vou me deter na questão vocabular por si mesma, ainda que, ao final, venha a propor um direcionamento das considerações para o campo da tradução.

No caso do romance de Flaubert, temos um casal de província que é – e esse fato é fundamental para entendermos um pouco das perspectivas de leitura de romances franceses do século XIX, devedores convictos de uma tradição descritivo-realista fundamental para a literatura da época, o casal de protagonistas sacramentam, com seu casamento, um contrato burguês no campo: nada da burguesia urbana que vai caracterizar outras narrativas ficcionais da época, mas a insistência na articulação entre provincianismo e vida no campo. Ema é uma mulher romântica , por vício de formação. Leitora dos românticos mais em voga, vive influenciada pelo imaginário romântico e desenvolve uma procura desesperada de ascensão social aliada ao prazer sensual. Nesse desejo desenfreado por mudança de status existencial, Ema recusa sua condição provinciana, em nome do desejo burguês de bem viver. Nesse sentido, seu casamento se reveste de uma aura de interesse, marcada pela busca de um status social diferenciado.

Em contrapartida, Charles, o marido, reconhece, ao longo do romance, sua falência como marido mesmo, enquanto instrumento de realização marital dos desejos de ascensão social de Ema. Ela ama sua mulher mas não perde de vista seu perfil estreito de médico de província, o que lhe impões e à mulher, uma série de limitações absolutamente frustrantes para ambos.

Dadas essas condições, a punição de Ema – veiculada por um suicídio que nada tem de covarde, mas funciona como admissão do fracasso, no sentido nietzcheano – funciona como sentença social provinciana para o pecado da devassidão. Na esteira da luxúria, Ema perde o controle da situação e se deixa arrastar numa enxurrada de crimes que não podiam ficar impunes: o moralismo provinciano da burguesia do campo não o permite. Num segundo momento, temos o casal formado por Luísa e Jorge, igualmente provincianos, mas de um provincianismo citadino, urbano – como requer o código da modernidade. Luísa também é leitora dos românticos franceses, mas ao contrário de Ema, não se sente atraida por mais nada além do que já possui: boa casa em Lisboa, empregados, um marido dedicado e todos os confortos que o modelo burguês poderia oferecer. Seu paraíso começa a ser ameaçado com a volta de um primo, amor antigo, atropelado pelo casamento apaixonado. O contrato burguês aqui se localiza na cidade, como já se disse. Há de se insistir que um certo provincianismo pode ser detectado nesse quadro narrativo, mas um provincianismo dirigido à situação de Lisboa no contexto europeu fin-de-siècle. Jorge é o protótipo do macho bem sucedido, para a época.

O detalhe que chama a atenção no aparente equilíbrio da cena de fundo é o fato de que a célula dramática do romance é espelhada no texto do próprio romance. Na mise-en-abyme realizada pelo narrador, Ernestinho, uma personagem, escreve uma peça cujo fim é vivenciado pelo casal de protagonistas. O marido é traído e deve decidir sobre o destino da mulher adúltera. Coincidentemente, ela morre, mas não por meio da febre que vitima Luísa. Esse espelhamento em profundidade pode remeter à narrativa de Flaubert, recuperada pela dicção narrativa de Eça de Queirós que, por meio de insistentes comparações da vida lisboeta com a mundanidade parisiense, acaba por reduplicar a situação de insatisfação vivida por Ema e sua punição que, no caso de Luísa, é revestida de uma erudição atávica no perfil culto-intelectual dos portugueses.

Em outras palavras, a morte de Luísa remonta à punição medieval das mulheres tomada pelo demónio. Os jesuítas, mestres na arte de arrancarconfissões de obsessão de homens e mulheres têm uma participação mais que profunda na formação do caráter religioso dos portugueses. Essa marca se deixa transparecer quando Luíza tem a cabeça raspada. Esse elemento dramático pode ser associado ao ritual inquisítorial, já referido, o que, por sua vez, na economia do romance de Eça acaba por explicitar uma faceta da religiosidade – marca indiscutível da identidade cultural portuguesa.

Fiquemos, agora, com algumas considerações acerca do romance de Machado de Assis. De maneira diferente, em relação às duas protagonistas já citadas, Capitu tem uma personalidade forte. Moça decidida, resolve todas as situações com um senso de objetividade e equilíbrio, que superam o próprio Bentinho, personagem fraca e indecisa, apesar de nomear a narrativa, fato que o faz coincidir com Basílio, o vértice do triângulo de adultério estabelecido no romance português. Bentinho, como já se disse, é fraco e seu espírito frequentemente assaltado por dúvidas e inseguranças. Talvez seja resultado da força impositiva da mãe, substituída depois pela objetividade de Capitu. No fim de sua trajetória narrativa, Bentinho é um homem atormentado por um ciúme doentio, um pouco fruto de sua imaginação, associada à insegurança que lhe marca a personalidade Suas fantasia são comuns quando se pensa no perfil do homem burguês – na perspectiva de Peter Gay que coloca no homem um temor desmedido pelo sexo misterioso da mulher, o que acaba por refletir uma insegurança em relação à possibilidade de perda de seu lugar na hierarquia social da burguesia fin-de-siècle.

Ainda sobre Dom casmurro, é necessário que se diga que os nomes das personagens são significantes mais que sintomáticos das situações aqui referidas. A mãe de Bentinho se chama Glória; Capitu, na verdade, se chama Capitolina, o que remete o significado de seu nome para o campo semântico da superioridade que marca sua personalidade. Bentinho, ele mesmo, tem no nome um diminutivo ambíguo, ao mesmo tempo carinhoso e depreciativo.

Todas essas considerações, a meu ver, remetem para uma reflexão acerca do exercício da leitura. Não há como negar o valor das teorias que se debruçam sobre essa perspectiva de trabalho com o texto, seja ele literário ou não. No caso específico da literatura, pode-se pensar nas considerações de Wolfgang Iser[4] e todo um ideário acerca do ato de leitura, ato fundador pelo fato de ter tomado a categoria de autor como aquele – dentre outras -que privilegia a consideração de um discurso intercultural agenciado e permitido pela linguagem literária que é lida.

Assim, na conclusão desse conjunto de provocações, creio ter deixado clara a minha proposta de encaminhamento não apenas de uma discussão teórica sobre o assunto – no sentido d determinação de possíveis modelospra as análises possíveis -, mas um encaminhamento até certo ponto prático, um exercício demonstrativo das ideias que gostaria de ver discutidas e teorizadas aqui e em outras oportunidades. E nesse sentido que considero pertinente declarar que a Literatura Comparada, enquanto pretensa disciplina, é interessante para a leitura, enquanto metodologia de trabalho teórico na Universidade.

‘ SCHNEIDER, Michel. Voleurs de meta. 1985, p.47-70

[2] BARTHES. Roland. Le degrè zéro de l‘écriture. 1972, p.165-167.

[3] NUNES. Jose Horta. Formação do leitor brasileiro. 1994, p,9-12.

[4] ISER, Wolfgang. Te act of reading. A theory of aslhelic response, 1980.

emma     luisa     capitu

 

Mulheres…

Recebi esta pequena historinha numa mensagem de e-mail. Não sei quem é o autor. Como não havia citação de fonte na mensagem que recebi, fiz algumas correções e adaptações e publico aqui! Claro está que reconheço ser a história um tanto sexista e tendenciosa, mas nada que a deixe menos engraçada! Eu ri bastante. Tomara que ela agrade!

Coisas de mulher

Ela passou o primeiro dia empacotando todos os seus pertences em caixas, engradados e malas. No segundo dia, ela chamou os homens da transportadora que levaram a mudança. No terceiro dia, ela se sentou pela última vez na bela mesa da sala de jantar, à luz de velas, pôs uma música suave e se deliciou com uns camarões, um pote de caviar e um garrafa de Chardonnay. Quando terminou, foi a cada um dos aposentos e colocou alguns pedaços de casca de camarão, besuntados com caviar, dentro das cavidades dos varões das cortinas (aqueles tubos ocos de alumínio). Depois ela limpou a cozinha e se foi. Mais tarde seu ex-marido chegou com a nova namorada, estava tudo muito bem arrumado, cheirando a limpeza. Depois, pouco a pouco, a casa começou a feder. Eles tentaram de tudo: limparam, lavaram e arejaram a casa. Todas as aberturas de ventilação foram verificadas à procura de possíveis ratos mortos e os tapetes foram limpos com vapor. Desodorantes de ar e ambiente foram pendurados em todos os lugares. A empresa de combate a insetos foi chamada para colocar gás em todos os encanamentos, durante alguns dias, durante os quais tiverem de sair da casa, e no fim ainda tiveram de pagar para substituir o caríssimo carpete de lã. Nada funcionou. As pessoas pararam de visitá-los. Os funcionários das empresas de consertos se recusavam a trabalhar na casa. A empregada se demitiu. Finalmente, eles não suportavam mais o fedor e decidiram se mudar. Um mês depois, apesar de terem reduzido o valor da casa em 50%, eles não conseguiram um comprador para a casa fedorenta. A notícia se espalhava e nem mesmo corretores de imóveis locais retornavam as ligações. Finalmente, eles tiveram de fazer um grande empréstimo no banco para comprar uma casa nova. A ex-esposa ligou para o marido e perguntou como andavam as coisas. Ele contou a ela o martírio da casa podre. Ela escutou pacientemente e disse que sentia muitas saudades da casa antiga e que estaria disposta a reduzir a parte que lhe caberia do acordo de separação dos bens em troca da casa. Sabendo que a ex-mulher não tinha idéia de como estava o cheiro, ele concordou com um preço que era cerca de 1/10 do que valeria a casa. Mas só se ela assinasse os papéis naquele dia mesmo. Ela concordou e em menos de uma hora, os advogados dele entregavam os documentos a ela. Uma semana depois, o homem e sua namorada assistiam, com um sorriso malicioso, os homens da mudança empacotando tudo para levar para a sua nova casa… incluindo os varões das cortinas!

Moral da história: a muher

– não mente, e sim omite os fatos;
– não fofoca, mas sim troca informações;
– não trai, se vinga;
– não fica bêbada, entra em estado de alegria;
– nunca xinga,apenas é sincera;                                                              – não grita, testa as cordas vocais;                                                         – nunca chora, lava as pupilas dos olhos com freqüência;
– nunca olha para um homem sarado, apenas verifica suas formas anatômicas;
– sempre entende o que homem diz, só pede que explique novamente para testar a capacidade de raciocínio;
– não sente preguiça, descansa a beleza;
– nunca sofre por amor, e sim entra em contradições com os sentimentos.

MULHER NUNCA ENGANA OS HOMENS, PRATICA O QUE APRENDEU COM ELES!