Vontade

Buza Ferraz morreu. Já faz um tempo. Dennis Carvalho ainda está vivo. Lembrei-me deles hoje pela manhã. Recebi mensagem com anexo: Rapsody in blue, com Leonard Bersntein ao piano. Uma peça estonteantemente linda, vibrante, contundente. Vai e volta em tons e semitons. A música de Gershwin foi tema de uma novela chamada Brilhante. Nela, os dois atores viveram um par romântico. A novela se arrasou entre 28 de setembro de 1981 e 27 de março de 1982. Nesta altura, imaginar cenas de intimidade e afeto mútuo entre dois homens ainda era uma coisa praticamente impensável. Lembro-me vagamente das entorses que diretor, roteirista e fotógrafo da novela tiveram que fazer para driblar a “moralidade” da época. A solução final, pareceu-me, então, adequada e suficiente. Cláudio e Inácio, personagens de Buza e Dennis, respectivamente, partem para Nova Iorque. Chica Newman (Fernanda Montenegro) mãe de Inácio observa, muito descontente, mas resignada (já fazem mais de trinta anos, pode ser que me engane), de longe. Os dois se olham, sorriem esfuziantemente e entram num túnel azul, simulando o corredor de embarque do aeroporto do Galeão, ao som da música e Gershwin. Tenho certeza da catarse experimentada por uma população já numerosa no rincão tropical. Mas nem uma palavra, nem um gesto efetivo, nem uma declaração explícita. A metáfora carregada de provocação fechava mais um capítulo da biografia de novelista do Gilberto Braga. Ouvi esta música fez-me lembrar de outra: Abertura 1812, de Tchaikovskyy. Esta, que eu me lembre, não fez parte de trilha sonora de novela. Escutei a peça, por primeira vez, aqui em Belo Horizonte. A produção foi completa: com sinos e canhões de verdade. Um sucesso. Quem já ouviu sabe do que estou falando. Emocionante!

Mas por que estaria eu falando disso, assim, sem propósito, do nada? Já não sei. O que sei é que de manhã, quando ouvir Gerschwin, deu-me vontade de falar o que fazei pro primeiro. Depois, ouvir Tchaikovsky foi mais que emocionante, em exercício de afeto memorial. Uma dessas delícias inefáveis. Fica assim então. Falei o que me deu vontade de falar. Penso que não devo ser condenado por isso…

Mito

andreia

 

Quase 35 anos depois ela está viva. Vivíssima. Eu diria que, praticamente, reencarnada na pele de uma atriz que, como se diz por aí: deu conta do recado. Apesar dos lábios mais carnudos e um ou outro detalhe “técnico”, o desenho da atriz faz mais que jus à artista, a cantora, a mulher, ao mito: Elis Regina. Quase 35 anos e eu ainda me lembro daquela tarde de janeiro quando, voltando do intervalo do almoço, entrei na loja em que trabalhava e escutei no rádio a notícia triste. Os funcionários da oficina de reparos de móveis me ouviram chegar e subiram e, condoídos, tristes, cabisbaixos, vieram trazendo o rádio e me abraçaram como se eu fosse parente próximo da “Pimentinha”. Elis tinha sido encontrada morta em seu apartamento em São Paulo. Semanas depois, uma conhecida minha de Belo Horizonte dizia-me te visitado um amigo dela, muito próximo da Elis, que, segundo a minha conhecida, teria sido o sujeito que levou a cocaína que a Elis misturou com vermouth na golada fatal. Dizia, então, a amiga que  sujeito estava arrasado, sentindo-se responsável… O filme, faz sóbria homenagem na referência ao episódio final. O relance do nome de Milton Nascimento (que aparee na lombada de uma fita cassste e cuja voz se ouve, ao fundo, num solfejo delicado) é de uma elegância que faz ter vontade de quebrar a cara do capista da revista ISTOÉ que estampava de braços abertos, como num crucifixo. A manchete era horrorosa, tendenciosa e absolutamente deselegante. Uma gafe imperdoável para uma pessoa do quilate da cantora gaúcha. Andreia Horta impressiona. Mais que impressiona, consegue, galhardamente, encarnar a insubstituível Elis. Sim, insubstituível. Diz o adagiário popular que ninguém é insubstituível. Desculpe o autor do aforisma, mas Elis É insubstituível!!! A trilha sonora do filme é impecável. A fotografia leva a audiência a confundir Elis e Andreia, confundir Andreia e Elis. Há momentos em que é praticamente impossível dizer quem é quem. Exagero de fã? Pode ser, mas sincero. O respaldo está na produção que conseguiu pontuar momentos chave na trajetória daquela que deu uma guinada de 180º na música popular brasileira – claro que faltou muita coisa, para cada um de nós há detalhe que poderia ser acrescentado, como o desenho do Henfil, não o que é mostrado no filme, mas outro, o que foi publicado quando de sua morte, como numa condolência suplicante do cartunista. O filme, um tour de force admirável e consequente, esmerado, sincero, elegante, mais que bom. O eixo de referência da cultura musical brasileira não apenas deve muito a Elis, não teria tido a história que teve não fosse ela. Elis, a mulher. Elis, a cantora, a mãe, a artista. E também a Andreia: que sensibilidade, que entrega, que identificação. Acabei de ver o filme, ainda sinto o calor da hora, o coração selvagem do qual cheguei perto, uma vez mais, ao som da voz da Elis e da pele de Andreia. Gostei!

elis

Voltar

Ando com vontade de voltar. Não sei pra onde… Não sei como… Tenho pálida ideia do porquê… Mas voltar… Será da idade? Pelo sim, pelo não, como foi o Gerson que me apresentou esta música por primeira vez, vai a homenagem pra ele, que está voltando da terrinha…

Diário coimbrão 31

As duas são belgas. Uma é produzida por trapistas. Outra, por beneditinos. Engraçado… A igreja está visceralmente ligada ao alcoolismo: champagne e cerveja. Pode?! Afonso Cruz acertou na mosca quando cunhou o título de seu livro: Jesus Cristo bebia cerveja. Eita… Pode ter ido coincidência, mas, na volta pra casa, depois de uma breve parada num estabelecimento chamado “O mirandez”, na galeria Mayflower ou será na Primavera?… Ah… deixa pra lá… Tenho a impressão de ter visto luz do fim do mundo. Não que o fim do mundo deva ser um espetáculo com iluminação assinada, digamos, por Ney Matogrosso. Mas a luz… Aquela luz… Na hora, só pensei no fim do mundo. E não há nada de trágico ou de depressivo nisso. Era um rasgão no céu chumbado de água, um clarão, uma rasura… a luz do sol esbatia-se e brilhava como que lutando contra as garras das nuvens que insistiam em mantê-lo ali, preso. O raio… Saiu a luz… A luz do fim do mundo. Há que dizer que, a parada n’O mirandez serviu para experimentar as duas cervejas belgas a que me referi, ainda que implicitamente, no iniciozinho desta postagem… Ai que preguiça de quem usa post… Poish… As cervejas se chamam Maredsous e Trapistes Rochefort, respectivamente: amarga e doce. Encorpada e elegante. Espevitada e senhora de si. Uma experiência a se fazer de joelhos, rezando… Claro, foram monges a fabricá-las, as duas!!!Uma delícia… Pra rebater, um chazinho de limão, com mel e gengibre. Ajuda a fortalecer o sistema imunológico…

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Ontem foi da de show. Show de música brasileira, cantora brasileira: Adriana Calcanhoto. Uma delícia. Ela rateou no começo (nervosismo?) cantando em dissonância com seu violão boa parte do primeiro número. Um standard, depois, três inéditas. E a catarata de sucessos ganhou o espaço e a deixou solta, linda, senhora de si, com direito a comentários e facécias… afinal, como ela mesma disse, era a primeira vez de um convite para uma festa de aniversário de 725 anos… Evoé, Universidade de Coimbra!

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De quebra, três parágrafos de um autora de que já tinha ouvido falar, obviamente, mas que só vim a ler, de fato, aqui: Agustina Bessa-Luis. As pessoas felizes. Lisboa: Guimarães, 1975.

A guerra. Abriu uma negra flor no coração dos portugueses, e eles aguardaram que ela crescesse e murchasse. As lágrimas com que a regavam não se viam, mas cavaram sulcos nas terras, e elas secaram. Não a força das coisas, mas uma perseverança como um castigo, chamou à guerra um dever pátrio, um socorro às linhas mestras da História, um vagalume de expiação sobre a paz vivida.  (p. 161)

O Porto é rude como a rocha onde tem alicerce. Não se esqueça de que o Porto é  estação terminal do Douro, a região mais violenta de Portugal. Violenta porque carrega a miséria com o desprezo. Lá, a pobreza vexa mais do que fere o corpo. O homem e a mulher do Douro têm uma qualidade, que é não serem caninos, não se inclinarem às côdeas que vêem o patrão comer. Nos seus olhos e na sua carne, há a imunização à carreira do que sobe na vida e é promovido. Ainda há pouco tempo, o homem do Douro nascia na vinha e morria no saibramento.

No Porto, grande parte da sua gente, se não fosse o sangue inglês que lhe dá às vezes um perfil marítimo, era feita como trovões. O mesmo acontece no Douro. Miguel Torga localizou na estação do caminho de ferro da Régua a pátria resumida da fealdade. Pois será. A beleza é uma questão de densidade atmosférica e de equilíbrio entre a razão e o gesto. A máscara responde ao rito. Pois será. (p. 178-179)

O que aconteceu ao Porto foi que teve demasiados escritores inscritos no quotidiano, e poucos com correspondência na eternidade. Estes são os humilhados, os que são atraídos entre a lisonja e a verdade, entre o riso do bufão e a ciência do mago, entre a simples balada do mensageiro e a via do isolado social. (p. 182)

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Diário coimbrão 28

Subtítulo: tertúlias dominicais

Mais uma semana… Mais um domingo… sem pé de cachimbo… Os eflúvios do álcool passam, lentamente, sem deixar rastros… A torporformização da melancolia de mais um dia cinzento e molhado vai tomando conta do ambiente que ainda insiste em se alimentar das risadas, das palavras, dos pensamentos e do afeto partilhado entre quatro, entre seis, entre inumeráveis, ao redor de uma mesa, planeta afora. Não foi um dia de prélios culturais ou fotográficos, mas de comer junto, rir junto e passar horas encantadoramente doces e divertidas. Coisa pouca para muitos… Tesouro para poucos, escolhidos, porque sabem a espessura de cada sorriso no fundo da alma, que persiste mesmo com a depauperação física, implacável fado que a natureza impões à experiência do existir… A voz de Jorge Vercilo cantando “Ela une todas as coisas” ecoa os mesmos sentimentos que a doce canção de Vander Lee, “Esperando aviões” . Ambas ajudam a compor o clima desse final de tarde. O eco é forte, retumba fundo e largo, tanto que vale reproduzir a letra da canção por inteiro:

Esperando Aviões

Vander Lee

Meus olhos te viram triste
Olhando pro infinito
Tentando ouvir o som do próprio grito

E o louco que ainda me resta
Só quis te levar pra festa
Você me amou de um jeito tão aflito

Que eu queria poder te dizer sem palavras
Eu queria poder te cantar sem canções
Eu queria viver morrendo em sua teia
Seu sangue correndo em minha veia
Seu cheiro morando em meus pulmões

Cada dia que passo sem sua presença
Sou um presidiário cumprindo sentença
Sou um velho diário perdido na areia
Esperando que você me leia
Sou pista vazia esperando aviões

Sou o lamento no canto da sereia
Esperando o naufrágio das embarcações

Pra completar, alguns instantâneos da alegre e divertida tertúlia de hoje, com as queridas Natália e Regina, acompanhadas do filho da Natália, o Ricardo! Bem haja!

A trinca 1A trinca 2Ao pé da Magnólia 1Ao pé da Magnólia 2Natália e euNatália e ReginaNatália, Ricardo, Regina e euRegina e euUm, dois e...

Delícia

 

Um concerto “sui generis”!

Faz tempo que recebi este vídeo como anexo de uma mensagem. Não me lembro mais quem foi que enviou. Desconheço a autoria, mas adorei! Fica a dúvida sobre o que é mais divertido: a ideia em si, a reação do maestro e dos músicos pessoas ou o desempenho do “solista”…

Divirtam-se!!!