Ecos do passado II

Não me lembro a origem deste texto. Peno que foi preparação para uma monografia de final de semestre, durante o mestrado. Talvez para a disciplina “Teoria da narrativa”, sob a batuta de minha orientadora: Margarida de Aguiar Patriota. O texto foi escrito à cause do impacto do filme O nome da rosa, depois da leitura do romance homônimo.

A cozinha, a capela, a biblioteca: um elogio à Teoria da Literatura

Conta o folclore, que em reuniões de postulantes à vida religiosa, para identificar a que ordem religiosa pertence determinada casa de formação, bastaria ver onde a luz da tal casa está acesa. Assim, se na capela, a casa seria de beneditinos; se na biblioteca, a casa seria ou de jesuítas ou de dominicanos; se na cozinha, seria, fatalmente, de franciscanos.

A presença do poder da Igreja em suas mais variadas formas e acepções pode ser constatada no discurso literário (ficcional, mais especificamente) do Ocidente, em sua história evolutiva. Desta forma, a iro­nia e o humor com que tais ou quais atitudes dos grupos formadores desta casta podem ser tratados, acaba por conferir certa “dramaticidade” à produção literária que se envolve nas malhas, hoje, vaticanas. Em nome da rosa, Umberto Eco nos apresenta um painel interessantíssimo dessas relações, para gáudio do autor, semióticas. Crimes são cometidos numa abadia beneditina. Um frade franciscano é chamado para desvendá-los – enquanto seus confrades estão reunidos para outros, fins, na mesma, abadia – até que um dominicano chega para envolver toda a trama nas malhas da letra inquisitória. Nada demais, não fosse a profusão de sinais fortemente evidenciadores de intenções muito mais amplas e profundas que a própria realização literária – estética e semiótica poderiam ser outros epítetos tranquilamente acrescentadas – da obra ficcional pretendida. Assim, não é à toa que o monge responsável pela biblioteca da aba­dia/cenário é cego e se chama “Jorge de Burgos”. Coincidentemente, todos os mortos ousaram se aproximar da chave de um enigma que esse monge teria ocultado em “sua” biblioteca. Sintomaticamente, a biblioteca acaba ardendo em chamas: uma alegoria do inferno…

Um outro ponto a considerar diz respeito ao noviço beneditino, auxiliar de Guilherme, cujo nome é “Adso”. Quem não se lembraria de Sherlock Holmes? Toda a sua astúcia não foi suficiente para fazê-lo perceber o pecado contra a humildade – carisma fulcral da ordem franciscana – Guilherme é franciscano, lógico. Pecado cometido repetidamente, intensamente a cada passo dado rumo ã solução do “enigma assassino”. Por último, chega Bernardo Gui, o dominicano. Ele chega com a força e o poder do fogo da Inquisição, “paradoxalmente”, sua grande arma é a palavra. Por intermédio dela, o dominicano interfere na ordem dos fatos e envolve três pessoas, que não articulam discursos completos no corpo da narrativa, nas chamas da Inquisição.

Estes três tópicos são aqui considerados por se relacionarem diretamente com os três pilares da trama “romanesca” de O nome da rosa. Dom Abade e as vítimas demonstram a prudência, o equilíbrio e o senso de “segredo” peculiares à família de São Bento. Os franciscanos que se encon­tram para discutir a pobreza de Jesus se assustam com a vaidade e o sen­so prático de Guilherme, um “anátema”: ele peca pelo excesso de vaidade. Bernardo Gui dirige o tribunal da Inquisição que se instala como forma de demonstrar o poder da Igreja de Roma sobre as “questões terrenas”. Vale lembrar que o senso pedagógico e a palavra (por extensão semântica) marcam o carisma da intelectualidade do batalhão de Santo Inácio de Loyola.

Isto traduzir-se-ia como vulgaridade de leitura, ingenuidade, não fosse a articulação ficcional que estabelece um sentido logico, “racional” para a obra, enquanto narrativa. Pode-se dizer que se trata de uma obra que “celebra” o gênero “romance policial”. Há uma série de assassinatos. Coincidentemente ou não, os primeiros a morrer são jovens, e a idade das vítimas vai aumentando na medida em que o suposto volume sobre a Comédia, escrito por Aristó­teles – uma contrapartida, complementar, à Poética –, vai sendo colocado como pomo da discórdia instaurada na abadia. A homenagem ao argentino Jorge Luis Borges e sua Biblioteca de Babel é inequívoca. A sequência do incêndio evoca o dogma do inferno e os primeiros versículos do Eclesiástico, simultaneamente.

É interessante notar como todos os elementos, que articulam uma outra leitura para o romance de Umberto Eco estão à vista. Esta presença evidente, apesar de não destacada, pode ser usada para a estruturação de um outro discurso (ou poderiam ser outros…) que perpassa subliminarmente o próprio texto. Há um livro interdito, sobre o qual pouco se sabe e muito se sus­peita. Existe uma pessoa que o encontra e que guarda sob sete chaves o enigma que o envolve e que é responsável pela trama “macabra” do romance. Não há assassino! O livro é quem mata aqueles que dele se aproximam. A beleza, a juventude, a magnanimidade, a inteligência, a humildade, a prolixidade são, todos, elementos de uma mesma estrutura: a vaidade. Esta desfaz-se como fogo…

nome da rosa descreve um roteiro que aparentemente vai dar em lugar algum – ou poderia ser, vai dar em todos os lugares. Todas as in­ferências podem encontrar pontos-de articulação suficientemente consistentes. A busca do infinito nasce com o gênero humano e sua racionalidade busca engendrar caminhos que tentem encontrar a saída para os embates  que se organizam. Teologicamente, haveria muito mais que discutir pois as três famílias religiosas se dissolvem em seus carismas semioticamente caricaturizados no bojo do romance. Haja vista as citações em latim, que são para­fraseadas no texto, a cada momento. Não é à toa que o livro tem uma divisão em capítulos que reproduz as “horas litúrgicas”, prática institucional dos mosteiros e, neste caso específico, também, parecem lembrar a estruturação da própria Divina Comedia, de Dante.

Do ponto de vista narratológico, a semiotização do romance, enquanto discurso urdido, promete-se tão rica que qualquer comentário tomaria o espaço de um ensaio. Basta lembrar, por exemplo, e mais uma vez, a profusão de alegorias construídas no correr do texto e a narração, quase gêmea, dos clássicos policiais, tão repetidos e reaproveitados. Neste ponto, abrir-se-ia outro capítulo, pois teríamos que tocar em duas práticas bastante valorizadas e utilizadas, até, pelo próprio romance: a intertextualidade e a paródia. Algo que caminha para o caráter de pastiche, que marcaria o espírito pós-moderno que, insidiosa e capciosamente vai orientando a narrativa enquanto discurso, como qualificado no início deste parágrafo.

Levantaríamos, se fosse possível, uma série longa de dados que dariam consistência à afirmação capital, pretendida por este texto; a leitura de O nome da rosa oferece a oportunidade competente para experimentarmos nossa capacidade crítica enquanto teóricos da Literatura. Em outras palavras, não seria exagerado (e completamos: talvez, mesmo, nada original) dizer que o romance desenvolve de maneira exemplar a Teoria da Literatura que o Ocidente tanto preza em valorizar, estudar, compreender e experimentar. A busca de um arquitexto, que daria a chave final para todas as equações narrativas – que se propuseram depois da Poética de Aristóteles. Este arquitexto acaba queimado na ficção de Umberto Eco. No filme, a sequência final do incêndio, quando Guilherme sai da biblioteca chamuscado, deixando cair do hábito ratos e livros, é muitíssimo significativa. Este arquitexto, enquanto solução, é a própria utopia da Literatura. É a tentativa de impressão de um desejo, 0 próprio livro faz isso…

Referências bibliográficas

GENETTE, Gerard. Introdução ao arquitexto. Tradução de Cabral Mar­tins. Lisboa, Vega, s.d. Serie Universidade.

LIMA, Luiz Costa. O fingidor e o censor: no ancien regi­me, no iluminismo e hoje. Rio de Janeiro, Forense Universitária, 1988.

SANTIAGO, Silviano. O narrador pós-moderno. In: Nas malhas da letra. São Paulo, Companhia das Letras, 1989, pp. 38-52.

Delicadeza

Há quem diga que filmes baseados em livros desmerecem os próprios livros. Há os que preferem assim. Há aqueles que afirmam que o filme supera o livro, e vice-versa. Há e tudo, para todos os gostos, de todos os sabores e cores e… e… e… O fato que persiste: pode-se gostar de um ou de outro, dos dois, de nenhum dos dois. ai de cada um.

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Parei de escrever ontem para ir ao cinema. Fui ver “Hebe: a estrela do Brasil”. Comovente. Gostei. A atuação de Andreia Beltrão é mais que convincente. Como o filme, comovente. Como o comum dos mortais, a arraia miúda, não conheceu a intimidade da Hebe, fica difícil falar em coerência, em justiça, em verdade. Claro está que quem a conheceu, suponho, deve ter dado suporte para a produção do roteiro e para a direção do filme, assim como para as demais personagens da vida da apresentadora que comparecem à narrativa fílmica. Produção correta, imagino, do ponto de vista técnico. Mas esta nota serva apenas para justificar a interrupção do raciocínio começado ontem, que não vai ser retomado. Ou por outra, vai ser retomado em sua perspectiva, que é a do cinema, de um filme. É sobre outro filme que desejava falar ontem e vou continuar falando hoje, mas não o da Hebe. O filme é Call me by your name, que, em Pindorama, recebeu o título “Me chame pelo seu nome” (tradução literal do original). A história de Elio e Oliver. Tenho a dizer que um dos primorosos detalhes do filme é a sua fotografia. As locações, toas na Itália, eu diria, na Itália profunda, são, de fato primorosas, para não dizer soberbas. Certo desconto há de ser dado à minha assertiva, pelo fato de seu eu um admirador inconteste da terra de Dante e de Umberto Eco. Vá lá, as locações são belíssimas. De grau idêntico é a trilha sonora. De uma delicadeza contundente, acentuando as nuances narrativas de forma mais que coesa e colorida. Um primor também. O mesmo eu não diria da coesão interna da narrativa. Mas isso sou eu. Vamos lá! O primeiro terço do filme passa sem maiores problemas. Acredito que a coesão se perca no segundo terço, quando a trama já anunciada se faz explícita para a plateia, com a inexplicável ajuda das personagens que, neste paço, agem como se tudo fora como a natureza determinara, numa placidez, numa tranquilidade, numa certeza, que em nada condizem com o tormento pelo qual passa o jovem Elio. É muito estranha a reação das demais personagens, em face do drama do adolescente. Este, por sua vez, não vai se construindo de maneira consistente ou, como mencionei, coerente, coesa. De repente, já está. Bum. Nada mais a explicar. Vejam o filme e me digam se estou exagerando. Este alerta vai por conta de minha chatice. Paradoxalmente, o último terço do filme é de uma delicadeza, de uma singeleza, tão coeso e coerente que chega a doer. Em nada se parece com certo blasé que parece pairar nos passos anteriores do filme. Digo isso por conta do discurso do pai de Elio, já quase ao final da película, quando, em tom confessional aconselha o filho a não fugir da experiência da dor pela qual está passando. Ela, diz o pai, é parte irrecorrível da experiência humana, no que diz respeito à vivências afetivas que constroem o caráter e a personalidade de um homem. Um discurso magistral, dito e apresentado de maneira contundente. As lágrimas de Elio o confirmam. Daí para o fim da história é um pulo. Vale a pena conferir.

Lembranças

Nos idos de 2006, quando eu ainda acreditava haver qualquer possibilidade de vitória sobre o empuxo das forças do mal que me arrastavam na corrente de desilusão e ceticismo, propus projeto de pesquisa, no âmbito de um programa de iniciação científica. A proposta foi aprovada. Um estudante ganhou uma bolsa e desenvolveu a pesquisa de maneira brilhante, galharda, exemplar. Alguns anos depois o texto que o estudante escreve como resultado da pesquisa foi, com minha interferência e colaboração, publicado numa revista catalã de estudos culturais. O estudante, hoje, é professor num instituto federal de educação, em Florianópolis. Não sei dizer quantas vezes o artigo foi consultado e/ou citado. Em tempos de choro e ranger de dentes sobre contingenciamento de bolsas de pesquisas, me deu vontade de publicar o “referencial teórico” do citado como um de meus humildes e consistentes sucessos. O projeto leva o seguinte título: “O ROMANCE PORTUGUÊS E A HISTÓRIA – A NARRATIVA DE EÇA DE QUEIROZ E ALMEIDA FARIA”.

Como a proposta de estudo investe na análise das relações entre Literatura e História a partir da leitura dos romances A ilustre casa de Ramires, de Eça de Queiroz e Cavaleiro andante, de Almeida Faria, nesse quarto tópico discorremos sobre os estudos que fundamentarão teoricamente a perspectiva de investigação adotada. É na convergência das teorias dos autores mencionados, na sequência, que iremos procurar s subsídios teóricos para um correto e coerente desenvolvimento da pesquisa. Será possível constatar que a revisão bibliográfica do projeto envolve dois conjuntos de estudos indispensáveis para uma investigação como a que propomos. Um primeiro conjunto corresponde às análises teórico-críticas que sondaram as linhas de força da ficção dos autores selecionados. Um segundo conjunto é composto de textos teóricos que examinam as relações entre a Literatura e a História.

No que diz respeito ao primeiro conjunto de estudos, a consideração da fortuna crítica sobre os autores leva-nos a mencionar que sua produção narrativa já foi o alvo de algumas investigações, as quais se configuram hoje como obrigatórias para investigações que se debruçam sobre a obra em questão. Uma das reflexões mais atualizadas sobre a narrativa de Almeida Faria, por exemplo, consiste na de Carlos Reis[1], que destaca como decisiva a contribuição a obra do autor de Cavaleiro andante para a sedimentação e a afirmação criativa da narrativa portuguesa da contemporaneidade. Esse contributo traz consigo fundamentais inovações temáticas, ideológicas e formais que dominarão a ficção lusitana do último quartel do século XX. Tal contribuição estabelece um diálogo com a extensa fortuna crítica da obra do escritor realista, o que, antes de mais nada, instiga-nos a uma abordagem de igual envergadura, dado que esta não se encontra com frequência. Em outras palavras, depara-se com uma certa lacuna nos estudos queirosianos, quando se trata da aproximação de sua obra com o referencial aqui adotado. Tal fato faz-se suficiente para respaldar a presente proposta de investigação comparativa.

Em conformidade com Reis, tais inovações operacionalizadas pela obra de Almeida Faria são identificadas a partir dos seguintes elementos: a tendência para rearticular, de forma paródica e provocatória, gêneros narrativos recuperados do passado ou de zonas antes entendidas como subliterárias; a enunciação de discursos de índole assumidamente intertextual, como processo de incorporação na narrativa de outros textos literários e não literários; a elaboração de engenhosas construções metadiscursivas e metaficcionais; a concepção da narrativa como um campo propício à problematização e mesmo à deslegitimação de narrativas fundadoras ou identitárias; a reescrita da história sob o crivo ficcional.[2] Na sequência da abordagem de Reis sobre a obra de Almeida Faria, cumpre destacar a reflexão de Vergílio Ferreira, que, no prefácio ao romance Rumor Branco (1962), sublinha a ficção de Almeida Faria como uma das mais significativas do romance português contemporâneo por “protagonizar uma consequente e vistosa derrogação da doxa literária e ideológica que o Neorrealismo impusera”. Nesse “ensaio-prefácio”, Vergílio Ferreira saudava a emancipação promovida pela obra de Faria como uma escrita liberta do estatuto e das imposições do Neorrealismo.[3]

Quanto a Eça de Queiroz, não se pode deixar de dizer que sua contribuição ficcional funciona como uma espécie de “base” para as elucubrações realizadas pela narrativa de Almeida Faria. Com isso não estamos querendo dizer que o romancista do século XIX oferece ao do século XX os elementos de que este se utiliza para realizar sua “leitura do mundo”.  Ao contrário, no painel que intenta construir da sociedade burguesa em Portugal, Eça de Queiroz, ainda que este não tenha sido seu objetivo precípuo – não se pode nunca negar e/ou afirmar absolutamente nada sobre este assunto – acaba por tocar em questões relevantes para a articulação do binômio Literatura e História, nos termos em que este aqui se apresenta.

Vergílio Ferreira constata, não só a ligação direta de Almeida Faria a uns anos 60 muito fecundos em termos de rupturas estéticas, mas antecipa uma renovação temática e formal que os romances do autor, reunidos sob a denominação de Tetralogia lusitana, incorporarão antes e depois daquela fronteira histórica que o ano de 1974 configura. Acerca disso, é oportuno mencionar o estudo de Cristina Robalo Oliveira, no qual a autora assevera que a Tetralogia lusitana é, em rigor, não apenas uma indagação ficcional sobre a história portuguesa recente, mas também, a sua maneira, um premente desafio a essa História.[4]

Com o romance A Paixão (1965), Almeida Faria encetou uma vasta parábola de alcance duplamente coletivo, no plano familiar e nacional, articulada com o pano de fundo da Semana Santa em decurso. Em 1965, o romancista que inicia essa parábola parecia adivinhar o momento de ressurreição que havia de vir, depois da libertação, com os Cravos de 1974. Só, assim, “assumia pleno sentido um projeto que, sem essa libertação, ficaria bloqueado”.[5] Se o segundo romance do ciclo, Cortes (1978) era o estágio intervalar que antecedia a ressurreição/revolução expressa em Lusitânia (1980), o romance Cavaleiro andante (1983) vem a ser, como aponta Clara Ferreira Alves, “esse momento de celebração da vida nova, já inclinada, contudo por uma deriva pós-revolucionária e pós-colonial”.[6] Esse romance “conclui o ciclo da família e o da História, desembocando no 25 de novembro de 1975, em que a Revolução atinge um clímax de ópera bufa”.[7]

Na ficção de Eça de Queiroz, para ratificar oque aqui vem sendo explicitado, destacam-se Os maias, importante e monumental romance que apresenta um quadro da vida lisboeta no fim de século. Tal proposta parece ter sido parte de um projeto inacabado, infelizmente. Não se trata, evidentemente, de um romance histórico. No entanto, ao fazer o que deseja, o painel pintado pelo autor realista acaba por tocar em questões relevantes da História de seu país, temperadas com a “pena da galhofa”, sem deixar de deixar abertas certas brechas interpretativas para a relação que se procura analisar aqui.

O segundo conjunto de estudos que integra esta revisão bibliográfica consiste de reflexões sobre a interlocução entre a Literatura e a História. Em função disso, não pode deixar de lado referências teóricas fundamentais como os estudos elaborados por Georges Duby, Hayden White, Paul Ricouer, Peter Burke, Walter Benjamin, Linda Hutcheon, Júlia Kristeva e Mikhail Bakhtin. Cumpre observar, com base nesses autores que, nas últimas décadas, a História de cunho positivista teve seus alicerces senão derrubados, ao menos, abalados pela irrupção da “Nouvelle Histoire”. Reconhece-se que a História, enquanto disciplina, é uma indagação sobre a verdade dos fatos humanos. No entanto, o resultado dessa atividade reflexiva é sempre parcial, comprometido com o sujeito enunciador do discurso, com o tempo do discurso, com o público ao qual o discurso se destina.[8] A ficção, por sua vez, consiste também numa busca dessa mesma verdade, desse mesmo conhecimento sobre a experiência do ser humano com o seu passado. A Literatura vale-se de uma visão mágica, criativa, imaginativa e simbólica, diametralmente oposta à pretensa visão clara, unívoca e objetiva da Ciência.

Ora, atualmente, ao tratarmos das relações entre Literatura e História, não podemos mais nos ater àquelas convicções que, além de separar, opõem Ciência e Ficção. A História Nova, a Nouvelle Histoire, mostrou que a atitude de ressurreição integral do passado é vã, pois existem lacunas, fendas e silêncios que são irrecuperáveis. Por causa disso, o discurso histórico nasce de um trabalho com fontes selecionadas em detrimento de outras. Isso implica a presença de um sujeito comprometido com sua carga ideológica pessoal e com a carga ideológica do seu tempo. Segundo Georges Duby[9], em História, tudo é discurso sobre algo que aconteceu ou que acontece, o qual é elaborado através de uma narração que, imaginariamente, no momento presente, lança-se à tentativa de resgatar e recompor o real do tempo passado. O discurso historiográfico nasce de um sonho apoiado em esteios conscientes, em marcas deixadas sobre o passado. As lacunas e silêncios são preenchidos pela matéria onírica.

O discurso historiográfico é um sonho condicionado a esteios e marcas deixadas sobre o passado. Por essa razão, toda a História é contemporânea. As lacunas e silêncios existentes são preenchidos pela fantasia e pela imaginação. De acordo com Duby, o trabalho de pesquisa e investigação do passado, levado a efeito pela historiografia atual, postula o encontro com o literário, com o ficcional. Dessa forma, o resgate e a representação das formas assumidas pela vida humana no passado opõem-se à reconstrução objetiva, pois pressupõem o lirismo, o sonho, a fantasia, a criatividade e a imaginação, caracteres essenciais do fazer ficcional. Refletindo sobre a narrativa historiográfica, Duby contempla, nessa estrutura discursiva, além da reabilitação do estilo o desejo subjacente de contar uma boa História.[10] As considerações de Duby sintomatizam o debate contemporâneo sobre a narratividade como princípio constitutivo da História e de sua conseqüente aproximação da narrativa literária. Vislumbra-se, nesse debate, não só a convicção de que a Historiografia, enquanto processo discursivo, procura não só resgatar e reconstituir o real dos tempos passados, mas, sobretudo, como menciona Paul Ricoeur, a “capacidade desdobrada” da Literatura de não só registrar e ficcionalizar os fatos históricos concernentes à vida dos povos, mas também de, na plenitude de sua potencialidade ficcional, “fazer História”.[11]

A defesa de um diálogo entre a Literatura e a História tem em Hayden White um dos seus principais expoentes atuais.[12] Ao incursionar pelo terreno da Historiografia e da Literatura Comparada, o teórico norte-americano sublinha a circunscrição do discurso histórico como uma prática eminentemente narrativa, portanto, literária. White reflete sobre a necessidade de expansão das fronteiras da História, no que concerne às suas definições e métodos de investigação e escrita, insistindo que a tendência da História tem sido a de manter-se situada no âmbito dos paradigmas literários e científicos do século XIX. A Literatura e a Ciência ultrapassaram há muito tempo essa fase. Por essa razão, White convida aquela Historiografia, atrelada às idéias do século XIX, a abrir-se aos procedimentos críticos que ocasionaram transformações no âmbito da Literatura, da Arte e da Ciência. Segundo White, em oposição aos ficcionistas, os historiadores desconsideraram o elemento imaginário de suas obras, acreditando que conseguiram transcender e se desvincular da Ficção pelo estabelecimento de rigorosas linhas de pesquisa e investigação para a História, enquanto disciplina. Entretanto, apesar desses limites, conscientes ou não, todas as descrições dos acontecimentos históricos fundamentam-se em narrativas que revelam a coerência, a integridade, a plenitude e a inteireza de uma imagem de vida que é, e só pode ser, imaginária. A reflexão de White descortina que a reflexão acerca das relações entre Literatura e História deve considerar o fato de as duas serem formas narrativas que têm como instrumento comum a linguagem.

Assim sendo, merece destaque, na sequência de posturas teóricas, a reflexão de Walter Benjamin sobre a narração, a qual vislumbra a Literatura e a História como vizinhas de longa data, por habitarem o solo comum e fértil do gênero narrativo.[13] Benjamin lança mão da narrativa literária para atribuir à História uma vocação narrativa, apostando na caminhada comum empreendida pelos dois discursos. A reflexão benjaminiana indica a disposição de redefinir o papel da narrativa no âmbito da Ficção e da História. A referência à arte de contar está a serviço, no pensamento benjaminiano, da apologia do historiador como um cronista, cujo artefato de sua arte é o relato. Benjamin preconiza, nos seus textos sobre a narração e o discurso da História, uma revitalização da dimensão inventiva, nomeadora da linguagem e o retorno a uma criatividade original que ele identifica no narrador tradicional, cuja expressão declina na Modernidade. A reflexão de Benjamim acerca da extinção da arte de narrar aponta para o desejo e a necessidade de uma nova narratividade tanto na Literatura quanto no âmbito da História.

A questão sobre as relações entre a Literatura e a História torna inevitável a reflexão sobre a intertextualidade, como princípio fundamental dessa interlocução entre os discursos da Literatura e da História. Acerca da intertextualidade, nos valemos do pensamento de Linda Hutcheon, nas reflexões de Julia Kristeva e de Mikhail Bakhtin. Com base nesses teóricos, a intertextualidade é contemplada como o princípio basilar das convergências e distanciamentos entre Literatura e História. Assim, a intertextualidade assinala que os meios de expressão e os mecanismos organizadores da narrativa ficcional são os mesmos que instrumentalizam a narrativa histórica. Por se constituírem como constructos linguísticos, História e Ficção apresentam-se como gêneros permeáveis, convencionalizados em suas formas narrativas.


[1] REIS, Carlos. História crítica da literatura portuguesa: Do neo-realismo ao Post-modernismo. Lisboa: Verbo, 2006, v.9, p.287-357. O post-modernismo e a ficção portuguesa do fim do século XX.

[2] Idem, p.296.

[3] FERREIRA, Vergílio. Prefácio. In: FARIA, Almeida. Rumor branco. Lisboa: Portugália Editora, 1962, p. 5-11.

[4] OLIVEIRA, Cristina Robalo Cordeiro. A paixão de Almeida Faria. Coimbra: Instituto Nacional de Investigação Científica, 1980.

[5] AZEVEDO FILHO, Leodegário de. Uma visão brasileira da literatura portuguesa. Coimbra: Almedina, 1973, p.5-7. Nota prévia ao romance de Almeida Faria.  

[6] ALVES, Clara Ferreira. A propósito de Cavaleiro andante. In: JL-Jornal de Letras, Artes e Idéias. Lisboa, n.20, p.17, 7 de junho de 1983.

[7] Cf. PIWNIK, Marie-Hélène (org.) La littérature portugaise: regards sur deux fins de siècle (XIXe-XXe). Bordeaux: Maison des Pays Ibériques, 1996, p.121.

[8] BURKE, Peter. A escrita da história. São Paulo: Editora da UNESP, 1992, p.37. Ainda: ___. A Escola dos Annales 1929-1989 – A Revolução Francesa da Historiografia. 2 ed. São Paulo: Editora da UNESP, 1992.

[9] DUBY, Georges; LARDREAU, Guy. Diálogos sobre a Nova História. Lisboa: Dom Quixote, 1989, p.41.

[10] Idem, p.10.

[11] Cf. RICOEUR, Paul. Tempo e narrativa. Campinas, SP: Papirus, 1997, v.3.

[12] Cf. WHITE, Hayden. Trópicos do discurso: ensaios sobre a crítica da cultura. São Paulo: EDUSP, 1994. Ainda:___. Meta-História: a imaginação histórica do século XIX. São Paulo: EDUSP, 1995.

[13] Cf. BENJAMIN, Walter. Obras escolhidas I – Magia e técnica – Arte e Política. 7 ed. São Paulo: Brasiliense, 1994. Ainda: ___. Obras escolhidas II – Rua de mão única. 4 ed. São Paulo: Brasiliense, 1994. ___. Obras escolhidas III – Charles Baudelaire – Um lírico no auge do capitalismo. São Paulo: Brasiliense, 1989.

Rever

Endorinologista e Metabologista. Eu o chamo de endocrinologista de amplo espectro. É o médico com quem me faço acompanhar clinicamente agora. A esta altura, eu precisaria de um geriatra. Não vou procurar um geriatra desconhecido, que não tem a mínima ideia de minha histórica e de meu histórico familiar para começar do zero. Por isso escolhi ele: o endocrinologista de amplo espectro. Esse epíteto se deve ao fato de que ele não se prende aos laços da endocrinologia e da metabologia para clinicar e acompanhar seus pacientes. Ele atenta para a cardiologia, a angiologia e até a pneumologia. Ele deu uma sobrevida mais alongada para mamãe, cuidou de papai nos últimos anos de sua vida e fez em excelente trabalho com meu irmão. Por isso, eu o escolhi. Ele conhece meu histórico familiar e tem uma visão mais holística da medicina. Gosto dele. Confio nele. E por isso causou-me espanto, positivo de qualquer maneira, o comentário que fez hoje. Falando com ele sobre as últimas leituras que tenho feito, acresci que gostaria de escrever memórias, ainda que minha vida seja de interesse de muito pouca gente, talvez só de meu interesse mesmo. Ele disse para eu escrever a biografias de meus pais. Uma ideia a se pensar, uma ideia instigante, ainda que eu saiba, de antemão, que muitas fontes já se foram. Talvez eu pudesse escrever uma biografia ficcionalizada. O leitor ficaria em dúvida sobre o que é fato e o que é ficção. Tudo isso para chegar em quatro títulos de livros: Lições de abismo, O nariz do morto, O anel e O livro de Antônio. O professor google vai dizer que ambos são escritores católicos, nomes de destaque no pensamento católico brasileiro. O mesmo professor há de classificar o primeiro título como um romance e os demais como livros de memórias. Ele não está de todo errado. No entanto, o que me faz escrever sobre estes quatro livros – o primeiro de autoria de Gustavo Corção e os demais, de autoria de Antônio Caros Villaça – não vão ao encontro de uma teoria de gêneros narrativos. Longe disso. Já não me sinto obrigado a justificar este tipo de abordagem ou embasamento para proferir opinião, ou impressão de leitura. Já pressinto narizes torcidos, mas vou deixá-los de lado. Os quatro livros são quatro peças IM-PRES-SIO-NAN-TES descrita. E de escrita literária. Em que pese o fato de os quatro poderem ser articulados a um fio autobiográfico inegável – eu não vejo por que esse tópico ainda causa tanta objeção! –, nada nele basta para reduzir o monumento de escrita literária que constroem. Bom é lembrar que nenhum dos autores frequentou as famigeradas oficinas e escrita criativa – como se essa coisa pudesse ser capaz de formar talentos… ninguém me demove da certeza de que o talento é nato, congênito, “essencial”, o que se pode é aperfeiçoá-lo, burilar suas restas, fazê-lo mais consistente – nem ganhou prêmio literários patrocinados por editoras e “governos” com o fim de “abastecer o mercado livreiro”. Jamais! ambos foram ES-CRI-TO-RES. Coisa raríssima hoje em dia. Por força de consequência, os dois deveriam ser estudados, lidos e relidos, incensados como reais e inescapáveis bastiões da tão empobrecida Literatura Brasileira. O livro de Corão é um soco no estômago, daquele que impossibilitam qualquer reação que não seja a de total e absoluta reverência à sua contundência inegável. O quase solilóquio de um homem em situação limite, faz com que o leitor faça deslizar seu olhar pelas linhas do texto enquanto se arrepia com as imagens, o caráter direto e cru das assertivas, a melancolia que envolve algumas observações e um forte espírito cético que a tudo aponta com a varinha da quase insensatez. Um texto “poético” por excelência que faz de Gustavo Corção um escritor, como disse acima, inescapável. O fato de ser “arrolado” no panteão dos escritores católicos não diminui em nada a preciosidade de sua escrita. Texto denso, pesado, bonito, bem escrito. Um exemplo do que a Língua Portuguesa pode oferecer em ternos de recursos sintáticos e semânticos para articular um discurso que está anos luz à frente de muito do que se tem produzido com o mesmo código, o que é triste. Não mais triste que constatar que o autor foi, de fato, abandonado numa esquina qualquer da História da Literatura Brasileira. Não muito distante dele, está Antônio Calos Villaça, que tive o prazer de conhecer pessoalmente em duas ocasiões. Dele tenho duas cartas pessoais e uma memória que vai ficar guardada no cofre das preciosidades afetivas que a existência proporciona assim, gratuitamente. Um andar curtinho, ritmado pela enorme quantidade de banha que adiposamente se espalhava no traje preto, constante de sua figura. O arremate ficava por conta da imensa barba branca – barba de monge, que foi – que emoldurava um rosto quadrado iluminado por dois olhinhos pequenos e absurdamente penetrantes. Uma mente mais que admirável. Dele, os três outros títulos mencionados. Mesclando lembranças de seu passado sofrido e um tanto agressivo, passeia por longas referências a autores e livros que compulsou e, em muitos casos, com quem conviveu seja por períodos longos, seja fortuitamente. Um homem de biblioteca e de livraria, de capela e de restaurante. Da solidão dos quartos e dos caminhos abertos da natureza que apontavam para a imensa criação divina, como soe acontecer no pensamento católico. Os livros do Villaça são, como o de Corção, um poema bem-acabado. Escrito em ritmo personalíssimo que envolve o leitor em bruma de acuidade penetrante, de sutil ironia, de desvelamento melancólico e de uma verdade incontestável: a fugacidade da vida e sua absoluta relatividade. Villaça é outro nome esquecido por essas esquinas tão “festeiras”, tão de “feiras” e de festivais… Uma pena.

(Re)leituras (?)

Li (Reli? Já não sei…) um livro do Carlos de Oliveira, autor português, chamado Casa na duna. Tenho quase absoluta certeza de que foi releitura. Identifiquei logo um procedimento narrativo sui generis sobre o qual também tenho quase absoluta certeza de já ter comentado. Trata-se de uma narrativa que não se desenvolve a partir do encadeamento de episódios relatados por um narrador que parece a tudo organizar, como eminência parda da ficção que se desdobra sob os olhos de um leitor não tão entusiasmado assim. Se não me engano, no comentário anterior – se é que de fato o fiz, quando da pressuposta primeira leitura do romance – eu dizia que o livro conta uma história que não acontece. A voz narrativa, responsável pelo relato que se lê vai apresentando personagens e situações, criando um enredo que se enovela numa mudança sutil e subliminar da temporalidade. Os índices de marcação temporal praticamente inexistem, apesar da vinculação da obra desse autor ao neorrealismo português. Li, por aí, algumas linhas que me soaram interessantes de se considerar: “Embora não seja referenciado no romance, o tempo, naquele “mundo de realidade enganosamente suspensa (…), anterior à Revolução Industrial dois séculos depois dela”, pode ser facilmente localizado nas primeiras décadas do século XX, através das referências à construção de estradas e a uma incipiente industrialização, demonstrando uma forte resistência ao progresso. Essa atemporalidade pode indicar uma realidade preservada das transformações sociais e, conseqüentemente, a de um país que historicamente vivia um tempo de isolamento e preservava modelos ancestrais de uma realidade sócio-econômica, definida pelo historiador Fernando Rosas como “um atraso econômico semifeudal.” (https://www.maxwell.vrac.puc-rio.br/16081/16081_5.PDF) Mantive o texto como o encontrei na rede. Não sei dizer se foi escrito depois do famigerado acordo… Voltando à vaca fria, Casa na duna responde ao que preconiza o estuário neorrealista na/da Literatura Portuguesa, muito menos agudo, eu diria, que um Alves Redol ou um Manuel da Fonseca. Não faço referência a Levantado do chão, do José Saramago, por não gostar dele (Oh contradição… acabei de fazê-la!). Pois bem. Para além desta marca personalíssima no/do romance de Carlos de Oliveira, há outra, a meu ver, mais instigante: o vocabulário. Para quem gosta de descobrir as vicissitudes culturais uma nação a partir e através de sua língua, este livro é um achado. O primeiro capítulo, que emoldura o cenário narrativo, em que vai transcorrer a ascensão e a glória de uma tradicional família portuguesa, é pura poesia. Em que pese a possível ignorância vocabular de um leitor que se ponha a ler este romance, a beleza da linguagem de Carlos de Oliveira, neste romance, sobretudo em seu capítulo inicial, enseja uma lição de estética literária a não deixar lacunas… Vale o convite!

PS: este texto saiu de repente, por pura preguiça de ter que enfrentar narizes torcidos e vociferações mefistofáusticas (este último adjetivo não de minha autoria…), se fosse comentar o exagero de hoje de manhã no Rio de Janeiro…

Três desejos

Três são as partes do dia. Três, as “idades” do homem. Em três dias, o filho de Deus morreu e ressuscitou. Por três vezes, Pedro negou Cristo, como previsto, e o galo cantou outras três vezes para tanto. Três são os períodos do tempo. Três é o número mínimo para formar uma família, por tradição. Três é considerado o número do equilíbrio perfeito. Por fim, três são os pedidos concedidos pelo gênio da lâmpada, conforma a historieta que animou a fantasia de muitos daqueles que já ultrapassaram as quatro décadas de existência. Essa fábula teve versão tele cinematográfica, também na infância do mesmo grupo das quatro décadas. Era engraçado. Uma geniazinha loura, espevitada, de olhos azulíssimos e muito destrambelhada fazia de tudo para o bem-estar de seu “amo”. Ela o amava e só o queria feliz e satisfeito. No entanto, tudo o que ela fazia sempre passava por uma tramoia alheia, um percalço, uma dificuldade, um engano ou uma “armação”. Ao fim e ao cabo, o filme que passava regularmente na televisão cumpria a sua missão de difundir a ideia de um gênio mágico que realizava sonhos de quem encontrasse a “lâmpada” e a esfregasse. Há também muita piada sobre o tema. Minha preguiça me impede de fazer esforço para lembrar de alguma e aqui trazer… No entanto, esse introito serve para começar a falar de um livro que acabei de ler e que me agradou imenso. Mais um de meus comentários que visam tão somente isso: comentar, com acréscimo do convite para, quem quiser, ler. Um livro divertidíssimo e seriíssimo simultaneamente. Seu autor, um jovem professor de Literatura Portuguesa da/na Universidade do Porto, ele mesmo, português é um sujeito erudito, preparado, capaz, inteligente, talentoso e dono de um senso de humor – pelo menos, nas páginas deste livro – que não deixa o leitor abandonar suas páginas enquanto não cega ao final. Sim, já falei dele aqui. Sim, já li dele outros livros. Sim, conheci-o pessoalmente, por um rápido lapso de tempo, em Coimbra, numa tarde chuvosa e gelada da terra de Inês, posta em seu sossego para sempre… É ele, Pedro Eiras. O livro se chama Os três desejos de Octávio C.  Por isso a minha introdução sobre o número três. Calma! Eu não disse que ia ser original… mas enfim…! Uma narrativa entre hilariante e contundente sobre o desejo, não da ordem da sexualidade propriamente dita, mas do desejo, aquilo que não se tem e se quer ter, fazer, ver, pegar, etc., etc., etc. O protagonista, tem nome duplo “Octávio C.”. Sintomaticamente, diria eu, o segundo nome se esconde numa única letra “C”, a terceira do alfabeto. Oh… seria mais uma coincidência? Não se sabe muito bem quem é esse Octávio e isso, de fato, acaba por não ser o mais interessante no livro. Quem quer que seja ele, o fato que persiste é o de que ele tem que fazer três pedidos para realizar três desejos seus, instado que é por um gênio que lhe aparece em sonho – esta é uma maneira de “ler” as coisas ditas no relato narrativo. Obviamente, não vou dizer o que ele pede. Cabe ao leitor, se curioso for, buscar o livro e descobrir quais foram os três desejos do Octávio C. e o que é que acontece em função desses pedidos e da realização dos desejos dele. Posso adiantar que o protagonista aprende – e creio que cada leitor o acompanha nesta caminha pela caverna de um conhecimento inesperado – que o desejo, se expresso e, consequentemente realizado, quais quer que sejam os meios utilizados para tanto – sempre traz em si, não como consequência, mas como matéria constitutiva, as consequências. Estas, por natureza, imponderáveis. Logo, a lição aprendida leva a esta constatação: ao expressar seu desejo e querer vê-lo realizado, o sujeito não se apercebe que as consequências podem levá-lo, e aos demais participantes da raça humana, a vivenciar consequências inimagináveis, do ponto de vista do próprio desejo. Em outras palavras, por exemplo, se desejo que chova muito porque estou com muito calor, o excesso de chuva pode causar acidentes horrorosos em qualquer lugar do planeta. Não se trata de uma história sobre sinergia. O relato ficcional não se presta, neste caso, a exarar teoria de conspiração ou alarmismo apocalíptico de espécie vária. Nada disso. O texto de Pedro Eiras se debruça, com atenção e ironia (e isso é por conta da leitura que fiz do mesmo), sobre este ponto: o quão impossível é prever as consequências do pedido de realização de um desejo pessoal, próprio, íntimo e o quanto ele pode influenciar em situações, lugares, pessoas e circunstâncias absolutamente imponderáveis, imprevisíveis. Tudo isso instrumentalizado pela deliciosa prosa do jovem professor de Literatura Comparada. Tomara que vocês possam ler o livro, porque vale mesmo a pena.

Do Norte

Lembro-me, muito bem, daquela tarde. Dona Aglaêda começou a aula comentado da alegria de ter chegado em sua casa o volume da Plêiade, com as obras de Marcel Proust, au grand complet. Estava esfuziante. Comentou da alegria de ler o autor em sua língua original e da importância de ler, ler sempre, e mais. Ler. O curso versava sobre a Literatura Brasileira a partir de Guimarães Rosa, a partir de 56. Era uma versão personalíssima de Dona Aglaêda para o período da História da Literatura Brasileira, a partir de 1956. Pois bem. Dentre os livros, ela indicou uma obra que eu não consegui ler à altura. Não encontrei o volume nas livrarias de Brasília e não havia nenhum sebo virtual então. Anos depois comprei o dito livro. Acabei de lê-lo hoje. Comecei ontem e não consegui parar hoje. Fica uma constatação: existe uma versão amazonense do Grande sertão: veredas. Não se trata de apropriação. Não se trata de “obra baseada em…”. Não se trata de plágio ou cópia. O livro é originalíssimo e, ainda assim, penso eu, comparável ao monumento relato de Guimarães Rosa. O autor abusa de sintagmas nominais. Abusa com vontade. Com vontade e com estilo. O nome dele é Paulo Herban Maciel Jacob. O título do livro e Chuva branca. Em duas partes – a primeira sem título e a segunda, “Mãe-do-rio” (literalmente) – Paulo Jacob como é mais conhecido, apresenta a saga de Luis Chato pela Amazônia. A apresentação, nas orelhas do livro, fica por conta de Aguinaldo Silva. Ele destaca o quarto ugar conseguido pelo autor, na edição de 1967, do Prêmio Walmap. Um tempo em que os prêmios literários tinham “escritores” como jurados, escritores de verdade, como neste caso: Guimarães Rosa, Antonio Olinto e Jorge Amado. Imagina! A história não “conta” nada. Isso é o que “pega” no livro. O vocabulário que desnuda a cultura amazonense, as observações que remetem ao universo de Kafka – como quer o apresentador – e ao próprio Guimarães Rosa, como eu acredito, e o clima denso, abafado, úmido e pouco nítido, compõem uma narrativa sólida, pesada em sua matéria, leve em suas alegorias que fazem repensar sobre o real significado da existência, Da minha leitura, deduzo que um pouco do clima “terminal” de Lições de abismo, do Gustavo Corção, também encontra eco neste relato, a travessia de Luis Chato, pelas veredas úmidas e pastosas de uma “chuva branca” que a tudo enevoa, não deixa desvelar e mistura, num amálgama quase naturalista. De fato, a chuva, para além de sua materialidade natural, presente nas entrelinhas do texto de Paulo Jacob, é mais uma alegoria para aquilo que Kafka fez representar na metamorfose Gregor Samsa e que Guimarães Rosa colocou no longo causo narrado por Riobaldo. A travessia, no caso presente, é muito mais interna. Não que não o seja nos outros referentes que aqui eu trouxe. No entanto, o tratamento a que chamei de “naturalista” da matéria, faz do livro de Paulo Jacob exemplo único no quadro da Literatura Brasileira das décadas de 50 e 60 do século 20. Inexplicavelmente desconhecido, para não dizer marginalizado pela chamada “crítica universitária”. Claro está que isso, apenas no período de existência desta mesma crítica, o quê, proporcionalmente, durou pouquíssimo. O que é uma pena. Voltando ao que interessa. A leitura de Chuva branca faz-se suave, densa e sinuosa. Causa um prazer refinado na leitura da poesia que emana de sua miríade de sintagmas nominais, do relato de “ação” quase inexistente, na inteligência apurada da construção de impressões e situações narrativas que se presentam no bojo do relato. Paulo Jacob nasceu em 24 de fevereiro de 1921 e morreu em 7 de abril de 2004. Escreveu livros: Muralha verde, 1964, Andirá, 1965; Chuva branca, 1967; Dos ditos passados no acercador do Cassianã, 1969; Estirão do mundo, 1979; A noite cobria o rio caminhando, 1983; O gaiola tirante rumo do rio da borracha, 1987. Uma das poucas referências que encontrei sobre este escritor pode ser encontrada aqui: http://desembpaulojacob.blogspot.com/. A ideia de aproximar Paulo Jacob a Guimarães Rosa não é originalmente minha. Depois de constatar isso, por mim mesmo, no endereço acima, de um blogue, encontro a mesma afirmação remetida a Leila Miccolis. Como não quis escrever um “artigo científico – ainda estou a procurar o que isso significa exatamente no “mundo das letras” – fico por aqui. Tenho a sensação de que vou procurar os outros títulos do mesmo autor, para saborear sua língua sedutoramente poética por mais um tempo.