Início

O texto que segue pretende ser o início de um ensaio que desejo escrever sobre os livros de Bernardo Carvalho.

Ainda é viva a lembrança do momento exato em que víamos o mar, depois de quase dois dias inteiros de viagem. Deslumbramento. A estreada sabia levemente, serpenteando canaviais imensos e grandes plantações de abacaxi. Aqui e acolá, aglomerados de casas, algumas taperas, e crianças brincando à beira da estrada. Os verdes canaviais e o cheiro de abacaxi eram indescritíveis. Dois dias de viagem, às vezes, passando por Macaé, às vezes, por Itaperuna. Ambas no estado do Rio. Por um ou outro roteiro, o fusca azul de meu pai mais parecia a cápsula Apolo que foi à lua em 69. Lá, na praia, meus pais, tios e amigos reunidos depois do banho matinal de mar, olhavam, para o céu, a comemorar o primeiro passo do homem na lua. Entre copos de cerveja, batidas de limão, e peixe frito, falavam, riam, bebiam e comemoravam. Três dias antes de eu completar treze anos de idade, o homem pisou na lua por primeira vez. Nisso se acredita até hoje. Há quem coloque em dúvida. Era Marataízes-ES. A viagem era, mesmo, como a da espaçonave que chegou à lua. Um fusca azul e três meninos. A prancha de isopor sobre as pernas. No meio do caminho, servia de mesa para o lanche. Era impossível sair do carro. No porta-malas (na frente e em cima do carro) as malas com as roupas pessoais. No buraco, atrás do banco braseiro, utensílios de cozinha, travesseiros e outras coisas encaixadas, magicamente, no diminuto espaço livre. Ente as pernas de nós três (meus irmãos e eu) mais coisas encaixadas. Se saíssemos toda vez que papai parava para abastecer, tudo desmoronaria. Então só descíamos na parada do “meio” da viagem e quando chegávamos a Marataízes. Itaperuna ou Macaé. Era o caminho conhecido até o litoral sul do Espírito Santo. Àquela altura, final dos anos sessenta, eu não fazia ideia do que ocorria pelo Brasil, de fato. Sempre estranhei certas coisas, mas nunca soube ao certo, direito, com detalhe. A viagem era uma epopeia. Para matar o tempo, eu contava cemitérios. Às vezes brincávamos de adivinha. Em outros momentos cantávamos de tudo. Era mesmo uma epopeia. No entanto, anos depois – isso teve início no verão de 1967 e durou até dezembro de 1979 – a sensação se repetia. Sempre. E ainda se repete, com menos intensidade, devo dizer – deve ser fruto da passagem dos anos. Mas ainda há o encantamento de vislumbrar, num átimo, a faixa verde pintalgada de branco – sobretudo no verão. Visão do paraíso. Tanto entre janeiro e março, quanto em julho, as temporadas de talassoterapia deixaram em mim muitas lembranças. A mais intensa e colorida, a da visão do mar quando da chegada.

Este primeiro parágrafo serve de esboço de um pano de fundo. A cena do relato que aqui vai se desenvolver. Talvez não faça sentido para quem não admite o traço subjetivo, biográfico, que resiste, mesmo contra todos os esforços contrários, no âmago da escrita ensaística. Muitos narizes já estão torcidos a esta altura. Não me importo. Este introito se deve à impressão que me ficou da maratona de leitura dos livros de Bernardo Carvalho. Estes livros constituem o meu objeto de atenção, de desejo, nas páginas que aqui vão. A rememoração de uma experiência muito pessoal servirá para delinear o perímetro desta impressão de leitura que me move. O conjunto de 11 livros me levou a esta imagem de deslumbramento que decorre de um período de “dificuldade”. As aspas revelam apenas a minha incapacidade de encontrar termo mais adequado ou mais expressivo para associar a esta impressão, identificando-a. Os livros de Bernardo Carvalho – tecnicamente considerados “romances” (Não vou entrar no mérito desta questão!) – levaram-me a recuperar o deslumbramento de ver o mar, quando da leitura do conjunto de sua obra, até aqui. Esta última ressalva se sustenta, dado que o autor ainda vive. Assumo o risco, de certa forma, criticado por boa parte de acadêmicos portugueses, ao atrever-me a escrever sobre “autor ainda vivo”.

Intervalo sarcástico

Juceldio tem malária.

Vaneilda sofre de amebíase.

Hermengarda pena com sua artrite reumatoide.

Valfrêncio, há anos, luta contra o lúpus erimatoso sistêmico, junto com seu irmão gêmeo, Hermonildo, que sofre de lúpus discoide.

Zeniolga é portadora de sarcaidose.

Sinfrônio tem porfíria.

Eles vão sofrer de hipotensão, vasodilatação, supressão da função miocárdica, arritmias cardíacas, parada cardíaca, poderão passar por períodos de confusão, tendo convulsões e até entrar em coma. Vão pear com a cefaleia, a irritação do trato gastrointestinal, os distúrbios visuais e a urticária. Além disso, corem o risco de vir a ser vítimas de retinopatia e ototoxicidade irreversíveis. São sérios candidatos a sofrer de miopatia tóxica, cardiopatia e neuropatia periférica, visão borrada, diplopia, confusão, convulsões, erupções, quineloides na pele, embranquecimento dos cabelos, alargamento do complexo QRS e anormalidade da onda T. Dizem por aí que eles todos vão sofrer com hemólise e discrasias sanguíneas. Tudo isso porque são medicados, desde o diagnóstico de suas enfermidades, com Difosfato de Cloroquina

Lições de Português para os incautos em tempo de pandemia I

VAIDADE

Substantivo feminino: qualidade do que é vão, vazio, firmado sobre aparência ilusória; valorização que se atribui à própria aparência, ou quaisquer outras qualidades físicas ou intelectuais, fundamentada no desejo de que tais qualidades sejam reconhecidas ou admiradas pelos outros; avaliação muito lisonjeira que alguém tem de si mesmo; fatuidade, imodéstia, presunção, vanidade; coisa insignificante, futilidade; vanidade. (Copiado do Houaiss, editado por mim)

Diferenças

Duas mulheres, um bando de rapazes, um tempo incomensurável e a verborragia de um narrador que nem narra, nem se identifica como tal. Bobagem? Não creio. Mário de Andrade, no início do século 20, advogou o direito à experimentação estética – creio que era esta a expressão literal usada pelo polígrafo paulista – para a consolidação de um processo de busca de construção da brasilidade a ser representada, contada, narrada pela literatura que aqui se fazia. Não tenho notícia de tal axioma no que diz respeito à Literatura Portuguesa. Nessa altura da vida, isso já não mais me interessa. O que está em jogo aqui é meu gosto pela leitura de um livro que, tecnicamente, é tratado como romance. Particularmente, não sei que nome dar. De fato, nem sei se é mesmo necessário “dar um nome” a esse tipo e texto, ou a qualquer outro. E esta é outra questão que vou abandonar à margem do caminho. Misto de registo autobiográfico, diatribes sobre o ato de escrever, anotações esparsas e aparentemente (propositalmente) fragmentadas ao longo do texto, tiradas jocosas, pensamentos aparentemente (de novo, propositalmente?) desconexos. É esta a realidade material do texto de Nuno Bragança, intitulado A noite e o riso. Seria um romance cubista? Taxá-lo de surrealista iria custar páginas e páginas de argumentação. Mais coisas deixadas ao largo. Seria então um romance experimental, da ordem do nouveau roman francês…? Mais um tanto de argumentação (inútil) aqui. Sendo uma ou (e?) outra coisa, ou não, o fato é que o livro é um soco no estômago, como queria um dos pressupostos do “Futurismo”, de Filippo Marinetti. Sobre o livro, encontrei o seguinte comentário (https://www.infopedia.pt/$a-noite-e-o-riso): “Romance de Nuno Bragança inteiramente novo no momento em que foi publicado, em 1969, divide-se em três grandes momentos narrativos: um em primeira pessoa, que releva do género autobiográfico, mas cuja confessionalidade foi subvertida por um narrador, que se serve do processo irónico para encenar ‘a perversa inocência com a qual, já então, no passado se (des)conhecia o que depois será sabido, processo irónico que não é defesa pela distância, ou discurso didático, mas sim forma de desregramento interno da Ordem, pela qual as suas contradições são ato, ou seja, pedagogia implícita da aprendizagem’ (cf. GUSMÃO, Manuel – prefácio à 4.ª ed. de A Noite e o Riso, Lisboa, Dom Quixote, 1995, p. 16); um segundo espaço, centrado nas personagens Zana e Luísa, ‘formado por um conjunto de textos mais ou menos fragmentários, internamente mais vezes heteróclitos, desenhando um percurso narrativo nem linear nem circular.’ (id. ibi., p. 20); e, por fim, uma última parte, ainda mais fragmentária, que colige pequenas narrativas, descrições, experiências, em que se condensa uma forma de sabedoria. De permeio, são desenvolvidas partes intercalares de ‘notas’, onde o narrador reflete sobre o ato da escrita. ‘Romance (moderno) de crescimento e aprendizagem / de duplo crescimento e dupla aprendizagem […] – do narrador enquanto sujeito agente da narração e da personagem enquanto sujeito da ação narrada’ (id. ibi, p. 33), a grande força de A Noite e o Riso reside na utilização da ‘lucidez do riso’ enquanto última arma possível ‘face ao absurdo’ (A Noite e o Riso, p. 300), no recurso à ironia como ‘princípio construtor’ que opera ‘através dos fragmentos; não pois como atitude ou pose, mas como processo pelo qual, perdida a inocência do corpo e da cultura, se reconhece no trabalho de escrita o instrumento e o corpo de realização da experiência de vida’ (id, ibi, p. 34).” Não deixa de ser instigante, pois não?! Como eu adoro um fuxico, reproduzo aqui parte de uma outra página que encontrei por aí, mundo virtual afora (https://observador.pt/2020/01/05/nuno-braganca-nao-conheco-nenhum-escritor-com-esse-nome/): “Em Portugal não há tradição de se gostar de escritores ‘grãdes’ que pulam tanto que saem pelo ‘tôpu’ e talvez por isso a reedição passou despercebida, ou passaria não fora Vasco Pulido Valente, escrever no seu Diário (jornal Público) que achava Bragança um escritor menor. Manuel Luís Bragança, filho mais velho do escritor, não ficou satisfeito e afirma que ‘o problema de VPV é que Nuno Bragança lhe terá roubado Maria Cabral’, a atriz que foi casada com Pulido Valente. A verdade, verdadinha, é que 2019 foi o ano Sophia e pouco mais e talvez Maria Belo, a psicanalista que também foi namorada de Nuno Bragança, tenha razão quando afirma que ‘ele nunca teve reconhecimento fora do seu círculo de amigos e pessoas atentas à literatura portuguesa, que eram e são raras porque preferimos todos ler escritores de outras línguas. Em 1969 eu já estava com o Nuno quando saiu A Noite e o Riso e não me lembro de ter acontecido nada de especial. Essa falta de reconhecimento magoou-o muito, porque não era só pelo livro, mas sobretudo por ele, era o não reconhecerem aquilo que ele mais queria ser, um escritor’. Em setembro, Manuel Luís Bragança, que não vive em Lisboa, foi visitar a feira do livro promovida pela Presidência da República, nos jardins do Palácio de Belém, e onde brilham os escritores comprados a preços sublimes na feira de Frankfurt e que é preciso vender. Está visto que nessas faustosas mesas literárias não estava A Noite e o Riso, mesmo em ano de aniversário redondo. Manuel achou que talvez estivesse noutro sitio e perguntou ao empregado se não tinha o livro de Nuno Bragança. Mas o empregado confuso respondeu apenas: ‘Nuno Bragança? Não conheço. Nem sabia que tínhamos um escritor com esse nome’. Mas havia, houve e há um escritor chamado Nuno Bragança e uma pequena pérola, sem frases perfeitas, adjetivos encrostados à pinça, e imagens desenhadas a cinzel. Ele mesmo explica quem foi para poder ser quem queria ser: ‘Criado embora entre hálitos de faisão, cedo me especializei na arte de estender os braços. Dia após dia os mais laboriosos, cansativos forcejos projectavam meus membros anteriores em-frentemente. E isto assim até que perdi as mãos de vista. Não que o meu sorriso fosse esgar, ou o meu gargalhar inexistente; mas uma certa palidez  no semblante geral denunciava (ao que parece) más possibilidades.’[ A Noite e o Riso] Depois do 25 de Abril, Nuno Bragança junta-se ao teatro A Comuna, onde conhece a sua futura mulher, a atriz Madalena Pestana, com quem terá dois filhos. Nesses anos de ressaca revolucionária, escreve para o Jornal de Letras, apoia a candidatura  e o governo de Maria de Lourdes Pintassilgo. A novela Do Fim do Mundo será publicada postumamente, em 1990, embora ainda hoje não se saiba quando foi escrita. Ao contrário de camaradas revolucionários dos quais ele fez personagens, como Manuel Alegre, Nuno Bragança não fez carreira política, não ganhou prémios literários, embora um só livro lhe garanta um lugar de culto na nossa literatura. Morreu em 1985 devido a uma mistura de comprimidos e álcool. Os filhos negam ter sido suicídio. Maria Belo diz apenas: deixou-se morrer.” Uma vez mais, fica um convite para ler.

Conhecimento

Uma pergunta eu sempre me incomodou: que teorias e autores relevantes O Aristóteles e o Platão utilizaram como arcabouço teórico para desenvolver suas teses em Filosofia? Hoje, penso eu, ainda não foi encontrada a resposta. Creio, penso eu, de novo, que por impossível. Mas na lonjura em que estão o bom senso e a parcimônia – não menciono a honestidade e a eficácia para não correr risco de cassação de título – da produção acadêmica, sobretudo em algumas áreas do conhecimento, fica mais longe a possibilidade de considerar essa produção um exemplo de possíveis tentativas de resposta. Este fio de raciocínio é longo, intrincado e multifacetado. Custaria um esforço enorme, um tempo imenso. Não vou enfrentar essas agruras. Paro com a minha chatice aqui para trazer o verbete dicionarizado de uma palavra fundamental, sempre fundamental: Conhecimento. Substantivo masculino. Ato ou efeito de conhecer. Ato de perceber ou compreender por meio da razão e/ou da experiência. Faculdade de conhecer. Por extensão de sentido: domínio, teórico ou prático, de uma arte, uma ciência, uma técnica etc. Relacionamento ou conjunto de relacionamentos que uma pessoa ou grupo de pessoas mantém com outras, quer por amizade, quer por mera formalidade. Por extensão de sentido: fato ou condição de estar ciente ou consciente de algo; ciência, informação, notícia. Somatório do que se conhece; conjunto das informações e princípios armazenados pela humanidade. No comércio, significa recibo. Na Filosofia, ato ou faculdade do pensamento que permite a apreensão de um objeto, por meio de mecanismos cognitivos diversos e combináveis, como a intuição, a contemplação, a classificação, a analogia, a experimentação etc. No plural: erudição, cultura, instrução. Pois bem. Este é o verbete dicionarizado com alguns pitacos meus, da ordem da organização do texto e não de seu conteúdo. Como se vê, o tal de conhecimento não nasce pronto. Não brota do chão. Não é herdado por osmose, mitose ou transmissão cromossômica.  Conhecimento é produzido a cada passo, cada dia, cada minuto, cada experiência. Quero crer que não me equivoco ao afirmar que, em conclusão, conhecimento é algo da ordem do absolutamente relativo. Em que pese a plausível contradição em termos. Não há absolutos. Portanto desnecessário, inútil e ignorante a briga pela posse da verdade que esse suposto conhecimento produz.

Aproximações

O primeiro volume da coleção de obras de Graciliano Ramos – de que me falta apenas um volume – Vidas secas – apresenta Caetés, publicado em 1933. Em interessante ensaio de apresentação da obra do escritor alagoana. Wilson Martins faz observações que vou retomar aqui. O volume que me falta foi emprestado para uma prima, em priscas eras. Ela jamais me devolveu. Eu jamais consegui encontrar este volume. O da coleção. Capa dura. Com ensaio inicial. A marca peculiar desta coleção, da Martins Editora, é, exatamente, esta: o ensaio inicial. Pois nele, no volume que acabo de reler, com prazer imensurável, Wilson Martins apresenta uma leitura interessantíssima que serve de guia inaugural de leitura, para aquele que vai se aventurar no universo ficcional de Graciliano Ramos. Claro está que não vou defender uma tese para debater com as ideias do crítico citado. Não estou a escrever um tratado, um artigo ou uma recensão. Registro apenas algumas linhas que nascem da releitura – repito, incomensuravelmente prazerosa – de Caetés. “Ateu! Não é verdade. Tenho passado a vida a criar deuses que morrem logo, ídolos que depois derrubo — uma estrela no céu, algumas mulheres na terra…”. “Adrião, arrastando a perna, tinha-se recolhido ao quarto, queixando-se de uma forte dor de cabeça. Fui colocar a xícara na bandeja. E dispunha-me a sair, porque sentia acanhamento e não encontrava assunto para conversar. Luísa quis mostrar-me uma passagem no livro que lia. Curvou-se. Não me contive e dei-lhe dois beijos no cachaço. Ela ergueu-se, indignada: — O senhor é doido? Que ousadia é essa? Eu… Não pôde continuar. Dos olhos, que deitavam faíscas, saltaram lágrimas. Desesperadamente perturbado, gaguejei tremendo: — Perdoe, minha senhora. Foi uma doidice. — É bom que se vá embora, gemeu Luísa com o lenço no rosto. — Foi uma tentação, balbuciei sufocado, agarrando o chapéu. Se a senhora soubesse… Três anos nisto! O que tenho sofrido por sua causa… Não volto aqui. Adeus.”. Os dois trechos aqui copiados do romance, entre aspas, correspondem, respectivamente, ao fim e ao começo dele. Inverto propositadamente. Wilson Martins comenta, em seu ensaio, este romance de Graciliano Ramos pode ser aproximado – os termos não são exatamente este, mas vá lá… – de outro congênere, lusitano: A ilustre casa de Ramires. Diz o crítico que, apesar de um tanto desgostoso com o resultado de seu trabalho, Graciliano Ramos não poderia ser criticado negativamente por seu primeiro romance pois, dentre outras qualidades e peculiaridades, apresentava essa: a realização de um plano narrativo com igual densidade, quando comparado ao romance de Eça de Queirós. Isso é fato incontestável. Gonçalo Ramires, na península, se impõe o projeto de reescrever a história do torreão que marca concreta e arquitetonicamente o caráter fundante da presença e importância de sua família em terras portuguesas, ao mesmo tempo que, no intento de concretizar esse projeto se vê enovelado pelo próprio processo. Em outras palavras, o romance de Eça pode ser lido na chave da metalinguagem. Ou ainda, o romance do autor português acaba por descrever o processo de construção ficcional de uma narrativa, enquanto recupera – ainda que não completamente – o caráter historiográfico desta mesma narrativa. Igual exercício, de acordo com o crítico, é praticado por Graciliano Ramos, com sucesso, acrescentaria eu.

No entanto, gosto de meter o meu bedelho. Para além desta característica, o romance do alagoano também reverbera outros dois romances do mesmo autor português: O primo Basílio e O crime do Pe. Amaro. Guardadas as devidas proporções, um tema comum aos três se apresenta: o adultério, cometido, desejado, esboçado, que seja. No caso do padre, adultério é uma palavra um tanto deslocada, mas pode-se levar em consideração seu casamento com a igreja. Assim estaria sustentada a hipótese implícita em meus pitacos. Luíza, Amélia e Luísa são as mulheres que se envolvem em situação delicada. No caso da personagem nordestina, Luísa, a cena inicial aqui copiada, já coloca os elementos para a trama do adultério que se desenvolve simultaneamente à da escrita do livros sobre os indígenas caetés, intento de João Valério. A presença de Adrião, o marido, dá o toque da galhofa e da malícia, a ser retomado ao longo do romance e que serve de relé para a sequência final envolvendo esta personagem. É isso. Wilson Martins está certo. Quem sou eu para dizer o contrário. Para terminar, acrescento ousadamente uma outra observação. A frase final do romance – igualmente copiada aqui – revela o traço debochado de Eça, na perspectiva ficcional de Graciliano. Leiam lá em cima a passagem e vejam se não é mesmo possível aproximá-la, no tom, a comentários semelhantes que abrem e fecham outro texto de Eça de Queirós: “José Matias”, um conto. Vão lá. Leiam. Depois me digam…

Três

São três os momentos do dia, as fases da vida, os lados do triângulo, as pessoas da Trindade Santa, as perguntas de esfinge para Édipo, as chamadas do brinde espanhol: arriba, adelante, adentro! Três. Dizem que um número forte, simbolizando o equilíbrio perfeito. São três as vidas da personagem principal do romance de João Tordo. O romance se intitula, por óbvio, As três vidas. Romance denso, grande, verboso, mas deliciosamente fluido. Da primeira leitura, ficou um sabor a Paul Auster. Comentei com o autor, quando o conheci pessoalmente em Zagreb. Rapaz tímido, simpático, um tanto gago. Talvez pelo nervosismos da situação àquela atura. Gostei do gajo. Gostei do livro dele. Já li outros. Estou curiosíssimo para ler o último que ele lançou A noite em que o verão acabou. O rapaz consegue escrever sem incomodar. A mim não me incomoda. Há autores que escrevem bem, mas incomodam, fazem a leitura de seus escritos quase um sacrifício. Não é o caso de João Tordo. A urdidura do texto que narra as três existências do narrador – que, neste caso, na leitura que fiz e refiz do romance, é o protagonista – é muito densa e leve ao mesmo tempo. Consegue criar um clima de suspense sem escorregar nas esparrelas que esse tipo de relato costuma imprimir, sobretudo nos filhotes de oficinas de escrita criativa. Não, definitivamente não é o caso de As três vidas. O princípio simples e corriqueiro, com as idas e vindas do trabalho e da convivência junto a uma família tanto abastada, quanto, funcional; a “demanda” de um graal particular: Camila e a existência depois disso tudo. Eis uma síntese precária das três vidas do protagonista, fruto da ilação proposta pelo título do romance. Interessante também é notar a força da imagem do funâmbulo, espécie de fio condutor de um dos planos narrativos do romance. Chave de leitura instigante. Numa das páginas espalhadas pelo mundo virtual, encontrei uma que reproduzo aqui, por ter dela gostado: “Que segredos rodeiam a vida de António Augusto Milhouse Pascal, um velho senhor que se esconde do mundo num casarão de província, acompanhado de três netos insolentes, um jardineiro soturno e um rol de clientes tão abastados e influentes como perigosos e loucos? São estes mistérios que o narrador – um rapaz de família modesta – procurará desvendar durante mais de um quarto de século, não podendo adivinhar que o emprego que lhe é oferecido por aquela estranha personagem se irá transformar numa obsessão que acabará por consumir a sua própria vida. Passando pelo Alentejo, por Lisboa e por Nova Iorque em plenos anos oitenta – época de todas as ganâncias – e cruzando a história sangrenta do século XX com a das suas personagens, As Três Vidas é, simultaneamente, uma viagem de autodescobertas através do «outro» e a história da paixão do narrador por Camila, a neta mais velha de Milhouse Pascal, e do destino secreto que a aguarda; que estará, tal como o do avô, inexoravelmente ligado à sorte de um mundo que ameaça, a qualquer momento, resvalar da corda bamba em que se sustém.” (https://www.goodreads.com/book/show/5773883-as-tr-s-vidas) H[á uma passar que me intrigou por conta do esforço criativo do autor. É quando o narrador-protagonista relata umas conversas com o velho que o empregou, em Nova Iorque, durante a busca de Camila. Uma preciosidade de criação. Para mim, quase um mistério. Se tivesse paciência e saco, iria escrever um artigo sobre este passagem. Não digo qual é, explicitamente, para não estragar a surpresa de quem puder e quiser ler o romance. Porque vale a pena!