(Re)leituras (?)

Li (Reli? Já não sei…) um livro do Carlos de Oliveira, autor português, chamado Casa na duna. Tenho quase absoluta certeza de que foi releitura. Identifiquei logo um procedimento narrativo sui generis sobre o qual também tenho quase absoluta certeza de já ter comentado. Trata-se de uma narrativa que não se desenvolve a partir do encadeamento de episódios relatados por um narrador que parece a tudo organizar, como eminência parda da ficção que se desdobra sob os olhos de um leitor não tão entusiasmado assim. Se não me engano, no comentário anterior – se é que de fato o fiz, quando da pressuposta primeira leitura do romance – eu dizia que o livro conta uma história que não acontece. A voz narrativa, responsável pelo relato que se lê vai apresentando personagens e situações, criando um enredo que se enovela numa mudança sutil e subliminar da temporalidade. Os índices de marcação temporal praticamente inexistem, apesar da vinculação da obra desse autor ao neorrealismo português. Li, por aí, algumas linhas que me soaram interessantes de se considerar: “Embora não seja referenciado no romance, o tempo, naquele “mundo de realidade enganosamente suspensa (…), anterior à Revolução Industrial dois séculos depois dela”, pode ser facilmente localizado nas primeiras décadas do século XX, através das referências à construção de estradas e a uma incipiente industrialização, demonstrando uma forte resistência ao progresso. Essa atemporalidade pode indicar uma realidade preservada das transformações sociais e, conseqüentemente, a de um país que historicamente vivia um tempo de isolamento e preservava modelos ancestrais de uma realidade sócio-econômica, definida pelo historiador Fernando Rosas como “um atraso econômico semifeudal.” (https://www.maxwell.vrac.puc-rio.br/16081/16081_5.PDF) Mantive o texto como o encontrei na rede. Não sei dizer se foi escrito depois do famigerado acordo… Voltando à vaca fria, Casa na duna responde ao que preconiza o estuário neorrealista na/da Literatura Portuguesa, muito menos agudo, eu diria, que um Alves Redol ou um Manuel da Fonseca. Não faço referência a Levantado do chão, do José Saramago, por não gostar dele (Oh contradição… acabei de fazê-la!). Pois bem. Para além desta marca personalíssima no/do romance de Carlos de Oliveira, há outra, a meu ver, mais instigante: o vocabulário. Para quem gosta de descobrir as vicissitudes culturais uma nação a partir e através de sua língua, este livro é um achado. O primeiro capítulo, que emoldura o cenário narrativo, em que vai transcorrer a ascensão e a glória de uma tradicional família portuguesa, é pura poesia. Em que pese a possível ignorância vocabular de um leitor que se ponha a ler este romance, a beleza da linguagem de Carlos de Oliveira, neste romance, sobretudo em seu capítulo inicial, enseja uma lição de estética literária a não deixar lacunas… Vale o convite!

PS: este texto saiu de repente, por pura preguiça de ter que enfrentar narizes torcidos e vociferações mefistofáusticas (este último adjetivo não de minha autoria…), se fosse comentar o exagero de hoje de manhã no Rio de Janeiro…

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Delírios

Deve haver na Filosofia, na Psicologia, na Química ou na Biologia, juntas ou isoladas, em dupla, trios ou quarteto, um capítulo que se explique a crença de que a solidão é trágica em sua essência. Esse axioma leva à constatação de que solidão é algo ruim, mal, a ser combatido, evitado, superado. Tenho cá minhas dúvidas. Do fundo de minha ignorância, penso que não é bem assim. Sempre, por natureza, preferi o isolamento. Claro está, como qualquer outro adolescente em pindorama, vivi meus momentos de agitação “juvenil”. As turmas, as noitadas, passar a noite fora… conquistas que o tempo ensina – pena que um pouco tarde demais – serem quase inócuas. Só não o são, de fato, porque fazem parte desse exercício inexplicável que é viver. Porque é um exercício. Por que é inexplicável, apesar de tantas explicações ao longo do tempo… Isso me levou, hoje, – e já adianto que não faço a mínima de como e por que me veio a mente essa estranha elucubração, e não vou me esforçar para procurar explicação – a pensar na falta de explicações mais correntes sobre como eram os hábitos dos homens das cavernas, no que diz respeito a tratamento de doenças e intimidade sexual. Os Flinstones alegorizaram isso. Há um filme, Planeta dos macacos, que extrapola as fronteiras da ficção científica e chega perto. Não tenho conhecimento se a História já se debruçou sobre este capítulo. A dúvida me faz pensar na quase impossibilidade de responder às possíveis perguntas que porventura venham a aparecer. Penso ser plausível pensar assim, pois não há evidência que tenha resistido ao tempo e, por outro lado, qualquer coisa que se diga, se constate, se explique, sempre vai ser pautado pelo limite de nossa visão curta e sempre, sempre, inquestionavelmente, limitada pelo próprio tempo. Tudo isso me leva, uma vez mais – e de novo, sem a mínima chance de eu me esforçar para procurar a elaboração concisa e objetiva de uma explicação – a pensar na afirmação de que um trabalho que escrevi pela proposição de “leitura de algo que não existe”. as aspas se referem à alteridade da ideia. De fato, não foi isso literalmente que foi dito. A ideia está aí. O que a provocou é o fato de que as cartas que Alberto de Oliveira (o português!) escreveu para António Nobre, em resposta às que ele dele recebia, não existem mais. A afirmação se sustenta na referência que Guilherme de Castilho faz na edição da correspondência ativa de António Nobre: considerada, até prova em contrário, a mais completa. Há apenas uma carta de Alberto de Oliveira, sintomaticamente a última, a do rompimento da amizade que os unia, que consta do citado volume. No entanto, isso não me impediu de “ler” as cartas de Alberto, por reflexo. Num exercício que os quatro propostos analistas – que, ao fim e ao cabo, não analisaram nada – não foram capazes de alcançar/perceber/notar, crio uma imagem de sujeito que escreve, a partir do que a este sujeito outro escreve. Ou seja, das palavras de António Nobre, vou intuindo/deduzindo o que teria dito Alberto, em respostas, nas cartas que mandou queimar. Dentro do quadrado da academia, em seus protocolos que não permitem individualidades expressas, essa ideia é inconcebível. Foi, no entanto, a única saída para o impasse em que me vi quando comecei com essa história toda… Chega. Cansei. Um princípio de desidratação por força de uma diarreia me tira o ânimo de continuar… Se alguém quiser se rebelar, grite, escreva um tuíte, abra uma lista de assinaturas na avvaz, mas não escrevo mais hoje…

Oblivium

Foram quatro indivíduos. Dois homens e duas mulheres. Quatro espécimes da raça humanoide. O restante dos indivíduos do mesmo grupo não será atingido aqui, somente estes quatro. Particularmente estes quatro. Neles, a soberba, a mesquinhez, a covardia e o rancor, para além do desdém e da inveja – sim, inveja não confessada, jamais assumida, mas inveja – sobra, pulula, supura. Tudo isso num texto com algumas poucas linhas em que tudo isso se materializa, visão distorcida e tendenciosa destes quatro cavaleiros de um apocalipse insidioso e impossível de se sustentar. Disseram eles que não havia desarticulação entre os capítulos e os argumentos que pretendem sustentar a argumentação. Além disso, constava – na leitura dos “quatro” equívocos em conceitos básicos das teorias acerca da leitura, da recepção, da psicanálise, da teoria da literatura e das inúmeras teorias críticas sem vinculação com o eixo central da mesma argumentação. Complementaram com a afirmação de que havia redução da perspectiva de leitura ao “olhar homoerótico”, sem se aprofundar nas contemporâneas teorias sobre o assunto. Para além disso, afirmaram que  texto pecava pela eleição, como objeto parcial da argumentação, as cartas de Alberto de Oliveira, sem garantir-lhes consistência, seja através da leitura do que não existe, seja através de uma elaboração ficcional dessas cartas. Por fim, vaticinaram que tudo foi fruto de leitura insuficiente das cartas existentes, sem trazer à tona nenhuma teoria consistente acerca do gênero. Encerram – com chave de ouro, ouro de tolo, bem explicado – dizendo tudo transpira negligência cabal no que se refere ao estudo de textos literários dos dois autores, em sua relação com as cartas, embora tenha anunciado repetidamente este propósito. Esses quatro tentaram, com o que acima vai escrito, atrapalhar a vida de um indivíduo. Não conseguiram. O que eles execraram foi aceito, com louvo, em editora estrangeira e publicado. Isso mesmo. Doa a quem doer, foi publicado. Então, os “quatro” vão permanecer no esquecimento, pelo menos, em certo esquecimento que se ri da tentativa frustrada deles… Coitados…

Maus hábitos

Pérolas da ignorância

O administrador municipal insiste em agendar a limpeza pública para o meio da manhã, três vezes por semana, para pode atrapalhar bastante o trânsito e, assim, mostrar serviço.

No início e no fim da manhã, papais e mamães, muito ciosos – isso para não contar com os “abnegados” motoristas de van escolar – param em filas duplas e triplas para deixar/apanhar seus pimpolhos que não fazem ideia do desarranjo que causam em nome de sua própria inocência infantil.

A patuleia enfrenta fila debaixo do sol, compra muitos ingressos pra revender mais caro – como se isso fosse muita esperteza fazer isso – e reserva o seu próprio. Daí, na hora do jogo, fica em pé no estádio vociferando e berrando, esgualepando a voz pelo seu “time do coração”.

Os “chiques” pedem o prato, pagam caro por uma garrafa de vinho, comem fazendo pose olhando para os lados, a ver se estão sendo “notados”, tiram fotos dos pratos e depois, acabando o jantar, deixam comida no prato em nome de certa “elegância”.

Há mais, mas confesso que meu estômago começou a ficar embrulhado com tanta pobreza de espírito. Fico por aqui…

Três desejos

Três são as partes do dia. Três, as “idades” do homem. Em três dias, o filho de Deus morreu e ressuscitou. Por três vezes, Pedro negou Cristo, como previsto, e o galo cantou outras três vezes para tanto. Três são os períodos do tempo. Três é o número mínimo para formar uma família, por tradição. Três é considerado o número do equilíbrio perfeito. Por fim, três são os pedidos concedidos pelo gênio da lâmpada, conforma a historieta que animou a fantasia de muitos daqueles que já ultrapassaram as quatro décadas de existência. Essa fábula teve versão tele cinematográfica, também na infância do mesmo grupo das quatro décadas. Era engraçado. Uma geniazinha loura, espevitada, de olhos azulíssimos e muito destrambelhada fazia de tudo para o bem-estar de seu “amo”. Ela o amava e só o queria feliz e satisfeito. No entanto, tudo o que ela fazia sempre passava por uma tramoia alheia, um percalço, uma dificuldade, um engano ou uma “armação”. Ao fim e ao cabo, o filme que passava regularmente na televisão cumpria a sua missão de difundir a ideia de um gênio mágico que realizava sonhos de quem encontrasse a “lâmpada” e a esfregasse. Há também muita piada sobre o tema. Minha preguiça me impede de fazer esforço para lembrar de alguma e aqui trazer… No entanto, esse introito serve para começar a falar de um livro que acabei de ler e que me agradou imenso. Mais um de meus comentários que visam tão somente isso: comentar, com acréscimo do convite para, quem quiser, ler. Um livro divertidíssimo e seriíssimo simultaneamente. Seu autor, um jovem professor de Literatura Portuguesa da/na Universidade do Porto, ele mesmo, português é um sujeito erudito, preparado, capaz, inteligente, talentoso e dono de um senso de humor – pelo menos, nas páginas deste livro – que não deixa o leitor abandonar suas páginas enquanto não cega ao final. Sim, já falei dele aqui. Sim, já li dele outros livros. Sim, conheci-o pessoalmente, por um rápido lapso de tempo, em Coimbra, numa tarde chuvosa e gelada da terra de Inês, posta em seu sossego para sempre… É ele, Pedro Eiras. O livro se chama Os três desejos de Octávio C.  Por isso a minha introdução sobre o número três. Calma! Eu não disse que ia ser original… mas enfim…! Uma narrativa entre hilariante e contundente sobre o desejo, não da ordem da sexualidade propriamente dita, mas do desejo, aquilo que não se tem e se quer ter, fazer, ver, pegar, etc., etc., etc. O protagonista, tem nome duplo “Octávio C.”. Sintomaticamente, diria eu, o segundo nome se esconde numa única letra “C”, a terceira do alfabeto. Oh… seria mais uma coincidência? Não se sabe muito bem quem é esse Octávio e isso, de fato, acaba por não ser o mais interessante no livro. Quem quer que seja ele, o fato que persiste é o de que ele tem que fazer três pedidos para realizar três desejos seus, instado que é por um gênio que lhe aparece em sonho – esta é uma maneira de “ler” as coisas ditas no relato narrativo. Obviamente, não vou dizer o que ele pede. Cabe ao leitor, se curioso for, buscar o livro e descobrir quais foram os três desejos do Octávio C. e o que é que acontece em função desses pedidos e da realização dos desejos dele. Posso adiantar que o protagonista aprende – e creio que cada leitor o acompanha nesta caminha pela caverna de um conhecimento inesperado – que o desejo, se expresso e, consequentemente realizado, quais quer que sejam os meios utilizados para tanto – sempre traz em si, não como consequência, mas como matéria constitutiva, as consequências. Estas, por natureza, imponderáveis. Logo, a lição aprendida leva a esta constatação: ao expressar seu desejo e querer vê-lo realizado, o sujeito não se apercebe que as consequências podem levá-lo, e aos demais participantes da raça humana, a vivenciar consequências inimagináveis, do ponto de vista do próprio desejo. Em outras palavras, por exemplo, se desejo que chova muito porque estou com muito calor, o excesso de chuva pode causar acidentes horrorosos em qualquer lugar do planeta. Não se trata de uma história sobre sinergia. O relato ficcional não se presta, neste caso, a exarar teoria de conspiração ou alarmismo apocalíptico de espécie vária. Nada disso. O texto de Pedro Eiras se debruça, com atenção e ironia (e isso é por conta da leitura que fiz do mesmo), sobre este ponto: o quão impossível é prever as consequências do pedido de realização de um desejo pessoal, próprio, íntimo e o quanto ele pode influenciar em situações, lugares, pessoas e circunstâncias absolutamente imponderáveis, imprevisíveis. Tudo isso instrumentalizado pela deliciosa prosa do jovem professor de Literatura Comparada. Tomara que vocês possam ler o livro, porque vale mesmo a pena.

Cartas da memória das Índias – final

Com o devido pedido de desculpas a quem me lê (imagino que sejam pouquíssimas pessoas…), segue a terceira e última parte do poema de Al Berto. Não à toa, a mais longa e para o meu gosto, a mais instigante e igualmente bonita.


CARTA DA FLOR DO SOL 
(a meu amigo) 

Há ainda outra árvore de natureza mui singular, chamada irudemaus, que em sua língua significa flor do sol, porque as suas flores não abrem nem aparecem nunca senão ao nascer do sol, e caem quando ele se pões; o que é o contrário da árvore triste. É a mais excelente flor, lança melhor cheiro que todas as outras; e da qual fazem ordinariamente uso o rei e as rainhas. 

Viagem de Francisco Pyrard de Laval: TRADUÇÃO E DESCRIÇÃO DOS ANIMAIS, ÁRVORES E FRUTOS DAS ÍNDIAS ORIENTAIS

vou partir 
como se fosses tu que me abandonasses

o último sonho que tive era estranho 
via o fundo límpido de uma rua estreita 
que desembocava num largo iluminado 
havia leões empalhados nos passeios em areia solta 
já não me lembro bem 
parece que uma mulher avançava com um envelope na mão 
estendia mo e gritava
mas eu não conseguia perceber 
insultava me muito provavelmente
tinha a cara escondida por um pano branco bordado 
apenas via a sua enorme boca abrir se
e furiosamente engolir a púrpura do ar 
que envolvia as cabeças reclinadas dos leões 
ouvia o buzinar nervoso dos carros 
exactamente como se ouvem agora 
mas não conseguia vê los
depois 
um rapaz pareceu a uma esquina e reconhecia te
uma voz gravada na memória acompanhava nos
quando nos dirigimos um para o outro 
em câmara lenta 
ouvíamo la sussurrar:
procuro te
no interior das penumbras no esquecido sal 
das casas abandonadas à beira mar
procuro te no perfume excessivo do mel
armazenado pelas abelhas no entardecer das pálpebras 
vem 
mergulha as mãos nos troncos das árvores 
suspende a noite da longa viagem 
estás a naufragar 
o espelho quebrou se e tu já não reconheces as paisagens
o corpo estilhaçou se


tua presença só é visível nas fotografias dos barcos 
as quilhas são a tua memória longínqua das Índias 
vai 
com os pássaros de bicos exuberantes e sonha 
e estende o corpo cansado nos intervalos da erva fresca 
onde alguém costurou pedras brancas na orla das grandes rotas 
a cidade espera te com o cais de madeira
junto ao rio abre as mãos toca nos corpos com os lábios 
agarra os dentro de ti
até que da terra lodosa brotem especiarias 
porque só longe daqui acharás o que falta da tua identidade 
só longe daqui conhecerás o sangue e talvez a felicidade 
inundando um breve instante a noite de nossos desastres 
só longe daqui 
terás a consciência da quotidiana morte de Deus 

repentinamente a voz cessou de se ouvir 
eu tinha na palma da mão uma quantidade de comprimidos mortais 
depois a voz fez se ouvir a espaços irregulares:

pobres unhas 
pelas amarras húmidas dos lençóis rotos 
barcos 
velas sem sol papel pintado deslocando se das paredes
silêncio espesso sarro da noite 
uma viatura boceja no asfalto 
o corpo treme cintila 
resíduos de cidade ruínas da pele buenas noches 
buenas noches mi amor 
lençóis floridos ranho cabeças de cafres 
pingue pingue de torneira avariada esferas de flipper
noches buenas noches 
barcos despedaçados bolor da memória 
da memória da memória da memória 

tinhas a cara mascarada com sangue quando a voz silenciou 
a mulher ria 
eu corria para ti sem conseguir alcançar te
sentei me na cama
veio me do fundo da idade o momento em que nos conhecemos
resolvi levantar me a meio da noite e escrever te esta carta


lembro me que tínhamos fome havia três dias
encostado ao mármore da mesa de cabeceira dormia a fotografia
e o maço de português suave filtro 
a escuridão não era só exterior 
conhecíamo-nos pelo tacto e pelo olfacto
tornámo-nos murmurantes
e tu refulges ainda no escuro dos quartos que conhecemos 
cruzámos olhares cúmplices 
falámos muito não me recordo de quê 
e no calor dos corpos crescia o desejo 
caminhámos pela cidade 
eu metia a mão nas algibeiras 
onde tacteava tudo o que guardara e possuía 
um lenço uma caixa de fósforos um bloco de notas 
sentia me feliz por quase nada possuir
a imagem azulada de tuas mãos flutuava diante de mim 
gesticulavas para me dizer que estávamos vivos 
e apaixonados 

escrevo te
pelo corpo sinto um arrepio uma vertigem 
que me enche o coração de ausência pavor e saudade 
teu rosto é semelhante à noite 
a espantosa noite de teu rosto! 
corri para o telefone mas não me lembrava do teu número 
queria apenas ouvir tua voz 
contar te o sonho que tive ontem e me aterrorizou
queria dizer te porque parto
por que amo 
ouvir te perguntar

quem fala? 


e faltar me a coragem para responder e desligar
depois caminhei como uma fera enfurecida pela casa 
a noite tornou se patética sem ti
não tinha sentido pensar em ti e não sair a correr para a rua 
procurar te imediatamente
correr a cidade duma ponta a outra 
só para te dizer boa noite ou talvez tocar te
e morrer 
como quando me tocaste a testa e eu não pude reconhecer te


apesar de tudo senti a mão sabia que era a tua mão 
mas não podia reconhecer te
sim 
correr a cidade procurar te mesmo que me afastasses
mesmo que nem me olhasses 
mesmo que dissesses coisas que me 
mesmo que 
e ter a certeza de que serias tu depois a procurar me

correr a cidade com o corpo sedento 
noite esgravatando a pele 
bebendo nas veias as poucas forças que me restam 
uma lâmina pelos sonâmbulos asfaltos 
onde morrem ambíguos nomes de corpos sem sexo 
o veneno agindo dos pés à cabeça 
as mãos encharcadas de chuva tacteando um sexo qualquer 
o sangue a chuva a memória desses dias tão difíceis 
a noite a lambuzar com violência os rostos magoados 
visões de sonhos ainda não sonhados 
dilaceradas imagens de bocas coroadas por flores de aço afiado 
ouço outra vez uma voz e agora não estou a sonhar 
mas a escrever te
e ouço a em mim como se estivesse gravada
e a fita do gravador desgasta pelo uso: 

a tua vida 
será feita de embarcações e de solidão 
beberás a secura dos cabos distantes 
conhecerás ilhas de saliva profunda 
olhar te ás nas fotografias
que as unhas aceradas do tempo arranharam 
e para lá dessas imagens envelhecidas tudo sangra e dói 
a tua infância a tua adolescência e o medo 
de não conseguires sobreviver ao estrume deste país 

avançarás pelo mar dentro 
ferido por outros naufrágios imperceptíveis 
descansarás 
nas areias aveludadas da foz dalgum rio sagrado 
e quando o mar se retirar 
o sol a lua virão tatuar sobre o ombro 
a silhueta viva dum bicho estelar 
e a memória 
essa parte calcinada da vida começará a doer e a latejar 

navegarás pela cidade que adere aos dedos 
como sarna mais antiga navegarás 
com o escorbuto no coração transportarás o silêncio 
e a escrita na fragilidade dos pulsos acorda 
onde cintila a faca acorda 
acorda o mar 
está próximo o mar acorda 
o mar acorda o mar acorda o mar 
o mar 

na gaveta onde o bolor cobriu a roupa guardo as fotografias 
reparo como amareleceram suavemente os rostos 
as mãos que seguram ramos de flores os cabelos os olhos 
exala se deles uma leve doçura cor de sépia
foram perdendo a definição esfumaram se os contornos
numa das fotografias tens vestida a camisa de riscas azuis 
noutras sorris olhas me nos olhos
mas aquele sorriso não é o que ainda ontem te vi esboçar 
o sorriso que tens na fotografia morreu 
e no entanto está ali e fico perturbado quando o vejo 
eu sei que nada está vivo na fotografia ou se repetirá 
aqueles sorrisos aqueles instantes para sempre perdidos 
a camisa às riscas votada à degradação lenta do papel 
acabei por destruir as fotografias queimei as
para que ninguém possa supor através delas 
histórias a nosso respeito 
e também para que minha mulher as não encontre 

a única coisa que levo comigo é a cápsula de laranjada 
atada a um cordão em couro deste ma tu um domingo
quando ainda passávamos perto do rio 
íamos ver o sol morrer nas águas 
caminhávamos sem destino pela cidade 
o crepúsculo atingia nos com misteriosos desejos
seria inútil falar das razões da minha viagem 
no fundo nada a justifica 
embora a minha vida ultimamente seja um barco sem rumo 
de vaga em vaga de ressaca em ressaca 
fui arrastando o meu próprio naufrágio 
mas ser me ia difícil falar te destas catástrofes
prefiro calar me para sempre ou enlouquecer
ou avivar a memória de certas visões aciduladas 
enquanto te escrevo esta última carta 
é também a última vez que penso em ti 
sempre habitei este país de água por engano 
estas planícies asfaltadas pelo tédio estes prédios de urina 
estas paredes vomitadas 
onde as diáfanas aves da solidão embatem e definham 
deixam cair dos bicos fios de sangue e de cuspo que te evocam 
vou migrando de corpo para corpo 
sem nunca conseguir definir o voo complexo do meu 
escrevo te ainda lúcido
no entanto ignoro se chegarei vivo ao fim da noite 
quem poderá afirmar que daqui a instantes 
não atravessarei os espelhos impossíveis da noite? 
ferindo o corpo rasgando borboletas de luz 
no écran da cidade amanhecendo em mim 
esqueço como me chamo 
e tenho a certeza de que nunca mais nos veremos 
mesmo no caso de eu permanecer aqui 
neste país de água por engano 
descobri que a morte calça o mesmo número de sapatos que eu 

sabes 
por vezes queria beijar te
sei que consentirias 
mas se nos tivéssemos dado um ao outro ter nos íamos separado
porque os beijos apagam o desejo quando consentidos 
foi melhor sabermos quanto nos queríamos 
sem ousarmos sequer tocar nossos corpos 
hoje tenho pena 
parto com essa ferida 
tenho pena de não ter percorrido teu corpo 
como percorro os mapas com os dedos teria viajado em ti 
do pescoço às mão da boca ao sexo 
tenho pena de nunca ter murmurado teu nome no escuro 
acordado 
perto de ti as noites teriam sido de ouro 
e as mãos teriam guardado o sabor de teu corpo 


ah meu amigo 
estou definitivamente só 


estou preparado para o grande isolamento da noite 
para o eterno anonimato da morte 
mas perdi o medo 
a loucura assola me
preparo a última viagem às Índias imaginadas 
disseram me que só ali se pode descansar da vida
e da morte 
perscruto a razão profunda desta viagem 
ou talvez seja já a torna viagem o que vislumbro
e não valha a pena partir porque já estou de volta 
sem o saber 
hesito em deixar te escrito mais do que um simples adeus
de qualquer maneira por muito longe que me encontre 
se pousares a tua mão sobre a minha testa senti lo ei
esse gesto aliviar me á de todas as dores
a manhã aproxima se cortante
ouço barcos largarem do cais 
preparo a lâmina 
estendo velas em agonia uma lâmina de vidro 
para fender as águas imperturbáveis do dia sem bússola 
destruo cartas papéis manuscritos outros sinais 
destruo imagens que me chamam e me querem reter aqui 
releio estas poucas palavras para ti: 

child of the moon 
debaixo das cerejeiras uma serpente antiga adormeceu 
em tuas mãos de pétalas lunares 
movem se astros em cima da alba da pele
olharemos os insectos perfurarem a treva da noite 
e tecerem claridades 


mas já não tínhamos mais noite a desvendar 
lembro me
a cidade está cada vez mais rente à nossa separação 
caminhamos em direcções opostas 
ou melhor 
eu caminho enquanto tu não existes 
a noite aproxima se com seus territórios de sombra e fábula
areias penumbras oscilantes apagando resíduos de corpos 
teu corpo minúsculo arrefece dentro de mim 
quando as feras despertam nos olhos abandono me
à lama colorida dos terrenos vagos 
dói me a voz ao chegar aos lábios
os dedos penetram o metal cintilam 
conchas abertas ao sonho 
onde terei abandonado a nossa paixão? 

um cristal flutua no enxofre de remotas cidades 
compridos cabelos de jade espalham se sobre o rosto
indecifráveis vegetações 
o sonho torna se exótico quando abres os braços
surgem nas pálpebras caudalosos rios 
neles pouso a cabeça deixo a flutuar
uma mulher anda aos ziguezagues pelos corredores da casa 
vejo peças de vestuário espalhadas pelo chão 
a mulher grita 
corre à roda do quarto insulta os electrodomésticos 
abre o frigorífico 
atira com os legumes congelados ao chão espezinha os
esborracha os contra a parede chora
ri pega numa camisa de riscas e rasga a em mil tiras
recomeça a correr 
entra na casa de banho e abre todas as torneiras 
abre as janelas e ri 
e lambe as vidraças sujas 
derrama açúcar dentro do telefone 
e por cima das petúnias de plástico fluorescente urina 
mas tudo isto se passou há muito tempo noutro lugar 
noutro corpo 

viro me para o sul de nossos corpos e descubro uma ilha
percorro demoradas estradas de tabaco e o ouro envelhecido 
dos caminhos alquímicos desvendo 
os sinuosos mistérios da seda e da pimenta as grandes rotas 
do vento bebo o amargor da vida errante 
onde uma mulher dorme sossegada sobre a cama desfeita 


o telefone toca obsessivamente toca 
um corpo translúcido surge do papel em que te escrevo 
revela se me a água dos gritos repetidos
um foco de luz incide me sobre a boca fechada
procuro me na silenciosa cinza de tua memória
pela casa atravessada de ecos de fogos postos respiro 
dificilmente ouço zumbidos de flipper 
o quarto povoa se de rostos alados mecânicos olhares
pequenas garras de ar 
desfazem se em finos cordéis de terra
a mulher avança sob o peso da tempestade 
aqui esta sempre a chover 
o frasco de barbitúricos conta me o falhado suicídio
a mulher tem o teu rosto ou o meu já não sei 
a luz percorre te o corpo nu
é noite há muito tempo 
fixo um ponto invisível da parede estou sentado na cama 
escrevo te
e tenho a certeza de que ninguém será capaz 
de roubar a minha morte 
porque eu moro neste país líquido por engano 
e tenho dificuldade em imaginar o sono fora de meu corpo 
se quiseres vem dormir perto de mim vem 
sonharemos um país fabuloso junto ao coração das árvores 
vem 
antes que trema o corpo no frio sem deuses e na loucura 

quase amanhece 
lá fora as avenidas mantêm se vazias
subúrbios sonolentos no refrão dum brutal rock’nd roll 
vicious you are so vicious 
baunilha azul nos lábios orgasmo de baunilha 
tarzan de pastelaria um cigarro de chocolate come 
chocolates come sentado no cimo do ice cream toute la nuit 
fuck fuck 
fuck em diferido 
os eléctricos já passaram e as mãos já não são as minhas 
têm sede 
sede de nudez 
mas vou partir deixar te aí
como se fosses tu que me abandonasses 
viajar antes da alba partir 
para longe deste inúteis dias 
eu 
pobre de mim 
navegador da noite próxima da morte 
vou acendendo no sangue os sonhos dum povo que não sonha 
eu 
arquipélago de cinzas oceano do nada 
vou de veias inchadas e penso que talvez não valha a pena 
mas vou 


preciso encontrar o lugar certo para o nosso amor 
queres vir comigo? 
já avisto da gávea inquietantes iluminuras de rostos de afogados 
mãos antigas como rochedos peixes fantásticos 
bocas aflitas e tua boca mordendo 
o cordame avariado pelo sal 
ah meu amigo 
eis o sofrimento de meus lábios gretados pelo sarro oceânico 
eis minhas unhas doentes protegendo o sexo aberto 
às monções aos ventos adversos às vagas rumorosas 

vou abandonar te no lado claro da noite
onde o tempo é um fio de luz rasgando a espessura do corpo 
vou partir 
com estas manchas de frutos sorvados no coração 
para sempre vagamundo 
no corredor de espelhos sem tempo deixo te o sonho
onde já não arde nenhum rosto nenhum nome 
nenhuma voz de silente treva 
nenhum paixão 

abandono te para além da linha nítida da manhã
onde dizem que tudo existe se transforma e continua vivo 
longe 
muito longe desta inocente memória das Índias

Cartas da memória das Índias 2

Segue a segunda carta, um pouco menos longa!


CARTA DA REGIÃO MAIS FÉRTIL 
(a meu pai) 


É a região mais fértil em frutas que há no mundo, as quais são mui boas e excelentes; e todo o país é coberto de árvores de fruto, laranjas doces e azedas, limões de gosto mui suave e deliciosos, romãs, cocos, ananases e outras frutas da Índia. Carnes de todas as qualidades são ali abundantes; o peixe nunca falta. Há milho, mel, canas, açúcar e manteiga em abundância; mas não se cria ali o arroz, que é o principal alimento e vem de Bengala. Mas toda a canela do mundo só de lá vem e há dela florestas inteiras. Há também grande número de elefantes, muita quantidade de pedras preciosas, como rubis, jacintos, safiras, topázios, granadas, esmeraldas, olhos de gato e outras, as melhores da Índia, e por cima de tudo é lá que há a bela e grande pescaria de pérolas mui finas e belas; mas não há diamantes.

Viagem de Francisco Pyrard de Laval: TRADUÇÃO E DESCRIÇÃO DOS ANIMAIS, ÁRVORES E FRUTOS DAS ÍNDIAS ORIENTAIS

vai certamente estranhar esta quase interminável carta 
pai 
há muito que o silêncio se fez entre nós 
o pai com os seus trabalhos por aí onde o tempo custa a passar 
e eu pobre de mim 
tão aflito me sinto com a velocidade desse mesmo tempo 
a cidade é veloz 
não sei se o pai poderá compreender esta velocidade 
aqui tudo se tornou de dia em dia mais doloroso 
minha mulher anda atarefadíssima com o arranjo da casa 
parece que mais nada existe para ela 
eu sempre na rua por aí 
porque não consigo mais suportar aqueles móveis 
onde o pó não chega a pousar 
não consigo suportar aquela barulheira de electrodomésticos 
continuamente a funcionarem 
já não consigo suportar a minha mulher 

saio de casa logo de manhã 
muitas vezes não me apetece ali voltar 
deambulo pela cidade gasto tempo de café em café 
perco me
noite dentro caminho sem direcção precisa 
sem saber para onde vou atravesso a cidade 
à procura não sei de quê 
o corpo esvaziou se lentamente e
com o passar do tempo sei agora 
este casamento foi um erro 
estou terrivelmente só 
talvez seja por isso que me lembrei de lhe escrever 


pai 
decidi partir 
não me pergunte para onde nem porquê 
partir é o que ressoa na minha cabeça 
viajar sem fim e jamais voltar 
também é inútil perguntar me as razões de tudo abandonar
este conforto enjoa me esta vida dá me vertigens e diarreia
de resto duvido que existam razões de peso 
tenho a certeza de suportar minha mulher 
se ainda a amasse 
partilharia com ela a loucura que adquiriu pela casa 
a semanal mudança de lugar dos móveis 
e mais estranho ainda 
quando põe a máquina da roupa a trabalhar sem nada lá dentro 
diz que adora aquele insuportável ronronar de aço 
que lhe faz muita companhia 
enfim 
se eu ainda a amasse talvez 

mas é certo que arranjei outras compensações 
a amizade segura de um amigo 
talvez seja melhor não revelar grande coisa sobre este assunto 
poderia chocar o pai por demasiado íntimo e delicado 
duvido mesmo que conseguisse entender a amizade como eu a entendo 
que quer 
sempre gostei da travessia das noites e das pessoas 
e de beber 
muitas vezes nem sei quem são as pessoas com quem falo 
o pai dir-me-á que tudo isto são simples fugas
é possível 
desde que me conheço que me fujo 
amo essas fugas esses pedaços doutras vidas cruzando se
com pedaços sombrios da minha 
não leve a mal estes desvarios 
no fundo teria sido melhor para mim ter ficado aí 
onde o tempo parece não avançar e a terra é fértil 
provavelmente hoje seria um desses pastores que meditam 
sobre as fases da lua mesmo antes delas se iniciarem 
é possível que hoje fosse um operário exemplar 
trabalharia sem sequer me pôr a questão de que há outro mundo 
por descobrir para lá do incessante roncar surdo das máquinas 
tudo explodiu dentro de mim e não sei como dizer lho
vou largar tudo 
a mulher o trabalho a cidade onde vivo a casa de que não gosto 
a cidade apagou em mim muitos desejos 
a única coisa que ainda faço com prazer é vagabundear 
o que não é muito 
mas sinto me livre e feliz e anónimo

olho a vida como se o mundo desabasse dentro de instantes 


quanto ao emprego não se preocupe 
vou escrever ao meu patrão para me despedir 
não sei o que me espera longe daqui 
nem onde pararei de viajar 
sei que devo partir de todos os lugares onde chegar 
se é que alguma vez vou chegar a algum lugar 
fascinam me sobretudo as cidades costeiras
nelas poderei embarcar para outras cidades 
ou ficar no cais ver os barcos afastarem se
e quedar me silencioso horas a fio
olhando os desaparecer
com o simples desejo de ir com eles 
mas ficar 
ficar um dia mais para que o desejo de partir se torne tão forte 
insustentável 
e me apeteça morrer em cada porto de partida e de chegada 
nesta incerteza viverei o resto dos meus dias 
atravessando mares devassando corpos e noites 
que de mastro em mastro se tornam peganhentas 
indecisas 

digo isto porque ultimamente tenho sonhado muito 
facto extraordinário que já não me acontecia há muito tempo 
nesses sonhos surgem se grandes planos de rostos
antigas topografias de corpos 
desenhados minuciosamente no espaço como mapas pormenorizados 
dalguma costa pedregosa 
paisagens exuberantes imagens a preto e branco 
semelhantes a fotografias ou a visões 
feras que silentemente passeiam pela praia 
e parecem não ter peso 
imensos mares que não consigo localizar nos mapas 
cheguei mesmo a comprar uma quantidade incrível de mapas 
passei noites a estudá los
senti a necessidade absoluta de saber onde encontraria 
aquelas paisagens de rostos e de feras com pêlo ruivo 
assim percorri estradas e arquipélagos 
percorri cidades sem me deter para pernoitar 
imaginei sedes e fomes terríveis doenças 
e nada consegui saber de mim mesmo 
nem onde se encontrava meu corpo 


por vezes acordava em sobressalto 
olhava minha mulher dormir 
perscrutava seu corpo moreno enrolado no lençol 
avistava praias espreguiçadas pela penumbra do quarto 
deve ter sido uma das últimas vezes que a amei 
mas só mais tarde comecei a ter visões 
ficava sentado na cama estático os olhos em alvo 
apercebia pequenas formas geométricas flutuantes 
delicados cristais movimentando se aderiam aos dedos
sementes de estrelas rebentavam deixando escorrer resina 
claridades pelas paredes abauladas 
o ar ficava incandescente 
podia vê lo e senti lo cortante sobre o peito
a princípio assustei me
mas com o tempo habituei me
como me habituei a ver no escuro a desolação de barcos naufragados 
e a viver sem corpo sem sombra e sem reflexo 
minha mulher achou melhor internarem me
mas nunca me foi visitar 
nem uma só vez enquanto estive atado a uma cama 
precisava tanto dela 
ou de alguém que me tocasse 
para me certificar que a vida ainda latejava no fundo do corpo 
não se assuste pai 
tudo isto passou e a morte parece não querer nada comigo 
de resto 
a vida também não 
talvez não devesse falar lhe destas coisas
que direito terei eu de o inquietar? de o perturbar? 
nem sequer lhe devia escrever 
na verdade fomo nos afastando tanto nos últimos anos
o pai já deve ter os cabelos todos brancos 
pouco ou nada tínhamos a dizer um ao outro 
o sol a chuva o mar e a tempestade eram me indiferentes
o cheiro quase doce da terra molhada 
não sei se o pai consegue imaginar o que é uma cidade 
que respiração ferida de cimento se exala dela 
um coração de gasolina e de néon palpita nas avenidas 
aos subúrbios de latas e de estrumeiras 
que cicatrizes sujas de lágrimas se abrem ao cair da noite 
e tudo brilha e tudo parece viver por trás do que já está morto 
entradas de cinemas montras jornais luminosos umbrais de luz 
poderá imaginar tanta luz em plena noite? 
o espaço rasgado por passos rostos barulhos sibilantes 
sirenes gritos aflições pequenos suicídios 
ignoro se o céu imenso daí não o acharia estreito aqui 
percebe agora como é que alguém se pode perder na noite? 
não sei 

noutros tempos é possível que tivesse vivido como aventureiro 
como esses homens tristes tisnados pelo mar 
viajavam 
levando mercadorias e mensagens iam de porto em porto 
enriquecendo fornicando rezando e largando enteados e sífilis 
quem sabe se não sou habitado pela sombra dum país qualquer 
muito antigo e distante 
ou apenas pelo eco duma língua que estala no coração 
uma voz um rosto murmurado um presságio 
então comecei por atravessar o rio nos cacilheiros 
de dia e de noite sem me aperceber que o tempo deste rio 
já o haviam pintado em retábulos magníficos 
e o rio só existia quando sonhava 
como se isto resolvesse alguma coisa ia e vinha 
sem nunca ter a sensação de quem chega ou de quem parte 
sentia me como que a boiar num tempo remoto
e de mais longe ainda que o meu próprio corpo podia lembrar 
um cheiro inquietante a sal devassa me a intimidade do sonho
corroía me a memória

pensei depois ao olhar as fotografias 
as poucas onde me conseguia reconhecer 
que resolveria esta angustiante procura 
julguei que se pudesse recuar ou avançar no tempo 
ser jovem e velho e velho e jovem simultaneamente 
talvez pudesse reencontrar me de novo ou insinuar me
no corpo fotografado 
encontraria o sorriso simples da infância que me revelaria o nome 
mas foi impossível 
porque aquele rapaz que sorria e me olhava 
com seus olhos em papel sépia não era eu 
e tive medo 
passava as noites a embebedar me
turvava a memória de tudo e de todos 
era me doloroso não conseguir corrigir o passado

a viagem que de manhã inicio é um sobejo de vida 
ignoro se irei parar a um desses países cuja linguagem desconheço 
e os costumes do amor me são estranhos 
não sei se haverá regresso 
mas não esquecerei a sua colecção de selos 
quando o pai receber um postal dum determinado lugar 
é sinal de que já nesse lugar não estarei 
será inútil tentar saber do meu paradeiro 
pouco importa se continuo vivo 
se calhar esta viagem não passa de pura imaginação 

tem de me desculpar esta última carta 
de resto pouco disse do que inicialmente lhe queria dizer 
paciência pai 
não nos veremos mais e eu tenho pena de nunca ter tocado 
os seus cabelos brancos 
mas de qualquer maneira já nos víamos muito pouco 
tanto tempo sem memória nos separou 

peço lhe que queime esta carta
destrua a
e se minha mulher lhe escrever ou telefonar 
diga que nada sabe do seu filho há muitos anos 
é melhor assim 
nenhum resíduo nenhum brilho deve assinalar a minha passagem