Poema

th (1)

Modorra

 

Se a perfeição do quadrado almeja encontrar

o ponto final da curva cíclica do desejo indolente

da esfera, pouco importa.

Sabe ele que dos quatro passos

nenhum a mais pode ser dado para negar que é impossível

ser feliz sozinho.

E é.

Antônio Carlos sorri, entre dentes.

Morde o charuto, dedilha o piano

e a curva melódica se desfaz no horizonte

que engole o mar, escondendo o plano medievo da terra

como tabuleiro.

Dois dias, tempo sem conta,

e a certeza de que ninguém goza sorrindo

destrói as esperanças de quem pensa,

sozinho,

no samba sincopado do epilético

que

bate

cabeça

e

treme,

disforme,

sobre a laje fria

da indiferença alheia,

mesmo prostrado em hasta pública.

Prostração.

Quatro séculos ou mais.

Quatro ou mais séculos.

Mais de quatro séculos.

De três formas, a mesma incerteza que se esvai

nas águas do córrego, Tejo tropical (da mesma hasta pública!)

que fede, arde, na insalubridade cotidiana,

esquecida e lembrada,

triste paradoxo,

a fazer pensar nas voltas que Cronos dá,

sem chegar a lugar algum.

Nenhum.

O sonho e o desejo, ninfas do pensamento

que não se fixa em terras desconhecidas que passam

a conhecidas pela conquista

até hoje inexplicada.

Mas consagrada,

em que pese a pobreza da rima que nada diz,

senão continuar ardendo no desejo de dizer.

O quê?

Jamais se saberá.

O poeta é mais um que delira

E se diverte em saber

Que outro(s) poeta(s) estão como ele…

th (3)

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Poema de estalo

Enquanto ando, as quarenta voltas em torno de casa,penso num monte de coisas. As mais variadas, numa sequência caótica que obedece, apenas, ao sabor da vontade de acabar logo com essa chatice (dizem que absolutamente saudável) que é caminhar. Hoje, neste percurso diuturno, pensei nesse poema que escrevi, sem revisão…

th (2)

Sou poeta de ocasião, como denegava Drummond

em sua procura.

Sou poema do senso,

da visão e do tato, do sentir

o que não se diz.

Um poeta que não emerge da imersão das palavras

que caem, uma a uma,

de um penhasco imaginário, de onde

verte o desejo de qualquer coisa

que faz a ocasião

do poeta.

 

Ser um poeta, assim, não vale pena (?)

se a queda da palavra não faz

pulverizar o sentido que faz a ação do poeta alçar

voo de coisa densa, matéria que se diz,

à revelia do mesmo poeta.

E a poesia não se faz, assim,

como do poeta a imaginação, criatura de consequência,

de objetivo, de ponto de fuga.

A poesia segue o poeta e lhe indica os caminhos a não seguir

Por aqueles que leem o poema e lhe dão, de lambujem,

algum valor,

se valor existe para/em poesia.

 

Poeta e poema, siameses descosturados

que se tateiam,

almas vãs que se mapeiam,

ainda que na rima deslizante e má.

Na procura vã de se encontrar

no limbo do sentido, mais além,

antes porém de qualquer coisa que passa

pelo dizer.

Num ciclo sem vício, insidioso,

maquiavélico e sutil, nervoso. Rimado no descuido

inaugura, sempre e mais,

pela palavra.

th

 

 

Despedidas

Hoje faz nove dias que recebi, oficalmente, a declaração de aposentadoria, exarada pela egrégia universidade federal de outro planeta (ufop), aposentadoria esta que foi publicada na DOU onze dias antes, 3 de Maio. Eu poderia dizer coisas e loisas sobre esta “diferença de tempo. Declino desse direito, por absoluta preguiça… Tal situação demanda uma atitude mais protocolar, mais convencional: a despedida. Não o fiz, nem protocolar, nem convencionalmente. Despedi-me, in prasentia de cinco funcionários e uma colega docente. Outra colegam, perguntou-me se eu iria promover uma “despedida”. Disse que não. Sairia, como o fiz à francesa, comme il faut, complementei. De mais a mais, não estava in the mood de ficar sorrisndo e dando abraços e apertos de mãos. por desnecessário. Sei que, no fundo de algumas almas, o sentimento era de alívio… Seixa isso pra lá. Resolvi escrever m poema e enviá-lo, como forma de despedida. Recebi alguns comentários de volta, bem menos que o possível, devido ao numero de endereços utilizados. Segue o poema:

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Poema de ir embora

 

Vou-me embora,

minha Pasargada é outra, bem diferente.

Deixo amigos, de quem já me despedi.

Deixo conhecidos de quem, às vezes, me esqueço e, espero, não inimigos.

 

Vou-me embora

e na minha Pasargada não há lugar para arrependimento, pedido de desculpas e agradecimentos, de todo, protocolares.

Minha Pasargada só me fez aprender, sempre e mais

para chegar ao fim e constatar que ainda há o que aprender.

 

Vou-me embora, e da minha Pasargada vou ouvir

o suspiro de alívio de muitos,

de saudades de poucos, mas suspiros…

A indecisão, a dúvida e, até, a raiva, de lá, do fundo do quintal da outra Pasargada.

Não mais reuniões,

decisões,

discussões,

argumentações,

encheções.

E a rima, de pobre, ficou repetitiva e chata.

Vou-me embora.

 

Miríades de imagens no horizonte de minha Pasargada.

Muitas, diversas, nítidas ou apagadas,

imagens que, alegres ou não, ficaram, ficam, ficarão.

E no lugar comum da expressão,

a certeza da alegria,

a gratificação de ter conquistado o passe livre.

Na estrada, para a estrada, desta minha Pasargada.

Vou-me embora!

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Poema desconsolado

Encontrei alhures. Não me lembro de como, não sei de quem. Guardei. Apenas encontrei e guardei e, por isso, e mais, por ter gostado, aqui trago. Pode ser que mais alguém venha a gostar. Chamo de desconsolado por não encontrar expressão melhor. Expressão do que me veio à mente, ao espírito, quando li…

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“Em redor, tudo está vazio.

A alma não se eleva, mergulhado estou nas profundezas do incerto.

Aquele que me castra e provoca medo com nuances fóbicas.

O tempo voou.

Agora é hora de desmoronar.

Como sobreviver na sociedade que valoriza a beleza, os corpos esbeltos e a moda?

Como respirar num mundo que não é meu?

Como gostar de mim se os outros não me apreciam?

Não, de nada adianta dizer que em 1.º lugar temos de gostar de nós.

Incentivos precisam-se.

Sim, até pode ser na hora “do engate”, mas depois corresponde a um eterno adeus, sem resposta ou retorno.

‘Não é meu gênero!’

‘Quero alguém com outro corpo’…

Amor não é mais do que uma palavra.

A diversão começa nas fodas ocasionais, que se perpetuam como se os humanos fossem coelhos.

Uma procura do prazer instantânea, efêmera, ocasional e desprotegida.

Os coelhos têm um só objetivo: a reprodução.

Os valores soam a bens materiais.

E eu, tenho o tempo que não vivi.

Tenho saudades quando em mim habitava aquela súbita tendência suicida.

Agora, não sou nada.

Frustrado com a vida e a profissão, não amado, perdido, sem horizontes, com os sonhos dissolvidos em ácido e sem eira nem beira.

Para que servem as palavras?

E os atos?

É um fim imenso que tarda, um planalto, uma ave voa na tarde, desliza no ar, enternece o labirinto, mais do mesmo, intriga do espaço, uma menina imersa em solidão sonhando ventos, versos e embaraços, o cabelo apanhado, uma triste menina, foge consigo mesma.

A melodia do acaso esvoaça, o ar embaciado de Verão, como janelas soltas, perdidas em qualquer edifício.

Não invento pardais nem queixumes, há um jogo dos corpos, e só.

A maneira de sorrir, tênue e esparsa como uma vela acesa no acaso nu: escuro de sentir.

Arraiais de fogo, árvores concretas, matéria de luz, refresco da menina, decote, lamento de questionar.

A altura do verso, a aguda margem das ondas.

Talvez continue na procura de um nada acorrentado pela persistência dos ramos da árvore que um dia me suportaram.

Olho, mas em mim o sentimento de amar ou o redutor sentido carnal assimilam instâncias cujo prazer é ultrapassado pela dor de um dia distante e presente na memória.

Folheio, docemente, as páginas do livro amarrotado pelo passar do tempo.

Ao lado, um sopro vazio de tudo e de nadas: o vento a sentir.

Observo.

O impossível transforma-se no todo.

O fruto, banhado pela doce brisa, afasta-se.

E assim, outro dia, outra memória, outro fruto.

Talvez!…

Um dia, disseram que escrever é destino.

Compreender a outra perspectiva, mas manter a posição contrária de então.

O livro da vida de alguns está cheio de momentos de puro vazio, ocasionados por perdas e o tempo que passa.

Caminhos repletos de obstáculos.

A fé torna-se pedra.

A covardia impede o ditar o fim.

Um dia, não mais os detentores do pouco poder, da vaidade, do egocentrismo.

Dinheiro, beleza, sabedoria, estatuto social não servem mais.

As linhas do destino já traçadas desde o nascimento.

Então, do rascunho que se possa ler, ninguém está imune à dependência de toda e qualquer caridade.

Graves consequências das catástrofes naturais e das “mutações” da sempre frágil existência: maquinaria celular.

Neste mundo, sós e despidos.

As assimetrias são evidentes, nada é eterno…

Qual será a missão se a doença alastram-se!

 

Soubesse onde estou, como estou, para onde quero ir, para onde vou…

Ouço os gritos da noite inaudita que, um dia, fortemente me abraçou (há tanto tempo!).

Os dias sempre me decapitaram em pedaços.

A noite rouba-lhes a luz e a sede.

Destino que nunca soube descrever, fruto de erros ou de uma praga.

Já faz tanto tempo.

O hoje e o amanhã não são meus.

Na natureza existem mecanismos de adaptação que se traduzem por formas de sobrevivência.

Não os tenho.

Perdi-os.

Sou espécie nascida para logo entrar em vias de extinção.

Condição humana, sina, pecado, vidas passadas, influência demoníaca ou apenas eu.

Sempre eu e mais ninguém.”

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Poema azedo

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Hoje foi domingo.

Pediu cachimbo.

O cachimbo era de ouro e bateu no touro.

O touro era valente e bateu na gente.

A gente, fraca, caiu no buraco. Buraco fundo. Acabou o mundo.

Nostradamus estava certo?

O verbo no passado e a pergunta sem resposta. Vi ser sempre assim.

Sempre… desde quando?

O sujeito abre a boca e diz que entre as dezenas de livros que recebe, de editoras e de pessoas, apenas um ou dois, quando muito, são passíveis de leitura. “Valem” alguma coisa.

Quem disse?

Como é que isso começou?

Quem foi que disse a Aristóteles que as anotações que fazia para suas aulas eram exatas, muitos bem escritas, articuladas, bem embasadas, argumentadas consistentemente, respaldadas por referências… canônicas?

Quem?

E, no entanto, estas mesmas anotações correram o mundo, rasgaram o tempo, estilhaçaram o espaço e continuam sendo lidas e discutidas e referidas e citadas e… e… e…

Como é que é isso?

Quer dizer que o que eu digo não pode simplesmente ser tomado como palavra minha, dedução minha, articulação minha, resultado de minhas leituras, fruto de minha imaginação, opinião gratuita…

Minha?

Não?!

E o sujeito em e pontifica o que é bom e o que não é?

Isso é justo?

Isso está certo?

O outro tira uma foto de si mesmo, num ônibus de luxo, com vestuário estereotipado, põe uma legenda estudada e repetida aos borbotões, sorri – ensaiado – e se sente muito feliz porque vai se desidratar numa estapafúrdia convulsão sociopática que tem nome… esdrúxulo.

A outra sorri comovida ao ouvir os ganidos infantis de sua cria, ao microfone, em estridentes grunhidos aos quais, pudicamente, cola o rótulo de canções…

Só porque é uma criança?

Só porque a festa de aniversário de criança “é” assim?

E o bando de desocupados imbecilizados que dão risada por conta do casal de turistas atordoado por um enxame de abelhas.

Em lugar de socorro e amparo oferecem o escárnio estúpido e ignorante da cínica situação de estudantes universitários que vivem em repúblicas “federais”.

E ainda querem que eu defenda o direito ao ensino superior público, gratuito e de qualidade, cegamente.

Defender… cegamente… não!!!

Jamais!!!

Não indiscriminadamente.

Há de haver um limite.

Há um limite.

A morte é um limite.

Mas esta senhora é incognoscível… inacessível… inexplicável…

Apesar de recorrente.

Um paradoxo.

Como o do amigo judeu que cita frase recorrente no Evangelho – “Vá e não peques mais” (ou qualquer coisa parecida) – como contraponto para a insistência freudiana em chafurdar no passado, sempre mais, mais e mais fundo, sempre se refestelando em cacos de memória, fragmentos de afeto perdido no tempo e no espaço, na pocilga do desejo que não se satisfaz por impossível

A natureza do desejo é sua insatisfação eterna.

Estaria errado ele em sua ilação?

Não o Evangelho.

Não o psicanalista.

O judeu.

Estaria errado?

Por que estaria?

Se a solução dada pela frase que quase se faz uma parataxe, no conjunto em que se encontra, e aponta para outra dimensão exegética a indicar um caminho mais plausível, mais possível, menos repetitivo e mais saudável para a cura…

Perdão.

Foi domingo…

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Do Seminário 1

Esta  é a primeira postagem para os matriculados no Seminário de Poesia. As postagens acontecerão sempre às terças-feiras para que, na quarta, haja a interação que vai substituir as aulas.

Seguindo o roteiro previamente estabelecido, a postagem de hoje se refere a dois poemas parnasianos, antes de abordarmos dois textos “teóricos” acerca da poesia. Veja abaixo:

A um poeta

Longe do estéril turbilhão da rua,
Beneditino escreve! No aconchego
Do claustro, na paciência e no sossego,
Trabalha e teima, e lima , e sofre, e sua!

Mas que na forma se disfarce o emprego
Do esforço: e trama viva se construa
De tal modo, que a imagem fique nua
Rica mas sóbria, como um templo grego

Não se mostre na fábrica o suplicio
Do mestre. E natural, o efeito agrade
Sem lembrar os andaimes do edifício:

Porque a Beleza, gêmea da Verdade
Arte pura, inimiga do artifício,
É a força e a graça na simplicidade.

(BILAC, Olavo. Obra reunida. Rio de Janeiro: Aguilar, p. 268.)

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A poesia

Donzela! vem que é noite e a lua já derrama

Do céu azul, profundo, o pálido clarão!

A brisa a ciciar parece que te chama

A gozar junto a mim o amor na solidão!

 

Oh! Vem – tudo é silêncio e apenas o regato

Serpeia argênteo além, sentido a murmurar!

Dilata a flor o seio e geme lá no mato

O triste noitibó, que esquiva-se ao luar!

 

Que doce aroma expira a flor da guabiroba!

Não tardes! Vem, febril, cair nos braços meus!

Quando sinto o estalar das ramas da pindoba,

Logo imagino o som dos breves passos teus!

 

Vem doce noiva minha! A natureza é quieta!

É solitário o campo e longe o mundo é!…

Mas que donzela é essa, oh! Pálido poeta –

Por quem deliras tanto e em que tu’alma  crê?!

 

Quem é?! Fada gentil, que embala-me os sentidos

Com perfumes na aurora e à noite co’harmonia,

Que traz a luz até na fímbria dos vestidos,

 

Que é sempre moça e loura, e chama-se Poesia!

Quem é! Fada gentil, que embala-me os sentidos

Com perfumes na aurora

1877

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Considere agora o seguinte: os parnasianos elegiam como seus mestres os poetas Leconte de Lisle,Charles Baudelaire e Théophile Gautier. Este último, apesar de ainda sofrer influência da estética romântica, pregava a necessidade do rigor formal na composição poética, a busca de imagens que sugerissem plasticidade e o abandono do subjetivismo. Na opinião de Gautier, a palavra deveria ser tratada como um objeto – e o poema deveria nascer da reflexão, e não do automatismo da inspiração (ou entusiasmo criador) cultuada pelos românticos. É dessas ideias que nasce a teoria da arte pela arte, segundo a qual o único e verdadeiro sentido da produção artística deve ser o da criação do belo. Ou seja, o fenômeno artístico é, ele próprio, o único fim que a arte deve almejar.

Considerando o que já foi apresentado nas aulas do seminário e os comentários sobre os poemas lidos até agora, escreva um texto (não menos que 300 palavras) comentando possíveis pontos comuns e possíveis diferenças entre os poemas lidos em sala de aulas e os aqui apresentados, a partir do tópico “processo e criação poética”. Bom trabalho!

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Retorno

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Depois de seis meses, estou de volta. Ainda sinto os pés pisando em nuvens, como se, de alguma hora para outra, tudo fosse mudar. Mas sei que não vai e isso é bom! cento e oitenta dias que vão fazer História, não para muita gente, mas… E os cinco dias sevilhanos vão durar ainda um bom tempo retumbando na alma… De tudo fica sempre alguma coisa, ou muita coisa. Tento retomar o ritmo e desejo mante-lo. A ver…! De quebra vai um poema do Herberto Helder, poeta português, recentemente falecido, cuja obra comecei a ler e tem me impressionado.

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Um poema cresce inseguramente
na confusão da carne,
sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,
talvez como sangue
ou sombra de sangue pelos canais do ser.
Fora existe o mundo. Fora, a esplêndida violência
ou os bagos de uva de onde nascem
as raízes minúsculas do sol.
Fora, os corpos genuínos e inalteráveis
do nosso amor,
os rios, a grande paz exterior das coisas,
as folhas dormindo o silêncio,
as sementes à beira do vento,
— a hora teatral da posse.
E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.
E já nenhum poder destrói o poema.
Insustentável, único,
invade as órbitas, a face amorfa das paredes,
a miséria dos minutos,
a força sustida das coisas,
a redonda e livre harmonia do mundo.
— Embaixo o instrumento perplexo ignora
a espinha do mistério.
— E o poema faz-se contra o tempo e a carne.