Poema

Delírio

Entre as rotundas colinas

e seus picos túrgidos

antever o vale hexamétrico

amplo e ondulado

a caminho do pecado, sem rima

e a haste intumescida

erguida, entre

num vasto plano

de veludo acastanhado

sobre colunas de alabastro,

torneadas e amplas

e os pés.

Ai, meu Deus, os pés!

O quê?

Não, não é o cântico dos cânticos, mas bem

poderia ser

ainda que mais próximo daqui

desse tempo.

Insistência

Quis escrever um poema sobre a cor alaranjada do por do sol. O poema não saiu. O céu escureceu. Uma chuva miúda caiu. Mas o poema ficou encruado lá em cima, depois das nuvens. Ou ficou embaixo da terra, esperando melhor momento para brotar. O que fazer? Sem saber ao certo, caminhei. Trinta minutos. Quarenta voltas. Quatro mil metros. Dose diária de um remédio amargo a fazer efeito se tomado, religiosamente de segunda a sexta. Ainda assim, mesmo medicado, o poema não saiu. Nas páginas do livro experimental de Nuno Bragança, a procura pelos verso exato se perdeu. Os nomes das personagens. A reprodução do que vai na cabeça de cada personagem. A diagramação de algumas páginas e a intermitência de trechos em letra miudinha, em itálico, em primeira pessoa, a eriçar os pelos da cabeça e dar coceira no cérebro. Nada do poema sair. O chimarrão, preparado fora do rincão gaúcho. A mistura de suco de acerola, limão e um pozinho mágico para, supostamente, acelerar o metabolismo: gengibre, guaraná e peca peruana. Se não me engano. O margo agiu, mesmo com o adoçante. O efeito foi esperado e desejado no ato de beber. Nada de poema. O ouvido já quase calejado por dias e dias com o mesmo assunto, os mesmos números, a mesma histeria, as mesmas preocupações e um único fato: irritação, estresse, impaciência. Mas nada de poema. A descrição, em palavras, do alaranjado do ocaso não seria perfeito. Não faria à experiência visual da mesma cor. Não cederia ao impacto do mesmo ocaso. A repetição que fascina. A imaginação que se mexe, sem conseguir produzir o poema. O pão velho dos cachorros. A goma de tapioca na pia, a esperar pelo fogo e pelo queijo e pelo ovo, depois da manteiga. Os nacos vermelhos da melancia na geladeira. A brisa fresca que passa vez por outra. A mesmice do nada que ainda, assim, renova. E o poema não saiu.

Surpresa!

Um título interessante seria “ritmo de baião”. Isso levaria o leitor a pensar numa generalização que, inevitavelmente estaria circunscrita ao universo da música. Nessa mesma perspectiva se acrescentasse um artigo definido no início e junto à preposição, teríamos a confirmação de uma mesma ideia, porém, limitada, especificamente a um ritmo musical: o ritmo do baião. Não é esse o caso. Não sou musicólogo ainda, que por gostar de poesia e por ter com ela lidado ao longo dos 32 anos de magistério superior, o tema da musicalidade não seja totalmente estranho para mim. No entanto, minha vaidade não é tanta que me leve ao desvario de dizer que “entendo” de música Quando muito, gosto. Como mencionei poesia, creio que apresentei a chave de leitura desse texto de comentário que aqui começo. Vai ficar sem título, de propósito. Vou comentar um livro de poemas. De sonetos, para ser mais exato. E a falação inicial é por conta do nome do autor: Afonso Guerra-Baião. Assim mesmo, com hífen e tudo. Não resisti à blague! Ritmo é a palavra chave para ler essa coletânea de poemas. A escolha de uma forma tradicional não me parece abusada. Pode ter sido uma forma de celebrar a poesia em sua concepção, digamos, mais acadêmica – o que acaba por ficar de lado quando se corre os olhos s obre os versos de Afonso, e se delicia com o que ele tem a dizer. Por outro lado, A utilização do soneto pode ser instrumento de inferência sobre uma preferência – desculpem a rima involuntária – do próprio autor. Quanto a isso, não se pode dizer nada. O adagiário está certo: gosto não se discute. Para o bem e para o mal, acrescentaria eu. Aqui, o em prevalece. De uma ou de outra forma, essa escolha, considerada em absoluto pode ser mais um exemplo de uma certa tendência da produção poética contemporânea no/do Brasil. Esse tema, vou deixar de lado, pois em vespeiro não se deve meter a mão. As consequências podem ser incontroláveis. Vamos ao que interessa. Sonetos de bem-dizer/maldizer é o título do volume. Já na capa desassombra-se a simbiose que percebo na proposta implícita – note-se que sou eu que percebo. Não sou leviano a ponto de “afirmar” que essa foi a intenção explícita do autor. Não conversei com ele acerca disso. Se houver coincidência, tanto melhor. Por enquanto, só posso afirmar que percebi tal simbiose. Pois bem. A tal simbiose junta a traição medieval das cantigas com a natureza romântica da forma. O Romantismo aqui é o alemão, o de origem, aquele que tem seus preâmbulos já no século dezoito europeu. Assim, o primeiro impacto é por demais instigante, faz o cérebro coçar com a curiosidade sobre o que se vai ler nas páginas do livro. Uma curiosidade que se satisfaz, posso garantir. Este primeiro aspecto busca a criação de um ambiente poético um tanto inusitado para os trópicos. Isso porque o conjunto de sonetos está muito longe de emular as duas tradições que congrega: a medieval e a romântica. Conteúdo e forma. Muitos narizes podem se torcer aqui, mas sou partidário do princípio da liberdade absoluta do poeta. Eu disse absoluta. Logo, não há que apor qualquer epíteto, por melhor que seja. Os trópicos não conheceram idade média, mas chafurdaram na herança romântica, com todas as suas idiossincrasias. Os sonetos de Baião são um exemplo bem acabado dessa simbiose, que percebo. Em alguns deles há uma espécie de epígrafe – pequenas citações, na verdade – que servem de relé para a leitura simbiótica que menciono. Nesses casos, a leitura se faz mais divertida e enriquecida, pois promove a curiosidade por perceber o jogo implícito nos versos que dialogam com a “epígrafe”. Outro aspecto interessante: todos os sonetos – salvo engano meu – são dodecassílabos. Isso marca o caráter clássico da forma, retomado pelo poeta. No entanto, a blague se faz quando se percebe que não há rima. Não no mesmo sentido da métrica, aqui respeitada – o que explica a ocorrência, aqui e ali, desse procedimento poético, tão caro ao soneto, em sua concepção tradicional. Os versos brancos, na verdade, são os responsáveis pelo ritmo dos sonetos, o que nos leva de volta ao começo desses comentários. Podem conferir! A leveza da linguagem poética de Baião se faz, então, plena, como no exemplo abaixo: “invento a flor inversa e verso em prosa / a forma das guirlandas, o sentido / latente nas grinaldas, o motivo / oculto nos espinhos e nas rosas;” “Tamina”, p. 33). Parece até de propósito, mas a escolha aleatória desses versos parece contradizer o que afirmo sobre a rima. Mas não vou ficar me justificando. O primeiro verso é, praticamente um pentagrama, dada a sonoridade que apresenta, sobretudo pela insistência no “v” e na repetição de “r” e “s”. A musicalidade é delicada. Neste mesmo versos, a ambiguidade criada pela troca de classe do vocábulo “verso”, faz parecer divertida a arte de compor poesia. No conjunto do “maldizer”, Baião faz jus à categoria satírica do medievo lusitano e desenvolve os sonetos e maneira direta, privilegiando as “categorias” dos sujeitos que “ataca”, em lugar de identificá-los nominalmente. A galeria é numerosa e contempla do “fedaputa” ao Chato, ou do “demagogo, ao “invejoso”. Note-se que, neste conjunto, o poeta não se utiliza do mesmo recurso que utilizou na outra série: não há “epígrafes”. O jogo de identificação com os “tipos sociais” é absolutamente cristalina, direta e transparente. Tal recurso, leva o leitor a e divertir de maneira gratuita, sem os odioso pejos do “politicamente correto” que, ao fim e ao cabo, não serve para mais nada, além de “encher o saco”. Ops…! Um exemplo pode ser: “ ó tu, enxuga gelo de canalhas / ó tu, adulador de proxenetas / que tens as porcas mãos já calejadas / de tanto lhes bater palma e punhetas,”. (Um puxa-saco, p. 57). Penso desnecessário qualquer comentário! Para finalizar, chamo a atenção para outro recurso estilístico assumido por Baião: a utilização de minúsculas. Com uma exceção aqui e ali, os poemas são escritos apenas com minúsculas. Valter Hugo Mãe, romancista português o faz com igual maestria. É isso. O volume se apresenta com uma capa sugestiva, diagramação simples e elegante. Volume delicioso de leitura prazerosa. Uma agradável surpresa, dado que não conhecia o autor. Agora, penso eu, já conheço um tantinho. Evoé!

Música

Não se trata de um poema tout court, ao pé da letra. Seu autor foi Harold Arlen que, junto com Ira Gershwin, compuseram a música para a primeira versão de um filme inesquecível: A star is born. Ao escrever isso, por óbvio, vem à mente a imagem de sua mais preciosa, genial, contundente, emocionante, inigualável, impecável intérprete: Judy Garland. Os comentários são, oura vez, por óbvio, dispensáveis. Procurei na internete por interpretações desse número e encontrei pencas: Ella, Sarah, Frank, Natalie, and so on. Nenhuma delas, indiscutivelmente, nenhuma delas consegue superar a original. A beleza, a contundência e a consequência – no filme é esta música que dá o mote para a narrativa do romance entre a personagem vivida pela própria Judy e pelo impecável ator James Mason. Vale a pena conferir – da interpretação preenchem cada lacuna semântica da letra que se faz completa na economia da narrativa fílmica. Não sou cinéfilo ou cineasta. Não me arvoro a nomear a mim mesmo um crítico de cinema, mas ouso afirmar que estou pra ver coisa mais perfeita que esta comunhão: letra, música, interpretação e narrativa. É i-ni-gua-lá-vel!!! Ao final, as ligações para os videoclipes que encontrei. Confesso que deve haver mais, a minha preguiça me impediu de continuar.

The night is bitter
The stars have lost their glitter
The winds grow colder
And suddenly you’re older
And all because
Of the man
That got away
No more his eager call
The writing’s on the wall
The dreams you dreamed have all
Gone astray
The man that won you
Has run off and undone you
That great beginning
Has seen its final inning
Don’t know what happened
It’s all a crazy game
No more that all time thrill
For you’ve been through the mill
And never a new love will
Be the same
Good riddance, good-bye
Every trick of his you’re on to
But fools will be fools
And where’s he gone to

The road gets rougher
It’s lonelier and tougher
With hope you burn up
Tomorrow he may turn up
There’s just no let up
The live long rougher night and day
Ever since this world began
There is nothing sadder than
A one-man woman
Looking for the man
That got away
The man that got away

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A noite está amarga

As estrelas perderam seu brilho

Os ventos ficam mais frios

E de repente você está mais velho

E tudo por causa

Do homem

Que foi embora

Não mais sua chamada ansiosa

As frases na parede

Os sonhos que você sonhou têm todos

Desviaram-se de seu caminho

O homem que ganhou você

Fugiu e desfez de você

Aquele grande começo

Viu seu turno final

Não sei o que aconteceu

Isso tudo é um jogo maluco

Não há mais a emoção de sempre

Pois você já passou por esse processo

E nunca um novo amor voltará

a ser o mesmo

Boa viagem, adeus

Todo truque dele você conhece

Mas tolos serão tolos

E para onde ele foi?

A estrada fica mais acidentado

É mais solitário e mais duro

Com esperança você se queima

Amanhã ele pode aparecer

Simplesmente não há desistência

A vida continua difícil noite e dia

Desde que este mundo começou

Não há nada mais triste do que

Uma mulher de um só homem

Procurando pelo homem

Que foi embora

O homem que foi embora

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https://youtu.be/gNDu75gEiIo (a original)

https://youtu.be/YC7A6SdBYyw (Francine Reed)

https://youtu.be/sCacAnN-rVg (Julie Andrews)

https://youtu.be/D7S5LQQUGIM (Jane Monheit)

https://youtu.be/SSjvwjZAcSI (Dinah Washington)

https://youtu.be/oulqZPXovb8 (Natalie Cole – não gosto muito)

https://youtu.be/bS59gGf8OH4 (Frank Sinatra – que troca o gênero da letra… não gostei…)

https://youtu.be/kc8h6IwokLw (Shirley Bassey)

https://youtu.be/2H0ZhxeSZxI (Scherrie Payne)

https://youtu.be/ytSxPPHA2L8 (Sheena Easton)

https://youtu.be/P-vAkp18_gs (Lorna Luft – filha do terceiro casamento de Judy Garland)

https://vimeo.com/17200628 (Rufus Wainwright)

https://youtu.be/Idt_drk52a8 (sarah Vaughn)

https://youtu.be/BT–qwLLYsg (Ella Fitzgerald)

De antologia

Ele são dezessete. Nomes, os mais variados: Gabriel, Anjinho Barroco, Ana Maria, Elsa, Joaquina, Xamalu, Joel, etc. Muitos e variados nomes. Nomes e apelidos que se enfileiram numa média de 4,3 textos atribuídos a cada um deles, entre prosa e verso. Treze deles têm cinco textos, dois têm dois e um apenas um. O que importa, ao fim e ao cabo, é o desejo desses 16 sujeitos poéticos que se reuniram em comunidade e apresentam volume alvissareiro intitulado Fénix ardente, A antologia apresenta a produção literária de um grupo de pessoas que compõem o Grupo de poesia – Gente viva, de Vila Franca de Xira, em Portugal.

Bom. Vamos lá. Gosto de palavras. Gosto de procurar no dicionário as acepções de palavras. Não vou deixar esse gosto de lado. Antologia: substantivo feminino. No âmbito da Botânica, significa estudo das flores, coleção de flores escolhidas; florilégio. Aqui, seu significado mais preciso é: coleção de textos em prosa e/ou em verso, geralmente de autores consagrados, organizados segundo tema, época, autoria etc.; livro que contém essa coleção. Pensando nestas acepções relacionada ao livro Fénix ardente, de cara, me dá vontade de dizer que, mesmo a acepção ligada ao campo da Botânica, encontro nos textos do volume uma seleção de poemas que são flores porque palavras cultivadas brotando textos que evolam o perfume da arte. Bonito não?! Pois é. O livro é mesmo um florilégio. Apresenta passagens preciosas tais como: “Um músico é também um poeta, e, eu apenas / queria transformar a minha poesia numa singular melodia (…).” ou “Neste pouco caminho que ainda me resta / estou eu perdida demais, / (…) Perdida dentro das palavras.” Exemplos esses de flores delicadas, simples de suavidade inconteste. Exemplos de uma delicadeza apenas possível pela poesia. No entanto, faço uma curva acentuada e mudo a direção de meu olhar para cinco desses poemas, todos de um mesmo autor, David Fernandes Silva. Seu mote  é a figura de Dom Galvão. De cara, a epígrafe – como soe acontecer e aqui não é diferente – aponta para o ponto de fuga do tema: a figura lendária de Dom Galvão, um dos cavaleiros da Távola redonda. De quem se conta que era um dos mais jovens, supostamente sobrinho de Artur, que aceita o desafio de um Cavaleiro verde – um cavaleiro enorme, completamente pintado da cor verde, incluindo a pele, a barba, a roupa, o cavalo e sua arma, um machado – para ser atacado com seu próprio machado. Galvão corta a cabeça do tal cavaleiro. Diz a lenda que o corpo do tal cavaleiro pega a cabeça e a recoloca em seu devido lugar. Este, por sua vez, ao sair do castelo, diz a Galvão que o encontre na Capela Verde, dali a um ano. Diz a lenda que, chegado o tempo de cumprir o combinado Dom Galvão parte para a Capela Verde e, próximo de chegar, é recebido por Bertilak de Hautdesert, o senhor do lugar, e sua bela esposa. Nesta parada, o cavaleiro é tentado por três vezes pela esposa de seu hospedeiro que o tenta seduzir em vão. Ao aproximar-se o dia do encontro, Galvão parte da corte para encontrar a Capela. Lá chegando se depara com o Cavaleiro Verde que, na verdade, é Bertilak. Este explica que o sortilégio foi ideia de Morgana para tentar ludibriar Galvão. Ao final, como símbolo de sua atitude, Galvão recebe de Bertilak uma cinta verde que passa a usar. Voltando a Camalote, conta a seus pares a aventura e todos explicando que usa a cinta verde como sinal de vergonha por haver quebrado o acordo com seu anfitrião. Os poemas de David, por metonímia ouso dizer, faz uma homenagem a esta figura lendária, partícipe do ciclo arturiano, capítulo da História peninsular. Em seu conjunto de poemas, faz o elogio de cinco virtudes que dão cor à personalidade de Galvão: honestidade, cortesia, galhardia, caridade, fidelidade. O título do conjunto de poemas pode ser lido como um índice de representação da personalidade de Galvão que, por sua vez, ilustra o ideal cavaleiresco, item constitutivo do período a que se circunscreve a narrativa lendária. Os poemas, um por vez, anunciam as virtudes de que se deve servir o cavaleiro – o tom é didático, como faz supor o referido ideal em seu contexto. “Mais valoroso é teres força / para embalares um bebé / do que para dispensar adversários…”,numa alusão clara, diria eu, à sábia utilização da força física com a delicadeza que a caridade exige. Ou então, “Tudo o que és / deve ser Franqueza”. Note-se a personificação de  uma atitude mental/moral, a franqueza, procedimento poético já muito caro ao período do qual o cavaleiresco é devedor. Ou ainda: “Insufla nas tuas narinas / o espírito primordial, / aquele que pairava sobre as águas / e que cindiu a terra, / no tempo do vazio e das trevas!”. Os exemplos são muitos e variados, multifacetando as possibilidades dos poemas que, ao fim e ao cabo, concorrem para a construção de um discurso poético que, para além de remeter a um passado glorioso da cultura lusitana, revela espírito delicado, de acuidade refinada, para a percepção de nuances do espírito humano, tão raras nos dias que correm. Recordando a ocasião em que ouvi o poeta, certa feita, declamar um poema de sua lavra, “mano mais velho e mano mais novo” – creio que essas expressão é parte do poema lido então –, fica claro para mim, a partir da leitura de “O escudo de Dom Galvão” o fato de ser a poesia, aqui, o instrumento de expressão de uma personalidade artística genuína, ímpar, peculiar. Seu traço – ele, o poeta, é também artista plástico – só faz conjugar esta constatação. As virtudes que alimentam a construção poética e David, neste pequeno e precioso conjunto, remete como já dito ao período cavaleiresco peninsular e, voltando ao começo deste meu comentário, coloca luz sobre a imagem do “escudo”. Este elemento, componente do título do conjunto poético, pode estar a remeter o leitor para a ideia da carência desses valores que devem ser procurados e protegidos, por um lado. Por outro, a mesma imagem pode instrumentalizar outro índice: o da necessidade se valoriza, vivenciar, propagar e compartilhar as mesmas virtudes, como caminho de proteção do sujeito, perdido que está entre tantas veredas obscuras da falta de algo que o conduza “pelo bom caminho”. Parabéns ao poeta!

Dois poemas

Ando tentando compor outro livro de poemas. Hoje, resolvi estes dois:

Entre a nuvem e o poema

é interposta a palavra do poeta

que, silente,

pensa na resposta

à dúvida que algures alguém se faz.

Pensar

a escrita de um poema como quem pensa

na existência da nuvem

é brincar de nada e dançar ao som

da lira que a musa silente toca,

enquanto observa o poeta, em dúvida.

E duvidar, um dia, pode levar ao escrever

que faz do poeta

aquele que pensa, e duvida,

entre sonoridades alheias

que acompanham

o olhar cândido e suspicaz

de quem tudo vê.

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O conhecimento da noite

se insinua pela sombra,

pressupõe o sol,

prova inconteste da existência de si.

Ciclo natural.

Ondas térmicas que envolvem a alma inquieta

que se deleita, só,

no manto claro do satélite,

reflexo

convexo da luz.

Ir e vir

que não fatiga, inspira

a constatação célere

de que não vale a pena o abatimento.

Portanto,

conhecer a noite é o passo

que se dá ao perceber

que a sombra não existe (só existe)

por conta do sol.

Contemplação.

Finale

Para encerrar a série sobre o Aldravismo, hoje falo um pouco de um livro peculiar. O texto não será de saudação a um novo membro, não será prefácio de um livro de poesias, nem será a introdução de um assunto novo, com ares presunçosos de verbete enciclopédico. Não, definitivamente. Não se trata um livro (por mim) muito esperado. Li-o, por primeira vez, ainda encadernado, como primeira versão de uma tese, com capa plástica e espiral plástico preto. Li-o por completo e fique assaz admirado da força de suas páginas, da coragem de suas assertivas, da necessidade de trazer à luz aquele material, urgente para colocar as bases de um pensamento novo que surgia entre montanhas ferríferas e matas já não virgens assim, nas cercanias da primaz de Minas. Pois é. Trata-se de um livro de textos “avulsos” que formam um conjunto de ideias robustas e articuladas entre si: os fundamentos disso que tratei aqui por quatro outro textos: o aldravismo. Seu título: “Aldravismo: reinvenção da arte pelo jornalismo cultural”. Seu autor: José Benedito Donadon Leal. dileto amigo. Seguindo o subtítulo, na capa aparece uma pequena palavra: ensaio. Hoje ouvi numa estação radiofônica, um locutor dissertar por alguns segundos sobre o conceito de ensaio. Chamou-o “textão”. E, presunçosamente irônico, disse que se tratava de gênero muito comum na atualidade, dependendo, infelizmente da “qualidade” (sic!) do ensaísta. E terminou seu comentário com uma risadinha, igualmente presunçosa, marcada por uma pretensa ironia. Fiquei com pena. Por isso, não me estendo sobre a conceituação do gênero, mas circunscrevo minas observações para esse conjunto magnífico de ensaios, em nada comparáveis a “textões”, como denigrem as mentes ululantes do hodierno cotidiano da pressa, da superficialidade e da pouca substância. O livro de José Benedito reúne manifestos da criação do movimento adravista, observações atentas e cuidadosas acerca de manifestações artísticas – sobretudo pintura e poesia –, passeia pelo universo da Literatura, na perspectiva de seu particular discurso e finaliza com uma proposição poética. Corajoso o volume. Corajoso e bem escrito. Corajoso, bem escrito e fundamental para quem quer começar a entender do que se trata o tal Aldravismo. As circunlocuções críticas e assertivas do autor revelam sua verve poética, ao mesmo tempo que, galhardamente, advoga a originalidade do movimento em sua fundamentação, digamos, teórica. Quando o li pela primeira vez, disse que deveria ser publicado. Agora o foi. Discorri por suas páginas encantado com a capacidade de deixar clara a argumentação de cariz semiótico – balizamento de que o autor se vale, com maestria e brilhantismo – a orientar o raciocínio e a argumentação do texto. As proposições, ao final seguem idêntica orientação, apontando, subliminarmente, para o espírito deste movimento, o Aldravismo, que surgido em Minas, resgata o espírito desbravador e independentista dos árcades. Ao mesmo tempo, este espírito abandona a armadilha saudosista para apontar caminhos absolutamente originais que levam para a criação de uma forma genuinamente brasileira de poesia: a aldravia. Agora, depois de reler a última parte do livro, tenho quase absolta certeza da inutilidade de meu planejado verbete – quem leu os outros textos que escrevi aqui vai saber do que estou falando. Fica então, uma vez mais, um convite para a leitura deste volume instigante, sedutor, a desbravar a mesmice das repetições inócuas deixando o caminho livre a preparado para o florescer da nova forma poética. Evoé!!!

Mar: metonímias possíveis da/para a poesia

Hoje é dia da terceira intervenção acerca do aldravismo, em suas manifestações. Vai mais um prefácio, desta feita, ao livro de “prosopoemas” de Gabriel Bicalho, intitulado Âncoras flutuantes.

Prefácio

O aldravismo, em sua proposição e em suas realizações, até o presente momento, não é pós-moderno. Qualquer referência ao termo “pós-modernismo”, aqui, expõe imediatamente as retinas um tanto fatigadas de qualquer leitor de poesia ao risco de ser acusado de perpetuar certa moda intelectual passageira, fútil e sem importância. Um dos problemas é que o termo está em moda e, ao mesmo tempo, é irritantemente difícil de definir. Essa palavra não tem sentido, deve ser usada sempre que for possível. Este “axioma” – ainda que o termo seja discutível, neste caso – serve de exemplo da provocação em nada pós-moderna, implícita no exercício poético do Aldravismo. Adiantando um passo: a experiência proso-poética de Gabriel Bicalho, como as demais, originadas no cenáculo do Aldravismo – atenção: estou longe de desmerecer, tanto o termo usado, quanto à infundada “ironia” que supostamente alguém há de associar a meu raciocínio, aqui! –, é prova cabal e suficiente que “moderno” e/ou “pós-moderno” são termos que “reduzem” a espessura da aventura poética do aldravista em questão. De novo, peço atenção para o termo “aventura” – sempre com o mesmo norte semântico – aventura no sentido de descoberta e ousadia, não no sentido de irresponsabilidade e/ou gratuidade.

Chamo de fragmentos aos pequenos prosopoemas que Gabriel Bicalho cria. Na falta de termo mais “adequado” – se é que ele existe ou, antes, teria que existir… –, o termo “fragmento” remete ao princípio metonímico do poeta aldravista, acompanhando a maré de seu grupo, neste percurso de, já, dez anos. O fragmento remete à ideia de uma totalidade desejada pela poesia, ainda que ciente de sua precariedade inata, expressão vocabular que, como a maré que envolve as âncoras do poeta. O fragmento, então, é signo que permite à voz poética o trânsito pelas águas da existência e as marés da poesia, livres aqui da ressaca, fenômeno natural que poria a perder todo e qualquer esforço de conservação de formas, quaisquer que fosse. Os prosopoemas de Gabriel Bicalho, então, metonimizam o fazer poético, dissolvendo em águas novas a poesia que sai do “ventre de Minas”.

São 58 âncoras que vicejam no acobreado mar de palavras que constituem os prosopoemas aqui apresentados. A ilustração das âncoras, para além o texto a que remetem, também apontam para o fundo, indicando o direcionamento do raciocínio poético do autor. Ambígua e simultaneamente, estas âncoras seguram o barco do desejo poético, em sua expressão, ao mesmo tempo em que deixam ao sabor das marés, os sentidos que, metonimicamente, oferece ao leitor. Este “compadrio” ou, mesmo, esta cumplicidade, são peças fundamentais na construção do(s) sentido(s) expressos pelos prosopoemas de Gabriel Bicalho. Renovando experiências vanguardistas dos haicais, em perspectiva mais profunda; e, mais diuturnamente, o desafio das “aldravias”, o texto de Gabriel Bicalho anuncia a certeza de que a criação poética renasce como Fênix, de suas aparentes cinzas mortais. O mito revisitado, mesmo que inconscientemente, corrobora a veraz sedução que as aldravias exercem sobre os caminhos (e descaminhos!) da Literatura no Brasil. Há que reconhecer que, por menos reconhecida que seja uma proposta, não se faz suficiente dizê-lo. Há que se experimentar em carne viva – como na dicção de Chico Buarque de Holanda – para então ser possível avaliar.

Âncora é palavra originalmente circunscrita à cultura marítima. Peça de ferro forjado destinada a reter o navio, segurando-o pela amarra num fundeadouro. Neste sentido, os textos de Gabriel Bicalho podem ser lidos como objetos que asseguram ao sujeito poético, sua estabilidade existencial e emotiva. Nas palavras que se movimentam qual maré – na inexistência metonímica de pontuação (exceção feita ao final de cada fragmento e uma ou outra ocorrência rara) – a construção de cada fragmento confere ao pensamento poético movimento encapelado de indagações existenciais, ao sabor de ventos insuspeitados vindos das montanhas: implícita min

eiridade, latência aldrávica que instiga e seduz o leitor.Âncora é também termo afeito à aeronáutica, nomeando aparelho com vários ganchos articulados que o aeronauta lança da barquinha para se agarrar ao solo e parando o aeróstato. Já nesta camada semântica, o já referido “vento” que sopra das alterosas redinamiza o movimento interno de cada uma das “âncoras”, desta feita, bólido errante num mar de palavra que mesmeriza o olhar poético. A insistência em perguntas que não se respondem, a repetição de ideias e sensações, conduz o poeta pela atmosfera do fazer poético que não abre mão de sua liberdade – ainda que tardia!

Em sentido figurado, “âncora” pode apontar para alguma coisa que serve para proteger, para amparar; espécie de arrimo, amparo. Aqui se encontra o clímax desta poesia que se impõe pelo inesperado da construção, pela leveza das imagens e pela constância do convite: pensar, rever, imaginar. Os prosopoemas “ancoram-se” na certeza do viver poético que cristaliza experiências em versos não pontuados, que se concentram em fragmentos enleados pelo movimento marítimo da poesia de Gabriel Bicalho. Na aparente ausência de elaboração, num “fingido” exercício de simular circunstância – afinal a poesia jamais deixa de ser fingimentos que se confirma, constatação que se desfaz: paradoxo axiomático – o poeta desenha sua rota pelas veredas aquáticas da experiência universal do sujeito em sua precariedade. A palavra lhe serve, então, de “âncora”, espécie de tábua de salvação, desesperada e liricamente deseja pelo bateau ivre de Rimbaud:

âncora final

veleiro noturno o tempo passa sem a clara lua no azul nublado deste céu escuro neste mar amaro que me vem dos olhos veleiro soturno sob a luz funérea de um farol de sombras que nos faz em trevas velejando agora retina à rotina da rota maldita de um remar sem remos marujos caramujos que seremos sempre em velados veleiros flutuantes âncoras pelos negros mares de afogar-nos plenos de tristeza e a sós reprimindo os sonhos loucos pesadelos pelas noites frias sem saber se somos fomos ou seremos só restos de nós: quantas vezes mais velejaremos tristes aos insólitos limites da eternidade?

Por fim, esse substantivo de dois gêneros na/da cultura da informação, âncora, refere-se ao profissional do jornalismo televisivo que centraliza a emissão nos noticiários, cuidando pessoalmente ou participando da elaboração do texto das informações e apresentando-as, frequentemente com comentários opinativos. Neste diapasão semântico, a palavra que nomeia os fragmentos do livro de Gabriel Bicalho também encontra eco. Qual “jornalista”, o poeta palmilha o cotidiano, recobrindo sua banalidade com o véu da imaginação poética. Sua caravela singra o encapelado oceano do viver, pontuando sutilezas que, vez por outra, se anunciam à vista maruja do sujeito poético que, singelamente, abstém-se de opinar – no sentido de conduzir a opinião alheia. Exercício essencialmente aldrávico – para deixar abertas as próprias feridas, como a convidar o samaritano olhar do leitor:

âncora 27

só um poeta só ousaria contemplação embora não aceite a agonia da gaivota quando um seu vôo rasante desenha versos brancos no azul celeste e pios alucinados timbram o ritmo do mais triste poema traçado à plenitude da liberdade e da vida enquanto que ele impotente e desesperado nas mãos espreme a areia que lhe escorre

O paradoxo que nomeia o volume se desfaz na certeza da descrição poética é uma epopeia vivida por esse Ulisses mineralizado na/das alterosas. A voz poética anuncia a certeza de que os contrários se atritam na confecção inconsútil do tear poético do Aldravismo. Em sua proposta de método poético (sem redução a um punhado de princípios e práticas estéreis e prefixadas) o Aldravismo contempla a experiência mater da poesia que é a contiguidade. Ao lado da comparação, o poema promove séries infinitas de associações livres, o que faria o gozo de qualquer psicanalista. Dessa prática associativa, perde-se num horizonte de expectativas infinito, a possibilidade de se delinear um sentido. Ao olhar do leitor, esboça-se outro sempre renovado, tantas vezes quantas retomar a leitura dos prosopoemas. Ideal de qualquer fazer literário, ainda que denegado, essa “repetição” traduz bem o desejo aldrávico de associar, sempre e mais, através da concentração vocabular, reduzida – sempre que possível – ao mínimo. Exercício difícil do dizer poético que as “âncoras” conseguem conservar fundeado no oceano de possibilidades que os prosopoemas oferecem generosamente. O barco ancorado flutua sobre o mar de palavra, assim como o porta-voz da notícia anuncia a dúvida íntima de cada semelhante. Errantes no mesmo oceano, poeta e leitor se “ancoram” na certeza de que, como já disse Pessoa: “navegar é preciso”!

O estatuto do processo de que resulta a obra literária é motivo de polêmica desde sua denominação. A noção de gênio, surgida no Renascimento humanista quando recoloca o homem no centro do universo, retomada e radicalizada pelo Romantismo e seu culto da individualidade, deu origem à ideia de que a atividade do escritor é criação, à feição divina, livre e todo-poderosa. O artista, nessa concepção, seria um ser dotado de talento especial pela natureza, podendo este ser ou não aperfeiçoado pela educação estética, com poderes para alterar a configuração da realidade, acrescentando-lhe novos elementos. Remontando ao irônico Íon, de Platão, esse demiurgo conseguiria realizar a sua obra apenas graças à inspiração, recebida dos deuses, ou auferida em estados de êxtase e delírio, sem conhecer, portanto, os modelos de suas criaturas mas alcançando uma dimensão superior de verdade tanto quanto a da natureza. A noção de inspiração será substituída pela de efusão espontânea de um espírito excepcional entre os românticos e bastará para justificar o reconhecimento público do trabalho como obra-prima.

Nesta visão, muito pouco parece restar para a criatividade humana. O sujeito, em seu desejo de expressão e criação vê-se praticamente tolhido pelo ímpeto de certa natureza inefável. O desafio aldravista assenta-se exatamente nesta “pulsão poética”. Como suas similares freudianas, os poetas aldravista, como aqui o exemplo de Gabriel Bicalho reforça e consolida, ascendem a horizontes amplos de experimentação estética. Sua busca incansável de comunicação – sem as restrições de código e/ou de meio – não se submete a limites estreitos de visão, seja Renascentista, Romântica ou quejandos. Assim, a modernidade e/ou pós-modernidade aventada no início deste prefácio, desfaz-se como bruma seca, no primeiro raio de sol. Os “prosoversos” são como os raios deste sol metafísico que a poesia aldravista engendra.

Pierre Macherey opõe-se ao entendimento dessa questão, afirmando que “as várias teorias da criação têm em comum o eliminarem a hipótese de fabricação ou de produção”, negando o trabalho produtivo ao erigir-lhe um monumento (a criação) que o oculta. Na sua perspectiva, a obra é produto de um trabalho, é construída. Ele diz que o poeta é operário de seu texto. De fato, o escritor não fabrica os materiais com que trabalha; não os encontra espontaneamente ordenados, peças errantes, prontas para ajudar a edificação de qualquer ossatura. As palavras não são elementos neutros, transparentes, que teriam o dom de se abolir, de desaparecer no conjunto que servem para constituir, dando-lhe matéria, tomando a sua ou as suas formas. Os motivos que determinam a existência da obra não são instrumentos independentes, prontos a servir qualquer sentido: têm peso específico, força própria, conservam autonomia. A necessidade da obra é um produto. No rastro deste raciocínio, não há como negar a efetividade da afirmativa, principalmente quando se depara com os prosopoemas de Gabriel Bicalho: exercício profícuo desta “produção” que se auto-lê.

Parece óbvio que essa visão de trabalho produtivo é defensável, levando em conta que advoga ser a necessidade da obra fabricada pelo escritor a partir da heterogeneidade de materiais e de injunções sócio históricas, conformando uns e outras numa ilusão de ordem e unidade cujo efeito é contradizer a desordem gerada pela ideologia na compreensão do real. Nesse sentido, a obra é sempre inacabada, incompleta, existe pelos seus silêncios, pelo que não diz daquilo que está fora dela. A pergunta a ser feita pelo leitor poderia ser, então, “por meio de que relação, em relação a quê diferente dela, é produzida a obra?”. Nos ecos metonímicos que o Aldravismo produz, esta pergunta emerge constante: leit motif para a produção de Gabriel Bicalho. Seus prosopoemas reverberam a dúvida constitutiva da sinédoque: figura mater para a poesia que se faz no limiar de gêneros, prosa e poesia.

Entretanto, o elemento criativo não precisa ser tomado no sentido religioso, teológico e tautológico – de o sujeito criar o humano, como para os renascentistas. Outro sentido do termo criação pode ser convocado para explicar a gênese da obra literária. Tal constatação afasta definitivamente este livro do risco de ser reduzido à esfera do que se convencionou chamar de moderno e/ou pós-moderno. O sentido de superação desaparece no fulgurar de imagens fluidas, fazendo flutuar as âncoras que bordejam certo mar de palavras. A construção, ou fabricação de algo implica, decerto, materiais, técnica e projeto, elementos presentes na literatura. Nesse rumo de pensamento, a obra é produto: o escritor precisa ter conhecimento dos gêneros e da tradição literários, de técnicas narrativas ou poéticas, deve escrever a partir de alguma motivação, seja ela um impulso cego, inconsciente, ou um intento pensado, engajado, é obrigado a pesquisar soluções para os problemas e impasses surgidos ao longo do processo produtivo, valendo-se da experiência própria ou alheia. Não poderia ser outro o resultado. O livro de Gabriel Bicalho é exemplo acabado desse fazer poético. O partido da metonímia como procedimento de criação, faz de seus textos expressão desse “além da tradição”, sem prestigiá-la na medida mesma de sua superação – em sentido mais que restrito, em nada valorativo. Isso seria desmerecer a própria poeticidade dos fragmentos. Além disso, efetua seu trabalho em certas condições sociais e econômicas: pertence a uma classe e a um grupo com ideologias específicas, lida com o jogo de forças políticas na área da cultura, expresso nos órgãos oficiais, nas organizações acadêmicas, na indústria e mercado do livro. Tudo isso pesa na gênese da obra, prende-a a constrições materiais e ideológicas, mas não exclui o fator criatividade.

Reduzir o processo de construção da obra à ideia de produção impede a possibilidade de explicá-lo como manifestação da liberdade, uma vez que o trabalho é sempre uma atividade determinada pela necessidade de sobrevivência, primeiramente de transformação da natureza em cultura para que não se pereça entregue à primeira e depois de alienação da força de trabalho em troca de dinheiro, nas sociedades capitalistas. Marx vê no trabalho a fonte de humanização do homem, desde que não alienado, mas a História não tem proporcionado sociedades economicamente livres da alienação. Talvez seja por isso mesmo que, por tantas vezes, tenha sido anunciada a morte da poesia. O livro de Gabriel Bicalho é denúncia da falácia de tal afirmação, mesmo que repetitiva.

Diante de uma concepção de trabalho não autônomo, o do artista da palavra não pode ser assimilado ao do operário. Apesar de fazer parte da mesma engrenagem do capitalismo, o escritor extrai de sua arte o prazer da construção, da satisfação de uma necessidade, e não necessariamente a entende apenas como meio de remuneração. No fazer artístico em geral preserva-se, a despeito da mercantilização inevitável, o valor de uso, seja para o produtor, seja para o consumidor, mesmo que o valor de troca impeça, por exemplo, o escritor de viver de sua arte e o leitor de adquirir o livro. O Aldravismo compreende a lição marxiana e a põe em prática, espalhando poesia num mercado tão cioso de suas “materialidades”. O pensar poético do Aldravismo, aqui ilustrado pelos prosopoemas de Gabriel Bicalgo, é prova incontestável de que não é indispensável a desarticulação entre poesia e sociedade. A aparente superficialidade e/ou alienação a poesia – para aqueles que ainda não compreenderam sua vicissitude de expressão plena – transcreve a possibilidade de aproximação de dois mundos: material/espiritual, poético/pragmático, consciente/inconsciente. As binomias multiplicam-se ao infinito.

Nessa medida, pode-se pensar em criação literária como aquela atividade que, valendo-se de materiais simbólicos, preexistentes, recombina-os de modo a obter um objeto verbal antes inexistente, criando, no sentido do termo, laços e rupturas onde antes não os havia, de modo a reconfigurar o já existente. Não se trata de defender a ideia de intencionalidade genial, pois é sabido, desde a refutação dos new critics da falácia intencional, que a obra não diz o que o autor quer: ela é, e é algo diverso para cada leitor. Todavia, na sua gênese, o não intencional é que se mostra criativo e é possível pensá-lo não de um ângulo idealista ou essencialista, mas a partir dos elementos materiais que o escritor agencia. Assim, as âncoras de Gabriel Bicalho não são antigas, nem modernas nem pós-modernas. Seus prosopoemas são uma proposta, convite ao prazer da leitura.

Mariana, junho de 2011.

“Essências: sonhos, frutos e luzes”

Tríades, trios, triângulos: a poesia de Andreia

Três são as fases da vida; três, as partes do dia; três, as pessoas da Santíssima Trindade e os lados do triângulo. Número cabalístico, de simbologia mais que milenar e de uma inexplicabilidade visceral. sonhos, frutos e luzes: três elementos que compõem a “essência” de que fala a poesia de Andreia Donadon Leal. Destas três, duas são voláteis, efêmeras, etéreas: sonhos e luzes. A outra, concreta, sustenta a própria existência humana, faz parte de sua alimentação. Nesse processo, a poesia se faz veio mais que privilegiado. Nesse curso, penso em três mitos: Helena, Sísifo e eterno retorno.

O primeiro fala do rapto de Helena, que a mitologia grega descrevia como a mais bela das mulheres. Desencadeia lendária guerra. A mulher é personagem da Ilíada e da Odisseia: filha de Zeus e da mortal Leda – esposa de Tíndaro, rei de Esparta. Ainda menina, é raptada por Teseu, depois libertada e levada de volta para Esparta por seus irmãos Castor e Pólux. Para evitar disputa entre pretendentes, Tíndaro fez com que todos jurassem respeitar a escolha da filha. Ela se casou com Menelau, rei de Esparta, irmão mais novo de Agamenon, que se casara com uma irmã de Helena, Clitemnestra. Helena, contudo, abandonou o marido para fugir com Páris, filho de Príamo, rei de Tróia. De certa forma, ela trai seu destino, tomando as rédeas dele por decisão apaixonada. Muitas vezes, o entendimento das atitudes humanas não se faz perceber pela clareza do discurso, mas pela sinuosidade da “poesia”. As aspas se justificam: o campo semântico é muito amplo! Helena foi adorada como deusa da beleza em Terapne e diversos outros pontos do mundo grego. Sua lenda foi tomada como tema de grandes poetas da literatura ocidental, de Homero e Virgílio a Goethe e Giraudoux. Por que não dizer de Andreia Donandon Leal também? Veremos…

O segundo, Sísifo encarnava, na mitologia grega, a astúcia e a rebeldia do homem frente aos desígnios divinos. Sua audácia, no entanto, motivou exemplar castigo final de Zeus, que o condenou a empurrar eternamente, ladeira acima, uma pedra que rolava de novo ao atingir o topo de uma colina, conforme se narra na Odisséia. Ele é citado na Ilíada, de Homero, como filho de Éolo – aqui, o movimento dos ventos é muito forte em se simbolismo dinâmico, metonimizado nos caminhos e descaminhos que a existência oferece ao sujeito da poesia, como nas andanças de Andreia pelo “ser” feminino que povoa suas linhas. A lenda mais conhecida sobre Sísifo conta que aprisionou Tânatus, a morte, quando esta veio buscá-lo, e assim impediu por algum tempo que os homens morressem. Quando Tânatus foi libertada, por interferência de Ares, Sísifo foi condenado a descer aos infernos. Quem pode negar, com absoluta segurança, que a poesia é a expressão dessa índole impulsiva, que encontra no verso uma saída para a “danação” de existir? Assim, o fazer poético de Essências transfigura, quase que pelo avesso, a condenação de Sísifo. Explico-me. Em lugar de prefigurar uma danação, em sentido pejorativo, a poesia faz-se arauto de outra forma de existir, pela palavra. Uma espécie de aldrava que expande o horizonte de expectativas de quem observa poeticamente a paisagem como esboço de uma existência sempre por fazer – como o sentido na mistura de cores e formas numa tela – outra metonímia poética.

Por fim, o eterno retorno, conceito desenvolvido por Friedrich Nietzsche, considerado por ele próprio um dos seus pensamentos mais aterrorizadores. Foi durante um passeio em 1881 que Nietzsche refletiu sobre os sentidos das vivências em alternâncias que se “repetem”. Em um de seus “aforismos” o que leva o número 56, o filósofo diz:

E se um dia ou uma noite um demônio se esgueirasse em tua mais solitária solidão e te dissesse: “Esta vida, assim como tu vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes: e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indivisivelmente pequeno e de grande em tua vida há de te retornar, e tudo na mesma ordem e sequência – e do mesmo modo esta aranha e este luar entre as árvores, e do mesmo modo este instante e eu próprio. A eterna ampulheta da existência será sempre virada outra vez – e tu com ela, poeirinha da poeira!“ Não te lançarias ao chão e rangerias os dentes e amaldiçoarias o demônio que te falasses assim? Ou viveste alguma vez um instante descomunal, em que lhe responderías: “Tu és um deus e nunca ouvi nada mais divino!” Se esse pensamento adquirisse poder sobre ti, assim como tu és, ele te transformaria e talvez te triturasse: a pergunta diante de tudo e de cada coisa: “Quero isto ainda uma vez e inúmeras vezes?” pesaria como o mais pesado dos pesos sobre o teu agir! Ou, então, como terias de ficar de bem contigo e mesmo com a vida, para não desejar nada mais do que essa última, eterna confirmação e chancela?

A ideia a destacar é a de que polos se alternam nas vivências numa eterna repetição. Criação e destruição, alegria e tristeza, saúde e doença, bem e mal, belo e feio,… tudo vai e tudo retorna. Porém, esses polos não se opõem, mas são faces de uma mesma realidade, isto é, um complementa o outro, são contínuos de um jogo só. Alegria e tristeza são faces de uma única coisa experienciada com grau diferente. A ideia de temporalidade, como sequência, escapa a este pensamento. A realidade, para o filósofo, não tem finalidade nem objetivo a cumprir, daí as alternâncias que repetem. O devir não ocorre de modo exatamente igual, mas são variações de sentidos já vivenciados, faces da mesma realidade. A alegria e a tristeza que senti não serão iguais no amanhã, mas voltarei a experimentar esses estados em suas diferentes variações.

Essa mesma alternância é metonimizada pela poesia de Andreia. No conjunto de seus versos, nada há que não corrobore esta tese. De fato, o próprio fazer poético é, em si mesmo, exercício de repetição e de alternância, de avanço e retorno, como bem queria o filósofo. Assim não fosse, teríamos que destruir as hipóteses de Harold Bloom, por exemplo. Mas a história, neste caso, seria outra. Aqui, não procuro avatares para a refiguração de um possível ater ego para a voz poética, que se denuncia a si mesma nos versos de Essências. Ainda que o pessimismo possa ser localizado no substrato, a poesia neste livro não pode ser do mesmo modo chancelada. Ao contrário, é um grito de vitória sobre o pessimismo, no sentido em que se faz ouvir de dentro da própria experiência existencial. Fica, então, para sempre irrespondida, a questão: se tudo retorna – o prazer e o desprazer, a dor e o deleite, a alegria e o sofrimento – pode-se mesmo viver até a eternidade onde nada de novo irá acontecer além de vivências com nuances variadas de uma mesma realidade?

Insistir. Verbo transitivo indireto e intransitivo. Pode significar “pedir novamente (algo) a (alguém), apesar de já ter recebido uma ou várias recusas”; “aconselhar (algo) a (alguém) novamente ou várias vezes”; “emprestar particular importância a algum assunto, sobre o qual se volta e se estende mais do que o normal; repetir, reiterar”; “não desistir; perseverar, continuar”. Nos dois primeiros casos, o verbo é transitivo indireto. Da lição gramatical fica o insigt poético da autora: a mediação de uma subjetividade outra – a do leitor – para o trânsito de sentidos que as imagens suscitam aldravicamente nos versos que passeiam pelas páginas de “Essências: sonhos, frutos e luzes”. Aqui, a poesia pede novamente, aconselha inúmeras vezes, a quem enfrenta os versos para recusar a opacidade e abandonar a preguiçosa atitude decifrar códigos pela superficialidade dos signos. A contiguidade de seus sentidos empresta importância a assuntos corriqueiros para mergulhar na intransitividade do feminino. É como se os mitos não deixassem de eternamente se repetir a cada linha de poema que é escrito. Não é diferente aqui!

O sentido aqui é outro: sem militância de gênero, sem discursividade proselitista, a poesia de Andreia desvenda o feminino em sutilezas verbais que não se envergonham de deambular pela experiência empírica de viver. O aspecto intransitivo do verbo cede lugar a uma sensibilidade elaborada em figuras sutis de colorido contundente: estar vivo e criar. Nada como perseverar, continuar, não desistir. Percebe-se, logo nas primeiras linhas, a insistência no sonho como matéria de criação poética. Fica clara a visão lúcida do fazer poético que se dá por associações, muitas vezes, inconscientes, reelaboradas pela linguagem metonímica. Quem adentra estas páginas, logo se dá conta da contiguidade entre sentido poético e inconsciente. As aparentes incongruências oriundas da passagem do tempo revelam a visualidade da experiência de existir como em “Envelhecer” e “Fruto”, não sem deixar de curvar-se à experiência do religioso:

Oração

a poesia

em todos os tempos

sempre foi a oração

dos que amam

(…)

De quebra, a sombra protetora e fulgurante de Fernando Pessoa, caminha lado a lado com a criatividade da autora, em suas reflexões. O universo feminino transcende fronteiras de gênero, sepulta rotulações reduoras e acende a chama da interação – atitude “insistentemente” reiterada, clamando pela inlocução com o leitor na fatura da poesia:

Reflexão

no cais

e

no caos

em busca de mim mesmo

(…)

O cais poético é o mesmo em qualquer língua, em qualquer tempo. O movimento da maré não prescinde a subjetividade ambivalente que aproxima, elide mesmo autor e leitor, nas malhas dos versos. Em qualquer um dos textos, o que se pressente, às vezes, literal, às vezes sub-repticiamente, é a imagem de um corpo que se desenha poeticamente em palavras. O corpo, como índice do poético que se transmuta em palavras articuladas por sinédoques questionadoras, inquisitivas, exploradoras de sentidos, oculta-se na imaginação de quem lê. O feminino se esconde em subterfúgios semânticos, indiciados por figuras recobertas de simplicidade e de sentido literal: transposição da ideia equivocada da criação como dificuldade ou elaboração hermética – idiossincrasia aldravista.

A princípio a relação corpo e poesia é bastante óbvia. A construção/elaboração da linguagem é articulada em formatos estéticos, seja pela fala, seja para cifragem de códigos. Relaciona-se com a emergência do corpo, por dar consistência ao que apreende emocionalmente do ambiente, no intuito de tornar-se ambiente, ao expressar-se. Uma forma de dizer que a linguagem poética é o modo de o sujeito se tornar um no/com o todo. A materialização da experiência no todo é sempre, e sob quaisquer circunstâncias, mediada pelo corpo em sua integridade.

O corpo agencia suas próprias concepções em linguagem. Quando se afirma que no humano tudo é linguagem, algo, no entanto, fica em espreita. A função mais imediata do corpo é a comunicação. O próprio estar do corpo no ambiente já é comunicação. Já há uma relação explícita de comunhão entre os fenômenos da natureza corporal e os fenômenos da natureza do ambiente em que ele se coloca. A partir desse ambiente, com todos os demais, a circunstância repete-se nos mais amplos espectros do sentido. Do simples estar do corpo, toda uma rede de interlocuções com o espaço-tempo já está em andamento. Real e/ou do virtualmente. O corpo é eminentemente material, isso, no entanto, não o limita à sua concretude. A carne ao se reconhecer carne projeta sua própria existência pra si mesma e ao fazê-lo imagina, é tomada por um fluxo de imagens, que desestabiliza seus estatutos de material hiper concreto: a linguagem poética. Deseja o que projeta em imagens, e se coloca a cada instante em carne e forma expressiva desestabilizando também o ambiente – o fluxo espaço-temporal. A filosofia de Merleau-Ponty que o diga. A experiência de consciência é o produto mais obvio derivado dessa comunicação:

(…)

Seu corpo

retrato permanente

em

minhas ocres paredes,

enlouquecem minha razão.

(…)

Enlouquecer pela razão não é perder o veio de sentido do existir. Na associação feita pela poetisa, a imagem do tempo que passa, associa-se à da percepção de que tudo o que é vivo se decompõe. Não há metafísica que consiga explicar, em termos absolutos, a derrisão incontornável desta constatação. Nos versos de Andreia, pensar o corpo é como escrever autobiografia: registra-se o vivido, sem o temor da crise, ou da deliberada acusação de sua falência. A coragem de encarar a decomposição, que aqui me faz lembrar Cioran, não impede a originalidades nas cores usadas pela autora. Na verdade, a cada passo, seus versos reiteram a miríade de nuances que o fato de estar vivo denuncia e sustenta: implacabilidade do destino desenhada pelo verso grácil, numa tela sempre em mutação cromática, iluminada pela razão que se liquefaz na tinta que escorre da tela. Andreia é artista plástica. Como tal, utiliza de forma interessante, sutil, delicada e peculiar algumas técnicas pictóricas, criando as pontes aldrávicas de seu dizer poético.

Na experiência do existir do questionamento/desejo da carne (Por que só sou nesse quando e nesse onde?) a existência do espaço-tempo e do corpo se desfaz, virtualiza-se. A própria concretude da carne é, portanto, sua mais clara abstração. Aqui, ela se expressa pela associação às frutas, à terra, ao útero que vai secando na medida em que o corpo se arrasta pelas pedras de Mariana, de Granada, Barcelona ou Santa Bárbara.  A universalidade dessas visões não pode ser questionada, sob pena da perda de sentido do exercício poético de expressar a subjetividade. Não é esse mesmo o fazer poético mais genuíno?

(…)

Impetuoso,

pleno de ira intelectual,

discrepante con la realidad,

filete de carne arrancado, con las uñas,

del codo destrozado.

(…)

Essa incessante pulsão poética do corpo pelo prazer de cada instante delimita suas ações, contorna suas formas projetadas, individualiza e socializa a identidade em decifração atualizada no ambiente, agora já sem distinção entre o fora e o dentro, ancorada nesse limiar que é a linguagem, por sua vez ancorada à língua – as vezes traços, as vezes pele, as vezes forma, as vezes sons, mas sempre mecânicas de articulações e músculos testando a materialidade, através de relações de natureza mais diversa! O que o corpo quer então da poesia? Decifração? Ludicidade? Comunicação? Comunhão? Se tudo é linguagem, se no universo também as relações se configuram em termos de interlocuções e contrapartidas, a ordem, o nível, os códigos desse jogo ao serem notados pelo corpo convidam o corpo, essa individualidade, a um mergulho no universo, um mergulho que a depender dessas individualidades, do tempo e do espaço, sob qualquer dos pretextos acima, mas um mergulho irrevogável. Irrevogável, sobretudo, por questões materiais.

A materialidade emergente do corpo no/do espaço-tempo, denuncia sua condição de imediatez: agora/aqui, não só em termos reais. A imagem é ainda mais efêmera e eterna. A relação entre o corpo e a linguagem, pode se dizer, é a da emergência do desdobramento, não da meta, mas do desdobramento. Esse mesmo desdobramento que faz da proposta do Aldravismo muito mais que mera repetição utilitária do conceito de metonímia. Ao contrário, essa revisitação reacende chama bruxuleante da poesia que se pensa moribunda. Das alterosas, o apontar a metonímia como vetor de força poética, já, por si só, denuncia a vontade de vencer o próprio tempo, tempo poética, sem data e sem geografia.

A cada interação de dados entre as individualidades do sistema ocorre dentro da própria comunicação um desdobramento, um devir de encantamentos possíveis. A reafirmação do tempo pela expectativa de novos possíveis encantamentos. Qualquer que seja o objeto de encantamento criado pelo corpo na sua construção cultural. A partir desse encantamento a poesia se instaura no real a partir do corpo. Expressa tal individualidade no ambiente, e a partir daí o ambiente carece de novas operacionalizações, provocado por sempre novas desestabilizações, ad infinitum, mas sempre agora aqui. Nada mais parecido com o eterno retorno aqui já aludido!

O infinito-agora rejeita a burocracia. Rejeita o cumprimento de normas e procedimentos lúgubres. O infinito-agora se realiza no vivo, na contradição, na ansiedade, na curiosidade, na falha, no medo, enfim na instigação do vivente. O presente, dado a sua complexidade só pode ser tratado pelo poético. Por isso o corpo-agora-vivo rejeita o prosaico. Rejeita a hora, e se encanta com o tempo, rejeita o caminho pra se perder no espaço. Rejeita futuro e passado pelo sonho presente. Submerso no presente, a individualidade-corpo procura a poesia mais que o contato. Não apenas devido ao reconhecimento da efemeridade do contato, mas, sobretudo, pela urgência de eternidade presente contida na relação que o corpo pode ter com o espaço-tempo, que no fim das contas é a única possível. Qualquer outra relação com o ambiente se torna impossível já que o corpo de qualquer individualidade é criado em ficção na cultura, a própria burocracia relacional é um poema. Tentativa de poema, mas poema. Daí, a proximidade com o castigo de Sísifo: prática sem fim que não cansa, nem mata. Ao contrário revivifica as energias vitais e, em sua representação retorna sempre ao começo, sem fugir de seu próprio destino. De certa forma, a sombra de Helena ainda paira por aqui! Um poema: único modo do humano-corpo se aproximar do não eu, se é que ele existe:

(…)

todos fingem que não veem

a decrepitude do seu ser

que caminha rastejante pelas ruas,

dói o desprezo

dói o não ao caso

dói a filha da puta da vaidade,

maldita praga que corrói

lentamente

ossos

entranhas

e

fissuras

em cada ponto do corpo.

(…)

O corpo, essa integridade analítica, individualidade universal, tem poucas saídas a não ser tentar a poesia, sem nunca atingi-la de fato, se se pretende vivo. Tudo mais é a burocracia do existir: comer, cagar, dormir, trepar, viver e morrer. Na verdade, outra poesia, outra ficção, que o ego pode suportar, se consegue reter na máscara o momento fugaz do flash sobre a maquilagem, mas o corpo não o consegue, ao que parece. Para além dele, na poesia de Andreia, talvez a insistência das flores, outro elemento da alucinação poética que desenha o imaginário feminino. Desde Ventre de Minas, a ideia de percorrer o interior do ser eclode na poesia de Andreia. Em seu livro de estreia, Cenário noturno, a escuridão uterina é alegoria implícita na poesia de busca de conhecimento interior que Andreia desenvolve. Sua experiência e talento de artista plástica contribuem sobremaneira para a elaboração de seu discurso poético, que trilha as mesmas sendas de perquirição da intimidade, sobretudo, feminina. Aqui, o sol, o dia, a luz são elementos aparentemente contraditórios. Apenas aparentemente, dado que sua visualidade ilumina as mesmas sendas – objeto de desejo da voz poética. Num jogo de espelhos imaginário, o verso de Andreia não funciona como espada de Dâmocles, antes tece inconsútil discurso de delicadeza e fulgor que imprimem no inconsciente a marca do feminino, rasura de desejo, sem sexismos.

O caminho do fazer artístico é trilhado sob perspectivas variadas. Sempre à luz da intuição feminina que poeticamente transcende o lugar comum para anunciar a miragem de verdades interiores nem sempre desveladas. O processo acompanha o ritmo da própria existência como se não houvesse a mínima possibilidade de separar uma coisa da outra:

Arte

A arte me encanta

luz do dia

ou talvez me espante

breu da noite,

manchas nas telas

tons da manhã

que busco interpretar

esmorecer da tarde.

O que eu poderia dizer mais…? O processo de escrita de si é tão antigo quanto o próprio processo de escrita. Considerando a escrita como sistema de símbolos formalmente estruturado que segue determinadas regras comuns, pode-se dizer que tal processo de registro do cotidiano do sujeito, de forma não oral, é anterior inclusive ao próprio aparecimento da escrita formal. Esta referência genérica é alimentada pela poesia de Andreia Donadon Leal. Artista plástica, a autora, com seu traço verbal, rasura a memória coletiva de seus leitores com registros visuais que bem podem lembrar variações de pinturas rupestres. Estas, por sua vez, trazem em sua “herança” cultural o limite entre o concreto e o possível. Por um lado, tal prática, ainda que ancestral, prefigurava o desejo constante de comunicação, ao mesmo tempo em que viabilizava a expressão deste mesmo desejo em imagens verossímeis e concretas, num discurso icônico de representação por contiguidade. Na poesia de Essências, esta dubiedade expressiva ganha reforço vocabular, ancorado nas associações íntimas feitas pela poetisa.

Obviamente, não é possível deduzir que os motivos que levaram o homem pré-histórico a desenhar em paredes de cavernas sobre si são os mesmos que fizeram o homem moderno escrever em diários pessoais, nem mesmo o que leva o sujeito contemporâneo a escrever em blogs que são de cunho individual e pessoal, porém estão disponíveis em espaços públicos. O fim da Idade Média e o início da Idade Moderna marca o que se convencionou chamar de início do processo de escrita de si, tal como é hoje conhecido! Escritas individuais, o diário pessoal é representante desse “gênero”, ainda sem superar a força vital da poesia. Antes disso, esses escritos tinham caráter público. No Renascimento, a partir da experiência de perda de referências, devido à falência do mundo medieval e a abertura do ocidente ao restante do mundo, o homem é lançado a uma condição de desamparo: crise. Um passo muito curto para alcançar a outra margem do rio: referências internas. Diante disso parece assentada, definitivamente, a pedra fundamental da poesia que, em sua “essência”, faz muito mais que metaforizar realidades, substituindo-as em seus significantes, para realcar-lhes sentidos ocultos, outros, vários. Metonimicamente, como no caso de Essências, a aventura é pela escrita poética como via crucis da própria existência: fica de fora o gólgota. O sujeito, desamparado das explicações de sua existência a partir do divino, estaca diante do dilema de se autoconhecer. A escritura poética de si funciona como espelho que possibilita se enxergar pelo avesso.

O sujeito, diante da crise exterior, não tem o conhecimento e o esclarecimento sobre o que realmente acontece no mundo. Como se sente inseguro, busca a segurança voltando-se para o seu interior, usando a escrita poética de si como uma dessas ferramentas. Existem tantas outras possibilidades que poderiam ser trazidas, como a vontade de guardar segredos, ou a possibilidade de utilizá-la como registro de memórias a ser acessadas no futuro… Prevalece a poesia em suas “Essências: sonhos, frutos e luzes”. Evoé, Andreia!

Contagem, inverno de 2011.