LET 874-2

 

Prezados,

Um dos objetivos do blogue é substituir as aulas de sexta-feira no horário horroroso em que a colocaram. Logo, a frequência a esta “aula” será contada a partir da participação de vocês. Outro objetivo é fazer com que a gente DISCUTA o assunto que vai sendo colocado nas postagens. Assim, quando leio os comentários que voc6es fazem, retorno com correções e observações. O desejável é que vocês retornem estes meus comentários, para que a discussão se estabeleça e dúvidas sejam dirimidas, esclarecimentos feitos e estudos se aprofundem. Então, mãos à obra! Não se acanhem! Escrevam o quanto desejarem e/ou necessitarem! Bom final de semana. Segue a postagem para hoje! Bom trabalho!

 

A Questão Coimbrã

O primeiro sinal da renovação literária e ideológica que acabámos de indicar foi dado na Questão Coimbrã, onde se defrontaram os defensores do status quo literário e um grupo de jovens escritores estudantes em Coimbra, mais ou menos entusiasmados pelas leituras e correntes indicadas.

Castilho – aliás um pouco incongruentemente – tornara-se em uma espécie de padrinho oficial de escritores mais novos, tais como Ernesto Biester, Tomás Ribeiro ou Pinheiro Chagas. Como já vimos, constelou-se à sua volta um grupo de admiradores e protegidos (“escola do elogio mútuo”, dirá Antero), em que o academismo e o formalismo anódino das produções literárias correspondiam coerentemente à hipocrisia das relações humanas, e em que toda a audácia tendia a neutralizar-se. Este grupo trava diversas escaramuças defensivas desde 1862, e sobretudo em 1864-65.

Em 1865, solicitado a apadrinhar com um posfácio o Poema da Mocidade de Pinheiro Chagas, Castilho aproveitou a ocasião para, sob a forma de uma Carta ao editor António Maria Pereira, inculcar o poeta apadrinhado como candidato mais idóneo à cadeira de Literaturas Modernas no Curso Superior de Letras, e censurar um grupo de jovens de Coimbra, acusando-os de exibicionismo livresco, de obscuridade propositada e de tratarem temas que nada tinham que ver com a poesia. Os escritores mencionados eram Teófilo Braga, autor dos poemas Visão dos Tempos e Tempestades Sonoras (futuro candidato a essa cadeira de Literatura); Antero de Quental, que então publicara as Odes Modernas ; e um jovem e verboso deputado, Vieira de Castro, o único aliás que Castilho excetuava da sua ridicularização, um tanto eufemística, da “escola coimbrã”. O desencadeamento da Questão só se compreende se o relacionarmos com uma série de antecedentes que vêm desde a crítica à Conversação Preambular elogiativa do D. Jaime por Castilho, feita em artigos de Ramalho Ortigão, Pereira de Castro e João de Deus, até uma leitura dos poemas, ainda então inéditos, de Antero e Teófilo a Castilho, que os acolheu com hiperbólica ironia, e, finalmente, até escaramuças jornalísticas entre Pinheiro Chagas, crítico dos “coimbrões”, e Germano Meireles, seu apologeta.

Antero de Quental respondeu numa carta aberta a Castilho, que saiu em folheto: Bom Senso e Bom Gosto . Nela defendia a independência dos jovens escritores; apontava a gravidade da missão dos poetas na época de grandes transformações em curso, a necessidade de eles serem os arautos do pensamento revolucionário e os representantes do “Ideal”: metia a ridículo a futilidade, a insignificância e o provincianismo da poesia de Castilho. O que sobressai destes textos de Antero é a constante invocação da integridade moral-social. Pouco depois Teófilo Braga solidarizava-se com Antero no folheto Teocracias Literárias, 1866. Entretanto, Antero desenvolvia as ideias já expostas na Carta a Castilho com o folheto A Dignidade das Letras e as Literaturas Oficiais, 1865; aí, em termos aliás muito idealistas, reivindicava uma literatura militante dirigida à “Nação verdadeira […] três milhões de homens que trabalham, suam, produzem”, terminando, em apêndice, por uma extensa apreciação da obra de Castilho, redigida em termos que ostentam, e em geral atingem, uma séria ponderação.

Castilho não reagiu publicamente; mas conseguiu a intervenção de amigos seus. Nas intervenções de uma parte e de outra, o problema central levantado por Antero ficou apagado por considerações pessoalistas, mostrando-se alguns dos polemistas impressionados com a irreverência dos jovens em relação aos mestres, sobretudo com a brutalidade das alusões de Antero e de Teófilo à idade e à cegueira física de Castilho. Foi o caso de um folhetinista eclético, Ramalho Ortigão, num opúsculo intitulado A Literatura de Hoje, 1866, que deu lugar a um duelo do autor com Antero. Camilo Castelo Branco interveio de forma ambígua, a pedido de Castilho, com o opúsculo Vaidades Irritadas e Irritantes, 1866. Na realidade, pouco se acrescentou aos dois folhetos de Antero durante os meses que a polémica durou ainda. No entanto um ou dois textos são interessantes pelas suas considerações de ordem estética. Nela intervieram, além de muitos outros (alguns solicitados por Castilho), M. Pinheiro Chagas, Júlio de Castilho, Teixeira de Vasconcelos, José Feliciano de Castilho e Brito Aranha.

Na sua opinião, a “questão” é matéria externa aos estudos literários ou não? Justifique. Em qualquer dos casos, é possível encontrar no poema abaixo alguma ideia que se relacione com o conteúdo do texto (acima) sobre a questão Coimbrã? Caso seja possível, aponte e comente pelo menos duas delas! Segue o poema:

Evolução Fui rocha em tempo, e fui no mundo antigo

tronco ou ramo na incógnita floresta…

Onda, espumei, quebrando-me na aresta

Do granito, antiquíssimo inimigo…

Rugi, fera talvez, buscando abrigo

Na caverna que ensombra urze e giesta;

O, monstro primitivo, ergui a testa

No limoso paúl, glauco pascigo…

Hoje sou homem, e na sombra enorme

Vejo, a meus pés, a escada multiforme,

Que desce, em espirais, da imensidade…

Interrogo o infinito e às vezes choro…

Mas estendendo as mãos no vácuo, adoro

E aspiro unicamente à liberdade.

(Antero de Quental, in “Sonetos”)

 

Anúncios

Para LET874 – 2

Para hoje, o etxto de base foi retirado de outro blogue (http://auladeliteraturaportuguesa.blogspot.com.br/2009/07/questao-coimbra.html).  O texto trata da cébere questão Coimbrã.

09/07/2009

A Questão Coimbrã

O primeiro sinal da renovação literária e ideológica que acabámos de indicar foi dado na Questão Coimbrã, onde se defrontaram os defensores do statu quo literário e um grupo de jovens escritores estudantes em Coimbra, mais ou menos entusiasmados pelas leituras e correntes indicadas.
Castilho – aliás um pouco incongruentemente – tornara-se em uma espécie de padrinho oficial de escritores mais novos, tais como Ernesto Biester, Tomás Ribeiro ou Pinheiro Chagas. Como já vimos, constelou-se à sua volta um grupo de admiradores e protegidos (“escola do elogio mútuo”, dirá Antero), em que o academismo e o formalismo anódino das produções literárias correspondiam coerentemente à hipocrisia das relações humanas, e em que toda a audácia tendia a neutralizar-se. Este grupo trava diversas escaramuças defensivas desde 1862, e sobretudo em 1864-65.
Em 1865, solicitado a apadrinhar com um posfácio o Poema da Mocidade de Pinheiro Chagas, Castilho aproveitou a ocasião para, sob a forma de uma Carta ao editor António Maria Pereira, inculcar o poeta apadrinhado como candidato mais idóneo à cadeira de Literaturas Modernas no Curso Superior de Letras, e censurar um grupo de jovens de Coimbra, acusando-os de exibicionismo livresco, de obscuridade propositada e de tratarem temas que nada tinham que ver com a poesia. Os escritores mencionados eram Teófilo Braga, autor dos poemas Visão dos Tempos e Tempestades Sonoras (futuro candidato a essa cadeira de Literatura); Antero de Quental, que então publicara as Odes Modernas ; e um jovem e verboso deputado, Vieira de Castro, o único aliás que Castilho exceptuava da sua ridicularização, um tanto eufemística, da “escola coimbrã”. O desencadeamento da Questão só se compreende se o relacionarmos com uma série de antecedentes que vêm desde a crítica à Conversação Preambular elogiativa do D. Jaime por Castilho, feita em artigos de Ramalho Ortigão, Pereira de Castro e João de Deus, até uma leitura dos poemas, ainda então inéditos, de Antero e Teófilo a Castilho, que os acolheu com hiperbólica ironia, e, finalmente, até escaramuças jornalísticas entre Pinheiro Chagas, crítico dos “coimbrões”, e Germano Meireles, seu apologeta.
Antero de Quental respondeu numa carta aberta a Castilho, que saiu em folheto: Bom Senso e Bom Gosto . Nela defendia a independência dos jovens escritores; apontava a gravidade da missão dos poetas na época de grandes transformações em curso, a necessidade de eles serem os arautos do pensamento revolucionário e os representantes do “Ideal”: metia a ridículo a futilidade, a insignificância e o provincianismo da poesia de Castilho. O que sobressai destes textos de Antero é a constante invocação da integridade moral-social. Pouco depois Teófilo Braga solidarizava-se com Antero no folheto Teocracias Literárias, 1866. Entretanto, Antero desenvolvia as ideias já expostas na Carta a Castilho com o folheto A Dignidade das Letras e as Literaturas Oficiais, 1865; aí, em termos aliás muito idealistas, reivindicava uma literatura militante dirigida à “Nação verdadeira […] três milhões de homens que trabalham, suam, produzem”, terminando, em apêndice, por uma extensa apreciação da obra de Castilho, redigida em termos que ostentam, e em geral atingem, uma séria ponderação.
Castilho não reagiu publicamente; mas conseguiu a intervenção de amigos seus. Nas intervenções de uma parte e de outra, o problema central levantado por Antero ficou apagado por considerações pessoalistas, mostrando-se alguns dos polemistas impressionados com a irreverência dos jovens em relação aos mestres, sobretudo com a brutalidade das alusões de Antero e de Teófilo à idade e à cegueira física de Castilho. Foi o caso de um folhetinista ecléctico, Ramalho Ortigão, num opúsculo intitulado A Literatura de Hoje, 1866, que deu lugar a um duelo do autor com Antero. Camilo Castelo Branco interveio de forma ambígua, a pedido de Castilho, com o opúsculo Vaidades Irritadas e Irritantes, 1866. Na realidade, pouco se acrescentou aos dois folhetos de Antero durante os meses que a polémica durou ainda. No entanto um ou dois textos são interessantes pelas suas considerações de ordem estética. Nela intervieram, além de muitos outros (alguns solicitados por Castilho), M. Pinheiro Chagas, Júlio de Castilho, Teixeira de Vasconcelos, José Feliciano de Castilho e Brito Aranha.

Na sua opinião, a “questão” é matéria externa aos estudos literários ou não? Justifique. Em qualquer dos casos, é possível encontrar no poema abaixo alguma ideia que se relacione com o conteúdo do texto sobre a questão Coimbrã? Caso seja possível, aponte e comente pelo menos duas delas! Segue o poema:

Evolução Fui rocha em tempo, e fui no mundo antigo
tronco ou ramo na incógnita floresta…
Onda, espumei, quebrando-me na aresta
Do granito, antiquíssimo inimigo…

Rugi, fera talvez, buscando abrigo
Na caverna que ensombra urze e giesta;
O, monstro primitivo, ergui a testa
No limoso paúl, glauco pascigo…

Hoje sou homem, e na sombra enorme
Vejo, a meus pés, a escada multiforme,
Que desce, em espirais, da imensidade…

Interrogo o infinito e às vezes choro…
Mas estendendo as mãos no vácuo, adoro
E aspiro unicamente à liberdade.

(Antero de Quental, in “Sonetos”)