(Re)leituras (?)

Li (Reli? Já não sei…) um livro do Carlos de Oliveira, autor português, chamado Casa na duna. Tenho quase absoluta certeza de que foi releitura. Identifiquei logo um procedimento narrativo sui generis sobre o qual também tenho quase absoluta certeza de já ter comentado. Trata-se de uma narrativa que não se desenvolve a partir do encadeamento de episódios relatados por um narrador que parece a tudo organizar, como eminência parda da ficção que se desdobra sob os olhos de um leitor não tão entusiasmado assim. Se não me engano, no comentário anterior – se é que de fato o fiz, quando da pressuposta primeira leitura do romance – eu dizia que o livro conta uma história que não acontece. A voz narrativa, responsável pelo relato que se lê vai apresentando personagens e situações, criando um enredo que se enovela numa mudança sutil e subliminar da temporalidade. Os índices de marcação temporal praticamente inexistem, apesar da vinculação da obra desse autor ao neorrealismo português. Li, por aí, algumas linhas que me soaram interessantes de se considerar: “Embora não seja referenciado no romance, o tempo, naquele “mundo de realidade enganosamente suspensa (…), anterior à Revolução Industrial dois séculos depois dela”, pode ser facilmente localizado nas primeiras décadas do século XX, através das referências à construção de estradas e a uma incipiente industrialização, demonstrando uma forte resistência ao progresso. Essa atemporalidade pode indicar uma realidade preservada das transformações sociais e, conseqüentemente, a de um país que historicamente vivia um tempo de isolamento e preservava modelos ancestrais de uma realidade sócio-econômica, definida pelo historiador Fernando Rosas como “um atraso econômico semifeudal.” (https://www.maxwell.vrac.puc-rio.br/16081/16081_5.PDF) Mantive o texto como o encontrei na rede. Não sei dizer se foi escrito depois do famigerado acordo… Voltando à vaca fria, Casa na duna responde ao que preconiza o estuário neorrealista na/da Literatura Portuguesa, muito menos agudo, eu diria, que um Alves Redol ou um Manuel da Fonseca. Não faço referência a Levantado do chão, do José Saramago, por não gostar dele (Oh contradição… acabei de fazê-la!). Pois bem. Para além desta marca personalíssima no/do romance de Carlos de Oliveira, há outra, a meu ver, mais instigante: o vocabulário. Para quem gosta de descobrir as vicissitudes culturais uma nação a partir e através de sua língua, este livro é um achado. O primeiro capítulo, que emoldura o cenário narrativo, em que vai transcorrer a ascensão e a glória de uma tradicional família portuguesa, é pura poesia. Em que pese a possível ignorância vocabular de um leitor que se ponha a ler este romance, a beleza da linguagem de Carlos de Oliveira, neste romance, sobretudo em seu capítulo inicial, enseja uma lição de estética literária a não deixar lacunas… Vale o convite!

PS: este texto saiu de repente, por pura preguiça de ter que enfrentar narizes torcidos e vociferações mefistofáusticas (este último adjetivo não de minha autoria…), se fosse comentar o exagero de hoje de manhã no Rio de Janeiro…

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Do Norte

Lembro-me, muito bem, daquela tarde. Dona Aglaêda começou a aula comentado da alegria de ter chegado em sua casa o volume da Plêiade, com as obras de Marcel Proust, au grand complet. Estava esfuziante. Comentou da alegria de ler o autor em sua língua original e da importância de ler, ler sempre, e mais. Ler. O curso versava sobre a Literatura Brasileira a partir de Guimarães Rosa, a partir de 56. Era uma versão personalíssima de Dona Aglaêda para o período da História da Literatura Brasileira, a partir de 1956. Pois bem. Dentre os livros, ela indicou uma obra que eu não consegui ler à altura. Não encontrei o volume nas livrarias de Brasília e não havia nenhum sebo virtual então. Anos depois comprei o dito livro. Acabei de lê-lo hoje. Comecei ontem e não consegui parar hoje. Fica uma constatação: existe uma versão amazonense do Grande sertão: veredas. Não se trata de apropriação. Não se trata de “obra baseada em…”. Não se trata de plágio ou cópia. O livro é originalíssimo e, ainda assim, penso eu, comparável ao monumento relato de Guimarães Rosa. O autor abusa de sintagmas nominais. Abusa com vontade. Com vontade e com estilo. O nome dele é Paulo Herban Maciel Jacob. O título do livro e Chuva branca. Em duas partes – a primeira sem título e a segunda, “Mãe-do-rio” (literalmente) – Paulo Jacob como é mais conhecido, apresenta a saga de Luis Chato pela Amazônia. A apresentação, nas orelhas do livro, fica por conta de Aguinaldo Silva. Ele destaca o quarto ugar conseguido pelo autor, na edição de 1967, do Prêmio Walmap. Um tempo em que os prêmios literários tinham “escritores” como jurados, escritores de verdade, como neste caso: Guimarães Rosa, Antonio Olinto e Jorge Amado. Imagina! A história não “conta” nada. Isso é o que “pega” no livro. O vocabulário que desnuda a cultura amazonense, as observações que remetem ao universo de Kafka – como quer o apresentador – e ao próprio Guimarães Rosa, como eu acredito, e o clima denso, abafado, úmido e pouco nítido, compõem uma narrativa sólida, pesada em sua matéria, leve em suas alegorias que fazem repensar sobre o real significado da existência, Da minha leitura, deduzo que um pouco do clima “terminal” de Lições de abismo, do Gustavo Corção, também encontra eco neste relato, a travessia de Luis Chato, pelas veredas úmidas e pastosas de uma “chuva branca” que a tudo enevoa, não deixa desvelar e mistura, num amálgama quase naturalista. De fato, a chuva, para além de sua materialidade natural, presente nas entrelinhas do texto de Paulo Jacob, é mais uma alegoria para aquilo que Kafka fez representar na metamorfose Gregor Samsa e que Guimarães Rosa colocou no longo causo narrado por Riobaldo. A travessia, no caso presente, é muito mais interna. Não que não o seja nos outros referentes que aqui eu trouxe. No entanto, o tratamento a que chamei de “naturalista” da matéria, faz do livro de Paulo Jacob exemplo único no quadro da Literatura Brasileira das décadas de 50 e 60 do século 20. Inexplicavelmente desconhecido, para não dizer marginalizado pela chamada “crítica universitária”. Claro está que isso, apenas no período de existência desta mesma crítica, o quê, proporcionalmente, durou pouquíssimo. O que é uma pena. Voltando ao que interessa. A leitura de Chuva branca faz-se suave, densa e sinuosa. Causa um prazer refinado na leitura da poesia que emana de sua miríade de sintagmas nominais, do relato de “ação” quase inexistente, na inteligência apurada da construção de impressões e situações narrativas que se presentam no bojo do relato. Paulo Jacob nasceu em 24 de fevereiro de 1921 e morreu em 7 de abril de 2004. Escreveu livros: Muralha verde, 1964, Andirá, 1965; Chuva branca, 1967; Dos ditos passados no acercador do Cassianã, 1969; Estirão do mundo, 1979; A noite cobria o rio caminhando, 1983; O gaiola tirante rumo do rio da borracha, 1987. Uma das poucas referências que encontrei sobre este escritor pode ser encontrada aqui: http://desembpaulojacob.blogspot.com/. A ideia de aproximar Paulo Jacob a Guimarães Rosa não é originalmente minha. Depois de constatar isso, por mim mesmo, no endereço acima, de um blogue, encontro a mesma afirmação remetida a Leila Miccolis. Como não quis escrever um “artigo científico – ainda estou a procurar o que isso significa exatamente no “mundo das letras” – fico por aqui. Tenho a sensação de que vou procurar os outros títulos do mesmo autor, para saborear sua língua sedutoramente poética por mais um tempo.

Possibilidades

“Valério foi um homem de bem. Ele era casado com Iracema e teve cinco filhos: Luíza, Regis, Maura, Anderson, Valdemar e Silésio. Era descendente de alemães. O pai dele era de Bremen e a mãe de Dresden. Ele nasceu em outra terra, do outro lado do mar: Santo Anselmo. Numa terra linda, vermelha, rica em nutrientes, fértil. Fez de tudo um pouco, na infância, adolescência e juventude, para ajudar a família. Mudou-se para uma cidade maior e tornou-se padeiro. Foi assim que ele criou sua família. Uma família grande, de gente alta, de pele branca, olhos claros traços finos. Toda a família era muito ciosa de seus valores e se vangloriava de sua origem, de sua ascendência. Luíza teve uma filha e depois ficou viúva. Regis, que teve dois filhos, divorciou-se algum tempo depois de casada. Maura era diferente, triste, reclusa, tímida, muito diferente de todos os irmãos. Teve um filho também que, depois de adulto, tornou-se artista plástico de sucesso na Europa oriental. Anderson continua casado e tem um casal de filhos. Valdemar tem dois filhos e vive com muitas dificuldades, apesar de todo apoio da família. Por fim, Silésio, o mais jovem e o mais bonito. Pai de duas meninas lindas, não suportou a vida de casado com uma mulher quase inexpressiva – para os padrões de sua família – e divorciou-se. Todos, filhos de Valério, um homem de bem. Quando um irmão de Valério morreu, o que ficou de sua família foi prestar sua solidariedade. Maura não foi porque já tinha morrido. Valdemar e Silésio foram bem mais tarde, quase na hora do enterro. Já Regis e Anderson foram com a mãe e os dois filhos de Regis, acompanhador por Luíza. Ficaram menos que meia hora. Comparecimento protocolar. O escritor observou tudo, com cuidado e atenção. Tomou notas. Reunia material para tentar explicar o que se passou com quem o contratou para escrever sua biografia. O trabalho ia ser longo. Observar pessoas é como pisar em ovos quentes. Todo cuidado é menos que pouco. Muita acuidade. Sensibilidade à flor da pele. O trabalho ia ser longo e penoso. O escritor, ademais, sabia: Valério foi um homem de bem.”

Este é o início de um romance que acabei de ler para fazer a revisão da tradução que dele foi feita. A pedido do autor, não posso revelar, nem seu nome, nem o título de seu romance. Um texto interessantíssimo. Escrito por um homem maduro, que jamais fez uma “oficina de escrita criativa”. Um homem que lê muito. Um homem interessante, que exerceu sua profissão. Um homem comum. O livro parte de uma situação corriqueira que vais, aos poucos, revelando aspectos inusitados das relações humanas, sobretudo aquelas que são chanceladas com o selo “familiar”. Histórias de todo mundo, de todo dia. Histórias que nem todo mundo gosta de contar, mas de derrete de vontade de escutar e goza com elas. É esperar pela publicação do livro e se deleitar. Se eu me lembrar, aviso, quando do lançamento.

Dois livros

Um livro para mulheres e um livro para ninguém. Dois livros. E todo cuidado com as palavras é pouco. Primeiro: pode parecer que estou criticando negativamente aos dois livros. Segundo: pode levar alguém a pensar que sou sexista e acredito na predeterminação de leituras para mulheres ou para homens, separadamente. Como se isso fosse mesmo passível de acontecer e de levar a alguém a acolher tal insanidade. Terceiro: pode parecer que o livro é tão ruim que não deve ser lido… por ninguém. Bem que poderia ser tudo isso. Mas não é nada disso. Depende de quem ler, não apenas de mim, que escrevo, com os autores dos dois livros a que me refiro. São eles: A falência, de Júlia Lopes de Almeida e Vertigem, de José Eduardo Gonçalves; respectivamente. O livro de Julia é escrito por sobre e para mulheres, no sentido de que, ao logo de sua narrativa, o texto apresenta uma protagonista que contrasta e subscreve o estereótipo do feminino à altura da escrita do romance. Do mesmo jeito, a protagonista avança, em termos e comportamento, aos parâmetros de comportamento para uma mulher casada na época. Ela tem um amante e o mantém durante toda a história até o fim da história. Há um artigo – entre muitos que trago aqui, citando o trecho que segue: “Sob esta óptica, poderíamos afirmar, inclusive, que Júlia Lopes, na medida em que se fazia apreciar e respeitar pela intelectualidade de seu tempo, abria para as brasileiras um novo espaço, antes vedado a elas – realizando assim a façanha de tornar-se uma verdadeira profissional das letras, num terreno monopolizado pelos homens. Nesse sentido, cabe ressaltar sua opção pela produção de textos escritos em prosa: apesar de naquela época já possuirmos um número significativo de mulheres escritoras, estas geralmente só se aventuravam pelo ramo da poesia, sem a mesma constância revelada por nossa biografada; eram, regra geral, escritoras ocasionais, restritas ao amadorismo ou ao diletantismo. Observa-se, portanto, que Júlia Lopes não se resignou a adaptar-se à situação que lhe era dada pelo contexto histórico-social em que vivia, atuando firme e tenazmente no sentido de modificar esta situação.”( file:///C:/Users/Admin/Downloads/cadpagu_1999_12_18_LUCA.pdf). Já o livro de José Eduardo Gonçalves tende a ser mesmo um livro para ninguém pois, ao fim e ao cabo, não conta uma história. O texto flui em assertivas diretas de uma voz narrativa que não se identifica e que não aponta para uma direção única que acaba por construir um discurso difuso e pulverizado emitido por uma subjetividade atormentada, para dizer o mínimo. Numa página da internete, encontrei um comentário com o qual concordo em parte. Diz ele: “O livro está recheado de expressões fortes e aforismos. Obscenidades constantemente contrabalanceiam a agonia emocional crescente que acomete o protagonista. Entre pensamentos, fluxos de consciência e crises, vai se montando a mudança constante do narrador-personagem. Chegou a ser surpreendente quando, na leitura vai-e-volta (sic)espaço-temporal, me deparei com a primeira descrição linear. Na reta final do livro, os constantes questionamentos internos podem ficar um pouco cansativos à medida que expressões também se repetem, e talvez por isso elementos importantes se percam”. Ainda que o livro tenha seus efeitos colaterais, é recomendável lê-lo sem a intenção de encontrar fatos táteis, levando todas as possibilidades na continuidade da história. Somente assim poderá ser explorado completamente o vasto campo criado pelas descrições e pensamentos.” (https://www.skoob.com.br/livro/resenhas/58286/mais-gostaram). Como estou tentando falar dos dois livros, vou deixar de lado a oportunidade de fazer comentários sobre esta última “opinião” apresentada, porque é disto que se trata. E quem a emite é um tanto superficial, ingênuo e estereotipado em sua emissão. Mas deixo pra lá. Fica então a indicação de dois livros. Como é bom ler um texto bem escrito!

Lusitanidades

Acabei de ler os dois últimos livros escritos por um simpático e jovem escritor português, o João Tordo, a quem tive o prazer de conhecer em Zagreb, entre 2008 e 2010, quando lá vivi. São eles: Ensina-me a voar sobre os telhados e A mulher que correu atrás do vento, respectivamente. Dele já tinha lido outros dois livros – As três vidas, Anatomia dos mártires e Biografia involuntária dos amantes. O primeiro que li, As três vidas, fez pensar e sentir e ler um tanto de Paul Auster, ainda que com um tratamento trágico-lírico muito peculiar. João Tordo tem esta particularidade: sei lirismo, muito próximo de uma tragédia retumbante, escapa do melodrama pelo cuidado com que o autor localiza suas personagens no drama que engendra. Diferentemente de Paul Auster e de outros tantos que caminham pelas mesmas sendas, João Tordo define sua própria estrada, marcada por esta marca personalíssima de/em sua ficção. Os dois últimos trabalhos que somam em torno de novecentas páginas, são a culminância de um estilo que se construiu pelo fio da maturação de uma linguagem muito própria que parece paralisar acontecimentos em prol do mergulho em espíritos atormentados pela busca de um entendimento impossível (?) que, no entanto, anda disponível pelos desvãos da trajetória mesma daqueles que o procuram. Escritor eminentemente urbano, difere de José Luis Peixoto, seu conterrâneo e coetâneo – perdão pela rima involuntária – no que diz respeito, digamos, à “paisagem” que vai sendo desenhada – não retratada! – pela ficção de/em ambos. O trecho que segue, retirado de um dos volumes que acabei de ler (não vou dizer de qual para instigar os possíveis leitores destas linhas a procurarem pelos livros e tentarem encontrar a passagem citada – já, de antemão, sabendo da quase impossibilidade disto, pois os livros são um tanto caros… mas vale a pena!). Então, segue o trecho escolhido:

“Não sabemos o que é um sonho porque não sabemos o que não é um sonho. Foram muitos aqueles que, no decurso da história da literatura, insistiram nesta ideia. Tomemos, a título de exemplo, os versos de Edgar Allan Poe: “All that we see or seem/Is but a dream within a dream”. Ou Shakespeare, dito por Próspero, ainda mais fracturante: “We are such stuff/As dreams are made on, and our little life/Is rounded with a sleep”.  Porventura, a ideia mais pertinente é que o sonho e a vigília não são compartimentos estanques; misturam-se, fundem-se habilmente e, ao mesmo tempo, com imensa discrição, de tal maneira que é possível sonhar e saber que estamos a sonhar, e estar acor­dado sabendo que sonhamos. Talvez esta última ideia seja menos comum. Mas só o é porque, na vigília, que dura mais tempo (e apresenta maior consistência narrativa), existe a neces­sidade de nos assegurarmos do real, ou a vida seria uma panóplia de surpresas: rostos trocados, objectos desaparecidos, carros voadores.

Mas haverá alguém que tenha acreditado, mesmo que por um breve segundo, que o sonho da noite anterior, ou de há meses ou anos, foi realidade? Que era tão consistente como o chão ou as montanhas ou a chuva? É inútil esboçar argumentos ou tentar explicar esta ideia, mesmo a nós próprios. Seria como convencer Dom Quixote da sua loucura – e portanto, remover-lhe o véu da ilusão, condenando-o a um aborrecido destino enquanto Alonso Quijano. Ou convencer um homem desperto de que, na verdade, está a sonhar: Vogler, o mudo-falante, demonstrando-lhe a inépcia das suas ilusões. Tudo isto faria sentido se soubéssemos a diferença.”

Isso faz com que eu goste mais do escritor. Como disse, conheci-o, tímido, em Zagreb, durante uma oficina. Gosto do que ele escreve. Estou com outros títulos de sua autoria à espera de leitura. Vou fazê-lo, de certeza! Antes, porém, retomei o Peixoto, aqui citado, relendo dele O cemitério de pianos, mas este é um assunto para outra hora…

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Machado, de novo

Acabei de reler Dom Casmurro e estou terminando a leitura das obras de Santa Tereza d’Ávila, cheguei à “Quinta morada” hoje. Creio não ser possível, assim, de cara, sem mais nada, estabelecer qualquer relação entre os dois textos. Um é cético, a outra, fervorosa in extremis. Nem vou tentar. Peguei agora essa mania de ler dois livros ao mesmo tempo, em dias alternados, sobretudo na leitura de após o almoço. Continuo lendo um só antes de dormir, quando a internete não me seduz… É fato, Dom Casmurro é um mais que excelente livro. Junto com Esaú e Jacó, inaugura o que comecei a chamar de fase romanesca de Machado de Assis. Antes desses dois, o autor carioca escreveu novelas e um livro de memórias, ainda que a avesso, na contramão. Como o que escrevo aqui não constitui trabalho “acadêmico”, nem vou me preocupar em dar explicações sobre isso ou aquilo. Anoto apenas as minhas impressões de leitura e deixo o que vier depois para quem quiser se preocupar com possíveis desdobramentos e/ou ilações. Pois é. Está lá, escrito com todas as letras. Capitu chama Bentinho de mentiroso. Na lata. Já não me lembro exatamente onde, mas está lá, escrito, literalmente: “mentiroso”. Uma amiga minha, a Eni, faz essa insinuação em sua tese de doutoramento ou, se não me equivoco, chegamos a conversar sobre isso. Faz tanto tempo… Uma tese brilhante. Mas votando à vaca fria, Bentinho é mentiroso. Se não tanto, no mínimo, maquiavélico, pois consegue dar todas as informações necessárias ao leitor desconfiado – menos que ele – induzindo-o a concluir que Capitu é traidora. Entretanto, estas mesmas informações não conseguem sustentar a mesma hipótese. Não é possível afirmar com todas as letras que Capitu traiu Bentinho. Já fiz essa pergunta antes: isso é mesmo necessário ou interessante? Disso todo fica uma lição: Dom Casmurro é um livro contundente. De um detalhismo quase chinês, de tão detalhado. Ao mesmo tempo que sua complexidade pode fazer perder o sono, ela seduz e excita, pois faz com que o leitor não se perca nas entrelinhas – que não são poucas – da narrativa. Um episódio doméstico transformado numa quase saga demiúrgica. Todas as personagens, para além do protagonista que é também o narrador, são decorativas. Esta hipótese também merece discussão. Como a anterior, vai ficar para as calendas. Permanece a certeza de que este romance é para ser lido e relido, sempre que der vontade, ou quando se quer fazer o tico e teco funcionarem um pouco mais. Punto i basta!

Reler Machado II

Na releitura que estou fazendo dos livros de Machado de Assis, algumas coisas se confirmam. Outras passam desapercebidas, como é de se esperar. Há, porém, ideias (para mim) novas. Definir “novo” é de uma dificuldade imensurável, quase impossível. A cada instante, o conceito se renova e se alarga. Pois bem. A primeira ideia que me ocorreu foi, a partir da releitura, constatar que nas primeira quatro obras de narrativa longa (ao patrulheiros da genologia que me perdoem, mas não cedo ao impulso de generalizar) – Iaiá Garcia, Helena, Ressurreição e A mão e a luva, o feminino impera. Em primeiro lugar, nos títulos: todos formados por palavras de gênero feminino. Dois nomes próprios e três substantivos comuns. Seguindo esta linha de raciocínio, nova “coincidência”: nos quatro livros, as mulheres são protagonistas, ainda que apresentadas e conduzidas (como a cinematográfica Miss Daisy!) por um narrador cuja voz é masculina, bem masculina. Ora, o detalhe pode ser superficial e sem sentido, mas, na releitura, seu papel é contundente. Deste pseudo feminino representado – de fato as protagonistas aparecem como marionetes na mão de um narrador cioso de seu papel, cônscio de seu “poder” e atento à sua “responsabilidade” – estas personagens poderiam levar o autor incauto a concordar com a falácia que reúne estas quatro obras num conjunto equivocadamente denominado de “fase romântica”. No caso de Machado de Assis, as aspas são mais que fundamentais… Não vou me ater a este pormenor, mas faço questão de deixá-lo, aqui, devidamente registrado e ressaltado. Digo isso porque, ao fim e ao cabo, o desempenho destas mulheres de papel não chega a alcançar a potência de heroínas românticas como reza o ABC do Romantismo já, a esta altura, mais que conhecido. De mais a mais, o romantismo das histórias atém-se a um certo movimento de vai e vem, bem ao gosto, este sim, do Romantismo mais castiço, sem, contudo, alcançar o ápice da tragédia que também marca o mesmo Romantismo. Há que acrescentar que a “solução” dada pelo narrador a para cada uma das tramas não pode ipso facto ser alcunhada de romântica. Falta-lhe mais estofo. O que não pode levar à desvalorização do trabalho estético de Machado de Assis. De fato, o escritor merece os epítetos que recebeu. Isto me leva a pensar no quinto livro, Memórias póstumas de Brás Cubas. De cara, fico pensando na tradição de chamá-lo de “romance”. Ai, ai… a minha chatice, uma vez mais, não se aquieta e se pergunta, sempre e mais, será mesmo um romance? Vamos ver. Já o título aumenta a dúvida, se aceita como pressuposto, uma vez que traz em seu sintagma nominal uma palavra que pode, se assim o quiserem, ferir de morte os puristas em/de todas as teorias acerca do romance. Trata-se de “memórias”. No sentido mais restrito, o termo não remete imediatamente para espécie bem definida da prosa, consubstanciada ao longo do século XIX. Não. No passo seguinte, o adjetivo “póstumas” já cria outro estranhamento, talvez mais perspicaz e incômodo, simultaneamente. Memórias, sem sombra de dúvida, há de ser algo póstumo. Deixando a tentação de vibrar a corda da redundância para dissonar o título do livro, lembro que o próprio texto machadiano apresenta uma chave para abrir esta porta e tentar “entender” do que se trata. Vejamos: “Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver dedico como saudosa lembrança estas Memórias Póstumas”. Estranho. A dedicatória é posterior à escrita do livro. Até aí, nada. Mas esta mesma dedicatória é igualmente marcada pelo caráter de coisa passada… póstuma. O possessivo “meu”, que particulariza cadáver, descortina um sofisma abissal: quem escreve a dedicatória e, por consequência, o livro, a história, é um morto. O estranhamento se adensa quando se lê, antes, o verbo “roer”, no pretérito perfeito. Nenhuma dúvida quanto à condição do autor: defunto. Melhor dizendo, para acompanhar a tradição: o defunto autor. Aliás, é o próprio autor, Machado de Assis, que insinua isso logo a seguir, no “Prólogo”. Depois dele, o autor, Brás Cubas, escreve um pequeno introito, intitulado “Ao leitor”. Pronto. Está armada a confusão! E se pode aumentar a dúvida, quando da leitura do último parágrafo que diz: “Este último capítulo é todo de negativas. Não alcancei a celebridade do emplasto, não fui ministro, não fui califa, não conheci o casamento. Verdade é que, ao lado dessas faltas, coube-me a boa fortuna de não comprar o pão com o suor do meu rosto. Mais; não padeci a morte de D. Plácida, nem a semidemência do Quincas Borba. Somadas umas coisas e outras, qualquer pessoa imaginará que não houve míngua nem sobra, e conseguintemente que saí quite com a vida. E imaginará mal; porque ao chegar a este outro lado do mistério, achei-me com um pequeno saldo, que é a derradeira negativa deste capítulo de negativas: — Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria.” Destaco, a título de curiosidade, sempre remetendo ao que disse no início, a expressão “… ao chegar a este outro lado do mistério…”. Creio não ser abusado afirmar que o tal mistério é, ambiguamente, a vida e a morte, ambos vivenciados por Brás Cubas. Além do mais, a assertiva fecha o raciocínio e negação que sustenta o parágrafo. Como quis o mesmo autor em outra circunstância, juntando as duas pontas, permanecemos no mesmo ponto: a dúvida. Trata-se mesmo de um romance? Vale lembrar que as histórias narradas são mais episódios vivenciados e rememorados pelo autor defunto, o que não faz deles células dramáticas na/da construção do tecido narrativo peculiar de um romance. Fica a dúvida. Há que ler e reler, para tentar esclarecer. Será que é possível?

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