Início

O texto que segue pretende ser o início de um ensaio que desejo escrever sobre os livros de Bernardo Carvalho.

Ainda é viva a lembrança do momento exato em que víamos o mar, depois de quase dois dias inteiros de viagem. Deslumbramento. A estreada sabia levemente, serpenteando canaviais imensos e grandes plantações de abacaxi. Aqui e acolá, aglomerados de casas, algumas taperas, e crianças brincando à beira da estrada. Os verdes canaviais e o cheiro de abacaxi eram indescritíveis. Dois dias de viagem, às vezes, passando por Macaé, às vezes, por Itaperuna. Ambas no estado do Rio. Por um ou outro roteiro, o fusca azul de meu pai mais parecia a cápsula Apolo que foi à lua em 69. Lá, na praia, meus pais, tios e amigos reunidos depois do banho matinal de mar, olhavam, para o céu, a comemorar o primeiro passo do homem na lua. Entre copos de cerveja, batidas de limão, e peixe frito, falavam, riam, bebiam e comemoravam. Três dias antes de eu completar treze anos de idade, o homem pisou na lua por primeira vez. Nisso se acredita até hoje. Há quem coloque em dúvida. Era Marataízes-ES. A viagem era, mesmo, como a da espaçonave que chegou à lua. Um fusca azul e três meninos. A prancha de isopor sobre as pernas. No meio do caminho, servia de mesa para o lanche. Era impossível sair do carro. No porta-malas (na frente e em cima do carro) as malas com as roupas pessoais. No buraco, atrás do banco braseiro, utensílios de cozinha, travesseiros e outras coisas encaixadas, magicamente, no diminuto espaço livre. Ente as pernas de nós três (meus irmãos e eu) mais coisas encaixadas. Se saíssemos toda vez que papai parava para abastecer, tudo desmoronaria. Então só descíamos na parada do “meio” da viagem e quando chegávamos a Marataízes. Itaperuna ou Macaé. Era o caminho conhecido até o litoral sul do Espírito Santo. Àquela altura, final dos anos sessenta, eu não fazia ideia do que ocorria pelo Brasil, de fato. Sempre estranhei certas coisas, mas nunca soube ao certo, direito, com detalhe. A viagem era uma epopeia. Para matar o tempo, eu contava cemitérios. Às vezes brincávamos de adivinha. Em outros momentos cantávamos de tudo. Era mesmo uma epopeia. No entanto, anos depois – isso teve início no verão de 1967 e durou até dezembro de 1979 – a sensação se repetia. Sempre. E ainda se repete, com menos intensidade, devo dizer – deve ser fruto da passagem dos anos. Mas ainda há o encantamento de vislumbrar, num átimo, a faixa verde pintalgada de branco – sobretudo no verão. Visão do paraíso. Tanto entre janeiro e março, quanto em julho, as temporadas de talassoterapia deixaram em mim muitas lembranças. A mais intensa e colorida, a da visão do mar quando da chegada.

Este primeiro parágrafo serve de esboço de um pano de fundo. A cena do relato que aqui vai se desenvolver. Talvez não faça sentido para quem não admite o traço subjetivo, biográfico, que resiste, mesmo contra todos os esforços contrários, no âmago da escrita ensaística. Muitos narizes já estão torcidos a esta altura. Não me importo. Este introito se deve à impressão que me ficou da maratona de leitura dos livros de Bernardo Carvalho. Estes livros constituem o meu objeto de atenção, de desejo, nas páginas que aqui vão. A rememoração de uma experiência muito pessoal servirá para delinear o perímetro desta impressão de leitura que me move. O conjunto de 11 livros me levou a esta imagem de deslumbramento que decorre de um período de “dificuldade”. As aspas revelam apenas a minha incapacidade de encontrar termo mais adequado ou mais expressivo para associar a esta impressão, identificando-a. Os livros de Bernardo Carvalho – tecnicamente considerados “romances” (Não vou entrar no mérito desta questão!) – levaram-me a recuperar o deslumbramento de ver o mar, quando da leitura do conjunto de sua obra, até aqui. Esta última ressalva se sustenta, dado que o autor ainda vive. Assumo o risco, de certa forma, criticado por boa parte de acadêmicos portugueses, ao atrever-me a escrever sobre “autor ainda vivo”.

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Gordinho. Bem ao gosto da cultura lá de cima. Gordinho e com bochechas rosadas. Barriga enorme e um bigodinho safado, Tudo num rosto quase angelical de criança tímida. Como era. Observador. O funcionário o escritório quis fazer gozação com ele e se deu mal. Tudo que o funcionário queria, o gordinho já tinha providenciado. Radar, seu apelido. Porque atento, sagaz e observador. O gosto pelo código penal. O comentário sobre o desejo de estudar e se tornar um homem da lei. O funcionário observando surpreso. No salão de jogos eletrônicos, o primeiro diálogo. A continuação da conversa sobre ser policial, agente de espionagem ou segurança. Algo melhor para melhor acomodar a mãe. Igualmente gordinha. Quituteira. Afável e ingênua. Apaixonada pelo galã que apresentava o programa da tarde. Suspiros. Meu filho vai ser alguém. A mãe o filho. Gordinhos. Ambos cuidando um do outro. O sonho de uma vida melhor para a mãe dirigindo os planos do filho. O pedido de demissão. O acordo feito com o funcionário. Universidade. Segurança do campus. O dormitório. Burburinho. Estudantes andando, gritando, correndo. O burburinho no apartamento. Música. Risadas. O burburinho. Com educação, o bater na porta. A observação. bebida alcoólica. Maconha. O burburinho dentro e fora. A proibição. A ameaça. O comunicado. A segurança acima de tudo. A necessidade de manter a ordem. A educação da juventude. O reitor chama. Reclama, observa. Vitupera que não pode ser. Parar carros. Vasculhar em busca de bebida alcoólica e maconha. Na estrada não pode. A demissão. O corretivo. De novo, o sonho e os suspiros maternais. Novo emprego. Segurança. Ano olímpico. Cidade cheia, movimentada. Eventos pra todo lado. A turma de adolescentes bebendo. A conversa com os policiais. A educação delicada levando refrigerantes para os seguranças. O agente federal e a jornalista. O trabalho e a busca de novidades. Furos de reportagem. O tédio. A ingenuidade. A população jeca ao som de música jeca. Os eventos. Ano olímpico. A atenção num suspeito. A mochila no chão. Cerveja. Os amigos. A ajuda ao pessoal da produção. O mal estar. Quase falta. Insiste. O gordinho sonha em ser agente federal, advogado, espião. Algo ligado à segurança, ao código penal. Os suspiros da mãe. O trabalho. mais um espetáculo. A mochila deixada embaixo de um banco. O alerta. A desconfiança. O palpite. O grupo de adolescentes bêbados. O alerta. O bullying. Um gordinho mandando nos jovens. Pode isso? Mais bullying. Outro alerta. Os policiais. A correria. Adolescente tem medo de distintivo. A mochila debaixo do banco. O alerta. O descrédito dos policiais. O telefonema anônimo. “A que horas você sai do trabalho?”. Mais um idiota. O evento. Multidão. Olhos atentos. Jornalista seduzindo o agente trabalhando. Tédio. Ingenuidade. Gente comum numa noite incomum. O show. O evento. Multidão. Outro telefonema. “Há uma bomba. Vocês têm trinta minutos”. Trinta minutos. O alerta. A desconfiança. Há que seguir o protocolo. É isso o que ensinam no treinamento de segurança. Há que examinar. Melhor tentar, errando, que não fazer ada. O alerta. O agente. A comoção. A insistência. A mochila debaixo do banco. O gordinho corre, corre. Avisa ao pessoal da produção. O agente antibombas chega. A mochila examinada. O gordinho faz cara de que sabia de tudo. Orgulhoso por ter avisado. A bomba. O alerta. O afastamento da multidão. Gritaria. Correria. Bum! A gritaria. Sangue e gritaria. O agente ferido. O gordinho no chão. O susto. Gritaria. Sirenes. Luzes. O agente no chão ferido. A mulher morta empapada em sangue. O pandemônio. A noite que não se esperava. O gordinho ciente de tudo na expressão tranquila de ajuda. A confusão e a tontura no meio da confusão. E era para ter pedido dispensa pelo mal estar. O oportunista. Você é um herói. A entrevista. O tímido gordinho entrevistado como herói de uma noite trágica. O funcionário do escritório vendo tudo. “Good for you, Radar!”. Há alguém que quer conversar com você. Diretor de editora famosa e conhecida. Vamos tomar um café. Imagina só. Um monte de perguntas. Querem publicar um livro com a história. Disseram que fazem as perguntas. A resposta e o contrato. A fama e o sucesso. Imagina só! Ainda pagam para não escrever nada. Só contar a história. E a mãe preocupada com a comida. deve estar com fome. Imagina. Meu filho é um herói. Imagina só.  Basta contar a história, responder os questionários. Pagam pra isso! O dossiê na mesa do agente federal. A investigação superior. O tédio. A obrigação de estar onde não se quer. A observação. O dossiê. Há um suspeito. O reitor diz que não quer acusar ninguém. Há um suspeito.

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No meio da escadaria. No meio daquela gente toda. A academia em polvorosa. Agitada, elétrica, crente me seu esplendor e glória na bajulação dos ícones de areia que perambulavam pontificais no meio da patuleia letrada. Um triunfo. De repente, do nada, Zildah Kurve atravessa o povo e pergunta se estava tudo bem. Tudo, tudo bem sim. Tem certeza, insistiu ela. Claro, não estou doente nem nada. Não me refiro a isso, replicou a dona. Se eu fosse você passava na secretaria. Uns dias se passaram. A dúvida. Cisma. Elucubrações das mais inusitadas antes do aperto. A secretária na parede,. Comadre, adora um fuxico. Não foi difícil arrancar oque se passava. Antes disso porém, a presença pesada e nefasta daquele com cara de pug. Horroroso. Esquisito. Ele não passou pela seleção. estava um grau abaixo, quase a terminar e agora estava ali. No grau superior. Esquisito. As bolsas não saíam. De repente a constatação, o de cara de pug tinha bolsa. Era última. A secretária, fofoqueira, ainda que competente confirmou. Como assim? Sem passar pela seleção. Isso mesmo. De cara limpa. Cara de pug, mas cara limpa na expressão da falsa ingenuidade e da pose de gênio. Era ir à caça da explicação. Aperta daqui, aperta dali, a secretária entregou o jogo. Confidente. Solidária. Lúcia Shoupanna comunica a seu amante, o coordenador. Conluio. As férias de meio de ano próximas. O congresso e a patuleia azeda e elétrica. O clima perfeito para o golpe. O de cara de pug, brilhante. Ele. O pivô do crime. O coordenado, amante da Maria, acede e convoca. Quatro dias depois de iniciadas as férias de meio de ano. Providencial. Primeira chamada. Nada. O eco se repete na segunda chamada. O regimento. A brecha. A oportunidade. Três presentes, terceira chamada. Regimental. Blsa aprovada para o cara de pug. Zildah Kurve e Lúcia Shoupanna, amigas e cúmplices. O amante chancela. A bolsa. Você sabia? Na terça-feira. Um grupo do grau superior. Você sabia? Na quarta-feira, outro grupo. Por fim, na quinta-feira, o terceiro grupo do grau superior. Você sabia? O circo armado. Suspiros e sussurros. Não era nome de filme. Alguma coisa no ar. Mal estar. Olhos virados. Suspiros e sussurros. O coordenador chama. O de cara de pug é tímido, está deprimido. O diz que diz é grande. Ninguém sabe direito. Há que conversar. Explicações. Desculpas. Acobertamento do golpe. Não há conversa. Que importa a melancolia do de cara de pug. Está deprimido? Vá se tratar. O direito de um não pode ser o regozijo de outro. Indevidamente. Então a escada e a pergunta fazem sentido. O burburinho da patuleia na escada. Zildah não podia ter sido mais esperta. A pergunta no ar. A dúvida. A insinuação. Bem o seu feitio. E pensar que aquilo já foi motivo de orgulho. Estar com aquilo num jantar. Sentar num boteco e beber a noite toda. Uma glória. Conviver com aquilo. Era escol, na imaginação. Lixo. Esgoto. Sujeira. A escada e o burburinho foram o golpe de mestre. Em três semanas o que era de um teve seu destino certo. “Não há bem que sempre dure, nem mal que nunca se acabe…”. O adagiário, uma vez mais, correto. O tempo passa. Não mais burburinho. Não mais patuleia. Não mais protegido com cara de pug. Outro nível. O pico. O cume. O ápice. A vingança. Zildah e Lúcia se juntam, de novo, para o retorno. O vômito do reconhecimento da falta de vergonha. A contraprova. Não mais burburinho. Não mais patuleia. Agora era o golpe fatal. O impedimento. A destruição de uma carreira toda. Bala que sai pela culatra. Mas contou com o auxílio de outros dois. “Negligência cabal no que se refere ao estudo de textos literários (…), em sua relação com as cartas, embora tenha anunciado repetidamente este propósito”. A falácia.  A tentativa de desmerecimento. Ato falho. A pequenez do ser humano em uma de suas manifestações mais hediondamente cabais. Definitivas. O tiro pela culatra. O ex-professor na corriola. Será que leram mesmo? O tiro pela culatra. Bola fora. O recomeço. Reabertura do processo. A exigência demandada e cumprida. Nova comissão. Novos olhares. Resquícios do golpe na sombra dos nomes. O retorno. O triunfo a aprovação. Os dois títeres a consignar a infâmia que sopita do pântano. As duas vociferaram por escrito e falharam. As duas. De novo o adagiário: o feitiço que se volta contra o feiticeiro. Ficou na lembrança. Obscura. O burburinho da escada. A patuleia esbaforia. O olhar esgazeado de veneno de Zildah. Nada. Um passado de décadas. O retorno que se faz justo a cada lembrança. A cada rememoração. O que era lixo virou livro. Duas letras. Sete séculos de reconhecimento. Trezentas e poucas páginas de aprovação. Nada de burburinho em escada. Nada de patuleia convencida, Não mais. Nunca mais!

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Foi ao longo de um período. Longe de ter sido um acontecimento fortuito, gratuito, sazonal. Definitivamente foi o contrário. A primeira manifestação veio quando do comício. A chuva. A multidão, O discurso inflamado do candidato, as aulas “matadas” para ir até a praça da estação ouvir o candidato. Se o outro, preparado, experiente, muito bem formado fez o que fez, em detrimento de seus iguais, talvez a mudança radical fosse uma possibilidade concreta. O apoio. A dúvida dançando sob a chuva, na praça da estação, ao sabor do vozerio da patuleia que gritava. Uma noite memorável. O tempo passa e tudo parece continuar no mesmo compasso. “Mudam-se os ventos…”, mas as vontades não mudaram tanto assim. E a coisa degringolou. Gastos, montes de dinheiro desaparecido. Compras inexplicadas. Inaugurações fora dos imites nacionais. Hospedagens em andares inteiros de hotéis caríssimos. Joias para as esposas. Compra de votos para eventos gigantescos, sem retorno algum. Um festival de horrores. baile de máscaras tenebroso. A mesma cantilena que desfez a esperança. O melhor amigo comemorando a felicidade crescente da população. Mais gente nos teatros, restaurantes e aviões. Mais gente nas universidades. “A que preço? Quem vai pagar essa conta? De onde vai sair o dinheiro?”. A amizade de décadas destruída por uma brincadeira gratuita, provocativa, mas humorística, galhofeira. Comparação destruidora. O sarcasmo deslavado. O fim. E a festa continua. Depois foi a vez daquele de longe. Um único encontro pessoal. Correspondência intensa. Reafirmação de votos. Convite para integrar o Silogeu. Nada. Tudo igual. “Por favor, não me escreva mais. Não posso mais ler oque você me escreve. Como não concordo e sei que você não vai mudar, prefiro cortar a amizade por aqui mesmo”. Fim, Mais um. A tristeza por perceber a distância da compreensão, a estreiteza de horizonte. A repetição dos lugares comuns, das palavras de ordem, das opiniões consensuais. Nelson Rodrigues estava certo sobre a estupidez do consenso. Tudo sempre na mesma tecla. O mesmo do mesmo. Cada vez ais adensada a mesma cor. Um baque forte. A ex-aluna. Menina exemplar, brilhante. Mente autônoma em franco crescimento e fortalecimento. O carinho quase paternal. A amizade que rendeu viagens a uma região então desconhecida: o sertão. Três vezes. Uma delícia. a amizade que se estreita pelo intelecto, amarrado pelo fato. Sublime. E o mesmo coro de corvos por detrás, num momento de surpresa indigesta. “Só quem não tem cérebro é que leva este senhor a sério. Quem concorda com ele só pode ser estúpido”. Vaticínio irrecorrível seguido do mesmo pedido. O corte, o fim, o desdém. Completo. A reclamação por espaço na atitude que reprime o mesmo espaço. Incompreensível. Na capital federal, por último se fez o egrégio repetir ritual das mesmas balelas. “Não me mande mais esse tipo de mensagem. Não posso concordar. Tenho nojo disso tudo”. Que pena. Que triste. A á de cal, até prova em contrário, no distrito federal. Depois de quase trinta anos. O reencontro esperado, muito ensaiado. Adiado. O desencontro com o filho mais novo. Justamente o que era mais desejado. Nina e Bernardo. Que visão. A passagem do tempo e o amadurecimento. O livro de contos da Clarice como presente de aniversário. Rever aquele sorriso redondo. Escutar aquela voz de sotaque misto, com um “s” muito particular, entre dentes. A saudade saciada em copos de vinho, risadas e fatias de pizza. Com os “meninos”. Dois deles só. Mas ainda os meninos. A conversa solta. O papo de fim de noite. O nome daquela mulher aparece no papo. Como?  A propósito de quê? Como é que pode alguém que celebra a mandioca? Que diz que atrás de cada criança tem um cachorro? Que fica pesarosa porque não há como estocar vento? Que discute os motivos da pasta de dente não voltar para o dentifrício? Isso é lá possível? Cara fechada. Motivos não faltam, mas eu te amo, diz ela. Isso não é do jeito que falam. Não se pode dizer isso. É sequela das torturas. Como assim? E veio a morta-viva. Numa brincadeira de humor negro. E os cinco pontos de exclamação em seguida: “Se não tem, convicção pra quê publicar?”. Onde o sentido. Onde a razão? Em que ponto da História ficou o bom senso? A percepção de que o motivo da crítica é o objeto de outra crítica. Simples assim. Anos de espera. O esmo quadro se repete. A mesma cantilena. O mesmo pedido. O mesmo corte. Deve haver um padrão nisso. Não há de ser algo aleatório, como se nada tivesse acontecido antes. Parece haver um ritmo metonímico de construção desse pensamento. Se é que isso pode ser mesmo chamado de pensamento. Onde a lógica? Por quê?

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Foram, no máximo, oito dias. Entre o aniversário do neto e a internação. Uma semana mais um dia. Muito pouco tempo. Muita intensidade para um curto espaço de tempo. Muita tensão a se acumular. A saga começara no domingo mesmo do aniversário do neto. O pai de uma amiga, assim, de repente, morre. Depois do almoço de aniversário, levar a avó ao hospital. Passar no velório. Fazer o que manda a civilidade e a amizade – então ainda amizade; não havia como prever o futuro; não era possível adiantar o passo e evitar a separação que depois houve, quase vinte anos depois. A amizade que começa num “encontro” de jovens da igreja católica. A identificação. A amizade entre as famílias. O convívio. A separação de um ano pela experiência religiosa. O retorno. A amizade. Anos a fio. Morre o pai da amiga. Oito dias antes. Depois morre a mãe. O aviso. A viagem. A ausência no velório e no enterro. Depois uma visita. O silêncio. Braços cruzados. Nenhuma palavra e os rompantes. Mais uns meses e o recado. A busca. Os recados deixados com os irmãos. Um final de semana e nada. Na terça-feira o telefonema. “Tudo bem? Você me procurou”. Recebi um recado. O que foi? “Precisava de um telefone, mas já encontrei”. Tudo bem no mais? “Tudo”. E o mestrado, como é que andam as pesquisas? “Bem”. Várias perguntas longas seguidas de monossílabos. Anos se passaram sem contato. O fim da amizade. O que não poderia ter sido previsto naquelas noites dos oito dias. Oito dias. O almoço e aniversário em família. O vinho. A zonzura. Depois o hospital. O cheiro insuportável do hospital. Parece que todos eles têm o mesmo cheiro. Mistura de lixo com éter. Inebriante. Murcho e úmido. Um miasma. O insuportável cheiro de hospital antes da ausência de cheiro do velório. as pessoas e seus perfumes se misturavam. Velório, ao contrário de hospital, não tem cheiro. Oito dias. Nessa ordem. Almoço, hospital, velório. Tudo num dia só. No primeiro dos oito dias que se seguiram. No correr da semana, as agruras do dia a dia mais comum. As visitas diárias ao hospital para visitar a avó. As notícias que chegavam de lá, pelos pais, depois das visitas, à noite, depois do trabalho. Uma semana. Todas as noites, a mesma cantilena. As notícias do médico. Diverticulite. Colostomia. Uti. Uma semana de oito dias demorados, longos, tensos, tristes. Oito dias. Os irmãos foram chamados. O prognóstico ruim. Muitos anos de viuvez. Muitos anos de lágrimas e saudades do marido. Muitos anos de visitas ao apartamento antes das aulas. A cerveja gelada, o molho de carne pra molhar o pão. A cerveja. As conversas. Risos e lágrimas, revelações. As visitas que findavam por cabulação das aulas. No dia seguinte, o pito. A avó xingando o neto pela cerveja demais, pela falação demais. As risadas. Muitos anos. Agora a agonia numa uti. Igual a todas as uti’s. Oito dias depois, a notícia do prognóstico ruim. lamento. Choro. Silencio em casa. Televisão desligada. A nora recebendo telefonema do segundo filho e reclamando. “Vê se não chora. Se é pra dar notícia, fala, com calma. Não chora à toa”. Não adiantou. Na véspera do oitavo dia, mais um telefonema. E o filho chorou. O irmão xinga e conversa. O quadro piorou. Na segunda-feira, oito dias depois a notícia. “Mamãe…”. E o choro convulsivo. A nora corre para o hospital. Liga para o trabalho do filho. No hospital uma cunhada da mãe está com ela. Convulsa. Aos gritos. Xingando o cunhado. A avó não tinha morrido. Ele chorou em vez de falar. Os gritos. O choro convulso. Os gritos. O cunhado chega. A mãe avança sobre ele. Tapas. Gritos. Choros. Mais gritos. O cunhado mudo. Quedo. Paralisado. A dor da perda da mãe. O susto com a cunhada. E mais gritos, mais tapas. Reclamações. A outra cunhada dá um safanão na mãe. Joga-a no sofá. “Para com isso!”. Ela cai num choro doído, molhado, sentido e silencioso no sofá da sala de espera da ala da uti no hospital. A crise passou. A cunhada se desculpa. A mãe chora. O telefonema para o filho. Não morreu. O almoço. Os avisos sobre o engano. Depois do almoço, na tarde do oitavo dia, a confirmação da morte. Definitiva, agora. Toca telefonar de novo. Lista imensa. Sem choro. Sem grito. sem safanão. A notícia que se espalha como água no deserto: rápida. E desaparece no tempo. Oito dias de tensão rebentando em momentos tensos numa sala de espera de uti. Oito dias. E tudo parecia um conto, uma história que se passa na tela de um cinema, mas custa a parecer real. Oito dias de agonia, de tensão, de espera e desesperança. Oito dias entre o almoço com o neto e a morte da avó. Um tempo que não se calcula com horas. Um tempo que não pode ser parado com safanões. A explosão que não se controla e que. necessária, acontece. Oito dias depois.

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Uma época em que as férias significavam duas coisas: o tormento da viagem e a delícia da praia por quinze dias ou um mês. A viagem num fusca com três crianças e toda a quinquilharia para a casa: panelas, guarnição de cama, mesa e banho. Utensílios e produtos de limpeza, a prancha de isopor, os óculos entortados do irmão que dormiu sentado, sem jeito. Quase dois dias inteiros. Para em Macaé ou Itaperuna. Dependia da hora de saída de casa. Dependia do trânsito, O carro mais parecia uma nave espacial. Nas paradas, a mãe saía e trazia o lanche. Impossível sair. Se saíssem as crianças, tudo desmoronava. O fusquinha com porta-malas interno e externo abarrotados e mais os espaços livros entre os guris. Um tormento. Mas a chegada ao litoral era sempre uma festa. Cantigas populares, contagem de cemitérios e a contagem regressiva com aposta para quem via primeiro o mar. A estrada subia um pouco e… bum! O mar. Verdinho. Encapelado. E a chegada era outro tormento: a desmontagem da nave espacial. Ops, do fusca. Todo ano a mesma coisa. O reencontro das famílias também associadas ao “Condomínio”; Vizinhança temporária. Surpresas e chatices repetidas. A primeira foi Elisa. Oito anos. Elisa Nogueira. O nome que não se esqueceu. O primeiro amor. Sim, o primeiro. Mesmo na primeira infância o amor se manifesta. Nas férias. No verão. Não importa. O primeiro amor. Brincar de manhã na praia. Castelos de areia molhada. Jogar bola. Furar onda. Pegar jacaré. A infância ingênua. Os passeios de mãos dadas à tarde. Ficar de mãos dados muito tempo. Olho no olho. Sentados na varanda da casa olhando o mar. Amor não é só paixão, sexo e casamento. Não mesmo. Depois do almoço, a tia que pagava sorvete. A pracinha. Os passeios de bicicleta e no lombo de cavalos feios, cansados. A alegria da garotada. A torcida nos jogos de voleibol dos pais. Disputa anual. Tudo mágico. A segunda foi Mônica. Magrinha. Feinha. Irmã de um colega de sala do colégio. Parecia a Olívia palito de tão magra. Ninguém namorava com ela. O próprio irmão participava da gozação, da ofensa. Hoje é bullying que fala, né?! A mesma praia. O mesmo cenário da primeira infância. O mesmo tormento e sequência. Tudo igual, menos Elisa. Agora era Mônica. Uns beijinhos, assim, roubados, na praia, de tarde. Os amigos em volta. Constrangimento. Falta de graça. No fundo, era um sentimento de compaixão, mais que afeto, ou amor. Não era como Elisa. A ingenuidade já quase não havia. Mônica foi um estágio intermediário, obviamente. No tempo e na experiência. Muita conversa. Muita explicação. Duas vezes. Só duas vezes. Nunca mais. Na história dos verões e invernos no litoral – depois de um tempo as viagens dobraram. O tormento não mais. O carro era maior. O condomínio expandido. Nova unidade. Mais apartamentos num só prédio. O bar do Valtinho. Não mais os mesmos vizinhos. A cada ida um surpresa. Os amigos da Tia. Filho e seus amigos da amiga da Tia. Os passeios da tarde. A gozação dos amigos do filho da amiga da tia. Vergonha. Mas a mesma aventura, já sem muita emoção, ingenuidade ou fantasia. Os campeonatos de voleibol rareando. Virgínia. Família grande. Só filhas. Os pais, comerciantes, zelosos das casadoiras meninas que se multiplicam em cinco, com diferença de um ano. Virgínia era a segunda. Estudante de medicina. Bonita. Engraçada, As noites regadas a vodca e soda limonada. Dançar música alenta agarradinho. Ela dormindo no peito. Música lenta. Os amigos em volta como cinturão de segurança. As irmãs. Os amigos do verão, ou do inverno. Dois anos. O primeiro beijo na escada do condomínio. Beijo enfurecido. Molhado. Mordido. A boca machucada. A surpresa da aventura jamais desejada. Não havia tesão. O beijo era tudo. Começava e terminava ali, nele. A escada do condomínio. O segredo. As noites regadas a vodca com soda limonada no Chalé 70. Música lenta. Os beijos na escada do condomínio. O aniversário de Virgínia dois meses depois. Namoro. Encontros semanais no estacionamento da faculdade de Medicina. A indecisão. A dúvida. Os beijos fogosos, molhados e mordidos. Virgínia era sedenta. O estacionamento por testemunha de uma experiência perturbadora. O aniversário de Virgínia. Antes, o fim. Virgínia recuada, ressabiada. Virgínia desmarcando os encontros no fusca, no estacionamento da faculdade. A volta de Pavan, o último namorado. Homem mais velho – já, naquele tempo, ter trinta anos de idade era ser “mais velho” – mais experiente. Mais maduro, Namoro com segurança para casamento. O choro. A dúvida. A declaração: não se engane. Não há sofrimento nisso tudo. Na festa de aniversário, Pavan dançava com Virgínia, agarradinho, mas olhava para outra pessoa…

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Uma única pessoa e as mercadorias no mesmo lugar de sempre. Comércio pequeno. Cidade pequena. Gente pequena. Um vida pequena como não pode deixar de ser sempre por ali. A loja aberta e ninguém mais dentro. Só o dono. A fazer o inventário. Conferir o estoque para a proximidade da reabertura. Trabalho solitário. Chato, Necessário e irrecorrível. Comércio pequeno. Cidade pequena. Pouca coisa a inventariar. Nada mudava muito. De repente um grito. Gente na porta aglomeração. Mais grito. Não compreendia o que estava acontecendo. Levanta os olhos e os gritos continuam. dentro da loja. Fora da loja. Na pequena rua da cidade pequena. Uma loja perdida numa cidade perdida numa região perdida do país. Tudo pequeno, Menos o grito. Estridente. Autoritário “O que você está fazendo?”. O inventário, conferindo o estoque. “Você não pode abrir a loja. É proibido. O prefeito disse que é proibido. Baixou decreto. É proibido”. Populares na porta. Mais gritaria. Confusão. Os carros circulam tranquilamente pela ruazinha em frente à loja da lojinha. “Vamos embora”. Clima tenso dentro da loja. O comerciante resolve fechar as portas. Usa máscara. Atravessa a loja seguido pelos policiais. “Fecha e vamos embora. Não pode abrir.  Discussão com agentes da polícia municipal. Os policiais militares na cola do dono da lojinha. Populares na porta. Dentro da loja, ninguém. Os carros passando tranquilamente. Os policiais militares fecham a lojinha. Populares gritando. O dono da loja. Alguém supõe que há resistência. “Bora Moreira. Vamos levar para a Central. Não tem conversa. Se resistir leva algema”. Há muita certeza. Muita arrogância e certeza. Números, estatísticas, certezas científicas. Muita preocupação com o social. Enquanto isso, na cidadezinha perdida no meio do nada, os carros passam tranquilos na rua. As pessoas não ligam mais. Uns e outros, meia dúzia de gatos pingados em volta. Moscas varejeiras. O dono da lojinha tranquilo, segue algemado. O surto. A queda. A espuma na boca. O corpo tremendo. Os policiais  incrédulos. O corpo que se bate. A espuma na boca. As moscas varejeiras gritando. Confusão. Mesmo assim, os carros passam tranquilos na ruazinha, em frente à loja, no meio da cidadezinha perdida no meio do nada. O lojista se aquieta. As varejeiras vão embora. Os guardas, inertes, observam. Pedidos de socorro. Solta, grita um. Chama a ambulância grita o outro. Enquanto isso, um carro a mais passa pela ruazinha. vai em direção à câmara municipal. Um vereador preocupado com o bem estar social a caminho de uma reunião. Votação de projeto de lei para mudar regulamento de licitação. Compra de material de construção para obra pública. O vereador preocupado vota sim. Doze por cento garantidos. Abraços. Cumprimentos. Conversas de pé de ouvido. O bem estar municipal garantido. A porcentagem garantida. Mais um dia produtivo. Para os policiais, um problema. O que fazer com o epilético? Solta, grita um. Chama a ambulância, grita o outro. A lojinha fechada. Em casa, a mulher do lojista discute com a vizinha. Reclama da falta de remédios. A vizinha diz que é assim mesmo. Não tem jeito. Já não há ninguém na ruazinha da cidade pequena em frente à loja fechada. Os carros já não são tantos. O sol já se pôs e o calor amainou um pouco. Já não há quase ninguém na rua. Muita estatística, certeza científica e dados em tempo real. Os filhos do lojista brigam com a filha da vizinha porque ela não quer emprestar o celular. As aulas à distância perdida. a mãe grita. Chama os filhos pra dentro. Vai pra cozinha. Muita estatística, tempo real, dados científicos. A máscara. As aulas à distância. Mais um dia passa e a lojinha vai ficar fechada. O ataque passou. O dono da lojinha não sabe como vai tirar o sustento da família. A lojinha fechada. A polícia municipal satisfeita n cumprimento da lei. Os militares descansados com a melhora do dono da loja. A rua vazia, iluminação pouca. Esgoto a céu aberto. Placas de vende-se pra todo lado. Ninguém andando. Silêncio quente. Calor parado. A lojinha fechada. Alguma explicação há de haver. Quem pode dizer o que de fato aconteceu. Pouca gente viu. Quase ninguém para além dos limites reduzidos da cidadezinha pequena vais e interessar. Não houve morte. Não dá notícia. Calor. Noite calma, sem confusão. Mais um dia que se acaba. A lojinha vai continuar fechada. Até quando, ninguém sabe. Mas vai ficar, Em nome do bem estar social. Como explicar isso para uma criança curiosa?

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Chegada em terra nova. Vida. Tudo novo. Uma nova etapa que se inicia, muitos planos. Os livros em início de acúmulo: falta de espaço. O jornal de Literatura da época, o mais importante, frequente, regular. Na contracapa o rosto do escrito. Homem bonito. Claramente descendente de alemães. O livro comprado em função do retrato do autor. Os livros, na verdade: Valsa para Bruno Stein e A face do abismo. O homem bonito. A escrita regional. A história da imigração nas entrelinhas e a fascinação por uma novidade. Nada como alterar o quadro de referências tradicional por um bem pessoal. Rosto de autor agora é critério de escolha. Olhares enviesados. Narizes torcidos. Mas a magia da novidade fazia tudo isso sumir. As aulas. Os primeiros contatos. O primeiro mês num quaro minúsculo de hotel, fechado. Empreendimento barrado na justiça: briga por inventário. Correntes na porta. Entrada lateral. Café da manhã no décimo andar. Três ou quatro hóspedes apenas. Um mês de exílio forçado. A casa nova. A estante. Os livros começaram a chegar. O frio. E o artigo cobre a metaforização do corpo em Memórias do cárcere de Graciliano. Livro denso. Psicanálise em alta. Leitura atenta (ainda) válida. A ideia que pareceu luminosa então. O corpo. A prisão como um corpo. O corpo dos detentos. O corpo da história, da narrativa. Memória corporificada. O delírios terminológico, em sua infinitude ainda seduzia e fascinava, As primeiras linhas. Os desvãos da narrativa. O véu da ficção em luta constante com o registro da biografia. Luta? A tradição diz que não são a mesma coisa: biografia e ficção. O tempo e a prática levam a constatar que não é tão simples assim. A tradição também diz que não se pode dizer o que se deseja dizer sobre um autor sem o devido embasamento teórico. Ora, a crítica, por si, como consequência não produz teoria. Ou é o contrário. “Não, seu artigo não pode desenvolver este tópico”. Como assim, não pode. Se constitui a metáfora do corpo como operador de leitura a Psicanálise como instrumentalizadora dessa mesma leitura, não é possível impedir o exercício hermenêutico. “Não pode. A teoria não sustenta a hipótese”. Não sustenta? Como assim? Por que não. “É indecente”. Indecente? “Você mistura pornografia com Literatura. Não pode”. Pornografia? “É. Você fala em sexo, em corpo, em prazer. Só tinha homens na prisão. Está escrito. Isso não quer dizer que faziam sexo entre eles”. Mas quem disse isso, meu Deus? Onde está escrito isso no artigo? “Não pode. É indecente. Pornografia não pode. É uma ofensa a um dos maiores escritores da Literatura Brasileira”. O olhar desconfiado. A gargalhada posta em tempo de espera. A vontade de dar risada e depois dar na cara de quem deu o parecer. Parece que nem leu o artigo. Ou se leu. Não pode! Repetindo sempre a mesma coisa, não pode. A lembrança da beleza da foto do escritor. As capas dos livros. O prazer da leitura. Isso vinha à mente quando do pensar o texto do Graciliano. Estava ai. Toda a metáfora diluída em passagens significativas. ?Um leitor pode construir essa ponte de sentido. Pode e deve. estava ali. Mas o talzinho só repetia “Não pode”! De novo a confusão entre biografia e ficção. Como não pode? Os argumentos furados. A insistência no desrespeito a uma celebridade. Graciliano não foi, não é. nem será celebridade. Graciliano é, foi e será um escritor. Um baita escritor. Como não pode? Desonrar o nome do escritor? Como assim? A prisão como um enorme corpo em decomposição. O corpo dos prisioneiros macerado pelos maus tratos. A delicadeza do afeto do narrador com um dos presos. Os sinais estão todos ali, na letra, em cima do papel Preto no branco. Não pode! Que chatice. O copo que se movimenta como os movimentos da História e da vida represada na Ilha Grande. Uma leitura plausível. Não pode! Então, de fato, acontece o mesmo com a escolha do livro pela capa. Com a foto do autor. O homem bonito da capa. A beleza que também escreve. Delírio? Não pode. A metáfora do corpo não compreenda. A leitura raseira. O poder o veto no alto, sombra, miasma. O poder que não existe. Não pode. O veto ao artigo. A abissal e eterna ignorância de quem assina o parecer. Não pode. O artigo não publicado. Por um tempo. Anos depois a redenção. Mesmo que não possa. Os desvãos da Literatura. O leitor e suas vicissitudes. Qualquer coisa que diga que pode. Pode sim! O corpo continua lá, nas páginas de um livro estupendo. Então pode!

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Três vezes no ano. Eram só três vezes por ano. O professor determinou assim. Filho de esportista, jogador de futebol e professor de educação física. Filho de homem famoso. Feio como o pai. Determinou que seriam apenas três vezes por ano. O comparecimento às aulas de educação física seria reduzido a três aulas. O aluno era também atleta. Portanto, não precisava fazer todas as aulas, já tinha seu treinamento. Três vezes no ano. A primeira, a última e uma outra aleatória, à escolha do aluno. Qualquer dias. Apenas mais. As duas outras serviriam para o teste de Cooper. De acordo com os colegas, o atleta não precisava das aulas porque já tinha o Cooper feito. O cacófato provocava risinhos sacanas. Gozações. Hoje isso teria o nome de bullying. Mas eram gozações mesmo, das grossas. O Cooper feito. Esporte de homem era futebol, no máximo basquete ou atletismo. Voleibol e natação eram “coisa de mulherzinha”. Homem que nadava ou jogava futebol era mariquinha. Não havia outro nome àquela altura. Mariquinha. E lá vinha vaia. E gozação. Nas duas aulas obrigatórias, para o teste, tudo certo. O negócio era escolher a outra. Não fosse isso, a vidinha era simples demais. Colégio de rapazes. Padres Salesianos. Disciplina rigorosa. Controle quase nazista, sob a égide da cruz e das batinas pretas que perambulavam pelos corredores. O diretor, Pe. Marino, motivo de muitas fantasias. Pe. Jarbas, o disciplinário, dava medo. Enorme, mãos imensas, vozeirão e uma cara medonha. Impunha respeito pelo medo. Pe. Henrique tinha cara de fuinha. Cabelo grande no nariz. Não, não cortava. Fazia e vendia balas de café. Pe. Alcides e sua coriza interminável e só falava em religião, com sotaque alemão E Pe. Pedro, o primeiro contato com a pedofilia. Tudo se resumia a uma vidinha boba. Na hora do recreio a vontade era o dropes de frutas. Pastilhas pequenas, secas e coloridas. Azedinhas. Mas cadê dinheiro? As pastilhas eram objeto de desejo e Rodolfo sabia. Rodolfo. Os cabelos pretos curtos e encaracolados. Olhos cor de mel. Pele amorenada. As pernas grossas de Rodolfo. A primeira paixão adolescente (?). “Comprei as pastilhas pra você. Pega aqui”. A sala de aula: silêncio. Prova do professor Carlos Alberto, baixinho, sério e bravo. Psiu. “Pega”. O sussurro chegava na nuca, Quente. Úmido e sedutor. “As pastilhas estão no bolso. Pega” Psiu. Silêncio! O gosto das pastilhas na boca. O medo da braveza do professor. O bafo quente de Rodolfo. A imagem das pernas grossas de Rodolfo. “Comprei pra você. Só pra você. Não vai pegar?” O sorriso sedutor de Rodolfo, imaginado. “Me dá sua mão”. Psiu! O silêncio da sala. O bafo de Rodolfo. A mão no bolso. Gargalhada geral. O grito de Rodolfo. O professor se levanta e xinga e chama a atenção. Todos os aluno apontando e rindo. Rodolfo quieto. Sorriso malandro no rosto. Sorriso de Gioconda. Sedutor. A vergonha. O pau de Rodolfo, quente, grande. Grosso e quente. O pau de Rodolfo dentro do bolso. O gosto das pastilhas desapareceu da boca. A vergonha. O professor manda os dois para a direção do colégio. Pe. Marino. Ai, meu Deus, aquela boca. A vergonha. A gargalhada dos colegas. A lembranças das aulas no colégio. As aulas de educação física. O dia da aula obrigatória no meio do ano. Jogo de futebol. A turma adorando. A vontade de sair correndo. Futebol, que merda. Rodolfo entra no vestiário e dá uma surra no Denis. O estrangeiro. Branco, muito branco, pele branca e olhos azuis. Pernas grossas também. Sem a sedução de Rodolfo, mas atrevido. Rodolfo viu. Entrou no vestiário e deu uma surra. Gritaria. Gozação. Os alunos não entediam por quê. Rodolfo e Denis foram para a diretoria do colégio falar com Pe. Marino. A boca do Pe. Marino. Desde aquele dia a amizade, a camaradagem. Não mais gozação. Sem pastilha no bolso da calça. A lembrança das pernas grossas de Rodolfo. As aulas de educação física. O colégio de rapazes. Professor Carlos Alberto. As batinas pretas flutuando pelos corredores. A pedofilia. As pernas de Rodolfo. O pau de Rodolfo. O colégio e as aulas de educação física. O filho do jogador. O tempo crescendo como grama. Buracos, moitas, pedras. O crescimento irregular aparado de vez em quando, mantendo a raiz. O tempo. A passagem do tempo. As imagens do colégio, dos corredores. As batinas. As palavras. Tudo num miasma quente e úmido de prazer. A voz doce de Rodolfo entre os olhos castanhos. Cabelos encaracolados. Pastilhas. As pernas grossas de Rodolfo.