Diário de viagem 7– sexta

 

Quem diria… A coordenadora agradou. Texto doce, calmo, claro, abrangente e quase sem os ademanes acadêmicos de praxe. Uma delícia quase ofuscada pelo misto de ogro e sapo. Um sujeito asqueroso, com pronúncia insuportável, lendo texto sem a menor graça, sem sentido. Saí no meio da última comunicação: a da senhora de cabelos brancos e uma experiência que tem feito escola. Sala cheia e atenção silenciosa. Mas saí: total ignorância sobre o assunto.  Foi a chave de ouro. Pensei em ficar para a conferência de encerramento, mas encerrei expediente mais cedo. Voltei para o hotel para me preparar para um jantar maranhense.

O jantar: peixe e camarão, arroz de cuxá, purê de batatas e farofa com farinha seca (a amarela). Creme de bacuri como sobremesa. Delícia. Na volta, um grupo de bumba meu boi dançando em praça pública: turbilhão de cores e energia, um espetáculo para olhos e ouvidos. Arrepio. Projeto reviver. Gratuito, numa das pracinhas do centro histórico, o mesmo que está abandonado, literalmente largado numa cidade que se alcunha de “ilha do amor”. Soube hoje que São Luís corre o risco de perder o título de patrimônio da humanidade: dinheiro da Unesco que flui pelo bueiro da ganância e da imoralidade de alguém que deve, agora, estar dormindo ou festejando alguma coisa por aí… Volto amanhã para a mesmice de sempre. Valeu a pena.

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Diário de viagem 6 – quinta

 

Finalmente o dia da apresentação. Faz quase trinta anos que experimentei pela primeira vez a ansiedade da chegada do dia de apresentar um trabalho num congresso. A primeira vez jamais foi esquecida: éramos cinco à mesa e duas pessoas assistindo. Uma delas era minha “desorientadora” de doutorado; a outra, um amigo, ou melhor, ex-amigo. Hoje não sei por onde ele anda: “enlouqueceu” – clinicamente falando – e foi aposentado por invalidez… triste ironia.

Pois não ficou muito diferente. Os “notáveis” só se assistem uns aos outros ou, quando muito, por dever de ofício e obrigação de mútuo favor, aos orientandos dos “pares”. Uma confraria… A madame ficou até o fim da “apresentação” de seu ex-aluno. Havia alguma coisa estranha naquele rapaz, muito estranha. Comecei a ler e com dez minutos ela se retirou enfadada. Mais uns e outros fizeram o mesmo trajeto. Minha ex-aluna e sua orientadora, minha colega, ficaram até o fim, mas nem sequer manifestaram o mínimo desejo de dizer alguma coisa. Menos mal. Mesmo tendo saltado cinco parágrafos, gastei mais tempo que o outro, que veio me cumprimentar ao final. Elogiou protocolarmente e se retirou. Agora estou aqui, a pensar na futilidade disso tudo e um tanto ansioso por ter trocado de pasta com um ex-colega do sul. Peguei a dele por acaso…

Diário de viagem 5 – quarta

 

Dia de “folga acadêmica”. É a primeira vez que vejo isso, um congresso com um dia inteirinho… livre. O chato que conversava durante a conferência de abertura, falando mal de tudo e de todos ofereceu minicurso hoje. Dia especial então… para quem esteve de folga, como eu.

Passeio a Alcântara. A aventura começa atravessando mar aberto num catamarã pequeno e leve, com vinte e cinco pessoas. Imagina… ondas de mais ou menos três metros de altura, sob um sol escaldante e uma mulher passando mal, de tanto que o tal catamarã se jogava. A chegada é bucólica e… quente. Ladeiras não tão íngremes como as mineiras e quase o mesmo abandono que o centro histórico da capital. Tudo muito simples e abandonado, com exceção da primeira Sé, cujas ruínas lembram as missões jesuíticas no norte do Rio Grande do Sul. Há uma curiosidade arquitetônica: as duas ruínas do que teriam sido os dois palácios que seriam construídos para Dom PedroII, que nunca pôs os seus pezinhos reais naquela ilha. Ficaram pela metade… as construções e assim ficaram arruinadas: coisas de cultura… Na igreja mais conservada, com símbolos maçônicos (no lugar da rosácea há uma pequena janela em forma de olho). No topo do altar dois compassos cruzados, estrelas e a coroa do rei no lugar da barba de um bode. O “olho que tudo vê” capta a luz solar que é dirigida diretamente para o sacrário, apenas uma vez no ano entre julho e agosto. Um “evento”. Rosinha, melando os dedos com um picolé que se desintegrava por causa do calor, explicava tudo, até a história da fonte que foi roubada, mesmo pesando quatro toneladas. A “relíquia” foi encontrada por uma arquiteta maranhense, num restaurante do Rio de Janeiro. Em Alcântara também tem uma igreja de Nossa Senhora do Rosário dos pretos. Uma teteia de ingenuidade artística. Três imagens de São Benedito, uma de Santa Efigênia, São Raimundo Nonato (sabiam que ele é o protetor das grávidas?), Nossa Senhora do bom parto… uma graça! O melhor ainda estava por vir… o almoço no restaurante Tijupá, com o papo do Cláudio, uma simpatia! Eu recomendo! Na volta, um banho com as ondas mais altas ainda e as risadas debochadas de aborígenes, duas “locais” e dois casais de turistas. Eles acreditavam que nós, os espanhóis e eu, estávamos com raiva e debochavam, como debochavam… Uma pobreza. Mas o final da tarde foi dourado  com a alta da maré e eu caminhando para secar a roupa… Alcântara agradou!

Diário de viagem 4 – terça

Meio dia de atividades “acadêmicas”… Meu estômago anda fraco e com o calor que faz por aqui… Algumas gostas de chuva amenizaram o caldeirão da tarde de céu cinza e carregado, baixo, gordo… logo dissipado pelo vento constante. Vento que fez Jorge desistir do passeio de barco a Alcântrara. A recepcionista de seu hotel o alertou sobre os perigos do vento que faz o barco jogar e “rodar”. Vou vencer o quase medo e vou amanhã, com fé em Deus e pé na tábua.

Almoço no shoping. Um andar só, amplo e alto. Corredores largos e iluminação abundante. Por dentro um frescor mecânico delicioso, já lá fora… Tudo muito simples e… vazio. Quase ninguém comprando, pouca gente andando pra lá e pra cá. Uma lonjura só, fui de ônibus. Estarrecido, com as condições dos ônibus. Se em Belo Horizonte reclamam… as pessoas deveriam passar um dia aqui. Um dia só é suficiente para se constatar que a família Sarney não quer mesmo nada com a sua própria terra, para além de dominar os meios de comunicação e coronelizar a céu aberto a “política” estadual. Uma pena. Quem sai perdendo é a população e os turistas, como eu, que gostam de andar de ônibus, a pé, para sentir o cheiro e o pulsar da cidade… Uma experiência inolvidável e reveladora! Foi uma experiência e tanto. Até me senti bem esperto usando a vantagem da integração no Terminal da praia grande, bem em frente ao Centro Histórico – abandonado e sujo… Você desce de um ônibus e entra no outro, por trás, sem pagar. Não há novidade, mas me “senti em casa”… Ainda que pense que jamais viveria aqui: muito quente.

À tarde, a sessão. Jorge, Elza e Gilda. O primeiro não me agradou: trocou alhos por bugalhos, e com pose de “phdeus”! A segunda, uma senhora quatrocentona, nos modos e na aparência. Divertidíssima em sua apresentação atravessada por comentários jocosos e passagens hilárias de sua longa trajetória transatlântica: pesquisa lá e dá aulas aqui. A terceira, o encanto de sempre. E a mesma verve daquela que homenageou o escritor na “antessala” do congresso. Muita lábia e a humildade estudadas: comum a quem não larga o osso! Valeu a pena pelas risadas durante os comentários, depois das apresentações. Punto i basta!

Diário de viagem 3 – segunda

 

Primeira sessão de fato “acadêmica”. Quando o campus da universidade ficar pronto, vai ficar até interessante. Prédios de apenas dois ou três andares, formas regulares em posições angulares diferenciadas e jardins. Por enquanto é só poeira, entulho, máquinas, tapumes e mato seco, mas quando ficar pronto… A surpesa ficou por conta do extremo conforto do auditório. Iluminação adequada, acústica razoável e amplidão marrom e bege. Claro está que o som do videoclipe apresentado pela conferencista não funcionou… Pena. A ex-ministra, catedrática de Literatura Portuguesa no Porto, fez a leitura de um texto amplo, abrangente, ousado, bem ao gosto lusitano; mesmo tendo começado de maneira claudicante. Quase uma chatice, o começo. Ficou mesmo a vontade de ver os dois filmes anunciados pela conferencista. Palmas e a saída da audiência. Nada de perguntas, nada de comentários, nada de provocações. Nisso é que dá esses congressos “internacionais” gigantescos. Ninguém ouve ninguém, ninguém fala com ningém, as “ideias” não têm continuidade… Os rapapés sobejam… As falas cifradas e os conluios ocorrem quase que espetacularmente. Parece que a moda agora é se fazer acompanhar por orientandos de pós-graduação. Importante: tem de ser de “pós-graduação”! Além disso, outra característica importante: o fato de estar acompanhado do tal de orientando tem que ser anunciado num tom de voz entre o histérico e o dramático. Não tão alto que todo mundo escute, mas o suficiente para que ouvidos alheios ao derredor possam escutar e se incomodar. Parece que a patuleia começou a acreditar que esta atitude dá “crédito”… Coisas de celebridade instantânea…

A comida. Arroz de cuxá. Se entendi direito. Um prato feito com arroz miúdo, escuro. Mistura de uma folha (a vinagreira), temperos e camarão. Uma delícia. Certa amiga já disse que não sirvo para referência em relação a comidas pois gosto de tudo. Mas sou do tipo que come o que  não conheço para saber se gosto ou não… Faz sentido, uai! A experiência do primeiro almoço “local” completa o ciclo aberto com os sucos e sorvetes de frutas locais: cajá, cupuaçu, caju… O sorvete de tapioca encheu minha boca de saliva… delícia!

Diário de viagem 2 – domingo

 

O centro histórico. Relíquias de um passado que certifica a primeira e única(?) interferência “completa” dos franceses na terra brasilis. Ainda colônia portuguesa, os franceses aqui aportaram e edificaram a cidade. Curiosamente, a maior parte dos azulejos que recobre os casarões do “centro histórico” é portuguesa. Azulejos que estão roucos de tanto gritar por socorro. Casarões ocos, caindo aos pedaços, ruas sujas, praças sem muito conforto. Uma pena. Uma grande pena: um sítio tão delicadamente traçado, elegantemente edificado, solitariamente exposto aos olhares curiosos de turistas embasbacados por um calor de 35 graus… Dizem que, por aqui, no inverno, a temperatura não chega aos vinte graus. Sempre acima… Credo!

Abertura. Palácio Cristo Rei, bem em frente à praça Gonçalves Dias. A loura, com cabelo bem esticado pelo calor da “chapinha”, trajando azul turqueza com ombreiras recamadas de lantejoulas prateadas, pequena bolsinha toilette rosada e sapatos de salto bem alto: um tipo! Indignada, ela criticava os motoristas de taxi da cidade que não sabem onde fica o “palácio”. Parece até que no resto do rincão nacional isso não acontece. Vá lá! No salão, caras e bocas, mesmo com a ausência notável de algumas figuras carimbadas, outras figurinhas, apenas faltavam. Mas as expressões de surpresa e “alegria” pipocavam aqui e ali. Chego à conclusão de que meu tempo passou, de que nada disso me interessa mais, que a importância desses rituais é zero, por vazia… completamente vazia… Na homenagem ao escritor recentemente falecido, a técnica retórica do ritmo oral e da entonação “dramática” fez das laudas um panegírico até emocionante. Ladina, a oradora estudou bem as pausas e os olhares. A linguagem do corpo, contida, marcou a coerência entre intenção e gesto: uma lição a ser aproveitada (pelos incautos!), por conta conhecimento e relacionamento dela com o homenageado. Plagiando-a: “Bem haja José Saramago”!

Diário de viagem 1

Oito dias atrás… Chegava eu à capital do Maranhão sem a menor ideia do que poderia acontecer. Resolvi anotar alguma coisa que passo a colocar aqui. Uma semana de anotações esparsas. As fotos estarão em minha página no Facebook ainda hoje! Isto é, se a preguiça deixar. Bom passeio!

 

Um calor miserável. Trinta e dois graus e um vento quente, úmido, pesado. Bem diferente das minas gerais em tempos de secura. Os vidros do galpão sujos, mãos sujas que encostavam para ver quem está dentro. Confusão, balbúrdia… o prédio “oficial” do aeroporto está em obras. Caiu o teto. Dois galpões funcionam como prédio de embarque e desembarque… cada um na sua! Vi o primeiro hoje, em São Luís, uma ilha (eu não me lembrava desta aula de geografia brasileira). Capital do Maranhão. O motorista de taxi, com nome de anjo, mas com tom “crente” –  Samuel –, de uma simpatia inesperada depois de um dia de esterótipos: domésticas indo para Buenos Aires, casal em lua de mel indo para Caldas Novas e família, com marido bem “macho” indo para não sei onde… A manhã começou cedo. Mas São Luís tem um “clima” legal, ao que parece. Pizza de carne seca e mozzarella. Eu trocaria por queijo de coalho, ou similar, da região. No lugar da cebola branca, cebola rocha: toques de gourmet…como eu sou metido… O pessoal do hotel, de uma simpatia comedida, mas não consegue dar conta de solucionar o problema com a internete, que não funciona… claro (!?!). As primeiras impressões são sempre dúbias, no mínimo dúbias. Pouco se sabe de fato, as informações são sempre dadas por locais que têm um parâmetro um tanto convencionado por estereótipos: querem agradar e não há mal nenhum nisso. Pensei de ficar irritado, nervoso, mas não… Nem o sono, nem o descaso dos funcionários da TAM, nem o olhar de soberba dos aeroviários que viajam de graça ocupando vagas que poderiam dar mais conforto para passageiros que “pagaram” pela passagem. E o Malvino hein???