Poesia

“Hoje estou com preguiça de escrever.

Quando é que não estou com preguiça?

Quando…

Hoje eu estou com preguiça de escrever.”

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O texto que segue é fragmento de outro, maior, chamado “Três cartas da memória das Índias”, de um poeta português conhecido como Al Berto. Assim mesmo, separado. Esse é o psudônimo de Alberto Raposo Pidwell Tavares (*Coimbra, 1948 /+Lisboa, 1997). Um homem feio. Porcurei uma foto dele mais bonitinho, mas não teve jeito: feio, para o meu gosto, feio. Mas isso não é nada. O danado escreve bem demais e faz uma poesia que eu ainda não consegui “rotular” (mania didática, pra facilitar a vida de quem me ouve… Como se isso fosse mesmo possível!). As ditas cartas são, mesmo, três: uma dirigida à mulher, outra ao pai, outra ao amigo. Como estou a preparar um artigo sobre ele, decidi colocar aqui o início da terceira carta, a que vai ser objeto do meu artigo. Mas disso eu posso vir a falar outra hora. Dizem tanta coisa sobre esse poeta, teve fama de maldito, frequentava a noite da cidade alta (também!), gostava da companhia dos jovens. Eu gosto da poesia dele, isso é o que mais interessa. Bom proveito!

PS: os versos entre aspas não são do Al Berto!

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3
CARTA DA FLOR DO SOL
(a meu amigo)

Há ainda outra árvore de natureza mui singular, chamada irudemaus, que em sua língua significa flor do sol, porque as suas flores não abrem nem aparecem nunca senão ao nascer do sol, e caem quando ele se pões; o que é o contrário da árvore triste. É a mais excelente flor, lança melhor cheiro que todas as outras; e da qual fazem ordinariamente uso o rei e as rainhas.
Viagem de Francisco Pyrard de Laval: TRADUÇÃO E DESCRIÇÃO DOS ANIMAIS, ÁRVORES E FRUTOS DAS ÍNDIAS ORIENTAIS

vou partir
como se fosses tu que me abandonasses
o último sonho que tive era estranho
via o fundo límpido de uma rua estreita
que desembocava num largo iluminado
havia leões empalhados nos passeios em areia solta
já não me lembro bem
parece que uma mulher avançava com um envelope na mão
estendia-mo e gritava
mas eu não conseguia perceber
insultava-me muito provavelmente
tinha a cara escondida por um pano branco bordado
apenas via a sua enorme boca abrir-se
e furiosamente engolir a púrpura do ar
que envolvia as cabeças reclinadas dos leões
ouvia o buzinar nervoso dos carros
exactamente como se ouvem agora
mas não conseguia vê-los
depois
um rapaz pareceu a uma esquina e reconhecia-te
uma voz gravada na memória acompanhava-nos
quando nos dirigimos um para o outro
em câmara lenta
ouvíamo-la sussurrar: procuro-te
no interior das penumbras no esquecido sal
das casas abandonadas à beira-mar
procuro-te no perfume excessivo do mel
armazenado pelas abelhas no entardecer das pálpebras
vem
mergulha as mãos nos troncos das árvores
suspende a noite da longa viagem
estás a naufragar
o espelho quebrou-se e tu já não reconheces as paisagens
o corpo estilhaçou-se

tua presença só é visível nas fotografias dos barcos
as quilhas são a tua memória longínqua das Índias
vai
com os pássaros de bicos exuberantes e sonha
e estende o corpo cansado nos intervalos da erva fresca
onde alguém costurou pedras brancas na orla das grandes rotas
a cidade espera-te com o cais de madeira
junto ao rio abre as mãos toca nos corpos com os lábios
agarra-os dentro de ti
até que da terra lodosa brotem especiarias
porque só longe daqui acharás o que falta da tua identidade
só longe daqui conhecerás o sangue e talvez a felicidade
inundando um breve instante a noite de nossos desastres
só longe daqui
terás a consciência da quotidiana morte de Deus

repentinamente a voz cessou de se ouvir
eu tinha na palma da mão uma quantidade de comprimidos mortais
depois a voz fez-se ouvir a espaços irregulares: pobres unhas
pelas amarras húmidas dos lençóis rotos
barcos
velas sem sol papel pintado deslocando-se das paredes
silêncio espesso sarro da noite
uma viatura boceja no asfalto
o corpo treme cintila
resíduos de cidade ruínas da pele buenas noches
buenas noches mi amor
lençóis floridos ranho cabeças de cafres
pingue-pingue de torneira avariada esferas de flipper
noches buenas noches
barcos despedaçadpos bolor da memória
da memória da memória da memória

tinhas a cara mascarada com sangue quando a voz silenciou
a mulher ria
eu corria para ti sem conseguir alcançar-te
sentei-me na cama
veio-me do fundo da idade o momento em que nos conhecemos
resolvi levantar-me a meio da noite e escrever-te esta carta

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Três vidas

“A presença física não é prova de nada. O lugar onde vivemos é o lugar que habitamos em espírito. E, em espírito, nunca regressei. Estou espalhado pelas almas de todas as pessoas que conheci, de todas as coisas que, por lhes ter tocado, modifiquei. Irás aprender isso com o tempo. Um homem não é uma entidade, são muitas e, se não nos decidimos, a tempo certo, por uma delas, acabamos em retalhos.”

Parece até trecho de livro psicografado por algum medium, ao sopro do espírito desencarnado de alguém importante, ou simplesmente caridoso. Até parece… Mas só “parece”! Esse é o trecho que está à página 135 de As três vidas, romance João Tordo, o mais novo enfant gaité da cultura de letras em Portugal. Ele ganhou o prêmio literário José Saramago de 2009. Daqui a duas semanas vou conhecê-lo, aqui em Zagreb. Um rapaz jovem, que escreve, dizem, muito parecido com Paul Auster. Li Paul Auster, mas não me lembro direito de sua escrita. Pelo sim, pelo não, deixo a nota, ainda que essa “coisa” de “escreve parecido a”, acrescente, na verdade, pouquíssimo, ao prazer da leitura de quem quer que seja. Antes de mais nada… ler!

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As três vidas é um romance interessantíssimo, em que Portugal aparece apenas como referência espacial/contextual para duas ou três personagens que circundam e que se relacionam com o protagonista da narrativa. Isso chama a atenção. Sem malabarismos verbais, sem a invencionice de escrever tudo em minúsculas, sem o arroubo de não pontuar frases em parágrafos caudalosos e imensos, João Tordo “conta” uma história. Há quem torça o nariz para esse tipo de “atitude” literária. Os “pós-modernos” de plantão não vão gostar, de jeito nenhum – mesmo que se possa aproximar João Tordo de Paul Auster. Mas quem gosta de “Literatura” vai aplaudir. Não digo aplaudir de pé, mas aplaudir. O rapaz escreve bem, sim, de verdade, e constrói uma NARRATIVA de muito bom gosto, do tipo que faz a gente pensar, do tipo que propõe novos ângulos de abordar a realidade, com procedimentos de escrita que em nada e por nada ficam a dever alguma coisa. Texto que flui, história que envolve, seduz, emociona. Há algum mal nisso? Ando com saudades de “Literatura” e ainda há tanto para ler…! A saudade, porém, não me impediu de sentir prazer ao ler as páginas desse romance mais que bom! A passagem que citei deixou-me emocionado, depois de um pouco atordoado. Senti-me inteiro nela. Vi-me como diante de um espelho. Creio que qualquer pessoa que sai de seu local de origem e passa a viver em outros lugares, mesmo que por tempo limitado – ou exatamente por isso! – vai constatar o que constatou a personagem principal de As três vidas: um rapaz que, por precisar de trabalho/dinheiro para cuidar da mãe doente, depois do falecimeto do pai, se envolve com uma família estranhíssima. Filosofia, política, espionagem e existencialismo, eu diria, podem ser algumas das referências culturais que amoldam o relato ficcional, de grau superior, do/no livro. Quem puder ler… vai gostar!

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Mais uma surpresa boa

Cal, de acordo com o Dicionário Houaiss, é um substantivo feminino: pó branco constituído principalmente de óxido ou hidróxido de cálcio, usado na construção civil, em fluidos de perfuração, em cerâmicas, na clarificação de óleos, em tintas, revestimento contra fogo, tratamento de água, na manufatura de papel, como adstringente, etc. Qualquer produto (pulverulento, pastoso etc.) resultante da hidratação da cal virgem. Etimologicamente, a palavra vem do latim vulgar – cals (derivado do acusativo) que, por sua vez, vem do latim calx, calcis – cal, pedra de cal, com origem no grego kháliks; provindo pelo espanhol cal. A viagem é longa. De tudo fica um pouco: logo, pode-se acreditar quando dizem que “cal queima”!

A ideia de fim, de morte, de consumição, não passa ao largo quando se pensa nessa palavra. Pensar na palavra, pensar com a palavra. Isso é poesia! É isso o que faz José Luis Peixoto em seu livro Cal. Título sugestivo, sui generis, instigante e inesperado, dado que trata, em sua maior parte, da velhice, aquele período em que tudo parece se acabar, queimar no próprio calor da vida que vai se extinguindo lentamente. Inexorável destino da humanidade! São 17 contos, três poemas e uma peça teatral sobre a velhice. Velhice. Alguma coisa que assusta e instiga, alguma coisa que faz com que muita gente sinta medo; alguma coisa que não agrada a muita gente. Alguma coisa de inevitável!

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A imagem da capa, na edição que li, funde duas fotografias: a mão engelhada de uma pessoa velha e uma parede caiada. Como se a pele daquela mão tivesse a mesma natureza da superfície rugosa daquela parede. Corpo e casa à mercê do tempo, como sinais de uma memória que é sempre o ponto de partida para os textos de José Luís Peixoto. Sejam eles contos, poemas, crônicas ficcionalizadas ou peças de teatro. Cal, editado pela Bertrand é o sexto livro de prosa de Peixoto e reúne 17 contos publicados em jornais e revistas, uma peça teatral. Todos com um tema comum: a velhice; naquilo que tem de belo, de melancólico, de exaltante ou de trágico. No fundo, o autor juntou textos dispersos que só fazia sentido recuperar pelo fato de serem atravessados por unidade temática forte, determinante. O autor sempre escreveu bastante sobre a velhice (há velhos em todos os seus textos), porque é “uma idade muito importante e muito subvalorizada”. O seu interesse literário não se centra na velhice em si mesma, com a sua sabedoria, os seus sobressaltos e rituais, “mas mais na passagem entre as várias idades e a forma como se lida com isso.” Em Cal, à semelhança dos outros livros, os velhos vivem quase sempre num meio rural que José Luís conhece bem, porque viveu até ao fim da adolescência na aldeia de Galveias (concelho de Ponte de Sor). As figuras curvadas que trabalham no campo, fenecem ao desalento da escuridão das casas, vendem uma burra aos ciganos como quem vai para o cadafalso, ou acreditam que a sua horta de sempre cresce no espaço limpo e puro de uma enfermaria hospitalar (ainda que nem sempre, infelizmente, seja assim!). Tudo é, muitas vezes colagem exata de pessoas que o autor conheceu, ou de quem ouviu falar. Há mesmo nomes reais que assomam às páginas, dando uma dimensão humana fortíssima às histórias, várias delas com um assumido cunho autobiográfico: “De certo modo, quis preservar, através da escrita ficcional, a dignidade das pessoas que me fizeram ter consciência de que a velhice não é só uma questão de decadência física. Às vezes é também o exacto contrário disso.”, diz o autor! Há razões mais subterrâneas que levaram Peixoto a escolher o título: Cal. “Não foi só a identificação com o Alentejo, não foi só a brancura, não foi só a ideia de uma espécie de cristalização das casas, que as conserva e as paralisa no tempo. Foi também a noção de que a cal é uma matéria perigosa, uma pedra que ao colocar-se dentro de água ferve, queima e se cai nos olhos cega.” Metáfora perfeita, também, do que é a escrita. Eduardo Prado Coelho diz que “a grande força de José Luís Peixoto está no modo como narra histórias que se dobram para dentro da sua própria loucura e no fio puríssimo de luz com que as vai reunindo e salvando do esquecimento”. Palavras de sabedoria. O texto de José Luis não desmente a acuidade do olhar do crítico. Como fio puríssimo de luz, uma ausência presente atravessa os gestos e as emoções destas figuras. Em cumplicidade com a morte, a vida torna-se mais límpida, talvez mais pura. A luz – força redentora de suas personagens –, é certamente um dos fios condutores do texto. Quem gosta da escrita deste autor português, irá certamente reencontrar palavras e frases ao estilo daquelas que podem ser a razão de se gostar do estilo de escrita de José Luís Peixoto, um estilo bastante característico e que desperta no leitor determinados sentimentos que fazem pensar e reviver memórias ou detalhes esquecidos ou que estão adormecidos. Para quem não conhece, fica a recomendação, com a condição de aconselhar apenas às pessoas que queiram ler algo que lhes faça refletir ou que estejam à procura de algo calmo, estejam à procura de encontrar pessoas simples e com elas reviver determinados momentos das suas vidas, momentos distintos, acontecimentos distintos, personagens semelhantes, mas distintas. Poesia, para dizer tudo numa única palavra.

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Poesia

Mário de Sá-Carneiro (* Lisboa, 19 de maio de 1890 – + Paris, 26 de abril de 1916) é um poeta instigante, para dizer o mínimo. Atormentado por muitas coisas, inclusive pela sombra de Fernando Pessoa que, até hoje se sabe, jamais quis “fazer sombra” no amigo, é um poeta cheio de cores e formas e delírios, bem ao sabor do fin de siècle que ele encarnou em sua persona dandi. Sim, eles eram amigos. Tão amigos que trocaram cartas, muitas, em que partilhavam um outro tormento: o da beleza que não se contém. Ambos foram infectados pelo vírus da expressão, esquentados pelas febre da poesia, agitados pela pulsação da palavra. Ambos escreveram e não foi pouco. Mário se matou, ainda jovem. Ainda que um tanto iconoclasta, a “homenagem” que Adriana Calcanhoto faz a ele em seu show “Aplauso”, é engraçada, sarcástica, mas engraçada. Uma homenagem.

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Na poesia de Sá-Carneiro a gente pressente a vibração de uma libido um tanto desencaminhada. Um desejo sem organização transita por objetos amorosos potenciais, mas não se fixa em nenhum: não se define. O que se dá é que o verso deixa escapar sua constante fuga para certa visão feminina ou imaginariamente ensombrada por Fernando Pessoa – uma espécie de escala ansiosa sem grande significação, num percurso que carece de itinerário e de destino. O desejo se explicita na escrita, em sentidos vários. É plausível pensar certa atitude homoerótica, enevoada sob a simplicidade gritante de certa evidência: Sá-Carneiro não teve experiências sexuais com muitas pessoas; daí não haver excesso, mas falta: desvio à norma que merece atenção, por desencadear reações que funcionam como máscara da realidade. Isso problematiza a já problemática (desculpem a repetição… indispensável, aqui!) relação com Helena.

Fernando Pessoa afirma que a “desumanidade” dos versos de Sá-Carneiro resulta da falta da mãe, tal como desta falta resulta o seu amor por si mesmo. Desumanidade, aqui, é palavra complexa, não necessariamente utilizada como possível relação a nada que diga respeito ao Homem. Assim, chega a gerar preconceitos estéticos que infelizmente ainda hoje subsistem… Arrisco a afirmação de que “desumanidade”, usada por Pessoa, se refere à crueldade. Há sugestões sádicas nas novelas, mas entram no capítulo do delírio erótico, no mesmo plano das masoquistas. Quanto ao amor por si mesmo, ele contraria logo a desumanidade. É bom lembrar que Caetano já cantou em melodia inesquecível que “Narciso acha feio o que não é espelho”. Logo…

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É senso comum que Mário de Sá-Carneiro não era homossexual. A gente não pode se esquecer de que, mesmo o senso comum pode ser questionado, colocado na berlinda! De certa forma, a importância de estabelecer a “verdade dos fatos” resulta da necessidade de evitar interpretações equívocas da obra. Nas novelas, não raro aparecem situações desse tipo. E como a prosa de Sá-Cameiro tem muitos dados autobiográficos, apontados até nas cartas, o leitor é facilmente induzido a tirar conclusões… Quais seriam erradas? Quais, certas? Só a poesia dele pode dizer! Também ela está carregada de sugestões que podem levar a concluir que havia da sua parte tendências para a homossexualidade, como em “Feminina”:

– Eu queria ser mulher para ter muitos amantes
E enganá-Ios a todos – mesmo ao predilecto –
Como eu gostava de enganar o meu amante loiro, o mais esbelto,
Com um rapaz gordo e feio, de modos extravagantes…
Eu queria ser mulher para excitar quem me olhasse,
Eu queria ser mulher para me poder recusar…

É curioso que ele diga gostar de ser mulher para enganar o amante com um rapaz gordo e feio, de modos extravagantes. Forma de exprimir o desejo de ser amado, como rapaz gordo e feio. Esse capricho de excitar e recusar-se também sugere uma questão: só as mulheres se recusam? O homem não tem o mesmo direito? O poema data de Fevereiro de 1916. Em Março, segundo José Araújo, Mário conhece Helena. O que é que ele, na sua condição masculina, não pôde recusar-lhe? O éter ou a estricnina? No fundo, não cabe dúvida na constatação de que a literatura de Sá-Carneiro é um extenso delírio erótico. Nesse delírio, o aspecto homossexual é presença insofismável.

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Para terminar, o “Último soneto” (ops!) do poeta:

Que rosas fugitivas foste ali!

Requeriam-te os tapetes, e vieste…

– Se me dói hoje o bem que me fizeste,

É justo, porque muito te devi.

Em que seda de afagos me envolvi

Quando entraste, nas tardes que apareceste!

Como fui de percal quando me deste

Tua boca a beijar, que remordi…

Pensei que fosse o meu o teu cansaço –

Que seria entre nós um longo abraço

O tédio que, tão esbelta, te curvava…

E fugiste… Que importa? Se deixaste

A lembrança violeta que animaste,

Onde a minha saudade a Cor se trava?…

Sempre poesia

Esse texto, hoje, pode ser difícil para muita gente. Impossível prever ou calcular… Faz um tempo que venho ensaiando falar mais de literatura, meu “campinho”. Sempre sou vencido pela síndrome de Macunaíma: ai que preguiça. De mais a mais, não é todo mundo que tem “saco” de ler tudo o que se escreve por aí. Vá lá… Venço os dois: a preguiça e o desinteresse alheio e escrevo umas linhas a mais sobre o que eu considero (quase) imponderável: literatura!

Comigo me desavim,
Sou posto em todo perigo;
Não posso viver comigo
Nem posso fugir de mim.
Com dor, da gente fugia,
Antes que esta assim crescesse:
Agora já fugiria
De mim, se de mim pudesse.

Que meio espero ou que fim
Do vão trabalho que sigo,
Pois que trago a mim comigo
Tamanho imigo de mim?

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Esta redondilha de Sá de Miranda, entre outras referências, pode levar a gente a se lembrar de um poema de Maria Teresa Horta – “Minha senhora de mim”:

Comigo me desavim

Minha senhora

De mim

Sem ser dor ou ser cansaço

Nem o corpo que disfarço

Comigo me desavim

Minha senhora

De mim

Nunca dizendo comigo

O amigo nos meus braços

Comigo me desavim

Minha senhora de mim

Recusando o que é desfeito

No interior do meu peito

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Por outro lado, a gente pode se lembrar de Fernando Pessoa – Autopsicografia –, onipresença na/da Literatura Portuguesa, como Camões, mas isso já é outra história. Aqui, eu quero me lembrar do tímido escritor que gostava de absinto e que dizia que as cartas de amor são ridículas. Aquele que se fragmentou em identidades poéticas múltiplas; um excelente atalho que o retirou, definitivamente, do caminho da loucura. O único caso de esquizofrenia que deu certo, como costumo brincar!

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.
E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.

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Trata-se de um conflito interno belamente descrito, nos três casos! Do século 16 ao 20, num salto que só a Literatura permite dar, a gente vislumbra como “mudam-se os ventos, mudam-se as vontades” e a dúvida essencial permanece. A gente não sabe direito quase nada do que acontece ao redor… Quantas vezes a gente passa por isso! Quantas vezes a gente encara a si mesmo como um inimigo! Mas ninguém pode fugir de si mesmo! Belíssimo texto do século XVI. Apesar da forma medieval, é típico da estética renascentista: o trovador revela o seu conflito interior. Trata-se de uma problemática cheia de atualidade. Às vezes é tão difícil esta convivência forçada. Não poder fugir de si mesmo. Mas também se fosse possível: para onde ir? Será que haveria alguém disposto a aceitar a inevitabilidade dessa situação? Reflexões para uma noite de primavera também… depois para o outono)!

Sá de Miranda nasceu em 1485 em Coimbra e concluiu seus estudos na Universidade de Coimbra chegando a ser Lente substituto. Foi contemporâneo de Camões e alguns historiadores chegaram a dizer injustamente que os dois eram rivais por, nunca ter decerto estabelecido um paralelo historiográfico da temática dos dois poetas. Sá de Miranda foi o primeiro a debruçar-se sobre o problema da angústia ou, como hoje se diz vulgarmente, a depressão: enquanto quase todos os outros poetas se contentavam e se encantavam com outros temas mais facilmente entendidos como o amor e as cantigas de escárnio e mal dizer. Quase, sim, pois a gente não é capaz de abarcar a totalidade do real, nem em sonho!

Em seus versos, ele faz a gente se deparar com a sensibilidade a partir do exercício de auto-observação e análise tão profunda da melancolia que só muitos séculos mais tarde haveriam outros poetas – para não citar Freud e todos os outros – que debruçar-se-iam sobre essa problemática existencial. Esse poema, ao lado dos outros, leva a admirar o pioneirismo numa época em que decerto não seria tão bem entendido. É certo que ele trouxe de Itália, onde esteve, o soneto, a ode, o drama em prosa e a elegia, mas é merecedor de admiração por seu pioneirismo.

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Mais livros

Há coisas que acontecem e passam a ser referência para “toda a humanidade”, sem a menor possibilidade de explicação “lógica”. Ainda que, em sua “essência”, haja uma lógica própria. valter hugo mãe, assim mesmo, só com minúsculas(!), é um escritor Angolano de origem que tem três romances publicados: o apocalipse dos trabalhadores, de 2008; o remorso de Baltazar serapião, de 2006; o nosso reino, de 2004. Dele, eu li os dois últimos. E li com a curiosidade de quem ouve falar de “originalidade”. O autor escreve assim mesmo, tudo com minúsculas. Usa apenas dois sinais de pontuação: a vírgula e o ponto. Alguma coisa me veio à cabeça…

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Já li isso antes. Então não tem originalidade. Mas tem. O rapaz – ele completa 39 anos no próximo dia 25 de setembro – consegue desenhar o espaço romanesco sem nenhuma linha de descrição. Mais uma vez, sua originalidade é por mim questionada: José Luis Peixoto já faz isso em seu romance Cal – mais poesia que “romance”, é bem verdade – no que é, este sim, mais que original. Mas voltando ao “das minúsculas”… O rapaz escreve mito bem e acompanha o que talvez possa ser considerado uma linha de tradição da mais contemporânea ficção portuguesa – dez anos depois de escrever isso, eu mesmo vou começar a duvidar desta “contemporaneidade”… O rapaz escreve bem e me agradou muito lê-lo. Agora só falta um romance. A contracapa de um de seus livros menciona sua obra poética. Confesso que, em terra de Camões e Pessoa, eu – e sou muito enfático nesta egótica afirmação – fico com o “canônico”.

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Assim, depois de ler os dois romances de Valter, fico pensando nas palavras de Saramago, que aparecem na contracapa do livro: “Este livro (o remorso de baltazar serapião) é um tsunami, não no sentido destrutivo, mas de força. Foi a primeira imagem que me veio à cabeça quando o li. (…) Quando foi publicado? E os sismógrafos não deram por nada? Oh, que terra insensível: este livro é uma revolução. Tem de ser lido, porque traz muito de novo e fertilizará a literatura.”
Ora bolas… Meus alunos – e acredito que muita gente espalhada pela face do planeta (ainda) – diz que ler Saramago é difícil. Vá lá, o nome dele lembra um remédio de gosto ruim: sal amargo. Quem tem menos de 30 anos não vai ter ideia do que se trata… Os parágrafos quilométricos do autor do fenomenal O ano da morte de Ricardo Reis, em manchas tipográficas densas e compactas; sua absoluta ausência de pontuação, exceção aos básicos e funcionais vírgula e ponto; a interferência das iniciais maiúsculas, cada vez que se inicia um diálogo; etc., etc., etc…. Os argumentos podem ser até mais numerosos, mas eu os resumo aqui. Pois… Saramago “parece” difícil. Dá trabalho, mas difícil não é! Quando ele faz isso, eu diria que se experimenta o que se convencionou chamar de “novidade”. Sou sincero: não sei de outro escritor, em qualquer língua, que tenha feito o mesmo. Repito: “eu” desconheço!!! Logicamente, então, para mim, as “dificuldades” apresentadas pela ficção de Saramago podem ser consideradas “originais”, neste aspecto, eu diria, estrutural. Mas como certas palavras podem eclodir em celeumas, mais não digo.

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Pois o gajo esse, Valter, parece “repetir” a façanha. Por que as aspas? Por que alguém poderia levantar a voz e bradar aos quatro ventos que Harold Bloom e suas elucubrações sobre a “angústia da influência” seriam um par de muletas mais que eficaz na abordagem do jovem escritor português e que a “influência” seria a chave do segredo… Será mesmo? Não me reduzo a tanto. Acanho-me ao afirmar que sempre coloco em dúvida a “originalidade”, qualquer que seja, em Literatura. No entanto, a experiência de ler revela, ainda que os “críticos” de plantão o deneguem, surpresas inesperadas que agem, subrepticiamente na construção do “efeito de leitura” que cada um de nós busca expressar em… palavras! Além do mais, Valter – com inicial maiúscula, porque sou eu a escrever o seu nome! – faz algumas reviravoltas com os nomes próprios que cheiram a poeira, papel velho e teia de aranha: coisas que se costuma encontrar quando o fascínio das iluminuras nos arrasta para os porões menos visitados de bibliotecas e alfarrábios. Algo que atrai os olhos da imaginação por páginas do passado de recantos portugueses pouco visitados pela oficialidade de qualquer época. Essa segunda etapa de leitura, deixei para depois. Um detalhe que pode custar toda a densidade do adjetivo “original”, que pode, não sem alguma dúvida – de minha parte, claro está! –, ser aposto ao nome do jovem angolano. Só tem a ganhar, mais uma vez, quem o ler! Na Literatura como já disse Lavoisier: nada se cria, nada se perde, tudo se transforma… Será que foi assim mesmo? Boa leitura!

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