Da terrinha

Jacinto Lucas Pires escreveu, no início de sua carreira, dois livros: Para averiguar do seu grau de pureza e Universos e frigoríficos. Já falei deste rapaz aqui e de alguns de seus livros. O que ocorre é que o prazer de ler sua obra me faz retornar à página em branco para comentar, com elogios, o que li. O primeiro é uma coletânea de treze narrativas curtas que podem ser lidas sob uma mesma perspectiva: a dos sentidos possíveis da palavra “janela”. Essa dica fica por aqui, para não estragar o prazer de quem se dispuser a ler o volume. O segundo é uma peça de teatro. Reli-os hoje. Do segundo, repetiu-se a ideia de ver a montagem dirigida pela Beth Lopes, professor de teatro que conheci em Santa Maria-RS e que hoje, se não me encontro em equívoco, trabalha na ECA-USP. Não sei porque, mas quando das leituras, a imagem dela dirigindo a peça me veio à mente. Talvez seja por conta da aproximação possível do texto do escritor português com a obras de dois outros dramaturgos que causam similar “incômodo”: Beckett e Ionesco. O espírito do absurdo paira sobre os dois. Um espírito comum aos dois estrangeiros, diferente, porém, do incômodo oriundo do absurdo que se lê em O estrangeiro, de Camus. Mas isso já é uma outra história..

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Três dedos de prosa

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Ele se senta diante da tv para assistir aos programas “mundo cão” enquanto faço a caminhada diária de quatro mil e quinhentos metros. Forçada. Um esforço imenso para dar conta de me levantar da cadeira, me trocar e fazer a bendita caminhada. Ordens médicas. Prefiro isso a pagar uma “academia” onde vou ter que enfrentar o exibicionismo alheio, o olhar desdenhoso por conta de minha idade, de minhas vestimentas – não sou do tipo fashion – e da pouca frequência. Uma chatice. E pagar pela chatice? Jamais! Então, eu faço diariamente, a mesma coisa, a não ser que chova ou que eu tenha que sair de casa para outra atividade necessária à manutenção do equilíbrio doméstico. Bonito né?!

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Uma senhora chega ao hospital com uma crise hiperglicêmica, carregada pelo filho. O atendimento demora. O rapaz sai pelos corredores, desesperado, em busca de atenção e atendimento. Encontra a médica de plantão falando ao celular, displicentemente, do mesmo jeito que rejeita o socorro. Em seguida abandona o plantão e o hospital. Com alguma demora, o rapaz recebe a orientação de atravessas as pistas da avenida em frente ao hospital, ara levar a mão a uma UPA, onde seria mais bem atendia. Lá, a mãe recebe sedativos e o filho, uma vez mais, é orientado a voltar ao hospital pois ela precisa fazer exames mais complexos e ser internada numa uti. Eles retornam e a mãe é recebida pela equipe do hospital que, algum tempo depois, anuncia a morte dela. Pouco mais de sete horas entre a chegada e a morte e NINGUÉM assume a responsabilidade. Duvido que algum dos médicos envolvidos seja proibido de exercer a medicina de agora em diante…

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Jacinto Lucas Pires escreveu, no início de sua carreira, dois livros: Para averiguar do seu grau de pureza e Universos e frigoríficos. Já falei deste rapaz aqui e de alguns de seus livros. O que ocorre é que o prazer de ler sua obra me faz retornar à página em branco para comentar, com elogios, o que li. O primeiro é uma coletânea de treze narrativas curtas que podem ser lidas sob uma mesma perspectiva: a dos sentidos possíveis da palavra “janela”. Essa dica fica por aqui, para não estragar o prazer de quem se dispuser a ler o volume. O segundo é uma peça de teatro. Reli-os hoje. Do segundo, repetiu-se a ideia de ver a montagem dirigida pela Beth Lopes, professor de teatro que conheci em Santa Maria-RS e que hoje, se não me encontro em equívoco, trabalha na ECA-USP. Não sei porque, mas quando das leituras, a imagem dela dirigindo a peça me veio à mente. Talvez seja por conta da aproximação possível do texto do escritor português com a obras de dois outros dramaturgos que causam similar “incômodo”: Beckett e Ionesco. O espírito do absurdo paira sobre os dois. Um espírito comum aos dois estrangeiros, diferente, porém, do incômodo oriundo do absurdo que se lê em O estrangeiro, de Camus. Mas isso já é uma outra história…

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Eco

Duas mulheres. Duas vozes que fazem sentido. Duas personagens dramáticas. O texto é de autoria de um sujeito fenomenal. Há que se esclarecer que este epíteto está circunscrito a um contexto histórico, cultural e literário que envolve miríades de detalhes, de nuances, de peculiaridades. A Literatura tem dessas coisas. Antes de entrar no assunto que me interessa, um interregno: a mitologia.

Eco (em Grego, Ηχώ) era uma bela jovem ninfa grega. Eco amava os bosques e os montes, onde muito se distraía. Era querida pela deusa Ártemis, a quem acompanhava em suas caçadas. Tinha, no entanto, um defeito: falava demais e sempre queria dar a última palavra em qualquer conversa ou discussão. Em certa ocasião, Hera desconfiou, com razão, que seu marido Zeus se divertia com as ninfas. Enquanto as ninfas se escondiam de Hera, Eco tentou distraí-la com uma conversa e, no entanto, foi castigada: só seria capaz de falar repetindo o que os outros dissessem. Eco era uma das Oréades, as ninfas das montanhas, e adorava sua própria voz. Como Zeus adorava estar entre as belas ninfas, visitava-as com grande frequência. Suspeitando dessas ausências do esposo, Hera veio à terra a fim de flagrá-lo com suas amantes. Sendo a prolixa Eco a única do grupo que não divertia-se com Zeus, intentou salvar suas amigas, falando com Hera ininterruptamente, de forma a possibilitar que o deus e as outras ninfas escapassem. Finalmente a deusa conseguiu livrar-se dela e, chegando ao campo onde os amantes estavam, encontrou-o deserto. Percebendo que tinha sido lograda, resolveu castigá-la. Ela não teria mais o poder de iniciar uma conversa, apenas de ter a última palavra.

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Esta figura mitológica, penso eu, está no horizonte de expectativas de certa teorização sobre a intertextualidade e/ou o dialogismo. Aqui, vou deixar passar a oportunidade de “pontificar” sobre o assunto. Não é do meu feitio, apesar de ser lugar comum na “academia”. De um jeito ou de outro, penso que a tal de Eco pode ser “lida” desse jeito. Assim, as duas mulheres a que me referi, Madalena e Maria, personagens do drama Frei Luis de Sousa, do Almeida Garrett, são a bola da vez. Ambas praticam, mesmo sem o saber, um exercício intertextual ao aparecerem, no drama, lendo textos clássicos da Literatura Portuguesa. Olha só o que elas dizem:

“MADALENA
(repetindo maquinalmente e devagar o que acaba de ler)
Naquele engano de alma ledo e cego que a fortuna não deixa durar muito…
Com paz e alegria de alma… Um engano, um engano de poucos instantes que seja. Deve de ser a felicidade suprema neste mundo. E que importa que o não deixe durar muito a fortuna? Viveu-se, pode-se morrer. Mas eu! (Pausa). Oh! Que o não saiba ele ao menos, que não suspeite o estado em que eu vivo. Este medo, estes contínuos terrores, que ainda me não deixaram gozar um só momento de toda a imensa felicidade que me dava o seu amor. Oh! Que amor, que felicidade. Que desgraça a minha! (Torna a descair em profunda meditação; silêncio breve).”

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“MARIA
— «Menina e moça me levaram de casa do meu pai» — é o princípio daquele livro tão bonito que a minha mãe diz que não entende; entendo-o eu. Mas aqui não há menina nem moça; e vós, senhor Telmo Pais, meu fiel escudeiro, «farás o que vos é mandado». E não me repliques, que então altercamos, faz-se bulha, e acorda a minha mãe, que é o que eu não quero. Coitada! Há oito dias que aqui estamos nesta casa, e é a primeira noite que dorme com sossego. Aquele palácio a arder, aquele povo a gritar, o rebate dos sinos, aquela cena toda. Oh! Tão grandiosa e sublime, que a mim me encheu de maravilha, que foi um espetáculo como nunca vi outro de igual majestade! A minha pobre mãe aterrou-a, não se lhe tira dos olhos; vai a fechá-los para dormir e diz que vê aquelas chamas enoveladas em fumo a rodear-lhe a casa, a crescer para o ar e a devorar tudo com fúria infernal. O retrato do meu pai, aquele do quarto de lavor, tão seu favorito, em que ele estava tão gentil homem, vestido de cavaleiro de Malta com a sua cruz branca no peito, aquele retrato não se pode consolar de que lho não salvassem, que se queimasse ali. Vês tu? Ela, que não cria em agouros, que sempre me estava a repreender pelas minhas cismas, agora não lhe sai da cabeça que a perda do retrato é prognóstico fatal de outra perda maior, que está perto, de alguma desgraça inesperada, mas certa, que a tem de separar do meu pai. E eu agora é que faço de forte e assisada, que zombo de agouros e de sinas. Para a animar, coitada! Que aqui entre nós, Telmo, nunca tive tanta fé neles. Creio, oh, se creio! Que são avisos que Deus nos manda para nos preparar. E há. Oh! Há grande desgraça a cair sobre o meu pai. Decerto! E sobre a minha mãe também, que é o mesmo.”

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De cara, a gente pode associar essa “citação” ao projeto dramático de Garrett, neste seu texto, com o intuito de criar clima propício para dizer o que deseja dizer. As citações, quer me parecer, não são gratuitas. A superstição de Madalena e a ingenuidade de Maria são traços que corroboram a coerência das mesmas citações. Por outro lado, no decorrer do drama, o “destino” de cada uma delas também é um atestado desta ausência de gratuidade na referência literal a Camões e a Bernardim Ribeiro. Além disso, há que ressaltar a fundamentalidade de ambos os autores no processo de consolidação da Literatura Portuguesa, em sua história, enquanto instrumento de sustentação de uma identidade cultural. Em outras palavras, a articulação dessas variáveis confirma uma das leituras mais comuns e razoáveis, para não dizer plausíveis, do texto de Garrett: a de possibilitar a leitura, na letra do drama, de um discurso de “nacionalização”, não apenas das letras lusitanas, como também de sua própria gente. Sintomático, por exemplo, o segundo incêndio apresentado no drama. A alegorização de fim de um período para implementação de outro é por demais óbvio para ser negado. Mas há mais, muito mais… No entanto, deixo isso à custa da curiosidade dos olhos que me acompanharam até aqui!

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Inesperado

No finalzinho da redação de uma postagem, as linhas vermelhas apareceram embaixo de algumas palavras mal digitadas (Houve um tempo em que dir-se-ia “mal traçadas”, mas esse tempo parece ter passado). Fui corrigindo aqui e ali e noto, estupefato que há um “er” solto. Vou lá, aciono (o onomatopaico verbo me irrita, mais hoje que em outros dias…) a tecla direita do rato (ai, ai, saudades de Portugal) e, mais estupefato ainda, percebo que, na lista de possibilidades corretivas, não aparece o verbo “ler”. Será um sinal dos tempos? Um termômetro da atualidade? Um aviso? Sei não… Depois de ler, por mais uma vez, as palavras mais que lúcidas de um ex-aluno e, agora, vizinho, fiquei pensando em algumas possibilidades hermenêuticas para esse acaso…

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Índice

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Aula de Literatura Portuguesa. Gil Vicente. Estava eu lá a tentar explicar de maneira o mais clara possível a agudeza da contribuição do autor humanista/renascentista em/de terras lusas. Melhor seria dizer terras ibéricas (?). Há sempre uma controvérsia implícita em cada afirmação,sobretudo em certas “áreas do conhecimento” (Sempre que uso esta expressão me vem ao pensamento a imagem de um condomínio fechado com os seus lotes separados por cercas vivas, baixinhas, bem aparadas, verdinhas… Pois bem, Gil Vicente. De repente, diante do olhar baço dos estudantes – sim, baço, sem brilho, desinteressado, acomodado, neutro, sem vida… uma espécie de necrotério do pensamento – afirmo com todas as letras que o teatro profano de Gil Vicente causou verdadeira revolução na cultura ibérica. seus efeitos podem ser sentidos ainda hoje e que, devido a ele, o teatro no Ocidente não foi mesmo. Para completar, mandei uma alegoria: Gil Vicente foi o Sílvio Santos do final da Idade Média, como no programas”Portas da Esperança”. Guardadas as devidas proporções foi isso mesmo. Não no sentido de dar prêmios e/ou realizar sonhos,mas no sentido de desamarrar a arte dramática, de dar vazão a releituras e críticas à sociedade de seu tempo e de oferecer à população “extra muros” daquela época, a oportunidade de fruir de sua arte. Sua linguagem era simplificada, harmônica, musical – os textos de seus Autos e Farsas são rimados! – numa mistura galego-portuguesa que atingia os ouvidos e corações portugueses, fazendo, rir, chorar, pensar, refletir. Teatro “profano”. Não pela temática abusiva e/ou debochada – o que não deixa de estar presente em seus textos – mas pela localização: fora dos palácios, das igrejas; em praça pública, largos e ruas medievais das cidades, já em crise… Uma festa. Uma espécie de FIT – como aconteceu recentemente em belo Horizonte. Um festival. A diferença é que “lá” o espetáculo era constante e não fazia penas parte de um calendário “cultural” com finalidades um tantos esdrúxulas, se vistas sob certa perspectiva… Sei que alguns (não poucos) narizes estarão tortos por conta dessa minha “atitude”. Sei que um risinho sardônico – sempre gostei desta palavra – deve estar sendo esboçado abaixo desses mesmo narizes torcidos, numa sequência gozosa (Alô Lacan!) de desdém: “me importa me lá”. Diria vovó Esther. E eu repito.

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No Rio de Janeiro, sexta-feira pela manhã, num táxi a caminho do hotel, ouvindo a Rádio Tupi (a versão carioca da Rádio Itatiaia – ou vice-versa, dependendo do grau de bairrismo de quem usa a expressão!). Escuto um douto senhor, com aquele sotaque “característico” – a vontade era de usar outro qualificativo, mas a boa educação me impede – a dizer cousas e lousas a respeito da criminalidade na “cidade maravilhosa” (hoje apenas pela geografia, ainda que um tanto degradada), sobretudo aquele que utiliza a motocicleta como seu veículo. A reclamação era de que há pouco espaço para guardar as ditas cujas apreendidas em cenas de crime, segundo a polícia. A douta voz dizia que o crime “recrudesceu” no Rio de Janeiro, sobretudo o que utiliza a motocicleta. Fiquei na dúvida. Recrudesceu? Quer dizer, diminuiu? Comentei com minha mão que opinou o contrário. Fiquei na dúvida. Só hoje recorro ao “pai dos burros” – de onde terá saído esta expressão? – e vejo que o significado é o que minha mãe opusera à minha dúvida. Como verbo intransitivo tem dois significados, tornar-se mais intenso; exacerbar-se, aumentar e reaparecer com sintomas mais fortes e preocupantes (sintoma, doença, epidemia); agravar-se. Nada como um dia depois do outro. Ou seria “após”…

 

Mais uma surpresa boa

Cal, de acordo com o Dicionário Houaiss, é um substantivo feminino: pó branco constituído principalmente de óxido ou hidróxido de cálcio, usado na construção civil, em fluidos de perfuração, em cerâmicas, na clarificação de óleos, em tintas, revestimento contra fogo, tratamento de água, na manufatura de papel, como adstringente, etc. Qualquer produto (pulverulento, pastoso etc.) resultante da hidratação da cal virgem. Etimologicamente, a palavra vem do latim vulgar – cals (derivado do acusativo) que, por sua vez, vem do latim calx, calcis – cal, pedra de cal, com origem no grego kháliks; provindo pelo espanhol cal. A viagem é longa. De tudo fica um pouco: logo, pode-se acreditar quando dizem que “cal queima”!

A ideia de fim, de morte, de consumição, não passa ao largo quando se pensa nessa palavra. Pensar na palavra, pensar com a palavra. Isso é poesia! É isso o que faz José Luis Peixoto em seu livro Cal. Título sugestivo, sui generis, instigante e inesperado, dado que trata, em sua maior parte, da velhice, aquele período em que tudo parece se acabar, queimar no próprio calor da vida que vai se extinguindo lentamente. Inexorável destino da humanidade! São 17 contos, três poemas e uma peça teatral sobre a velhice. Velhice. Alguma coisa que assusta e instiga, alguma coisa que faz com que muita gente sinta medo; alguma coisa que não agrada a muita gente. Alguma coisa de inevitável!

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A imagem da capa, na edição que li, funde duas fotografias: a mão engelhada de uma pessoa velha e uma parede caiada. Como se a pele daquela mão tivesse a mesma natureza da superfície rugosa daquela parede. Corpo e casa à mercê do tempo, como sinais de uma memória que é sempre o ponto de partida para os textos de José Luís Peixoto. Sejam eles contos, poemas, crônicas ficcionalizadas ou peças de teatro. Cal, editado pela Bertrand é o sexto livro de prosa de Peixoto e reúne 17 contos publicados em jornais e revistas, uma peça teatral. Todos com um tema comum: a velhice; naquilo que tem de belo, de melancólico, de exaltante ou de trágico. No fundo, o autor juntou textos dispersos que só fazia sentido recuperar pelo fato de serem atravessados por unidade temática forte, determinante. O autor sempre escreveu bastante sobre a velhice (há velhos em todos os seus textos), porque é “uma idade muito importante e muito subvalorizada”. O seu interesse literário não se centra na velhice em si mesma, com a sua sabedoria, os seus sobressaltos e rituais, “mas mais na passagem entre as várias idades e a forma como se lida com isso.” Em Cal, à semelhança dos outros livros, os velhos vivem quase sempre num meio rural que José Luís conhece bem, porque viveu até ao fim da adolescência na aldeia de Galveias (concelho de Ponte de Sor). As figuras curvadas que trabalham no campo, fenecem ao desalento da escuridão das casas, vendem uma burra aos ciganos como quem vai para o cadafalso, ou acreditam que a sua horta de sempre cresce no espaço limpo e puro de uma enfermaria hospitalar (ainda que nem sempre, infelizmente, seja assim!). Tudo é, muitas vezes colagem exata de pessoas que o autor conheceu, ou de quem ouviu falar. Há mesmo nomes reais que assomam às páginas, dando uma dimensão humana fortíssima às histórias, várias delas com um assumido cunho autobiográfico: “De certo modo, quis preservar, através da escrita ficcional, a dignidade das pessoas que me fizeram ter consciência de que a velhice não é só uma questão de decadência física. Às vezes é também o exacto contrário disso.”, diz o autor! Há razões mais subterrâneas que levaram Peixoto a escolher o título: Cal. “Não foi só a identificação com o Alentejo, não foi só a brancura, não foi só a ideia de uma espécie de cristalização das casas, que as conserva e as paralisa no tempo. Foi também a noção de que a cal é uma matéria perigosa, uma pedra que ao colocar-se dentro de água ferve, queima e se cai nos olhos cega.” Metáfora perfeita, também, do que é a escrita. Eduardo Prado Coelho diz que “a grande força de José Luís Peixoto está no modo como narra histórias que se dobram para dentro da sua própria loucura e no fio puríssimo de luz com que as vai reunindo e salvando do esquecimento”. Palavras de sabedoria. O texto de José Luis não desmente a acuidade do olhar do crítico. Como fio puríssimo de luz, uma ausência presente atravessa os gestos e as emoções destas figuras. Em cumplicidade com a morte, a vida torna-se mais límpida, talvez mais pura. A luz – força redentora de suas personagens –, é certamente um dos fios condutores do texto. Quem gosta da escrita deste autor português, irá certamente reencontrar palavras e frases ao estilo daquelas que podem ser a razão de se gostar do estilo de escrita de José Luís Peixoto, um estilo bastante característico e que desperta no leitor determinados sentimentos que fazem pensar e reviver memórias ou detalhes esquecidos ou que estão adormecidos. Para quem não conhece, fica a recomendação, com a condição de aconselhar apenas às pessoas que queiram ler algo que lhes faça refletir ou que estejam à procura de algo calmo, estejam à procura de encontrar pessoas simples e com elas reviver determinados momentos das suas vidas, momentos distintos, acontecimentos distintos, personagens semelhantes, mas distintas. Poesia, para dizer tudo numa única palavra.

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