Unidunitê…

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Ah se eu pudesse e se o meu dinheiro desse. O que eu faria? Já não sei. Se colocasse estas frases empilhadas, teria feito um poema? Também não sei. Mas o que é mesmo que a gente sabe? Outra pergunta sem respostas. E são tantas. Vão sendo acumuladas – sim, com a locução verbal, caso contrário, usando a forma pronominalizada, tem-se a impressão de que as perguntas se acumulam a si mesmas, que elas têm esta potência, que elas agem por si. E não é bem o caso… Vão sendo acumuladas como as incisões na camada de cera do “bloco mágico”. Desenho sobre desenho. Na superfície, eles desaparecem, mas as marcas ficam e vão se recobrindo: palimpsesto imaginário que não se revela, mas se desvela ao sabor a autorização do inconsciente… (Quem leu Freud sabe do que estou a falar…) E assim… dizem… contam a vida… Parece que, quase literalmente, são expressões de um texto dito por Elis Regina nas performances de seu último show, Trem azul. Não o vi. Aliás, não vi todos os shows dela. Conheci-a em 1972, voltando de Maceió, depois de disputar os Jogos Estudantis Brasileiros. Naquele ano, o governo do Médici (se não me falha a memória a cadeira de presidente era ocupada por ele, mais um general na lista da sucessão entre 1964 e 1988), levou todos os estudantes para os jogos de avião. Todos. E nós nos julgávamos privilegiados. Mal sabíamos o que estava se passando nos “porões da ditadura” (Ai que essa expressão me incomoda… não gosto dela!). Pois bem. Voltando de Maceió, numa escala no Rio de Janeiro (o aeroporto ainda se chamava Galeão e não havia a linha vermelha, se não me engano…) ouvi Casa no campo, na voz da Elis. Corri numa loja e discos e comprei o LP, com a sobra do dinheiro que meu pai havia me dado para gastar com as… bem deixa pra lá, isso é assunto para outra hora. Foi quando conheci a cantora. Daí comecei a comprar cada disco que ela lançava. Não vi Falso brilhante, mas vi Transversal do Tempo. No meio disso, dois outros shows, um no Mackenzie (o clube mineiro, não a universidade paulistana) e outro no Teatro Marília. Depois houve Elis, essa mulher: apoteótico. Mas não vi Trem azul. O último que vi foi Saudade do Brasil: uma ópera popular emocionante. A apresentação na Globo também valeu a pena ver, assim como o programa da Record, se não me engano. Tantos anos escutando música de qualidade inquestionável, interpretada por uma voz inigualável. No Brasil, ainda não apareceu outra para superá-la. Tantas músicas, tantos shows, tantas emoções (ai… ato falho… nada a ver com Roberto Carlos… peloamordedeus!). Assim, as perguntas, com resposta ou sem… Perguntas, dúvidas, ideias, sonhos, desejos… tanta coisa. E o tempo passa, deixa suas marcas e passa, incólume, ao que parece…

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Ábacos e astrolábios

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O relógio marca sete horas e cinco minutos. Exatamente. O ponteiro pequeno no sete e o grande no “I”. A numeração romana, ainda antiga, mostra o quatro com “IIII”. O relógio está parado desde as sete horas e cinco minutos de um dia qualquer no passado. Um passado não muito remoto, na verdade, mas passado. Terá sido de manhã ou à noite? Vai saber. O relógio parou. O tempo também parece ter parado junto com aquele relógio. Um tempo que até então ainda não tinha sido plenamente dinâmico. Parou com o relógio. Junto com o relógio e o tempo, uma série de outras “coisas” também parou… a série (Atenção com a concordância”). Até a cruz que encima a parede onde está o relógio parece… parada. E cruz para? Pois é… Esta cruz já não tem a ponta superior. Só a haste e os braços. Pronto. Decepada. Acéfala. Parada. Em cima de uma parede com um relógio parado às sete horas e cinco minutos de um dia qualquer de um passado não muito distante… Parece que é assim que a História se faz…

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Numa página seminal de seu livro Formação da Literatura Brasileira: momentos decisivos, Antonio Candido escreve que “A nossa literatura é ramo da portuguesa”. Muita gente já se descabelou por conta desta afirmação. Do meu lado, penso que, na medida das referências de que se vale o autor, a assertiva tem sua veracidade. No perímetro da História, o Brasil dependeu de Portugal. Fato. Por via de consequência, a literatura aqui produzida seguiu pelo mesmo caminho. Outro fato. Com o passar do tempo, os liames da tal dependência foram ficando puídos pelo desgaste. Cronos é implacável. Logo. Hoje, tomar as palavras do crítico em sua materialidade absoluta, sem relativizá-las em função das configurações discursivas que a própria crítica vai produzindo e fomentando e denegando e desenvolvendo e… e…, é burrice. No entanto, o fato permanece. A Literatura Brasileira é ramo da Literatura Portuguesa. Foram os portugueses que aqui chegaram. Foram os portugueses que implementaram sua cultura, Foi a Língua Portuguesa que se consolidou aqui. Logo, geneticamente, somos ramos sim. Não é ramo no sentido da dependência. Que esta já não existe como outrora. Mas como origem, inegavelmente, ainda ramo. Concluindo com uma polêmica, deixo à interpretação alheia um trecho de livro sagaz, arguto, sarcástico, feroz e incisivo: A poeira da glória. Dele, cito um trecho que vai ecoar as ideias acima. As do segundo parágrafo. Por que o primeiro, fica relegado a uma tentativa (frustrada?) de poesia… Segue o trecho:

“E isto permaneceu até mesmo na época da maturidade, quando se transformou no professor com quem os alunos queriam estudar a qualquer custo, até para se vangloriar como um troféu de prestígio. A partir de 1961, Candido teve a chance de experimentar a criação de um curso de Teoria Literária, primeiro na Faculdade de Assis, depois na Universidade de São Paulo, chegando ao ápice na Universidade Estadual de Campinas, a Unicamp, onde desenvolveu em sua plenitude a matéria depois intitulada de Teoria Literária e Literatura Comparada. Criou-se assim o que se chamaria posteriormente de “paradigma uspiano” e que se tornou a “principal referência da crítica literária contemporânea do país”. De acordo com o registro de Rodrigo Martins Ramassote, num momento de reformulação dos cursos de graduação e programas de pósgraduação [no Brasil], Candido mobilizou investimentos e recursos necessários em diversas frentes de atuação para dinamizar a montagem de uma infraestrutura acadêmica bem-sucedida na área de Teoria Literária, ao disponibilizar recursos financeiros para pesquisa (através de bolsas de pesquisa da FAPESP [Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo]); recrutar e contratar entre os alunos e orientados futuros docentes; remanejar outros tantos para a ocupação de cargos e postos de trabalho em instituições universitárias no interior do estado (sobretudo para a recém-inaugurada Unicamp); gerenciar o espólio intelectual e pessoal de grandes intelectuais e escritores (incorporando tal patrimônio ao meio universitário, bem como supervisionando o seu acesso e consulta); desenvolver e implementar amplos projetos de pesquisa coletiva e, finalmente, sugerir temas de investigação particular para seus estudantes. 70 Há, sem dúvida, um espírito militante em todas essas ações — um espírito que criaria a sua própria tradição de crítica literária, um novo círculo de sábios que cooptaria a literatura brasileira e o jornalismo cultural de tal forma que não se poderia escrever uma única linha sem passar pelo crivo dos discípulos que seguiam o seu cânone. Alguns nomes desses escolhidos pescados a esmo mostram como Antonio Candido se tornou o verdadeiro “interesse dominante” da nossa sensibilidade moral e como sua influência permeia naturalmente a nossa leitura dos grandes autores brasileiros, sem nenhum questionamento. Ela vai de Roberto Schwartz (que transformou Machado de Assis em um protomarxista) e Davi Arrigucci Jr. (um ensaísta talentoso, sem dúvida, mas capaz de escrever várias páginas falando sobre a poesia de Manuel Bandeira apenas no aspecto formal, sem tocar no conteúdo de sua obra), passando por Walnice Nogueira de Galvão (estudiosa séria de Euclides da Cunha e Guimarães Rosa) e Telê de Ancona Lopez (protetora feroz dos arquivos e da obra de Mário de Andrade), terminando com João Luiz Lafetá (falecido precocemente, mas que causou um estrago permanente no estudo do Modernismo Brasileiro ao desprezar escritores de calibre, como Octavio de Faria e Agripino Grieco, simplesmente porque teriam posições opostas à esquerda moderada, defendida por Mário de Andrade após a Revolução de 1930) e Augusto Massi (impetuoso professor que, em nenhum momento, consegue discorrer sobre o problema do Mal na obra de Otto Lara Resende —um sujeito que, conforme veremos no próximo capítulo, só pensava nisso dia e noite). 71 Cada um destes iluminados tem (ou tiveram) atualmente um cargo acadêmico garantido, mantido pelo Estado, com bônus e benesses salariais que fariam a alegria de qualquer brasileiro —e os jornais e as editoras sempre estiveram de portas abertas para eles, especialmente para tecer loas ao antigo e amado mestre. Candido conseguiu transformar o reino da literatura numa espécie de Cuba literária onde a liberdade de discordar é paga com o desprezo solene de quem não se opõe às ideias superficiais de seu líder, porque eles mesmos não querem admitir para si mesmos que tudo o que fizeram até tem algum talento, mas ficou perdido na fragilidade de seus pensamentos. Ainda assim, isto não é nada perto do prejuízo que provocaram nas cabeças dos leitores. Foi uma catástrofe sem precedentes. Este círculo dos sábios simplesmente impediu qualquer possibilidade de aprendermos a fitar o abismo, tirando o prazer de estudar a literatura e inculcando na cabeça de cada um de nós que ela só seria útil se tivesse uma meta adequada à tão esperada revolução. Graças a esta traição dos intelectuais, ninguém mais se importa com o ser humano que foi triturado em carne e osso. O mito da “revolução permanente” contribuiu para que as contradições de Antonio Candido se transformassem em insanidades ratificadas pelas nossas instituições nacionais. Pois foi isso que aconteceu: atordoados por sonhos que não conseguiram transformar em realidade, elas destruíram definitivamente a sensibilidade moral do país, contribuindo para aumentar o abismo que há entre o Brasil real e o Brasil oficial.” (p. 310-311)

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Sombras

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Estavas, linda Inês, posta em sossego
De teus anos colhendo doce fruito,
Naquele engano da alma ledo e cego,
Que a fortuna não deixa durar muito,
Nos saudosos campos do Mondego,
De teus fermosos olhos nunca enxuito,
Aos montes ensinando e às ervinhas,
O nome que no peito escrito tinhas.
(Camões, III, 120)

Não. Não serve. Com o eco dos passos sobre as placas frias de pedra barroca no assoalho – que em nada e por nada lembram o frio das paredes de pedra dos porões do museu Machado de Castro – minhas memórias de quase vinte anos esboroam-se e não podem ser associadas a versos tão liricamente dramáticos, no caminho da tragédia anunciada. Não. Não hei de manchar o nome da mítica Inês e a mão que a escreve com associações tão mesquinhas. Sobretudo porque, aqui onde estou, hoje, o que me faz ressentir é a decepção e a preguiça de perceber que as cabeças de burro enterradas sob este lugar ainda emanan miasmas invisíveis de retrocesso, inércia, beirando a estupidez que mesquinhamente pauta atitudes e “certezas”… paradoxalmente… incertas… Não. Penso em algo mais trágico e igualmente paradoxal como os versos de Augusto dos Anjos:

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Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão – esta pantera –
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija! (Versos íntimos)

O vai-e-vem de sensações confunde, espanta, encanta – com a devida vênia pela rima paupérrima! A antítese que marca a experiência existencial, em suas nuances mais inusitadas, porque inumeráveis, salta aos olhos do poeta que se desfaz em palavras, em nada e por nada lamentosas, porque conscientes. A sisudez dos sentimentos, porventura ensaiadas em uma leitura plausível, só fazem destacar a beleza de versos explícitos em certeza do que se vive, se sente, se pensa, se constata. Em poucos momentos, as linhas de um poema tocam o olhos do furacão, o coração das trevas do sentimento humano: sua desrazão. Amargura? Não diria. Razão seria mais acertado: a irrecorrível certeza da vida como ela é – muito longe do senso de Nelson Rodrigues. Muito longe mesmo.

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Ainda assim, numa sobreonda descomunal, o reverso da moeda me mostra outros versos, desta vez, de Jorge Luiz Borges:

Tras los fuertes barrotes la pantera
Repetirá el monótono camino
Que es (pero no lo sabe) su destino
De negra joya, aciaga y prisionera.
Son miles las que pasan y son miles
Las que vuelven, pero es una y eterna
La pantera fatal que en su caverna
Traza la recta que un eterno Aquiles
Traza en el sueño que ha soñado el griego.
No sabe que hay praderas y montañas
De ciervos cuyas trémulas entrañas
Deleitarían su apetito ciego.
En vano es vario el orbe. La jornada
Que cumple cada cual ya fue fijada. (La pantera)

Destino e repetição. Ilusão e possibilidade. Caminhos bifurcados que no mundo animal – sem a inútil divisão (aqui) imposta pela diferença impressa por um o prefixo (racional/irracional) marcam o deslindar da percepção de que a vida não se reduz ao que dela ideia se forma. Difícil? Quase impossível: a certeza de que existe a mínima chance de compreensão. Os desvãos da história de cada um acabam por revelar um certo “calcanhar” que, oriundo da mitologia, acaba por enfraquecer a base, o chão, a segurança. O olhar determina a extensão da possibilidade, por isso, a ideia de limite se impõe.

Tudo isso passaria despercebido de qualquer um. Ao contrário de quem caminha por esse chão forrado de lages de pedra fria que guarda segredos inefáveis. Um misto de tristeza e saudade (não são primas, estas sensações?). A certeza de que o tempo esvaído deixa marcas que, por força dele mesmo, vão se desfazendo no olvido de quem anda sem prestar atenção aos passos que dá…

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Final

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Os jogos pan-americanos chegam a seu final. O Brasil está em terceiro lugar, como vem acontecendo há alguns anos já!… E o que é que fica disso como lição? Penso que a mesma coisa de ontem: o tempo passa, as coisas mudam. Por falar em mudança… dá-lhe Camões:

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o Mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, se algum houve, as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.

E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto:
Que não se muda já como soía.

Luís de Camões Camões, L. V. de. 200 Sonetos. Porto Alegre: L&PM. 1998. (Peguei esse texto no seguinte endereço: http://pensador.uol.com.br/frase/Mjk0MTUx/

É certo que nem todos os sonetos ditos de Camões sejam, de fato, de sua autoria. No fundo, no fundo, a cada dia que passa, acredito mais e mais na ideia de que este é um detalhe apenas. Detalhe daqueles que não acrescentam grande coisa para quem GOSTA de poesia. Se foi ele mesmo ou não o autor, a tradição assim o diz.
Ponto final. Pra que ficar inventando “especula de rodinha” – como dizia meu pai – e inventando moda e criando coisa pra justificar “erudição”. No fundo, a tal de erudição é outra coisa muito diferente, muito além e acima do que hoje se diz ser… Mas há ainda quem acredite nisso… Vá lá… A minha ideia aqui foi a de citar Camões e falar, uma vez mais, com a minha chatice acumulada, que o tempo passa, que as coisas mudam, que TUDO é absolutamente relativo. Nada de novo… Mais uma semana que acaba e outra que começa…

Muda mesmo alguma coisa?

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Respeito

Neste semana que está a findar, vi, na televisão, uma reportagem que mostrava cinquenta (salvo engano) pessoas ”socadas” numa van com capacidade para seis. Que motivos terá alegado o dono da empresa, que conduzia a van, para convencer seus empregadas a se submeter a esta situação? Que argumentos terão sido considerados pelos “empregados” para seguir a orientação do “chefe”…

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Em outra matéria jornalística, o governador de Minas Gerais, se vangloria de ter assinado um “acordo” com os professores para “assegurar” um reajuste que vai começar a ser pago daqui a dois anos e em três parcelas anuais. Ele se vangloria. Pessoas o elogiam em redes sociais. Alarde. Mas não era para ser natural o pagamento daqueles que formam todo mundo? Sim, professor educa “todo mundo”, independentemente do que vai acontecer quando o estudante sair da escola, da faculdade. O futuro a Deus pertence, diz o adagiário popular. Mas e o alarde? Descabido, eu diria. Coisa de retórica jornalística e política para supervalorizar o que seria banal, corriqueiro, “natural”…

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Uma delas treme o tempo todo e mal sustenta as cartas na mão. Mesmo usando a “rodinha” de plástico, inventada para facilitar a vida de quem joga cartas. A outra se confunde, mal sustenta a “rodinha” e se confunde com naipes e sequências, na contagem dos pontos mínimos para “descer” o jogo. O tempo passou e fazer uma simples conta de adição torna-se uma atividade hercúlea, como matar a Hidra de Lerna. Daí… Penso que daqui a algum tempo, não muito, dada a velocidade com que o tal de tempo passa, o que hoje é cena assistida, será cena desempenhada, de plateia, passarei a protagonista. Então… De que adianta esquentar “a cachola” com a exigência do presidente da “associação” para que os proponentes paguem sua taxa de associação para que suas propostas de trabalho sejam, sequer, consideradas pelos “consultores ad hoc”? Vaidades, das vaidades, tudo é vaidade…

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Enquanto isso, encanto-me com os duetos e as interpretações de Maria Bethânia e Omara Portuondo… chegando às lágrimas…

Lacuna

Recebi de um amigo, pelo Facebook. Li. Chorei. É pra ler, rir, chorar, pensar e agir! Não há quem escape…

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TODO FILHO É PAI DA MORTE DE SEU PAI
Não pude deixar de compartilhar… Me emocionei pela verdade no texto, não deixem de ler!
” Há uma quebra na história familiar onde as idades se acumulam e se sobrepõem e a ordem natural não tem sentido: é quando o filho se torna pai de seu pai….
É quando o pai envelhece e começa a trotear como se estivesse dentro de uma névoa. Lento, devagar, impreciso.
É quando aquele pai que segurava com força nossa mão já não tem como se levantar sozinho. É quando aquele pai, outrora firme e instransponível, enfraquece de vez e demora o dobro da respiração para sair de seu lugar.
É quando aquele pai, que antigamente mandava e ordenava, hoje só suspira, só geme, só procura onde é a porta e onde é a janela – tudo é corredor, tudo é longe.
É quando aquele pai, antes disposto e trabalhador, fracassa ao tirar sua própria roupa e não lembrará de seus remédios.
E nós, como filhos, não faremos outra coisa senão trocar de papel e aceitar que somos responsáveis por aquela vida. Aquela vida que nos gerou depende de nossa vida para morrer em paz.
Todo filho é pai da morte de seu pai.
Ou, quem sabe, a velhice do pai e da mãe seja curiosamente nossa última gravidez. Nosso último ensinamento. Fase para devolver os cuidados que nos foram confiados ao longo de décadas, de retribuir o amor com a amizade da escolta.
E assim como mudamos a casa para atender nossos bebês, tapando tomadas e colocando cercadinhos, vamos alterar a rotina dos móveis para criar os nossos pais.
Uma das primeiras transformações acontece no banheiro.
Seremos pais de nossos pais na hora de pôr uma barra no box do chuveiro.
A barra é emblemática. A barra é simbólica. A barra é inaugurar um cotovelo das águas.
Porque o chuveiro, simples e refrescante, agora é um temporal para os pés idosos de nossos protetores. Não podemos abandona-los em nenhum momento, inventaremos nossos braços nas paredes.
A casa de quem cuida dos pais tem braços dos filhos pelas paredes. Nossos braços estarão espalhados, sob a forma de corrimões.
Pois envelhecer é andar de mãos dadas com os objetos, envelhecer é subir escada mesmo sem degraus.
Seremos estranhos em nossa residência. Observaremos cada detalhe com pavor e desconhecimento, com dúvida e preocupação. Seremos arquitetos, decoradores, engenheiros frustrados. Como não previmos que os pais adoecem e precisariam da gente?
Nos arrependeremos dos sofás, das estátuas e do acesso caracol, nos arrependeremos de cada obstáculo e tapete.
E feliz do filho que é pai de seu pai antes da morte, e triste do filho que aparece somente no enterro e não se despede um pouco por dia.
Meu amigo José Klein acompanhou o pai até seus derradeiros minutos.
No hospital, a enfermeira fazia a manobra da cama para a maca, buscando repor os lençóis, quando Zé gritou de sua cadeira:e
— Deixa que eu ajudo.
Reuniu suas forças e pegou pela primeira vez seu pai no colo.
Colocou o rosto de seu pai contra seu peito.
Ajeitou em seus ombros o pai consumido pelo câncer: pequeno, enrugado, frágil, tremendo.
Ficou segurando um bom tempo, um tempo equivalente à sua infância, um tempo equivalente à sua adolescência, um bom tempo, um tempo interminável.
Embalou o pai de um lado para o outro.
Aninhou o pai.
Acalmou o pai.
E apenas dizia, sussurrado:
— Estou aqui, estou aqui, pai!
O que um pai quer apenas ouvir no fim de sua vida é que seu filho está ali. “
(Autor desconhecido)

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Cartas

Entre as muitas agruras que podem ser lidas diariamente, é possível encontrar um oásis de poesia, sinceridade e delicadeza nas palavras de um ser humano. Nesses dias recheados de tragédias, incidentes vergonhosos, superficialidade, escrever passou a ser uma espécie de terapia. Neste rol, inclui-se a carta, a esquecida carta. Houve uma vez que, em casa de uma amiga em Santa Cruz-RS, perguntei à minha anfitriã se poderia me emprestar seu bloco de papel de carta e me dar um envelope para eu escrever uma carta. espantada, ela disse que não tinha, nem o bloco, nem o envelope. mais espantado ainda, eu perguntei como isso era possível na casa de uma professora de literatura!

Estereótipos à parte, fiquei sinceramente estupefato. Mas o tempo passou. Hoje, você digita (Houve um tempo em que o verbo era datilografar… E num tempo mais remoto ainda, escrever – à mão! Imagina!) umas letras e segundos depois ela atravessa três oceanos e duas cordilheiras e deixa feliz ou triste, apreensivo ou relaxado, irritado ou resignado, o outro lado, alguém que, talvez você nunca venha a ver face a face. Milagre? Progresso? Ficção? Vai saber…

Recebi a mensagem que segue de uma amiga-irmã, muito querida. Ela fala desse assunto…

 

“aki naum paramos d escrever
o q eh d+ (Angela Cristina Fonseca)

Tenho saudade de escrever cartas. De ir à papelaria atrás de bloco pautado e envelope. Aqui um parêntese: visitar papelaria sempre foi, para mim, uma aventura sensorial. Gosto de papel, acaricio para sentir a textura; encanto-me com os mais variados tipos de cadernos, blocos, pastas organizadoras, em cores e formatos diferentes; adoro as novas engenhocas usadas para apontar lápis, grampear e clipar, a cada dia mais atrativas; as caixas, de todos os tamanhos e padrões, lindas, de encher os olhos: os lápis – sempre os B’s! -, de maciez variável, respondendo ao toque das mãos, firme ou suave. E os cheiros… ah, os cheiros!… Na verdade, aromas, quase feromônios para minhas narinas irremediavelmente seduzidas… Fecho parêntese.
A última carta pessoal que escrevi data de 2009. O destino, inusitado. Um amigo-irmão, professor de literatura portuguesa, fora passar dois anos na Croácia. Leitorado na Universidade de Zagreb. Muitos de vocês sabem de quem se trata. Conversávamos quase semanalmente no skype, pelo prazer de podermos nos ver. Trocávamos e-mails também, quando havia material didático interessante para compartilhar. Mas, as cartas, não muitas, faziam parte expressiva de nosso repertório de comunicação. É interessante: esse mesmo amigo já viveu umas tantas vezes fora de Belo Horizonte, depois que nos conhecemos. Ausências sempre ligadas à carreira acadêmica. E sempre trocamos cartas. Poucas, a bem da verdade, porém extraordinárias. A primeira parte era constituída de pequenos contos ou crônicas a respeito do que nos acontecia no cotidiano, entretanto, narrados na terceira pessoa, como se outras fossem as personae. Só depois vinha a parte, digamos, mais social e prosaica. Eu adorava.
Outro amigo, artista plástico, ilustrava suas cartas com seus desenhos, que, de tão primorosos, inspiraram-me a ideia de realizar uma exposição, intitulada CARTAS, com aquelas obras de arte. A qual acabou não acontecendo, infelizmente.
Já escrevi muitas cartas nestes meus quase sessenta e seis anos de vida. A maioria à mão. Foi um longo tempo sem computador (não havia, ainda!) e outro tanto, anteriormente, sem máquina de escrever (que só pude comprar já adulta, com o fruto do meu trabalho).
Fico pensando nos jovens de hoje e suas máquinas touch screen. A sensibilidade ao toque não substitui a sensibilidade amorosa de trocar cartas: o prazer de fechá-las como se fossem um cofre cheio de segredos; de colar os selos, que já foram verdadeiros objets d’art miniaturizados; de ir aos Correios, postá-las; e, depois, conferir diariamente a caixa postal, na expectativa de uma resposta.
Vivemos um tempo acelerado, de msgs curtas e cheias de códigos, abreviaturas e ícones. Como no título que dei a esta crônica.
Estou viva e – normal! – vou envelhecendo. Vejo abreviar-se o meu tempo de permanência no planetinha azul, embora não arrefeça o meu desejo de escrever. Venho, então, buscando as referências do meu passado. Lembro-me do dia em que fui enviar a tal carta para a Croácia, com um endereço cheio de palavras estranhas, e o funcionário da agência comentou: “Nossa, nunca tive nas mãos, até hoje, qualquer correspondência para o leste europeu!…”
É por causa destes pequenos eventos que volta, sempre, a saudade de escrever cartas…”