Para LET873 – 4

Postula-se que a Idade Média resgatada por Bandeira seja de feição portuguesa, uma vez que o próprio poeta admite ter sofrido uma forte influência da literatura portuguesa em sua produção poética, informação que é atestada por meio de cartas e crônicas escritas por ele. Em uma crônica intitulada “Presente”, de seu livro Crônicas da província do Brasil (1974), em que o poeta expõe sua formação clássica portuguesa, Manuel Bandeira admite que mesmo quando se vale de formas, aparentemente, rebeldes à tradição, ainda sente as raízes que vão mergulhar nos cancioneiros.

A correspondência entre Manuel Bandeira e Mário de Andrade, reunidas no livro Correspondências Mário de Andrade & Manuel Bandeira (2001), organizada por Marcos Antônio de Moraes, também sinaliza essa relação de influência de Bandeira com a literatura portuguesa. Aliás, quando o poeta publicou Cinza das horas (1917), seu primeiro livro de poesias, Mário de Andrade criticou a presença do lusitanismo em alguns poemas de Manuel Bandeira. Sua crítica dirigiu-se, em particular, aos poemas “Paráfrase de Ronsard” e “Solau do desamado”. Manuel Bandeira não gostou das considerações de Mário, pois para ele o que o amigo chamava de influência lusitana, não era somente uma influência, mas uma incorporação das estéticas de seus precursores portugueses transferidas para a sua própria poesia. O poeta não considera os elementos portugueses, em seus versos, como recursos expressivos de outra língua, mas como elementos pertencentes à sua própria linguagem. Não esquecendo de mencionar que Bandeira aprecia o efeito estético de elementos de origem portuguesa em sua poesia. Além da poesia trovadoresca portuguesa, a poesia bandeiriana, principalmente, em seus primeiros livros, Cinza das Horas (1917) e Carnaval (1919), sugere uma relação de influência com os poemas de Camões, Eugênio de Castro e Antonio Nobre.

(“A presença do elemento medieval na poesia de Manuel Bandeira”, Mestranda Juliana Fabrícia da Silveira – UNESP-IBILCE)

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Numa fuga à expressão “poética”, ao “belo” tradicional, Manuel Bandeira explora os veios da fala cotidiana, coloquial e popular usando um “prosismo poético”. Tira poema de notícia de jornal, de frases de todo dia. Com esse material traduz as dores do mundo, a vida e a morte, não na dolência ou balanceio da poesia habitual, mas numa secura e por vezes num humor que ostenta a rara qualidade de ser ao mesmo tempo trágico, como “Pneumotórax”. A essa orientação coloquial-irônica pertence, também, mas a outra obra, a “Balada das Três Mulheres do Sabonete Araxá”, escrita pelo poeta depois de ter visto um cartaz do dito sabonete. Neste como em outros poemas, vê-se a intenção de poetar o prosaico, o insignificante – atitude típica do Modernismo e da arte de Manuel Bandeira.

(http://diariodonordeste.globo.com/materia.asp?codigo=604750)

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1. Com base no primeiro trecho acima, é possível dizer que a poética de Manuel Bandeira é “tradicionalista” e revaloriza os procedimentos “clássicos” do fazer poético? Por que?

2. Partindo das ideias expressas no segundo trecho, a afirmativa de que o cotidiano é elemento constitutivo da poética de Manuel Bandeira? Justifique sua resposta.

3. No poema “Poética”, há quatro versos que podem ser analisados como um resquício do lirismo romântico, presente na criação do poema, mesmo que circunscrito ao Modernismo brasileiro. Que versos seriam estes? Como estes versos podem ser interpretados da maneira que aqui se afirma?

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Para LET873 – 3

Machado de Assis

(Roberta da Costa de Sousa)

O autor que desenvolve esse estilo na literatura brasileira é Machado de Assis. Inicialmente, Machado escreveu romances românticos tradicionais, como Helena e Iaiá Garcia. A ruptura se dá com Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), no qual o narrador em primeira pessoa, autobiográfico, não é um “autor defunto”, mas um “defunto autor”. Ao colocar um defunto como narrador, o texto já deixa claro que envereda pelo terreno da inverossimilhança. Brás Cubas sabe que seu romance é uma versão: está rememorando os fatos e não pode recuperá-los fielmente, apenas contá-los como interpretações. “Era fixa a minha idéia, fixa como… Não me ocorre nada que seja assaz fixo nesse mundo…” (ASSIS, 1978, p. 19).

Desde o prólogo, ele classifica o romance como uma “obra difusa”, que não vai agradar a todos, e não disfarça que os comentários irônicos vão acompanhar o leitor por toda a narrativa. Assim, Machado faz uso da metalinguagem ao interpelar o leitor ou a leitora ou redigindo digressões, o que torna a leitura descontínua. Essa descontinuidade impede a mistura entre realidade e ficção por parte de quem lê. O leitor machadiano é levado a distanciar-se da narrativa para compreender o sentido simbólico inerente.

Dessa forma, Machado foi um predecessor do Modernismo. Este movimento abordou a transformação do ato criador em tema da criação, o que constitui a metalinguagem. A arte do século XX passou por um autoquestionamento, do qual a metalinguagem se tornou um instrumento. Este recurso foi adotado pela arte moderna com a finalidade de produzir no espectador/leitor uma nova atitude. A intenção de despertar no leitor a consciência de que a arte é um “fazer artístico” integrava o projeto estético modernista.

A arte deixou de ser apenas um espaço de evasão e também incluiu em suas funções a possibilidade da tomada de consciência por meio do distanciamento do objeto artístico. Quando Machado de Assis dialoga com o leitor, seja para comentar o teor de um capítulo ou para antecipar um acontecimento que só concretizar-se-á num momento posterior, está rompendo a linearidade narrativa e içando o leitor a outro plano. Assim, antecipa a atitude autocrítica dos modernistas.

A discussão sobre os procedimentos de construção do texto deixa claro que o romance não pretende iludir o leitor, tratando a obra como uma realidade aparente. Ao contrário, esta postura lança uma espécie de pacto entre o leitor e o narrador: “eu sei que você está lendo e você sabe que eu estou escrevendo”. Ambos sabem que aquela é uma obra de ficção.

Nas artes plásticas, o termo “desrealização” se refere ao fato de que a pintura deixou de ser mimética e se recusa a simplesmente reproduzir ou imitar a realidade empírica. Na pintura, correntes figurativas, como o cubismo, o expressionismo e o surrealismo, todas consideradas representantes das vanguardas européias, deixaram de visar à reprodução fiel da realidade sensível para desenvolver a arte a partir da fragmentação, da geometria, da deformação, do onírico e do absurdo. Todas constituem a negação do realismo enquanto designação da tendência à reprodução da realidade apreendida pelos sentidos.

No universo machadiano, o que importa é considerar que a fantasia funciona como realidade. No caso de Bentinho, em Dom Casmurro, imaginária ou real, falsa ou verdadeira, a conseqüência é a mesma, destrói a vida do personagem-título, torna-o um sujeito atormentado pela dúvida, pela desconfiança de que sua amada, Capitu, o traíra com seu grande amigo Escobar, gerando um filho.

No entanto, como a obra é narrada em primeira pessoa, o leitor não tem acesso aos fatos tais como eles aconteceram, mas apenas à versão do narrador-personagem, cuja isenção é nula. Ele diz que o filho é idêntico a Escobar, e cabe ao leitor tirar as suas próprias conclusões, acreditar ou não na versão de Bentinho. Enfim, o real pode ser o que parece real.

As pergunta”s:

1. Que trecho do texto acima revela um equívoco na leitura da obra de Machado de Assis? Transcreva-o.

2. Que passagem do texto pode ser usada para sustentar a hipótese de que Machado de Assis foi “vanguardista”, considerando o contexto em que se insere a sua obra?

3. Na SUA opinião, Machado de Assis pode ser citado como exemplo de autor “genial” Por quê? Que passagem do texto acima poderia sustentar sua justificativa?