Viagens

As águas ficaram para trás, mais uma vez. Isto não é um poema. Por isso, inverter a ordem dos termos na frase faz pouco sentido, mas as águas ficando para trás, sim. Ficaram para trás no tempo, o da viagem do trânsito, do retorno e do reencontro porque, na verdade, elas voltam sempre e mais um dia. Uma vez mais, sempre, num ciclo interminável que não encontra paralelo com nada. Não encontra também expressão vocabular suficiente. Porque pode até ser adequada, mas suficiente… não. E novo, na terrinha, experimentei por alguns dias a mesma e reconhecida sensação: o sentir-se em casa. Lisboa é assim. Todo Portugal, em certa medida, é assim. Algo parecido se deu em Besançon, lá se vão mas de 20 anos. Não há explicação, como não há para o ir e vir das águas. A ciência pode explicar, descrever, demonstrar, mas não desfaz o milagre: como o da vida.

Viajar é coisa interessante. Ao mesmo tempo: boa e ruim. Não há palavras que consigam traduzir o que é. Bom e ruim, ao mesmo tempo, assim, sem explicação. Portugal já não é um sonho, ou um objeto de desejo, mas praça de reconhecimento e confirmação. Ainda há surpresas, como Santarém e arredores. O Ribatejo e seu planalto, a luz no horizonte que rescende a História, as construções e a simplicidade generosa daquela gente que recebe tão bem, com sua lógica muito peculiar e suas chatices também. O mundo não é perfeito. A humanidade não é perfeita. Por isso as diferenças e as variações e as particularidades são constantes de cada e de todas as experiências, são o seu sabor. Todas as viagens, inclusive as de retorno, as voltas, as repetições. Isso é inegável.

Um outro aspecto da viagem, é o reencontro afetivo com os amigos, com os lugares particularmente caros, a reexperiência de momentos marcados na memória, sempre, também à procura de expressão adequada, suficiente, loquaz. Esse tipo de coisa não se submete a critérios financeiros, logísticos. Não há teoria competente para explicar o significado desse tipo de experiência. Muito se sente. Há intensidade no reencontro e as palavras minguam, melífluas e débeis.

Uma nota chata: a vergonha de ter de explicar o inexplicável sobre as idiossincrasias de pindorama: triste, chato e esquisito. E mais não digo!

Anúncios

Retornos

Muitos dias sem escrever. Muitos dias afastado do blogue. Muitos dias revisitando memórias bissextas. O retorno à capital bandeirante revelou nuances de minha própria experiência. Nuances que, por um lado, causaram prazer, por outro, uma certa melancolia por perceber que muitas pessoas se deixam dominar por imposições eternas, modismos, falácias, delírios e estereotipias, ainda que isso custasse o preço de afetos conquistados. Isso é triste. Mas sobre isso falo outro hora. Agora quero falar das impressões do retorno. A percepção de que o custo de vida aumentou, e muito. A percepção de que muita coisa melhorou, muita coisa se manteve e muito mais coisas pioraram. A experiência feliz de visitar lugares desconhecidos. A gratificação de voltar a outros lugares conhecidos há tempos. A experiência primeira de contato direto com um evento jurídico em que a “justiça” parece não levar em conta as reais necessidades de pessoas de bem, dando a entender que as idiossincrasias de gente “do mal” podem, aparentemente, prevalecer como critérios de julgamento. Não sou jurista, por isso não me meto, mas não me furto a perguntar, intimamente, o porquê disso. Delícia ter visto Marília Gabriela atuando num palco pequeno, numa releitura de texto clássico do teatro mais realista e tradicional, comme il faut. Devo dizer que minha paciência chegou em baixíssimos níveis alarmantes quanto ao “comportamento” de alguns na plateia, rindo quando não fazia sentido rir e fazendo caras e bocas antes da peça, como se todo o mundo estivesse vendo o que ali se passava. Ai que tenho pouquíssima paciência para estereótipos, cada dia menos… Divertido ver dois filmes, um argentino e outro norte-americano. O primeiro, comédia de costumes, sore um golpe acidental que é dado por um marchand e seu artista preferido, e amigo particular. Divertidíssima trama de equívocos e engamos que acaba bem, comme d’habitude! O segundo, versão ianque de filme originalmente chileno – que quero muito ver. Um drama leve que faz pensar, sem exageros. O senso de tragédia bem dosado entre ironia e melancolia. O pathos teatral à toda prova, sobretudo por conta do desempenho da atriz principal – Juliane Moore. No capítulo da comida, um desagradável momento numa experiência de volta a lugar já conhecido e bem cotado: Sujinho. A inexplicável insistência em não receber pagamento a não ser em espécie, a diminuição do corte de carne e o altíssimo preço cobrado, sem nenhuma coerência entre estes três elementos. A surpresa mais que agradável de conhecer, finalmente, o acervo do MASP, ainda que mesclado de peças de outros museus parceiros, conforme nota explicativa. A revelação que foi a visita ao IMS, com um vídeo contundente sobre o “desenvolvimento” de São Paulo, desde os bandeirantes aos dias atuais. O informe local indica que há cópia integral do vídeo na plataforma do Instituto, com acesso livre. Fiquei boquiaberto com a expansão das linhas de metrô. Chegam a quase 17. Isso porque ainda há algumas em obras. Mas das cinco ou seis que conheci em 2012 para o número atual? A prova cabal de que a capital das alterosas, nesses aspecto continua uma fazenda grande, com mentalidade tacanha. Será que apenas neste aspecto? Enfim, uma experiência que valeu a pena porque eu a quis viver. Punto i basta!

Voltando

th

Todos os dias, à mesma hora: fechar as janelas da casa. Pode ser prática que revela ume espírito recluso, um misantropo. Simultaneamente, pode revelar apenas espírito calmo e igualmente recolhido, mas não como isolamento, mas como cuidado, prazer de si. Fechar as janelas da casa, todos os dias, à mesma hora. Mais que rotina ou vício revela sensibilidade. E o desenho do perímetro semântico deste último substantivo poderia encerrar um tratado da mais refinada filosofia. E o que seria possível com ela? As janelas fechadas sempre me seduziram, pela curiosidade que me causam. O primeiro sintoma desse interesse peculiar ocorreu no inverno de 2014, na úmida e ventosa Coimbra. Os miasmas oriundos do rio que segue seu rumo, chamaram a minha atenção. Mesmo nos dias ensolarados e sem vento, ainda que com a temperatura baixa, as janelas ficavam fechadas, sempre, todos os dias. O frio se foi. Com ele a chuva. Os miasmas voltaram para sua morada fluvial, no fundo, e as janelas permaneciam fechadas. Raríssimas vezes foi possível ouvir mais que um sussurro, mesmo quando a imaginação inventava festividades domésticas de domingo à tarde, a hora mais boba. Uma hora que em nada se destaca pela funda melancolia que causa, pelo imenso perder-se em devaneios sem solução, um portal aberto para outras vicissitudes de alma para quem se acostumou a fechar as janelas da casa sempre à mesma hora do dia.

Fora do solo lusitano, em terras escandinavas e mesmo em solo alemão, a mesma percepção toma conta do espírito acidentam do turista que, na falta de mais museus e igrejas e sítios arqueológicos ou históricos, prefere caminhas pelas ruelas, avenidas, alamedas de cidade desconhecida como a procurar uma explicação para o que não se pode esclarecer. O verão já começa a dar sinal de fraqueza. Manhãs e finais de tarde competiam com as madrugas pelo recorde temperaturas em franca queda. O vento, em nada soturno, mas brincalhão, sopra, cada vez mais intermitentemente como a avisar, precavido e precavendo o que está por vir, em mais um ciclo natural. E mesmo assim, esta não é suficiente explicação para as janelas que se mantiveram fechadas, como alhures. Na planura quase rural da cidade escandinava e no riscado urbano da acolhedora urbe alemã, as janelas, das casas sobretudo, permaneceram fechadas pelos quase doze dias de observação curiosa e admirada de um turista acidental.

Hoje foi só pra tentar iniciar um aquecimento para um retorno mais efetivo, sem os efeitos da diferença de fuso horário…

th (2)

 

 

Desejos “crônicos”

th (1)

A última apresentação de Judy Garland, no Carnegie Hall, em 1961, se não estou enganado.

A open night, no Madison Square Garden, do ultimo show de Barbra Streisand.

Um final de semana em Moeda, na casa da Ângela.

As férias no meio do ano de 1988, em Córdoba (Argentina) com o Paulo e toda troupe do Aquarama on Parade.

Observar o cair da tarde no alto de uma das colinas de Lourmarin, no Sul da França.

A antológica performance de Elis Regina no show Falso brilhante, no Canecão, Rio de Janeiro.

Os “cafezões”, na casa da Cleunice, em Santa Maria-RS. Tantas vezes…

O jantar no “Cinco Oceanos”, em Lisboa, em 2013 ou 2014, com Ana Cristina e Vitor.

Um dos shows de Bette Midler, no início de carreira, numa das saunas gays de Nova Iorque, que não existem mais…

O café colonial em Porto Alegre, com o Luiz e seu companheiro, quando de mina primeira visita ao sul do Brasil.

O final de semana na gélida Viena, em Janeiro de 2010.

O arroz do restaurante em frente ao hotel, em Frederico Westfalen, Rio Grande do Sul, em que fiquei hospedado por duas vezes.

“La madrugá”, em Sevilha, 2015.

A Acrópole vista ao longe, alaranjada, sob o luar primaveril de 2004, na saída do navio.

As andanças de dois dias inteiros pelas vielas labirínticas de Veneza, com Tadeu, no verão italiano de 2008.

A visita ao castelo de Buda (ou será de Pest?), no inverno de 2009, com Luiz Fernando.

O jantar na casa de Ana Paula Ferreira, em Orange County, num ano perdido do século XX.

O jantar de despedida, com Ana Paula Arnaut, num restaurante escondido numa das montanhas do entorno florestal de Coimbra, em 2015.

Coisas que fiz, que não pude fazer, que gostaria de ter feito e que podem ser impossíveis de fazer – por conta do tempo: miríades de facetas do desejo de um turista acidental: eu!

th

Memória 2

download

Ah… as imagens que a memória afetiva guarda nessa “nuvem” etérea e volátil da memória… A uma hora dessas, quase sete da noite, eu já estava no quarto do hotel… Qual é mesmo o nome… já não me lembro… Mas era confortável em localização boa, uma visão panorâmica do lado sul da cidade… Gostei de ter sido hóspede ali… Gostei mas do passeio que fiz pela cidade naqueles ônibus vermelhos que são vistos em muitas cidades mundo afora, para gáudio de turistas e “turistas”… Um dia mais que agradável, recheado de emoções e sensações e visões e informações mais que interessantes. Uma boa sangria… Lascas de queso y jamón! Hum… delícia… Depois, sob o ar condicionado, ver o desfile de mais algumas confrarias pela televisão. Há um canal espanhol TV Andalucía que se dedica a transmitir en directo o desfile das confrarias durante toda a semana santa, a semana grande, como eles dizem, com quele sotaque delicioso de andaluzes hospitaleiros que são… Hablando con las zetas, disponibilizam dois canais que durante 24 horas, transmitem as festividades. Nem o carnaval da famigerada rede globo faz tanto… Jamais me esquecerei… jamais deixarei de repetir e repetir e repetir…

E segue uma pequena amostra…

http://sevilla.abc.es/pasionensevilla/directo-semana-santa/2016/lunes-santo-ss16/ls-91612-1458139835.html

 

 

 

Memória

Numa segunda-feira como hoje, mais ou menos a esta mesma hora, com a diferença de que já estávamos em Abril, eu chegada na Estação rodoviária da Plaza de Armas, em Sevilla, para a Semana Santa de lá. Meu interesse particular era pela noite de quinta para sexta, a chamada La madrugá. Ponto alto, segundo os próprios sevilhanos, dos festejos da Páscoa.

download

Um sonho se realizava e se tornava realidade. Realidade que jamais será esquecida. Uma experiência que, como eu mesmo disse logo que de lá voltei para Coimbra, não cabia em palavras. Ainda não encontro as palavras suficientes e capazes de expressar o que foram aqueles cinco dias naquela cidade de um esplendor ímpar. Habitada por uma agente alegre e calorosamente receptiva. Abaixo, a lista das confrarias que passam pelas ruas, avenidas becos e ruelas da cidade que parece não se cansar de bem tratar a quem a ela chega e a quem nela fica por uns tempos… Uma maravilha…

EL CAUTIVO P. S. PABLO Parroquia de San Ignacio

EL BESO DE JUDAS Igl. de Santiago

SANTA GENOVEVA Parr. de Santa Genoveva

SANTA MARTA Parr. de San Andrés

SAN GONZALO Parr. San Gonzalo

VERA-CRUZ Igl. Dulce N. de Jesús

LAS PENAS DE SAN VICENTE Parr. San Vicente

LAS AGUAS Cap. Rosario (Dos de Mayo)

EL MUSEO

images

Uma saudade imensa e a sensação de que um dia, quem sabe, poderei voltar e desfrutar de outros cinco dias mais que abençoados…

Voltar

Ando com vontade de voltar. Não sei pra onde… Não sei como… Tenho pálida ideia do porquê… Mas voltar… Será da idade? Pelo sim, pelo não, como foi o Gerson que me apresentou esta música por primeira vez, vai a homenagem pra ele, que está voltando da terrinha…