Para romance 3 – Razões

“Encontrei a razão e o motivo para escrever. Ele é alto, muito alto. Cabelos avermelhados, arrepanhados num rabo de cavalo muito bem preso. O resto recortado e grande, emoldurado por dois olhos cor de avelã e a boca, carnuda e vermelha. Malares proeminentes completam o quadro viril que vai ostentado por uma musculatura bem definida e forte, sem exagero. Veste-se de maneira comum, sem estereótipos ou gestos estudados. A primeira impressão é de força e poder. Mãos grandes, pernas possantes, costas largas e voz doce. Contrastes… Escreveu durante os anos de convivência com Daniel os seus seis cadernos. Jamais se tocaram. Quando Daniel chegou, ele serviu-se de mais chá e retomou a escrita. Onze anos haviam se passado e muita coisa mudou. Os cadernos meticulosamente guardados, ostentavam numeração seguida. O quatro era o mais volumoso, mas o sexto parecia conter informações mais consistentes. Não sei exatamente de onde tirei essa ideia. Talvez, depois da conversa com Daniel, esse insight tenha acontecido. Samuel era russo de origem e viveu muito tempo sob o sol da Toscana, onde conheceu Vera, com quem quase se casou. Ali começaram as especulações dos outros editores. Daniel me conta que Samuel o amava “à distância”. Isso não era amor platônico. Misto de respeito, medo e insegurança, Samuel não sabia outro modo de se fazer feliz a não ser sendo o arrimo de Daniel. A rima, nos nomes, ajudava a composição quase melancólica da história de amor que os dois viveram. Sem sexo, sem ciúmes, sem planos. Os anos passarm entre as viagens à Itália, na vindima; à Grécia depois do verão, e à América do Sul, para o negócio do vinho. Sempre juntos. A investigação policial que se espraiou sobre aqueles meses de tormento, explica a ausência às duas últimas apresentações do grupo de teatro de que tanto gostavam. Interessaava-me mais ler os cadernos. Samuel conheceu o detetive por conta de um rapaz português que se apresentou à cafetina, gerente de um bar sórdido, perto da estação ferroviária. O “alfacinha” vinha atrás do tal cantor de fado que desaparecera. Ele disse ter chegado da América do Norte, depois de passar boa parte da juventude trabalhando numa casa de campo, no norte de Portugal. Contou uma história esquisita sobre a família, masi esquisita ainda, com quem passou os últimos quatro anos. O cantor de fado não me interessa. A história do rapaz português também não. Os outros editores se ocupariam disso, com prazer. Estava interessado nos cadernos de Samuel. Isso é que me ocupava o pensamento enquanto andava na direção da estação de trem.

Personagens de um romance bem escrito, Daniel e Samuel, a cafetina, o cantor de fado, o rapaz português e o detetive, o grupo formava o dramatis personae de uma história que eu gostaria de ter escrito. Só de pensar na descrição de Samuel, ficava excitado. Fantasias se alimentavam das palavras do livro que a cada página fascinava mais e mais. Um livro que se diferenciava de últimos que tinha lido. Uma história bem contada, bem escrita, sem a preocupação de “inventar moda”. Uma história bem contada. Trama bem urdida que excitava e consumia a atenção, fascinando a mente na busca de continuar seguindo as linhas como pistas para solução de um enigma. Mas não havia enigma. Havia Samuel e seus seis cadernos: esse era o enigma, se assim se pode dizer. Cada página do livro fazia com que aumentasse a curiosidade pelo que poderia vir a ser o outro livro: o que nasceria da edição dos cadernos. Olhar para os cadernos era um exercício diário de prazer: como sonhar com Samuel. Tentar estabelecer contato com essa possante mão de homem russo, a escorregar entre as pernas, num aperto sôfrego que fazia tremer. O prazer era muito grande. Só as muitas páginas de um livro, talvez, fossem capazes de estabelecer uma descrição condigna. Páginas de um livro. Esse era o universo do tormento de Samuel. E eu, no rastro de sombra que esse homem deixava atrás de si, seguia, melancólico, buscando encontrar fios de meada para começar outra trama. Ele merecia isso. Eu é que não sei se seria capaz de fazê-lo! O fato de ser descrito como russo pouco importava. Mas esse mesmo fato alimentava a fantasia: o mito do homem russo. Cheirava a força e sensualidade, uma sensualidade envolta em neve e peles, no meio do vento frio que agora sopra e faz a janela bater. Virilidade. Bate a janela e levanto os olhos para ver que horas são. Deixo o caderno de número três aberto e vou preparar chá…”

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