Gosto – terceira parte

Quando José Matias recusa casar-se com Elisa depois da morte de Matos Miranda, o narrador confessa, com rara honestidade, sua confusão total e sua inabilidade de encontrar uma explicação psicologicamente válida. Em breve, porém, vence sua perplexidade e declara que o ato de José Matias é devido a um excesso de espiritualismo e ao receio das materiali­dades do casamento e das realidades fortes da vida. Quando, depois do ca­samento de Elisa e Torres Nogueira, Matias não consegue recobrar a subli­me felicidade dos primeiros dez anos de sua paixão, o narrador não vacila em explicar a razão: José Matias vê na mocidade, força e paixão física de Torres Nogueira uma ameaça contra seu ideal espiritual, em contraste com Matos Miranda, figura velha e doente e portanto sem força varonil. Se é verdade, porém, que Torres Nogueira é um distúrbio porque in­troduz um elemento erótico na abstração espiritual que Elisa representa para José Matias, então a situação com o Apontador de Obras Públicas deveria produzir um trauma muito pior. Não obstante, sucede tudo ao contrá­rio. Em vez de hostilidade, José Matias só parece sentir curiosidade e sim­patia. De novo, o narrador está pronto com sua explicação:

Os dois anteriores, o Miranda e o Nogueira, tinham entrado na alcova de Elisa publicamente, pela porta da igreja, e para outros fins humanos além do amor — para possuir um lar, talvez filhos, estabilidade e quietação na vida. Mas este era meramente o amante, que ele nomeara e mantinha só para ser amada: e nessa união não aparecia outro motivo racional senão que os dois cor­pos se unissem. (p. 256)

Primeiro o narrador estabelece uma distinção entre os dois maridos, usan­do como base o poder físico de cada um: Matos Miranda é velho, doente e fraco; Torres Nogueira é o epítome de juventude e força bruta. Agora, po­rém, aparecem aliados em oposição ao Apontador, que assume um papel puramente sexual. Anteriormente, o sofrimento de José Matias fora atri­buído à intromissão do fator sexual. Agora, numa inversão total, o narra­dor decide que José Matias aceita gostosamente a nova situação porque quer que o corpo de Elisa seja tão bem servido como sua alma. São contra­dições que provam a confusão do narrador com respeito ao caráter e à conduta de José Matias. Não o compreende, mas para não desmentir a imensa estima que tem de si mesmo como pensador altamente racional e lógico, vê-se obrigado a fingir uma certeza que em realidade está bem lon­ge de sentir.

Então, porque é que Eça o escolhe como narrador? Porque, por exem­plo, não escreveu como autor onisciente ou usando o ponto de vista de Nicolau da Barca, amigo íntimo de José Matias e portanto possuidor de um conhecimento mais profundo do protagonista? A conclusão plausível é a de que Eça não quis oferecer uma revelação mais penetrante do seu protagonista, e que o narrador serve, em parte, para afastar o leitor de José Matias e, talvez, o autor mesmo de sua criação literária. De fato, a viva personalidade do nar­rador funciona frequentemente como distração, desviando a atenção do lei­tor de maneira que examine menos cuidadosamente as ações de José Ma­tias e aceite como certas as conclusões do narrador. Em realidade, porém, essas conclusões contêm contradições que não são resolvidas e provo­cam perguntas que precisam ser esclarecidas se o conto vai ceder todas as riquezas de sua temática complexa.

Na sua teoria da evolução psicológica das emoções do amor, Sigmund Freud afirma que o instinto do amor é o resultado de um desenvolvi­mento gradual que tem origem na infância. Essa evolução começa quando a criança se dá conta de que existe um mundo alheio, de outros seres, e focaliza seu carinho sobre a mãe. Porque a mãe ama o pai, este se torna não só num ideal que deve ser imitado, como também num rival que ins­pira ciúmes e hostilidade. Estas atitudes mudam devido à educação e à bar­reiras impostas pela sociedade, e, gradualmente, o objeto original de amor é substituído pela irmã e depois por outras mulheres parecidas com a mãe e com a irmã. Com a transferência do afeto a evolução normal fica com­pleta. Quando, porém, algum estorvo interrompe esta progressão natural, o resultado é uma desordem erótica que emerge mais tarde, na pessoa já adulta, como no caso de José Matias, que ilustra manifestações neuróticas características de impotência psíquica. Esta condição anormal é definida por Freud como a dissociação das duas correntes da emoção erótica – a ternura e a sexualidade. O homem, que oculta na subconsciência um amor incestuoso e portanto proibido, não pode ter uma relação completa com ne­nhuma mulher digna de respeito porque com esse tipo de mulher só é ca­paz de expressar sentimentos de ternura. A relação fica eroticamente Ine­ficaz, sem o estímulo sexual que o completaria.

Não é preciso salientar as manifestações de semelhante desligamento no amor de José Matias por Elisa. Os diversos exemplos, ao discutir o tema do amor cortês, estão aí! O amor de José Matias é “pura adoração”, “transcendentalmente desmaterializado”. Para o narrador, o amor platônico de Matias prova que ele é “desvairadamente espiritualista”. Para Freud, seria uma manifestação da resposta emocional restrita que Elisa inspira nele devido a sua neurose. Como ela é uma substituta pelo objeto de amor inces­tuoso reprimido, a satisfação sexual é impossível. Puxado por um amor pu­ro e um amor carnal, José Matias tem que procurar um objeto sexual me­nos estimável para satisfazer os impulsos sensuais que não pode expressar com a mulher amada. Durante o casamento de Elisa e Torres Nogueira, José Matias leva uma vida dissoluta, não só porque é uma maneira de fugir, mas porque assim afirma sua natureza física. Num ato culminante de abandono, ele aparece numa cena curiosa, à frente de um grupo de mulheres com quem não sente nenhuma inibição erótica:

Uma ceia oferecida a trinta ou quarenta mulheres das mais tor­pes e das mais sujas, apanhadas pelas negras vielas do Bairro Alto e da Mouraria, que depois mandou montar em burros, e gravemente, melancolicamente, posto na frente, sobre um grande cavalo branco, com um imenso chicote, conduziu aos altos da Graça, para saudar a aparição do Sol! (p. 248)

Matias conduz as mulheres à colina onde fica a Igreja da Braça, num ato sim­bólico que deverá reconciliar sua natureza dividida. Mas o gesto fracassa. Nas palavras do narrador, “todo este alarido não lhe dissipou a dor”. Também não o ajudou a estabelecer uma relação normal com Elisa.

Freud também fala das condições subconscientes que determinam a es­colha da amada. A condição mais Importante exige a presença de um par­ticipante ofendido. A mulher substitui a mãe, e o partícipe ofendido representa o pai. É evidente que Matos Miranda é um modelo pa­terno. O narrador fala da vida resguardada de Elisa “por imposição paternal do marido” e, em outro lugar, menciona o “regime paternal do Matos Mi­randa”. Torres Nogueira também representa a figura do pai, mas ao con­trário de Matos Miranda que a velhice elimina como ameaça, Torres No­gueira exemplifica o pai novo e viril, rival pelo afeto da mãe. É também o ideal que o filho tenta imitar. Estas fantasias da subconsciência explicam o sofrimento de José Matias durante os anos do segundo casamento de Elisa. Ele compreende que não pode competir com Torres Nogueira, o ho­mem completo que oferece a Elisa o elemento sexual do amor que ele não lhe pode dar. Torres Nogueira força José Matias a dar-se conta de sua insuficiência, e a confrontação com essa realidade o devasta. Ele se vê, co­mo devia ser, em Torres Nogueira. Realmente os dois homens só se dife­renciam na cor dos cabelos: José Matias é louro e Torres Nogueira é moreno, um recurso literário bem convencional que Eça emprega frequentemente nas suas obras para contrastar o predomínio de aspectos físicos ou espirituais nas perso­nagens. Do resto, José Matias e Torres Nogueira são reflexos um do outro em tudo, tanto em caráter como em posição social. Ainda que se já possível perceber, implícita, certa oposição, de ordem comportamental, entre eles.

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