Um livro

Escrevi um livro. Depois de escrito, ficou quase dois anos esperando meu ânimo se manifestar para fazer uma revisão, organizar o texto, editar e publicar. Quase não sai… Finalmente, no ano passado, no finalzinho do ano, o dito cujo saiu da gráfica. O segundo livro de ficção. O segundo escrito de próprio punho. O quarto, contando com os dois volumes que organizei… Meu desejo pede mais. Antes, porém, uma palavrinha. Divirto-me com algumas observações que sempre caem na mesma vala: a da impressão do escrito como fruto do vivido. Há sempre uma sombra de dúvida quanto a isso, mesmo quando se trata da obra de “grandes” escritores (ai como não suporto esta expressão). De qualquer maneira, é divertido!

Se é um livro, se o escrevi e publiquei, se o apresentei a um possível público leitor, sou obrigado a esperar todo e qualquer tio de reação, mesmo que silenciosa… De um jeito ou de outro, fiquei surpreso como uma série de comentários (os que seguem), feitos por um primo. Mensagem inesperada, surpresa mais que agradável e uma sensação de gratificação incomensurável. Como não pedi permissão a ela para publicar o que ele escreveu, não cito seu nome, mas coloco a série de “aforismos” que ele produziu a partir da leitura de meu livro… Evoé!

Será que todo escritor experimenta o que estou a experimentar agora?

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O cenário: é uma mistura de residências e escritórios com seus núcleos, delimitados por duas artérias urbanas ou avenidas, reunidos no espaço e no tempo num endereço MAKANČEVA, 14 na cidade de Zagreb capital da Croácia.

O assunto: encontro do vivido com o concebido e atividades docentes numa universidade.

A Trajetória: é uma viagem de sonhos e realizações – ficção e realidade, que as palavras têm dificuldades em traduzir.

Pela sua narração lembro-me de um diálogo entre Sócrates e Fedro, que Paul Valery estabeleceu em Eupalinos ou O Arquiteto, referente à casa ou “o endereço” que é o “corpo do homem” à medida que oferece verdadeiras referências.

Eupalinos em um passado distante, indica como a construção se impregna de experiência pessoal e emoções.

“Escuta, Fedro e olha este pequeno templo que construí para morada de Hermes(…) se soubesse o que significa para mim! Onde o passante só vê uma elegante capela, quatro colunas muito simples, imprimi nela a lembrança de um claro dia de minha vida(…) Este templo, ninguém o sabe, é a imagem matemática de uma jovem de Corinto que, por felicidade amei.”

Realmente não podemos saber o que você sente pelo Endereço descrito, apenas o seu belo relato.

Há uma ruptura temporal que desliga do presente para voltar ao passado. Um passado que está tão presente. O Endereço parece transformar-se num modo privilegiado de pensar e agir.

Os tempos e temporalidades são progressivamente mais espaciais. É a convocação de um espaço que confere uma materialidade própria às relações que nele tem lugar.

A sucessão de tempos é também uma sucessão de espaços percorridos deixando marcas.

Segundo Martin Heidegger, o tempo não é originalmente uma entidade fora do Homem.

O seu espaço ou endereço, não é composto apenas de palavras e números, localizável pelos moderníssimos GPS – pois envolve sentimentos. Deixou-se de ser geográfico (físico) e passou a ser simbólico, concretizando uma travessia para uma função sócio cultural, focalizada num percurso.

O tempo deixou de ser físico, matemático, para ser tempo de duração proposto por Henri Bergson. O tempo real ou de duração é imediatamente percebido na intuição da vida interior, é continuidade. É em si “memória” que prolonga o antes no depois. É essa consciência de duração que se confunde com a memória – tempo passado/ tempo presente.

Os poemas constituem parte importante, onde as chuvas caem suaves através das palavras.

Nas resenhas, destacamos Fernando Baéz, que apresenta um foco que muito nos preocupa. O avanço das tecnologias digitais de informação e comunicação – TIDICs, onde a velocidade dos fatos afasta o pensamento e destrói as palavras.

Nas crônicas e nas notas pessoais, residem aspectos importantes:

A descrição da atitude da Igreja tradicional, representada pelo bispo de Olinda, não é religião e sim uma forma de impor poder e contradiz o que o atual Papa Francisco, Bispo de Roma, quer para a humanidade e para a Igreja que preside.

Destacamos o lapso que foi criado pela página perdida.

As incertezas de Setembro, onde a poeira ainda não baixou totalmente, numa mistura de poder, liberdade, democracia e sequelas de guerra. Tudo isso num caldeirão de MacBeth, de bruxas, numa tragédia Shakespeariana, sob o olhar tenebroso de Collor de Mello ou “Colera brasilis”.

Depois da moça dos Balcãs e das curtíssimas, no bom sentido, depois do RAP neutralizado pela Debbie Harry vem o bom relato Coda que fecha os habitats com os hábitos.

Há uma entidade reflexiva sobre o Ethos, a morada de nós mesmos. O encontro consigo mesmo.

Habitus x Habitat – Habitus definido como princípio gerador e unificador de condutos e opiniões. São estruturas, estruturantes como sistema de “disposições duráveis” que é apreendido ao longo de uma história. Significa que atitudes e inclinações: a perceber, a sentir, a fazer e a pensar, se tornam uma maneira de ser e são interiorizadas a partir de experiência passada. É um encontro consigo mesmo. É a fantasia com foco de realidade.

A pessoa só se entende se estiver dentro dela mesma. Só entende o mundo se estiver dentro do mesmo. Aqui reside o sentido de nossa existência. É importante incorporar a partilha que pode ser coroada com a solidariedade e o respeito à diversidade.

Há ainda um posfácio (em inglês) que reúne conceitos, preconceitos e as incertezas contemporâneas.

A concepção de linguagem discursiva foi usada em determinado tempo e espaço. Segundo Pierre Bourdieu

“É o estabelecimento de uma relação com o mundo e com o outro e também parte do conjunto das práticas sociais de produção e perpetuação de valores simbólicos.”

O construir, como no diálogo de Eupalinos, à maneira de Platão, é o mais completo de todos os atos, pois exige amor, meditação, “obediência ao mais belo pensamento”. Assim você construiu o seu livro, um endereço que guarda a magia do mistério.

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4 comentários sobre “Um livro

  1. Muito bom, hein? Houve distanciamento suficiente para fazer uma análise interessantíssima, porque, realmente, Macanceva 14 é mero ponto de partida para uma série de catarses e observações outras. Ele não deve ter acompanhado com tanta frequência seu périplo por Zagreb, como outras pessoas também próximas de você. Fez a leitura do leitor desconhecido, aquele que entra em contato com a obra sem nada saber de antemão. Adorei! Beijinhos, Angel

    1. Pois é, amiga. Nada como a distância e o tempo para refina a acuidade. Além disso, fiquei muito “cheio” com os comentários do primo… Inesperados, de verdade! Estranha experiência esta a de perceber que outrem sentiu-se tocado e articulou pensamentos impensados por mim… Uma revelação! beijinho 😉

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