Três pontos

São apenas três perguntas e três respostas. Sua contundência (como parece ser a nova “moda” em certos círculos) é incontornável! João Adolfo Hansen (JH), no tópico de que trata a entrevista feita com ele pela equipe da Revista de História (RH) é implacável e diz tudo o que eu penso. Mas sou apenas mais um professor numa “universidade” perdida por aí, entre montanhas e matas. Por conta do entrevista perdi um concurso para professor. Bem, não exatamente por conta dele, mas por não ter citado seu nome… Idiossincrasias de bancas que se auto denominam “isentas”. A entrevista, na íntegra, pode ser lida no seguinte endereço: http://rhbn.com.br/secao/entrevista/joao-adolfo-hansen

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RH – Por que a dificuldade em apresentá-lo como autor hoje?

JH – Bom, hoje a cultura é pop, marcada pela indústria de massa. Os jovens, mesmo na universidade, não têm mais essa informação histórica nem esse desempenho da linguagem. Os padrões da língua são extremamente mais complexos do que os atuais. Hoje, os padrões são sintéticos e reduzidos tanto na fala quanto na escrita. Na USP, 15 alunos do 4º ano da graduação vieram me procurar dizendo que não entendiam o que o Gregório de Matos Guerra dizia. Eu respondi: sinto muito, mas isso não é problema do poeta. Se vocês não entendem Gregório, também não entendem Shakespeare, não entendem Cervantes, enfim, não vão entender nada contemporâneo dele. O problema é de vocês, que não entendem a linguagem figurada, a metáfora.

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RH – Por que a universidade não consegue reverter isso?

JH – Na USP, na área do francês, não existem no programa os autores do século XVI e do XVII, apenas XIX e XX. Na área do inglês, não se estuda Shakespeare. Na literatura brasileira, os estudos de colônia foram transformados em disciplina optativa do último ano. Há um consenso em toda universidade de que esses assuntos devem ser excluídos da graduação. Caso alguém queira estudá-los, talvez eles sejam objeto de especialização numa pós-graduação. Em 90% dos casos, a concentração é no século XX. Até o XIX está virando coisa de especialista. A academia se redefiniu em função desses programas de financiamento, dessas agências, e em função de trabalhar com coisas que tenham qualquer apelo comercial, no caso da literatura.

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RH – Como isso acontece, na prática?

JH – Eu te dou um exemplo. Em 1993, o João Alexandre Barbosa, diretor da editora da USP, foi procurado por um professor de História da USP que tinha uma cópia em latim do manuscrito da Chave dos profetas, e queria estudar. E, para isso, precisava traduzir. Fizemos um projeto que envolvia várias universidades e enviamos para a Fapesp [Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo] para conseguir financiamento. O parecer da Fapesp foi negativo, dizendo que Vieira não tinha interesse cultural. Há vinte anos, um parecer como este já evidenciava uma coisa que viraria praxe na universidade. Um aluno que estude latim ou grego na USP vai ter que ler Homero, Píndaro, Sófocles, Virgílio, Cícero. Mas, no caso da literatura brasileira, o que importa é uma ideologia nacionalista das letras.

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